A Barda e a Guerreira
By SOMARQ
DECLARAÇÃO:
Este fanfic foi feito apenas como mero entretenimento, não querendo ferir direitos autorais.
As personagens, Xena e Gabrielle, são marcas registradas da MCA/Universal e Renaissance Pictures, Studios USA, são usadas aqui, sem intenção de infringir as leis de copyright.
Este fanfic, "A BARDA E A GUERREIRA", é o segundo da série de cinco que fiz.
Uma guerreira solitária, duplamente ferida estava na estrada, ainda sem rumo. Tanto o seu orgulho quanto o seu coração, tinham sido atingidos violentamente. Cavalgava com fúria, tentando não pensar. Quando de repente, sentiu que a sua égua refugou.
Desmontou e ao verificar todas as patas, percebeu que faltava uma ferradura. Procurou na bolsa de montaria e não achou. Lembrou que havia uma pequena aldeia perto dali.
- Vamos garota, você agüenta até lá._ disse conduzindo a égua.
Ao entrar na aldeia, torna-se, imediatamente, o alvo de todos os olhares.
- Hei, onde posso encontrar um ferreiro?
Não obteve resposta. Pois, tanto as mulheres quanto os homens, corriam dela.
- Olha, eu só quero saber onde posso encontrar um ferreiro para a minha égua._ disse tentando segurar um homem que escapuliu e entrou correndo num armazém. Foi atrás dele.
Ao entrar, percebeu que, praticamente, toda a cidade estava ali.
- Com licença, minha égua perdeu uma das ferraduras... Alguém aqui é ferreiro?
Outra vez nenhuma resposta. A guerreira percebeu que todos olham para ela com desconfiança e medo.
- O que está acontecendo aqui? Olha, só estou procurando um ferreiro. Mas, se não tiver, quero comprar dois pares de ferraduras, eu mesma posso fazer isso.
- Você é uma guerreira?A guerreira olhou para o lado de onde veio a voz. Era uma jovem camponesa que estava se aproximando dela com um sorriso mais amigável que a guerreira já viu.
- Oi, o meu nome é Gabrielle. Você é guerreira?
- Sim, sou. - disse a guerreira bem próxima a ela.
- Gabrielle! - um homem gritou.
- Aquele é o meu pai. - mostrou Gabrielle, depois se virando para o seu povo, diz: - Vocês não perceberam? Ela é guerreira, talvez possa nos ajudar.
- Gabrielle, esse é um assunto para nós os conselheiros resolvermos e não para uma estranha. - disse um velho, o chefe dos aldeões.A jovem virou-se para a guerreira e pediu:
- Será que você poderia nos ajudar? Ou nos orientar no quê fazer para que a gente possa se defender do Senhor da Guerra Draco.
- Draco?
- Você o conhece?
- Digamos que sim.
- Então poderia nos ajudar?
- O que está acontecendo?
- Ele já saqueou duas aldeias perto daqui. E está vindo para cá.
- Draco não apenas saqueia as aldeias, ele leva as pessoas para o mercado de escravos.
- Então você o conhece mesmo! - disse a jovem admirada.
- Talvez ela seja do exército dele! - gritou um dos colonos.E foi o maior tumulto. Gabrielle ficou na frente da guerreira e levantando as mãos para o seu povo, pediu:
- Calma, gente, calma... Se ela fosse um deles, já estaríamos completamente perdidos.
Todos se acalmaram. Gabrielle pergunta baixinho, quase num cochicho, para a guerreira:
- Vai nos ajudar?
A guerreira balançou a cabeça afirmativamente e perguntou:
- Sabe onde ele se encontra agora?
- Está acampado na beira do rio.
- Mas os seus soldados estão espalhados por aí. - completou o chefe dos aldeões.
- Pois bem, vou atrás dele. - e virando-se para Gabrielle, diz: - E você cuida da minha égua.
- Pode deixar, vou cuidar direitinho. - disse Gabrielle a seguindo.Ao chegar lá fora, a guerreira pressente que há algo errado, manda Gabrielle ficar lá dentro e sai com a espada na mão, dizendo:
- Muito bem, vão ficar aí escondidos?
- Hei, você é Xena? - gritou um guerreiro que saiu detrás de uma das casas e se aproximando diz: - Sou eu Hector, o tenente de Draco.
- Sou. E o que você está fazendo aqui?
- Negócios, Xena, negócios.
- Que eu saiba, esse povo daqui não tem nenhum negócio com Draco ou com você.
- Ah, Xena... você sabe muito bem qual é o negócio de Draco.
- Continua com o tráfico de escravos?
- Mas é claro! Principalmente agora que os egípcios entraram para o leilão. Eles pagam bem.
- Faz o seguinte: reúna seus homens e fora daqui.
- Mas, Xena...
- Não vou repetir. - avisou Xena mostrando aborrecimento e levantando novamente a espada.
- Está bem, não queremos confusão com você. Com o que temos vai dar pra garantir um bom lucro. - disse o guerreiro cumprimentando Xena com um aceno de mão e, antes de se retirar, avisa: - Ah, a propósito Xena, você sabia que Mezentius invadiu a sua cidade? Matou o regente e tomou o palácio dele?
- O quê?!
- Agora, se você quiser encontrar Mezentius, ele vai estar daqui a pouco no porto, vai pro leilão comprar escravos.Após, Hector se retirar com os seus homens, Xena chega na porta do armazém, onde é saudada pelos aldeões. Ela agradece e pede pra Gabrielle:
- Leve-me até o ferreiro.
- Timotheo! - chamou a garota e, quando o homem se aproxima, diz: - Xena precisa dos seus serviços.Depois de verificar a pata traseira da égua, o ferreiro avisa:
- A pata está um pouco ferida, coloquei umas ervas para secar o ferimento. Mas, só amanhã poderei colocar a ferradura. Aliás, vou trocar as outras três. É por conta da casa.
Percebendo que, mesmo assim, a guerreira ficara irritada, a garota diz:
- O nosso cavalo está aqui, se você quiser emprestado... E eu levo o seu para o nosso celeiro que é logo ali no final da aldeia. Pode deixar que eu cuido bem dela.
Xena agradeceu, pegou o cavalo da garota e saiu a todo galope.
Gabrielle levou Argo pro celeiro de sua casa e lá cuidou da belíssima égua dourada.
- Uau! Argo... como você é bonita! Que pêlo, hein?... - disse escovando a longa crina.
Gabrielle pega a sela e a coloca em cima de um tronco. Depois de limpá-la, volta-se para Argo e diz:
- Fiz o trabalho completo, cuidei de você, te dei banho, escovei... e limpei a sela para ela. Você deve estar com fome, não é? - Argo relincha balançando a cabeça. Gabrielle ri e diz: - Menina esperta... vou trazer uma comidinha saudável pra você. Mas, enquanto isso, beba a água, está fresquinha.
Enquanto dava cenouras, nabos e maçãs para a égua, Gabrielle lhe confidencia:
- Sabe Argo, eu gostaria de ver sua dona em ação. Fiquei impressionada com o jeito dela em lidar com aquele guerreiro, ele parecia ter medo dela.
Já havia anoitecido, porém Gabrielle continuava sentada no chão do estábulo, debruçada num pergaminho.
- Pelos os meus cálculos, devo chegar lá em vinte dias. E, se eu conseguir carona, acho que em quinze dias chego lá. O que você acha, Argo?
- Aonde você vai?Gabrielle vira a cabeça para o lado e sorri surpresa, era Xena que estava entrando, conduzindo o cavalo.
A guerreira se aproxima e vê o mapa dos territórios grego.
- O que é que você pretende com isso?
- Estava procurando o caminho mais curto para Atenas.
- Para Atenas? E o que você vai fazer em Atenas?
- Eu vou para a Academia.
- Que academia?
