A Barda e a Guerreira
By SOMARQ
Dias depois, após ter pegado a sacola de dinares que havia escondido num velho templo perto da entrada para Corinto, Xena decide que deveria se divertir um pouco antes de ir para o vilarejo no sul. Lembrou de uma certa casa ali perto. Também lembrou da casa de Aglaia, mas esta era no centro da cidade de Atenas e voltar para lá seria uma perda de tempo. Resolveu então ir para a tal casa ali perto.
Já era começo de noite.Antes de ir para lá, Xena havia saboreado um peixe que ela mesma havia pescado enquanto tomava um banho, depois se arrumou e foi para a tal casa. Chegando lá percebeu que estava lotada. Sentou num canto do balcão e ficou observando os freqüentadores. Percebeu que a maioria ali era de guerreiros que nem ela. Viu, também, numa mesa, um grupo de seis amazonas disfarçadas de guerreiras. Ela sabia que quem freqüentava aquele estabelecimento estava ali por pura diversão. Por isso ficou mais tranqüila.
- Posso te pagar uma bebida?
Xena olhou pro lado e viu um jovem rapaz, um guerreiro novato de Corinto. Talvez um pouco mais velho que Gabrielle. Sorriu para ele dizendo:
- Fica pra próxima. Estou esperando alguém.
Pouco depois um outro guerreiro, bem mais velho, abordou-a:
- Está esperando alguém? Ou posso te fazer companhia?
Xena ia responder algo quando viu atrás dele duas mulheres que a olhavam diretamente. Disse sem ao menos olhá-lo direto:
- Estava esperando alguém que acabou de chegar.
Depois que o homem se afastou, Xena continuou a encarar as duas mulheres. Reparou bem nos tipos: uma, a ruiva, era guerreira, pois não havia dúvida quanto a roupa e o físico; a outra, a loura, não era guerreira e nem amazona disfarçada, talvez fosse uma garota da cidade por causa da roupa que vestia.
Elas se aproximaram. Xena continuou encarando-as.
- Oi, eu sou Acidália e essa é minha amiga Amanda. - disse a ruiva.
- Oi. - respondeu a guerreira e a seguir levando a boca à taça de licor.
- Como se chama? - perguntou a ruiva.
- Xena.
- Xena, você quer que a gente te faça companhia? - ainda a ruiva.
- Não vim aqui pra conversar, vim atrás de outra coisa.
- E essa outra coisa pode ser a três? - novamente a ruiva.A guerreira em resposta lança um olhar luxuriante, suspendendo um pouco a sobrancelha ao mesmo tempo em que passa a borda da taça no lábio inferior e diz:
- Vocês gostam de licor ou de vinho?
- O que você quiser. - respondeu Acidália.Xena comprou duas garrafas de vinho e saiu da casa acompanhada pelas duas mulheres.
Entraram numa casa de banho onde se instalaram numa sala reservada. Enquanto as duas mulheres se despiam, Xena observou bem uma a uma e seu olhar parou na loura que ainda não havia aberto a boca. E, quando as mulheres se banhavam, Xena rapidamente se despiu, pegou uma garrafa e três taças e foi se juntar a elas. Percebeu que as duas olharam bem para o seu físico e que só a loura abaixou o olhar. E isso a excitou. Sentou-se de frente para a loura, mas a ruiva empurrou a garota para trás dela para que ela massageasse as costas da anfitriã, enquanto ela própria banhava-a de frente. Xena percebeu que a ruiva sabia como seduzir, pois se encostava e tocava nos pontos certos e beijava despertando desejos. E a guerreira não resistiu àquilo que aquela mulher estava lhe oferecendo. Saíram rapidamente da água para o chão forrado por um colchão bem fino e muito macio, usado normalmente em massagens e também de grande utilidade em momentos como aquele. Num dado momento, enquanto a guerreira comandava a ação, a loura que havia se aproximado olhando-as de perto e fazendo carícias nas pernas da ruiva empurra Xena com movimentos suaves para que ela saísse de cima da ruiva. A guerreira se afasta sem entender aquele jogo erótico e vê a loura se apossar da ruiva com desespero, desejo e amor. Percebe também a reciprocidade. Estava mais do que claro que elas se amavam. Xena resolve se afastar um pouco. Pega a outra garrafa de vinho, enche a taça e bebe saboreando enquanto olhava-as fazendo amor.
Momentos mais tarde, quando as duas ainda estavam abraçadas, Xena, já vestida, diz:
- O que é que está havendo?
As duas mulheres surpreendidas se levantam entreolhando-se e se cobrindo com os panos de banhos. A ruiva diz:
- Sinto muito. Não era para ter acontecido isso. Eu posso explicar.
- A única explicação plausível é que vocês se amam. - disse a guerreira após ingerir todo o vinho da taça.
- Sinto muito. - tornou a dizer a ruiva.
- Por que você a traz?
- Porque ela não me deixa vir sozinha.
- Pelo que vi, ela ainda não participou.
- E nem vai. O máximo que eu permito é eu mesmo transar com ela na frente da mulher que vem conosco.
- Vocês só fazem com mulher?
- A três sim. Já fiz a sós com homem, mas ela não deixa mais.
- Sabia que você correu o risco de ver a sua garota ser violentada?
- Isso não vai acontecer, nunca permitirei, sou uma guerreira...A ruiva não consegue completar a frase, pois foi imobilizada pela guerreira com o ponto de compressão na garganta e caindo no chão viu a sua namorada ser, também, imobilizada pela guerreira apenas usando a força. Xena deita a loura ao lado da ruiva e se ajeita em cima dela. Virando-se para a outra diz:
- Nem sempre você poderá protegê-la e aí então...
