Era uma vez na Grécia...

Mary Stocks

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Capítulo 4

 

        Quando Xena acordou, todos no local espantaram-se, mas não mais que a própria barda. Ainda entorpecida pelos efeitos da poção que tomara anteriormente, a guerreira ainda tinha alguma dificuldade em se manter sentada. Todos a olhavam, boquiabertos. Olhar que era retribuído com a mesma estranheza.

        - Gabrielle, o que está acontecendo aqui? – perguntou confusa.

        - E- eu não sei – gaguejou a barda.

        Percebendo que esta “conversa” não chegaria a lugar nenhum, Afrodite limitou-se a explicar vagamente para Xena tudo o que tivera acontecido até ali. Omitiu, é claro, quem teria despertado-a. Os detalhes caberiam a Gabrielle contar ou não.

        - Então tudo isso é culpa de Ares?

        - Sim... Ele enfeitiçou você a fim de possuir a sua alma, e somente depois de receber um beijo de amor verdadeiro você acordaria novamente. – resumiu a Deusa.

        - E qual deles... – apontou para os guerreiros – Me acordou?

        - Temo que eu não possa responder a essa pergunta, querida. Você vai ter que descobrir sozinha.

        Após ouvir esta ultima frase de Afrodite, Xena lançou um olhar desafiador para todos os presentes. Analisou um por um, a fim de descobrir quem teria despertado-a do sono eterno. Não queria acreditar que um daqueles guerreiros seria o amor de sua vida.

        - Xena – disse Bórias se aproximando – Acho que não precisas mais procurar. Fui eu quem a acordei.

        - Você? – fez cara de dúvida – Tem certeza? Olha só... Você é um cara muito legal, mas nem quando você era vivo o seu beijo conseguia me “levantar”.

        - Claro que não foi ele – Ulysses se pronunciou – Querida Xena, não se deixe enganar por um Senhor de Guerra de meia tigela... Claro que fui eu quem a acordou. – beijou-lhe as mãos.

        - Sério? E como foi que você conseguiu alcançar a minha boca?

        - Xena... – chegou Lao Ma voando enrolada em uma cortina – Creio que saibas que nenhum desses bárbaros conseguiria compreender que um beijo é mais complexo do que o simples ato de encostar os lábios. Um beijo deve conter sentimento, e você sabe o que nós duas sentimos uma pela outra, não compreende?

        - Olha, eu não quero me intrometer nessa confusão, mas eu vi tudo. – disse Draco – Essa chinesinha ai só conseguiu te fazer espirrar. E nem dê ouvidos a Petracles... Quer dizer, se ele falar alguma coisa, é claro!

        Assim que disse isso, uma confusão fora instalada. Cada um queria tomar os créditos por terem acordado a grande Princesa-Guerreira, e assim se livrarem da permanência no limbo eterno. Em outro canto do salão, Gabrielle escondia-se, pois estava morrendo de vergonha, mas de nada adiantou, Xena avistara sua amiga, e a estas alturas, seu coração já tinha a certeza de quem fora a pessoa que a beijara.

        - Gabrielle, posso falar com você? – todos lançaram o olhar para a barda – Em particular? – agora fora a vez de Xena lançar um olhar para Afrodite.

        - Tudo bem! Já entendi! Vou fazer mais um favorzinho pra vocês. Vou levar esses defuntinhos para casa. Assim vocês podem conversar mais a vontade. – e todos desaparecem junto com ela.

        - Acho que a gente precisa falar sobre isto, não?

        - Desculpa Xena, eu juro que eu não sabia, é que eu estava desesperada e você sabe como é que eu fico quando to nervosa, eu ajo sem pensar e acabo fazendo besteiras.

        Xena inclinou-se mais para perto, examinando a face enrubescida de sua amiga.

        - Sabe, a princípio pensei que essa história de beijo fosse apenas uma historinha de Afrodite, mas depois começou a ter sentido para mim. – segurou as mãos trêmulas de Gabrielle - Sempre soube que era você. Agora tudo o que eu sinto começou a ter ainda mais sentido - disse isso para em seguida beijá-las.

        Gabrielle perdeu o controle e caiu para trás. Olhando para cima ela finalmente percebeu o olhar de Xena. Foi como se todo o seu sangue começasse a ferver de repente. Estava indefesa e hipnotizada por aqueles olhos azuis impressionantes.

        Xena colocou a mão no seu rosto e riu.

