O desabrochar da paixão

- Um conto da primeira vez -

Rose Angel

 

 

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de

 

Disclaimers

Aí pessoal... Essa é a primeira fanfiction que me atrevo a escrever desde que tomei conhecimento desse maravilhoso mundo de histórias imaginadas por fãs da série XWP.

Esta fic trata de como imagino haver sido a descoberta do amor entre Xena e Gabrielle, logo contém temas adultos expondo relações sexuais explícitas entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, onde você mora é proibido ler esse tipo de material ou for homofóbico, não continue a leitura. A escritora e a pessoa que mantém o website onde esse trabalho aparece não aceita responsabilidade legal pelo não cumprimento desse alerta.

Esta história por certo se passa lá pelo final da primeira temporada, início da segunda...

Ressalto ainda que os personagens de Xena e Gabrielle são marca registrada da MCA/Universal e Renaissance. Elas são usadas aqui sem intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright. O resto da história é fruto da minha imaginação.

Desejo a todos uma boa Leitura!

Se quiserem enviar comentários acerca da história, críticas ou sugestões, ou trocar idéias sobre a série XWP meu e-mail é angelrose@pop.com.br

(© novembro/2003)

 

 

Já se passavam algumas luas em que Xena se encontrava pensativa e ensimesmada, perdida em devaneios, dúvidas e questionamentos sobre sensações e sentimentos que lhe afloravam do íntimo e a faziam perder noites de sono. Seus dias também vinham sendo atormentados pelos mesmos pensamentos. Desde que Gabrielle entrou em sua vida tudo mudou radicalmente. É fato que sua mudança interna já se havia processado, tendo como mola impulsora os ensinamentos e os exemplos da grande amiga Laoma. Porém, Gabrielle conseguiu conferir um encanto todo especial a rotina de seu dia-a-dia, materializando os doces ensinamentos de Laoma. Era como se Laoma e Gabrielle houvessem freqüentado a mesma escola, ou tivessem tido a mesma família, pois o que uma pregava a outra construía em vivências, mesmo que instintivamente. Laoma era a teoria e Gabrielle a prática do amor ao próximo. Realmente a rainha amazona havia transformado radicalmente sua vida. E como se não bastasse Xena passou a, gradualmente, reparar cada dia mais em Gabrielle. O que antes admirava como amiga e irmã passou a chamar-lhe a atenção como mulher. Gabrielle tinha belas curvas, toques suaves, mãos mágicas, hálito doce, voz melodiosa, caminhar sedutor.

Xena não conseguia afastar tais sensações enquanto seus olhos procuravam Gabrielle aonde quer que ela estivesse. Isso a perturbava significativamente e embora fosse uma mulher vivida não estava conseguindo controlar tal situação. Sempre fora uma amante exigente e apreciadora de homens viris e fortes como Boris, Ulisses, Marcus, Hércules, entre outros. E agora seus sonhos eram povoados por uma fada de tamanho diminuto, porém de amplidão de bondade, afeto e amor incondicional. De fato era incondicional o amor de Gabrielle e ela já havia demonstrado isso a Xena desde o momento em que, teimosamente, decidiu segui-la. Naquela época Xena já havia se acostumado a viajar sozinha, porém Gabrielle lhe impôs sua presença de um modo tão sutil quanto determinado. E até hoje ela agradece aos céus por causa disto.

Com estes pensamentos lhe povoando a mente observa Gabrielle ao longe, ocupada em colher algumas flores para enfeitar a mesa do jantar. O sol estava se pondo e os reflexos alaranjados refletiam nos cabelos loiros de Gabrielle como se fizessem parte do campo de trigos que emoldurava a paisagem do fundo do vale. Cada vez que se abaixava deixava à mostra as coxas esculturais através da fenda lateral de sua saia marrom. Seu top verde escondia os seios pequenos e firmes enquanto deixava seu colo descoberto, onde Xena já havia repousado a cabeça tantas vezes para ser consolada, e que agora lhe despertava desejos que não imaginava como controlar.

