A Barda e a Guerreira

By SOMARQ

 

 

 

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Ao acordar, Xena percebeu que estava de frente pra Gabrielle. Ficou olhando-a por uns instantes. Como aquela menina estava bela! Olhou pra baixo e viu o decote insinuante e generoso que deixa ver o belíssimo colo e na transparência do pano os seios arfantes e róseos já prontos em perfeita harmonia com aquele corpo ainda em formação.

Voltou a olhar pro rosto de neném e seus olhos pararam na boca, naqueles lábios perfeitos e rosados, tão próximos que sentiu vontade de beijá-los, mas se conteve. Suspirou profundamente e se levantou. Em pouco tempo já estava completamente uniformizada e armada. Olhou pra barda que dormia profundamente e saiu sem fazer barulho.

Xena inspecionou todos os pontos das casas, dos dois lados, inclusive o celeiro. Depois passou pela cozinha, preparou uma bandeja com desjejum para as duas e foi para o quarto. Chegando lá, percebeu que a barda ainda estava dormindo. Colocou a bandeja na mesa, depois se sentou na cama e com uma pluma que havia pegado num jarro do corredor, deslizou contornando o rosto da barda e fazendo cócegas na ponta do nariz dela, que resmunga algo inaudível e com os olhos semi-serrados olha pra ela.

- Bom dia, preguiçosa. - disse Xena passando a pluma novamente na ponta do nariz dela.
- Xena... Bom dia. - respondeu segurando a pluma e olhando pra guerreira ainda sonolenta, diz: Você está toda arrumada...
- E estou com fome. Vamos comer? - perguntou a guerreira apontando a mesa.
- Só o tempo de eu lavar o rosto. - disse Gabrielle pulando da cama.

Xena sentou-se à mesa, instantes depois a barda se juntou a ela.

- Deixa que eu te sirva. - disse Gabrielle colocando o leite na caneca da guerreira, depois passou geléia nas fatias de pão, as colocou no prato da guerreira e depois se sentou ao seu lado.

Xena adorava vê-la pela manhã, pois achava que Gabrielle ficava mais bonita ao despertar. Enquanto a barda a servia, a guerreira apreciava o que o generoso e transparente decote lhe permitia ver. Foi sacudida do seu deleite pela voz dela:

- Xena!
- O que foi Gabrielle?
- Estou falando com você e você nem está prestando atenção.
- O que foi que você perguntou?
- Aonde você foi?
- Ah, sim. Dei uma inspecionada por aí.
- E não me acordou?
- Pra quê? Você estava dormindo tão tranqüila que eu não tive coragem de te acordar.
- Me desculpe.
- De quê?
- Logo no meu primeiro dia de ajudante e eu durmo que nem um bebê!

Xena acaba de beber o leite, limpa a boca no pequeno pano da mesa e diz ao se levantar:

- Mas você ainda é um bebê!
- Xena!

A guerreira que havia se dirigido para a porta, pára e virando-se para a barda diz, contendo a vontade de rir:

- Espero você lá no salão, neném.

Nem bem a guerreira saiu, a barda resmunga atirando o pano que acabara de limpar a boca na mesa, dizendo entre os dentes:

- Um bebê! É assim que ela me vê... Um bebê!

Quando passou pela porta secreta Gabrielle viu um grupo de garotas, todas em roupas íntimas descendo a escada. E viu quando uma parou na escada dizendo:

- Meninas olhem só quem está aqui!

O nome de Xena ecoou pelo salão num uníssono coro de quinze garotas.

Xena vira-se ao ouvir seu nome e meio sem graça é cercada pelas garotas. Gabrielle fica observando lá de cima do corredor. Todas querem tocar na guerreira, mas a garota de cabelos negros ondulados que as havia alertado diz enlaçando o braço da guerreira:

- Meninas entrem na fila, pois a preferência é minha.
- Odessa estou aqui a trabalho. - avisou Xena.
- Tudo bem, depois que o trabalho terminar e se você quiser, sabe onde me encontrar.
- Meninas que assanhamento! Xena não está aqui sozinha, ela veio acompanhada da sua ajudante Gabrielle. - disse Aglaia mostrando a barda no alto da escada.

Gabrielle desceu cada degrau sem tirar os olhos de cima de Xena, que estava com um sorriso patético e ainda cercada por aquelas garotas, cada uma mais bonita que a outra. Assim que pisou no salão Gabrielle foi cercada por três garotas que a conduziram até onde Xena estava.

- Ela é sua escrava, Xena? - perguntou Odessa.
- Não, Gabrielle é minha amiga e ajudante. - disse Xena rapidamente e olhando para a barda.
- Hum... Sua amiga é muito bonita. - disse Odessa.

Gabrielle sorri para ela e percebe que Xena está completamente desconfortável com a situação, pois, mesmo em pé, o seu pé não pára de tamborilar o chão.

- Gabrielle, você sendo amiga de Xena sempre será bem-vinda aqui. - ainda Odessa.
- Obrigada. - disse sorrindo.
- Bem, meninas, acho que vocês têm o quê fazer, não é mesmo? - interrompeu Aglaia.

Após a saída ruidosa das garotas, Xena que ainda estava um tanto escabreada, diz sem olhar para a barda:

- Excelente a sua sugestão, Aglaia. É melhor mesmo que as garotas participem do plano.
- Então vamos repassar o plano já que Gabrielle está aqui. - disse Aglaia.

Quando terminaram, Xena notou que Gabrielle estava um pouco irritada, embora calada. Achou melhor esperar um momento oportuno para conversarem.

- Meninas, vocês são as minhas convidadas para o almoço. Mandarei chamá-las. Agora tenho que ver como está o orçamento e o balanço do mês. Fiquem à vontade.

Assim que ficaram completamente sozinhas, Gabrielle diz:

- Xena, por que você me excluiu do plano?
- Mas eu não te excluir.
- Não?! Me colocar na janela dos fundos como vigia é o quê então?
- Gabrielle, eu quero que você fique lá, porque é uma incumbência muito importante.
- Mas Xena, eu poderia ser mais útil aqui embaixo...
- Gabrielle entenda, não posso colocar lá qualquer um. Tem que ser uma pessoa que eu sei que não vai se distrair, que prestará atenção em qualquer movimento e que me avisará a tempo. E essa pessoa é você. Além disso, você prometeu que ia me obedecer._ disse Xena seriamente.
- E vou, mas acho que eu poderia...
- Gabrielle!
- Ta bem, não vou mais reclamar.
- Acho bom.

Durante o almoço com Aglaia, Gabrielle permaneceu calada. Xena a olhava de soslaio enquanto conversava amenidades com a anfitriã.

- Gabrielle, a comida não está do seu agrado?_ perguntou Aglaia.
- Oh, sim. Está uma delícia. - respondeu a barda.
- Então porque você está com esta preguinha entre as sobrancelhas, não está sendo bem tratada? Está chateada?

Gabrielle olhou para Xena e depois de novo para Aglaia, dizendo:

- Pode estar certa de que não é contigo. Eu nunca fui tão bem tratada, isso sem contar com a mãe Cyrene.

Xena coçou o nariz pra não rir, disse:

- Ela está chateada comigo. Porque dei uma incumbência que ela não gostou. Mas vai cumprir, não é Gabrielle?
- Vou.