        - Foi você, não é? A barda tentou engolir, mas sua boca estava seca demais.

        - Sim – ela disse numa voz rouca.

        - Bem, o sentimento é mútuo. - beijou levemente os lábios da barda – Eu te amo!

        - Eu também te amo – sussurrou.

        Ouvindo estas palavras tão inacreditáveis, Xena se aproximou. Sem dizer nada, elas se abraçaram, os corpos quentes pressionando cada vez mais forte enquanto segundos transformavam em minutos. Aproveitando-se de sua altura, Xena começara a beijar o cabelo de Gabby, movendo seus lábios até que eles encontraram a boca ansiosa da barda. Elas se beijaram suavemente a princípio. À medida do desejo crescente, beijar já não era suficiente. Xena, vibrando de excitação enquanto as mãos de Gabby exploravam o seu corpo, começou a desejar mais. Ávida, ela tirou lentamente a blusa da barda e acariciou seus seios. Pé ante pé, tenazmente até o divã.

        Xena ardia em chamas. Ela queria um contato mais íntimo ainda. Com a ajuda de Gabby ela se desvencilhou de sua própria armadura. Respirava com dificuldade devida sua excitação, desse modo, em sua pressa, rasgou o restante das roupas de Gabby.

        - Muita roupa – arfou. - Xena, o que quer que esteja planejando, faça logo, por favor.

        A guerreira sorriu. Tudo corria perfeita e sensualmente bem, quando Gabrielle fora surpreendida por um balde de água fria em seu rosto. Tudo não se passava de um sonho. O mais louco sonho que tivera. À sua frente, Xena estava com um semblante preocupado.

        - Gabrielle, você está bem?!

        - Er... Oi, Xena. – murmurou - O que foi? Onde eu estou?

        - Como assim “onde você está”? Você está no nosso acampamento, esqueceu? Estamos indo pra Atenas. Você estava tremendo, falando coisas desconexas e suando muito. Fiquei com medo de estar passando mal ou algo assim.

        - Não, não. Só tive um sonho estranho. “Muito estranho, diga-se de passagem”.

        - E o que era? – perguntou curiosa.

        “Se eu contar o que foi que eu sonhei, Xena nunca mais vai querer olhar na minha cara”, pensou a barda.

        - Er... Com Esperança. Sonhei que ela tinha voltado e me atacado. Foi horrível. – mentiu.

        - Hum... Sei. – ergueu uma sobrancelha – Eu vou caçar o nosso almoço. Você vem comigo?

        - Não, obrigada. Eu preciso escrever umas coisas.

        - Então depois que eu voltar, a gente pode ir tomar um banho na lagoa, o que acha?

        - Parece perfeito pra mim. – respondeu rapidamente.

        - Então ta, até mais. - pausou – Tem certeza que está tudo bem mesmo?

        - Tenho sim, Xena. Pode ir. Vá logo que eu estou morrendo de fome. – falou enquanto levava Xena para fora do acampamento.

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        Agora estava sozinha e cheia de dúvidas em sua cabeça. Será que aquele sonho significava alguma coisa? Afinal, elas já se conheciam há algum tempo e já haviam compartilhado vários momentos íntimos. Ainda assim, após tanto tempo de amizade, agora um sentimento diferente tomava conta do corpo da barda. Em sua cabeça, pensamentos de Xena fazendo amor com ela estavam se tornando constantes. Ela já tinha visto o corpo nu da guerreira diversas vezes, e já sabia o que esperar. Gabrielle tinha verdadeira admiração por sua amiga. Achava-a completamente perfeita. “Eu tenho que parar com isso. Xena é minha amiga, e nunca vai passar disso.”, pensava.

        Mas aquele sonho fora muito real para ser esquecido com facilidade, Gabrielle precisava anotá-lo para sempre se lembrar do seu momento mais íntimo com a guerreira. Escreveu cada mínimo detalhe. Desde o aparecimento de Julius e o plano maquiavélico de Ares, até a descoberta de tudo por Afrodite, e o beijo que deu em Xena e as conseqüência que ele trouxe. Escreveu também o que estava sentindo, e sobre como era difícil assimilar este novo sentimento por sua amiga com o fato delas conviverem juntas e compartilharem toda e cada intimidade.