- A Academia de Formação de Bardos da Cidade de Atenas. - disse Gabrielle com a voz e os olhos brilhando de orgulho.
- Ora, veja só... Então quer se tornar numa barda?
- É o que eu mais quero.
- É por isso que estava consultando o mapa?
- Claro. Como eu disse, estou procurando o caminho mais curto.
- O caminho mais curto é pelo mar.
- Não, pelo mar não. Quero ir por terra. Fiz uns cálculos: seguindo pelo litoral, passando por Olinto, Pele...
- Você vai dar essa volta toda para ir para Atenas?
- É o único jeito de ir andando que conheço.
- Quem vai com você?
- Vou sozinha.
- Você deve estar brincando...
- Não costumo brincar com uma coisa que é muito séria para mim.
- E o seu pai, vai deixar você viajar sozinha?
- Ele não acredita que estou falando sério. Ele acha que, uma noite fora de casa, no outro dia volto correndo.Xena se agacha na frente dela e apontando no mapa diz:
- Gabrielle, daqui de Poteidaia até Atenas a pé, são quase três meses, isso se não houver contratempo pelo caminho.
- Isso tudo! Mas se eu andar depressa, só parar para dormir?
- Você não vai agüentar o ritmo, aí que não chega lá.
- E se eu conseguisse um cavalo? Já que esse aí é do meu pai.
- Nem assim. O cavalo não resistiria a pressão, com certeza morreria. Isso se alguém na estrada não o tomasse de você.Gabrielle fica sem reação, abaixa os olhos.
Percebendo a tristeza que se abateu na garota, Xena pergunta:
- Quando é que você tem que se apresentar lá?
- Até o final da primeira semana do mês que vem. - respondeu com voz chorosa.
- Deixe-me ver... - disse Xena pensativa, depois conclui: - Temos exatos, a contar de amanhã, vinte e cinco dias.
- Temos?! - diz Gabrielle olhando-a espantada.
- Eu a levo. Não vou deixar você se arriscar por aí sozinha...Não acabou de concluir o que estava dizendo, pois caíra no chão com a garota em cima dela, chorando e sorrindo ao mesmo tempo.
Enquanto Gabrielle correu para avisar a sua mãe e a sua irmã, Xena, ainda espantada com a tamanha demonstração de alegria da garota, olha admirada para Argo e diz:
- Garota, nunca te vi assim!... Tratamento de princesa, hein?
A égua relinchou concordando.
Momentos depois, ao chegar na porta do celeiro, Xena percebe que, o pai de Gabrielle, saiu da casa batendo a porta e foi em direção à cidade. Logo após, Gabrielle veio chamá-la para jantar.
- O seu pai saiu chateado por minha causa?
- Não, foi por minha causa. Desde que recebi o comunicado da Academia que ele não fala comigo direito. E depois então que eu...
- Que você o quê?
- Que eu terminei o noivado com Perdicas, por causa da Academia.
- Seu noivo não quis que você estudasse?
- Foi, ele pensa igual ao meu pai. Por isso que eles se dão tão bem.
- E a sua mãe e a sua irmã?
- Ah, elas estão orgulhosas porque eu consegui a vaga na Academia. Mas... vamos jantar? Você deve estar com fome, não é mesmo?
- Pode apostar.Xena foi muito bem recebida pela mãe e pela irmã de Gabrielle que agradeceram-na por levar Gabrielle para Atenas.
Após o jantar, Hecuba se aproximou da filha com um pequeno saco de couro nas mãos e ao estender a ela, diz:
- Filha, eu tenho guardado essas economias pro seu casamento. Mas, como você preferiu estudar, isso aqui deve ajudar em qualquer eventualidade que você tiver.
- Oh, mãe... não precisava. Eu juntei alguns dinares com a venda do meu enxoval.
- E eu comprei esta bolsa pra você colocar suas coisas para a viagem. - disse Lila chorando e entregando o presente à irmã.Ao ver as três chorando, Xena sai sem fazer barulho, era demais para ela. Foi até o celeiro. Despiu a armadura e quando estava descalçando as botas, Gabrielle chega.
- Venha, Xena, você vai dormir lá no quarto com a gente.
- Não, obrigada. Prefiro dormir aqui. Pois vou levantar muito cedo e preparar tudo para a nossa viagem. Depois, bato na sua janela pra te acordar. Mas, agora, gostaria de tomar um banho.
- Ah, Xena perdoe a minha falta de hospitalidade. Preocupada com o que levar na viagem, não estou tratando bem de você.Gabrielle conduziu Xena para detrás da casa, onde ficava o reservado - um pequeno cômodo, de onde de cima do telhado havia uma enorme tina de madeira com tampa e cheia de água. Dela descia um cano de bambu ligado a uma torneira que era aberta somente para o banho. Numa outra porta, ao lado, ficava o banco sanitário.
Depois de um refrescante banho, Xena voltou pro celeiro e encontrou Gabrielle arrumando o local onde ela irá dormir.
- Não precisava. Eu me ajeito com a minha manta em qualquer lugar. Ah, foi bom falar nisso. Você tem que levar uma manta e um cobertor também.
- Eu já coloquei os dois na bolsa. Sabe Xena, não sei se conseguirei dormir hoje... Eu nunca viajei, nunca sai daqui de Poteidaia.
- Ainda está em tempo de desistir.
- Nunca. É o meu sonho, Xena. Você desistiria de um sonho?
- Não tenho mais sonhos.
- Por quê?
- Porque eu vejo a vida do jeito que ela é. Mas agora vá dormir Gabrielle, amanhã vai ser um longo dia.O galo ainda não havia cantado e a guerreira já estava de pé. Quando, o galo finalmente cantou, Xena estava atrelando Argo na frente da varanda da casa.
- Bom dia. - disse Gabrielle ao abrir a porta com a bolsa na mão.
- Bom dia, nem precisei te acordar. - disse Xena fechando a bolsa de montaria.
- Pra dizer a verdade, quase não dormir. Me belisquei tanto pra ver se era mesmo verdade, que até estou com o braço doendo.Xena balançou a cabeça e fez ar de que, aquela garota, não tinha jeito mesmo.
- Venha, vamos comer alguma coisa antes de sair. - disse a garota intimidada com a aquela expressão da guerreira.
Xena estava achando a garota engraçada, pressentia que a viagem ia ser agradável.
Depois do inevitável choro de despedida, finalmente, elas estavam na estrada.
- Para onde vamos? - perguntou Gabrielle tentando acompanhar os passos de Xena.
- Para a primeira etapa da viagem.
- E qual é?Xena parou, montou em Argo e estendendo a mão pra Gabrielle, disse:
- Venha, suba. Temos que chegar lá antes do meio dia.
Gabrielle, após se ajeitar atrás de Xena, pergunta:
- Lá onde?
- Você vai ver. Vamos Argo!Ao chegar no porto.
- Não Xena... de barco não! - implorou Gabrielle apertando a cintura da guerreira.
- É a maneira mais rápida de chegarmos em tempo a Atenas. - disse desmontando e tirando Gabrielle de cima de Argo.
- E Argo?
- Vai com a gente. Ela está acostumada. E essa vai ser uma viagem curta. Porque nenhum, desses barcos, parte para Atenas. Então, iremos para Magnésia, depois vamos cavalgando para Cálcis e de lá pegaremos um barco para Atenas.Gabrielle suspira conformada.
Nem bem o barco saiu do porto e com as oscilações das ondas, Gabrielle começa a ficar pálida. Tentando distraí-la, Xena a convida para visitarem Argo no porão. O que foi pior, pois Gabrielle, devido ao cheiro do lugar, começou a sentir ânsia de vômito. Correu para o estibordo e lá se debruçou no parapeito do barco e vomitou.
Xena se aproxima e, segurando-a pelos ombros, diz:
- Venha, vamos para a nossa cabine. Eu preparei um chá pra você.
