A maldição de Gabrielle
Crônicas de uma Barda-Guerreira
Sarah Ishtar
DISCLAIMER
Os personagens de Xena, Gabrielle e os demais que aparecem nessa estória, são marcas registradas da MCA/Universal e Renaissance. Eles são usados sem a intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright. O resto da estória foi elaborado por Sarah Ishtar (JS) e, nenhum aspecto original deste fan fiction poderá ser utilizado em outro lugar sem prévio consentimento, por escrito, da autora. Esse texto não poderá ser alterado e esta informação sobre direitos autorais deve sempre aparecer com o mesmo. A estória a seguir contém temas adultos, insinuando relações entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, ou onde mora é proibido ler esse tipo de material, por favor, não continue. A escritora e a pessoa que mantém o website onde esse trabalho aparece não aceitam a responsabilidade legal pelo não cumprimento desse alerta.
NOTA DA AUTORA
Essa é a primeira estória das "Crônicas de uma Barda-Guerreira". Tenho a intenção de escrever outros fictions tendo como base "A Maldição de Gabrielle", por causa disso, alguns personagens apenas foram citados, seus papéis serão aprofundados em outras estórias.
Essa fiction possui uma abordagem religiosa. Tal temática tem o objetivo de enriquecer a estória dentro daquilo que achei plausível. Não tenho a intenção de ofender ninguém.
Espero honestamente que vocês gostem.
Qualquer dúvida, crítica ou sugestão, terei o maior prazer em responder no email:
sarah.ishtar@bol.com.br ou no msn: sarahishtar@hotmail.com
Última observação. A trilha sonora dessa fiction. Nemo, com a música Nightwish.
Um grande abraço, paz e felicidade.
Sarah Ishtar
Capítulo 1
Em algum lugar próximo a Amphipolis.
Era inicio de outono, o frio da noite indicava que o inverno desse ano seria muito rigoroso, além disso, o céu nublado escondia a lua crescente e as estrelas brilhantes, deixando o inicio do anoitecer escuro e sombrio. Tal aspecto somente era quebrado por uma fogueira que iluminava a escuridão e o triste semblante de uma alma atormentada. A floresta estava em silêncio, em luto. A quietude apenas era dissolvida pelo estalar do fogo, por um relinchar de uma égua nas proximidades e por uma pena que percorria desesperadamente um pergaminho.
A pena pertencia a uma linda mulher que estava sentada sobre algumas peles, envolvida por um belo casaco com as cores branco e marrom. Apoiava-se contra o tronco de uma grande árvore cujas folhas secas encontravam-se espalhadas pelo chão. Escrevia compulsivamente sobre o manuscrito apoiado sobre suas lindas coxas. Qualquer um que observasse essa doce criatura ficaria comovido com tamanha dor, mas apenas o pergaminho poderia revelar sua angústia.
Uma escolha... A vida é feita de decisões entre o certo ou o errado. Mas o certo muitas vezes está ligado a perdas, a danos e a dor. Essa é a história de uma grande mulher, de uma princesa guerreira que superou a escuridão para encontrar a redenção através da abdicação do poder, da glória e do medo. Em contrapartida se deparou com o amor, com a admiração e com o respeito. Lutou contra reis, venceu temidos senhores de guerra, desafiou os deuses. Sofreu... Muita aflição esteve em seu caminho. Conheceu a traição, a desconfiança, a mentira. Perdeu um filho, roubaram-lhe anos de convivência com a filha, mataram sua mãe e seu irmão. Mas apesar de tanto sofrimento, manteve o amor em seu coração. E por causa desse nobre sentimento aprendeu que o certo é doloroso, contudo apesar de toda a desgraça que o correto pode proporcionar, é sempre o melhor caminho.
Xena, minha amada, sei que tomaste a decisão que proporcionou sua morte para um bem maior, no entanto não consigo superar sua partida. Minha razão não consegue consolar o meu coração que sangra pela sua ausência. Morreste por algo que fizeste de errado no passado, mas sua boa ação para consertar tal engano não inibe a tristeza que caiu sobre mim. Tu me salvaste. Ensinaste-me a crescer. Amei-te profundamente. Vi e temi seu lado negro, porém aprendi a respeita-lo como parte que faz de você um ser único. Presenciei sua luta para controlar toda a fúria de sua alma. Tal sacrifício só aumentou meu amor...
Por um momento a melancólica poetiza deixou de escrever para observar o fogo a sua frente. Lágrimas fluíram consistentemente dos seus olhos esverdeados, seu corpo tremeu. A barda abandonou o pergaminho, colocando-o do lado direito do seu corpo, em seguida flexionou os joelhos, apoiou os cotovelos na coxa e as mãos contra o rosto para chorar compulsivamente. Somente uma palavra poderia descrever tal situação: Desespero. A barda estava inconformada.
Depois de um longo tempo cessaram as lágrimas, mas o sentimento de solidão permaneceu, e a cada dia se tornava mais forte. Seu único conforto incidia na lembrança, porém, ao mesmo tempo em que a recordação a consolava, também devastava.
A jovem mulher inspirou profundamente, em seguida desprendeu o ar vagarosamente. Procurava forças para retornar a escrita.
