A maldição de Gabrielle
Crônicas de uma Barda-Guerreira
Sarah Ishtar
Capítulo 5
Em uma área gramínea com poucas árvores e muitas flores, de várias espécies e cores, que cresceram sobre a proteção da doce sombra das copas, encontravam duas figuras em luta. Era uma manhã de temperatura amena e com um lindo sol que aquecia deliciosamente a pele
De um lado encontrava-se um arcanjo trajando vestimentas vermelhas encobertas por uma armadura prateada. Do outro lado estava Xena, vestindo uma túnica branca que cobria a metade de suas coxas, permitindo que a guerreira realizasse qualquer movimento. Em seus pés uma simples sandália, mas em seu rosto havia um sorriso malicioso, como de uma fera que brinca com sua presa antes do golpe fatal.
Ambos seguravam suas espadas na altura de suas cabeças, forçando uma contra a outra, ao mesmo tempo em que travavam uma batalha de olhares. O arcanjo mostrava admiração, surpresa pela força e técnica de Xena, bem diferente do olhar da princesa guerreira, que era de divertimento. Por fim a guerreira ganhou o duelo de força e empurrou o anjo, obrigando-o a se afastar alguns passos para trás, mas mantendo a espada elevada ao nível de seu ombro direito. O arcanjo mostrava sinais de irritação, porque seu oponente não fazia seu melhor e, essa era a questão: Se Xena realmente quisesse lutar, o duelo já estaria ganho há muito tempo.
Uma brisa sobrou sobre os lutadores, movimentando as folhas verdes das poucas árvores presentes. Tal fato foi percebido pelo arcanjo que observou admirado a beleza do lugar, diminuindo assim sua irritação.Por causa disso baixou os braços, segurando a espada com a mão direita. Em seguida inclinou a cabeça para a esquerda, estalando o pescoço. Não poderia perder a calma, era só uma luta. Conseqüentemente após esse raciocínio colocou a mão esquerda no cabo da espada para segurá-la com mais firmeza. Xena por sua vez girava a espada com a mão direita, enquanto a esquerda permanecia estendida a frente do seu peito. Seu sorriso ficou mais amplo. O arcanjo odiou, pois sabia que Xena brincava com ele.
No momento em que o anjo fez menção de se mexer ouviu um chamado.
"Gabriel!".
A guerreira e o arcanjo voltaram seus olhares para o lado em que o som vinha. Ambos relaxaram e abaixaram suas espadas. Michael aproximava-se.
"Gabriel, você ainda insiste em ganhar da Xena?" Perguntou Michael com um leve riso nos lábios e colocando a mão sobre o ombro do amigo.
"Tenho a eternidade". Argumentou.
Michael falou.
"Sim, mas sua luta terá que esperar. Preciso conversar com Xena".
O arcanjo Gabriel acenou levemente com a cabeça e olhou para a guerreira.
Xena apenas respondeu.
"Até a próxima Gabriel". Em seguida entregou sua espada para o arcanjo que partiu a passos lentos para o norte. Em seus pensamentos refletia sobre sua última batalha, onde incidia seus erros. Ele havia de ganhar, um dia.
Depois que Gabriel partiu, Michael estendeu seu braço direito e perguntou.
"Caminha comigo?".
"Sim". Foi a resposta ouvida.
Xena caminhou por alguns momentos ao lado direito de Michael, como sempre sua impaciência prevaleceu.
"Você não está aqui por causa da minha companhia. O que está havendo Michael?".
Michael parou e encarou a mulher a sua frente. Xena fez o mesmo e continuou sua indagação.
"Quando poderei voltar para o Reino da Terra?".
A reação da guerreira é imprevisível, e o arcanjo tinha conhecimento desse fato. Mas uma coisa tinha certeza, Xena não aceitaria muito bem suas informações.
"Você não poderá voltar para o Reino da Terra, pelo menos por enquanto".
Xena visivelmente tentou controlar sua frustração.
"Por que não?".
Michael respondeu calmamente.