Gabrielle avista Xena de longe, sentada na rocha onde estava pensativa quase que toda a tarde, e acena para ela com uma das mãos enquanto a outra abraça um ramalhete de flores do campo. Ela era realmente a imagem da perfeição, pensou Xena e retribuiu o aceno. Gabrielle se vira e continua colhendo flores.

Perdida em devaneios Xena nem percebe Ares que se aproxima às suas costas. Ele a observava já há algum tempo e como conhecia Xena bastante bem lhe capturou os pensamentos, conseguindo entender perfeitamente o que se passava no coração de Xena, melhor que ela própria. O que Ares viu nos olhos de Xena foi amor e paixão.

Uma onda de inveja invadiu o deus da guerra, pois tudo o que ele queria era que Xena tivesse aqueles sentimentos por ele. E para conseguir seu intento utilizaria os recursos que precisasse, quaisquer que fossem. Ares queria Xena como sua princesa guerreira. Já bem próximo comenta:

- Pensando na vida, Xena?

Xena se vira sobressaltada e pergunta:

- O que é que você quer Ares?
- Nada... Só estava de passagem...
- Ta bom... E eu sou a rainha do Egito.
- Não ironiza Xena. Você sabe muito bem o que eu quero. Eu quero você!
- Desiste Ares. Você nunca me terá. E você sabe disso.
- O que eu sei é que se EU não a tiver ninguém mais a terá... – diz Ares e volta seu olhar para Gabrielle, desafiadoramente.

Xena salta sobre ele e o derruba com um empurrão. Coloca seu dedo em riste e diz:

- Olha aqui Ares, seja lá o que for que você esteja pensando ou tramando deixe Gabrielle fora disso, entendeu??? Senão você vai se ver comigo, sua eternidade vai ser um inferno.
- Ora, ora... Que brabinha... Então o que eu estou pensando é verdade...
- E o que é que você está pensando, seu estúpido?
- Xena... Nós somos adultos. Só um imbecil não vê que você está caidinha de amores por aquela... Gabrielle. – diz Ares se levantando do chão e sacudindo a poeira de suas roupas.
- Não seja estúpido, Ares, isso é um disparate!
- A quem está querendo enganar? Ao deus da guerra ou a você mesmo? Mas seja a quem for eu repito: ou você será minha ou de mais ninguém.

Ares desaparece antes que Xena diga mais alguma coisa. Xena senta-se novamente e respira lenta e profundamente como que tentando afastar o fantasma de Ares. Mas o que o deus da Guerra lhe disse não saía de seus ouvidos. Realmente Ares tinha razão. Seu amor por Gabrielle ia além do fraternal e da amizade. De fato não podia negar que desejava Gabrielle, mas não poderia contar-lhe para não magoá-la, nem tão pouco correr o risco de Gabrielle afastar-se dela por medo ou por questões de princípios. Sentia-se condenada a viver aquele amor da forma como vinha vivendo até o momento, platonicamente. Mas seria melhor do que se afastar de Gabrielle.

Gabrielle havia terminado de colher suas flores e estava prestes a entrar em casa quando acenou novamente para Xena. Já no interior da residência encheu um jarro com água e dispôs as flores harmoniosamente, depositando-as no centro da mesa da sala de jantar. Sentia-se bem toda vez que voltava à casa paterna, onde havia passado os melhores anos de sua infância. Vinha sentindo muitas saudades de sua família, principalmente da irmã Lila, com a qual tinha muita afinidade. Nas últimas semanas sensações inexplicáveis vinham invadindo seus pensamentos e sentiu necessidade de conversar com alguém que não fosse Xena. Logo pensou em Lila e decidiu passar uns dias em casa. Como não gostava de ficar longe de Xena pediu que ela a acompanhasse. Embora Xena não ficasse muito à vontade na frente dos pais de Gabrielle, que indiretamente atribuíam a ela o fato da filha ter saído de casa, decidiu acompanhá-la.