A loura que estava totalmente assustada implora:
- Por favor, desfaça o que você fez nela. Eu prometo que não reajo. Você pode fazer tudo que quiser comigo. Mas não a mate, eu a amo.
Xena desfaz, com um toque de dedo no pescoço, o ponto de compressão e saindo de cima da loura, diz:
- Entendeu agora o que eu quis dizer?
Agora, totalmente envolvida nos braços da loura, a ruiva diz:
- Entendi. Amanda, ela tem razão, não vou mais pôr você em risco.
- Sozinha é que você não vai. - replicou a loura.
- A gente precisa, você sabe disso. Não tem outro jeito de conseguirmos juntar alguns dinares.
- O que é que vocês pretendem fazer? - perguntou Xena entregando as duas taças com vinho para as duas.
- O nosso sonho é termos uma taberna-hospedaria só para mulheres, estamos tentando juntar alguns dinares há meses. - contou Acidália.
- Como não conseguimos trabalhar perto uma da outra, resolvemos fazer programas. - disse Amanda ainda sem encarar a guerreira.
- Como vocês se conheceram? - perguntou Xena já sentada defronte as duas.Acidália passa o braço por cima dos ombros da namorada e diz:
- Eu fui contratada pelo pai dela, que era um grande fazendeiro, para protegê-la e levá-la para bem longe daquela fazenda. E foi o que eu fiz. Quando voltamos, como o combinado, não existia mais a fazenda, toda ela tinha sido destruída e o pai e o irmão dela tinham sido assassinados. As terras foram leiloadas pelo governo e não tínhamos como provar que ela era a herdeira. As pessoas que ela conhecia nos aconselharam a ir embora dali, pois se descobrissem que havia uma herdeira a matariam.
- E vocês estão juntas desde então.
- Sim, estamos. E eu pensei que poderia protegê-la... Que droga de guerreira que eu sou...
- Para mim você é a melhor, porque você é a minha guerreira. - disse Amanda acariciando com a mão o rosto da amada.A essas palavras da loura, fez Xena lembrar de uma outra loura que enterneceu seu coração. Tomou uma decisão. Tirou da cintura uma pequena sacola e disse antes de dá-la a ruiva:
- Acho que isso vai ter melhor proveito com vocês. Pelo menos poderão realizar o sonho de vocês.
Depois que as duas viram a quantidade de dinares na sacola, Acidália diz:
- Por que você está dando essa pequena fortuna pra gente?
- Porque será de melhor proveito.
- E como poderemos retribuir? - ainda Acidália.
- Abrindo essa taberna.
- Então será feito. Em pouco tempo, pode procurar em algum lugar uma taberna de nome "Guerreira". - disse a ruiva.
- E você será sempre muito bem recebida. - completou Amanda.Despediram-se e Xena foi para o celeiro onde Argo estava, decidiu que passaria a noite ali.
- Sabe Argo, estou sentindo uma falta danada da nossa barda. Até mesmo de servir de travesseiro pra ela. Eu até gosto, é uma sensação agradável e me faz sentir importante, necessária. Gosto dela mesmo quando tagarela e quase não me deixa dormir. Sinto a falta dela._ Argo relincha. - É e você também.
Xena colocou o cobertor em cima de um feixe comprido de capim ao lado de Argo. Deitou e pensou: "Eu entendo a Acidália por não querer que ninguém encoste a mão na sua garota. Eu também não gostaria que ninguém encostasse um dedo sequer na minha barda". Fechou os olhos e os abriu logo a seguir, espantada pelo que dissera. Depois se virou de lado e custou a dormir.
Já haviam se passados seis meses. No dia combinado, Xena já estava sentada na beira do chafariz da praça bem em frente ao portão da Academia, quando este se abre e os alunos saem apressados para se encontrarem com os seus familiares. A guerreira que estava segurando as rédeas de Argo, ao ver as cenas de carinhos familiares, diz bem baixinho para a égua:
- Estou me sentindo um pouco ridícula, Argo, parada aqui esperando pela nossa amiga. Fazer o quê? Promessa é dívida.
Neste instante alguém lhe tampa os olhos com as mãos. Xena as apalpa dizendo:
- Pelo tamanho das mãos deve ser a garotinha lá de Poteidaia.
Gabrielle tira as mãos dos olhos dela e debruçando-se por trás com o queixo no ombro da guerreira, diz ao seu ouvido:
- Garotinha? Acho que você ainda não me viu direito.
E após de dar um beijo na face direita de Xena, Gabrielle fica de frente para ela. Surpresa pelo o que agora vira em sua frente, não era mais aquela garotinha de Poteidaia, mas uma jovem e formosa garota. Gabrielle havia adquirido formas, mas o rosto ainda era de menina.
- Você está linda! - disse Xena.
- E você ainda mais do que eu me lembrava. - disse atirando-se nos braços da guerreira num "extremado-Gabrielle-abraço".
- Ôua! - disse Xena se equilibrando e sorrindo, com isso tendo a certeza que a barda continuava a mesma.
- Pensei que você não viesse... que tivesse me esquecido. - ainda abraçada a ela.
- Como eu poderia te esquecer? Além disso, Argo não deixaria.Gabrielle solta Xena e abraça o pescoço da égua, dizendo:
- Oh, Argo, eu também senti a sua falta. Você está linda.
Argo relincha balançando a cabeça.
- Viu só, Xena. Ela também sentiu a minha falta.
Xena disfarçou com um pigarro pra não rir.
- Já podemos ir embora, não é Xena?
- Você está querendo ir a algum lugar? - perguntou Xena pegando as rédeas de Argo.
- Para Amphipolis.
- Para Amphipolis?!
- Você se esqueceu? Quero conhecer a sua cidade, a sua família e a sua mãe. Você prometeu.
- Acho que não é uma boa idéia, Gabrielle.
- Vocês ainda não fizeram as pazes?