"Não é sua hora. Você tem que permanecer nesse limbo por algum tempo. Sua presença no Reino da Terra desencadeará uma catástrofe, além de interferir no livre arbítrio de Gabrielle".
A guerreira princesa foi invadida por uma profunda preocupação ao ouvir o nome de sua amada.
"Que tipo de catástrofe e o que a Gabby tem haver com isso?".
"Lúcifer pretende conquistar o Reino da Terra, entretanto, precisaria de sua alma, para ocupar o trono do Reino do Inferno, já que é a dona por direito. A Gabrielle não sabe de tais planos. Contudo Lúcifer a procurou e a manipulou, dizendo que perseguirá sua alma por vingança, por ter sido enganado. Gabrielle tentará evitar que sua alma seja reivindicada pelo demônio".
"Assim, você me deixou aprisionada no limbo para evitar que o plano de Lúcifer funcione?".
"Você não está aprisionada, apenas aguarda seu momento de reencarnar".
Xena ironicamente comentou.
"Qual é a diferença? Não posso voltou para a Terra porque você não permite".
Michael defendeu-se e justificou austeramente.
"Não parte de mim a decisão do momento que uma alma teve reencarnar ou não. Você fez sua escolha entre Gabrielle e as almas japonesas e, por tal decisão, além da abdicação de ser senhora da guerra, procurando clemência através da benevolência e altruísmo, teve direito a prosseguir com sua evolução espiritual através das reencarnações, escapando do inferno".
O arcanjo fez um breve intervalo em sua fala e continuou seu comentário com um tom menos severo. Xena permanecia calada, refletindo.
"Você não pode voltar a Terra até que Gabrielle decida seu próprio destino".
A guerreira perguntou devagar, em um sussurro. Tinha medo que sua amada fizesse algo que a prejudicasse em favor de sua alma gêmea.
"O que exatamente Gabrielle está pretendendo fazer para me proteger?".
O arcanjo disse com compaixão.
"Ela quer ser imortal".
Tal frase foi como um tapa no rosto de Xena. Agora entendia.
"Se Gabrielle tornar-se imortal, não poderá evoluir através das reencarnações e não teremos a chance de nos encontrarmos".
Michael completou.
"Ela a encontrará, seu amor é grande o bastante para reconhecer a alma gêmea. Mas esse não é a principal questão. Gabrielle sofrerá, porque a cada reencarnação você esquecerá da vida passada, esquecendo seu amor. A cada reencarnação seu amor renascerá e morrerá, assim Gabrielle sofrerá a cada morte sua".
Xena quase chorou.
"Um tormento eterno".
Michael continuou.
"Gabrielle estará condenada ao inferno, caso sua escolha seja a imortalidade".
Xena olhou assustada para o arcanjo. Não podia acreditar que a alma mais bondosa da Terra poderia padecer no inferno.
Michael tentou continuar, mas não suportou ver o sofrimento de Xena.
"Ela não tem o direito de ser imortal. Se ela escolher esse caminho, no fim dos dias, no julgamento final na presença de Deus, sua alma será de Lúcifer".
Xena segurou pelos ombros desesperadamente o arcanjo e implorou.
"Eu preciso avisá-la, por favor".
Tal cena era intensa. Xena sofria em saber que Gabrielle corria risco e nada podia fazer.
Michael explicou.
"Gabrielle sabe do tormento que passará, o próprio Lúcifer a disse, apesar de esconder seu principal objetivo. Além do mais, Eli avisou Eva. Sua filha tentará impedi-la. Não podemos interferir no livre arbítrio dos mortais. Nossas esperanças estão em Eva e no seu poder de persuasão sobre Gabrielle".
Xena afastou-se de Michael, virando de costas. Pensou em uma maneira de sair daquele limbo.
O arcanjo ouviu os pensamentos de Xena.
"Não há como sair do limbo. Somente no seu momento de renascimento".
A guerreira virou para o Michael e disse furiosamente.
"Não posso aceitar essa situação".
Michael foi inflexível.