        Saber que ela estava predestinada a ter uma relação apenas de amizade com Xena influenciaria decisivamente no seu comportamento. Ela não queria perder o que ambas haviam conquistado juntas, mas não queria estragar sua relação com a guerreira. Era muito problemático lidar com seus próprios pensamentos, que iam desde uma divertida incredulidade até uma violenta condenação por estar se metendo em um campo muito difícil: o da paixão.

        “E pra você eu entregaria tudo – minha confiança, meu coração e a minha mente”. Mal acabara de escrever estas últimas palavras, e Xena retornara ao acampamento. Segurava um coelho na mão e frutas dentro de um cesto na outra. Com medo que a guerreira pedisse pra olhar o pergaminho, Gabrielle escondeu-o dentro de uma sacola e se levantou rapidamente. Em sua pressa ao levantar, não percebera que o pergaminho saíra da sacola e ficara semi-aberto.

        - Você quer comer primeiro ou quer ir tomar banho no lago? – perguntou Xena.

        - Eu como uma maçã – lembrou de seu sonho, onde a única coisa que ela havia comido eram maçãs – Aliás, me de um pêssego, por favor!

        - Como quiser – entregou-lhe o pêssego – Vamos?

        - Claro. – saíram.

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        Xena estava sentada na margem da lagoa, e mastigava uma pêra pensativamente. Já conhecia Gabrielle há quatro anos. Em todo este tempo ela já havia ficado com alguns homens – alguns até interessantes – mas nunca houve ninguém com quem ela parecesse se envolver seriamente. Nenhum desses homens transmitia tanta confiança, carinho e conforto quanto Gabrielle lhe dava, mesmo sendo apenas sua amiga.

        De repente Xena se pegou pensando na barda, e em todas as aventuras que já tinham passado juntas. Desde a época em que se conheceram que Gabrielle se esforçava para ser digna de ser a ajudante de Xena, mas há muito tempo ela não era mais apenas a ajudante, ela já era a melhor amiga que a guerreira poderia querer ter. Houve vezes em que Xena, sem admitir para ninguém mais além dela mesma, se sentia completamente atraída pelos lindos olhos verdes de Gabrielle. Mas ela sempre lembrava que a amizade delas era muito mais importante que qualquer ímpeto de desejo que ela poderia ter, e logo tratou de afastar os pensamentos dela e Gabrielle juntas. Levantou-se e seguiu em direção a uma pedra para que pudesse falar com a barda que ainda estava nadando. - Gabrielle, eu esqueci meu chakram no acampamento, vou buscar. Você quer alguma coisa? A barda balançou a cabeça em sinal negativo. - Xena, quer fazer o favor de entrar logo na água. A guerreira deu de ombros sorrindo e saiu.

 

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        O acampamento não era lá um sinônimo de organização, mas dava para saber onde ficavam todas as coisas que elas guardavam, exceto pelo fato da guerreira não ter a mínima idéia de onde tinha colocado o seu chakram dessa vez. “Eu sei que está aqui em algum lugar... Pensa guerreira... Onde foi que você o viu pela última vez? [...] Claro, eu dei para Gabrielle... Deve estar dentro da bolsa dela”. Mal acabou de pensar, e avistou sua arma saindo da bolsa de sua amiga e ao lado dele também havia um pergaminho semi-aberto. “O que será que minha barda escreveu dessa vez? Acho que não faz mal se eu ler...”.

        Ao terminar de ler tudo, Xena estava mais assustada do que jamais estivera. Nunca pensou que iria ler algo do tipo vindo de Gabrielle. “Diga a ela como você se sente” dizia em uma das frases que lera. A guerreira não sabia o que pensar. Em sua cabeça formara-se um redemoinho de pensamentos desconexos e abstratos, seu coração batia acelerado, suas mãos suavam muito, e sua garganta estava extremamente seca. Mas de alguma forma, a guerreira se sentia extremamente feliz por ter lido o pergaminho. Uma felicidade inexplicável. Quase gritou. Tratou de arrumar tudo como havia encontrado quando chegara ali, e voltou para a lagoa. Estava quase correndo para contar à barda o que havia lido, e que se sentia exatamente do mesmo jeito, mas não o fez. Ela não podia. Mesmo que seu coração estivesse feliz.

        Tentando não deixar claro que ela conhecia o segredo de Gabrielle, deu a volta na lagoa e foi nadar ao lado da barda.

        - Achei o que eu procurava.

        Olhou diretamente para a barda para ver se obteria alguma reação. A barda ficara confusa.

