A cabana

By B. L. Miller

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Ephiny inclinou a cabeça quando Gabrielle entrou na sala. – O que posso fazer? – perguntou a jovem rainha aproximando-se e dando uma olhada no mapa que jazia estendido sobre a mesa.

-Na realidade não há muito que fazer aqui. – respondeu Ephiny. – Enviamos nossas melhores tropas para cobrir o portão norte. Com sorte superarão aos invasores sem sofrerem muitas baixas.

-E quanto ao portão sul? – perguntou Gabrielle pensativa.

-Temos um complemento de arqueiras e guerreiras para defendê-lo. O problema principal esta no norte. É para lá que se dirigiram os invasores.

-Uh, huh. – Murmurou a barda. – Ephiny, por que atacar ao norte? Depois de tudo, é o acesso mais fácil de defender. Além disso, contamos com a vantagem acrescentada ao bosque nessa zona. Seria pão comido para nossas guerreiras margeá-los e rodeá-los se fosse necessário. Não tem sentido... – Os olhos de Gabrielle se arregalaram. – É um truque! – gritou. – Ephiny, Qual é a melhor maneira de afastarem nossas guerreiras do acesso mais fraco? – A amazona abriu a boca ao dar-se conta do que a jovem rainha estava insinuando.

-Distrair-nos! – Ephiny correu a toda velocidade até as guardas. – Reúna todas as mulheres que sejam capazes de lutar e leve-as imediatamente ao portão sul. – As guardas partiram no mesmo instante e deram o sinal de alarme. Gabrielle agarrou seu cajado e se encaminhou também até o portão. – Aonde pensa que vai?

-Defender o portão sul. – disse Gabrielle em tom desafiante.

-Minha Rainha, não posso arriscar-me que resulte ferida.

-Ephiny! – Os olhos de Gabriellle brilhavam com fúria. – Não vou pedir as mulheres desta aldeia que arrisquem suas vidas enquanto eu fico escondida. Todas nossas melhores guerreiras estão no portão norte. Precisamos de cada uma das que ficaram no sul. Vou também. – Seu tom era similar ao que Xena utilizava quando não admitia discussão. – Não vou discutir com você. – Gabrielle saiu como uma bala do palácio, com Ephiny em seus calcanhares.

Alcançaram em seguida o pequeno grupo de mulheres que havia se formando no portão sul. Gabrielle reconheceu entre elas vários membros da guarda real, fáceis de identificar por causa de suas túnicas azuis. Algumas estavam adornadas com diferentes tipos de armaduras e o resto conferia a pressão de seus arcos. Uma das guardas foi até elas. – Por favor, minha Rainha, aceite isto. – disse lhe oferecendo uma cota de malha. A barda a interrogou com o olhar. – Lhe protegerá das flechas. – explicou a amazona. Gabrielle sorriu e deixou que Ephiny a ajudasse a colocar.

-Estamos prontas? – perguntou Gabrielle movendo os braços para acomodar-se ao novo peso da estranha armadura antes que começasse a batalha.

-Ainda não gosto da idéia de tê-la no meio disso. – Disse Ephiny. – Mas sim, estamos prontas. – Gabrielle ignorou o comentário de sua segunda no comando.

-Vamos. – Olhou o improvisado grupo de guardas, fazendeiras e outras mulheres que haviam podido encontrar. Elevando sua voz até o nível que utilizava para narrar suas histórias, se dirigiu a elas. – Irmãs amazonas, caímos em uma armadilha. Nossas melhores guerreiras estão tentando defender o portão norte. É nossa missão fazer o mesmo com o do sul. Nossa segurança é o mais importante. Não tentem heroísmos. O objetivo é impedir que entrem na aldeia antes que as guerreiras venham em nossa ajuda. Já enviamos alguém para avisá-las. – Olhou uma vez mais a cada uma das amazonas que a rodeavam antes de dar o sinal de partir. O portão se abriu e saíram, dispostas a defender sua aldeia ou morrer tentando.

Apenas haviam se afastado do portão por cerca de uma hora quando começou a batalha. As amazonas se resguardaram rapidamente da inundação de flechas que lhes lançaram. Ephiny e Gabrielle se colocaram atrás de um tronco caído. – Há mais de cem aí fora. – Disse Gabrielle respirando aceleradamente. Ephiny concordou.