"Você não tem escolha. O destino da Gabrielle está em suas próprias mãos. Ela quer proteger você, pois sabe que é sucessível a tentação do poder, podendo ser corrompida por Lúcifer. Gabrielle acredita que se tornando imortal poderá protegê-la de tal corrupção, pois lembrará dos fatos e do amor que sente, pois se reencarnar esquecerá, podendo não estar ao seu lado em tais momentos de fraqueza".
Michael aproximou de Xena e tentou consolá-la.
"Vamos rezar pelo melhor. Acreditar que Eva conseguirá influenciar a Gabrielle para não fazer tal loucura".
Xena olhou profundamente para o arcanjo.
"E se o que Gabrielle estiver fazendo não for loucura. Ela é a única pessoa que conhece profundamente a minha alma. Talvez sua atitude seja a certa. Sou suscetível ao poder, poderei ser facilmente corrompido pelo demônio e, se isso ocorrer, o Reino da Terra será destruído. A humanidade não pode depender apenas do meu livre arbítrio".
Michael respondeu.
"Por isso que Gabrielle é sua alma gêmea. Ela é sua consciência, seus olhos para o certo".
Michael completou.
"Vamos ter esperança".
Xena sentiu um grande desespero. Entendia a atitude de Gabrielle e sabia que Eva dificilmente conseguiria mudar sua mente.
Capítulo 6
Sete dias depois.
O cavalo e sua montaria cortaram velozmente a estrada mal conservada, invadida por vegetação rasteira e ervas daninhas, dirigindo-se para o templo da deusa do amor. Ao chegar ao seu destino, parou e encarou o templo abandonado. A arquitetura era simples, um templo modesto de tamanho pequeno, ao estilo romano, com mármore e com o teto em triângulo, onde os amantes e apaixonados podiam fazer suas oferendas e pedidos sem serem molestados. A entrada possuía uma pequena escadaria com dez degraus de mármores. Possuía também dois pilares que sustentavam a cobertura da entrada.
O primeiro sentimento da amazona foi de repulsa pelo local e pela deusa. Não queria recorrer as entidades que tentaram matá-la, mas para salvar Gabrielle, não havia outra escolha.
Eva desceu do cavalo, amarrando-o a uma árvore. Em seguida caminhou a passos rápidos até a entrada, subiu os degraus e parou em frente aos portões que davam ao salão. Eram altos, para um templo pequeno. Os portões estavam semi-abertos. Eram de madeira com entalhes que faziam referência a intimidade de duas pessoas, não sendo necessariamente eróticos.
A seguidora de Eli percebeu sinais de apodrecimento da madeira, sua vontade era simplesmente chuta-los para dar passagem, mas controlou a sua fúria. Sua cólera, decorrente da sua angústia e da sua pressa, crescia a cada minuto. Não esperava demorar tanto para encontrar um templo da Afrodite. Tentou outros dois locais, mas deparou-se com ruínas. Por sorte encontrou um pastor com suas ovelhas e perguntou se conhecia algum santuário da deusa do amor. O pastor respondeu que havia um pequeno templo indo para o sul, mas não sabia se estava de pé ou não. Eva agradeceu e cavalgou o mais rápido possível. Na mente do homem havia muitas perguntas, mas as guardou para si. Achou estranho alguém procurar templo de deuses depois de décadas sem cerimônias de adoração. O povo não acreditava mais nos deuses, sempre havia um ou outro, mas eram muito poucos. Não querendo perder tempo com esses pensamentos, o velho pastor voltou ao seu rebanho.
Os portões pareciam que cairiam a qualquer toque. O da esquerda estava tombado para dentro do salão, sendo segurado apenas por uma dobradiça enferrujada, já que as outras duas, mais superiores, desprenderam-se da madeira podre.
Com extremo cuidado, Eva empurrou o portão do lado direito, já que este aparentava maior conservação. Entrou no salão. Havia seis grandes janelas de madeiras podres, três do lado direito e outras três do lado esquerdo. Todas estavam abertas e possuíam cortinas rasgadas que outrora foram brancas, deixando entrar a luz solar dessa tarde morna, incomum para o outono. O local acumulava poeira, sujeira, teias de aranhas e mofo. A frente estava uma estátua da deusa do amor em tamanho natural, coberta por uma camada escura de sujeira.
