O outro lado da Luz
Um conto de Roberto Laaf
Para maiores informações sobre o autor e suas obras acesse http://www.robert.laaf.nom.br
Xena, Warrior Princess
Notas do autor
É preciso ter em mente que os fatos narrados neste conto aconteceram necessariamente após o episódio em que Xena e Najara lutaram por Gabrielle, até culminar na captura e prisão da Mensageira da Luz, e antes de seu retorno, após a fuga da prisão, em um episódio subsequente, quase no final da temporada.
O conto foi montado de forma a não comprometer a seqüência lógica dos episódios da quarta temporada, permitindo uma aceitável inserção do mesmo no contexto do seriado.
Fruto primariamente de um desejo de homenagear a personagem Najara, que surgiu de forma brilhante no seriado, misturou-se posteriormente a algumas idéias que foram lançadas na lista de discussão xenabrasil, mantida pelo e-groups, da qual faço parte, tendo me associado recentemente.
De todas as idéias, a mais interessante e que se transformou em um desafio foi envolver Callisto numa situação de subtexto, já que a trama de forma alguma pedia a presença desta personagem.
É importante lembrar que o conto foi elaborado a partir de uma ótica favorável ao subtexto. A leitura não é recomendada para pessoas não familiarizadas com a série, ou que tenham restrições com relação às temáticas abordadas nos episódios.
Xena, Warrior Princess é um seriado de televisão de propriedade da Universal Studios, bem como as personagens Xena, Gabrielle, Najara e Callisto, citadas neste conto. Todos os direitos reservam-se à Universal Studios. Os demais personagens foram de minha própria criação.
Dedico este conto a todos os associados da lista xenabrasil, que têm sido maravilhosos, fazendo com que possamos estender as lições de vida do seriado para nosso dia-a-dia.
Apresentação
Prosseguindo em sua busca espiritual, Gabrielle empreende uma caminhada à Índia, na que é acompanhada por Xena. Ambas passam por diversas situações complicadas descendo a costa do Mediterrâneo, enquanto atravessam a Fenícia.A intriga começa com o desaparecimento dos pergaminhos de Gabrielle, levando as companheiras a procurá-los na cidade fenícia de Sidon. Inesperadamente, se vêem envolvidas numa trama criada por assassinos fenícios. Um destes assassinos é irmão mais velho de Najara. Conhecido pelo nome de Ahiram, este homem cruel, ao contrário de sua irmã, entregou-se de corpo e alma às Trevas.
Disposto a vingar a humilhação que sua irmã sofrera por causa de Xena, Ahiram e seu parceiro, outro assassino fenício chamado Rib-Addi, preparam uma armadilha especial para destruir Xena.
O conto se desenrola de forma bem detalhada, para dar mais vida às passagens. Muitas surpresas acontecem do meio para o fim, quando a Princesa Guerreira entra em ação para combater seus oponentes.
O outro lado da Luz
As noites de inverno do hemisfério norte, ao oriente, proporcionam um céu de beleza sem igual. Incontáveis estrelas se espalham na imensidão escura, perdendo-se nos confins do universo. Em especial, em noite de lua nova, as estrelas se apresentam muito mais numerosas e com brilho mais intenso.
O rigoroso frio não era suficiente para intimidar Gabrielle que, perdida em pensamentos, admirava o quão magnífico estava o céu naquela noite. Envolta por espessas mantas de pele de animal, fixou seus lindos olhos verdes nas estrelas e ficou praticamente petrificada. Xena, que estava deitada próxima a sua amiga, levantou um pouco a cabeça e percebeu que Gabrielle estava magnetizada pelo céu.
— Gabrielle, vamos dormir! — resmungou a princesa guerreira, que procurava se cobrir ainda mais com as mantas, para dormir mais aquecida.
Gabrielle virou-se para sua amiga e, olhando-a por sobre o ombro, tentou animá-la a uma conversa.
— Xena, já reparou na beleza deste céu? Na quantidade de estrelas que existem?
— Vamos dormir, Gabrielle!
— Não sei como você pode ignorar tamanha beleza. São tantas estrelas! Se pudesse, eu guardaria meus pergaminhos com suas histórias nelas. Um pergaminho para cada estrela. — comentou Gabrielle, dando um leve suspiro.
— Que é isso Gabrielle!? Eu não tenho tantas histórias!
A guerreira virou-se para resmungar e fazer este breve comentário, retornando em seguida para sua posição de sono, mas desta vez, cobrindo até mesmo a cabeça.
— Não importa! Eu continuaria a escrever sobre você até que conseguisse preencher cada pontinho luminoso do céu. — Gabrielle tentava a todo custo manter a prosa acesa, mas já não tinha êxito. — Xena? — Gabrielle fitou o corpo de sua companheira e mais uma vez tentou chamá-la — Xena? Humpf! Sempre dorme tão rápido! — lamentou para si a pequena Gabrielle, em tom de desânimo.
A noite foi avançando e o frio a cada hora ficava mais rigoroso. As duas companheiras dormiam na madrugada, sob as mantas de pele, e próximas à fogueira. Ficaram perto uma da outra, na tentativa de amenizar a friagem.
Fazia um silêncio sepulcral na floresta. Nem mesmo os costumeiros sussurros dos animais noturnos podiam ser ouvidos. Todos fugiram do frio naquela madrugada.
Todos, exceto um sombrio vulto, que sorrateiramente aproximou-se do pequeno acampamento das duas amigas e, após longos minutos de observação, tirou algo cuja falta seria notada assim que acordassem.
O velho e bom sol cálido da manhã de inverno apareceu tímido, com seus primeiros raios anunciando um dia menos frio.
Xena acordou enrolada pelas mantas e ficou sentada, tomando coragem para levantar e começar um novo dia. Deu uma olhada rápida ao redor para certificar-se de que tudo estava em ordem. Num movimento suave, levantou o rosto para o céu, na direção do astro-rei, permitindo-lhe tocar sua face com seus raios invisíveis, porém aconchegantes na fria manhã.
Com as mãos, fez uma espécie de ritual de toques em seus braços e pescoço, procurando despertar seu corpo de uma forma que só mesmo ela sabia fazer.
Levantou-se vagarosamente e continuou fazendo seu ritual. Percebeu que Gabrielle a observava de onde estava, ainda deitada. Incomodada, perguntou à amiga o que se passava.
— O que foi, Gabrielle?
— Nada, estou só observando. Incrível como todas as manhãs você faz a mesma coisa!
— É, eu sei. Preciso manter a forma. Aquele encontro com sua amiga Najara não foi muito agradável. — comentou a Princesa Guerreira, recordando a surra que levara há poucos dias.
— Xena! Não vai começar novamente com essa história de minha amiga! Ela não é minha amiga. Apenas acho que lhe faltava orientação. Ela é bem diferente, você tem que concordar!
Gabrielle se levantou irritada por causa dos comentários de Xena. Foi logo enrolando as mantas e as guardando dentro de sacos de couro escovado.
Xena, que não deixava escapar uma frase sequer, respondeu rapidamente, irritando ainda mais a amiga:
— Ah, é verdade! Bem diferente a mocinha da Luz, matando os prisioneiros sem um julgamento adequado.
Com um sorriso de lado, reforçou ainda mais seu tom de ironia, para desespero de Gabrielle.
— Chega! Não vou mais falar sobre isso, Xena!
Gabrielle atirou os sacos de couro ao chão, pegou seu cajado e saiu em direção a um pequeno lago, próximo ao acampamento.
— Gabrielle! — gritou Xena — Cuidado com a Luz! — agora mais solta e com um belo sorriso estampado no rosto, caçoando de sua amiga — Não demore, vamos partir logo!
Gabrielle retornou ao acampamento e encontrou tudo preparado para partirem, mas deu por falta de algo que lhe era muito importante.
— Xena, onde está a sacola com meus pergaminhos?
A sacola de couro que usava para guardar todos os seus pergaminhos não estava lá.
— Não sei, Gabrielle. Na verdade, nem sei ao certo como é a sacola. Agora vamos com isso, temos muita estrada pela frente, se quer mesmo chegar à Índia.
— Você não usou meus pergaminhos de novo para... Xena, diga a verdade! Onde estão meus pergaminhos?
Gabrielle começou a pensar que sua amiga estivesse tentando irritá-la ainda mais.
— Claro que não! Vai ver que você os guardou nas estrelas e esqueceu. — mais um sorriso descontraído da Princesa.
Gabrielle estava enfurecida, enquanto Xena demonstrava um excessivo bom humor naquela manhã.
Gabrielle avançou em direção a Xena, segurando-a firmemente pelos braços. Xena ficou séria e ergueu sua cabeça deixando-a mais ereta, encarando Gabrielle com austeridade, cerrando os lábios e fulminando-a com seus magníficos olhos azuis.
— Xena, por favor, não faça isso! Não brinque com meus pergaminhos, eles são muito importantes para mim! Eu estou implorando, devolva-os!
Gabrielle, apesar de segurar a Princesa Guerreira pelos braços com firmeza, demonstrava uma angústia no olhar que comoveu Xena.