Dois corações... Uma alma. Uma perda... Aflição. O que fazer quando o ser amado é afastado de nós? Tento expressar todo o meu sofrimento através dessa pena, mas por mais que eu queira, não há palavras suficientes para exprimir toda a amargura que explode no meu peito... Xena... Por quê? Por que teve que me deixar? Um amor perdido... Uma alma dilacerada... Como expressar a imensa dor que sinto? Pela primeira vez não tenho palavras. Qual verso poderia utilizar para afastar toda a minha angustia? Sua voz ecoa na minha mente... Seu cheiro está impregnado em meu corpo... Sinto seu toque a todo o momento... Como poderei prosseguir se perdi o meu caminho? Você era minha morada, minha amiga... Minha companheira... Faz uma lua que fomos separadas, parece uma eternidade. Estou levando suas cinzas para casa, para permanecer com seu querido irmão Lyceus. Sei que você queria isso. Depois, meu amor, procurarei Eva para contar-lhe sobre seu triste destino.
"Como poderei dizer para uma filha que a morte reivindicou a mãe? A mãe que há pouco conheceu".
"Não precisa".
Gabrielle se encontrava profundamente concentrada em seu pergaminho, não percebendo que havia expressado seus pensamentos em voz alta, muito menos notou a aproximação de um vulto. Por causa da surpresa agiu com instinto. Levantou rapidamente, soltou o pergaminho para segurar os sais. Um calafrio percorreu sua espinha. Foram alguns segundos de tensão. Por conseguinte, a curiosidade da barda falou mais alto.
"Quem é você?", o tom da voz foi alto e intenso. Gabrielle exigiu que a figura se identificasse. "Não estou com paciência para jogos! Aproxime para poder vê-lo!"
A figura levou alguns instantes para se mover. Ele não sentia medo, um diabólico sorriso corria pelos seus lábios. Ele adorou ver a dor na barda a sua frente. Contudo não tinha tempo, precisava agir. Deu alguns passos à frente para se revelar para Gabrielle.
A poetiza reconheceu a figura. Sua voz revelou surpresa e desprezo.
"Você!?".
Lúcifer possuía o semblante humano. Trajava uma túnica branca. Na sua cintura havia um cinto marrom e em seus pés sandálias da mesma cor. Em seus lábios um sutil sorriso que impressionou Gabrielle. A presença de Lúcifer não a intimidou, mas aquele sorriso trouxe maus pressentimentos.
Gabrielle intensificou sua posição de ataque e com irritação na voz exigiu respostas. "O que você quer?".
Lúcifer não respondeu de imediato, deu mais alguns passos, porém parou a uma certa distância de Gabrielle. Não conseguia se aproximar mais. Entretanto conseguiu esconder seu desconforto e declarou.
"Estou aqui para ajudá-la".
Gabrielle riu sarcasticamente e respondeu.
"E eu sou Cleópatra!".
Lúcifer caminhou em direção a fogueira, mantendo sempre uma certa distância da poetiza. Ao se aproximar do fogo, por um breve momento, a Gabrielle teve a impressão de visualizar um rosto diabólico. Um calafrio percorreu sua espinha. Contudo permaneceu firme na sua posição de ataque.
Lúcifer perguntou.
"Por que é tão difícil acreditar em mim?".
Gabrielle sorriu ironicamente e afirmou mais que questionou.
"Será que é por que você é um demônio?".
Nos lábios do senhor do inferno surgiu um amplo sorriso e um comentário que não foi sarcástico, apenas uma observação.
"E esse fato devo a você e principalmente a Xena".
Lúcifer intensificou seu feliz semblante, seu corpo parecia relaxado, transmitia uma grande comodidade com a circunstância. Não fez acusações.
"Não estou culpando-as. Sinceramente gosto da minha situação atual. Tenho um reino no qual posso usufruir todos os prazeres possíveis e imagináveis. Deixei de ser um mero pião da vontade de outrem". Ao afirmar sua última frase, Lúcifer gesticulou, estendendo o braço direito e apontando o dedo indicador para cima.
A barda ficou impaciente e elevou seu tom de voz. Não entendia qual era o objetivo do mestre das trevas.
"O que quer de mim Lúcifer? Você não veio me ver apenas para me agradecer sobre seu adorável reino". O timbre da voz mostrava um grande desprezo e ironia.
Novamente um sorriso. Esse somatório de sorrisos de Lúcifer começou a irritar a Gabrielle, contudo, a poetiza controlou sua ira e esperou Lúcifer falar.
"Tem razão Gabrielle, não estou aqui somente para agradecer, mas também para lhe dizer que sei como você pode reencontrar sua amada Xena". Essa última frase foi pronunciada lentamente.
Nesse momento todo o autocontrole de Gabrielle se perdeu. Por causa disso, avançou furiosamente para Lúcifer. Este por sua vez se assustou e viu que cometeu um grande erro. Deu várias passadas para trás, procurando se afastar da irritada guerreira. Gabrielle percebeu o receio do demônio e parou. Alguma coisa estava errada. Lúcifer não conseguia se aproximar, Gabrielle se questionou sobre o porquê.