O desconforto da situação invadiu Eva. Sua ira crescia. Há muito tempo não tinha um sentimento parecido. A perda de sua mãe e o risco que Gabrielle corria fazia com que sentimentos ruins dominassem seu corpo. Eva tentou se acalmar. Fechou os olhos e respirou profundamente por vários momentos. Depois de alguns minutos sentiu a tranqüilidade voltar. Abriu os olhos, focalizou a estátua e programou o mais alto possível.
"Afrodite apareça!". Eva esperou um instante e continuou.
"Quem lhe chama é a filha de Xena! Eva!". Eva esperou um pouco. Não houve resposta. A seguidora de Eli ficou desesperada. Recorreu para a profunda amizade que a deusa nutria pela poetiza.
"Gabrielle precisa de ajuda!".
Logo em seguida Eva sentiu a presença da Afrodite atrás de si.
Eva virou e olhou para a deusa. Afrodite interrogou.
"O que aconteceu com a minha pequena?".
Eva tentou explicar.
"Minha mãe morreu".
Afrodite cortou a explicação da Eva com uma lamentação. Colocou a mão direita sobre o rosto e disse:
"Não pode ser".
Eva continuou e maneira resumida.
"Lúcifer está aproveitando o momento de fragilidade de Gabrielle para induzi-la a fazer algo que a prejudicará profundamente. Ele desafiou Gabrielle, dizendo que passará a eternidade atrás da alma da minha mãe, atrás de suas reencarnações para tentar seduzi-la, para condenar sua alma ao inferno".
A deusa perguntou em desespero.
"Ele pode fazer isso?".
"Sim, ele pode. Gabrielle sabe disso, por isso está disposta a perder sua alma para proteger minha mãe. Nossa amiga está atrás das maçãs douradas em busca da eternidade para evitar que Lúcifer atinja seu objetivo".
Afrodite tentou entender.
"Mas por que a eternidade prejudicará Gabrielle?".
"O tempo dos deuses terminaram. Um Deus maior, criador de todos nós, reivindicou as almas humanas. ELE não permite que os humanos retirem vidas de outros ou de si próprios, pois além do presente do livre arbítrio, também nos presenteou com o renascimento, para evoluirmos espiritualmente. Se a Gabrielle torna-se eterna, não conseguirá evoluir, e dessa maneira não alcançará o paraíso".
Afrodite desesperou-se.
"Sou imortal".
Eva segurou a mão da deusa. Sentiu compaixão. A seguidora do amor tentou esquecer que os deuses tentaram matá-la. Ali, a sua frente estava uma mulher que perdeu toda a sua família e o mundo que conhecia mudava. Eva tentou confortá-la.
"Você não teve escolha. Nasceu deusa. Não sei quais são os planos do Senhor para você, mas ele sabe o coração bondoso que bate dentro desse peito, e sei que isso pesará no final".
Os olhos de Afrodite lacrimejaram, soltou o ar de seus pulmões.
"Obrigada".
Eva soltou a mão da deusa, deu um doce sorriso a Afrodite.
Afrodite acalmou-se e perguntou.
"Eva, você fala em salvar a alma de Gabrielle, mas e a alma de sua mãe? Pelo que estou entendendo, a imortalidade de Gabrielle é a única maneira de salvar Xena".
Eva respondeu.
"Não é a única maneira. Gabrielle é a alma gêmea da minha mãe, estará destinada a encontrá-la em suas próximas vidas. Nossa amiga sempre será o equilíbrio de Xena. Lúcifer utilizou o fato que em cada renascimento esquecemos nossa vida passada. Gabrielle foi invadida pelo pavor de não lembrar de seu amor. Mas devemos lembrá-la que o amor também renascerá".
Afrodite compreendeu a situação.
"Como posso ajudá-la?".
Eva sorriu. Tinha esperança no coração.