Desde que haviam chegado, há três dias, Gabrielle ainda não havia conseguido conversar com Lila, não por falta de oportunidades, pois costumava realizar longos passeios pelo bosque com sua irmã, mas sim por falta de coragem, ou por falta de saber por onde começar. O certo é que não conseguia mais guardar para si o que vinha sentindo. Sentia-se incomodada com seus sentimentos em relação a Xena, não sabendo bem como defini-los. O que antes era amizade fraterna vinha se transformando numa crescente atração física, que Gabrielle não conseguia compreender direito. Às vezes surpreendia Xena fitando-a detalhadamente, como se pudesse ver através dela, percebendo o que lhe passava no coração. Perturbava-se com isso, pois vinha percebendo em Xena detalhes que até então lhe passavam despercebidos. O porte da Princesa Guerreira sempre havia lhe chamado a atenção, porém passou a perceber as curvas de sua armadura, a envergadura de suas costas quando caçava ou nadava no lago, a silhueta de seu corpo quando saía nua das águas das cachoeiras. Os braços de Xena sempre lhe transmitiram segurança e aconchego, suas mãos tinham um toque forte, porém macio e carinhoso. Já perdera a conta das vezes em que cavalgara com Xena, porém nos últimos tempos o calor de seu corpo, quando lhe abraçava montada em Argo, parecia queimá-la e a inundava de sensações que a deixavam trêmula e excitada. “Devo estar enlouquecendo”, pensava. Já ouvira sobre histórias de relacionamentos atípicos, contados a meia voz, advindos em sua maioria nos murmúrios das tavernas, porém nunca conseguiu entender bem aqueles assuntos. Agora as coisas começavam a se descortinar para ela, e Gabrielle estava assustada. Precisava, urgentemente, conversar com Lila. Mas como conseguir contar para sua irmã que em sua noite de núpcias, com Perdicas, era o rosto de Xena que lhe vinha na mente? Era o olhar vazio da amiga lhe desejando felicidades que deixou seu peito mais amargurado na véspera daquele fatídico dia. Depois a morte de Pérdicus e o sentimento de culpa que passou a assola-la, como se o destino houvesse entendido seu desespero quando se deu conta de que estava definitivamente sem Xena. Acabou entendendo que o destino é escrito pelos deuses e devemos aceitar seus desígnios. Mas, e seu sentimento por Xena? Teria sido escrito pelos deuses? Estaria indo contra tudo que tinha como aceitável? Como poderia contar para Xena? O que Xena pensaria dela? Provavelmente a acharia inconveniente. Ou não? Realmente estava confusa, muito confusa. Sua única certeza era que jamais poderia viver sem sua princesa guerreira, precisava dela como quem precisa de ar, de pão e de água. Xena era, sem sombra de dúvidas, todo o seu mundo.

Gabrielle acabou de arrumar a mesa do jantar quando sua mãe lhe informa que a refeição estava pronta. O pernil assado servido com batatas e legumes da horta de Lila estava apetitoso. Gabrielle vai até a porta e grita para Xena:

- XENA... O JANTAR ESTÁ NA MESA...
- Tô indo.

Xena jantou em silêncio. Gabrielle também. Esta última só respondia com monossílabos quando questionada.

- Você está bem, Gabrielle? Está sentindo alguma coisa? Indisposição? – indaga a mãe de Gabrielle.
- Não, mãe, não é nada. Acho que tomei muito sol.
- Quando eu falo para colocar um chapéu...sou chamada de chata.
- Pois é, mamãe, amanhã coloco o chapéu – e calou-se até o final do jantar.

Xena ajudava a tirar a mesa e a lavar a louça quando Gabrielle lhe estendeu um prato. As mãos de Xena seguraram as de Gabrielle acidentalmente, por baixo do prato, e ambas se olharam nos olhos, caladas, por alguns segundos que pareceram horas. As duas tiraram as mãos ao mesmo tempo e o prato de cerâmica se estilhaçou no chão. As duas se abaixam para juntar os cacos.