- Como? Se ela tem uma cabeça dura.
- Agora já sei a quem você puxou.A guerreira olha sério para ela.
- Brincadeirinha. - disse a barda num sorriso escabreado repuxando os lábios de boca fechada.
A guerreira balançou a cabeça como dissesse que aquela garota não tinha jeito mesmo. Perguntou:
- Vamos almoçar?
- Carne de javali?
- Por que carne de javali?
- Porque a última vez que comi javali foi com você.
- Aí na Academia eles não servem carne de javali?
- Não. Só comemos o que produzimos e criamos. O mais perto da carne de javali que comi foi carne de porco. E eu cheguei a sonhar que comia lá naquela taberna especialista em carne de javali.
- Está bem já me convenceu, vamos almoçar na taberna aqui da praça, o prato de hoje é javali.
- Humm... - suspirou Gabrielle esfregando as mãos.Após o almoço, como sempre, a barda pediu que levassem a sobra do almoço pro jantar.
- Vou deixar você escolher: prefere dormir numa pousada ou ao ar livre?
- Sob a luz das estrelas.Xena riu, era o que ela também queria.
Saíram da taberna. Gabrielle que havia retalhado duas maçãs pra Argo, enquanto a alimentava, pergunta pra Xena que estava desamarrando as rédeas presas num suporte da varanda da taberna:
- A gente vai mesmo de barco?
- Direto do porto daqui pra Amphipolis.
- Ai, ai. - suspirou Gabrielle resignada.
- Que roupa é essa? - perguntou Xena se referindo ao top de cor verde e uma saia marrom retorcida.
- Pensei que não fosse notar. Gostou?
- É bonita e prática.
- E é a roupa que todas as jovens atenienses estão usando.
- Gabrielle como você sabe disso?
- Todo o último domingo de cada mês, pela manhã, tem tido uma feirinha lá na praça. Cada turma sai com o seu monitor e podemos fazer compras. Comprei com o dinheiro que você me deu. Mas do cajado, você não vai dizer nada?
- Nem preciso, sabia que você ia trazê-lo.
- Não desgrudo dele. Tenho treinado bastante com ele.
- Isso é bom, gostei de saber disso. Vamos? - disse Xena estendendo a mão pra puxar Gabrielle após ter montado em Argo.Cavalgaram e andaram até um lugar meio escondido na floresta, fora da estrada. Passaram por entre árvores estreitas até chegarem à beira de um riacho.
- Vamos acampar aqui. - disse Xena.
- Que lugar lindo! - exclamou a barda.
- Vou pegar uns gravetos para a fogueira, hoje deve anoitecer cedo. Como não é lua cheia deve ficar bem escuro.
- Pode deixar que eu cuido de Argo.Assim que terminou de cuidar de Argo, Gabrielle ficou observando a guerreira arrumando a fogueira ainda sem acendê-la. Xena nota:
- O que foi? Ainda não acendi porque estava escolhendo os galhos mais secos.
- Você não sabe como senti falta desse momento. - disse Gabrielle se aproximando.
- Desse desconforto?
- De estar ao seu lado.Xena não diz nada. Pega as duas pedras especiais e batendo uma na outra provoca no atrito uma faísca de fogo que acende a fogueira. Depois, senta-se no pedaço de tronco ao lado da fogueira, dizendo:
- Vamos conversar um pouco? Quero que você me conte tudo sobre a Academia.
Gabrielle senta-se ao lado dela e começa a falar daquele jeito todo próprio, cheio de gestos e entusiasmo. Xena a ouvia com atenção e constatou, sem dúvida, que era a mesma garota que conhecera, só que agora estava mais bela, mais atraente, quase uma mulher. Estava tão entretida que quase levou um susto quando Gabrielle tocou seu braço dizendo:
- Olha Xena, já está anoitecendo.
- É mesmo. Bem, vou tomar um banho antes de comer. - disse a guerreira tirando as botas.
- Vou também. - disse a barda tirando as botas também.Enquanto a guerreira desprendia a armadura, Gabrielle foi pegar os panos de banho e o sabão na bolsa de montaria. Quando voltou, quase cambaleou ante a visão da guerreira nua a sua frente.
- Você não vem? - perguntou Xena caminhando para o riacho.
- Já... já estou indo. - gaguejou Gabrielle tirando a blusa e a saia. Colocando em seguida, cobrindo-lhe à frente, o pano de banho. Depois tirou a calça e foi até a beira do riacho, mas não viu a guerreira.Xena que havia mergulhado, emerge e diz para a barda que ainda estava parada:
- Por que você está parada aí, Gabrielle?
- É que você havia sumido... Vou colocar os nossos panos de banho aqui em cima dessa pedra.
- E traga o sabão. - pede Xena e desvia o olhar pro outro lado, pois percebera que a barda estava inibida.Instantes depois, Gabrielle está ao seu lado.
- Também senti falta disso. Como é bom tomar banho ao ar livre. - disse a barda submergindo em seguida. Ao ficar embaixo d`água percebeu que a água era cristalina, por demais transparente, mesmo já anoitecendo ela pode ver ali na sua frente o corpo nu da guerreira. Emergiu depressa.
- O que foi, engoliu água? - perguntou Xena ao ver a garota se engasgar.
- Um pouco. - disse num sorriso patético, de lábios repuxados e desconcertados.Xena dá um tapa na água espirrando no rosto da barda que salta um grito. A guerreira começa a rir. Imediatamente, Gabrielle dá um tapa mais forte na água espirrando com mais força no rosto da guerreira. E aí foi declarada a guerra, ambas de olhos fechados esborrifavam com as mãos água pra todos os lados. Num dado momento, ao abrir os olhos, Gabrielle percebeu que Xena havia sumido. Olhou para todos os lados e não a viu. Quando de repente a guerreira surge as suas costas empurrando-a pelos ombros e a afundando na água. Mas, logo a seguir puxando-a para cima.