"Preciso que me leve a Odin. Sei que ele possui as maçãs douradas. Tenho que chegar antes da Gabrielle".
A deusa colocou sua mão sobre o ombro de Eva.
"É pra já, queridinha!".
Um raio de luz iluminou seus corpos, deixando o templo em sua tranqüilidade e abandono.
Capítulo 7
Vários dias depois.
A neve fina, mas constante dificultava o progresso da viajante pela estrada. O crepúsculo anunciava que o dia estava no fim. A sombra caia lentamente sobre as árvores ao redor, deixando-as com um aspecto sombrio. Ouvia-se apenas o vento frio entre as copas e o som dos passos por cima da estrada de terra batida e o galopar de um cavalo. Não havia sinal de animais ou de presença humana, entretanto, Gabrielle sabia que em breve chegaria a Cirdan, também conhecida como a Cidade das Valkirias, pois podia vê-las em seus cavalos alados.
A neve começou a cair mais pesadamente, forçando a poetiza a caminhar mais rapidamente. Gabrielle fechou melhor seu casaco, tentando se proteger do frio. Estava em pleno inferno, e a temperatura caia a cada hora. Suas calças grossas de couro marrom e a dupla camada de blusa de algodão, que estava escondido pelo seu longo casaco de pele das cores marrom e branco, a protegia, porém, não por muito tempo. Ela não queria montar em argo, pois o animal se encontrava em estado de exaustão, chegando a ponto de tombar de cansaço, resultado do grande esforço feito na última semana, causando grande preocupação. Por causa disso, preferiu enfrentar mais um pouco o frio, poupando o animal amado, puxando a égua pela correia ao invés de montá-la ou de providenciar outro cavalo.
A escuridão envolveu Gabrielle, mas pelo fato de estar em uma elevação da estrada, conseguiu visualizar algumas luzes na cidade a sua frente. Faltava pouco. Mais alguns metros. O frio a fazia tremer.
Gabrielle caminhou rapidamente e entrou na rua principal de Cirdan. A cidade se encontrava completamente deserta. Não havia moradores nas ruas. Mas a poetiza sabia que havia pessoas nas casas, pois as luzes das velas e do fogo da lareira escapuliam pelas fendas das janelas e portas das casas, proporcionando um pouco de iluminação na noite negra e silenciosa.
O cansaço sobrepujou a viajante. Cirdan era uma cidade grande. Gabrielle precisava encontrar logo um local para deixar Argo e outro para ela descansar. Pensou em bater na porta de um morador para pedir informações, contudo, antes de executar tal ação, sons alegres chamaram a atenção da poetisa que seguiu o barulho até encontrar sua origem.
Gabrielle logo descobriu que os sons vinham de uma taverna. "Nem todo o frio do mais rigoroso inverno consegue afastar os clientes de uma boa bebida". Pensou.
A poetiza parou a poucos metros da Taverna "Valkiria". Por alguns instantes contemplou a penumbra da imagem de um cavalo e uma mulher montando o animal, localizado acima da porta e abaixo do nome da taverna. Tal animal sempre foi um símbolo das guerreias de Odin. "Quem sabe encontro uma aqui com a maçã?". Ridicularizou. "As coisas nunca são fáceis". Gabrielle respirou profundamente. "Adoraria cavalgar novamente um desses animais... Adoraria cavalgar com meu amor".
Argo ficou do lado de fora da Taverna, amarrado em uma coluna de madeira na entrada, enquanto Gabrielle entrou no estabelecimento para obter informações de um local para deixar a égua e de um quarto.
O barulho do ambiente, o aroma de vinho e fumo invadiram o senso de Gabrielle que ficou alguns instantes na porta analisado o local. Aparentemente a Taverna era como outras tantas freqüentadas por ela e pela Xena, mas apesar de estar relativamente cheio, a barda não sentiu perigo. Não havia guerreiros ou pessoas hostis. Apenas pessoas procurando uma boa conversa, um pouco de vinho e um local quente em uma noite fria.