No entanto, Gabrielle não conseguiu manter por muito tempo e chá dentro dela.
Vendo a palidez da menina, Xena a coloca sentada na rede e pegando no seu pulso, diz:
- Gabrielle, eu vou aplicar em você um ponto de compressão que irá aliviar o enjôo que você está sentindo.
A princípio, quando Xena aperta o seu pulso pelo lado de dentro, Gabrielle salta um grito de dor e tenta puxar o pulso. Mas Xena mantém o dedo comprimindo o local e em poucos instantes, Gabrielle estava completamente curada.
- Parou! Não sinto mais nada... Isto é fantástico, Xena!
- Vou te ensinar a fazer isso. Mas, você só poderá fazer isso, quando estiver sentindo enjôo e não pode ficar comprimindo o pulso por muito tempo, por causa do efeito colateral.
- Efeito colateral, como assim?
- O efeito é conforme a pessoa.
- Você teve isso?
- Tive. Senti uma vontade imensa de socar alguém.Gabrielle arregalou os olhos. Percebendo o espanto da garota, Xena avisa:
- Por isso, todo cuidado é pouco. Não quero que você tenha um outro problema por causa disso.
A maior parte da viagem, Gabrielle passou ouvindo as aventuras de Xena, que ela fez questão de conhecer e depois as transcrevia para os pergaminhos. Muitas das histórias vividas pela guerreira deixavam-na atônita e fascinada. Às vezes, Xena não queria mais continuar contando as suas histórias, mas Gabrielle pedia, implorava e insistia tanto que, ela pra se livrar daquela choramingueira, acabava fazendo o que aquela pequena barda queria. Xena não se lembrava, de alguma vez, de ter sido tão falante como estava sendo com aquela garota. E, durante as noites naqueles dias no barco, Gabrielle contava histórias para a tripulação e passageiros. Xena percebeu que toda noite, todos esperavam ansiosos para ouvir as histórias que aquela jovem barda tinha para contar.
Uma noite, antes de dormir, Xena que estava deitada na sua rede ao lado da rede de Gabrielle, comenta:- Não sei se você percebeu, Gabrielle, mas você já é uma barda.
- Não, eu sou apenas uma contadora de histórias.
- E qual é a diferença?
- A diferença é que eu quero me comportar como uma verdadeira barda. Não apenas contar histórias, quero poder recitá-las como um trovador e também desenvolver o meu vaticínio.
- Vaticínio? - perguntou Xena sentando-se na rede com um ar um tanto preocupada.
- Eu nasci com esse dom, Xena. - disse Gabrielle sentando-se na rede de frente para ela e conclui: Gostaria de poder de desenvolver isso.
- Vaticínio é profetizar, é isso?
- É isso mesmo.
- E você tem isso? - perguntou deixando passar uma certa incredulidade.
- Eu previ a sua chegada. Eu sabia que se fosse aceita pela Academia, alguém ia chegar e me salvar. E eu não estou me referindo a vida infeliz que eu ia ter, sem poder ser o que tanto sonhei.Xena estava surpresa ouvindo aquela jovem garota. Pergunta:
- E por que você acha que esse alguém sou eu?
- Assim que a vi, que você entrou naquele armazém, algo dentro de mim disse "é ela".
- Ah, então naquela tarde quando cheguei no celeiro... tudo ali foi premeditado?
- Oh, não, pelos deuses! Eu, realmente, estava estudando o mapa, como fazia todas as tardes. A minha intenção era mostrá-lo para você, para que orientasse a minha viagem. Eu estava determinada mesmo, viajaria de qualquer maneira, tinha que tentar. Quando você disse que me levaria, aí então tive a certeza que não era apenas uma sonhadora e sim uma vate. Eu preciso desenvolver esse dom.
- E você acha que, lá na Academia, é o lugar certo para isso?
- É, sim. Pois será no convívio com os professores, poetas, profetas, que eu quero encontrar a minha meta, o meu rumo.
- Então você já achou o seu caminho. - não foi bem uma pergunta que Xena fizera, foi uma constatação.
- Acho que sim.
- Como acha?! Você não está indo atrás do seu ideal?
- Eu estou indo atrás de alguma coisa. O que eu não podia é ficar parada, aceitar um destino sem ter a chance de escolher. Mas de uma coisa eu tenho certeza, eu não pertenço a aquele lugar, a aquela vida.Xena percebeu que aquela pequena barda, não era uma camponesa como outra qualquer.
Dias depois.
Assim que o barco aportou em Magnésia, elas foram fazer umas compras no pequeno mercado. E, foi aí que Xena percebeu que Gabrielle era também uma excelente pechinchadora.
- Xena, você não pode aceitar o preço que eles pedem. Tem que primeiro, avaliar a mercadoria e depois fazer uma contraproposta ao preço deles. - disse Gabrielle pegando a bolsinha de dinares da mão de Xena e colocando dentro os dois dinares dos cinco dinares que a guerreira havia dado ao comerciante pelas frutas.
Xena, então, deixou que ela fizesse o resto das compras. Por último, pararam em frente de uma casa, onde Xena diz:
- Esta é uma das melhores casas de armas que conheço.
Gabrielle a olha espantada e diz:
- Para quê você vai querer mais uma arma? Não acha que está suficientemente armada?
- Mas não é para mim.
- Para quem?
- Pra você.
- Pra mim?! Você vai comprar uma espada pra mim?Xena puxa Gabrielle pelo braço, antes que ela começasse a fazer mais perguntas. Amarra as rédeas de Argo na varanda e entram na casa.
Gabrielle fica muda de espanto ao ver a quantidade e vários tipos de armas. E, enquanto ela experimentava todos os tipos e tamanhos de espadas, Xena foi direto ao local certo e depois de escolher, chama a garota.
- Isto aqui é perfeito pra você.
Gabrielle ao pegar da mão da guerreira, diz decepcionada:
- Pensei que você fosse me dar uma arma. Isto aqui é um cajado!
- Uma poderosa arma disfarçada.
- Não sei no quê "isto" poderia ser uma arma poderosa._ falou olhando desanimada pro cajado.
- Você vai ver. Lá fora vou te mostrar como usar.Nem bem as duas saíram da casa e iam em direção a uma taberna, quando dois homens bêbedos barram o caminho de Xena dizendo:
- Hum... Mas que bela guerreira!... Adoro mulher guerreira. E você?
- Eu... Eu gosto mais se for Amazonas. A sua amiguinha aí é Amazonas?Xena tenta ignorá-los, desviando o caminho. Mas um deles tenta segurar no braço de Gabrielle. Num piscar de olhos, ela toma o cajado da mão de Gabrielle e o desfere nas juntas das pernas dele e em seguida, o mesmo golpe no outro homem. Depois entrega o cajado a Gabrielle, que ainda estava impressionada pelo o que acabara de ver, dizendo:
- Guerreira... Amazonas... Eles nem sabem diferenciar. Bêbedos estúpidos!
Já dentro da taberna, sentada num canto, Gabrielle diz:
- Você vai mesmo me ensinar a usá-lo?
- Ah, então se convenceu!
- Adorei. Ele é tão leve e tão poderoso!
- Ótimo. Eu não vou só te ensinar a se defender, mas, também, vou ensinar a lutar com ele. Não quero que você fique desprotegida quando eu não estiver ao seu lado.
- Xena, você é... você é...
- Gabrielle! Fale baixo. - disse olhando para os lados.
- Mas... você é incrível!- disse num sussurro.
- Tá, mas incrível mesmo é este carneiro assado com batatas e cenouras.
- Humm... - exclamou Gabrielle arregalando os olhos e lambendo os lábios à travessa que fora colocada à mesa.Após o almoço, elas saem da cidade e vão pela estrada andando.
- Agora nós vamos para onde: Eubéia?