-Tem razão. Era tudo um truque. – As amazonas começaram a responder ao fogo com as poucas flechas que tinham. Gabrielle sabia que seu cajado não serviria a menos que fosse um uma luta corpo a corpo. Por meio de sinais, indicou a Ephiny o plano. A amazona sacudiu a cabeça energicamente. – É muito perigoso.

-E ficar aqui esperando que eles nos massacrem é menos perigoso? Meu cajado não serve de nada aqui. – Ephiny concordou, mas de má vontade. Conseguindo a atenção de uma das arqueiras, indicou-lhe que as cobrissem. A mulher entendeu e começou a lançar flechas a torto e a direto enquanto Gabrielle e Ephiny abandonavam a proteção que lhes dava o tronco. Gabrielle foi até um soldado e o desarmou rapidamente antes de deixá-lo sem sentidos. Virou-se e começou a lutar com outro que se aproximava. O homem nunca havia enfrentado antes a um cajado e não durou muito. Com todo o barulho da confusão, Gabrielle não ouviu o assobio de uma flecha antes que esta se cravasse profundamente em sua coxa. Caiu no chão, uivando de dor. Segurou o projétil com ambas as mãos e o arrancou.

-Pode se mover? – perguntou Ephiny utilizando seu próprio corpo para proteger a rainha caída. Atravessou com sua espada um soldado que corria até elas. Desanimada, viu que muitos mais se dirigiam a elas.

-Volte, traga reforços. – ordenou Gabrielle.

-Não posso. São muitos. – Esquivou várias flechas que passaram assobiando a seu redor. Gabrielle olhou ao redor.

-Estamos isoladas, não é mesmo? – disse em voz baixa. Ephiny não respondeu, estava muito ocupada lutando. Gabrielle se inclinou contra o tronco e conseguiu se levantar, apoiando todo seu peso sobre a perna que não estava ferida. Livrou-se de três homens mais antes que a perda de sangue fizesse com que caísse de novo. Ephiny retrocedeu diante do ininterrupto ataque. Incapaz de ver onde pisava, perdeu o equilíbrio e caiu em um profundo barranco, aterrissando em um desagradável lugar sem fazer barulho. Ao ver sua rainha indefesa, várias amazonas começaram a correr para tentar protegê-la. Mas não conseguiram chegar até ela.



Xena e Eponin atacaram as tropas invasoras. Resultou tudo muito fácil. As superavam em número. Xena calculou pelo que viu que eram menos de cinqüenta. As amazonas os fizeram retrocederem com facilidade. Xena havia sido por muitos anos uma senhora da guerra para perceber que algo estava errado. Acabou com dois homens que lutavam com ela e se dirigiu a Eponin. – Tem algo errado.

-O que? – perguntou Eponin, sem afastar os olhos do inimigo.

-Não avançam. Parece como se quisessem somente manter-nos ocupadas... – Justo então soou o chifre de retirada, seguido de os de emergência. Então caiu a ficha para Xena. – Eponin o portão sul! Foi só um truque! – Escalou uma árvore a toda pressa e começou a viajar de ramo em ramo, retornando ao portão norte com as amazonas seguindo-a de perto. Xena viu com horror que os invasores não as seguiam. Aquilo confirmou suas suspeitas sobre sua estratégia.

Nem se preocupou em verificar o palácio, especialmente ao não ver nem uma só guarda no exterior. Correu diretamente para o portão sul, seguida pelas amazonas. Xena reconheceu a Dyna que estava de pé junto ao portão, segurando de forma torpe uma espada. Ao ver Xena, sinalou para o sul.



As guerreiras amazonas chegaram a tempo de enfrentar os invasores antes que estes alcançassem o portão. Ao contrário das tropas que acabaram de enfrentar no bosque norte, estas eram tremendamente superiores em número e força, e tentavam entrar na aldeia amazona. Uma rápida olhada ao redor e Xena não conseguiu ver Gabrielle. Sua atenção mudou de sentido quando três homens se dirigiam a ela com as espadas ao alto. Com um rápido movimento de mão, enviou seu chakram até deixá-los sem sentido e recuperando a arma depois. Correu e deixou inconsciente a outro, e atravessou a um quinto com sua espada. A batalha se enfureceu ao tempo que as amazonas começavam a ganhar terreno e controle sobre ela. Não fariam prisioneiros. Muitas amazonas haviam perdido já a vida naquele dia.