Gabrielle não soube explicar se Lúcifer adivinhou ou leu seus pensamentos quando o demônio comentou sobre seu desconforto.
"A sua tatuagem me incomoda".
Até aquele momento a poetiza não havia notado que seu desenho de dragão emitia uma certa claridade e esquentava um pouco sua pele. Somente quando parou, desceu parte do casaco de peles e girou seu pescoço para observar parte de sua tatuagem nas costas e perna percebeu o que estava acontecendo. O presente que recebeu no Japão a protegeria de todos os demônios, não somente do Yodoshi. Tal descoberta incentivou a investida violenta da barda no objeto de sua fúria. Gabrielle sem excitação avançou sobre Lúcifer, acertando seu abdômen com o cabo do seu sal direito. Ao mesmo tempo Gabrielle disse em um tom de voz baixo, devagar e cheio de cólera.
"Não brinque comigo!".
Lúcifer caiu ajoelhado. A mão esquerda apoiou seu corpo no chão, enquanto a mão direita dirigiu-se ao abdômen. Respirava com muita dificuldade. Todo o poder do dragão foi transmitido nessa agressão. Por causa do golpe o demônio perdeu parte de suas forças, sendo obrigado a revelar seu verdadeiro e horrível aspecto bestial.
Gabrielle observava surpresa os acontecimentos. Parte de sua roupa ficou chamuscada. Sua pele possuía uma leve ardência. Nesse momento compreendeu que poderia ferir Lúcifer, talvez até matá-lo, se isso fosse possível, não sabia ao certo, mas do jeito que seu emocional se encontrava poderia perfeitamente cravar os sais no coração do demônio, só por curiosidade.
Depois de alguns momentos, até recuperar parte do fôlego, Lúcifer se ergueu. Ele encarou Gabrielle que estava com os cotovelos flexionados, segurando os sais na altura do abdômen, com o corpo rígido. Internamente o demônio queria segurar o pescoço da poetiza com sua mão e sufocá-la lentamente. Mas isso seria muito fácil ao seu ver. Pensando em proporcionar um sofrimento eterno a Gabrielle, Lúcifer controlou sua ira e declarou calmamente, porém, por causa da sua característica bestial, sua fala parecia uma ameaça.
"Não estou aqui para jogos. Sei como você pode reencontrar Xena. Você também sabe, mas apenas não teve a chance de pensar nas circunstâncias, já que está em luto".
Gabrielle deu dois passos à frente, ficando cara a cara com a criatura infernal. A diferença de altura era claramente evidente, mas isso não impediu que a arma na mão esquerda fosse elevada a altura da garganta do demônio de uma maneira ameaçadora. A barda estava no limite de sua paciência. Ela estava em uma luta interna entre simplesmente cortar a garganta do demônio ou escutá-lo. Lúcifer não movimentou. Segurou o olhar de ódio da guerreira e esperou. Por fim Gabrielle sucumbiu à curiosidade e perguntou impacientemente.
"Como reencontro Xena?!".
Lúcifer permaneceu inalterado e parcial. Não demonstrou nenhum sinal de emoção. Sua voz refletiu suas ações.
"Você não poderá reencontrar Xena da maneira que a conheceu, porque ela está no paraíso esperando seu momento de renascer. Porém, você poderá esperar esse momento tornando-se imortal, dessa maneira, seu amor por ela nessa vida não morrerá".
Houve um momento de silêncio. Gabrielle afastou-se do demônio, dando vários passos para trás, confusa refletia sobre essa informação. A barda esqueceu completamente sobre o processo de reencarnações.
"Como pude esquecer? Xena renascerá. Sua alma voltará para mim! Mas como a encontrarei?" – Gabrielle olhou para Lúcifer e internamente questionou. – "Por que Lúcifer está me ajudando? Não confio nessa súbita preocupação sobre minha dor. Mas de alguma maneira suas palavras fazem sentido".
A poetiza resolveu esclarecer suas dúvidas, mas ao retornar sua atenção para o demônio viu sua forma humana. Ela não sabia porque, mas se sentia incômoda com esse aspecto. De certa forma era mais demoníaco que a forma bestial, talvez por esconder o que Lúcifer realmente era. Gabrielle expulsou essa observação da sua cabeça e se concentrou nos propósitos de Lúcifer, por que ele a estaria ajudando? Queria saber a resposta e verbalizou essa questão.
"Por que está me dizendo tudo isso?".
Lúcifer colocou as duas mãos atrás de suas costas, apoiando uma sobre a outra, transmitindo uma situação mais casual. Gabrielle não gostou nem um pouco da súbita tranqüilidade do demônio. Tinha a impressão que Lúcifer queria ser o mais amigável possível. Por qual motivo, não sabia. Depois de alguns instantes, Lúcifer pronunciou serenamente.
"Estou pagando uma dívida". Lúcifer percebeu o olhar interrogativo da Gabrielle, e antes da poetiza ter a oportunidade de formular uma pergunta, o demônio continuou com a explicação.
"Xena me libertou. Mostrou-me todo o prazer negado por ELE!", ao dizer essa última palavra, o senhor do inferno estendeu o braço direito novamente e apontou o dedo para cima, demonstrando sobre quem estava falando. Em seguida, retornou sua mão atrás de suas costas e continuou seu comentário, só que desta vez, mais entusiasmado.