Uma jovem mulher, com cabelos longos, pretos e encaracolados, com um rosto bem suave, angelical, com olhos castanhos, usando um vestido azul com um avental branco, aparentemente na casa dos vintes verões, dirigiu-se a Gabrielle.
"Seja bem vinda a Taverna das Valkirias".
Gabrielle sorriu para a garota e disse.
"Tenho uma égua que precisa de um estábulo e preciso também encontrar um local para passar a noite, pode me ajudar?".
A jovem retribuiu o sorriso.
"Claro! Temos um estábulo atrás da Taverna e temos quartos no andar de cima".
"Quanto custaria?".
"Sete dinares".
Gabrielle argumentou.
"Sete dinares é um preço muito alto para passar somente uma noite".
A jovem retrucou.
"Não é tão alto em uma noite de neve como essa. Além disso, sete dinares pagará também um banho quente, uma bela sopa de veado, com pão e vinho, e uma boa escovada na sua égua".
A barda estendeu sua mão para a garota a sua frente.
"Fechado, porém também quero café da manhã".
A jovem pensou por alguns instantes e fechou o acordo segurando o antebraço da Gabrielle.
"Não tenho o hábito de abrir exceções, já que esse preço é fixo para esses serviços, mas gostei de você, assim fecharemos nesse preço, incluindo o café da manhã".
"Obrigada, foi um prazer negociar com você, aliás, qual o seu nome?".
"Myrna...." A jovem virou seu tronco e apontou para um homem atrás do balcão e, em seguida, para um rapaz mais ao fundo da taverna "...Aquele atrás do balcão é meu pai, Derfel e aquele servindo as mesas é meu irmão Issa".
Gabrielle visualizou um homem alto, forte, de cabelos grisalhos, mas com alguns fios pretos, provavelmente um ex-soldado, já que possui cicatrizes no rosto, e que em momento algum deixou de olhar sua filha durante sua conversa. Já Issa, é um jovem perto dos quinze anos, robusto, com um cabelo comprido, castanho escuro, na altura do ombro.
"Essa família não é nativa da região. A população local possui cabelos e olhos mais claros". Observou Gabrielle.
"Me acompanhe". Pediu educadamente Myrna.
A poetiza seguiu a jovem até seu pai.
"Pai, combinei sete dinares pela hospedagem com banho, refeição noturna e diurna, e um local para a égua no estábulo".
Derfel nada disse. Apenas encarou a mulher na sua frente. - "Não pode ser. Não pode ser ela!". Pensou.
Gabrielle sentiu que estava sendo analisada. Provavelmente o pai da Myrna era ex-guerreiro, ponderando se a estranha era uma ameaça ou não. Seguindo seu extinto, a barda declarou.
"Não quero problemas, só quero um local para passar a noite".
O homem completou.
"Eu também não quero. Essa é uma cidade pacífica, comercial. As Valkirias se encarregam de manter a ordem. Assim espero que você não crie problemas".
Gabrielle foi a mais honesta possível. Certamente haveria alguma confusão, já que não sabia se Odin colaboraria. Mas Derfel não precisava saber de suas intenções.
"Não criarei dificuldades para você".
"Certo". Disse Derfel. Em seguida prosseguiu, menos hostil, seu diálogo, sentindo que honestidade nas palavras que acabara de ouvir.
"É norma da casa pagar adiantado. Issa cuidará da sua égua, enquanto Myrna arrumará o quarto e o seu banho. Você pode sentar, levarei sua refeição em breve".
Myrna assistiu tudo com um certo interesse e curiosidade. Nunca viu seu pai ser tão severo com um freguês. Mas seus pensamentos foram quebrados pela voz de seu pai.
"Pede ao seu irmão para cuidar da montaria da Gabrielle".
Myrna obedeceu. A poetiza esperou a garota afastar e indagou.
"Derfel, de onde me conhece? Já que não disse meu nome".
O dono da taverna nada disse. Encarou a mulher na sua frente e pensou. "Seria sábio alertá-la? Se o que falam é verdade, se ela foi capaz de mudar Xena, estou diante de uma boa pessoa... Mas não será sábio contrariar Grinhilda".