Ao ver a batalha escapando de suas mãos, Garath percebeu que nem ele nem seus homens iam ser capazes de conquistar a aldeia amazona, e muito menos suas habitantes. Olhou ao redor e descobriu a inerte forma da rainha amazona, certo de que aquelas mulheres pagariam um bom resgate para recuperá-la.

A matança foi suficientemente grande para que não fazer sentir náuseas até as amazonas mais experientes. Finalmente conseguiram deter os invasores, fazendo-lhes frente durante meia hora antes que todos resultassem mortos ou fugissem. O sangue emplastava as botas de todas elas. Xena avançou entre os corpos, horrorizada diante da vasta extensão de terreno que cobriam. Eponin correu até onde esta se encontrava. – Não encontrei nem Ephiny nem Gabrielle. – O olhar de Xena revelou a amazona que ela tampouco. Atrás delas, os prantos de angustia das mães e irmãs enchiam o ar. O rosto de Xena empalideceu ao distinguir as túnicas azuis que vestiam alguns cadáveres, mais adiante. Eponin as viu também e ambas começaram a correr rapidamente. Comprovaram que ali jaziam vários membros da guarda real, mas ainda não havia rastro da rainha nem de sua segunda no comando. Xena descobriu um rastro de sangue que levava a um barranco. Foi até a beira e pode ver algo. – Aqui embaixo! – Gritou descendo pela ladeira.

O corpo de Ephiny estava coberto de sangue. As profundas feridas em suas pernas e seus braços eram provas de que havia estado metida em uma batalha. Sua cota de malha era a única coisa que a havia livrado de ser uma vítima mais. Ephiny tentou enfocar a vista na forte mulher que a levava sobre seu ombro, mas a perda de sangue a impedia de pensar e de fazer qualquer outra coisa com claridade. Se deixou passar a outras mãos, que a tiraram dali.

-Ephiny, tudo vai ficar bem. Estou aqui. – Eponin falou com um tom reconfortante, apesar de que ver Ephiny em tão lamentável estado a rompia por dentro.

-Ga...

-O que? Ephiny, que aconteceu com Gabrielle? – Xena estava ali de pé, tentando obter uma resposta da semi-inconsciente amazona. Ephiny virou a cabeça e olhou para guerreira.

-Tentei... Todas tentamos...

-Onde ela está? – disse Xena tão alto que pareceu mais um grito, o qual arrancou uma dura olhada de Eponin.

-A... A levaram...

-A levaram? Quem a levou? Para onde? – Xena parou ao ver que a amazona estava inconsciente. Logo olhou para Eponin. – Vou atrás deles. – Deu meia volta até a aldeia, com a intenção de pegar Argo.

-Xena! – O tom de Eponin fez a guerreira se voltar. – Sei que quer encontrá-la, mas precisamos de você aqui. – Consciente de que contava com a atenção da mulher continuou. – Há muitas mulheres feridas para que Saras se encarregue delas sozinha. Pense em quantas amazonas morreriam sem necessidade por falta de cuidados se você se for. – Eponin enviou cinco guerreiras amazonas atrás da pista dos invasores. Observou Xena lutar contra suas emoções antes de recuperar sua estóica expressão. Sem dizer uma palavra, Xena voltou e se ajoelhou diante de uma das guardas mortas. Ao se dar conta de que aquela mulher havia dado sua vida tentando proteger Gabrielle, Xena não foi capaz de conter as lágrimas. – Artemisa, cuide dela. Merece estar nos Campos Elíseos.



Garath lançou uma potente maldição enquanto arrastava a inconsciente mulher até seu barco. Acreditava que ia conquistar a cidade e levar consigo as jovens como escravas. Havia falhado miseravelmente, havia perdido todo seu exército. Tudo o que tinha era uma mulher que provavelmente morreria sangrando antes que chegasse a terra do Rei. Quanto mais a olhava, menos seguro estava que ela fosse a rainha. A cor de seu cabelo não era como das outras, e tampouco sua estatura alcançava a da maioria. Lançou um chute violento contra a barda. - Uma criança! Fui enviado para capturar uma dúzia delas e volto somente com uma! - A deixou em uma cobertura e entrou no camarote para afogar suas penas em um tonel de vinho.