- Nossa...desculpe – disse Xena.
- Não foi culpa sua, eu é que sou desastrada.
- Você está trêmula Gabrielle...
- É... foi o susto...isso, o susto, não gosto de quebrar nada aqui em casa, papai sempre implicou com coisas quebradas.
- Fique calma, eu já disse que fui eu que quebrei...
- E eu não sou mais criança, não me importo mais com isso. – disse Gabrielle franzindo o nariz e sorrindo docemente.

Xena quase ia à loucura quando Gabrielle franzia o nariz. Tinha vontade de abraça-la forte e beijar a ponta de seu nariz... talvez mais. As duas terminam de arrumar a cozinha e se recolhem. Nenhuma delas consegue dormir direito. Cada qual perdida em devaneios e sonhos, que até então pensavam ser impossíveis de se concretizar, ou talvez não?


Não muito longe dali Ares vai até o acampamento do general Kirylus, um warlord que já comandou o exército de Ares, mas que havia se indisposto com o deus da Guerra após haver sido usado por ele para tentar atrair Xena (1). Quando Kirylus se deu conta de que havia sido usado revoltou-se contra Ares e formou seu próprio exército de saqueadores e assassinos, continuando com sua trajetória de massacres e conquistas pela força. Ares aparece para Kirylus:

- Kirylus, velho amigo, como tem passado?
- O que você quer aqui, traidor?
- Ora, ora...isso é jeito de tratar um deus? Ainda mais o deus da guerra?
- E como você queria que eu o recepcionasse após ser tratado como um objeto descartável? Com festas e consideração???
- Não seja tão rancoroso...o esquecimento é uma virtude.
- Não seja irônico Ares! O que você quer de mim? Ou melhor, para que você precisa de mim agora???
- Eu vim para tratar de negócios...
- Sei...só que não confio mais em você.
- Kirylus, estive refletindo e cheguei à conclusão que me deixei levar pelos encantos de Xena, e você concorda comigo que ela é uma bela mulher, não é mesmo?
- É. – concorda o warlord.
- Mas ela realmente não me serviria para comandar meu exército...não tem requisitos suficientes. Só me serviria para outros prazeres, se é que me entende... – diz Ares sorrindo maliciosamente.
Kirylus também sorri e concorda:
- Entendo...
- O problema é que ela não quis servir aos meus desejos, se considera superior...superior até a mim, o deus da guerra.
- E o que é que eu tenho com isso, Ares?
- Quero que você retome o comando do meu exército!
- E em troca de que?
- De um pequeno favorzinho... Quero dar uma liçãozinha em Xena, afinal ninguém despreza o deus da guerra.
- E onde eu entro nessa história? – questiona Kirylus.
- Quero que você rapte uma moça...amiguinha de Xena...e consuma com ela. Se o fizer meu exército é seu.
- E que garantias eu terei? Afinal, você já me traiu uma vez Ares.
- Meu amigo Kirylus, traição é uma palavra muito forte... – diz Ares – Você tem a minha palavra, a palavra do deus da guerra.
- Pois muito bem. Quem é a moça?
- Gabrielle, de Potedia.
- Seu exército já está sob meu comando, Ares! – Kirylus gargalha.
- Assim espero – diz Ares e some no ar.

O dia amanheceu lindo. Gabrielle acordou cedo e foi até o quarto de Xena que já havia arrumado sua cama, tomado café da manhã e saído para caminhar. Lila já havia ordenado as vacas e na cozinha pairava um cheirinho de pão fresco e leite fervido. Apesar de haver dormido pouco Gabrielle estava com fome. Tomou seu café da manhã e convidou Lila para fazer um passeio pela floresta. O pai de Gabrielle já havia saído para o trabalho na lavoura e a mãe estava ocupada com os afazeres domésticos.