- Não, vamos direto para Pagasai e pernoitar por lá. Continuaremos a viagem pela manhã e em dois dias chegaremos em Eubéia. - disse Xena observando como Gabrielle admirava o cajado.Numa determinada parte da caminhada, Xena monta em Argo e ajuda a Gabrielle a montar atrás.
- Vamos, Argo. Temos que chegar no lago antes que anoiteça.
- A gente vai dormir lá? Pensei que fossemos dormir na cidade... - disse Gabrielle segurando o cajado com a mão esquerda e abraçando a cintura de Xena com a outra mão.
- Pagasai não é uma cidade, é um vilarejo e fica mais perto da montanha. Por isso é que iremos acampar próxima a estrada, para não perdermos tempo. Além disso, lá é mais seguro.Antes do entardecer, elas chegam no lugar almejado. Xena escolhe um local perto de uma pedreira, quase à beira do lago.
- Aqui está ótimo. Você já pode ajeitar as nossas coisas por aqui, que eu vou desatrelar Argo. Depois vou catar alguns gravetos para fazer uma fogueira.
- Deixe que eu cuide de Argo._ disse Gabrielle colocando as duas bolsas e as mantas num canto.
- Está bem. Então eu vou providenciar a fogueira, antes que escureça.
- Não vai ficar totalmente escuro essa noite. É noite de lua cheia.Xena olha para o céu e percebe que Gabrielle tinha razão.
Depois de acender a fogueira esfregando as duas pedras especiais que ela trazia sempre consigo, Xena repara que Argo parece feliz com o carinho de Gabrielle, que lhe havia dado um banho, secado, escovado e agora a estava alimentando com pedaços de cenouras e nabos. Xena riu quando Gabrielle deu um beijo em Argo antes de se afastar.
- O que vamos fazer agora, preparar o jantar? - perguntou ao sentar-se num pedaço de tronco ao lado da guerreira.
- Estava pensando em me refrescar primeiro. Depois esquentaremos a comida que trouxemos. Que tal, vamos?
- Agora de noite? Aonde?
- Por que o espanto? A água está bem ali a nossa frente.
- É que... eu nunca me banhei num rio a noite.
- Gabrielle, isso não é um rio, é um pequeno lago e não tem nenhum perigo, nem peixe tem. Se você quiser vir, tudo bem. Mas, não sabe o que vai perder. - disse já tirando a armadura, depois de ter tirado as botas.
- Está bem. Espera que eu irei com você. - disse Gabrielle tirando as botas. Porém, quando ia se levantando, cai sentada de novo. Pois, repentinamente, vira a guerreira totalmente nua a sua frente.
- O que foi? - perguntou Xena olhando para os lados desconfiada.
- Nada... escorreguei. - inventou Gabrielle com um sorriso patético, para que Xena não percebesse que ela havia se espantado com a nudez dela.
- Como é que é, não vai tirar a roupa?
- Ahn... claro, claro. - disse se levantando.Primeiro Gabrielle tirou o pequeno casaco azul, desamarrou o cinto de pano, depois a longa saia marrom e, finalmente, a blusa clara.
- Pronto. Podemos ir.
- Como... você vai assim? - perguntou Xena.
- Não posso me banhar assim? - perguntou Gabrielle olhando pra sua própria roupa de baixo, de cor rosada.Xena se aproximou e num instante suspendeu e tirou a roupa do corpo da garota. Imediatamente, Gabrielle cobriu com um braço o peito, pois a guerreira a havia puxado pelo outro braço dizendo, após olhá-la rapidamente:
- Se quiser ficar de calça, tudo bem. Vamos.
A água estava refrescante e elas aproveitaram para ficar por ali um bom tempo.
- Eu não agüentava mais me banhar com a água do mar naquele cubículo. - disse Gabrielle molhando o rosto com as duas mãos.
- É, você tem razão. Mas, no barco, a água é só pra beber e fazer comida. Mas... que cubículo safado é aquele, hein? Eu mal podia me mexer, se o sabão caísse teria que abrir a porta para poder abaixar.Gabrielle começou a rir.
- Está rindo de quê?
- Estou imaginando uma certa guerreira abaixada, com a... a de fora para pegar o sabão. - e não conseguiu se conter de novo.
- Ah, está achando engraçado? E que tal isso? - ao acabar de falar, Xena espirra água com as pontas dos dedos no rosto de Gabrielle, que também revida, começando uma batalha na água.
- Chega Xena, eu me rendo.
- Assim é melhor. Agora vamos sair. Eu estou com muita fome e você?
- Pode apostar. - disse sorrindo e saindo da água atrás da guerreira, com os braços cruzados no tórax, cobrindo os seios.Xena achou engraçado o pudor da garota.
Quando estavam sentadas em frente à fogueira, comendo, Xena diz:
- Não sei como o seu pai, não te proibiu de vir.
- Porque antes ele havia dado a sua palavra de honra.
- Explique isso direito, Gabrielle.
- Ele tinha tanta certeza que eu não conseguiria ir pra Academia, que deu a sua palavra de honra que se eu arranjasse como ir, ele não impediria.
- Mas você me disse que ia viajar sozinha.
- Eu ia fugir. Ele não me deixaria viajar sozinha, mesmo dizendo que uma noite fora de casa eu voltaria correndo.
- Você ia mesmo fugir? - perguntou Xena um pouco incrédula.
- Ia, eu tinha que tentar. Mesmo se a minha previsão não se concretizasse e se você não quisesse me levar.
- O teu pai deve me odiar por isso.
- Não é bem contigo a bronca dele, é com qualquer um que me ajudasse.Xena se levanta dizendo:
- Vou caminhar um pouco, quer vir junto? Faz bem pra digestão. Depois vamos dormir, pois temos que levantar cedo. Como eu disse antes, quero chegar depois de amanhã em Eubéia.
Começaram a caminhar fazendo um semicírculo beirando o lago. Gabrielle, meio tímida, pergunta:
- Posso te fazer uma pergunta?
- Faça.
- Há quanto tempo você está nesta vida? Quero dizer, nesta estrada... Ou melhor, que você é guerreira?Xena olha pra aquela jovem confusa e desconcertada ao seu lado e responde com uma expressão mista de amargura e ironia:
- Quando o meu irmão Lyceus foi assassinado, na época eu tinha a sua idade. O povo todo da minha cidade queria me linchar, me culpavam pela perda dos outros jovens que lutaram ao meu lado. Mas, o pior de tudo foi ser expulsa pela minha mãe que me culpou pela morte de Lyceus. Então cai na estrada. Aumentei meu exército. Saqueávamos por terra e pelo mar. Três anos depois, aos vinte e um anos, eu já era conhecida como a Destruidora de Nações, arrasava tudo e todos que atravessassem no meu caminho. E, nesses dez anos, eu não fui só uma guerreira revoltada, fui além de uma destruidora, de uma criminosa, assassina, fui uma louca sem freios, totalmente desgovernada. Até que conheci Hércules.
- Hércules?! Você conhece Hércules?! - Gabrielle estava admirada.
- Foi ele quem me mostrou um novo caminho a seguir. Que eu relutei em aceitar. Até que um dia percebi que estava agindo da mesma forma que meus inimigos e que já não conseguia mais conter a fúria dos meus homens, que passaram a assassinar mulheres e crianças. Quando fui tentar dar um basta naquilo, era tarde. Eles me expulsaram, fui espancada, mas consegui sobreviver.Percebendo a amargura no rosto da guerreira, Gabrielle pergunta:
- Xena, e a sua família, você não procurou por eles, depois de tudo isso que você passou?