Gabrielle abriu os olhos devagar. Manteve-se quieta e com a cabeça olhou a seu redor, tentado manter sua respiração a um ritmo lento para não revelar a ninguém que estava acordada. Logo se deu conta que estava em um barco. O balanço e a madeira sobre a qual jazia eram provas mais que suficientes. Era de dia, provavelmente na entrada da tarde. Descobriu, além disso, que não estava amarrada. A perna lhe martelava de dor. Nem se quer estava segura se poderia se colocar de pé. Uma vez segura de que não havia ninguém a seu redor, se sentou e olhou sua coxa. O sangue impedia se quer de ver a ferida que havia embaixo. Sabia que havia perdido já uma boa quantidade de sangue. Tirou a cota e a camisa. Usando a armadura conseguiu fazer farrapos do tecido. Fabricou compressas com alguns dos pedaços, os colocou sobre a ferida e logo a vendou para aplicar pressão. De joelhos, Gabrielle olhou sobre a proa. Ao longe viu terra. "Em que está pensando, Gabrielle?" Se perguntou a si mesma. "Inclusive ainda que pudesse sair deste barco não seria capaz de nadar até a beira. Serviria de comida aos peixes, ou morreria sangrando". Gabrielle pensou nas conseqüências de suas opções se ficasse ali. "Vejamos... violentada, torturada, vendida como escrava. Sim, opções maravilhosas". Foi até a beira da cobertura e fez uma rápida prece a Atena, Artemisa e Poseidon. Aspirou profundamente e saltou sobre a galeria para ser engolida pelas águas salgadas.



Xena, a estóica guerreira, nem se quer se incomodava em secar as lágrimas que corriam livremente por seu rosto enquanto atendia as amazonas feridas. No exterior da cabana de Saras havia disposto uma classificação segundo sua gravidade. Os anos nos que se encarregou dos homens de seu exército a haviam ensinado a distinguir perfeitamente que ferimentos podiam esperar e quais deviam ser tratados de imediato. Também lhe haviam ensinado quando o tratamento somente prolongaria o sofrimento. Tentou manter sua mente ocupada em todas as tarefas que tinha a seu redor, mas a única coisa que era capaz de pensar era nos olhos verde-azulados de sua adorada Gabrielle.

Acenderam as tochas quando a escuridão começou a cair sobre a aldeia. Trouxeram lanternas para ajudar a Xena enquanto cosia ferimentos, imobilizava ossos quebrados e fechava olhos daquelas a quem não havia sido capaz de salvar. Não foi consciente de quanto tempo havia passado até que sentiu a mão de Eponin em seu ombro. No fundo de sua mente se deu conta de que não havia ouvido a aproximação da amazona. Falou sem levantar o olhar. – Nada?

-Havia muitos rastros. Xena enviaremos mais tropas amanhã. – Eponin se deteve um momento antes de continuar. – Vá para dentro. Precisa de um banho, de comer e de descansar. – Xena olhou para Saras.

-Vá Xena. Preciso de você forte amanhã. – A curandeira estendeu os braços, indicando a Xena que esta podia ir embora. Xena concordou, se levantou lentamente e seguiu Eponin de volta ao palácio.

Depois de limpar o melhor possível o sangue e a sujeira que cobriam seu corpo, Xena pegou uma camisa limpa e a deixou sobre a cama. Ao escutar uns ligeiros toques na porta, se ajeitou e secou os olhos. – Entre.

Eponin passou pela porta seguida de uma jovem não muito mais velha que Gabrielle, que ficou junto à porta. – Xena, esta é Aris.

-Você estava junto ao fogo ontem à noite. – disse Xena. Aquilo parecia ter acontecido há muito tempo atrás.

Aris olhou nervosa para Eponin. A amazona colocou uma mão em seu ombro para lhe dar confiança. – Mostre a ela. – disse Eponin. Aris se aproximou e trouxe consigo o cajado de Gabrielle. Xena sentiu uma pontada de dor no coração ao ver a arma coberta de sangue.