Gabrielle e Lila saíram para caminhar. Não muito longe de casa Gabrielle recostou-se a um tronco de árvore e pôs-se a observar sua aldeia. Sua casa era uma construção simples, porém ampla e disposta de lado para o nascer do sol. A claridade matinal invadia os quartos e parte da sala e da cozinha. Na frente havia uma área coberta onde pendiam folhagens cujos ramos iam do teto ao chão. Os jardins na frente da casa ostentavam flores multicoloridas, muitas margaridas e rosas. Nos fundos da propriedade ficava o pomar, onde Gabrielle passou a maior parte de sua infância, trepada em árvores, lendo poemas e escrevendo histórias em pergaminhos. Gostava de modo especial de uma cerejeira cuja copa ficava totalmente coberta de frutos na primavera. Inúmeras vezes havia se escondido entre suas folhas, espreitando anonimamente tudo que se passava ao seu redor. Adorava observar os pássaros e os pequenos animais da floresta. Sua árvore preferida, no entanto, era uma flamboyan que ficava igualzinha a um buquê vermelho gigante quando florescia. Boas e belas lembranças tinha de sua infância. Era bom estar em casa. A voz de Lilá trouxe Gabrielle de volta à realidade:

- Você parece estar em outro mundo, Gabrielle.
- Não é nada não, só estava lembrando da nossa infância e em como fomos felizes...é bom estar em casa.
- Mas não é de agora que eu estou falando. Desde que você chegou está diferente, pensativa, parece preocupada. O que é que está havendo?

Gabrielle respira fundo, baixa os olhos, fica algum tempo em silêncio e fala:
- Sabe o que é Lila...eu preciso mesmo conversar com alguém...senão vou enlouquecer. Se é que já não estou louca...

Lila abraça afetuosamente a irmã e lhe beija a face. Gabrielle continua:
- É Xena...
- O que foi que ela te fez??? – indaga Lila.
- Nada... não é ela. Quer dizer...é ela. Ou melhor, sou eu. Nem sei.
- Gabrielle, eu não estou entendo.
- Olha, é assim... desde que eu vi Xena pela primeira vez e decidi partir com ela sempre senti uma afeição profunda, um sentimento fraterno e de completude. A princípio eu queria ser como ela, depois percebi que eu deveria ser eu mesma, mas seguir com ela para levarmos às pessoas mais necessitadas o auxílio que precisavam. Até a bem pouco tempo estava tudo bem. Só que agora eu estou tendo uns pensamentos estranhos, diferentes, que não me deixam em paz nunca...
- Que tipo de pensamentos, Gabrielle?
- Eu tenho visto Xena com outros olhos...
- Como assim???
- Ai Lila, é difícil para eu falar sobre isso com você... ou com qualquer pessoa.
- Mas, Gabrielle, eu sou sua irmã e você pode confiar em mim.
- Eu sei. Bom, o que eu tenho sentido por Xena é... atração. Atração física, desejo, entende?
Lila emudeceu, Gabrielle também.
- Você está chocada, não é mesmo Lila? Será que eu estou doente?
- Você já disse isso para Xena?
- Claro que não!!! Acho que ela vai ficar com nojo de mim.
Após uma pausa Lila responde:
- As vezes a gente se surpreende, Gabrielle...
- Como assim???...
- Não é só você que está diferente. Xena também está. Na verdade acho que vocês nasceram uma para a outra.
- Lila!!!
- É verdade, Gabrielle. Você me contou o que sente, eu tenho o direito de falar o que acho.
- Mas Lila, isso não é normal...
- E o que é normal, Gabrielle? Se condenarmos os que amam o que faremos com os que odeiam?
- Pois é. Mas eu tenho medo, medo pela intensidade desse sentimento.
- Você sempre foi corajosa, irmã. Encare-o de frente e, por favor, não se envergonhe de ser o que é. Você é uma pessoa maravilhosa Gabrielle, e seja qual for a pessoa que você escolheu para amar isso não mudará seu caráter e sua essência.