- Agora está iniciada, Gaby.
- Ai, Xena, que susto!
- Há anos que não faço isso. A última vez foi com o meu irmão Lyceus. - disse a guerreira tocando na ponta do nariz da barda com a ponta do dedo indicador.
- Onde você estava?
- Estava aqui embaixo d’água.Gabrielle corou, pois lembrara que como ela embaixo da água vira a guerreira nua, Xena a vira também.
- Vamos sair? Estou com fome. - disse Xena instantes depois de se banharem.
Gabrielle concordou e seguiu atrás de Xena. Assim que saíram da água, a barda se enrolou no pano.
Quando estavam comendo um uivo cortou o silêncio.
- Xena, não vai me dizer que isso foi um lobo? - perguntou a barda assustada.
- É sim, Gabrielle. Mas está muito longe, não se preocupe.
- Com você por perto, eu estou tranqüila. - disse a barda ainda com os olhos arregalados.Xena sabia que, novamente, iria servir de travesseiro para a barda. E ela se sentia feliz com isso.
Mais tarde, quando estavam deitadas e como Xena previu, a barda estava grudada à suas costas dormindo. Mas ela ainda não havia conseguido pregar os olhos, pois lembrava da cena ocorrida no riacho, onde ao mergulhar vira o belo corpo daquela garota.
Acordaram cedo e partiram em direção ao porto. Onde pegaram um barco rumo a Amphipolis. Como sempre acontecia, à noite, Gabrielle contava histórias para os passageiros e tripulantes do barco e assim o tempo passava mais depressa. Uma semana depois ancoram no porto da cidade natal da guerreira, que comenta ao pisar no cais:
- É por isso que eu gosto de viajar nos barcos novos, se viéssemos num barco antigo levaríamos mais do dobro dessa viagem.
- Que bom estar em terra firme! - exclamou Gabrielle dando um corrupio.
- Gabrielle, não seria melhor primeiro almoçar aqui e depois irmos para a taberna da minha mãe?
- Não, Xena. Ainda está muito cedo para o almoço. E eu quero almoçar lá, pois quero provar da galinha ensopada que sua mãe faz.
- Isso se ela não nos expulsar de lá.
- Não acredito que ela vá fazer isso.
- Bem, se ela fizer comeremos peixe. O rio perto de casa é bem farto.
- Nada de peixe, galinha ensopada.Pouco tempo depois, já estavam paradas na frente da taberna-hospedaria de Cyrene.
- Vamos entrar? - perguntou a barda já dentro da varanda caminhando em direção à porta.
- Vá você, eu espero aqui.Gabrielle não discutiu, empurrou a pequena porta e entrou. Procurou com o olhar até encontrar atrás do balcão uma senhora muito bonita de olhos azuis iguais aos de Xena. Se aproximou dela dizendo:
- Oi, meu nome é Gabrielle. Você deve ser Cyrene, a mãe de Xena. Queria muito conhecê-la. - e deu um sorriso tão luminoso que conquistou de imediato a simpatia de Cyrene. E começaram a conversar como se já se conhecessem.
Xena que havia entrado e estava num canto perto da porta, um pouco ansiosa, prestava atenção na conversa das duas, mas não conseguiu ouvir o que falavam. De repente ficou apreensiva ao ver a sua mãe e Gabrielle se aproximarem. Não conseguiu ver o rosto da barda, pois Cyrene estava na frente. Ainda sem encarar a mãe, Xena diz quando ela pára a sua frente:
- Oi, mãe, eu...
- Oi, filha. É assim que cumprimenta a sua mãe?Xena levanta os olhos, a olha espantada e então vê Gabrielle que lhe sorri e indica com um gesto de cabeça para que ela tomasse uma iniciativa. Percebendo o embaraço da filha, Cyrene a toma nos braços dizendo:
- Minha menina.
- Oh, mãe, me perdoe...
- Não diga nada agora, Xena, vamos ter muito tempo para conversar. Vocês devem estar cansadas, com fome... Venham, vamos para a cozinha, lá ficaremos mais à vontade e eu vou servir aquela galinha ensopada que tanto você gosta, Xena.
- Tem alguém aqui que está ansiosa para provar dessa galinha._ disse Xena apontando com o polegar pra barda.
- E com a fome que estou... - disse Gabrielle passando a mão em círculos em menção ao estômago.Xena pega a mão dela que estava em movimento e a olha com carinho e gratidão. Gabrielle ri daquele jeito de franzir o nariz que tanto a guerreira gosta.
Instantes depois.
- Bem que você disse, Xena, que essa galinha é realmente deliciosa. - disse a barda ainda comendo.
- Agora acredita. - não fora uma pergunta, mas uma afirmativa que a guerreira fazia questão de confirmar.
- Vocês devem estar cansadas. Vocês vão ficar, não é mesmo? - perguntou Cyrene um pouco apreensiva.
- Com certeza. - respondeu Gabrielle olhando para Xena.
- Então, eu mesma vou preparar o seu quarto, Xena.
- Você ainda o conservou, mãe?
- Sim, meu coração sempre soube que um dia você voltaria para casa. - disse passando a mão no rosto da filha.
- Mãe, a gente só vai ficar uns dias.
- Eu sei, a Lindinha me contou.
- E a Lindinha por acaso disse que estamos há dias sem tomar um banho decente? - disse olhando pra barda.
- Nesse caso vocês poderão escolher: temos quatro reservados de banho com água saindo da torneira, isso para banho frio.
- Não tem uma tina, mãe?
- Você não deixou que eu terminasse de falar, Xena. No meu quarto tem uma, mas é muito pequena. Talvez se a Lindinha quiser...