Aglaia segura a mão de Gabrielle dizendo:

- Menina, Xena sabe o que faz. Se ela manda fazer uma coisa, é porque tem certeza do que está fazendo. Saiba que essa não é a primeira ou segunda vez que Xena me socorre. Se eu tivesse que pagar a ela tudo que devo, teria que vender a casa com tudo que possuo e ainda ia ficar devendo.
- Não exagera, Aglaia. - disse a guerreira.
- Minha dívida com você, Xena, é eterna. - disse também segurando com a outra mão a mão de Xena.

Quando a noite chega, todos se põem a postos. A um sinal de Xena, Aglaia mandou abrir as portas para começar o expediente. Xena foi até onde Gabrielle estava. A barda vigiava a rua olhando através das frestas da janela.

- Dá pra ver direito? - perguntou Xena se aproximando.
- Perfeitamente. Achei melhor ficar no escuro, fechar a janela e espiar pelas frestas. Eu poderei ver sem ser vista.
- Muito bom. - disse Xena percebendo que Gabrielle estava levando mesmo a sério seu trabalho. Conclui: - Qualquer movimento estranho me avise imediatamente.

Aglaia entra dizendo:

- Xena, eles estão chegando. Um dos meus espiões viu quando eles estavam vindo e veio correndo me avisar.
- São aqueles ali? - mostrou Xena a Aglaia.
- Eles mesmos. - respondeu Aglaia após espiar e conclui: - Só que desta vez trouxeram reforço. Com isso eu não contava.
- Mas eu sim. - disse Xena e virando-se para a barda diz: - Gabrielle, eu vou descer e me esconder. Você já sabe, preste muita atenção, não desgruda os olhos daqui. Qualquer coisa me avise. Tome cuidado.
- Você também.
- Xena, você quer que eu mande uma das meninas pra ficar aqui com Gabrielle? - perguntou Aglaia.

Xena após olhar para a barda e perceber que ela ficou irritada, diz:

- Não, obrigada Aglaia. Gabrielle pode fazer isso sozinha.

Em troca a guerreira recebeu aquele sorriso de nariz franzido que só a barda sabia dar e que ela tanto gostava.

Xena e Aglaia tinham acabado de se retirar, quando Gabrielle notou que do grupo de bandidos apenas um homem ficou com os cavalos que estavam amarrados na frente do celeiro. Percebeu que ele olhava para todos os lados e depois ficou andando de um lado para o outro. Resolveu ficar de olho nele.

Enquanto isso, Xena, que já estava do outro lado da casa e escondida no lado direito do corredor, observava o movimento. Todo homem que entrava era recebido por uma das meninas que o conduzia às mesas. Até que entraram, de uma só vez, os doze homens mal vestidos, de aspecto sujo e muito bem armados. Xena olha para Aglaia e para Tynus, os dois estavam pálidos. Perfeito. Isso dava uma certa vantagem para ela, a da surpresa. Pois, para que o plano desse certo os bandidos teriam que sentir que eram os donos da situação.

- Vim tomar posse do que é meu. - disse um dos homens.
- Do que é nosso. - corrigiu o outro.

Xena percebeu que aqueles dois homens de bigodes enormes, cabelos desgrenhados e aspecto repugnantes, que estavam mais à frente dos outros, eram os irmãos Lucius e Virgilius.

- Não está à venda, senhores. - respondeu Aglaia com uma mão ajeitando o cabelo e com a outra segurando o braço de Tynus que havia cambaleado.
- O que foi que você disse, mulher?
- Você escutou muito bem. Eu disse que não está à venda.
- Ela deve estar louca! - disse o mais baixo.
- Então você arranjou os dinares? - perguntou o mais alto.
- Não. Eu já paguei o imposto esse ano.
- Mulher, você deve estar louca mesmo. - disse o mais baixo.
- Bem, se vocês não vão pagar pra se divertir, podem se retirar. - disse Aglaia super nervosa.
- Depois não vá dizer que não avisamos, dona. Foi você quem pediu. - disse o mais alto e com um estalo de dedos dele, os dez homens fazem um semicírculo ao pé da escada cercando as pessoas no salão e todos com as espadas em riste.

Os freqüentadores fizeram menção de se retirar, mas foram contidos.

- Vamos fazer o seguinte: cada um dos senhores vai contribuir com tudo de valor que trouxeram para gastar aqui, depois vão sair bem quietinhos; as meninas vão divertir a gente e esse dois aqui vão ter o que merecem. - disse o mais alto apontando a espada na direção de Aglaia e de Tynus.

Num piscar de olhos, todas as espadas foram quebradas, ouvindo-se apenas um sibilar de algo circulando no ar e terminando na mão de uma certa guerreira no alto da escada, que após dar o seu grito de guerra, grita:

- Agora meninas!

Como um enxame de ferozes abelhas, as garotas do salão avançam pra cima dos doze bandidos todas munidas de vassouras. Batem até Xena ordenar que parassem.

Nisso, Gabrielle percebeu que o homem que tomava conta dos cavalos deu a volta pelo lado e escalou uma janela da casa de show. A barda percebeu que era uma das janelas de um dos quartos das garotas. Desesperada correu para a porta secreta. Antes de abri-la olhou pela janelinha transparente da moldura e viu que o bandido havia chegado primeiro. Viu quando ele ajeitou uma flecha no arco e que se ajeitou de costas para ela. Sabendo que só teria uma única chance e que teria que ser mais rápida como nunca fora antes. Num ímpeto de desespero por saber que a vida da guerreira estava em suas mãos, Gabrielle rompe pela porta afora desferindo golpes de cajado em cima do arqueiro. Ao perceber que o homem estava desmaiado, olha para baixo no salão e toda desgrenhada e ofegante diz:

- Esse aqui é o último... Xena!

O que Xena fez pra conter o riso, nem ela mesma seria capaz de dizer. Seria desrespeitoso com a barda, mas vê-la assim desgrenhada, ruborizada, ofegante, com os olhos arregalados e toda atrapalhada com o cajado que parecia que lhe queimava as mãos, era demais pra guerreira, por isso coçou o nariz por uns instantes e virando-se para Aglaia diz:

- Aglaia traga as cordas, eu mesma vou amarrar um por um. Quero essas ovelhas desgarradas e mal cheirosas bem presas, vou levá-las e entregá-las aos domesticadores de ovelhas más.
- Não pro Gar não! - disse o irmão mais baixo.
- Cala a boca, idiota! - gritou o outro irmão.

Xena puxa Aglaia para o lado, perguntando:

- Quem é Gar?
- É o mais recente homem da lei nomeado pra tomar conta dessa região. Ele é muito respeitado, tanto que nem freqüenta aqui.
- Onde posso encontrá-lo?
- Tynus a ajudará a levá-los lá.

Quando voltaram encontraram Aglaia ainda apreensiva.

- E agora o que é? - perguntou Xena.
- Estou preocupada. É que eles depois de cumprirem a pena, com certeza virão se vingar da gente.
- Eu não me preocuparia com isso se fosse você.
- Por quê?
- Porque eles foram levados para Corinto, onde são procurados por vários delitos e assassinatos, inclusive de um juiz. E você sabe qual é a penalidade para isso em Corinto.
- Serão enforcados. - contou Tynus.

Aglaia suspira aliviada.

- O que houve com os fregueses? - perguntou Xena olhando o lugar vazio.
- Não havia mais clima pra isso hoje. Eles entenderam. Voltarão amanhã. Mas hoje a festa é toda sua. Comida, bebida e... E o que mais você quiser. Inclusive você também, Gabrielle.

A barda que até então estava um pouco afastada se aproxima dizendo:

- Toda essa confusão me deu uma fome!