Os olhos de Gabrielle se enchem de lágrimas:
- Eu te amo, Lila...
- Eu também te amo, Gabrielle.
Elas se abraçam por muito tempo, até que Lila diz:
- Você deve conversar com Xena. Fale para ela sobre seus sentimentos, sem medo. Ou muito me engano ou você se surpreenderá com ela...
- Como assim?...
- Ora, Gabrielle, Xena é louca por você.
- Mas ela me ama como uma irmã...
- Você também a amava assim, até a bem pouco tempo.
- É verdade... você acha que eu realmente devo?
- Claro, minha irmã. Você só terá paz se conversar com Xena e colocar o que sente, independente da reação dela. Você precisa dessa sinceridade consigo mesma. Acredite.
- Acho que você tem razão. Vou falar com ela sim...
- Ótimo. Gabrielle. Já é quase hora do almoço, vamos voltar para casa.
- Vai indo na frente. Vou ficar aqui mais um pouco, pensar, criar coragem e colher algumas flores. Eu já te alcanço.

Lila beija Gabrielle e retorna para casa.

Perto dali Xena também se encontra mergulhada em pensamentos. Acordou muito cedo, antes mesmo do nascer do sol e quando os primeiros sinais de claridade começaram a despontar no horizonte saiu para caminhar. Havia sonhado com Gabrielle novamente. Foi um sonho povoado de fantasmas do passado que estavam querendo levar Gabrielle para longe, e cada vez que conseguia segurar sua mão e arrasta-la para perto de si nova força invisível a jogava para longe. Pouco antes de acordar havia conseguido tirar Gabrielle, carregando-a nos braços, de dentro do Labirinto do Minotauro pouco antes de ser devorada por ele e para sua surpresa Gabrielle começou a beijar-lhe o pescoço e a nuca deixando-a sem ar. Quando ia beijar-lhe a boca sedenta acordou de sobressalto, banhada em suor e trêmula dos pés à cabeça. Precisava de ar... e de um
banho frio. Foi neste intento que saiu para caminhar na floresta até a cachoeira de águas cristalinas que ficava no sopé da colina, nos fundos da aldeia de Gabrielle.

Antes de sair passou na cozinha e colocou um pedaço de bolo de nozes em uma sacola de viagem, assim como pão e algumas frutas, pois só pensava em retornar no final da manhã. No caminho comeu algumas amoras silvestres, iguais as que floresciam nas estradas de Amphipolis quando era criança.

Ao chegar na cachoeira Xena parou para contemplar aquele  espetáculo da natureza. A cachoeira não era das maiores, mas por certo era uma das mais belas que já tinha visto. Jorrava por entre pedras de cerca de vinte metros de altura formando uma lagoa em forma de ferradura que ficava de frente para o nascer do sol, ladeada num dos lados por uma vasta planície verdejante, onde pastava um pequeno rebanho de ovelhas e, por outro, pedras de cor avermelhada contrastando com o verde da vegetação que cobria as rochas. Neste lado a vegetação se fechava em tons de verde escuro e oliva, emoldurada por trepadeiras de cores variadas, indo do vermelho intenso até o branco. Pequenas flores rasteiras de tonalidades amareladas e lilases cobriam grande parte do chão no lado leste da cascata. De costas para a claridade matutina Xena observava aquela cena e pensava em Gabrielle. O sol refletia-se na queda d’água formando prismas multicoloridos, arco-íris em miniatura dentro do lago. Reflexos dourados pareciam projetar-se de dentro das gotículas d’água fazendo Xena lembrar-se dos cabelos de gabrielle. Nestes devaneios despiu-se e jogou-se na água fria da cachoeira, mergulhando por entre as rochas do fundo e emergindo quase que do outro lado. O contato da água gelada em sua pele abrandava o fogo que lhe queimava por dentro. Xena sempre gostou do elemento água, nunca perdia uma oportunidade de um bom mergulho, mesmo no inverno. Nadou por cerca de duas horas e quando saiu da água o sol já estava bem mais alto. Caminhou até uma grande pedra cuja base ficava dentro d’água e deitou-se de costas, braços abertos como que sorvendo a energia do astro rei. Os raios solares acariciavam a nudez do corpo da princesa guerreira e douravam ainda mais sua pele morena. Seus cabelos negros molhados brilhavam como se escondessem diamantes por sob as madeixas. Xena era de fato uma linda mulher.