"Eu tenho um reino no qual a minha vontade é soberana!", nesse momento Lúcifer começou a utilizar enfaticamente as mãos, elevando-as até a altura dos ombros, como se quisesse materializar todo império. Sorriu, abaixou seus braços e comentou paternalmente.
"Minha doce criança, agora compreende as minhas ações?".
Lúcifer encarou Gabrielle. A poetiza estava absorvendo as informações. Sua fisionomia transmitia dúvida, incerteza e uma certa credibilidade. Aceitando ou não, os argumentos do demônio possuíam uma certa coerência. Depois de algum tempo, Gabrielle falou, porém, como um raciocínio expressado em voz alta, ao mesmo tempo em que gesticulava com a arma na mão direita.
"Deixa-me ver se entendi. Você está me ajudando a reencontrar Xena porque ela te mandou para o inferno? É isso?!".
O demônio simplesmente respondeu.
"Basicamente, sim".
Gabrielle bufou e acrescentou.
"Por que sinto que há outras razões nessa história?!".
Lúcifer declarou.
"Porque você é uma guerreira e uma poetiza. Faz parte da sua natureza argumentar, duvidar, questionar". Lúcifer deu alguns passos para o lado esquerdo, afastando-se do fogo. Nesse processo não olhou para Gabrielle e continuou com sua explicação.
"Não tenho nada a perder, também não tenho nada a ganhar. Não quero ter a sensação de dever nada, muito menos a Xena". Lúcifer parou, olhou para a barda e prosseguiu com sua fala.
"No início odiei Xena... Odiei como fui manipulado. Entretanto, percebi que agora sou senhor da minha vontade, fato que mudou a minha opinião sobre a princesa guerreira. Porém não deixei de detestá-la. Fui enganado. Mas percebi uma certa dívida da minha parte, coisa que pretendo pagar. Assim, ajudando-a estaria liquidando meu débito. Dessa maneira teria mais prazer em destruir suas almas". Lúcifer finalizou sua explicação com um enorme sorriso.
Gabrielle teve vontade de esmagar o crânio do demônio. A ira foi expressa em sua voz.
"Você quer encontrar a alma da Xena para condena-la ao inferno! E para isso pretende me usar!".
Lúcifer falou.
"Não posso condenar ninguém ao inferno. Somente as ações da própria pessoa têm esse poder".
Gabrielle comentou sarcasticamente.
"Mas nada o impede de persuadi-la a cometer tais ações!".
Antes mesmo de terminar a frase, Lúcifer retrucou.
"Assim como nada a impede de persuadi-la a não cometer tais ações".
Lúcifer sorriu e disse em seguida.
"Eu encontrarei a alma da Xena. Estou lhe dando a oportunidade de tentar impedir, pois será muito fácil manipulá-la. Estou tentando criar uma certa competição para aumentar o sabor da minha conquista, ao mesmo tempo em que saldo minha dívida. Quero provar que o amor das duas não é forte o bastante para salvá-la do inferno".
A barda calmamente disse.
"Xena já foi salva pelo amor. E se for necessário, será novamente".
Lúcifer friamente falou.
"O tempo dirá. Mais cedo ou mais tarde terei Xena no meu reino, e você não estará presente para salvá-la".
Gabrielle encarou o demônio e afirmou com inteira confiança.
"Não importa onde ou quando, encontrarei Xena!".
Lúcifer sorriu e não disse nenhuma outra palavra. Acenou com a cabeça em um gesto de desafio, como se não acreditasse na firmeza da declaração da barda, mas em seu íntimo, tinha completa convicção de que a poetiza encontraria Xena. Esse era seu objetivo: Encontrá-la! E quem mais poderia achá-la, se não a sua alma gêmea? O demônio caminhou em direção a escuridão da floresta, para desaparecer nas sombras. Seu objetivo foi atingindo. Gabrielle acharia a Princesa Guerreira, Lúcifer só tinha que esperar.
Gabrielle observou o demônio sumir na noite, sentindo a presença de Lúcifer desaparecer. A sensação de tranqüilidade voltou à mata, entretanto, Gabrielle ficou inquieta. Tinha muito em que pensar.
Capítulo 2
Amanhecia. Um lindo sol estava surgindo e seus primeiros raios incidiram sobre a forma dormente e cansada de Gabrielle que abriu seus olhos quando a primeira claridade rompeu a escuridão. Sem se mexer, permaneceu deitada lateralmente, protegida do frio da manhã por uma manta de pele. Seu primeiro pensamento foi de pesar, solidão e tristeza. "Mais um dia sem Xena". Mas rapidamente outras questões tomaram conta de sua mente, as mesmas que roubaram seu sono.
A poetiza dormiu pouco, basicamente um cochilo, não conseguiu acalmar seus pensamentos depois de seu encontro com Lúcifer. O demônio conseguiu abalar ainda mais seu estado emocional. Sentia que as palavras do Senhor do Inferno eram ambíguas. A barda acreditava em algumas partes, principalmente o fato que Lúcifer iria fazer qualquer coisa para adquirir a alma de sua amada, não importando quanto tempo leve ou em qual reencarnação. A questão principal era: por que Lúcifer se deu o trabalho de avisa-la? No Reino da Terra, o demônio tinha pouco poder, somente no Reino do Inferno possuía uma grande força, Eli uma vez tinha lhe dito isso, por isso os demônios invadiam os corpos dos humanos, porque materializar requer uma grande força, sendo mais fácil tomar um corpo já existente.