- Obrigada, Cyrene, mas não precisa se incomodar vou usar o reservado. - diz olhando para Xena.Ao saírem da cozinha, Xena pergunta pra Gabrielle:
- Por que você não quis tomar banho de tina?
- Não seria justo sem você. - disse passando por ela e indo atrás de Cyrene.A guerreira se sentiu surpreendida com aquela revelação. Aquela barda sempre a surpreendia.
Quando Xena entrou no quarto acompanhada de Gabrielle e sua mãe, ela percebeu que tudo estava exatamente como era antes. A cama enorme perto da janela, o armário de roupa e a mesinha com a cadeira onde ela acostumava estudar em frente à janela. Recordações povoaram a sua mente. Reagiu colocando as bolsas de viagem num canto e dizendo:
- Mãe, se me lembro bem, está tudo igual como eu deixei. Ninguém usou este quarto?
- Não mexi em nada, Xena. Apenas lavei as roupas sujas e as coloquei no armário. Nunca deixei ninguém entrar aqui.
- Xena como o seu quarto é bonito! Bem mais espaçoso que o meu lá em Poteidaia. - disse a barda.
- Agora vamos ver um quarto para a Lindinha. - disse Cyrene.
- Não precisa mãe, ela vai ficar aqui.
- Mas, Xena, tem quarto sobrando.
- Xena e eu temos dividido os quartos nas hospedarias das cidades que passamos. Cada um! Que não chega aos pés desse aqui.
- Se vocês preferem assim... Antes de dormir troquem a roupa da cama, tem roupa limpa no armário.
- Pode deixar que eu troco. - disse Gabrielle.Assim que Cyrene saiu, Gabrielle disse:
- Xena seu quarto é muito lindo.
- Você já disse isso.
- E você precisava ver seu rosto quando entrou aqui. Parecia uma adolescente.Xena que tinha ido até o armário, após abri-lo diz:
- Vem cá Gabrielle, olha só: além das roupas de cama e de banho, as minhas roupas... as minhas velhas roupas.
Gabrielle olhou uma por uma. Além de uns poucos vestidos, saias e blusas, havia uma meia dúzia de camisas masculinas e também duas calças masculinas.
- Todas essas roupas foram feitas pela minha mãe. - ao ver o olhar admirado da barda e conclui: - Me lembro quando pedi que ela fizesse as duas calças para que eu pudesse montar e ir para a lavoura com Toris e Lyceus. Eu tinha que estar em pé de igualdade com eles, principalmente quando a gente lutava.
- Lutava?
- Toris ensinou a mim e a Lyceus a lutar com espada e a bater e se defender. Depois te conto com mais detalhes. Quer conhecer a cidade?
- Primeiro quero tirar esse cheiro de maresia.
- Então venha, eu sei onde ficam os reservados.Momentos depois de tomar um banho bem prazeroso, Gabrielle entrou no quarto e ficou surpreendida pelo que vira: Xena estava vestida com uma daquelas camisas de cor azul clara e calça comprida preta. Estava linda.
- Faz dez anos, mas as roupas ainda dão em mim. Eram bem folgadas. Bem, eu era magra, agora estão quase justas. - disse a guerreira se olhando num velho espelho comprido e grande pregado na frente do armário.
- Você está linda. As roupas ficaram perfeitas em você. - disse Gabrielle vestida num roupão e após olhar ao redor, pergunta: Cadê as minhas roupas?
- As que estavam na sua bolsa, eu coloquei no armário e as sujas, mamãe levou pra lavar, levou até o meu traje.
- Vou mudar de roupa e vou ajudar Cyrene.
- Se eu conheço bem a minha mãe, ela não vai deixar.
- Não é justo e nem quero dar trabalho.
- Pode ficar sossegada, mamãe tem uma ajudante que cuida da limpeza. Agora mude de roupa que eu quero mostrar a cidade pra você. Enquanto isso eu vou ver como Argo está. Ah, se quiser pode usar qualquer roupa minha que der em você.Após ver Argo e achando que a barda estava demorando, Xena foi atrás dela e ao entrar pela cozinha a encontra conversando com a sua mãe. Ficou parada na porta olhando para a barda que estava vestindo uma blusa branca de mangas curtas e franzidas e de decote largo também franzido.
- Está reconhecendo? A blusa é sua. Deu perfeitamente em mim. As saias é que ficaram muito compridas, por isso que estou usando a minha.
- Sem dúvida que ficou melhor em você. Vamos dar um passeio?
- Vá, Lindinha, depois a gente conversa. - incentivou Cyrene ao perceber que Gabrielle ficara sem jeito.
- Está bem, mãe. Depois então a gente continua com a nossa conversa. - disse a barda antes de sair.
- Mãe?! - disse Xena a seguindo.
- Ela quer que eu a chame assim e eu gosto.
- Hum, estou vendo que você já conquistou a minha mãe. - disse Xena levantando levemente a sobrancelha.Gabrielle virou para a guerreira e disse seriamente:
- Olha, Xena, eu não tenho nenhuma intenção de me interpor entre você e a sua mãe. Eu realmente gosto dela, mas se você quiser...
- Oh, Gabrielle, eu estava brincando. Adorei saber que você gosta da minha mãe e ela de você. E quero que continue a chamando de mãe. Agora vamos, quero te mostrar um lugar onde o pôr-do-sol é uma das coisas mais bonitas que já vi e é o meu lugar preferido. Enquanto isso, vou te mostrar a cidade até o momento de irmos para lá.Xena mostrou a cidade e apresentou toda pessoa que encontrava para a barda. A guerreira percebeu que todos pareciam encantados com a sua jovem amiga. E constatou que, realmente, Gabrielle era danada para fazer amizade, como ela era encantadora.
Chegado o momento, Xena a leva ao seu lugar predileto, uma praia pequena à beira do rio.