— Tudo bem! Vamos esclarecer as coisas.
Com suavidade, tirou as mãos de Gabrielle de seus braços e a afastou, tentando explicar que não fora ela a responsável pelo sumiço dos pergaminhos.
Tentaram repensar o que haviam feito na noite anterior, para lembrar sobre os pergaminhos, mas foi em vão. Gabrielle afirmara que os segurava enquanto admirava as estrelas, o que eliminava todas as possibilidades de ter perdido a sacola durante a jornada do dia anterior.
Com a afirmativa de Xena de que não fora ela quem escondeu os pergaminhos, então só havia uma resposta. Os pergaminhos haviam sido roubados. Por quem e por que, eram as novas dúvidas de Gabrielle e Xena. A guerreira ainda perguntou se havia coisas importantes na sacola onde estavam os pergaminhos, mas Gabrielle confirmou que não havia mais nada, a não ser pergaminhos.
Xena insistiu em saber se em algum dos pergaminho poderia haver algo que fosse de interesse para alguém, alguma coisa importante, mas não obteve a resposta que desejava.
— Xena, todos aqueles pergaminhos são importantes, pelo menos para mim! — e levando as mãos ao rosto, começou a chorar desesperadamente, balbuciando palavras mergulhadas em lágrimas, lamentando-se pelos anos de um trabalho que considerava o mais importante de sua vida.
Xena, ao ver sua amiga naquele desespero, fez uma expressão de tristeza. Sentando-se ao lado de Gabrielle, confortou sua cabeça deitando-a no colo, acariciando-a com suavidade.
— Não fique assim, Gabrielle! Se isto é mesmo importante para você, iremos achar os pergaminhos. Eu lhe prometo! — comentou a guerreira com tom de confiança, para animar sua companheira.
Há algumas milhas dali, em um grande casarão sombrio, um homem chamado Ahiram, famoso assassino fenício, recebia seu fiel amigo Rib-Addi, que chegava de uma importante incumbência.
Ahiram não era muito alto, mas era com certeza um homem muito forte. Muito musculoso, louro, com cabelo bem curto e de olhos verdes, tinha uma aparência que conseguia esconder sua verdadeira natureza assassina.
— Então, conseguiu o que te pedi?
— Sim, meu senhor, eis os pergaminhos que me pediu.
Rib-Addi estendeu a mão e entregou a Ahiram a sacola de Gabrielle, contendo todos os seus pergaminhos.
— Não foi muito difícil, meu senhor. O maior problema foi o frio, acredite. Estas moças serão presas fáceis para você. — Rib-Addi falava a respeito de Xena e Gabrielle, enquanto desenrolava a túnica negra que lhe cobria até a cabeça.
Ahiram olhou severamente para seu amigo e, em tom grave, respondeu:
— Não foi o que escutei por aí! Mas com este material, tenho tudo de que preciso para acabar com essa Xena. Irei aprender seus passos, suas estratégias e fraquezas. Estes pergaminhos irão me fornecer um caminho rápido para a vitória!
Após estas palavras, Ahiram deu uma estridente gargalhada, que ecoou pelos aposentos vazios do velho casarão abandonado.
Rib-Addi não era tão forte quanto Ahiram, mas manuseava uma cimitarra como ninguém. Mais baixo que Ahiram e mais magro, possuía cabelos e olhos negros. Usava um cavanhaque fino e alongado, a exemplo dos xeques árabes. Mas não valia um mísero dinar. Era tão ordinário quanto seu líder Ahiram.
Terminou de se livrar das pesadas vestimentas de viagem e sorriu, junto a seu líder.
Ahiram e Rib-Addi partiram do velho casarão e foram para uma gruta secreta, onde costumavam se esconder, quando eram perseguidos por soldados fenícios ou caçadores de recompensa. Lá, Ahiram estudou cada pergaminho cuidadosamente, descobrindo tudo o que podia sobre a Princesa Guerreira, o flagelo de nações.
Leu sobre os seus feitos, suas armas, o chakram, as artes marciais, enfim, aprendeu sobre Xena! Como tinha pouco tempo, passou toda a noite acordado, lendo os pergaminhos com a ajuda de uma bruxuleante chama de tocha.
Pela manhã, Rib-Addi saiu bem cedo, para saber do paradeiro das duas viajantes, enquanto Ahiram descansava para seu glorioso dia.
Quando o sol estava a pino, Rib-Addi regressou com a preciosa informação sobre o paradeiro de Xena.
— Addi, meu leal amigo, já sei qual é o ponto fraco da guerreira. É sua amiga Gabrielle. Vamos capturá-la e usá-la como isca para aquela ordinária!
— Mas Ahiram, eu recomendo que peguemos as duas ao mesmo tempo. — interpelou Rib-Addi
— Para o inferno com as suas recomendações! Parece minha irmã querendo me dar conselhos! Se ela ouvisse os meus, seria uma excelente aliada e não estaria apodrecendo numa cadeia. Prefere dar ouvidos a vozes invisíveis. Desde pequena teve esta mania. Mensageira da Luz, humpf! — Ahiram estava notadamente muito tenso.
— Onde está a Luz para tirá-la desta situação!? Diga-me, Addi!? Onde está a maldita Luz, que permitiu que uma pessoa tão boa quanto minha irmã fosse humilhada e jogada na prisão, para apodrecer como uma assassina!?
A cólera dominava Ahiram, que esbravejava sobre Rib-Addi. A luminosidade em seus olhos ficara mais intensa e deles saía um tenebroso brilho de ódio a cada palavra que pronunciava.
— Não há Luz, Addi! Não há Luz! Só há a Escuridão, e eu vou vingar minha irmã. Vou matar esta Xena e beber seu sangue. Eu, o Arauto da Agonia, o Mensageiro das Trevas, irei vingar Najara e lhe provar que só há um caminho para o poder! Farei esta maldita Xena sofrer e implorar clemência antes de matá-la!
Rib-Addi, apesar de descontente com os comentários de seu líder, que espumava de tanto ódio, se aproximou e tentou acalmá-lo, pois ele estava completamente descontrolado.
— Calma, Ahiram, calma! Vamos pegá-la sem dúvida, mas é preciso manter o controle. Sente-se, vou buscar um pouco de água fresca. Acalme-se!
Rib-Addi afastou-se para buscar a água. Ahiram esfregava nervosamente as mãos e seus olhos ainda faiscavam de ódio. Sabia que o momento da vingança por sua irmã estava próximo.
— Tome, Ahiram, beba esta água! — Rib-Addi estava irritado com Ahiram, pois em muitos anos de convivência jamais vira tanta agressão em seu líder.
— Addi, já sei qual será o plano. — mais calmo, Ahiram explicou sua estratégia a Rib-Addi. Sabia que a estrada que as viajantes escolheram as levaria obrigatoriamente a uma cidade chamada Sidon, onde morava uma velha amiga sua chamada Jezebel, dona de uma importante taberna no lugar. Poderia ser um ponto de apoio importante para capturar Gabrielle, já que elas provavelmente chegariam a Sidon no final do dia e precisariam de abrigo.
— Vamos, Addi, vamos partir para Sidon. Amanhã cedo, esperaremos uma oportunidade de capturar a amiga daquela cretina. Elas devem se separar por alguns instantes e então teremos nossa oportunidade.
Ahiram levantou-se apressadamente, pegou sua cimitarra e dirigiu-se para a entrada da gruta, onde estava preso a uma pedra seu belo corcel negro. Rib-Addi também montou em seu cavalo, de cor mais clara, um tom de marrom bem escuro.
— Idiota, já mudou o plano novamente. — comentou Rib-Addi, indignado com a mudança do plano, que inicialmente seria capturá-las na estrada.
— O que disse?
— Nada, amigo, apenas pensava alto. — disfarçou Addi.
Juntos, partiram num galope alucinado, para chegar a Sidon antes do anoitecer. Com o frio do entardecer, era possível ver o vapor expelido pela respiração dos animais em sua correria desvairada.
Xena e Gabrielle chegaram a Sidon no final da tarde. Era uma pequena cidade fenícia onde podiam ser encontrados uma série de artesanatos, muitos tecidos belíssimos e uma grande diversidade de peixes e frutos do mar. Como a noite se aproximava e, com ela, a friagem de inverno sempre se intensificava, resolveram procurar abrigo em alguma taberna.
Após alguns breves momentos, encontraram uma taberna muito simpática e animada, cheia de aldeões alegres, trajando roupas de vários matizes, colorindo bem o lugar. Cantarolavam como se fosse uma festa. Fizeram uma pequena pausa devido à entrada de Xena que, trajando roupas de batalha, destoava no ambiente.
Mas foram prontamente recebidas por uma serviçal do lugar, que lhes indicou uma longa mesa de madeira rústica, já sacrificada pelo tempo em que devia estar ali. Logo, a cantoria voltou ao normal.
Xena e Gabrielle se sentaram e pediram uma bebida forte, para ajudar a combater o frio. Gabrielle estava muito chateada com o desaparecimento de seus pergaminhos e a todo o momento questionava sua amiga como iriam recuperá-los, se não possuíam uma pista sequer.