"Sente. Levarei sua refeição".
Gabrielle não se contentou e agarrou a blusa de Derfel, impedindo-o de lhe dar as costas. O dono da taverna percebeu que não escaparia da situação sem uma explicação.
"Você e Xena são bem conhecidas nessa região. Sua fama a precede, Barda".
Gabrielle manteve o olhar de indagação. "Ele está me escondendo alguma coisa... Derfel conhece minha história pelo visto, já que me chamou de barda, mas tem algo que me esconde". A poetiza soltou a blusa de Derfel. Pegou sua bolsa de moedas, separou os setes dinares e jogou em cima do balcão. O homem ficou aliviado ao ver que não seria questionado.
Depois que a barda sentou em um canto da taverna, Derfel entrou na cozinha e mandou o cozinheiro preparar uma refeição e, assim que terminasse, levasse para uma jovem guerreira que esperava na mesa. Em seguida, Derfel abriu uma porta que tinha na cozinha que dava para os fundos da taverna e estábulo. Levou com sigo uma tocha, para visualizar melhor, mas não precisou procurar muito para encontrar o que procurava. No estábulo, debaixo do telhado. O som do corvo chamou sua atenção.
"Ela está aqui". Derfel simplesmente disse. O corvo exauriu mais um som, dando a entender que assimilou a informação, levantando vôo em seguida. Derfel ficou observando por alguns instantes a ave se distanciando, "Será que fiz a coisa certa?", não percebendo a aproximação de seu filho.
"Pai, me chamou?". Tal frase acabou tirando Derfel de seus devaneios.
"Não demore muito, está frio e estou precisando de você na taverna". Derfel comentou secamente, mais do que pretendia, e voltou para o balcão, preocupado.
Capítulo 8
O corvo sobrevoou a Floresta Escura, coberta de neve. A lua crescente e opaca permitia apenas que uma pouca iluminação atingisse a terra. A escuridão era quase total, mas os olhos adaptados e o senso de direção da ave o guiaram seguramente para a fortaleza de Odin, no alto da Montanha de Aman.
O servo de Odin pousou na janela do salão do trono e procurou pelo seu mestre, o encontrando sentado na majestosa cadeira vermelha à esquerda da janela. A ave também observou na sua frente uma figura com uma capa de pele cinza, usando um capuz, em pé e estendendo sua mão em direção a lareira, procurando calor.
Depois de observar o local, o corvo se pronunciou com um estridente som, chamando imediatamente a atenção dos ocupantes do salão.
Odin levantou seu braço e o corvo pousou em seu antebraço direito. Com o indicador da mão esquerda, o deus acariciou a cabeça da ave por alguns momentos.
Eva observou a cena com curiosidade e ansiedade, esperou impaciente pelas palavras de Odin, que pronunciou sem emoção e na altura suficiente para que Eva pudesse ouvir.
"Ela está aqui".
Eva olhou profundamente nos olhos do deus.
"Irei encontrá-la".
Odin levantou e caminhou até a lareira. Observou o fogo e comentou.
"O povo dessa região tem uma lenda sobre essa montanha. Diz a história que havia um deus que deu alma a uma certa montanha e, somente aqueles puros de coração conseguiram sobreviver a escalada para chegar ao palácio desse deus. Porém um dia, uma guerreira, responsável pela morte de milhares de pessoas, culpada pelas ações mais hediondas, conseguiu atingir o topo e ao deus. Confiando no julgamento da montanha, o deus a deixou entrar em sua vida. O deus lhe deu aquilo de mais precioso que tinha: sua confiança, porém a guerreira a enganou, o traiu. Furioso o deus convocou a alma da montanha e exigiu uma explicação... Amam, que é a alma da montanha respondeu: "Não havia pureza no coração da guerreira, mas havia luz em sua alma". O deus não compreendeu. Levou anos para entender que a guerreira precisava de um caminho, uma direção...".
"Gabrielle". Eva sussurrou, interrompendo o conto.