-O... O encontrei perto do barranco. – a jovem começou a chorar. – Gostaria... Eu gostaria... Quero dizer que era... – Aris entregou o cajado a Eponin e saiu correndo do quarto. A amazona voltou a deixar o cajado no corredor, logo avançou e se sentou na cama junto de Xena. A guerreira tinha o olhar perdido a frente.

-Todo o mundo está muito abatido. – Eponin deixou que seu olhar descesse até suas mãos. – Joy, a irmã de Aris, era uma das guardas reais. – A guerreira concordou compreensivamente.

-Como está Ephiny? – disse Xena em voz baixa, sem olhá-la ainda. Esperou a resposta um momento. Ao não receber nenhuma, levantou o olhar e viu a amazona tremendo e afogando o pranto. – Não muito bem. – disse Eponin depois de uns segundos. Virou um pouco a cabeça enquanto as lágrimas caiam fortemente em seu rosto. Diante da necessidade de consolar como de ser consolada, Xena atraiu até si a amazona, acompanhando-a com suas próprias lágrimas.



A água salgada queimava a perna de Gabrielle por fora enquanto a tensão de seus músculos o fazia por dentro. O peso morto da cota metálica fazia quase impossível manter a cabeça fora da água. Parecia que só avançava alguns centímetros com cada braçada, mas continuava se repetindo que cada vez estava mais perto. A difusa luz unicamente lhe permitia distinguir a silhueta das copas das árvores. Concentrou-se nelas, calando a lacerante dor que chegava a sua mente e lutou para se aproximar de casa, de Xena.

Não foi consciente de em que momento fechou os olhos, se colocou de boca para cima e se deixou levar pelas ondas. Tampouco foi consciente de quando chegou à costa. Só se deu conta de que tinha algo firma abaixo de suas costas. Sentiu a água lhe golpeando a cara. Gemendo ao mover a perna, Gabrielle teve de ajoelhar e se arrastar para sair da água. Nesse momento, todas as forças que ficaram em seu corpo a abandonaram e caiu inerte sobre a areia. Nunca chegou a ver uma coruja branca pousada em um ramo próximo.



Xena abriu os olhos e se levantou, totalmente alerta. Encolheu os ombros ligeiramente ao se dar conta de que não havia sido um pesadelo. Colocou sua armadura rapidamente e saiu.

Eponin a deteve antes que pudesse sair do palácio. – Xena! Espere! Preciso de você. – Xena parou, consciente de seu juramento de sempre ajudar os necessitados. – Por favor, vamos conversar nos aposentos. – Xena permitiu que Eponin a guiasse até a sala privada da Rainha. A amazona foi até uma estante e tirou três pergaminhos. Todos tinham o selo da Rainha da Nação Amazona. As duas mulheres se sentaram na pequena mesa. – Temos que saber quem ostenta agora o poder na função de Rainha.

-Temos? – Xena estava confusa. – Eponin, eu não sou amazona. Não tenho nada que dizer sobre quem deve dirigir a nação.

-Xena, aqui há três pergaminhos. – Levantou um deles. – Este contem instruções de Gabrielle sobre quem recebe seu direito de parentesco em caso de ela... – A amazona se deteve. Xena concordou, quase imperceptivelmente. Eponin respirou fundo, depositou o documento na mesa e levantou o seguinte. Xena reconheceu no mesmo instante seu nome nele, escrito pela mão da barda. – Esta é uma nota pessoal, para você. – Eponin o entregou a guerreira, mas ao não ver uma mão disposta a pegá-lo, o deixou também onde estava. A amazona não fez nenhuma ameaça de ir ou tocar no último pergaminho. – Esse é uma nota pessoal de Ephiny para mim. Dependendo de em quem recaia o direito de Gabrielle, deveremos abrir um ou outro.

-Acredito que não há tempo a perder. As amazonas precisam saber quem é seu líder. – As palavras de Xena soaram cheias de convencimento, mas suas mãos tremiam ligeiramente ao romper a cera do selo.

 

"Eu Gabrielle de Potédia, Rainha da Nação Amazona e abençoada como tal pela Deusa Artemisa, estabeleço que no momento de minha morte ou incapacidade para levar a cabo minhas funções como Rainha, traspasso meu Direito de Parentesco a minha irmã amazona Ephiny".