- Fiquei com vergonha que alguém visse o quanto machucada eu estava. Então, depois da surra, fui para uma caverna, um esconderijo e fiquei lá até me recuperar. Assim que me senti melhor, ajustei contas com aquele infeliz que me expulsou. Depois fui para Amphipolis, onde a minha mãe tem uma taberna-hospedaria. Quando cheguei lá, o povo todo se revoltou contra mim, fui hostilizada, quase fui linchada e minha mãe me expulsou de lá novamente. Sai de lá completamente desnorteada. Estava cavalgando sem rumo, quando Argo se machucou e nós fomos para Poteidaia.
- Você não conseguiu conversar nenhum pouco com a sua mãe?
- Ela não quis me ouvir.
- Você não tem irmã, irmão ou algum parente com quem você possa conversar?
- Tenho apenas o meu irmão mais velho, Toris. Que após a morte de Lyceus foi embora. Até hoje não tive notícias dele.
- Se a gente tivesse tempo, eu iria conhecer a sua mãe.
- Por quê?
- Xena, você me leva um dia lá pra sua cidade, para que eu possa conhecer a sua mãe?
- Você não me respondeu por quê?
- Sabe, é que eu gostaria de conversar com ela.
- Sobre o quê?
- Sobre você.
- E você acha que ela iria te escutar?
- Você não está me escutando? Então...Xena parou de andar, colocou as mãos nos quadris e olhando com certo ar de cinismo, balança a cabeça como a dizer que aquela garota não tinha jeito mesmo. Depois diz:
- Venha, vamos dormir. Vamos levantar cedo amanhã.
Xena arruma o seu cobertor perto da fogueira e diz pra Gabrielle escolher um lugar pra colocar o cobertor dela.
- Posso colocar perto do seu?
- Onde você quiser, mas não muito perto da fogueira.Gabrielle estendeu o seu cobertor bem próximo ao de Xena.
De repente um uivo. Gabrielle debruça sobre o ombro de Xena perguntando assustada:- Xena, você ouviu isso?
- Sim, ouvi.
- E o que foi isso?
- Não se preocupe, é apenas um lobo.
- Um lo... lobo?!
- Sim.
- E ele está perto?
- Não se preocupe, pode dormir sossegada.
- Posso dormir aqui com você? - disse encostando o seu cobertor no de Xena.
- Está com medo, não é? Tudo bem pode ficar. - disse Xena achando graça no comportamento, quase infantil, da jovem.Gabrielle, então, se ajeita mais próxima de Xena, ficando quase grudada nas costas da guerreira. Quando ouviu outro uivo agarrou-se nas costas dela, cobrindo a cabeça com a manta. Ao sentir isso, Xena rindo diz:
- Não tenha medo, Gabrielle.
- Aqui, junto de você, eu não tenho não.E na noite seguinte ocorreu a mesma cena. Por isso, Gabrielle agora arrumava o seu cobertor colado no de Xena. A guerreira ainda não estava entendendo porque gostava de ser agarrada, abraçada daquele jeito pela barda toda vez que ela sentia medo e pedia a sua proteção. E, depois, era divertido ver o rosto dela envergonhado por sentir medo. Xena achou que, a tal satisfação que sentia era porque se sentia forte e poderosa perante aquela garota que, além de não saber se defender, era pequena e quase uma menina, às vezes muito assustada. Como ela mesma havia dito que nunca saíra da sua aldeia, não tinha idéia da dimensão de uma estrada, quanto mais de uma viagem como aquela. Nunca chegaria a Atenas sozinha. E, Xena sentia prazer em ajudá-la e protegê-la. Era algo que a guerreira ainda não conseguia explicar para si mesma.
Chegaram em Eubéia antes do anoitecer e foram pernoitar numa hospedaria onde jantaram.
- Você não se importa de ficarmos no mesmo quarto. - Xena não perguntou, apenas disse.
- A gente não tem dividido os nossos cobertores? Então...Xena riu e perguntou:
- Já terminou? Quero só ver em que tipo de quarto teremos que pernoitar.
- Já terminei, sim. Estou com tanto sono que nem ligaria se fosse no chão.Quando entraram no quarto, perceberam que a única cama era muito estreita.
- Bem, vou arrumar o meu cobertor aqui no chão, você fica com a cama. - avisou a guerreira.
- Nada disso. Tem lugar na cama para nós duas. Se até agora nós dividimos os nossos cobertores, por que não a cama?Xena não discutiu e colocou seu cobertor em cima da cama, forrando-a, e as duas mantas pra se cobrirem. Depois descalçou as botas e, antes de tirar o traje de couro, avisou:
- Gabrielle, como nós não estamos ao ar livre, vou dormir mais à vontade. Você deveria fazer o mesmo.
Após tirar o traje e a roupa de baixo, a guerreira deitou-se vestida apenas numa calça mínima, que Gabrielle não pôde esconder o olhar de espanto.
- O que foi? - perguntou a guerreira sem entender.
- Ah... É que eu nunca tinha visto uma... calça assim... igual a essa que você está usando.
- É calça de guerreira. Você não vem dormir?
- Já vou assim que trocar de roupa.Gabrielle sentia-se envergonhada, por isso virou-se de costas para Xena e começou a se despir. Ao tirar a roupa de baixo, colocou depressa a roupa de dormir feita de algodão. A guerreira, ao ver, achou um horror, mas ficou calada, deitada de lado, deixando as costas livres para que a barda pudesse se servir como nas outras noites. Xena já estava se acostumando com isso.
Ao deitar Gabrielle puxa a manta de Xena, cobrindo-a direito e depois, puxa a própria manta e se aconchega nas costas da guerreira, nem se deu conta que não havia perigo ou lobos por perto. Xena riu por ter pensado nisso.
Quando acordou, Xena percebeu que Gabrielle não só a fez de travesseiro, como também a havia escalado, pois a perna esquerda da barda estava em cima das suas. Não pôde deixar de rir e ficou pensando num jeito de sair dali sem acordar a garota. Não havendo outra alternativa, Xena chamou:
- Gabrielle...
- Hum... - respondeu a barda num suave bocejo. Depois, ao abrir os olhos e, percebendo a situação na qual se encontrava, se afasta e diz completamente envergonhada: - Oh, Xena... desculpe... você deve estar toda moída, eu...
- Nem um pouco. Você é muito leve. Eu só te acordei porque temos que levantar, fazer o desjejum e pegar a estrada. Como eu já disse, precisamos chegar amanhã de manhã em Cálcis.Cavalgaram a manhã toda e só pararam para almoçar. Depois seguiram a pé para dar um descanso pra Argo. E voltaram a cavalgar até o final da tarde, onde pararam num lugar tranqüilo e meio escondido.
Após preparar a fogueira, a guerreira lamentou-se por não ter achado um lugar melhor para acampar. Pois ali, nem sequer havia um pequeno riacho por perto. Disse:
- Ainda bem que enchemos os nossos odres.
- Estão todos cheios. Tem água até para Argo. - disse a barda mostrando o odre maior.Depois de arrumar os cobertores e as mantas ali perto, Gabrielle senta-se ao lado de Xena, defronte a fogueira, dizendo:
- Posso te fazer uma pergunta?
- Faça.
- Fiquei esperando você me contar, mas como até agora não disse nada...
- O que é que você quer saber? - Xena perguntou um pouco curiosa.
- Naquele dia em que a gente se conheceu e você levou o meu cavalo emprestado, aonde você foi? Não deve ter ido atrás do Draco, pois ele estava acampado na beira do rio. E você não precisaria de um cavalo para ir até lá e, também, não demoraria tanto. Então achei que você foi até o porto atrás do tal Senhor da Guerra, Menzentius.
- Enganou-se. Pois, primeiro, eu fui atrás do safado do Draco. Fui dar um ultimato a ele para que não atacasse a sua aldeia e nem a minha. Depois, fui com ele até o porto, onde me encontrei com Mezentius e ordenei que ele desocupasse Amphipolis.
- E ele?
- Riu na minha cara, mas teve o que mereceu.
- O que aconteceu?