        - Sabe Gab... É muito importante pra mim. – a guerreira se aproximou mais ainda dela – Acho que eu não conseguiria viver sem isso. – olhou-a sensualmente. Quando a guerreira percebeu a confusão no rosto de Gabby, começara a ficar mais nervosa do que já estava. Não negava que ela era o grande amor de sua vida, tudo o que ela tanto queria em sua vida. Seu anjo da guarda. - E pra você eu entrego tudo – minha confiança, meu coração e a minha mente.

        O medo saltou aos olhos da barda.

        - O que você disse? Você leu?

        - Sim.

        Gabrielle empalidecera ao notar que Xena tinha lido o seu pergaminho, e agora sabia de tudo. Ficara cabisbaixa.

        - Você deve estar com muita raiva de mim. Vou compreender se não quiser mais que eu a acompanhe. Xena sorriu suavemente e passou seus dedos pelos cabelos loiros da barda, como já quisera fazer tantas vezes no passado.

        - Não diga besteira, Gab. – disse enquanto inclinou-se para beijá-la – Eu nunca faria isso com a pessoa que eu amo. Por que você não me falou antes?

        - Eu fiquei com medo que você não quisesse mais falar comigo. - afastou-se um pouco da guerreira – Nós somos amigas, isso nunca daria certo.

        - Gabrielle – olhou-a – Não adianta fugir, este sentimento não vai acabar amanhã por mais que a gente negue.

        - Mas o que vai nos acontecer agora? – disse em toda a sua vulnerabilidade.

        - Bem – beijou-a – Depois você vai me contar como e quando descobriu que também se interessava por mim. Agora eu só quero que você venha comigo a um lugar.

        - Aonde, Xena?

        - Confia em mim?

        - Sempre.

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[Some things are meant to be – Elvis Presley]

        Elas foram nadando até a cachoeira que escondia atrás de si uma gruta. Entraram.

        - Venha, Gab. – estendeu a mão para que ela a acompanhasse, e em seguida deitou-a no chão.

        - Xena - a barda achava difícil se concentrar quando Xena a olhava daquele jeito. Seu olho era de um azul tão perturbador que ela achava que a guerreira poderia olhar através dela.

        – Eu...eu te amo.

        - Também te amo, minha barda. Mas agora feche os olhos – sussurrou. – Apenas relaxe. – deslizou sua mão para a coxa de Gabrielle, com os dedos apertava-a suavemente, acariciando-a. Ela estava surpreendida com o próprio descaramento. Não que ela fosse tímida, mas ela nunca tinha sido tão rápida.

        Xena detectou certo recuo de Gabrielle.

        - Desculpe – disse retirando a mão, sentindo o gosto do pânico em sua boca – Eu não sei o que me...

        A boca de Gabrielle de repente estava na sua, suprimindo suas palavras e ateando um fogaréu selvagem em suas veias. Xena, vencida pelos lábios persistentes, subjugada por uma língua insistente que a invadia, rendeu-se às mãos de Gabrielle. Ela se sentia febril, por dentro e por fora. Gabrielle arfava perto do ouvido de Xena, fazendo-a sentir o calor de sua respiração enquanto passava suas unhas pelas suas costas musculosas.

        Fazendo com que Gabrielle deitasse por cima de seu corpo, Xena começara a beijar todo o seu pescoço. A maciez e o calor da pele da jovem barda queimavam o rosto da guerreira.

        Xena esforçava-se para respirar quando sentiu uma das mãos pequenas de Gabrielle passearem sobre seu corpo – seios, costas, quadris e pernas. A guerreira soluçava. Seus movimentos ritmados pareciam uma dança.

        Os movimentos perderam o sentido e a direção, as bocas estavam famintas... Sedentas de desejo. Incapazes de acalmarem a pulsação que corria pelos dois corpos, beijaram-se. Deitaram-se cansadas até que suas respirações voltassem ao normal.

        - Agora sim a minha vida começou! – disse Xena enquanto beijava sua barda.

        - Xena – murmurou Gabrielle – Eu quero que saiba que... Enquanto eu viver, eu vou te amar.

        - Sabe Gab. Tem certas coisas que eu deveria ter dito e feito, mas eu nunca tive coragem. Eu só quero que você saiba que eu nunca pensei que eu fosse amar alguém assim como eu te amo. Você é um anjo para mim. – beijaram-se.

 

 

 

Fim.