Lúcifer foi pouco convincente ao afirmar que queria uma competição pela alma da Xena, menos ainda ao dizer que queria pagar uma dívida. Gabrielle sentia que havia outro motivo, mas qual seria? Não há como prever o que se passa em uma mente diabólica, o único fato verdadeiro era que a poetiza tinha que fazer qualquer coisa para proteger sua amada, mesmo não sabendo as conseqüências de suas ações.
Gabrielle levantou para preparar-se para a viagem até Amphipolis. Estava a menos de um dia de distância. Queria que o resto mortal de Xena descansasse entre seus parentes, mas depois do encontro da última noite sentia que essa não seria a coisa certa para ser feita. Com esse pensamento caminhou até Argo e acariciou seu focinho. Gabrielle não tinha fome, na verdade seu apetite se perdeu junto com sua alma gêmea. Só se alimentava o necessário para ficar de pé e, com todas essas perguntas, sentia ainda menos fome.
Gabrielle olhou para a égua a sua frente. Tentou achar respostas.
"Certo menina, o que eu faço?".
A égua relinchou e balançou a cabeça. Argo parecia sentir a aflição da humana. Algo estava errado, porém nada podia ser feito a não ser conduzir sua montaria na direção que ela indicasse.
Gabrielle sorriu tristemente e comentou amorosamente.
"Assim você não me ajuda muito".
A barda acariciou a égua e começou a prepara-la para a montaria e, ao fazer essa tarefa, sentiu uma grande agonia em seu peito, pois sua mente foi invadida por uma pergunta.
"E se eu falhar?".
A possibilidade da alma da Xena ser encontrada e condenada ao inferno afligiu profundamente a poetiza. Lúcifer é um representante maléfico, e Xena possui uma grande atração pelo poder, violência e morte. A guerreira já foi corrompida, podendo ser novamente. Gabrielle entendia que sua presença foi fundamental para o equilíbrio entre o bem e o mal, salvando sua amada de um flagelo eterno.
As mãos da barda pararam na correia da sela. Respirava pesadamente. Gabrielle focalizou suas preocupações em torno das intenções do demônio, e agora, ao pensar sobre a probabilidade de Lúcifer requisitar a alma da Xena compreendeu que as intenções de Lúcifer não têm importância alguma. Provavelmente ele só queria atormenta-la, alegrar-se com seu sofrimento e, ao anunciar suas intenções atingiria seus objetivos: causar dor e desgraça. Gabrielle sussurrou.
"Ele quer a minha imortalidade para que eu viva em eterna agonia".
Todos os equipamentos do acampamento foram rapidamente guardados. Gabrielle havia tomado sua decisão. Se o preço da salvação e proteção da alma da Xena fosse uma imortalidade em busca de sua amada, ela faria isso. Não importa em quantas reencarnações Xena renasça, Gabrielle a encontraria e a amaria, mesmo que isso causasse dor, pois em cada nascimento haveria uma morte e, novamente, uma perda.
Gabrielle montou Argo. Acariciou seu pescoço e disse.
"Espero que Xena me perdoe, ela não concordaria muito com isso".Deu um leve ponta-pé no estômago da égua, cavalgando o mais rápido possível para o norte, se afastando de Amphipolis.
Capítulo 3
Michael observou tudo atentamente através de um espelho de água de uma fonte cristalina que brotava do interior de uma caverna de uma grande montanha, que possuía seu pico eternamente envolvido por neve. Essa montanha, em sua base, era rodeada por uma linda floresta. Nesse local o arcanjo conseguia visualizar o que ocorria no Reino da Terra. Ao seu lado uma figura também acompanhava o desfecho dos acontecimentos. Estava muito preocupado.
"Precisamos intervir Michael".
O arcanjo olhou com compaixão e pronunciou.
"Não podemos. Gabrielle tomou sua decisão. Não podemos interferir no livre arbítrio dos mortais".
A amorosa figura respondeu.
"Ela foi influenciada por Lúcifer, podemos avisar Gabrielle do perigo por meio de Eva. Através do seu livre arbítrio ela poderá ajudar ou não Gabrielle".
Michael sorriu.
"Ela ajudará Gabrielle. Eva não a deixará cair em perdição".
O preocupado homem questionou.
"Espero que sim, pois Gabrielle ama fervorosamente. Lúcifer sabia disso. Esse amor é a maior arma da minha amiga, e ao mesmo tempo sua maior fragilidade".
O anjo guerreiro colocou sua mão no ombro de Eli e falou com pesar.
"Não estamos falando somente de uma alma. Se a artimanha de Lúcifer prevalecer, a humanidade cairá em desgraça. O demônio andará livremente no Reino da Terra".
Eli olhou profundamente nos olhos do arcanjo.
"Com isso presenciarei duas infelicidades, a perdição das almas de duas amigas e a destruição da maior beleza que nosso Senhor realizou. Algo tem que ser feito".