- Nessa praia quase ninguém vem, ela fica escondida debaixo dessa ribanceira. Não vamos descer até lá porque já vai anoitecer, mas amanhã a gente vem pra tomar banho e pescar.
- É muito lindo mesmo, Xena. - disse Gabrielle olhando na beira da ribanceira a pequena praia.
- Olha, o sol está se pondo. - disse Xena sentando-se numa pedra e indicando a ponta para a barda sentar.Gabrielle se sentou ao lado dela dizendo:
- Que maravilha! Lá em Poteidaia é tão difícil ver o pôr-do-sol.
- Por quê?
- É que o rio fica um pouco longe de casa. Papai nunca deixou eu e Lila irmos com a nossa amiga Serafim ao entardecer até o rio. Pra dizer a verdade, eu nunca vi nem o amanhecer, o sol surgindo de algum lugar.
- Então amanhã você verá.
- Você vai me trazer aqui?
- Bem cedo.
Gabrielle encostou a cabeça no ombro de Xena dizendo:- É tão lindo, Xena.
Xena sentiu vontade de passar a mão na cintura da barda e ficar abraçada com ela, mas achou melhor deixar a mão onde estava, sobre a perna.
À noite, após o jantar, as três estavam sentadas na varanda conversando.
- Agora só falta Toris voltar. - disse Cyrene.
- Tem notícias dele? - perguntou Xena.
- O Sr. Dimitrius, o dono do armazém, viu Toris na Trácia há uns meses atrás.
- Quando eu levar Gabrielle de volta pra Academia vou atrás dele e vou trazê-lo de volta.
- Se você quiser podemos ir procurá-lo logo. - disse Gabrielle.
- Não, daqui a alguns dias vamos para Poteidaia e de lá para Atenas.
- Você se esqueceu que eu tenho dois meses e meio de férias? Só quero ir pra Poteidaia quando estiver perto de ir para a Academia. - disse a barda.
- Mas por quê, Lindinha, você não quer ir para a sua casa? - perguntou Cyrene.
- Não é que eu não queira ir para casa, se fosse pela minha mãe e pela minha irmã eu iria correndo. Mas, é por causa do meu pai, sei que vou me aborrecer muito. - e Gabrielle contou para Cyrene a sua história.Mais tarde.
Quando Xena entrou no quarto, a cama já estava arrumada. Gabrielle havia colocado dois travesseiros, duas cobertas e estava sentada, na cadeira da mesinha ao lado da cama, escrevendo num pergaminho.
- O que você está escrevendo? - perguntou Xena puxando a cortina da janela.
- Aquela história que você me contou sobre a M’ila, a escrava gaulesa que te ensinou os pontos de compressão, sobre a morte dela e sobre César.
- E a quem vai interessar isso? Você está perdendo o seu tempo._ disse Xena tirando a calça comprida.Gabrielle enrolou o pergaminho e se dirigindo para a cama disse:
- Xena, eu acho que vou passar a minha vida escrevendo as suas vivências, as suas aventuras.
- Não exagera, Gabrielle. - disse com pouco caso.
- Não é exagero, você sabe disso. - disse se ajeitando na cama e puxando a coberta.Antes de deitar na cama, Xena tirou a camisa, ficando só com aquela calça cavada nas nádegas.
- Xena, essa noite parece que vai ser bem fria, não seria melhor você vestir algo mais quente? - disse a barda meio sem jeito.
- Gabrielle, se eu sentir frio, puxo a coberta. E além do mais, no armário só tem roupa de dormir de algodão, eu gosto daquelas de seda transparentes.Gabrielle olhou pra própria roupa e diz:
- Eu nunca tive ou vesti uma dessas que você gosta.
Xena que estava de costas se vira para a amiga dizendo:
- Ah, me desculpe Gabrielle, eu não quis criticar a sua roupa. Sou mesma uma grossa.
- Não é não, você é sincera. É isso que eu gosto em você, entre outras coisas, é claro.
- Você é a melhor coisa que me aconteceu. - disse Xena virando-se de costas para ela, ao perceber o quão linda estava aquela garota naquele momento com os cabelos esparramados no travesseiro. E para encerrar a conversa diz: - Boa noite, Gabrielle.A barda responde e se chega um pouco mais pra perto dela. Xena fecha os olhos apertando-os, ficando imóvel. Pouco depois sente a barda encostada às suas costas. Pensa: "Vai ser uma noite terrivelmente maravilhosa que terei que passar e das muitas que virão. Seja o que for isso que estou sentindo não quero perder".
O dia ainda não havia nascido quando Xena abriu os olhos e se deparou com o belo rosto da barda. Olha-a por uns instantes antes de chamá-la. Mas a barda abre os olhos e percebendo ainda a penumbra, sussurra:
- Ainda está escuro, Xena, vamos dormir mais um pouco.
- Bem, se você não quer ver o sol nascendo, pode ficar aí dormindo mais um pouco. Eu vou me vestir e estou indo apreciar o espetáculo.Gabrielle salta tão rápido da cama que surpreende a guerreira.
Momentos depois, as duas sentadas na pedra vêm o sol despertar como se saísse de dentro do rio.
- Que coisa linda, Xena!
- Sabia que você ia gostar.
- Precisamos vir aqui mais vezes.
- Eu agora vou pescar, quer vir também? - disse Xena se levantando da pedra que estava sentada e se dirigindo a estreita descida da ribanceira.
- Sem vara e sem anzol?
- Eu vou te ensinar uma maneira melhor. - disse Xena oferecendo a mão pra ajudar a barda a descer.Depois de vários escorregões e sempre se segurando na guerreira, Gabrielle diz aliviada ao chegar na pequena praia:
- Ai, Xena, como é difícil chegar aqui!