A serviçal retornou com duas canecas de cerâmica contendo um espesso vinho, deixou-as na mesa e, antes que pudesse regressar ao balcão, Xena a segurou pelo braço.
— Quero falar com o dono da taberna! Onde ele está?
Com uma voz trêmula e um olhar assustado, a moça esclareceu que o responsável pelo lugar na verdade era uma mulher, e não um homem.
— Não precisa ter medo, não vou machucar ninguém, apenas quero conversar com ela. Você pode chamá-la?
Xena soltou o braço da serviçal, que assentiu com a cabeça e se retirou em seguida. Gabrielle, que também ficara espantada com a reação de sua amiga, perguntou por que ela queria falar com o responsável pela taberna.
— Gabrielle, se vamos procurar os pergaminhos, temos que perguntar às pessoas certas. Neste lugar devem passar centenas de pessoas todos os dias. Ela deve saber de algo.
— Ah, ta! — respondeu Gabrielle, um tanto descrente de que poderia conseguir alguma informação naquele lugar.
Em seguida, apareceu uma bela mulher, de aparência nobre, vestindo uma roupa muito vistosa de cor púrpura, adornada por fios dourados. A mulher era alta, de cabelos longos e negros, que lhe escorriam pelos ombros. Usava uma tiara dourada na fronte e trazia nas mãos uma pequena taça de metal reluzente, provavelmente com alguma bebida mais refinada. Sua expressão era suave, com olhos castanhos bem claros e penetrantes, nariz arrebitado e lábios carnudos. Se apresentou às duas viajantes, estendendo uma das mãos para Xena.
— Meu nome é Jezebel, às suas ordens!
A voz da mulher era ainda mais encantadora, suave como uma melodia. As duas amigas se entreolharam e ficaram realmente muito impressionadas com a dona da taberna. Afinal, não era comum, em lugar algum do mundo conhecido, um taberneiro ou taberneira como Jezebel.
Xena se levantou e também estendeu a mão, apresentando-se para Jezebel
— Meu nome é Xena! E essa é minha amiga Gabrielle.
Jezebel cumprimentou a guerreira, sustentando o olhar. Dissimulou um sorriso e virou-se para Gabrielle, também contemplando-a.
— Oi, muito prazer! — Gabrielle se levantou e também cumprimentou Jezebel.
— Bem, em que lhes posso ser útil? — indagou a anfitriã.
Xena explicou que estavam a caminho da Índia e que na noite anterior haviam acampado há cerca de um dia de Sidon, quase na saída da floresta. Relatou o sumiço dos pergaminhos de Gabrielle, mas Jezebel não pode ajudar muito. Apesar de dona da taberna, não ficava por lá. Sempre passava ao final do dia apenas para contabilizar o dinheiro arrecadado e preparar o orçamento para as despesas da reposição de material e coleta de impostos.
Afirmou que muitos estranhos passavam por ali e que seria difícil identificar quem era ladrão, a menos que a roubassem.
Jezebel, por sua vez, ficara muito curiosa com as viajantes e quis saber de onde vinham.
— Vocês não são do Egito, são?
— Não, somos da Grécia. — prontamente respondeu Gabrielle. Xena a olhou de soslaio com certo ar de reprovação e a interrompeu.
— Sim, é verdade, somos da Grécia, mas não temos qualquer relação com os interesses do governo grego, somos apenas viajantes a caminho da Índia, como já disse antes. Bem, se não pode nos ajudar, já vamos andando. Venha, Gabrielle.
— Esperem, por favor! Já vai anoitecer, por que não ficam e aceitam minha hospitalidade? Asseguro-lhes os melhores aposentos de Sidon. Não irão se arrepender! — afirmou Jezebel.
— Tudo bem, mas não temos muito dinheiro para pagar luxo, aceitamos uma modesta acomodação. — respondeu Xena, que sabia do frio lá fora e não tinha muitas opções.
Jezebel as acompanhou até o andar superior da taberna, onde ficavam os quartos de hóspedes viajantes que geralmente pernoitavam por ali. O quarto era modesto, mas bem arrumado, com as coisas em ordem e de aparência bem limpa.
— Digam-me uma coisa. — Jezebel interrompeu a breve vistoria que Xena fazia com os olhos no ambiente. — Vocês passaram por Tiro?
— Sim, passamos por lá. — respondeu Xena.
— Por acaso vocês ouviram falar de Najara?
— Sim, ouvimos sim. — Xena e Gabrielle se olharam preocupadas, tentando imaginar que relação teria Jezebel com a Mensageira da Luz.
— Vocês a conheceram? Ela é uma mulher maravilhosa. Tão pura e com tanta paz dentro de si! Sabem, ela é uma privilegiada. Ela é guiada pelos Jinn.
— Não, não tivemos contato com ela, não. Agora se nos der licença, precisamos descansar. A viagem tem sido muito cansativa. — retrucou Xena, cortando logo o assunto.
— É claro, não quero incomodá-las. Será que poderíamos fazer o desjejum amanhã, juntas? — Jezebel também se achou muito impressionada pelas duas, pois assim como não era comum ver uma taberneira como ela, ver mulheres guerreiras viajando sozinhas, como Xena e Gabrielle, pela Fenícia, também não o era. Ansiava em conhecer mais sobre as duas. Sentiu-se demasiadamente atraída por elas e uma grande curiosidade a dominara.
Jezebel era nova, apesar das responsabilidades que recebeu de seu falecido pai recentemente, como cuidar da taberna e de sua mãe. Era fascinada por viagens e sempre teve Najara como um referencial. Pretendia seguir Najara e ajudá-la na construção do hospital para idosos e doentes, mas a morte de seu pai acabou impedindo que seu sonho se realizasse.
Logo após Jezebel deixar o quarto, Xena se dirigiu a Gabrielle.
— Gabrielle, amanhã vamos sair bem cedo deste lugar. Não quero mais confusão por causa daquela louca.
— Mas Xena...
— Não, Gabrielle, não tem mas!
Xena ficara preocupada. Imaginava que, se aquele lugar fosse um reduto de fiéis à Najara, as coisas poderiam se tornar muito difíceis.
Gabrielle ficara transtornada, porque queria encontrar seus pergaminhos a qualquer custo. Voltando-se para Xena mais uma vez e batendo com seu cajado no chão de forma violenta, foi incisiva quanto à questão de seus pergaminhos.
— Olha, Xena, se você não quiser me ajudar a encontrar os pergaminhos, tudo bem! Vou procurá-los sozinha!
— Ora, Gabrielle, não seja ridícula! Acha mesmo que irá encontrá-los sem minha ajuda?
— Não importa, ao menos vou tentar. Você acha que sou uma inútil, não é verdade? Nunca confia em mim. Você acha que é a única a poder resolver as coisas sempre, Xena!
— Ah, Gabrielle, cala a boca! Vai começar novamente com essas lamentações? Já não bastam os problemas que tive por sua causa com aquela maluca da Najara?
— Droga, Xena! Para de falar na Najara, não tem nada a ver com os pergaminhos. Sei que você não liga para eles, mas eu ligo! São importantes para mim e vou procurá-los, ouviu?
— Este é o seu problema, Gabrielle. Se envolve e torna importantes as coisas e pessoas erradas. Pensa que eu não percebi como você se envolveu com aquela doida? Eu vi vocês conversando às margens do lago na manhã seguinte ao dia em que a conhecemos. Você estava fascinada por ela. Vi o brilho em seus olhos.
— Ah, então é isso! Você estava me vigiando!? Isso é que é ridículo, Xena! Me responde uma coisa: ficou com ciúmes ou com medo de que eu não a acompanhasse mais?
— Gabrielle! — a contenda entre as duas companheiras estava ganhando proporções e, a cada minuto, falavam mais alto. Com este grito de Xena, Gabrielle ficou assustada e ficou sem palavras, mas Xena aproveitou a deixa e continuou a bombardeá-la.
— Estava te vigiando, sim! Porque me preocupo com você e não quero que nada de ruim te aconteça! Será que você não consegue ver isso!? Medo de perder sua companhia, Gabrielle! É isso que você pensa? Saiba que estou indo à Índia com você. Não é você que está indo à Índia comigo. Agora me responda! Quem está acompanhando quem?
Gabrielle, atônita, sentou-se na rústica cama e pôs-se a chorar, com a cabeça baixa, sem coragem de encarar sua amiga.
Fez-se um breve silêncio e, enquanto Xena extremamente irritada caminhava de um lado para outro do pequeno e modesto quarto, pôde ouvir as reclamações e impropérios provenientes dos cômodos adjacentes, devido à barulheira causada pela discussão das duas.
Não trocaram mais nenhuma palavra durante toda a noite e foram dormir magoadas uma com a outra, sem chances de trégua. Ao menos naquele momento.
Ahiram e Rib-Addi chegaram a Sidon no meio da noite. Apesar da correria, não conseguiram chegar antes do crepúsculo. Foram direto para a taberna de Jezebel, que era o melhor lugar da cidade para acolher os viajantes.