O anjo pronunciou.
"Não podemos tirar aquilo que foi dado à humanidade, o que os tornam tão belos. Eles são senhores das suas escolhas. Podemos mostrar o caminho, cabe aos humanos decidir".
O santo homem sorriu. Havia esperança.
"O Senhor não deixará Gabrielle".
O Arcanjo comentou.
"O Senhor não abandona nenhum de seus filhos. São seus filhos que o abandona. O Senhor dará uma escolha para sua amiga. Caberá a ela decidir entre sua salvação ou não".
Eli compreendeu a profundidade das palavras do anjo, mas ao mesmo tempo sentiu uma grande aflição. Gabrielle ama muito para medir as ações e as conseqüências de seus atos.
Michael percebeu o medo do homem a sua frente.
"Entendo sua angustia. Não peça para interferir. Não podemos, mas você poderá avisar Eva. Daremos uma escolha a Gabrielle". Com essas palavras o arcanjo volta a visualizar a poetiza em sua cavalgada para seu destino.
Eli fez um último comentário.
"Precisamos avisar Xena", em seguida olhou tristemente para Gabrielle.
Capítulo 4
Em algum lugar da Grécia Antiga.
Eva estava deitada lateralmente em um verdejante campo. Uma grande árvore proporcionava uma refrescante sombra, protegendo-a do intenso sol. Vestia uma simples saia marrom com uma blusa da mesma cor com detalhes verdes que cobria seus seios, deixando a mostra seu lindo abdômen. Há poucos metros uma linda cachoeira desaguava em um lago cristalino, e tal espetáculo era observado e admirado por Eva.
Caminhando em direção a figura distraída, um homem. Não tinha pressa. Apreciava a beleza da natureza em sua volta. Sua presença transmitia paz e amor. Ao chegar em seu destino, sem ser notado pela Eva, ajoelhou atrás da mulher. Em seguida, com uma carinhosa voz a saudou. "Olá Eva".
Ao ouvir uma calorosa voz Eva virou-se para deparar com o olhar mais bondoso já existente. Um intenso sentimento de afeto percorreu seu corpo. Eva não conseguiu formular palavras, apenas contemplou a benevolência que emanava do indivíduo ao seu lado. Vários instantes foram gastos nessa contemplação até o momento em que Eva moveu e ficou na mesma posição ajoelhada do homem a sua frente. Eva reparou que seu visitante trajava uma túnica longa, da cor azul claro com detalhes em branco, seu cabelo era comprido e castanho, assim com sua barba e olhos.
O homem em nenhum momento proferiu palavras, apenas esperou Eva se adaptar a sua presença. Logo após alguns momentos, não se sabe ao certo o tempo, Eva falou com muita alegria.
"Sinto o amor emanar do seu ser... Como... Como se fosse algo sólido... Quem é você? Por favor, me diga".
O gentil homem sorriu, mas seu semblante mudou e Eva sentiu tristeza.
"Sou amigo de sua mãe e de Gabrielle e por elas estou aqui".
Eva inquietou-se, percebeu que o misterioso homem não trazia boas notícias.
"O que aconteceu?".
Antes de dizer qualquer coisa, o homem segurou uma das mãos de Eva que se encontravam entrelaçadas a frente de seu corpo. Eva foi inundada com um sentimento de afeto e também de aflição. Algo estava errado. A ex-guerreira não conseguiu esconder a angustia da sua voz.
"Por favor, diga-me o que aconteceu com as duas pessoas que mais estimo".
O homem olhou profundamente nos olhos de Eva.
"Xena viveu uma dura escolha a uma lua atrás. Teve que optar entre realizar a coisa certa, porém morrer e deixar Gabrielle, ou negligenciar a salvação de milhares de almas por seu amor".
Eva observou o homem com angústia. Estava tentando absorver as palavras que acabou de ouvir. Uma intensa dor encheu seu peito. Eva sentiu carícias em suas mãos. O desconhecido a sua frente tentava confortá-la. A ex-guerreira não o conhecia, mas sentia que não era um desconhecido, era uma pessoa muito próxima a ela, que a amava. Esse sentimento aliviou um pouco a angústia que crescia em sua alma. Depois de algum tempo, Eva conseguiu controlar seus sentimentos e racionalizar as palavras.
"Minha mãe escolheu a morte, mesmo que com isso fosse obrigada a deixar a Gabrielle".
O homem acrescentou.
"Xena conseguiu evoluir espiritualmente por causa de suas boas ações. O amor de Gabrielle a salvou, porém para Gabrielle a morte de Xena foi um duro golpe". O desconhecido olhou profundamente nos olhos de Eva e continuou. "Gabrielle está sofrendo e essa dor pode levá-la a tomar decisões que a prejudicará. Ela está muito frágil, suscetível a manipulações".
Uma profunda preocupação foi instalada no coração de Eva, sendo refletida em sua voz.
"Quem quer prejudicar a Gabrielle?".
De maneira convicta afirmou. "O mal! A alma de Gabrielle está em perigo".
Um arrepio percorreu o corpo de Eva.
"Que tipo de mal?".
O homem respondeu.