- É por isso que ninguém vem aqui. E é por causa disso que é a parte do rio que tem mais peixe. - disse a guerreira arregalando os olhos numa fisionomia brincalhona e esfregando as mãos ansiosamente.A guerreira mostrou para a barda como ela costumava pescar. Mergulhava e deixava os dedos imóveis, quando o peixe abocanhava-os ela abria a mão e o peixe ficava preso, mas se ele se debatia muito ela o esmurrava. A barda acompanhava tudo a uma certa distância, estava fascinada com que estava vendo.
Cansada de chamar a barda para tentar ensiná-la, Xena ficou fazendo troça no caminho de volta pra casa dizendo que ela tinha medo.
- Medo? Não é medo. É que esse bicho morde, Xena. - desculpou-se Gabrielle já na cozinha com Cyrene.
Xena exibiu os quatros peixes e mostrou as mãos dizendo:
- Nenhum arranhão. É medo sim.
Gabrielle ficou sem argumento e franziu a boca e as sobrancelhas contrariada.
- Não quero que vocês briguem, filhas. - disse Cyrene um pouco apreensiva.
As duas se olham, depois olham para Cyrene e Xena então diz:
- Mãe, a gente não estava brigando. Isso é um joguinho entre nós duas, entendeu?
- Não. Mas já que não é nenhuma briga, é isso que importa. - disse Cyrene pegando os peixes e balançando a cabeça como se dissesse que elas não tinham jeito mesmo e saiu dizendo: - Crianças!E assim os dias foram passando.
Gabrielle já era conhecida por todos, inclusive numa festa em comemoração a boa colheita que tiveram e ela fora convidada a declamar uns versos sobre isso.
- Gabrielle, já vai fazer um mês que estamos aqui e você até agora não se decidiu a ir para Poteidaia.
- Ah, Xena, vamos ficar só mais uns dias. - implorou a barda.
- Não, Gabrielle, já marquei a nossa viagem para amanhã. E não adianta me olhar desse jeito. - disse a guerreira desviando o olhar para não ceder.
- Está bem, você está certa. - concordou a barda um pouco triste e avisou: - Vou avisar à mãe que a gente está de partida.
- Ela já sabe.
- Então vou recolher e arrumar as nossas coisas.Assim que Gabrielle saiu, Xena ficou pensando que ela exercia uma certa autoridade sobre a barda, pois Gabrielle não discutia e obedecia as suas ordens.
No dia seguinte, bem cedo, depois de um farto lanche, as duas estavam na estrada.
- Vai ficar calada quanto tempo? - perguntou a guerreira montada em Argo.
- Ah, Xena, não tenho nada pra falar. - disse a barda caminhando ao lado.
- Venha, suba. - disse Xena estendendo o braço para puxá-la.Cavalgaram em silêncio até o porto de Amphipolis.
Já dentro do barco, depois de terem almoçado numa taberna no cais, Gabrielle reclama:
- A gente bem que poderia ter ido por terra.
- Pelo mar é mais rápido, Gaby. Em dois dias chegaremos no porto de Poteidaia. Sem dúvida que pelo mar é mais rápido.
- Meu estômago que o diga. Nem consigo comer a sobremesa que a mãe mandou.
- Que sobremesa?
- Aquelas tortinhas de amoras.
- Gabrielle!Exatos dois dias depois chegaram ao porto de Poteidaia.
- Onde você prefere almoçar, aqui? - perguntou a guerreira ao chegar no cais.
- A gente podia comer na estrada.
- Caça ou pesca? - perguntou Xena entusiasmada.
- Você escolhe.
- Então vamos ver o que a gente encontra primeiro.Antes do fim da tarde chegaram na cidade de Poteidaia. Assim que Gabrielle abriu o pequeno portão para que ela e Xena se dirigissem até a porta da casa, foram vistas por Lila que vai ao encontro delas chamando pela mãe. Enquanto as três se abraçavam, Xena viu, novamente, o pai de Gabrielle sair pelos fundos da casa. E isso a preocupou.
- Xena, eu não sei como posso agradecer por tudo que você está fazendo por Gabrielle. - disse Hecuba segurando as mãos da guerreira.
- Não precisa agradecer. Eu faço isso pela amizade que sinto por Gabrielle. - disse a guerreira um pouco constrangida.
- Gabrielle, quanto tempo você vai ficar aqui antes de voltar para a Academia? - perguntou Lila abraçada a irmã.
- Nós vamos ficar aqui apenas alguns dias. Depois teremos que voltar à Atenas. - respondeu apontando para si mesma e para Xena.
- Eu vou levar Argo pro celeiro. - disse Xena um pouco constrangida ao perceber a decepção de Lila.Assim que Xena se afasta, Lila diz:
- Ela também vai ficar?
- Mas é claro, Lila. Xena quem vai me levar de volta à Academia.
- Eu sei, só que não é agora. Ela bem que podia nos deixar a sós.
- Lila! Essa foi a coisa mais egoísta que eu ouvi você dizer. - reclamou Gabrielle e olhou para a mãe procurando cumplicidade, mas percebeu que Hecuba apoiava as palavras de Lila.
- Isso não é só egoísmo, é ingratidão. Vou ver se Argo está bem acomodada. - disse decepcionada.Ao chegar no celeiro encontrou a guerreira acariciando Argo.
- Estou vendo que Argo está bem relaxada. - disse a barda se aproximando.
- Ela merece. - disse a guerreira assanhando a crina no topo da cabeça da égua.
- Agora é você quem merece de um bom tratamento. Vamos entrar?
- Olha Gabrielle, prefiro ficar aqui. Vi quando seu pai saiu quando me viu. Não quero tornar as coisas mais difíceis para você e ele. Por isso que vou me hospedar lá na pensão.