Sentaram-se em uma das compridas mesas de madeira e pediram água, pois estavam sedentos.
A taberna estava praticamente vazia àquela hora da noite. A maioria dos aldeões já havia retornado às suas casas e restavam apenas uns poucos bêbados no lugar.
Interrogaram uma das serviçais sobre a visita de estrangeiras, descrevendo Xena e Gabrielle. A mulher revelou que, pelas descrições, acreditava serem as mesmas viajantes chegadas no final da tarde e que estavam hospedadas ali na taberna.
Ahiram deu um sorriso de satisfação e ordenou que a serviçal se retirasse, fazendo um gesto com a mão.
— Addi, isso vai ser mais fácil do que eu pensava. Elas estão aqui!
— Podemos ir lá agora e matá-las, o que acha?
— Não seja imbecil! Esta mulher é muito perigosa! Acha que vou lá em cima pôr em risco uma vitória fácil? Que idiotice! Estudei bem sobre ela. Vamos seguir o meu plano, que será infalível!
— Seu plano, Ahiram? Que plano? Você já mudou o maldito plano três vezes!
Rib-Addi a cada minuto ficava mais irritado com Ahiram, pela forma como este o vinha tratando ultimamente.
— O que vamos fazer, então? — indagou Rib-Addi
— Fique calmo! Vamos observar os movimentos delas. Temos que capturar a tal Gabrielle quando ela estiver só. Este será o fator determinante para nossa vitória!
Ahiram estava muito confiante. Terminou de beber a água fresca e pediu um peixe assado condimentado, acompanhado de um molho de ervas. Durante a refeição, acertaram os detalhes da captura, que deveria acontecer na manhã seguinte. Ao terminarem a comida, procuraram se alojar ali mesmo, na taberna de Jezebel.
Ahiram disse a Rib-Addi que iria visitar Jezebel e que não demoraria. Ordenou-lhe que ficasse bem atento às duas.
Deixou a taberna e foi encontrar sua velha amiga. Na verdade, Ahiram sempre se sentira muito atraído pela bela jovem Jezebel. Aproveitava a influência que sua irmã causava a Jezebel, para chegar até ela. Jezebel adorava ouvir as histórias que ele sempre contava sobre Najara, mas o recriminava por sua vida lasciva. Se não fosse sua conduta, Jezebel teria se entregue há muito tempo a Ahiram, que era muito forte e bonito, mas também um assassino sem escrúpulos.
Ao chegar à casa de Jezebel, Ahiram gritou, como de costume, uma frase que o identificava a ela.
— Mensagem da Luz para Jezebel!
Pronto, sabia que em poucos minutos ela viria correndo. Muito mais para saber notícias de Najara do que para vê-lo.
De fato, Jezebel veio em disparada, já trajando roupas mais leves e claras, que geralmente usava para dormir. Apesar do frio, Jezebel nunca usava roupas pesadas para dormir, até porque, possuía uma boa estrutura de calefação em sua casa, baseada em dutos de argamassa, alimentados por um forno a lenha.
Ao chegar até Ahiram, deu-lhe um confortante e emocionado abraço, já perguntando por sua iluminada.
— E então, notícias de sua irmã? Como ela está se saindo contra os traficantes de escravos?
Ahiram nem prestou muita atenção na pergunta de Jezebel, pois tão logo ela o soltou do abraço, ele ficou perdido, contemplando a silhueta de tão belo corpo, pouco oculto pelo tecido semitransparente.
Jezebel percebeu a indiscrição de Ahiram e ficou ruborizada, ao mesmo tempo em que seus mamilos se pronunciaram, fazendo com que se sentisse completamente nua.
— Você não toma jeito mesmo, Ahiram! — resmungou Jezebel.
Num movimento rápido, puxou Jezebel contra seu corpo e segurou-a com firmeza, roubando-lhe um prazeroso beijo, esfregando suas pesadas mãos pelo corpo da jovem. Jezebel cedeu nos primeiros instantes, mas ao perceber que Ahiram ficara empolgado, afastou-o.
— Não! Não quero! Você sabe que não irei me envolver com você, a menos que largue esta vida!
— Ora, vamos! Sei que você me quer! Seu corpo pede!
— De onde tirou esta idéia absurda? Só porque lhe cedi um beijo? Sabe que te aceitaria, mas não irei viver ao lado de um assassino. Fale-me de Najara, como ela está?
Decepcionado com mais uma repulsa, dentre tantas outras que já havia recebido de Jezebel, Ahiram passou então a dizer-lhe o que sabia. Que Najara fora humilhada e jogada em uma prisão por Xena e sua amiga Gabrielle.
— Xena!? — espantou-se ao saber de tudo e, principalmente por Xena estar envolvida — Mas ela me disse que nem ao menos conheceu Najara pessoalmente!
— Você conheceu Xena!? — agora o espanto fora de Ahiram — Como foi isso!? Fale, mulher!
Segurou Jezebel de forma grosseira e a sacudiu.
— Pare com isto, está me machucando! — reclamou.
— Essa ordinária destruiu a vida de minha irmã! O que sabe dela? Como a conheceu?
— Calma, Ahiram! Ela está hospedada na taberna. Passou lá no final da tarde e me perguntou se sabia algo sobre uma sacola de pergaminhos de sua amiga. Por que será que ela mentiu sobre Najara?
— Ora, Jezebel, ela é muito inteligente, está querendo evitar problemas. Deve saber que minha irmã é popular em Sidon. Acha que vai sair por aí dizendo que prendeu Najara!?
Na verdade, Xena não sabia disso, mas a partir dos comentários que Jezebel havia feito sobre Najara, desconfiou que naquela cidade deveria haver um grande número de admiradores dela.
— É, mas as autoridades de Tiro não aceitam muito as atitudes de sua irmã. Nós sabemos disso, não é verdade?
— São todos uns porcos! Vivem fazendo acordos com gente da pior espécie!
— Gente como você! — Jezebel tocou novamente no problema de Ahiram ser um assassino mercenário.
— Jezebel, você é muito nova e uma mulher maravilhosa. Mas não faça nenhuma bobagem amanhã. Fique em casa e não apareça na taberna até que eu volte aqui, entendeu?
Jezebel ficara muito pensativa. Mas Ahiram interrompeu seu pensamento, pressionado-a.
— Perguntei se entendeu! — repetiu a frase, mas desta vez de forma áspera.
— Tudo bem! Não irei à taberna, mas por favor, cuide-se!
— Sim! Estudei tudo que podia sobre ela e descobri que é muito perigosa. Estive com um dos seguidores de minha irmã na semana passada e ele me disse que essa tal de Xena capturou sozinha o Marat de Creta!
Ahiram estava muito impressionado com tudo que lera sobre a Princesa Guerreira, mas a sede de vingança por sua irmã não o impediria de tentar destruir Xena.
— Não se preocupe, Jezebel, tenho uma estratégia que será infalível e que tornará aquela cretina uma presa fácil. Agora deixe-me ir. Tenho que encontrar com Addi para prepararmos os últimos detalhes. Fique com estes pergaminhos, guarde-os para mim.
Jezebel aproximou-se do rosto de Ahiram e presenteou-lhe a face com um doce beijo, desejando-lhe sorte e mais uma vez recomendando-lhe cautela.
Em seu olhar, notava-se certa aflição. Jezebel amava demais Najara, mas havia sentido uma energia tão positiva em Xena e Gabrielle, que lhe estava sendo difícil acreditar na história de Ahiram. Não tinha certeza de que estava tudo devidamente esclarecido ainda, ficara muito confusa. Sentiu vontade de ir à taberna tirar a conversa de Ahiram a limpo, mas seria muito arriscado. Ahiram descobriria e as coisas poderiam se complicar. "Amanhã irei bem cedo saber a verdade", pensou Jezebel.
Xena acordou sobressaltada, pois pesadelos atormentavam seu sono. A visão de sua morte com Gabrielle ficara tão marcada em seu subconsciente que, mesmo em sonhos, a incomodava. Levantou-se com respiração acelerada e suando muito, apesar do frio que fazia naquele manhã. Estava muito cedo e o dia ainda se pronunciava, estando um pouco escuro do lado de fora.
Xena estava chateada demais com o desentendimento que tivera com Gabrielle. Disposta a tentar fazer as pazes, olhou em direção ao leito em que deveria estar a amiga e se surpreendeu ao vê-lo vazio.
— Gabrielle!? Gabrielle!?
Xena ficou tensa ao perceber que sua amiga não estava no quarto. Compôs-se rapidamente, pegou suas armas e saiu apressada, à procura de Gabrielle.
No salão da taberna, encontrou duas serviçais que arrumavam o local para mais um dia de visitas. A taberna de Jezebel era um dos poucos estabelecimentos em Sidon a abrir as portas ainda na aurora do dia. Xena interrogou as moças, que indicaram a porta, dizendo-lhe que a menina loura havia passado por ali não fazia muito tempo.