Xena sentiu vontade de arreliá-la dizendo "Que novidade!", mas ficou calada.

Já havia uma mesa pronta, cheia de iguarias esperando por elas. Xena olhou de soslaio para Gabrielle e percebeu, nitidamente, o prazer estampado naquele rosto. Era a terceira vez no mesmo dia em que ela teve que prender o riso porque não queria se indispor com a barda. Então se virou para a anfitriã dizendo:

- Aglaia, primeiro a gente vai lavar as mãos. Só em pegar naquelas trezes ovelhas sujas...
- Não precisam sair. - avisou Aglaia e gritando: - Meninas tragam as bacias e as jarras para as nossas convidadas lavarem as mãos.

Xena havia arranjado um pretexto para se ausentar um pouco dali com a barda, pois queria conversar com ela. Mas Aglaia, como sempre prestativa e eficiente, pôs abaixo o seu intento. Durante todo o jantar, Xena foi paparicada pelas moças que lhe davam comida na boca, vinho, uva e até um doce que a guerreira não queria, mas, por precipitação da garota, acabou tendo que comer. De vez em quando, olhava para a barda que comia sozinha, pois ela havia dispensado com extrema autoridade e delicadeza as três garotas que haviam se interessado por ela, as mesmas que a cercaram de manhã. Xena percebeu que em nenhum momento, pelo menos quando ela estava olhando, a barda não lhe ergueu o olhar. Ou ela estava distraída com a comida ou discretamente fingia não ver as intenções daquelas garotas com ela, pensou. O fato, o certo mesmo, foi que estava se sentindo desconfortável. Temia por sua reputação perante a barda. Ela que nunca se importou com a opinião dos outros sobre o que fazia e com quem dormia, agora torcia para que a barda, na sua inocência, não percebesse nada. Não queria que ela a temesse, não agüentaria que ela se afastasse por causa disso. Quando olhou para Aglaia foi tão expressivo o olhar que transmitiu tudo o que sentia e a anfitriã percebeu.

- Meninas, agora vocês todas vão pra cama.

Como o frenesi foi geral, Aglaia avisa:

- Cada uma pro seu quarto. Quero conversar com Xena e Gabrielle. - como ninguém se moveu do lugar disse com rispidez: Vão! Vão!

Depois que as garotas se retiraram, Gabrielle se levanta dizendo:

- Vou subir.
- Daqui a pouco eu vou também. - disse Xena.

Esperou que a barda atravessasse para o outro lado da casa e confidenciou pra Aglaia:

- Gabrielle não sabe das minhas preferências e nem quero que ela saiba.
- Você tem certeza disso?
- Claro. Ela é muito ingênua.
- E você está completamente apaixonada por ela.

Bem que Xena tentou argumentar, mas a voz não saiu porque não sabia o que dizer.

- Não adianta negar, Xena, está no seu olhar.
- Ela não sabe. - disse olhando pra baixo.
- Por que você não se declara?
- Não, nem pensar. Tenho medo de perder a amizade dela, que é a coisa mais importante para mim.
- Se você quiser posso dar uma ajuda, fazer uma sondagem...
- Não, por favor, Aglaia, não quero que você faça nada. Obrigada pela intenção, mas se um dia tiver que ser, será.

Quando Xena entrou no quarto encontrou Gabrielle atrás da divisória dentro daquela enorme tina embutida no chão. Rápida se despiu enquanto dizia:

- Estava esperando por mim?
- Se você quer que eu lave as suas costas... - respondeu seriamente.

Quando entrou na tina Xena percebeu que a barda não a olhara, se banhava simplesmente. Xena virou as costas para que ela a ensaboasse. Gabrielle pegou a esponja e esfregou-lhe as costas rapidamente.

- Vire pra que eu possa...
- Já lavei as minhas costas. - avisou a barda.
- Ta zangada comigo? - perguntou a guerreira com um certo cinismo.
- O que você acha? - disse a barda percebendo e irritada.
- Eu acho que não há motivo para isso.
- Acha mesmo, Xena? - disse encarando-a.
- Estou dizendo. - disse também a encarando.
- Ah, então todo o meu esforço não lhe serve de nada?
- Não estou entendendo, Gabrielle.
- Você não reconhece as coisas que eu faço.
- Mas o quê eu não reconheci?! Tudo bem, ainda não te agradeci por ter me obedecido e ter ficado de vigia. E também por ter ajudado as meninas a pegar aquele décimo terceiro bandido na escada. Foi realmente muito arriscado.

Foi o tom de voz da guerreira que não convenceu a barda que ela estava sendo sincera.

- Oh, Xena, não me trate assim! Eu não sou mais criança, não sou nenhum bebê.

Xena ri, dizendo, enquanto acaba de se ensaboar:

- Ah, é sim, neném.
- Não sou não. Sou sua ajudante. Não precisa temer por mim, sou forte, sei me defender. Inclusive, já te ajudei lá em Poteidaia, lembra? E há pouco...
- Mas eu acabei de te agradecer, neném.
- Não me trate assim, Xena. Não sou nenhum ser frágil, um neném. Você pode não me ver assim, mas sou uma mulher e sou sua amiga, sua companheira, sua ajudante. Não quero ser excluída das lutas.
- Ta bem, Gabrielle. Da próxima vez que eu tiver que enfrentar uns anões bandidos, deixo-os todos pra você. - disse Xena brincando.
- OH, XENA!... - pronunciou numa voz completamente rouca e entre os dentes, levantando-se bruscamente da tina esquecendo o pudor que sempre tivera.

Xena ante a cena de irritação da barda e de ver a explícita nudez dela, ficou totalmente abobalhada e com a boca entreaberta sem conseguir pronunciar uma palavra. Completamente irritada Gabrielle se enxugou resmungando, vestiu a calça e a roupa de dormir e se deitou. A guerreira, ainda atônita, só agora se levanta da tina, se enxuga, veste a calça e ainda sem graça se deita na cama. Percebe que a barda, de costas para ela, estava de braços cruzados e tamborilando impacientemente com os dedos nas próprias costas.

- Gabrielle, eu não quis te ofender, eu só estava brincando...
- O que eu tenho que fazer pra você me levar a sério, Xena? - perguntou sem se virar.

Quando Xena ia responder, batem à porta.

Xena se levanta, veste o roupão e abre a porta.

- Desculpe em incomodar, Xena. Mas achei que você gostaria de tomar conhecimento disto. - disse Aglaia mostrando um arco e várias flechas.
- Não estou entendendo.
- Isto aqui foi encontrado por uma das meninas. Estava no corredor no chão da passagem secreta. Entendeu agora?

Xena pegou o arco e as flechas e disse:

- Obrigada, Aglaia. Você não pode imaginar como me foi útil agora.

Depois que fechou a porta, Xena chamou por Gabrielle, que olhou para ela.

- Então o bandido que você deu uma surra estava usando isto aqui?
- Ele ia te matar.
- Gabrielle, eu tremo só de pensar se ele tivesse sido mais rápido e que você tivesse sido atingida por uma destas flechas.
- Acho até que ele nem percebeu de onde eu surgi, foi tudo muito rápido. Pra dizer a verdade nem sei como consegui.

Xena joga a arma no chão e se sentando na cama diz:

- Gabrielle, eu tenho muito orgulho de você, mas também tenho medo que você se machuque ou que...
- Que eu morra? Xena, se tiver que acontecer, acontecerá.
- Não comigo por perto. Eu não deixo. Nem que eu tenha que dar a minha vida pela sua.
- Não Xena, isso não. - disse a barda se atirando nos braços da guerreira.