- Mezentius mandou que os seus homens me atacassem. Enquanto eu lutava com eles, vi o covarde tentando fugir. Então, lancei o chakram sobre ele.
- O chakram?Tirando da cintura, Xena mostra o chakram para ela.
- Ah, essa argola aí é uma arma?
- A mais poderosa que conheço.
- Você o matou?
- Sim. Depois enviei um mensageiro a Amphipolis avisando da morte dele e para que os soldados dele desocupassem o castelo e a cidade, pois eu estava indo para lá.
- Mas você não foi.
- Eu ainda irei, depois que deixar você na Academia. Preciso me certificar se as minhas ordens foram cumpridas.
- Xena, você é mesmo incrível! Se você sozinha já impõe todo esse respeito, imagine com todo um exército a sua disposição...
- Não gosto de lembrar dessa fase da minha vida. - disse num tom de voz tristonho.Percebendo, Gabrielle desculpa-se dizendo:
- Perdão Xena, que falta de sensibilidade a minha.
- Não Gabrielle, não se sinta constrangida, você jamais me magoaria.Quando estavam deitadas, como sempre com Gabrielle aconchegada nas suas costas, Xena sentiu um "cheiro" bastante conhecido. Afasta a barda, cuidadosamente, levanta-se empunhando a espada e dizendo quase num sussurro:
- Ares pode aparecer!
Imediatamente, materializando-se a sua frente, o Deus da Guerra, diz:
- Xena, você é a única mortal...
- Me poupa desse velho comentário, Ares.
- Mas, o que é isso, Xena? Agora deu pra se interessar por menininhas?...
- O que você quer, Ares? - perguntou Xena colocando a espada num canto e as mãos nos quadris.
- O mesmo de sempre: você!
- Perdeu o seu tempo. Agora pode sumir.
- Xena, com quem você está falando? - pergunta Gabrielle sentando-se na cama.
- Com Ares.
- O Deus da Guerra?! - perguntou espantada, olhando para os lados.
- Ele mesmo.
- E o que ele quer? - disse já ao lado da guerreira.
- Que eu me junte a ele.
- Não Xena, não faça isso. Não dê ouvido a ele. Não volte para a escuridão.
- Ora, sua pirralha... - exclamou Ares com raiva, enquanto preparava nas mãos uma bola de fogo.Xena percebendo a intenção dele, põe-se na frente de Gabrielle, protegendo-a.
- Não se atreva a machucá-la, Ares.
- Não dê ouvidos a ele, Xena. Ele não quer o seu bem. - insistiu a barda.
- Saia da frente, Xena! - gritou o deus enfurecidoXena puxa com a ponta do pé e lança para o alto o chakram que estava no chão, pegando-o. Enquanto que, com o braço esquerdo, escondia Gabrielle atrás de si.
- Estou avisando, Ares...
- Xena o que está acontecendo? - perguntou a barda sem ainda entender o que estava acontecendo ali.
- Ele está querendo te machucar, mas eu não vou deixar.Gabrielle agora, totalmente assustada, envolve os braços na cintura de Xena, abraçando-a por trás e escondendo o rosto nas costas da guerreira.
- Xena, o que foi que você viu nessa... nessa pirralha irritante?
- Gabrielle é minha amiga e tem a minha proteção.
- Você tem que se afastar dela! - disse o deus transtornado.
- Por quê?
- Porque ela vai destruir a guerreira que há em você. Entenda de uma vez, Xena, que a luz não combina com a escuridão. Afasta-se dela!
- Enlouqueceu? O que está havendo? Nunca o vi tão transtornado.Ares bufa de raiva e atira a bola de fogo na fogueira, que aumenta mais o tamanho das chamas. E, antes de desaparecer, lança um último olhar para Xena, sem nada dizer.
- Pronto, ele foi embora. - disse Xena dando um tapinha naquelas pequenas mãos que lhe apertavam a cintura.
- Foi ele quem fez o fogo aumentar daquela maneira? - disse a barda já a olhando de frente.
- Foi sim.
- Mas... por que ele queria me machucar?
- Porque você me alertou contra ele.
- E só por isso ele quis me matar?
- É porque ele sabe que você é a minha luz. - disse Xena se afastando, meio arrependida pelo que dissera.Gabrielle vai atrás. E, colocando-se na frente da guerreira, pergunta:
- Ele disse isso?
- Olha, não quero falar mais nisso.
- Xena, você não acha que eu tenho o direito de saber porque o Deus da Guerra me odeia e quer me matar?Xena ponderou um pouco e meio contragosto, disse:
- Ele disse que a luz não combina com a escuridão, numa menção a você e a mim. Mas agora, vamos dormir.
Enquanto observava Xena rearrumando os cobertores e as mantas no chão, Gabrielle diz pra si mesma:
- Se eu sou a luz dela, tenho que estar sempre com ela. Agora vou ter que convencê-la disto.
Gabrielle deitou ao lado dela e depois que se aconchegou nas costas da guerreira, disse:
- Xena.
- Hum...
- Obrigada.
- Pelo quê?
- Por ter me protegido.
- Eu quem deveria agradecer.
- Por quê?
- Estou com sono. - desconversou.
- Xena...
- Gabrielle, nós precisamos dormir.
- Só uma perguntinha...
- Tá bem, não tenho outra alternativa mesmo.
- Eu sou realmente a sua luz?Xena demora um pouco para responder, então diz:
- É sim. Mas agora, por favor, vamos dormir.
Gabrielle sorri satisfeita.
Acordaram cedo. Após o desjejum cavalgaram sem parar. Como Xena havia planejado, chegaram em Cálcis ainda pela manhã.
No porto, enquanto Gabrielle dava água para Argo, Xena foi tratar do embarque delas para Atenas. Pouco depois, a guerreira se aproximou dizendo:
- O barco só sai amanhã. Vamos passar o dia e pernoitar aqui em Cálcis.
- A gente podia ficar naquela pousada perto daqui.
- Sei, naquela que você sentiu cheiro de carne assada de javali.
- Humm... Essa mesma. - disse a barda não escondendo a preferência.
- Está bem. Vamos lá.Vendo a garota saborear o tão cobiçado almoço, Xena fala admirada:
- Gabrielle, para uma pessoa do seu tamanho, você tem fome de gigante.
- Obrigada. Ainda bem que você não disse de titã. - disse sorrindo.Depois do almoço, resolveram dar uma volta pela cidade. Ao passarem por uma ruela, Gabrielle viu numa porta o anúncio de uma cartomante.
- Olhe, Xena, uma cartomante! Vamos?
- Gabrielle, eu não acredito nisso.
- Ah, Xena, eu gostaria de fazer uma consulta, só pra ver o que ela vai dizer.
- Está bem. Mas depois não vá reclamar que perdeu dinheiro com bobagens. Não esqueça que eu te avisei.Chegando lá, ao passarem pela cortina de contas coloridas, elas viram que a sala estava cheia de gente esperando a vez de serem atendidas.
- É, acho que dessa vez não vai dar pra me consultar.
- Fica pra próxima. - suspira Xena aliviada.Fizeram umas compras para a viagem, depois voltaram para a pousada. Enquanto Gabrielle levava as compras para o quarto, Xena foi até o estábulo ver Argo.
- Oi, garota. Olha aqui o que Gabrielle mandou pra você. - disse Xena dando uns pedaços de maçã para a égua. Conclui: Viu só como ela não se esquece de você?
Quando foi pegar um balde de água que estava próximo da égua, Xena sente o "cheiro". Rapidamente puxa a espada dizendo:
- O que é que você quer, Ares?
- Não consigo mesmo passar despercebido por você. - disse o deus admirado.
- O que é desta vez?
- O que é?! Não se faça de desentendida, Xena.
- Você que ainda não entendeu que seu tempo comigo acabou.
- Será que, pelo menos, podemos conversar sem brigar?