Xena sequer agradeceu a informação. Virou-se e correu em direção à porta, ganhando as ruas de Sidon, à procura da amiga. Tentava imaginar onde Gabrielle poderia ter ido tão cedo e o que se passava na cabeça dela.
Após alguns metros descendo a rua principal, onde ficava a taberna de Jezebel, Xena encontrou alguns comerciantes preparando suas barracas. Era o mercado comum de Sidon. Perguntou aos comerciantes por Gabrielle, descrevendo-a de forma detalhada. Um vendedor de tecidos finos, reconhecendo Gabrielle pela descrição que Xena fizera, disse ter vendido a ela um lenço e uma manta, mas que logo em seguida ela continuou descendo a rua, em direção à região portuária.
O dia já começava a clarear e a aflição de Xena aumentava. Dirigiu-se também para a região portuária. Antes mesmo de chegar ao cais principal de Sidon, Xena reparou numa manta caída ao chão, próximo à entrada de um beco. Se aproximou do beco cautelosamente, muito desconfiada. Abaixou-se para apanhar a manta caída e notou algum sangue no chão. Seu coração ficou apertado. Segurou a manta em suas mãos com toda força. De posse da manta, regressou ao mercado, que já estava começando a ficar mais movimentado, e tentou encontrar o homem que havia vendido os tecidos a Gabrielle.
Ao identificá-lo, interrogou-o sobre a manta, querendo saber se era a mesma que ele havia vendido à sua amiga.
— Olha, moça, temos muitos tecidos parecidos aqui na Fenícia. Eu vendi a ela uma manta neste feitio, mas impossível saber se foi exatamente esta.
Xena fez um olhar de desaprovação quanto ao comentário do comerciante e se retirou, lançando-lhe um olhar de desprezo. Passou o resto da manhã na região portuária procurando mais pistas sobre o paradeiro de Gabrielle, mas nada conseguiu. Voltando à taberna, ficou surpresa ao ver Jezebel em seu quarto a aguardando.
— Mas o que é isso? Não se tem privacidade neste lugar?
— Calma, por favor. Precisamos conversar.
Com sua voz doce e melodiosa, Jezebel tentava se aproximar de Xena e explicar porque estava ali.
— Não temos nada o que conversar, estou com um problema grave que preciso resolver agora!
— Está falando de sua amiga Gabrielle?
Com esta pergunta, Jezebel conseguiu a atenção da guerreira, que a olhou surpresa e cheia de ira. Partiu em direção a Jezebel e, segurando-a firmemente, exigiu-lhe uma explicação e informações sobre o paradeiro de Gabrielle.
Jezebel sustentou seu olhar para Xena, e com a voz ainda suave disse que talvez soubesse onde Gabrielle poderia estar, mas primeiro gostaria de saber algumas informações a respeito de seu encontro com Najara.
— Eu não tenho nada a dizer sobre Najara. Quero minha amiga de volta. Responda-me, onde ela está!? Não me obrigue a machucá-la!
A serenidade com que Jezebel encarava a situação frente a Xena era impressionante. Não demonstrava medo, nem raiva. Com muita calma, respondeu:
— Mas você já está me machucando e, se o que soube a respeito do que fez com Najara for verdade, então você terá me machucado muito mais.
Xena soltou Jezebel, que recuou dois passos e com as delicadas mãos esfregou os braços, que tinham ficado avermelhados devido à força com que Xena a havia segurado.
— Olha, não sei o que você pensa de Najara e nem me interessa saber. Só quero encontrar Gabrielle, para seguirmos nosso caminho.
Xena estava visivelmente alterada, mas procurava se acalmar, para tentar obter as importantes informações sobre o destino de Gabrielle. Jezebel continuou olhando Xena, mas agora com uma expressão de decepção.
— Jezebel, escute! Pela manhã tentei ir atrás de Gabrielle, mas apenas encontrei um manto que ela comprara no mercado, largado à entrada de um beco próximo às docas. No local havia gotas de sangue pelo chão. Eu creio que ela esteja correndo grande perigo e está precisando de minha ajuda.
— Então é verdade? Você realmente destruiu a vida de Najara? Entregou-a para uma prisão de mulheres ladras e assassinas? Responda!
— Jezebel, entenda! Não nos conhecemos ainda, mas eu não faria nada que fosse errado para prejudicar alguém, acredite! Najara não é exatamente o que aparenta ser! Ela é cruel e aquela loucura de Mensageira da Luz a está cegando para a razão!
— Não! Você não a conhece direito, ela é pura e luta pela paz e liberdade das pessoas! — pela primeira vez, Jezebel cedeu o olhar e baixou a cabeça — Não entendo porque fez isso. Tive uma primeira impressão errada de você, acreditei que pudesse ser uma pessoa maravilhosa. Mas vejo que tua beleza e olhar são enganosos e escondem perversidade.
— Ah, cansei disso! Se não vai me ajudar, vá embora e me deixe em paz! Mas estou lhe avisando, Jezebel, se algo acontecer a Gabrielle, irei culpá-la e virei atrás de você! Agora saia daqui!
Jezebel sacudiu a cabeça negativamente. Retirou-se do quarto, lançando um último olhar para Xena antes de sair completamente, e jogando a sacola de pergaminhos de Gabrielle sobre o leito dela.
— Isto deve lhe pertencer. Lamento, mas não vou ajudar a pessoa que humilhou Najara e destruiu sua vida.
Após a saída de Jezebel, Xena, irada, pegou uma pequena ânfora com água que estava sobre a mesa de cedro perto da janela e a atirou contra a parede, soltando um grito de raiva, como forma de desabafo.
A poucas milhas de Sidon, encontrava-se Gabrielle. Estava amarrada a uma cadeira em um quarto escuro. Tinha escoriações pelo corpo e, de trás de sua orelha esquerda, lhe escorria um filete de sangue.
Um ranger de porta ecoou pelo quarto e fez com que Gabrielle levantasse um pouco a cabeça para identificar quem iria entrar. Sentia uma forte dor, mas se esforçou para conferir quem era a pessoa. Aos poucos, o vulto se aproximava e tomava forma. Quando chegou perto o suficiente, Gabrielle não podia acreditar no que estava vendo.
— Não! Não é possível, você está morta! — balbuciou Gabrielle com voz trêmula e chorosa, baixando novamente a cabeça.
— Não diga! Coitadinha! Está ferida, lindinha?
Callisto segurou o queixo de Gabrielle e manteve seu rosto levantado, para que ela pudesse observá-la.
— Oh, acho que não estou totalmente morta, porque ainda vivo em você e Xena. Não é romântico?
Gabrielle tentava desvencilhar seu rosto das mãos de Callisto mas, como estava bem amarrada à cadeira, as tentativas foram todas frustradas. Sua inimiga a segurava com firmeza.
— Sabe, eu poderia ajudá-la, mas não consigo achar um motivo para isso. Para ser honesta, me agrada vê-la nesta situação. Digamos que... Seja um alimento para minha alma.
Com um sorriso sarcástico no rosto, Callisto continuava debochando de Gabrielle.
— Fico tentando imaginar o que você viu em Xena. Ela é uma assassina, saqueou dezenas de lugares e... Matou centenas de pessoas inocentes. Inclusive minha família.
Ao concluir estas palavras, Callisto soltou o queixo de Gabrielle e afastou-se um pouco, ainda com um sorriso de deboche e satisfação.
— Ela mudou! — sem forças, Gabrielle limitou-se a murmurar. Mais uma vez, baixou a cabeça.
— Ah, é claro, Xena mudou! Não seja tola, lindinha, ela ainda irá destruir a sua vida. Por outro lado, se você aceitar liberar minha dor, posso mudar o seu destino.
Mais uma vez Callisto se aproximou de Gabrielle, mas desta vez ajoelhou-se diante dela. Agora, com uma expressão de compaixão, colocou sua mão esquerda na perna de Gabrielle e, com a direita, acariciava-lhe o rosto, limpando suas lágrimas.
— Se você tivesse aparecido em minha vida, será que meu destino também teria sido diferente? Será que eu teria salvação? — questionou Callisto, com uma voz melosa.
Confusa, Gabrielle levantou novamente a cabeça e olhou Callisto dentro dos olhos, face a face. Os olhos das duas ficaram percorrendo seus rostos por segundos, até que Callisto quebrou o breve silêncio:
— Quero um pouco mais do que é de Xena!
Lentamente foi aproximando seus lábios da boca de Gabrielle, segurando-a carinhosamente. Gabrielle, por sua vez, estava apática e não esboçou qualquer reação, limitando-se a fechar os olhos.
Quando os lábios de Callisto estavam prestes a tocá-la, Gabrielle foi atingida violentamente por um tapa de Ahiram.
— Acorde sua vagabunda! Já dormiu o bastante!
A violência fora tamanha que a cadeira onde Gabrielle estava amarrada virou de lado, fazendo com que ela se chocasse ao chão sem poder amparar a queda.