Percebendo que Gabrielle estava chorando, Xena se deita com a barda nos braços e diz tentando acalentá-la:

- Não chore, Gabrielle, não chore.

Mas a barda chorou até adormecer.

Xena deu uma olhada no roupão que estava usando, ia ter que dormir assim. A sensação do peso do corpo da barda no seu corpo era a recompensa pelo desconforto. Disse para si mesma: "Mas que garota temperamental! Temperamental só não, emotiva. Ah, Gabrielle, eu não posso te perder, acho que enlouqueceria se isso acontecesse. Você é a minha luz, a minha alma. Por isso, eu tenho que te proteger para proteger a mim mesma".

Amanheceu e mais uma vez Xena quase não dormira. Estava sentada na cama, encostada na cabeceira, quando Gabrielle acordou. A guerreira a cumprimentou e disse depois de brincar com a franja da barda:

- Gabrielle, você sabe que dia é amanhã?

A barda ainda um pouco sonolenta, coça os olhos, senta na cama e ao lembrar diz:

- Oh, não, Xena...
- Pois é, dia de você se apresentar na Academia. Temos que partir após o desjejum para chegarmos na cidade antes do anoitecer.

Na estrada, montada em Argo e com Gabrielle sentada atrás, Xena perguntou:

- Ainda está chateada?
- Não estou chateada, estou triste.
- Ah, não Gabrielle, não vá começar de novo com a mesma história...
- De quê adiantaria, já me conformei. - disse encostando o rosto nas costas de Xena.
- É isso aí garota! - disse Xena apagando o sorriso que trazia nos lábios.

Como a guerreira previra, chegaram antes do anoitecer na cidade de Atenas. Dormiram numa pousada e no dia seguinte, pela manhã já estavam na frente da Academia. E no portão tinha um pergaminho pregado.

- E essa agora, o quê será? - perguntou Gabrielle após ler.
- Como diz aí, pedem para os pais ou responsáveis para ficarem esperando enquanto eles terão uma reunião com os alunos. Olha, estão abrindo o portão. Vai lá Gaby, eu vou ficar aqui te esperando.

Assim que a barda entrou, Xena aproveitou para ir até o armazém, precisava comprar uma coisa. Demorou um pouco e quando voltou encontrou a barda aflita abraçada no pescoço de Argo.

- O que foi Gabrielle?
- Xena... Eu não vou agüentar!...
- O quê Gabrielle?
- Esse período que vou ter que cumprir... Não terei férias, não poderei ir pra casa, pra casa da mãe Cyrene e nem... Poderei estar com você. - disse com lágrimas nos olhos.
- Explica isso direito.
- Você se lembra? Eu te disse que íamos ter aulas com os filósofos mais conceituados e famosos da Grécia.
- Lembro, mas não era isso que você queria?
- Era. Eu sempre quis conhecer esses filósofos, aprender com eles, dialogar com eles...
- Então?
- Mas não nas minhas férias! Ter que agüentar quase dez meses sem poder estar na sua companhia já era um martírio, imagina agora o ano todo. Só vou poder sair daqui após a formatura.
- Você não terá pelo menos uma semana de férias?
- Eles nos deram só quinze dias.
- Então Gabrielle!
- Xena serão apenas quinze dias! Não poderei me ausentar da cidade.
- É, pra Poteidaia e Amphipolis nem pensar.
- Viu só?
- Mas para dar uns passeios a uns lugares belíssimos que conheço, quinze dias dá perfeitamente.
- Verdade? - disse a barda abrindo um sorriso.
- Quando será isso?
- Daqui a seis meses. - e tornou a desanimar.
- Enquanto você saboreia isso aqui. - disse mostrando o doce que trouxera pra ela e vendo o sorriso surgindo no rosto dela novamente, conclui: - Vamos combinar sobre os domingos que virei te visitar, antes desses quinze dias pro nosso passeio.

Já na estrada, Xena ainda podia sentir o perfume e o "extremado-Gabrielle-abraço" que só a barda sabia dar. Ficou triste. Sentiu a boca seca, amarga e os olhos de repente nublaram, sentiu inexplicavelmente uma vontade de chorar. Mas ela era uma guerreira e uma guerreira não chora à toa. Pôs isso na cabeça e seguiu cavalgando pela estrada que levaria para o porto. Como estava escurecendo, resolveu pernoitar na floresta. Escolheu um lugar afastado da estrada. Quando terminou de desatrelar Argo sentiu "o cheiro".

- Que inferno Ares, eu já pedi que me deixe em paz! O que é que você quer?
- Xena, eu te avisei. - disse se materializando.
- De novo com essa conversa. - disse a guerreira escovando Argo.
- Eu não te disse que a luz não combina com a escuridão? E você mudou o seu destino outra vez. E não é a primeira vez que você faz isso.

Xena olha para o deus que está totalmente nervoso a sua frente e diz:

- Acho que você enlouqueceu de vez, Ares.
- Xena! Chega de interferir no rumo das coisas, do destino.
- Você deve estar mesmo maluco, Ares. Como eu posso interferir no destino? - perguntou colocando as mãos na cintura.
- Ah, não sabe? Primeiro você foi para Amphipolis com um dia de antecipação, saindo de lá no mesmo dia que foi expulsa pela sua mãe, ao invés de ter passado uma noite lá. Por causa disso, chegou antes, onde deveria chegar durante ou após, interferindo no destino. Você não pode inverter o rumo da história.
- Você deve estar louco...
- Louco? Estou furioso por você ter impedido o casamento da sua amiguinha. Você não devia ter feito isso pra benefício próprio, Xena. Você não tem esse direito! - esbravejou o deus.
- Você realmente enlouqueceu Ares. - disse Xena estendendo o cobertor no chão e ao levantar conclui: - Nada do que você disse até agora fez sentido. Não está dizendo coisa com coisa. Você bebeu Ares?
- Não se faça de sonsa, Xena. Estúpida e burra eu sei que você não é.
- Eu ainda não consegui entender aonde você quer chegar. - disse tornando a pôr as mãos nos quadris.
- Você interferiu no trabalho das Fases! - gritou ele.
- Enlouqueceu mesmo. Nenhum mortal pode ou consegue interferir nas Fases do destino. Você sabe disso.
- Mas de alguma maneira você o fez e por duas vezes!
- Se você não está louco, deve estar bêbedo. Agora cai fora que eu quero dormir.
- Ainda vou descobrir como você fez isso, Xena.
- Se manda, Ares. - disse preparando a fogueira.
- Eu vou, mas pode ficar certa que isso não vai ficar assim.

Assim que o deus some, Xena sentada defronte a fogueira pensa "Isso só pode ser mais uma das tramóias de Ares para tentar me levar para a escuridão. Mas eu tenho a luz, a luz de Gabrielle pra me guiar e mostrar o caminho certo. Será que Ares está enlouquecendo?!".

Dias depois de ter pegado o barco para Amphipolis, Xena pega um outro para a Trácia, foi atrás de notícias do seu irmão Toris. Não queria voltar para casa sem alguma notícia para a sua mãe.

Não foi fácil achar Toris, mas o encontrou trabalhando numa carpintaria. E assim que os dois irmãos se vêem há um certo constrangimento.