- Não, Xena, eu não vou deixar. - disse a barda agarrando o braço dela.
- Eu já resolvi Gabrielle.
- Não quero que você fique longe de mim.
- Não vou ficar, a pensão é logo ali. E, além do mais, Argo vai ficar aqui aos seus cuidados.
- Estou envergonhada. - disse a barda saltando o braço dela e cabisbaixa.
- Por quê, barda?
- Por isso que está acontecendo.
- Não precisa se envergonhar Gaby.
- Como eles podem te tratar desse jeito...
- Porque eles ainda não me conhecem direito. Essa fama de guerreira faz com que as pessoas se afastem, tenham medo de mim. Ainda bem que eles não sabem do meu passado.
- Que tal um banho antes do jantar? - perguntou a barda num sorriso desolado. A guerreira percebeu.
- Não, vou deixar o banho para antes de dormir. Agora vou até a pensão levar as minhas coisas, não demoro.Quando Xena chegou para jantar, percebeu que Herodotus não estava. Chamou Gabrielle de lado e perguntou:
- Seu pai ainda não voltou?
- Já e já saiu.
- Sei. - disse Xena olhando para a barda preocupada.
- Por favor, Xena, não é por sua causa. É por minha causa que ele ainda não se conformou que eu esteja na Academia, que eu esteja longe dele e que eu terminei o noivado com Perdicas.
- E por falar nisso, por onde anda seu noivo?
- Ex-noivo você quer dizer. Lila disse que ele se alistou no exército ateniense.Para Xena o jantar fora muito formal, não se sentira à vontade, apesar de todo o esforço da barda. A guerreira percebeu que Hecuba estava constrangida pela situação em si, pela ausência do marido e pelos modos de Lila ignorando a visita por ciúmes da irmã.
Gabrielle quis levá-la até a pensão, mas Xena a impede dizendo:
- Me leve até o portão e depois volte para casa. Amanhã a gente se vê.
- Boa noite, Xena. - e a barda ficou na ponta do pé e beijou a guerreira na face abaixo da orelha.Xena ainda se sentia desconcertada, ainda estava com a mão no local do beijo quando entrou no quarto da pensão. Assim que acendeu o candeeiro com um outro que trazia na mão, sentiu "o cheiro".
- O que é desta vez Ares? - disse pendurando um candeeiro na parede e colocando o outro na pequena mesa ao lado da cama.
- Acho que eu vou ter que passar incenso por todo o corpo pra ver se consigo te surpreender. - disse o deus enquanto se materializava.
- Nem todo incenso da Grécia vai tirar esse cheiro de cachorro sarnento que você tem.
- Há uns anos atrás você não pensava assim. - disse ele se aproximando.
- Diga logo porque está aqui, pois estou querendo dormir. - disse estendendo a braço direito e com a mão espalmada o impede de se aproximar mais.
- Então a menina irritante virou uma mocinha ainda mais irritante... O que é Xena, você a está criando pra você, é isso?
- Se eu não estivesse tão cansada e não estivesse nessa pensão, eu ia te quebrar a cara.
- Por que tanta violência, Xena? Apesar de que eu gosto muito disso. Mas, não é verdade o que eu disse?
- Gabrielle é minha amiga, seu cretino! E como você já deve saber, ela é protegida de Afrodite.
- Mas o que essa menina tem? Até a tonta da minha irmã caiu de amores por ela.
- E o quê você tem contra ela? Até agora não consigo ver motivo para isso.
- Então você não sabe que a luz não combina com a escuridão? Pense nisso Xena, depois não vá dizer que eu não avisei.E antes que a guerreira pudesse exigir mais explicações, o Deus da Guerra desaparece.
Xena ficou pensando nas últimas palavras dele. Não era a primeira vez que Ares se refere a Gabrielle como "a luz". E isso a estava preocupando, pois temia pela barda. Quando ia tirar o chakram da cintura, alguém bate a porta. A guerreira a abre com o chakram na mão.
- Você é Xena, a princesa guerreira? - perguntou um camponês.
- Sou eu. O que deseja?
- Meu nome é Higino, sou fazendeiro de um vilarejo aqui perto. Eu preciso, quer dizer, nós precisamos de sua ajuda.
- E qual é o problema? - pergunta a guerreira ainda parada na porta.
- Conhece o guerreiro Spiros?
- Conheço. O que tem ele?
- Ele e seus homens estão tentando tomar as nossas terras. Ele deu um prazo de três dias para que pagássemos uma fortuna, mais até que o valor das terras, senão eles nos expulsariam e tomariam as nossas terras.
- Quantos homens ele tem?
- Não deu pra contar direito, mas deve ser uns dez ou doze. Ele só ataca à noite, fica difícil pra perceber.Xena sentiu que essa era uma boa desculpa pra se afastar por uns dias de Poteidaia sem magoar Gabrielle.
Nem bem amanhecera, Xena foi até o celeiro, atrelou Argo e antes de sair, se dirigiu até a janela do quarto de Gabrielle. Tentou abrir, mas estava fechada. Bateu de leve na janela enquanto chamava o nome da barda. Nada. Bateu e chamou por ela novamente. Nenhum movimento vindo do quarto. Quando ia se retirar, a janela se abriu.
- Xena, o que...
- Xiii... Gabrielle, fale baixo. Olha, eu vou ter que me ausentar por uns dias, mas volto para te levar para Atenas. - disse Xena baixinho.
- Se ausentar? Você vai pra onde?
- Para um vilarejo aqui por perto, vou tentar resolver um problema.
- Espera, eu vou com você.
- Nada disso. - disse Xena segurando o braço da barda pra que não saísse, falando a seguir: - Enquanto isso você passa uns dias com a sua família.
- Mas Xena...
- Não discuta comigo, Gabrielle. E faça o que eu estou mandando.
Continua...