Muito assustada, gemeu de dor e percebeu que estava de volta à realidade, que apesar de tudo, naquele momento era melhor que seu pesadelo com Callisto. Apesar da situação, sentiu-se verdadeiramente aliviada de não ter vivido de fato tal experiência com a assassina de seu antigo esposo, Pérdicas. Ao contrário do pesadelo, Gabrielle, além de bem amarrada, estava também com uma mordaça, sem poder falar absolutamente nada.
Fora capturada de manhã bem cedo por Ahiram e Rib-Addi, quando descia a rua das docas de Sidon, após ter comprado seus tecidos no mercado. Pretendia perguntar aos aldeões e marujos do local sobre os pergaminhos desaparecidos. Sorrateiramente, os dois fenícios a seguiram e, quando Gabrielle passou próximo a um beco, recebeu uma forte pancada atrás da orelha, desferida por Ahiram com o copo de sua cimitarra.
Os dois a pegaram desacordada e levaram-na para a casa de Rib-Addi, a algumas milhas de Sidon.
— Addi, levante a moça, precisamos estar prontos. Neste momento, Xena deve estar louca atrás da amiga e preciso que você leve uma mensagem a ela.
Rib-Addi foi até Gabrielle e levantou a cadeira na qual estava amarrada. O descontentamento de Rib-Addi aumentava a cada minuto.
— Ahiram, essa violência toda não é necessária! Porque não a guarda para Xena!? E tem mais, não estava nos planos que eu teria que levar uma mensagem para ela, não gosto da idéia.
— O que foi agora? Vai querer me dar ordens? Faço o que quiser e no final vou matar as duas, está me entendendo? E vou mudar os planos sempre que eu achar necessário!
— Já chega! Não vou mais tolerar isto! Você enlouqueceu de vez! Não conte mais comigo!
Há tempos Rib-Addi vinha discordando das atitudes de seu líder. Na verdade, Rib-Addi se tornara grande também e não estava mais havendo espaço para que os dois trabalhassem juntos. Aquela situação com Xena estava sendo a gota de água. As constantes mudanças que Ahiram fazia nos planos o estavam irritando profundamente.
— Está querendo me ofender porque estamos em sua casa? Pensa que vou aceitar esta insolência passivamente?
Ahiram, revoltado, desembainhou a cimitarra e ameaçou Rib-Addi, encostando a ponta da arma em seu peito. Gabrielle estava atenta aos movimentos dos dois homens e tentava entender o que se passava. Por que estava ali? Ainda não sabia que a irmã de Ahiram, a quem Rib-Addi se referira, era Najara.
Rib-Addi não se moveu. Olhou para a ponta da espada que lhe pressionava o peito e em seguida para Ahiram.
— Vamos, termine logo com isso! Não me dê uma chance de matá-lo, porque é o que farei! — desafiou seu líder.
— Você quem pediu!
Ahiram ia enterrar-lhe a cimitarra no peito, mas foi distraído por Jezebel, que entrara inesperadamente na casa e, ao observar a cena de Ahiram segurando a cimitarra ameaçadoramente contra o peito de Rib-Addi, deu um grito de pavor, assustando a ambos.
Foi o suficiente para que, com rápidos e astutos golpes, Rib-Addi afastasse a cimitarra de seu peito e atirasse longe o musculoso Ahiram. Teve então a chance de sacar sua cimitarra também e partir para cima dele.
O irmão de Najara se levantou furioso e, ainda de posse de sua cimitarra, partiu para combater Rib-Addi.
Jezebel, aflita em meio a toda confusão, identificou Gabrielle amarrada na cadeira. Desejava atravessar a sala para ir a seu encontro e acudi-la, mas a luta entre Ahiram e Rib-Addi impedia sua passagem.
O tilintar das cimitarras era incessante. Os dois lutavam como loucos para tirar a vida um do outro. Rib-Addi sabia que, se vencesse a luta, ganharia o respeito dos outros assassinos da Fenícia e poderia concretizar um velho sonho seu: montar um exército para saquear cidades assírias. Já Ahiram não se importaria em tirar a vida do traidor, que queria se tornar mais poderoso do que ele.
A luta continuava ferrenha, mas houve nova interrupção.
— Olá, rapazes! Que tal eu participar da festinha?
Era Xena, a Princesa Guerreira. Com um sorriso cheio do desejo de vingança, surgiu à porta pela qual Jezebel havia entrado. Seus lindos olhos azuis faiscavam de felicidade não só por ter encontrado sua amiga, mas principalmente seus raptores.
— É Xena! — exclamou Ahiram, perdendo completamente a concentração da luta, o que o fez receber uma violenta estocada com a cimitarra de Rib-Addi em seu abdome.
— Não! — gritou Jezebel, partindo em direção a Ahiram que, de joelhos, sustentava-se com uma das mãos no chão, enquanto a outra resvalava pela perna de Rib-Addi.
Jezebel o segurou, tentando fazer com que não caísse completamente no chão.
Rib-Addi voltou-se para Xena.
— Já que está aqui, moça, terei prazer em tirar-lhe a vida, como uma última homenagem a Ahiram. Pena que tive que matá-lo. Ensinou-me muitas coisas enquanto o servi.
— Vamos ver se aprendeu o suficiente!
Com seu famoso grito de combate, Xena projetou-se na direção de Rib-Addi, dando um giro no ar e atingindo com os pés seu peito, atirando-o contra umas prateleiras de madeira em um dos cantos da sala.
Addi livrou-se dos cacos de cerâmica que lhe cobriam o corpo e voltou furioso para o combate.
— Começo a acreditar no que Ahiram me falou sobre os pergaminhos. Vamos ver então se aprendi as lições!
— Gabrielle, tenha calma, a festa já vai acabar.
Xena sacou seu chakram e o atirou violentamente, mas ficou surpresa ao ver que não conseguiu o efeito esperado. Ela mirou a arma em uma das paredes, de forma que, ao ricochetear, faria um ângulo perfeito para atingir Rib-Addi desprevenido, na segunda passada. O chakram ficou preso na parede!
— Lição número um, como deter a rosquinha voadora!
Rib-Addi alisou seu pontiagudo cavanhaque e deu uma estridente gargalhada. Xena, espantada, olhou mais criteriosamente as paredes e percebeu que tinham sido revestidas por pedaços de cedro, para que absorvessem e prendessem o chakram, não permitindo que ele ricocheteasse.
— Ponto para mim, Xena! Menos uma arma para você!
— Vamos resolver logo isso!
Xena sacou a espada e, com toda sua ira, partiu em direção a Rib-Addi. A luta se tornara violenta com golpes não só de espadas, mas também com chutes e socos. Rib-Addi estava exausto porque havia lutado com Ahiram, e em poucos minutos Xena já dominava a situação, atingindo Rib-Addi muito mais vezes, com impiedosos chutes na face.
Percebendo que não venceria a guerreira, Rib-Addi correu em direção a Gabrielle e colocou a cimitarra ameaçadoramente em seu pescoço.
— Moça, estou avisando! Vá embora daqui, ou mato sua amiguinha! A escolha é sua!
Ofegante e suarento, Rib-Addi segurava a cimitarra com as mãos trêmulas contra o pescoço de Gabrielle.
— Não quero me envolver em seus problemas. Você é problema de Ahiram, não meu!
— Tudo bem! Não precisa fazer nada com ela! Vou pegar meu chakram e sair pacificamente por aquela porta. Irei esperar lá fora que minha amiga saia. Se ela não sair, prometo que volto aqui para te matar!
Xena guardou sua espada e, subindo em uma banqueta, alcançou seu chakram, arrancando-o do revestimento de cedro. Pensou consigo mesma: "essa é boa, revestimento de cedros!"
Rib-Addi, visivelmente cansado, repousou a cabeça por alguns segundos no encosto da cadeira onde Gabrielle estava presa e limpou o suor que lhe escorria pelo rosto. Sua salvação e trunfo era a refém.
— Xena, por favor, não vá! — exclamou Jezebel, com olhar triste. As lágrimas lhe escorriam pela face, misturando-se com a maquiagem de pó de conchas vermelhas, moídas, que a deixavam com uma pele mais corada — Se você for, ele irá matar Ahiram! Por favor me ajude, eu lhe imploro!
— Ajudá-la! Como você me ajudou a procurar Gabrielle? Nem pensar! Estou saindo!
— Espere! Ahiram é um homem que se entregou às Trevas! Dê-lhe uma chance de sair do outro lado e voltar para a Luz! Eu o ajudarei também, mas agora preciso que o salve!
— De jeito nenhum, se tornará um risco ainda maior para a humanidade!
Jezebel encostou a cabeça de Ahiram cuidadosamente no chão e se levantou, indo até Xena. Rib-Addi continuava descansando apoiado na cadeira onde Gabrielle estava, mas prestava atenção em tudo que se passava.
Jezebel se aproximou de Xena a uma distância bem curta e falou num tom de voz baixo, para que apenas ela a escutasse:
— Xena, eu lhe devolvi os pergaminhos de Gabrielle e sabia que você iria me seguir até aqui. Não podia te ajudar diretamente porque Ahiram jamais me perdoaria, mas quis te ajudar desde que soube o que ele pretendia fazer. Certamente Najara também o condenaria por isso. Se eu não quisesse ajudá-la, não teria vindo aqui permitindo que me seguisse e teria esperado que tudo se acabasse, como Ahiram havia me recomendado. Por favor, me ajude!