"As almas passam por ciclos na Terra com o objetivo de evoluírem para entrar no paraíso, a cada passagem de um ciclo para outro a pessoa fica no limbo, até reencarnar para prosseguir na sua evolução, porém, depois de reencarnadas, por causa do livre arbítrio, as ações de uma pessoa podem impedir que a alma continue a evoluir, podendo até condená-las ao inferno".
Eva tentou entender a explicação.
"Gabrielle fez algo que a condenou ao inferno?" Eva suspirou e continuou. "É isso que você quer me dizer?".
O homem explicou.
"Xena praticou o mal, mas também praticou o bem, graças ao amor. Isso a fez ter o direito de continuar com suas reencarnações".
Eva por um breve momento deixou-se levar pela impaciência e interrompeu o desconhecido.
"Eu não entendo".
O homem sorriu e disse.
"Eva não deixe a impaciência prevalecer, estou aqui para esclarecer".
Eva abaixou a cabeça, sentiu uma profunda vergonha. Vendo o desconforto de Eva o homem segurou o queixo da mulher a sua frente, forçando-a a olhar em seus olhos.
"Não se envergonhe. Sua impaciência é fruto do amor que sente pela Gabrielle. Sei que quer ajudá-la, assim como eu".
Eva olhou nos olhos do bondoso homem e falou.
"Por favor, continue".
O homem balançou a cabeça em sinal afirmativo e continuou.
"Gabrielle é a alma gêmea de Xena, ambas estão destinadas a se encontrarem em cada reencarnação, pois uma ajudará a outra a evoluir. Porém, Gabrielle será tentada a impedir seu ciclo de evolução", o homem parou de falar para permitir que Eva entendesse a situação.
"Mas quem quer prejudicar a Gabrielle? Como ela será tentada? Como posso ajuda-la?". Questionou Eva.
"Lúcifer seduzirá Gabrielle com a imortalidade com o propósito encontrar a reencarnação de Xena. Lúcifer almeja vingança contra aqueles que o condenaram ao inferno e, essas pessoas seriam Xena e Gabrielle, contudo como Xena está inalcançável até o próximo ciclo, sua irá voltou-se contra Gabrielle. Ele está usando nossa querida amiga para poder encontrar a alma da Xena".
Eva possuía uma dúvida e questionou.
"Como a imortalidade poderá prejudicar a Gabrielle?".
"A imortalidade condenará Gabrielle a um grande tormento, já que ela passará a eternidade procurando o ser amado, e sofrendo com cada morte da reencarnação de Xena. Ambas possuem uma ligação muito forte, algo único, um laço inseparável. Lúcifer revelou parte de seu plano para nossa amiga, que caçaria a alma da Xena para corrompê-la e, dessa maneira, adquiri-la no inferno. Por isso Gabrielle busca a imortalidade, para proteger sua mãe. Porém, Lúcifer omitiu seu real propósito. Ele não quer somente infligir uma eterna dor a ambas, também pretende devolver o trono do Reino do Inferno a Xena, assim ficaria livre para construir seu reinado no Reino da Terra. Além disso, não cabe a Gabrielle contradizer sua morte. Todos morrerão. Faz parte do processo de crescimento espiritual, assim como é inconcebível uma pessoa tirar sua vida. Tais ações são condenáveis ao Inferno. Se o plano de Lúcifer for concretizado, nossas amigas perderão suas almas".
O estranho parou de falar para observar a transformação da natureza a sua volta. Eva sentiu um grande receio. Uma grande aflição instalou em seu coração. Nuvens negras apareceram no céu cobrindo todo o azul. Um vento forte e frio balançou as folhas das árvores, como pressagio do mal. Eva encarou o olhar apreensivo do misterioso homem e levantou bruscamente, entendia sua angústia.
"Preciso partir para alertá-la. Gabrielle tem uma promessa a cumprir. Sei que ela está levando os restos mortais da minha mãe para Amphipolis. Como Gabrielle foi uma rainha amazonas, acredito que ela cremou o corpo, dessa maneira estará viajando mais rápido".
O estranho levantou e acenou com a cabeça, porém retrucou.
"Você não chegará a tempo em Amphipolis, pois ela mudou de direção".
Eva perguntou.
"De que maneira Gabrielle tentará conseguir a imortalidade?".
O estranho respondeu.
"Com as maçãs douradas, pois a Gabrielle sabe onde está, quem está as guardando e protegendo".
Eva suspirou.
"Está com Odin. Como poderei encontrá-lo?".
"Encontre as valkirias que você o encontrará".
Antes de partir Eva sentiu timidez, mas questionou.
"Você é quem eu penso que é?".
O homem apenas sorriu. Não precisou responder, Eva já sabia a resposta. Era Eli.
De repente Eva sentiu um vazio, como se a sensação de paz a deixasse. Ao olhar em volta percebeu que estava deitava. Levantou seu tronco subitamente, apoiou suas mãos no colchão para ter melhor equilíbrio. Dessa maneira pôde analisar melhor o ambiente em sua volta. O quarto era pequeno e modesto, com poucas mobílias. Somente uma cama de tamanho médio que acomodava confortavelmente uma pessoa, até duas com uma certa dificuldade. Tinha também uma pequena mesa com um jarro de água, uma cadeira e uma lareira acessa para aquecer o quarto nessa noite fria. Aos poucos lembrou que estava no templo de Eli. Esse templo ficava mais ao sul da Grécia.