- Toris eu voltei para casa. - disse Xena tomando a iniciativa.
- E onde está o seu exército?
- Ficou pra trás, num passado que eu quero esquecer.
- A mãe te aceitou de volta?
- Ela me perdoou.
- E o que você veio fazer aqui?
- Vim te buscar. O seu lugar é lá em Amphipolis.
- Como ela está? - perguntou se sentando numa das diversas cadeiras ali prontas.
- Sentindo a sua falta. Vá vê-la.
- Não posso.
- Por quê? - perguntou Xena se sentando também.
- Eu poderia dizer que é por causa do trabalho que faço aqui, mas pra você eu nunca consegui mentir ou esconder nada, é que eu tenho vergonha de voltar lá, Xena.
- Vergonha por que, Toris?
- Por ter abandonado vocês depois que Lyceus morreu e de ter te deixado à própria sorte. Fui um covarde.
- Não, Toris, eu não acho que você foi um covarde por ter ido embora após termos vencido os homens de Cortese e perdido Lyceus. Você partiu porque não queria me ver no quê eu havia me tornado, uma guerreira sanguinária. E, naquele momento, nada e ninguém poderia me controlar.
- Mesmo assim eu não devia ter fugido.
- São águas passadas, Toris. Eu me arrependi e voltei. Agora só falta você. A mãe sente falta de você. Coitada, tem dado um duro para manter a taberna e a hospedaria. Você precisa ver o estado em que estão as terras que você tomava conta.

E assim Xena conseguiu convencer seu irmão a voltar com ela para Amphipolis.

 Num final de tarde, após ter ajudado o seu irmão na lavoura, Xena fora até o quarto para pegar o pano de banho e o roupão. Quando ia sair para se dirigir a um dos reservados, Cyrene a pára na porta dizendo:

- Xena, outro dia quando estava colocando as suas camisas limpas no armário, vi lá no fundo umas roupas...

Não chegou a completar o que ia dizer, pois parou de falar quando viu que Xena correu e abriu a porta do armário dizendo:

- Mãe, você não lavou aquelas roupas?
- Não. Percebi pelo tamanho que não eram suas.

Xena sentiu um alívio, mas não disse nada. Apenas olhou para a sua mãe meio sem jeito, embaraçada.

- São da Lindinha, não é mesmo?

Xena apenas balançou a cabeça confirmando.

- Filha, você não acha que precisamos conversar?
- Conversar o quê mãe?
- Sobre você e a Lindinha. - disse Cyrene puxando a filha para se sentar na cama com ela.
- Ah, mãe não sei se você entenderia.
- Experimente me contar. Não me veja só como sua mãe, me veja antes como sua amiga.
- Na verdade mãe, não tenho muito que contar. Eu já te contei o que Gabrielle fez por mim, o que ela e a sua amizade representa para mim.
- Você a ama, não é filha? - perguntou segurando a mão de Xena.
- Com todo o meu coração, mãe. Mas ela não sabe.
- Eu acho que ela também a ama.
- Ama sim, mas como amiga. Gabrielle é muito pura. Não faz nem idéia do sentimento que despertou em mim.
- E você não pretende dizer isso a ela?
- Não sei mãe. Tenho medo de perdê-la, de perder a amizade dela que me é sagrada.

Um mês depois, como havia combinado, no primeiro domingo, Gabrielle estava aflita esperando por Xena. Andava de um lado para o outro e olhando sempre para a colina. Até que viu uma charrete parando próxima aquela árvore onde a guerreira deixava Argo pastando. Reconheceu a guerreira e percebeu que tinha mais alguém com ela, um homem. Ficou curiosa.

- Gaby. - disse Xena sentando no muro.
- Xena como você demorou! - disse a barda.
- Vim de charrete. Argo ficou em Amphipolis. Eu trouxe uma pessoa que quero que você conheça.

Num aceno de Xena, o tal homem que a barda vira, se senta ao lado da guerreira que, colocando uma mão em volta do ombro dele e com a outra apresentando-o, diz:

- Gabrielle, este é o meu irmão Toris.

Gabrielle abriu aquele sorriso luminoso que tanto impressionava a guerreira e agora também ao seu irmão, que lhe diz:

- Oi, Gabrielle está estudando muito?
- Não faço outra coisa. Mas descem daí, vêm para cá.

Xena olhou bem ao redor, depois deu um salto numa acrobacia e saltou na frente da barda que logo a abraçou. Enquanto Toris se limitou a descer do muro num pequeno salto e dizendo ao se aproximar das duas:

- Prefiro a maneira mais segura de descer.
- Agora sim posso apresentar melhor: Toris esta é Gabrielle, a barda de Poteidaia.
- Muito prazer, Gabrielle. Xena falou muito de você.

Toris estendeu a mão para cumprimentar a barda, que afetivamente o abraçou cumprimentando-o do seu modo. Xena sorriu ao ver o embaraço do seu irmão com os braços estendidos sem saber se a abraçava também. Ao ser incentivado pela irmã, então abraçou a barda com carinho.

Após umas explicações que Xena dá contando como encontrou o irmão e como foi o encontro dele com a mãe, ela conclui dizendo:

- Gabrielle, a mãe bem que queria mandar aquelas tortinhas para você, mas como a viagem é longa... Bem, ela mandou que eu te entregasse essas meias que ela mesma tricotou para você. Disse que as usasse para dormir, já que você sente frio nos pés.

Gabrielle ficou emocionada, pegou as meias e encostando-as no rosto, diz:

- Xena, diga para a mãe que eu a amo. E já vou usar as meias nessa noite. Faz muito frio aqui.

Xena segurou no pulso dela, perguntando:

- Gabrielle, você está precisando de alguma coisa, de cobertor, de comprar alguma coisa?
- Não, Xena, não se preocupe.
- Não quero que você passe necessidade, Gabrielle.
- Não estou passando. Ainda estou com aqueles dinares que você me deu.
- Que eu te dei não, que você ganhou me ajudando a prender aqueles bandidos. - corrigiu a guerreira.

Para Gabrielle aquelas palavras de Xena foram mais que um incentivo foi uma demonstração de reconhecimento. E, agradecida, Gabrielle sorri dizendo:

- Eu trouxe duas maçãs: uma para você, guerreira e a outra para você, maninho.

Toris olha para Xena sorrindo e voltando a olhar para a barda diz:

- É a fruta que eu mais gosto, maninha.
- E que na verdade ia ser de Argo. - disse a guerreira sorrindo.
- Oh, Xena! - reclamou a barda meio sem graça.
- E como Argo não veio, como eu. - disse Toris passando a mão e assanhando a franja da barda, tal e qual Xena costuma fazer.

Xena percebeu que a simpatia entre os dois era recíproca, sentiu uma enorme felicidade dentro de si. Animada disse:

- Quando sairmos daqui, vamos até Corinto comprar material, pois estamos construindo os nossos próprios reservados nos nossos quartos. Toris, como você sabe, é carpinteiro. E eu estou dando uma ajuda pra ele.
- E quando fica pronto? - perguntou Gabrielle curiosa.
- Nós vamos fazer tudo sem pressa e com o melhor material. - respondeu Toris.
- Gabrielle pode ficar sossegada que quando você se formar e for lá pra casa já vai estar pronto. - disse Xena ao acabar de comer a maçã.
- Eu estou contando os dias. - disse a barda.
- Ah, já ia me esquecendo... Isso é pra você. - disse Xena tirando de dentro da bolsa que carregava.
- Hum... Pensei que você tivesse esquecido. - disse a barda após cheirar o doce.
- Eu não te disse, Toris, que essa é uma barda gulosa.