Xena lançou um olhar de compaixão para Jezebel.
— Tudo bem! Vamos tirá-lo daqui!
Xena caminhou até Ahiram que, naquele momento, estava desmaiado. Havia perdido muito sangue e sua vida estava por um fio. A guerreira tentou levantá-lo, mas o musculoso fenício era muito pesado, e Jezebel teve que ajudá-la a arrastar seu corpo pelos braços.
— Deixe-o onde está! — Rib-Addi ergueu-se decidido.
— Nada disso, vou levá-lo comigo! — respondeu Xena.
— Ele não faz parte do acordo. Deixe-o ou a matarei!
Mais uma vez, Rib-Addi pressionou o pescoço de Gabrielle com a lâmina de sua cimitarra.
— Tudo bem! Vamos, Jezebel, deixe-o onde está!
— Mas Xena, ele irá matá-lo! — reclamou Jezebel.
Xena abaixou-se para deixar Ahiram novamente no chão. Ao fazê-lo, soltou cuidadosamente seu chakram e o segurou firme para atirá-lo, mas teria que ser um arremesso direto e arriscado, não poderia errar. Jezebel havia ficado entre Xena e Rib-Addi, facilitando para que a guerreira pudesse se preparar para o arremesso da arma.
Quando Jezebel se moveu e saiu da trajetória perfeita para o arremesso, Xena, com uma incrível velocidade, arremessou o chakram diretamente para Rib-Addi. O chakram cortou o ar zunindo e atingiu violentamente a cimitarra de Rib-Addi bem no copo, fazendo com que ela se projetasse para frente, eliminando o risco de cortar a garganta de Gabrielle.
Ao mesmo tempo, Xena se lançou em direção ao fenício. Novamente emitiu seu grito de ataque, porém desta vez ganhou mais altura e foi cair por trás de Rib-Addi que, ao se virar para ficar de frente para Xena, recebeu um duro golpe na perna, que o fez desabar no chão com um baque seco. Rib-Addi ainda tentou se levantar, mas Xena deu-lhe outro golpe próximo à nuca, que o deixou desacordado.
Xena correu em socorro de Gabrielle, tirando-lhe primeiramente a mordaça e depois lhe desamarrando da cadeira.
— Gabrielle, você está bem? Fale comigo!
Xena levantou sua amiga, passando o braço pelos seus ombros. Acariciou-lhe o rosto para aliviar seu sofrimento e, sustentando Gabrielle, conduziu-a até a entrada do lugar.
— Xena, por que fizeram isso?
— Não sei, Gabrielle, mas já recuperei os pergaminhos e você. Agora, tudo que quero é nos tirar deste lugar.
Xena não queria contar a Gabrielle que tudo se devia ao fato de Ahiram ser irmão de Najara e querer vingá-la. Já haviam se desentendido na noite anterior por causa dela e não iria de forma alguma estender mais aquele assunto.
Xena deixou Gabrielle do lado de fora da casa, próximo a Argo, e voltou para ajudar Jezebel a tirar Ahiram. Preocupou-se em amarrar Rib-Addi na cadeira que até a poucos minutos fora ocupada por sua companheira e prometeu a Jezebel que pediria às serviçais de sua taberna que lhe providenciassem socorro imediatamente. Arrastaram Ahiram até a porta da casa de Rib-Addi e o encostaram contra a parede.
— Xena, desculpe-me pelo que falei hoje pela manhã na taberna. Agora sei que não me enganei com você. Sei que será difícil, mas gostaria que me perdoasse.
— Jezebel, se eu pudesse lhe mostraria o outro lado da Luz de Najara, mas não tenho tempo para isso agora e, se eu o fizer, trarei de volta certos fantasmas que me deixarão com problemas em relação a Gabrielle. Mas um dia nos encontraremos novamente, tenho certeza disso.
Com muita gratidão por Xena tê-la ajudado com Ahiram apesar de tudo, Jezebel se despediu de forma emocionada, pulando em seus braços e lhe dando um apertado abraço. Xena, atônita, ficou com os braços abertos. Lentamente, levou sua mão direita às costas de Jezebel e a acariciou levemente, em sinal de retribuição ao carinhoso abraço.
Como Xena demorou a sair, Gabrielle apareceu à porta, apoiada em seu cajado. Xena percebeu que Gabrielle retornara. Afastando-se lentamente de Jezebel, deu um sorriso dissimulado e foi em direção à amiga, dando uma última olhada para Jezebel e acenando-lhe com a mão. Jezebel retribuiu o aceno.
— Adeus, Xena!
— Algum problema, Xena? — questionou Gabrielle.
— Não, nada demais, vamos indo!
— Ah, percebi que não é nada demais...
Com a ajuda do cajado, deu as costas a Xena e saiu mancando em direção a Argo.
— Gabrielle, espere!
Xena correu até a amiga e perguntou-lhe se estava tudo bem. Gabrielle apenas fez um sinal positivo com a cabeça e não falou nenhuma palavra. Montou em Argo com certa dificuldade e incitou o animal para que partisse. Xena sorriu e olhou para o céu, como que pedindo ajuda aos deuses para terminar com aquela situação incômoda entre as duas.
Partiram da casa de Rib-Addi e retornaram a Sidon, onde puderam organizar suas coisas antes de continuarem sua jornada. Aproveitaram também para pedir o socorro de que Jezebel precisava.
Antes de cair a noite, as duas amigas retornaram à estrada, continuando sua viagem rumo à Índia.
Já mais descansada e feliz por ter recuperado seus pergaminhos, Gabrielle resolveu quebrar o gelo:
— Xena, acha que aquele fenício louro, forte, irá matar o homem que você deixou amarrado à cadeira?
— Creio que não! Ele levará um bom tempo para se recuperar do ferimento. Se é que vai sobreviver!
— Até agora não consigo entender o que aconteceu. Por que aqueles homens roubaram meus pergaminhos e tentaram nos matar?
— Eu também não sei. Mas agora o que importa é que tudo está bem. Vamos tentar esquecer isso.
Caminharam mais algumas milhas em silêncio. Xena estava pensativa, tentando imaginar se Ahiram tentaria encontrá-la novamente, caso conseguisse se recuperar. Mal sabia ela que a muitas milhas ao norte, próximo à vila de Zoras, Najara conseguia escapar da prisão e estava decidida a resgatar a alma e o coração de Gabrielle. Em breve, o destino as colocaria mais uma vez frente a frente.
— Xena?
— O que é?
— Enquanto estive presa e desacordada, tive um sonho muito esquisito com Callisto.
— Com Callisto!? Ora, Gabrielle, isso não foi um sonho, foi um pesadelo! — comentou, fazendo uma cara de desprezo.
— Eu sei, mas parecia tão real. É como se eu tivesse vivido aqueles momentos.
— Gabrielle, Callisto está morta e não vai mais nos incomodar, isto eu lhe garanto!
Xena tentava fazer com que Gabrielle não desse importância ao sonho. Na verdade, não sabia dos detalhes do pesadelo, mas Gabrielle fez questão de lhe contar. Xena ouviu atentamente o relato da amiga a respeito do sonho. A parte em que Callisto afirmava que ela seria responsável pela morte de sua amiga mexeu com ela e lhe trouxe a visão de Gabrielle na cruz, mais uma vez.
Gabrielle continuou a falar e contou o restante do sonho para Xena que, ao final da narração, disse que aquilo era um absurdo e que somente poderia acontecer em pesadelo, mesmo.
— Xena, lembra de quando você a fez cair no rio de lava junto com Velasca?
— Lembro, sim!
— Eu lhe perguntei se achava que Callisto havia se arrependido das coisas que fez, lembra? Você continua achando que ela não se arrependeu?
— Ah, com certeza! Gabrielle, vou te dizer uma coisa! Sei que você não consegue guardar rancor de ninguém, mas eu nunca vou perdê-la para Callisto, mas não vou mesmo!
— Não seja boba, Xena, jamais irei me separar de você!
As duas amigas sorriram, se abraçaram e continuaram andando lado a lado, seguindo seu caminho para a Índia. Mas ainda passariam por muitas outras aventuras...
Fim
APÊNDICE
Os Fenícios
Cultura Fenícia (1200 AC até 146 DC)
Nunca houve um país ou império chamado Fenícia. O nome histórico desta cultura foi designado pelos Gregos e não pelos próprios Fenícios. O nome Phoenicia (Fenícia) deriva da palavra Grega phoenix, significando neste caso uma cor vermelho escuro ou púrpura. Os Fenícios eram reconhecidos pelas tinturas de tecido, em especial por um tecido púrpuro muito caro e popular entre a realeza. Devido à abundante preservação da língua e escrita Grega, ao contrário dos textos Fenícios, que são muito escassos, o nome Fenícia vingou.