Eva tentava levar as palavras de Eli para todas as pessoas e, nesse momento conseguiu sensibilizar algumas pessoas dos povoados mais distantes, e juntos construíram templos onde todas as pessoas eram bem vindas para conversarem e orarem em nome do amor e da paz.
Eva perdeu a sensação tranqüilizadora que Eli lhe transmitia. Mesmo que fosse um sonho com tristes notícias, Eli emanava paz e amor. A ex-guerreira levantou e sentou na beirada da cama com a cabeça abaixada. Um turbilhão de sentimentos transcorria pelo seu ser. Eram emoções conflitantes. A tranqüilidade da presença de Eli. A tristeza ao saber sobre a morte de sua mãe. A preocupação sobre o perigo que Gabrielle estava correndo. Ela precisava ajudar a poetiza. Tinha que fazer isso. Eva devia isso para sua mãe.
A ex-guerreira segurou a angústia ao pensar em sua mãe. Algumas lágrimas correram pelo seu rosto, mas ao pensar na Gabrielle, como a barda devia estar sofrendo, resolveu controlar sua dor e ser forte para ajudar sua amiga. Eva levantou a cabeça e sussurrou uma oração.
"Mãe, sentirei sua falta. Eu a amo. Queria ter passado mais tempo com você. Sei que sua decisão de deixar esse mundo foi a certa. Você aprendeu a dominar o seu lado mal e a utilizá-lo para o bem e me ensinou a fazer o mesmo, mas temo que Gabrielle não consiga suportar sua partida e, por causa disso, algo ruim aconteça". - Eva suspirou e mais lacrimas caíram. - "Eu a ajudarei mãe, antes que seja tarde".
Eva levantou da cama, colocou suas sandálias pegou uma bolsa de couro colocou dentro alguns pertences, roupas, colcha, e uma faca. Em seguida vestiu um casaco de couro. Ao terminar rapidamente deixou o quarto e entrou no salão principal do templo. Algumas tochas pregadas as paredes iluminavam o local. O salão não possuía nenhuma mobília. Era um espaço vazio, sem luxo, porém era bem arejado e limpo. Nos dias de orações, cada um trazia uma pequena manta para sentarem e ouvirem as palavras de Eva. A ex-guerreira se encontrava nesse local, uma pequena vila chamada Devon, há vários meses e, nesse tempo, teve como discípulo Cláudio, o ferreiro da região. Um homem honesto, próximo aos 40 anos, forte, cabelos castanhos e olhos da mesma cor, casado e, desse matrimonio, possuía 03 filhos.
A cada vila e cidade, Eva preparava alguém para divulgar as palavras de Eli, dando assim continuidade a sua obra. Eva sentia-se tranqüila em deixar a vila, pois tinha uma pessoa preparada para conduzir as orações. Pensando nisso deixou o templo e dirigiu-se para a casa do ferreiro.
Cláudio acordou com fortes batidas na sua porta. Sua esposa, Virgínia, dormia pesadamente. O ferreiro levantou resmungando alto.
"Quem pode estar batendo na porta tarde da noite?".
Acendeu uma vela e com mau humor atendeu a porta. Ficou surpreso ao ver que era Eva.
"O que aconteceu? Está tudo bem?".
A ex-guerreira aparentava uma certa inquietação.
"Estou partindo e preciso do seu cavalo".
Cláudio sentiu um súbito desespero.
"Por que está nos deixando dessa maneira?" Antes de Eva respondê-lo, ele a conduziu para dentro de sua casa.
"Cláudio preciso ajudar uma amiga e tenho pouco tempo. Prometo devolver seu cavalo assim que possível".
O ferreiro percebeu que Eva estava aflita. Uma imagem bem diferente daquela mulher paciente e calma.
"O cavalo não é importante. Estou preocupado com você".
Eva sorriu.
"Não se preocupe, estarei bem. Eli está comigo. Ele me protege... Nos protege e sei que Eli o guiará, assim como guiará as pessoas que ouvirem suas palavras".
Cláudio entristeceu.
"Sentirei sua falta, você mudou a vida dessa pequena vila".
Eva apenas respondeu.
"Não mudei nada, vocês que escolheram receber a palavra de Eli e serem pessoas melhores. Sou apenas uma mensageira".
Cláudio abraçou Eva docemente.
"Tenha cuidado, estaremos orando por você".
Eva correspondeu o abraço.
"Obrigada. Cuide do templo. Você também está preparado para ser um mensageiro de Eli".
Eva afastou ligeiramente seu corpo do Cláudio, porém manteve suas mãos segurando seus antebraços. Olhou profundamente nos olhos do ferreiro. Sem dizer mais nada deixou a casa indo buscar o cavalo. Cláudio ficou na porta observando sua amiga entrar no celeiro. Rapidamente Eva arrumou o cavalo, colocando a cela.
Cláudio ficou observando no escuro a figura de Eva cavalgando velozmente pela estrada, desaparecendo na escuridão.