O sino toca.

- Vamos Toris, essa é a segunda parte do dia que essa barda gulosa mais gosta, quando toca o sino para lanchar.
- Quando vocês voltam de Corinto? Vão passar por aqui?
- Daqui a três domingos a gente vem te ver.

Na estrada a caminho do porto, Xena e Toris resolvem parar e acampar na floresta. Depois de ter recolhido alguns gravetos e de ter ajudado a irmã acender a fogueira, Toris se senta ao lado dela num tronco. Pergunta:

- Xena, não quer se abrir comigo? Você e Lyceus eram inseparáveis, mas eu sempre fui seu confidente. Ou você não confia mais em mim?

Xena olhou bem para aqueles olhos azuis, azuis iguais aos seus e bem séria disse:

- Não preciso dizer nada, você já sabe. Você me conhece.
- Quando você vai dizer a ela?
- Não sei. Gabrielle não sabe que eu a amo. Tenho medo de afastá-la de mim com o meu amor. Eu não suportaria perder a amizade dela.

Como havia combinado, no terceiro domingo, Gabrielle chegou correndo no jardim a tempo de ver a charrete partindo, gritou o nome da guerreira quase aos prantos.

- Hei, barda, eu estou aqui.

Gabrielle olhou para trás e viu a guerreira sorrindo. E, como era de se esperar, atirou-se nos braços dela.

- Ôua... - disse Xena mantendo as pernas firmes para não cair e diz: - Pensou que eu ia embora sem te ver?
- É que eu vi a charrete se afastando pensei que você estivesse cansada de esperar.
- Nem que eu tivesse que procurar por você lá dentro, eu não ia deixar de ver você.

Gabrielle a abraça ao ouvir tais palavras. Depois pergunta:

- Onde Toris foi?
- Pegar uma encomenda, daqui a pouco vem me buscar. E você como está?
- Sentindo falta de você.
- Eu perguntei nos estudos.
- Muito bem, melhor não poderia estar.
- Sinto orgulho de você, Gabrielle.
- E eu sinto falta de você, Xena.
- Como eu disse pra você, Toris e eu, vamos dar um duro danado pra fazer as reformas nos quartos da mãe, no dele e no meu... No nosso. - corrigiu Xena rindo, depois completa: - Por isso, só vou poder vir aqui nas suas férias de quinze dias.
- Xena, eu vou ficar quase quatro meses sem te ver! Isso não é justo!
- É por um bom motivo, barda.

De repente um barulho de algo sendo arrastado pelo chão e se aproximando dali, fez com que Xena olhasse para os lados e puxasse Gabrielle para um canto, onde uma pequena árvore dava condições para se esconder. E fora nesse mesmo lugar que Xena estivera momentos atrás esperando pela barda. Perceberam que era o jardineiro arrastando um caixote de terra. Como ele se aproximou bem perto delas, Xena encostou Gabrielle contra o muro, colocando seu corpo colado no dela e com cuidado e habilidade puxou e ficou segurando uns galhos da árvore cobrindo-as.

O jardineiro resmungou que ia se queixar porque era o dia de folga dele. Deu um chute no caixote dizendo que podia esperar até amanhã e saiu. Já havia se passado algum tempo que o homem fora embora, mas Xena e Gabrielle não se moveram da posição que estavam: a barda com o rosto no colo da guerreira e esta com o queixo no topo da cabeça dela. E os dois corpos unidos e encaixados.  Além de sentir o doce perfume dos cabelos da barda e da maciez daquele corpo envolto na túnica, Xena estava com a perna esquerda entre as pernas de Gabrielle. Com muito custo e tentando manter indiferença disse:

- Bem, ele se foi mesmo. Essa foi por pouco.

Gabrielle apenas balançou a cabeça concordando, pois não conseguia falar.

Xena olhou para a colina e avistou a charrete chegando. Tirou da sacola um pequeno embrulho que entregou para Gabrielle, dizendo:

- Aqui está seu doce, talvez um pouco amassado.
- Você nunca esquece. Mas eu também não. Aqui está sua maçã e a do mano, ainda bem que não amassa. - disse a barda ao tirar as duas frutas dos bolsos da túnica.
- Ah, então foi isso o algo estranho que senti na minha perna quando a gente estava escondida.

Toris assobiou. Gabrielle acenou para Toris.

- Agora tenho que ir barda. - disse Xena levantando o queixo dela.
- Não se esqueça de mim, Xena. - diz a barda abraçando a guerreira daquele seu jeito tão peculiar.
- Estarei te esperando.

O tempo transcorria lentamente para Xena e Gabrielle, foram quase quatro meses de agonia e ansiedade. Mas, enfim, o tão esperado momento chegara.

Os portões da Academia se abrem e os alunos saem apressados. Gabrielle pára ali mesmo na porta de saída e procura com os olhos a Princesa Guerreira. Mas não a vê. Esfrega as mãos, não só pelo frio que estava sentindo, como pelo nervosismo que sentia.

- Pensou que eu não viria?
- Xena! - diz ela antes de se virar e logo após se atirando nos braços da guerreira num "extremado-Gabrielle-abraço".
- Qualquer dia desse você vai me derrubar, barda. Mas, como eu senti falta disso._ disse Xena a abraçando e sorrindo.
- Cadê Argo? - perguntou depois de ter dado uma olhada geral.
- Ela está no celeiro aqui perto.
- Quero vê-la, senti falta daquela danada também.
- Gabrielle, que roupa é essa que você está usando?

A barda deu uma voltinha mostrando a roupa para Xena. Era um casaco longo de lã todo recortado em pedaços de três cores: branco, marrom e alaranjado. O detalhe do casaco é que mostrava por fora a costura dos retalhos simetricamente bem distribuídos. Ficara perfeito na barda.

- Fui eu que fiz.
- Por que não comprou um igual a esse que estou usando? - disse Xena usando um longo casaco negro com detalhes na cola e nos punhos de pele branca acinzentada.

Parecendo que foi pega de surpresa, Gabrielle não soube responder.

- Mas é claro! Os dinares que te dei não foram suficientes. Eu nem me lembrei de que isso poderia acontecer, que viria o inverno e que aquele seu casaco cinza deve estar todo puído, que falta de responsabilidade a minha!
- Não, Xena, a falta de responsabilidade foi minha. Você me deixou com uma quantidade suficiente de dinares, eu é que meti os pés pelas mãos comprando a roupa que estou usando por baixo do casaco.

Gabrielle abre o casaco e mostra o conjunto vermelho escuro e com ornamentos prateado que vestia. Era uma saia bem curta com duas pequenas aberturas na frente das coxas com enfeites em metal prateado; por baixo da saia uma calça de pernas curtas iguais a que a guerreira usava, só que era vermelha e não preta; na cintura usava um cinto de couro marrom todo ornamentado com adereços prateados; e usava um top estilo guerreira em vermelho da mesma cor da saia e todo trançado de fitas aveludadas nas cores preta, laranja, marrom e vermelha. E mostrou também as duas munhequeiras de metal e o adorno de braço que, os que as guerreiras costumam usar eram feito de couro, mas o que ela usava era de metal. Disse:

- Eu não resisti, Xena. É um traje de guerreira e eu nunca tive um. Quase fiquei sem nenhum dinar e olha que eu pechinchei. Mas valeu a pena, é lindo, não é?
- Muito. - respondeu a guerreira ainda impressionada por ter notado que Gabrielle tinha adquirido forma, que o corpo dela tinha mudado. Percebeu encantada que quem agora estava ali a sua frente era uma belíssima, formosa e jovem mulher. Ficou olhando-a se virar, mostrando a roupa e, ao abrir totalmente o casaco, viu os quadris arredondados, as pernas perfeitas com coxas grossas e torneadas... Xena estava tão embevecida observando-a que ficou atordoada ao escutar Gabrielle dizer, fechando o casaco:
- Ih, não vai dar pra escapar dessa vez, eles estão vindo aí.
Xena se vira rapidamente, já colocando a mão no chakram e antes que o puxasse, percebe que se tratava de um pequeno grupo de rapazes e moças.
- Gabrielle, nem precisa dizer. Está é Xena, a Princesa Guerreira, não é mesmo? - perguntou um jovem de cabelos alourados.
- Xena esse é o meu amigo Orion, o contador cego.
- Cego?! - exclamou a guerreira.
- É só o apelido, é porque ele costuma declamar e contar as histórias de olhos fechados.