 

Estava assinado na parte inferior. Xena o passou a Eponin e esta logo o releu. Gabrielle havia escrito aquilo a toda pressa. Xena deixou o pergaminho e foi ver Ephiny. – Deixe-me ver o meu. – disse Eponin pegando o outro. Xena retrocedeu sua mão e esperou até que a amazona terminasse de ler o documento. Como era de se esperar, Ephiny passava seu direito a Eponin. Ambas respiraram aliviadas uma vez que as formalidades legais foram cumpridas. – Xena... – Eponin olhou para o pergaminho que ficou sem ler.

-Não! – disse Xena. – Não vou ler. Não até estar certa. – Xena olhou para o teto. – Não posso. – Sua voz foi pouco menos que um sussurro. Pegou o pergaminho e o devolveu a estante. – Tenho que encontrá-la.

-Xena, por favor. Precisamos de você aqui. Perdemos mais cinco esta noite. Todas as mulheres que temos capazes de fazer algo estão lá fora, a procurando. Seguem cada pegada, cada rastro. Não descansaram até a encontrarem. Tem minha palavra de amazona. – Eponin se levantou e olhou pela janela. – Ontem morreram pelo menos cinqüenta mulheres. Se você se for, poderemos perder outras cinqüenta. Saras trabalhou toda à noite para que você pudesse dormir. Está exausta. – Eponin deixou de falar. Havia dito tudo o que precisava. Nenhuma delas se moveu durante um momento. A amazona esperou que não tivesse sobreestimado a compaixão da guerreira.

-Deixe-me comer algo primeiro. Precisarei de toda a energia que puder reunir. – disse Xena despojando-se da espada e da bainha. Eponin deixou escapar o ar que não havia sido consciente de ter retido.

-Que Artemisa te abençoe, Xena. – A guerreira afogou uma resposta cortante. Não saber o que havia acontecido com Gabrielle não ajudava a melhorar seus sentimentos pelos Deuses nesse momento. Respirou fundo e se concentrou na multidão de tarefas que a esperavam. Atendendo as enfermas e feridas. Ajudando a localizar e identificar as mortas. Construindo piras funerárias. A mais desagradável era levar os corpos até as piras. Quantas vezes havia condenado aquilo com o fio de sua espada? A quantas mulheres havia convertido em viúvas? Com o passar das horas, os gritos de dor e os prantos das perdas deixaram um vazio nela. Esteve a ponto de vomitar ao levar a cabo uma amputação de uma das jovens que Gabrielle havia conhecido junto à fogueira. Os medicamentos para acalmar a dor já haviam acabado pela manhã. Xena havia se visto tentada a utilizar os pontos de pressão para suplantá-los, mas era consciente de que ao voltar, a dor seria tão forte que muitas não conseguiriam suportar. Algo assim poderia matá-las. O ar ardia com o cheiro de carne queimada depois de cauterizar o coto sanguinolento. Afastando-se dos soluços da jovem, Xena submergiu suas mãos e seus braços em um tanque, cuja água estava já tingida pelo sangue dos pacientes anteriores. No entanto para descansar ou para pensar, Xena voltou a uma cama e começou a examinar outra mulher. Ela seria a primeira de muitas a morrer naquele dia.



Gabrielle se sentou lentamente e cuspiu a areia que tinha na boca. Logo engatinhou e voltou a sentir o palpitar de sua perna. Afundou as mãos na água e bebeu um pouco. Antes de fazê-lo pela segunda vez recordou das advertências de Xena sobre a água salgada, assim se limitou somente a umedecer a cara antes de se colocar de pé. Estudou a zona um momento, tentando se orientar. Não estava segura de onde deveria ir. Nem se quer estava segura se estava na Grécia. Gabrielle não sabia quanto tempo esteve inconsciente ou quanto tempo havia estado naquele barco. Apoiou-se contra uma árvore e estudou o chão. Não levou muito tempo para encontrar as marcas que seus seqüestradores haviam deixado ao levá-la até ali. A única coisa que tinha que fazer era segui-las para trás e mais cedo ou mais tarde encontraria a aldeia amazona! Com esperanças renovadas, Gabrielle começou a andar, pensando somente em Xena e não na dor de sua perna.



-Xena. – A guerreira olhou a amazona ferida.