- Fale logo. - disse Xena colocando a espada na bainha.
- Eu tenho uma proposta incrível para você.
- Sei, igual as das outras vezes. Não estou mais interessada.
- Você ainda não ouviu o que...
- Poupe o seu tempo e o meu, Ares, vai embora. - interrompeu Xena virando-se de costas e dando água para Argo.
- Quer me escutar! - gritou Ares irritado.
- Se quer perder tempo... - disse a guerreira com desdém e passando a escova no dorso da égua.
- Xena, eu estou formando um exército com os mais ferrenhos e melhores guerreiros treinados por mim. E, com a ajuda de Hefestus, que está fazendo armas e armaduras especiais, se tornará um exército invencível! - disse eufórico.
- E eu com isso?
- Não se faça de boba, Xena. Você sabe muito bem porque estou lhe contando isso.
- A minha resposta é... Não!
- Eu quero você no comando do meu exército.
- Está surdo? Pois então, vou repetir: a minha resposta é não! Vá procurar outra ou outro guerreiro.
- NÃO! EU QUERO VOCÊ! - disse gritando e segurando-a pelos braços.
- Mas ela não quer. - disse Gabrielle parada na porta do estábulo.Xena e Ares olham-se espantados.
Gabrielle se aproxima e olhando para Ares diz:
- Deixe-a em paz. Ela não é mais a Destruidora de Nações, agora ela é uma guerreira a serviço do bem.
- Como ela pode estar me ouvindo e me vendo? Sendo ela uma simplória camponesa, uma reles mortal...
- Pode apostar que é com pesar ver um deus chegar a esse ponto de jogar sujo para conseguir o que quer. - disse Gabrielle.
- Ora sua...E, antes que Ares pudesse fazer qualquer gesto, Xena puxa Gabrielle para trás de si, protegendo-a e dizendo:
- Não se atreva, Ares. Faço minha as palavras dela. Vá embora, Ares, nos deixe em paz!
- Está bem, vou embora por enquanto. E você, não perde por esperar, garotinha.Assim que o Deus da Guerra some, Gabrielle diz assustada:
- Xena, ele me odeia!
- Gabrielle, desta vez você não só o viu, como discutiu com ele.Só então que, Gabrielle, se deu conta que havia comprado briga com um deus.
- Eu, só consigo ver Ares, porque sinto o "cheiro" dele. Mas, quanto aos outros deuses, se eles não se fazem presentes, não os consigo ver. Como foi isso?
- Não sei. Nunca tinha visto um deus antes. Talvez seja por causa do meu dom.
- É, o vaticínio, talvez seja isso. Mas, no outro dia, você não o viu e nem escutou a voz dele.
- Talvez porque eu estivesse com medo.
- E dessa vez, não?
- Agora estou. - disse Gabrielle arregalando os olhos, nitidamente assustada.Percebendo, a guerreira, tenta tranqüilizá-la dizendo:
- Gabrielle, eu não vou deixar que ele te faça nenhum mal.
- Eu só queria que você me prometesse uma coisa.
- O quê?
- É muito importante pra mim, Xena.
- Diga.
- Xena quero que você prometa para mim que, mesmo que aconteça alguma coisa comigo, você nunca mais vai voltar a ser o que era, que não vai mais voltar para a "escuridão". Prometa Xena.
- Gabrielle, eu já disse que não vou deixar que nada de mal lhe aconteça. - disse já caminhando para a porta do estábulo.
- Por favor, Xena, me prometa que nunca mais vai servir ao mal, promete? - disse parando e segurando-a pelo braço.
- Está bem. Gabrielle, eu não só prometo, como juro pra você que, depois de ter encontrado a luz, não volto para a escuridão. - disse Xena segurando a mão da jovem que apertava o seu braço.
- E, mesmo se acontecer alguma coisa comigo, quero que você carregue a luz no seu coração, dentro de você. Promete?Xena a olha seriamente e diz:
- Prometo.
Gabrielle se lança nos braços dela, abraçando-a com ternura, deixando a guerreira completamente desnorteada com aquela demonstração de sentimento.
- Obrigada, você não sabe como isso é importante para mim. - disse Gabrielle e começou a chorar.
- Oh, não, Gabrielle... não chore. - disse a guerreira abraçando-a e mudando de assunto, diz: - Vamos tomar um banho e comer alguma coisa. Depois vamos dormir, pois iremos partir bem cedo.
- Eu me informei, lá na hospedaria não tem sala de banho. Mas, me indicaram uma casa de banho aqui por perto. - disse Gabrielle enxugando as lágrimas.
- Por isso é que não gosto destas pousadas das cidades do interior. Vamos então?Chegando na casa de banho, Xena escolhe uma sala reservada. Dispensa as duas criadas, após elas encherem a enorme tina de pedra. Fechou a porta e começou a se despir. Olhou para a barda que estava parada e admirando o local.
- Gabrielle, não vai se despir?
- Xena, você viu só esses sais?Xena se aproximou e, após cheirar o conteúdo do vidro, derrama um pouco dentro da tina, dizendo:
- Este óleo, junto com os sais aromáticos, dará um efeito relaxante aos nossos corpos. Vamos?
Gabrielle balançou a cabeça concordando. E, em poucos instantes, a guerreira estava completamente nua a sua frente e ela, só havia tirado o casaquinho azul e o cinto, uma espécie de faixa de pano colorido.
- Deixa eu te ajudar. - disse Xena ao se aproximar, abrindo a saia dela por trás e em poucos instantes a barda estava só de calça. E antes de entrar na tina, Xena diz: - Tire-a e venha.
Rapidamente, enquanto Xena ainda estava de costas entrando na tina, Gabrielle tira a calça e entra também.
- Está gostando? - perguntou Xena vendo a garota se banhar totalmente fascinada.
- Muito. É maravilhoso. Nunca experimentei nada igual.
- Vire-se, vou lavar as suas costas. Depois você lava as minhas.Após ter ensaboado a barda devidamente, Xena dá a esponja para ela e virá-se de costas. Gabrielle, meio sem jeito, afasta os longos cabelos negros e começa a ensaboar as costas largas da guerreira, ao mesmo tempo em que as admirava. Se Xena não se virasse, Gabrielle continuaria indefinidamente a ensaboar-lhe as costas, pois estava gostando de tal função.
- Agora vou lavar os seus cabelos, depois você lava os meus.
Dizendo isso, vira Gabrielle de costas e a puxa pra dentro das suas pernas, inclinando-a no seu tórax.
Enquanto Xena lavava os seus cabelos, Gabrielle deixava-se invadir por um prazer nunca antes sentido. Fechou os olhos e deixou-se levar por esse arrebatamento.
- Pronto. Agora é a minha vez. - disse Xena interrompendo o deleite da barda.
Ao virar-se de frente, Gabrielle vê a guerreira aproximando-se dela e sem cerimônia abrir-lhe as pernas, sentando-se entre elas e inclinando-se de costas, colocando a cabeça no seu peito.
Quando ia ensaboar os cabelos da guerreira, Gabrielle viu os peitos eretos dela. Achou-os lindos, perfeitos. Olhou para si e sentiu vergonha por saber que a pouco, ao lavar-lhe os cabelos, Xena também deve tê-los visto e os seus eram tão pequenos...
- Gabrielle, não quero mais que você enfrente Ares. Ele é muito perigoso. Eu sei lidar com ele. Não quero que ele te machuque ou...
- Me mate?
- É. - disse Xena se virando e acrescenta: Você se tornou muito importante para mim. Há pouco tempo que nos conhecemos e, no entanto, criou-se um laço muito forte entre nós. E eu sei que você sente o mesmo.
- Sinto sim. É como se nós fôssemos amigas há muito tempo.
- Não quero perder você.
- Você não me perderá, porque eu jamais vou lhe deixar.