Então Gabrielle teve que apresentar para Xena todos os seus amigos, um por um.

- Será que dava pra você tirar o casaco por uns instantes? - perguntou Stallonus, o aluno que narrava as lutas desempenhando-as.

Xena, um pouco sem, jeito atendeu ao pedido e tirou o casaco. Imediatamente foi rodeada pelos futuros bardos que naquele momento a estavam admirando.

- É, Gabrielle, você soube descrever com exatidão como a guerreira se veste._ disse Orion.
- Mas que... Que... Mus... Músculos! - gaguejou Twickenham.

Xena deu uma olhada pra Gabrielle, que percebeu o desconforto da amiga e disse:

- Bem, pessoal, agora que vocês conheceram a minha amiga a Princesa Guerreira, vocês vão nos dar licença, pois temos um compromisso.
- Mais uma aventura, Gabrielle? - perguntou Eurípedes.
- Quem sabe.
- Vai nos contar depois? - ainda Eurípedes.
- Com certeza.

A caminho do celeiro, Xena pergunta:

- Então você fala de mim?
- Eu conto as suas aventuras. Viu só como eles ficaram bobos ao conhecê-la?
- Eu é que fiquei desconfortável, parecia que eu era um animal em exposição, tive até que tirar o casaco, sem contar com os toques que levei em diversos lugares. - se queixou a guerreira.

Gabrielle riu e assim que avista Argo, corre para abraçá-la. Xena se aproxima da égua dizendo:

- Prepare-se garota, vai ter um tratamento de princesa!
- Para onde vamos, Xena? - perguntou a barda ajudando a guerreira atrelar a égua.
- Há algum lugar que queira ir?
- O que eu queria mesmo é ir para Amphipolis, mas como são só quinze dias... Deixo ao seu dispor.
- Sendo assim vou te levar para uns lugares belíssimos que conheço.
- Vamos acampar?
- Amanhã. - disse a guerreira puxando Argo pela rédea enquanto caminhava ao lado da barda. Conclui: Que tal almoçarmos lá na taberna do...
- Do javali assado? - completou a barda esperando a confirmação da guerreira.
- Lá mesmo.
- Hum... - exclamou a barda rodando o cajado.

Só então que Xena percebeu porque a barda tinha adquirido formas tão depressa, porque era danada de gulosa.

Durante o silencioso almoço, pois só assim saboreando aquela deliciosa comida a barda parou de tagarelar. Xena aproveitou o momento para lhe dar uma notícia e prestando atenção de qual seria a reação da barda:

- Estou com dois ingressos para uma peça que vai ser apresentada hoje no final da tarde no Teatro de Dionísio.
- Uma peça? No Teatro de Dionísio? - a barda parecia paralisada e incrédula.
- Sim. Édipo Rei. Aposto que você conhece a história desse rei.
- Claro. É de Sófocles, o mais profundo dos nossos grandes dramaturgos. Oh, Xena, é verdade mesmo?

Em resposta a guerreira põe os dois ingressos sobre a mesa. Gabrielle pega um e fica admirando-o. Xena a observa e percebe que, neste instante, Gabrielle parecia uma menina que ganhara a boneca que tanto cobiçava, seus olhos diziam isso, no brilho e nas lágrimas que agora escorriam. E com voz trêmula disse:

- Minha primeira peça... E logo Édipo Rei...Não podia ser mais perfeito... Obrigada, Xena.
- Se quiser chegar a tempo, temos que partir já.
- Nem vou querer a sobremesa. - disse a barda limpando a boca com o pequeno pano de mesa.
- Pra você dispensar a sobremesa, é que isso deve ser realmente muito importante para você. Fico feliz por lhe proporcionar isso.

Gabrielle põe a mão em cima da mão da guerreira dizendo:

- Xena, eu nunca vou poder agradecer o que você tem feito por mim.
- Gabrielle, eu é que sou grata a você por ter aparecido na minha vida e por ser a minha amiga. - disse colocando a outra mão em cima da mão da barda. E antes que a garota começasse a chorar, se levantou dizendo: - Vamos?

Chegaram bem antes do entardecer na cidade, então foram para uma hospedaria e alugaram um quarto para deixar as suas coisas. Deixaram Argo no estábulo da hospedaria e foram para o teatro.

Xena ficou olhando pro rosto da barda quando entraram no teatro, Gabrielle estava encantada, trazia um sorriso nos lábios olhando tudo e emudecida de emoção. Xena a conduziu até os lugares marcados que era na quarta fileira bem em frente ao palco. Desde quando as cortinas se abriram e até o final de cada ato, a barda não se mexia, mal piscava. Xena quase não prestava atenção na peça, pois a "outra peça" ao seu lado era mais divertida e interessante. Na expressão facial da barda, ela pôde ver ansiedade, alegria, apreensão, compaixão e tristeza. Ao término da peça, lágrimas escorriam pela face dela, a qual sorria e aplaudia com entusiasmo. E até o caminho de volta para a hospedaria a barda narrou todas as cenas que a comoveu. A guerreira do lado apenas ouvia calada e feliz. Jantaram na taberna da hospedaria e a barda ainda continuava com a narração nos intervalos em que não estava comendo. Quando acabam de comer, Xena a interrompe:

- Vai querer sobremesa, Gabrielle?
- Hum... Hum. - responde a barda colocando o queixo nas mãos que eram apoiadas pelos cotovelos e diz a seguir: - Ih, Xena que falta de educação a minha, fiquei falando sem parar e nem deixei você falar, é que eu nunca tinha ido a um teatro antes. E logo a esse que é o primeiro teatro fechado de toda a Grécia. Me desculpa, ta?
- Não precisa se desculpar, Gabrielle, você sabe que eu gosto de ouvir você falar. - disse Xena e chamando a servente com um gesto de mão, diz quando ela se aproxima: - Vamos querer a sobremesa agora, enquanto isso preparem a tina para o banho lá no nosso quarto.
- Vocês vão querer mesmo tomar banho agora à noite, com esse frio todo? - perguntou surpresa a servente.
- Vamos querer sim. - respondeu a guerreira.
- Banho quente, por favor. - avisou Gabrielle.

Depois da sobremesa, a servente avisou que o banho estava pronto. As duas subiram para o quarto.

- Você viu como a servente ficou surpresa quando pedi que preparasse o banho? - perguntou Xena entrando no quarto.
- Foi por isso que pedi água quente. Acho que por aqui nessa época ninguém toma banho. - disse Gabrielle colocando o cajado e a bolsa num canto. Depois tirou o casaco e o colocou no cabideiro de parede.