Localização
Os Fenícios apareceram no cenário histórico por volta de 1200 AC, numa época em que a maior parte do mundo civilizado foi invadida pelos bárbaros. Em 400 anos de era sombria, onde a política e a força militar foram vagas, este pequeno grupo de comerciantes (os Fenícios) foram capazes de prosperar e expandir gradualmente suas influências. Em vez de adquirir um império físico de terras contíguas, construíram gradualmente um grande comércio e uma rede colonial baseada nas casas de algumas cidades independentes ao longo da costa do que hoje é conhecido como Líbano.
Eles foram remanescentes dos Cananeus, um povo semita que ocupou cidades-estado nesta região antes de 1200 AC. As mais importantes e recentes cidades deste povo foram Tiro, Sidon, Berytos (Beirute moderna) e Byblos. Estas cidades de costa eram cercadas, na parte interna das terras, pelas montanhas do Líbano. A única oportunidade óbvia para a expansão e o ganho econômico era pelo mar.
Nascimento do poder
Anteriormente à catástrofe de 1200 AC, os mercadores Cananeus foram restringidos provavelmente à costa Levantina, Egito, e a costa sul de Anatolia. Os Minoanos, em Creta, obstruíram a entrada do Egeu, controlando todo o comércio naquela área e, talvez também, o comércio mais para o oeste. As cidades de costa Cananéia foram em geral controladas pelos Egípcios, e um de seus principais negócios foi o fornecimento de madeiras (os cedros do Líbano) para a região do Nilo. A civilização Minoana foi destruída em 1200 AC, removendo-se a maior parte dos coagidos pelo Mar Mediterrâneo e Egeu, negociados por outras civilizações. Os Fenícios foram os mais agressivos a tentar preencher este vazio. Suas cidades, muito bem posicionadas para este objetivo, ficavam situadas praticamente no centro do mundo conhecido. O Egeu, a Mesopotâmia e o Egito ficavam eqüidistantes ao oeste, sul e leste. Para qualquer uma das três regiões negociar com a outra, o caminho mais fácil era através das cidades fenícias. Os Fenícios cresciam e prosperavam ricamente como comerciantes e isto atraiu muitos inimigos, principalmente os Assírios.
Submetidos a repetidos assaltos ou a pagamentos de pesados tributos, os Tirenses (povo de Tiro) adotaram a estratégia de estabelecer colônias a oeste. Colônias que foram removidas da opressão dos Assírios e ajudadas também com a exploração de metais e do comércio no Mediterrâneo Ocidental. A mais importante das colônias Fenícias ficava em Cartago, estabelecida por volta de 700 AC. Outras colônias importantes ficavam na Sicília, Córsega, Sardenha e na Espanha (Cadiz e Cartagena modernas). Durante os 500 anos seguintes Cartago cresceu rapidamente no tamanho e na potência. A maior parte de suas riquezas vieram das minas de minério da Espanha. Cartago lutou pelo controle do mediterrâneo ocidental, primeiramente contra os Gregos e depois contra os Romanos.
Economia
Desde cedo, a economia Fenícia foi construída sobre a venda de equipamentos com mecanismos de madeira, e em tingir-se panos. As tinturas variavam das cores rosa a um roxo profundo e eram extraídas da glândula de um específico caracol do Mar Mediterrâneo. Gradualmente, as cidades-estado da Fenícia transformaram-se em centros do comércio marítimo e de manufatura. Como seus recursos naturais eram limitados, importaram materiais crus e os transformaram em objetos mais valiosos que poderiam ser enviados lucrativamente, como jóias, trabalhos em metal, mobílias e outros artigos para o lar. Conheceram técnicas e estilos de todos os cantos do mundo que atingiram como mercadores. Enquanto exploravam o mediterrâneo ocidental, eles descobriram grandes depósitos de metal na Espanha ou os receberam dos gregos, que podem ter chegado lá primeiro. Fortificando locais na Sicília e norte da África, negaram eficazmente a outros comerciantes o acesso às riquezas da Espanha, da costa africana ocidental (ouro, madeiras exóticas e escravos) e da Grã-Bretanha (ferro estanhado, um recurso estratégico crucial requerido para fazer o bronze).
Religião e cultura
A religião fenícia era politeísta e seus deuses requeriam sacrifícios contínuos para prevenir desastres, especialmente Baal, deus das tempestades. Nenhum templo fenício significativo foi descoberto ainda, mas a maioria de suas antigas cidades deitam-se sob a construção das cidades modernas. A Bíblia relata os sacrifícios humanos realizados pelos Fenícios, mas esta prática foi eventualmente suspensa. Entretanto, continuou em Cartago.
Um cemitério fora de Cartago foi encontrado contendo milhares de urnas de criancinhas sacrificadas para os deuses. As famílias nobres de Cartago começaram o hábito de trocar suas crianças por animais ou escravos durante os sacrifícios, mas em seqüência, uma catástrofe militar em 320 AC ceifou a vida de 500 criancinhas das mais importantes famílias.
Primariamente, a cultura Fenícia foi influenciada em grande escala por sua origem e vizinhança semita. Posteriormente, sua cultura foi pesadamente influenciada pelos Gregos. Poucos são os objetos conhecidos hoje, claramente fenícios. Uma das contribuições duráveis da civilização Fenícia foi um proto-alfabeto no qual cada letra representa uma consoante. Isto reduziu significativamente o número de símbolos requeridos para escrever as palavras. Quando escritas, as vogais eram implícitas. Avanços posteriores através dos Gregos adicionaram símbolos para os sons das vogais, criando o primeiro alfabeto verdadeiro.
Força Militar
Quando os fenícios começaram a competir com os Gregos pelo comércio e pelas colônias, esta competição fez com que construíssem os primeiros navios especificamente para a guerra. Estes navios eram na verdade galeões enfileirados, armados com uma ponta na parte dianteira para o transbordo dos marujos. A guerra no mar cresceu em importância durante o quinto século, quando a Pérsia combateu as cidades-estado gregas pelo controle do Egeu, Anatólia ocidental e do Mediterrâneo Oriental. Nesta época, as cidades fenícias estavam sob o controle dos Persas. Os navios fenícios compuseram o volume de embarcações da frota persa que foi derrotada em Salamis, em 480 AC. Os galeões fenícios eram maiores e mais difíceis de manobrar do que as de seus inimigos Gregos, e isto foi fatal em águas mais restritas. Os romanos capturaram um navio cartaginês, que foi inteiramente copiado e reproduzido em grande escala. Com isso, os romanos limparam o mediterrâneo dos navios cartagineses e levaram a guerra a uma conclusão bem sucedida no norte da África. Os cartagineses tiveram o único exército significativo que pode ser considerado fenício em sua derivação. Seu maior general foi Hannibal, que invadiu a Itália através da Espanha, passando pelos Alpes no inverno, com seu exército e guerreiros em elefantes de guerra. Grande parte de suas tropas foram compostas por celtas vindos da Espanha e Gálea. Uma força de seu exército era a cavalaria do norte da África, que podia geralmente passar por fora da cavalaria romana, cercar sua infantaria e ajudar na aniquilação dos romanos. Os romanos derrotaram Hannibal, não lutando contra ele diretamente, mas atacando sempre onde ele não estava. Primeiramente na Espanha, e então norte da África.
Declínio e queda
De aproximadamente 900 a 332 AC, as cidades onde os fenícios residiam estiveram periodicamente sob o jugo de conquistadores orientais, um após outro. Nunca foram fortes o suficiente para segurar os poderosos exércitos vindos da Assíria, depois Babilônia e depois da Pérsia, embora fossem ricos o suficiente para os comprar e manter afastados. Em 322 AC, Alexandre, o Grande pegou-os um por um, pondo um fim no vai e vem da frágil independência fenícia, libertando-a dos conquistadores orientais. Transformaram-se praticamente em cidades gregas e perderam sua identidade enquanto fenícias. Os cartagineses ainda duraram outros 200 anos. Os fenícios ficaram de fora dos planos de expansão grega que com sucesso atingiram a Sicília, numa expansão que durou muitos séculos. Puderam então encontrar um novo foco nos romanos, tornando-se mais populosos e melhor organizados. No fim das Guerras Púnicas, em 146 AC, os povos de Cartago foram levados como escravos e a cidade foi totalmente destruída.
Legado
A tradição fenícia como mercadores foi levada através dos anos e épocas até o Líbano moderno, não obstante quem estivesse no controle político. Os fenícios também são recordados como grandes marujos. Acreditam ter sido a primeira cultura civilizada a atingir a Bretanha e os Açores. Há uma evidência de que os fenícios tenham circundado a África através do mar, contratados pelos egípcios em torno de 600 AC. Há evidências questionáveis de que eles tenham sido responsáveis pela descoberta do Novo Mundo. Sua mais importante contribuição foi o alfabeto revisado, que espalharam pelo mundo conhecido. Quando foi adicionado um refinamento neste alfabeto e ele foi propagado pelos gregos e romanos, transformou-se no alfabeto usado hoje pela maioria das culturas ocidentais.