- Gabrielle, você não pode imaginar o quanto você é importante para mim.
- Xena, como eu posso ser importante pra você se, no momento da luta, não tenho nenhuma serventia?
- Pois é justamente por isso, Gabrielle. É no momento em que não estou lutando que mais preciso de você.Emocionadas, ambas se calam. Era a primeira vez que Xena se sentia assim diante de alguém. Praticamente havia-lhe aberto o seu coração. Aquela garota inspirava-lhe confiança e um sentimento de proteção nunca antes sentido.
Nisso, o estômago de Gabrielle se manifesta sonoramente, deixando-a desconcertada. Xena ri divertida.
Momentos depois estão na pousada sentadas à mesa.
- Não vai me dizer que vai comer javali novamente.
- Ah, Xena... estava uma delícia no almoço. Por que eu não posso comer agora?
- Porque é muito pesado. Por que você não toma uma sopa? Eu vou querer uma sopa de legumes.
- O meu estômago vai gritar a noite toda.Xena olha para a barda que está com uma expressão quase triste, então diz:
- Está bem. Mas não coma tanto quanto comeu no almoço.
Um sorriso luminoso se estampou no rosto da barda. E era isso que fazia a guerreira feliz.
Enquanto Xena comia sua sopa com pão, Gabrielle saboreava o seu javali assado. E, num dado momento, cortou um bom pedaço da carne e colocou-o no prato da guerreira dizendo:
- Como guerreira você tem que se alimentar bem e eu tenho que cuidar de você. Então coma e não discuta comigo.
Xena não discutiu, ela realmente gostava desse cuidado da garota para com ela.
Após o jantar.
- Que tal um passeio pra fazermos a digestão? - sugeriu Xena.
- Ótima idéia. Espere só um instante.
- Aonde você vai?
- Lá no quarto pegar uma manta.
- Está com tanto frio assim?
- Eu não. Estou com o meu casaquinho.
- Então, pra quê a manta?
- Seria pra quem... Pra você, com essa roupa curta...
- Isso é couro! - interrompeu Xena apontando com o dedo na altura do estômago, o seu próprio traje e acrescenta: - E, além do mais, eu não sou frienta. Embora o verão tenha terminado, mas continua quente.
- Está bem. Então vamos.Caminharam um pouco ao redor da cidade. Quando chegaram no cais, perceberam que estava estranhamente vazio.
- Xena, eu estou pressentindo que não é um bom momento de passar nesse lugar agora. - disse Gabrielle apreensiva.
- Vamos sair daqui. - disse Xena puxando-a pelo braço.Quando deram a volta para irem embora, surgiram quatro homens vindo na direção delas. Xena, de imediato, percebe o perigo. Puxa Gabrielle para um lado, saindo da frente dos tais homens. Mas estes tornam a ficar na frente delas. Um deles diz para um outro, antes de atacar:
- Você pegue a garota.
Enquanto os três partiram para lutar com a guerreira, o quarto homem foi pegar Gabrielle, que estava procurando algo pra se defender e ajudar a amiga.
Ao perceber que o homem havia puxado a espada e ia matar a barda, Xena tira o chakram da cintura e o arremessa no peito dele, enquanto debatia-se com a espada com os outros dois e acertando um chute no terceiro que tentou acertá-la pelas costas. Ao notarem o que a guerreira tinha feito, os três saem correndo. Xena se aproxima do homem estendido no chão e, antes de arranca-lhe o chakram do peito, percebe que ele ainda está vivo. Indaga-o:
- Por que você queria matar a minha amiga?
- Foi ele quem mandou... - sussurrou o homem.
- Ele quem?
- A... A... - o homem não conseguiu completar, morrendo a seguir.Contudo, Xena sabia muito bem de quem se tratava.
- Ares! - disse tirando e limpando o chakram na camisa do homem.
- Você acha mesmo que foi ele, Xena?
- Não tenho dúvida. Vamos Gabrielle, já passeamos o suficiente por hoje.Enquanto a barda dormia, Xena se levantou e num canto do quarto chama em voz baixa, porém imperiosa:
- Ares apareça seu covarde!
Em poucos instantes, o Deus da Guerra surge em sua frente.
- Chamou por mim, Xena?
- Não se faça de bobo, Ares.
- Não estou entendendo e... está sussurrando por quê?
- Não quero acordar Gabrielle.
- Ah, então a poderosa guerreira virou ama-seca de uma fedelha irritante?
- Que covardia... mandar quatro homens nos atacar com a intenção de matar a minha amiga.
- Eu?!
- Isso mostra o tipo de deus que você é. - disse com desprezo, acrescentando: - O que foi que ela te fez pra você querer matá-la?Ares passa a mão no cavanhaque e ponderando diz:
- Me diga uma coisa, Xena. O que foi que você viu nessa coisinha insignificante, nessa... nessa lourinha irritante?
- Ela é a minha amiga. A amiga que eu nunca tive.
- Cheguei a pensar que... você e ela... Você sabe bem o que quero dizer, não é Xena?
- Que mente suja que você tem, Ares. Não vê que Gabrielle é quase uma criança?
- Criança?! Mas que desculpa mais esfarrapada é essa, Xena?
- Deixe-a em paz, estou lhe avisando. Sou capaz de descobrir um jeito de acabar com a sua raça.
- Xena, você tem que se livrar dela. Não tem cabimento, uma guerreira como você de ama-seca dessa pirralha. Se você quiser, posso até fazer um favor e transportá-las para Atenas.
- Por que a gentileza? - disse com certo desdém.
- Pra livrá-la do ridículo e, também, o mais rápido possível dessa pirralha.
- Não quero nenhum favor seu. E, além do mais, estou apreciando muito a companhia de Gabrielle nessa viagem.
- Xena...
- Vá embora, Ares.
- Xena, eu estou avisando...
- Mas o quê, está surdo? Vá embora. Suma da minha vida. Me deixe em paz!
- Xena, depois não vá dizer que eu não te avisei.
- Vá! - disse quase gritando. Então olhou pra Gabrielle e quando voltou a olhar pra Ares, ele havia sumido.Xena voltou pra cama com cuidado, deitou e quando se ajeitou para que a barda pudesse usar as suas costas, essa se ajeita nela dizendo:
- Obrigada.
- Você estava acordada? - perguntou sem poder se virar.
- Desde quando você se levantou.
- Eu devia ter ido lá fora. Não era pra você ter escutado. - disse conseguindo ficar de frente pra barda.
- Ele realmente me odeia.
- Não queria que ficasse com medo.
- O meu maior medo é te perder.
- Me perder, como?
- Se ele conseguir te convencer, eu perco você. - disse com a voz trêmula e começando a chorar.Xena fica completamente desnorteada sem saber o que fazer, apenas diz:
- Não, não chore Gabrielle. Por favor, não chore Gaby. Eu prometo que você nunca vai me perder.
A barda se aconchega nos braços dela e enquanto enxuga as lágrimas diz:
- Promete mesmo?
- Prometo. - disse Xena abraçando-a.
- Você notou?
- O quê?
- Que você me chamou de Gaby.
- E eu ainda não a havia chamado assim?
- Ainda não. Diga de novo.Xena riu e disse um pouco intimidada:
- Gaby.
Sem que a guerreira esperasse, Gabrielle encosta o rosto no peito dela dizendo:
- Você diz o meu nome diferente. Me transmite segurança e proteção. Boa noite, guerreira.
Xena respondeu ao comprimento e quase perdeu o sono. Percebeu que ainda não estava acostumada com aquele tipo de demonstração de carinho e que aquela menina estava se tornando, completamente, necessária a ela. De repente lembrou que não havia tirado o traje para dormir. Pois sim, que ela ia se mover dali. Ela nunca se sentira tão bem, quanto se sentia naquele momento, sendo abraçada e sentindo aquele perfume doce e suave da barda.
Continua...