Durante longo tempo ficou pensativa, fazendo uma retrospectiva de tudo que havia vivido até então. Precisava ordenar sua mente e seus sentimentos. Não poderia continuar assim, precisava tomar uma atitude ou acabaria enlouquecendo de vez. O simples toque de mãos da rainha amazona a desconcertava. Não conseguia mais cavalgar com Gabrielle, sentir o calor de seu corpo sem perder o controle de seus reflexos. Sentia-se como uma adolescente diante do primeiro amor. De fato, nunca havia sentido nada semelhante por ninguém, nem por Boris, pai de seu filho. Gabrielle lhe despertava o desejo e a ternura, o fogo que a consumia e a calmaria após a tempestade. As curvas do corpo de Gabrielle a deixavam sem ar, boca seca e dificuldades de centrar os pensamentos. Quando Gabrielle caminhava à sua frente, com sua saia curta e top que deixava à mostra sua cintura escultural, com passadas cadenciadas e sensuais... pobre Xena, era como se o mundo em volta deixasse de existir. Realmente, precisava tomar uma atitude.

Quando o sol indicava quase meio dia Xena vestiu suas roupas e dirigiu-se de volta à aldeia. Começava a sentir fome, o lanche que havia levado para o café da manhã a muito já se havia acabado. Xena caminhava com passadas fortes. Estava decidida: o dia não terminaria sem que conversasse com Gabrielle sobre seus sentimentos. Sentia um misto de ansiedade e expectativa, precisava abrir seu coração, e o faria ainda hoje.

Ao chegar em casa Xena percebeu a ausência de Gabrielle. Lila, que observava a impaciência de Xena, disse:
- Gabrielle ficou na floresta, colhendo flores, mas já vem vindo para o almoço.
- Ah...tá bom. – responde Xena.
As duas colocam a mesa e começam a estranhar a demora de Gabrielle. Xena resolve ir atrás dela.
- Estávamos na floresta, perto do grande carvalho. Gabrielle deve ter perdido a hora, tinha muito no que pensar... e decisões para tomar... – disse Lila fitando Xena nos olhos, que corou, baixou a cabeça e disse:
- Eu vou procura-la.

Perto dali, aos pés do grande carvalho, Xena não avista Gabrielle e chama por ela:
-GABRIELLE... ONDE VOCÊ ESTÁ???... O ALMOÇO ESTÁ PRONTO.
Silêncio. Nenhuma resposta de Gabrielle. Xena tenta de novo:
- Gabrielle... não tem graça nenhuma... apareça!!!

Nenhuma resposta e Xena começa a se preocupar. À sua esquerda conseguia avistar o vale e nem sinal de Gabrielle. Adentrou mais na floresta, sempre chamando por ela.

Perto de uma clareira Xena observa marcas de pegadas recentes no solo, sinais de alguém sendo conduzido contra a vontade. Cerca de seis homens arrastando uma só pessoa. Xena se desespera e lhe vem à memória a ameaça de Ares, sente um arrepio e segue as pegadas. Logo adiante encontra no meio da vegetação um punhal e o reconhece como sendo arma utilizada pelo bando de Kirylus, seu antigo conhecido.

Xena corre até a casa e avisa Lila do ocorrido, sem que os pais de Gabrielle fiquem sabendo. Pega sua espada, seu chacran e diz a Lila:
- Lila, não se preocupe, eu a trago de volta sã e salva... eu juro.
- Eu vou com você.
- Não, fique aqui e mantenha os olhos bem abertos. Logo estaremos de volta.
- Que os deuses a acompanhem... – diz Lila chorando e abraçando Xena.