Xena, que já havia tirado o casaco, fica parada com ele na mão admirando os trejeitos da barda. Ao se aproximar da guerreira, a barda toma-lhe o casaco das mãos pendurando-o ao lado do dela e diz:

- Xena acho melhor você vê se ela preparou direito o nosso banho, enquanto eu vou pagar os nossos panos de banho.

Xena foi até a tina e constatou:

- Gabrielle, você tem razão o pessoal aqui não está acostumado ao banho nessa época. A única coisa aqui para o banho, além do sabão e da esponja, só essa pequena garrafa de óleo. Nenhum frasco de sais aromáticos.
- Prepare assim mesmo, Xena. - disse a barda sentada numa cadeira tirando as botas com muito cuidado.
- Gabrielle, ainda é aquela bota? - disse a guerreira ao se aproximar.
- É sim, vou comprar outra quando for pra Poteidaia. - respondeu escondendo as botas atrás da bolsa.
- De maneira nenhuma. - disse Xena pegando-as e verificando o péssimo estado do solado e dela toda. Avisou: - Amanhã vamos comprar uma bota nova pra você. Como foi que ela durou esse tempo todo?
- Eu acho porque eu só uso fora da Academia. Lá dentro só usamos sandálias. Às vezes eu as usava pra dormir.
- Pra dormir?
- É, por causa do frio. Lá nós temos cobertores, mas você sabe que eu sinto muito frio nos pés e as minhas meias estão meio ralas. Mas desde que ganhei as meias que a mãe Cyrene me deu não precisei mais usar as botas pra dormir.
- Oh, Gabrielle, por que você não me disse isso antes?
- Xena, você tem feito tanta coisa pra mim que tive vergonha de contar, pois sabia que você iria me dar a sua parte dos dinares. E eu só fiquei desprovida de roupa, porque vendi tudo que tinha de bom para poder ter dinares suficientes para vir para a Academia.

Xena sentiu vontade de abraçá-la, mas se conteve dizendo:

- Amanhã vamos providenciar isso. Agora vamos tomar banho antes que a água esfrie. Acho melhor prendermos os nossos cabelos.

Rapidamente a guerreira se despiu e entrou na tina. Fingindo lavar o rosto, ficou observando a barda se despir. Viu-a, de costas, tirando o top e depois se enrolar no pano de banho, retirando a seguir o resto da roupa. Quando se aproximou da tina para entrar, Xena fechou os olhos jogando água no rosto. Ao abri-los viu a sua frente. Então lhe estendeu a esponja e lhe virou as costas. Gabrielle ajeitou uns fios de cabelos de Xena que haviam se desprendido, ajeitando com muito carinho, diz:

- Quanto tempo que a gente não fazia isso, não é Xena? Bem, pelo menos eu. Como é difícil lavar as costas sozinha.
- E na Academia?
- Não entendi.
- Ninguém lhe lavava as costas? É comum nas Academias ter banho comunitário entre as garotas.
- Não lá. Há apenas os reservados e o banho lá é frio.
- Mesmo nessa época?
- Sim.
- Então ninguém toma banho.
- É, tem uns alunos que os mestres precisam mandar tomar banho, senão não poderão assistir às aulas. Eu tomo banho todo dia. Mas, antes, faço tanto exercício para agüentar.
- Você não havia me contado isso, barda.
- Não achei necessário e preocupar você com bobagem.
- Nada do que diz respeito a você é bobagem para mim.

Só então que Xena percebeu que aí estava a explicação completa para o desenvolvimento físico da barda: boa comida e bastante exercício. Sentiu vontade de rir ao imaginar a barda se exercitando antes de entrar no banho, mas achou melhor conter o riso, não queria se indispor com ela. Começou a ensaboar as costas dela.

- Sabe, Xena, eu estava pensando em cortar os cabelos. - disse Gabrielle totalmente ruborizada com o toque das mãos da guerreira na sua nuca, mas aliviada por estar de costas para ela.
- Por quê?
- Queria ver como fico.
- Linda de qualquer jeito.
- Ah, assim não vale, Xena. Quero uma opinião sem ser com olhos de amiga.

Xena parou de ensaboar-lhe as costas e de frente para ela teve vontade de dizer que ela não só a olhava com olhos de amiga, mas com olhos de paixão. Mas, no entanto, disse:

- Deixe pra cortar quando estiver mais quente.
- Tem razão. Como sempre, é claro.
- Droga! - exclamou quase gritando a guerreira se virando na tina.
- O que foi? - perguntou um pouco espantada a barda.
- Essa hospedaria é pra quem não gosta mesmo de banho. Não está sentindo que a água está ficando fria?
- É mesmo, a água esfriou muito rápido, pois não tem muito tempo que a gente está aqui.

Xena pulou rapidamente da tina e ao verificar embaixo desta, diz ao se levantar:

- Sem pedras vulcânicas! Por isso, a água esfriou logo.
- É que eles não entendem de banho, porque não tomam banho nessa época.

Depois de se enrolar no pano de banho, a guerreira estende um para a barda. Gabrielle se levantou ao mesmo tempo em que pegou o pano e se cobriu. Foi um lance muito rápido e a guerreira que esperava poder ver melhor qualquer parte daquele corpo, ficou frustrada. Mas, continuou olhando de soslaio a barda se vestir. Viu as coxas dela quando Gabrielle levantou um pouco o pano de banho para vestir a calça. Logo depois ficou frustrada novamente quando a barda vestiu aquela roupa de dormir de algodão.

- Xena, não vá me dizer que você vai dormir só de calça com esse frio todo? - disse ela olhando para a guerreira que acabara de vestir a calça.
- Não. No inverno eu costumo dormir com essa camisa. - disse mostrando e vestindo uma velha camisa masculina.

Gabrielle se aproximou, ajeitou o colarinho que estava por dentro da camisa e antes de ir para a cama, diz:

- Você fica bem nessas camisas.

Xena ficou tensa, de alguma forma esse elogio mexeu com ela.

- Você não vem dormir? - perguntou a barda depois de se deitar.
- Assim que apagar as velas do lustre. Vou deixar acesa apenas a do candeeiro.

Ao se deitar ao lado da barda, como sempre de costas para ela, a escuta dizer:

- A partir de amanhã é que começam os meus quinze dias de férias. Queria que fossem inesquecíveis como foi hoje.
- Tem em mente alguma coisa especial? - perguntou sem se virar.
- Deixo a seu critério. Apenas queria acampar antes de voltar a Academia.
- Vamos fazer isso em algum local apropriado.

A barda se aconchegou nas costas dela dizendo:

- Boa noite, Xena, durma bem.
- Boa noite, Gabrielle.

E a guerreira pensou que ela merecia o que estava acontecendo, da tortura pela qual estava passando. Afinal, ela um dia já fora a Destruidora de Nações, quase teve a Grécia a seus pés e com a sua fama de conquistadora, destruiu muitos corações. Era justo que agora pagasse pelo que fizera, pois merecia passar pela essa doce tortura de estar ao lado, de ser abraçada pela pessoa que ela mais desejava e que até então não podia ser sua. Instantes atrás quando lembrou da sua "fama de conquistadora" teve outro daqueles pressentimentos que já vivera aquele momento. Achou melhor dormir, pois já tinha muito que se preocupar ao lembrar que a barda pegou o costume de dormir grudada nas costas dela sem saber o bem e o mal que lhe fazia.

 

Continua...