-Ephiny. Alegro-me de lhe ver. Tenho que trocar as ataduras. Vai um doer um pouco. – Xena dirigiu sua atenção à multidão de corte e ferimentos que cobriam o corpo da amazona.

-Xena, saiba que tentei protegê-la. – As palavras surgiram de sua garganta como um áspero sussurro. Xena alcançou uma caneca de água. A ajudou a levantar a cabeça com sua mão e levou o recipiente até os lábios da mulher.

-Beba. – Xena esperou até que a amazona acabasse com todo o líquido antes de deitá-la de novo. Logo se dedicou a trocar as ataduras. – Eu sei. Obrigada. – disse a orgulhosa guerreira um momento depois. Ephiny tinha os olhos fechados, mas ainda assim era consciente de que Xena estava chorando. Houve um tempo em que Ephiny pensava que a princesa guerreira seria incapaz de redimir-se, de dar um giro a sua vida, de ser uma mulher em lugar de uma senhora da guerra. Agora se alegrava de seu erro, mas também lhe entristecia que Gabrielle tivesse sido o motivo daquela mudança. Era um laço irrompível que Ephiny sabia que nunca experimentaria. Esperava que a perda de Gabrielle não a devolvesse ao que foi em outro tempo.

 

***************

 

Gabrielle tinha a boca ressecada e o estômago contraído quando encontrou um pequeno riacho. Deitou-se e afundou a cabeça na água, abrindo a boca e engolindo o claro e fresco líquido. Logo se sentou e olhou a seu redor, tentando recuperar o rastro. Não foi muito difícil. Seus seqüestradores não haviam feito nenhum esforço para cobrir suas pegadas. Olhou de novo sua coxa. As ataduras estavam cobertas de sangue e sujeira. Queria tirá-las e limpar a ferida, mas não teria nada mais com que cobri-la depois. Estava certa de que começava a infeccionar. Sentia a zona quente ao tato. Logo descobriu como estava pálida sua pele. Já havia perdido muito sangue. Limpar a ferida provocaria um sangramento novamente. Pouco convencida de ambas opções, deixou de pensar nas ataduras. O som de cascos de um cavalo ressonavam em seus ouvidos. Amigo ou inimigo? Umedeceu os lábios e emitiu um som de pássaro. Em seu fraco estado, soou muito rouco como para se assemelhar a qualquer pássaro que conhecia. Tentou de novo. Logo escutou um canto de pomba. Deixou escapar um suspiro de alegria. Amazonas. Começou a gritar. – Socorro! Por favor! – A voz lhe falhou e produziu uma tosse seca. Uma amazona, orientada pela tosse de uma mulher, a encontrou.

Ralha tirou os poucos utensílios que leva em sua sela e correu até a barda. Cortou a precária atadura de sua coxa e examinou a ferida da flecha. A infecção era evidente. Nem se quer precisou tocar para sentir o calor que despendia. Utilizou um trapo para limpar o pus e o sangue antes de cobri-la de novo com um pano limpo. Tirou o tampão de seu odre de água e obrigou Gabrielle a beber. Não podia fazer mais enquanto não recebesse ajuda. A rainha estava muito fraca para montar sozinha e Ralha não podia levá-la e controlar seu cavalo ao mesmo tempo através do espesso bosque. Escutou cavalos se aproximando e emitiu seu canto de pássaro. Recebeu a resposta que queria e se levantou enquanto outro cavalo e sua amazona iam de encontro a elas.

-Tyna, é a rainha. – Informou Ralha a recém chegada. Tyna desmontou rapidamente. – Está muito fraca para caminhar ou montar sozinha.

Ralha comprovou com desânimo que a barda sangrava abundantemente através das ataduras. Tyna também pôde ver. – Não há tempo a perder, Ralha. Monta em seu cavalo e eu lhe ajudarei com ela. Você terá que levar as rédeas. – Ralha obedeceu a toda pressa, acomodando-se sobre sua cela e logo ajudando Dyna a subir a debilitada rainha. Segurando Gabrielle com ambas mãos, Ralha indicou a Tyna que segurasse as rédeas e se encaminhasse para casa. Tyna por sua vez comprovou que o sangue havia ensopado as ataduras e corria livremente pela perna da rainha. Estavam ficando sem tempo.