Xena parte em direção ao acampamento de Kirylus, rápida como um raio e com a fúria de uma tempestade tropical. Estava disposta a morrer se fosse preciso para salvar Gabrielle, a sua Gabrielle. Tinha certeza que Kirylus agia como uma marionete de Ares e que Gabrielle corria sério risco em poder de seu bando de assassinos e saqueadores, entre outros adjetivos.

No acampamento de Kirylus um dos homens penetra em sua tenda:
- General, sua encomenda está lá fora.
- O que é isso em seu rosto? Marcas de unhas?
- A moça estava resistente em nos acompanhar... tivemos que persuadi-la.
Kirylus solta uma gargalhada:
- Tragam a onça até aqui.
Gabrielle é arrastada até a tenda de Kirylus. Está com as mãos amarradas às costas, assim como as pernas, e uma mordaça lhe cerra os lábios.
- Ora, ora... o que temos aqui... uma fera indomada.
- Ummmmm...Uuummmm...
- A gatinha quer falar??? Quer? – diz Kirylus chegando bem perto de Gabrielle e retirando sua mordaça.
- Seu porco, desgraçado, me solta!!! O que é que você quer comigo? Quando Xena souber ela te mata!!!
- Calminha, calminha... sua amiguinha não vai te encontrar mais belezóca... ainda hoje você embarca no navio de Menticlus, um mercador de escravas, e vai para o outro lado do mundo... com outro nome, como sendo proveniente dos países nórdicos... Nunca mais Xena te localizará... – diz Kirylus e se aproxima fazendo menção de beijar os lábios de Gabrielle.

Ela lhe cospe no rosto e Kirylus, furioso, lhe desfere um tapa cortando-lhe o canto esquerdo da boca.
- Eu te odeio, desgraçado... espere e verá... você não conhece Xena!
- Levem-na daqui!!! Dentro de poucas horas será embarcada e eu serei o líder do exército do deus da Guerra!!! Há, há, há, há...
Ares, invisível, o observa pensativo.

Xena se aproxima do acampamento de Kirylus e é atacada por seus homens. Saca sua espada e derruba mais de quinze homens, com uma fúria jamais sentida por ela, nem mesmo em seu tempo de conquistadora de nações, parte em direção à tenda do general. Entra num rompante de raiva:

- ONDE ESTÁ GABRIELLE !!!
- Eu não sei do que você está falando, Xena.
- Kirylus, não se faça de desentendido – diz Xena colocando sua espada no pescoço de Kirylus – não me faça usar a força. Me entregue Gabrielle e eu vou embora.
- E o que eu ganharia com isso???
- Sua vida – diz Xena pressionando sua espada contra a garganta do inimigo.

Kirylus calmamente afasta a espada de Xena e diz:
- Você não está em situação de negociar, Xena. EU tenho o que você quer. E Ares me fez uma ótima oferta...
- O seu exército...
- Isso mesmo, em troca de sua amiguinha... É amargo o sabor da derrota, não é Xena? É insuportável o gosto da perda... VOCÊ já tomou o meu lugar, lembra???
- Isso foi passado Kirylus, nós já lutamos no mesmo lado. Hoje eu só luto pelo que considero justo. E o comando do exército de Ares não me interessa, e você sabe disso.
- Mas Ares não te quer comandando o exército, Xena. Ele não te quer no campo de batalha... ele te quer na sua cama!

Xena parte novamente para cima de Kirylus que também saca a sua espada e eles começam a lutar. Ao ouvir o barulho de espadas Gabrielle, presa em outra tenda, reconhece o grito de guerra de Xena e chama por ela:

- XENA!!!

Ao ouvi-la Xena desfere um golpe certeiro em Kirylus que cai mortalmente ferido. Xena corre até onde Gabrielle está e chega no momento em que Ares se aproxima dela e a segura pelos braços, ainda amarrados, olha para Xena e diz:

- Você perdeu, Xena... Vulcanus espera sua amiguinha... – e desaparece no ar levando Gabrielle consigo.