O deus suspirou. "Sim... Gabrielle devolveu a pureza ao coração da guerreira".
Eva ouviu tudo, sem deixar de observar a dança das chamas.
Odin continuou.
"Gabrielle fará de tudo por essas maçãs".
"Eu farei de tudo para desencoraja-la". Afirmou a seguidora do amor, encarando o deus.
Odin se afastou de Eva e voltou a sentar no trono. Ele sabia que a filha de Xena estava decidida, assim como Gabrielle. Mesmo não sabendo de todas as intenções de Lúcifer, a poetiza faria de tudo para proteger a guerreira, mesmo que isso custasse sua alma, saber a verdade completa não mudaria a decisão de Gabrielle, apenas a reforçaria.
"Não interferirei. Você terá total liberdade em minhas terras. Mas, se Gabrielle subir Amam e me pedir a maçã, não negarei".
Eva ficou alarmada, mas nada disse de imediato. Olhou para Odin incrédula.
"Vim até aqui achando que teria a sua compreensão".
"Você tem minha compreensão Eva, mas a decisão cabe a Gabrielle. Você pediu ajuda a Afrodite para trazê-la ao meu reino para me avisar, e assim aconteceu. Coloquei vigilantes em todos os locais e instrui Grinhilda a pedir colaboração dos donos de tavernas, para nos alertar sobre a presença de sua amiga".
Eva caminhou até Odin e suplicou.
"Por favor, não dê as maçãs para Gabrielle".
"Não interferirei na decisão de Gabrielle, caberá a você".
Eva abaixou a cabeça. Sua principal esperança, que Odin não entregaria as maçãs douradas, caiu por terra.
"O corvo lhe mostrará o caminho para encontrar Gabrielle, contudo, você só partirá ao amanhecer, quando a tempestade cessar. Sua espera pela sua amiga terminou. Vá descansar. Não posso mais te ajudar".
A ave deixou o antebraço do seu mestre e pousou no ombro de Eva.
"Obrigada pela hospedagem durante todos esses dias de espera pela Gabrielle".
Odin apenas moveu levemente a cabeça. Eva deixou o salão do trono para passar a noite em seu quarto de hóspede. A noite seria longa. Agora só lhe sobraram as palavras para impedir que Gabrielle destrua sua alma.
Depois da partida de Eva, Grinhilda entrou no salão e questionou.
"É sábio entregar a maçã para Gabrielle?".
Odin olhou para a comandante das valkirias. Antes de responder ponderou. Grinhilda teve a sensação que Odin tinha receio.
"Gabrielle terá total liberdade para obter a maçã. A escolha do seu destino não será decidido por mim". Anunciou Odin, fugindo da pergunta da valkiria.
"Quem tem esse poder sobre o destino de Gabrielle?". Grinhilda quis perguntar, mas seu instinto achou sábio não questionar.
Odin em seu trono ordenou.
"Deixe-me sozinho".
A comandante das valkirias acenou levemente com a cabeça e deixou o salão, fechando as grandes portas atrás de si. Sentia intranqüila. Odin agia de maneira estranha.
O deus nórdico não conseguiu aproveitar por muito tempo a solidão e a reflexão. Sentiu a presença de alguém em seu salão.
"Não se sinta culpado pelo destino da Gabrielle".
Odin observou com cuidado o espírito que pela segunda vez o visitava nesse mesmo dia. Em poucas horas sua vida havia mudado completamente. Conheceu a verdade do universo. Eras de existência não significava nada depois do conhecimento obtido. Odin, o senhor dos deuses nórdicos, era um ser inferior. Um humano com poderes e imortalidade. Criado para controlar e fiscalizar o comportamento dos mortais até que estes estivessem preparados para seguir o verdadeiro deus.
"Nada parará Gabrielle. Eva não conseguirá mudar a obstinação que Gabrielle possui em proteger Xena. Contar sobre a verdadeira intenção de Lúcifer só reforçará suas intenções de conseguir a imortalidade".
Michael apenas respondeu.
"Assim espero".