Xena: A Conquistadora de Nações
- O Nascimento de Callisto -
Gustavo Samuel
Contato: gustavosamueldasilva@hotmail.com
Espero que tenha agradado vocês. Foi uma ótima experiência publicar uma fic no fator. Quem sabe em um futuro não muito distante não vem outra por aí, é?
Como vocês já sabem, qualquer reclamação, procurem o PROCOM mais próximo ou enviem um email para gustavosamueldasilva@hotmail.com
Parte 6
O olhar de Xena se dirigia para o celeiro que as chamas destruíam, mas eram outras as imagens que lhe vinham à cabeça, a aldeia destruída não era Cirra, mas Amphipolis, e a menina que a encarava chorando, não era a loirinha que encontrara dias antes, e sim ela mesma lamentando a morte do irmão. A guerreira se abraçava com força, comprovando, amargurada, que tudo aquilo era real. Olhou para o próprio corpo e se assusta com o que vê. Não era o sensual corpo da Princesa Guerreira, mas a nojenta carcaça de Cortese. Assassina. Assassina. Assassina. Assassina. Era a única palavra que a guerreira ouvia. Não era, entretanto, só a voz de Callisto que ouvia. Quem lhe dizia isto era a vingadora Cyane, a decepcionada Lao Ma, milhares de filhos, pais, mães, inclusive a sua. Aterrorizada, ela corre para longe dali, tentando fugir de toda aquela cena terrível, inutilmente, pois não conseguia se livrar das próprias lembranças.
Callisto via Xena fugir e gritava mais alto:
- Assassina!
Quando a guerreira desapareceu do seu campo de visão, ela, esgotada, se deixou cair de joelhos no chão e murmurava baixinho, ininterruptamente:
- Eu os perdi por causa dessa guerra. Eu os perdi, tudo por causa dela. Mamãe, papai. Eu os perdi... Perdi.
Philemon a abraçou e silenciosamente tentava confortá-la. Sabia que era inútil dizer qualquer coisa nesse momento, já passara por uma situação assim. Tinha medo da reação dela. Sabia que a qualquer momento ela poderia se levantar e correr insanamente até Xena. Momentamente, se sentiu tranqüilo quando ela se deixou embalar, aparentando não ter mais forças, mas, de repente, suas lágrimas cessaram e o seu olhar perdeu a tristeza e só transparecia ódio.
- Me solta.
- Não, Callisto.
- Eu disse... pra me largar!
Callisto empurra Philemon com força e o derruba com um soco. Depois, sai correndo na mesma direção que Xena. Philemon a observa estático, recuperando o fôlego e em seguida corre atrás dela.
“Um dia vou te transformar em uma guerreira – Eu também te amo e nunca, nem por um segundo, duvidei do seu amor – O Senhor é meu herói – Quando entra para um exército? – Um dia vou te transformar em uma guerreira.”
Tudo o que aconteceu nos últimos dias passa, como um relâmpago, pela mente da jovem Callisto. E a cada lembrança, ela percebia o quanto amava sua vida e detestava Xena por tê-la destruído. Decidiu, então, que tudo que lhe restava fazer era matar aquele monstro, que estava diante dos seus olhos.
- Xena! Sua assassina desgraçada. Eu vou te matar!
A guerreira, ao escutar o grito de Callisto, parou de correr e olhou para trás. Estava completamente perturbada. Todas as suas dolorosas lembranças se misturavam, não sabia distinguir presente e passado, parecia que os dois tempos eram um só.
“Eu não ligo se vou sofrer ou não. Tudo que quero é destruir, matar. – Você não quer matar mulheres e crianças. É diferente. – Não tinha que arrastar seu irmão para essa loucura, agora... Agora ele está morto.”
A guerreira se ajoelha e agarra a cabeça com as duas mãos. Quer de qualquer forma tirar aquelas lembranças de sua mente. Quando encara a menina que a chamava de assassina e corria até ela com uma espada, a realidade novamente lhe aparece distorcida. Quem está prestes a cortar a cabeça de um assassino é a Xena que acabara de ver Lyceus morto, a futura Destruidora de Nações, a pessoa que mais odiava no mundo.
- Você deveria ter morrido há muito tempo.
Ela pega o seu chackram e o arremessa certeiro contra Callisto. Antes, porém, que a arma atingisse a garota, Philemon derruba a amiga e é ferido mortalmente no peito.
- Phil!
Callisto segura Philemon e o deita com cuidado no chão.
- Você também não... Por favor.
- Eu tinha... Que fazer alguma coisa.
Callisto balançava a cabeça nervosamente.
- Não morre, por favor. Não me deixa aqui. Eu preciso muito de você.
Com dificuldade, o garoto ainda balbucia suas últimas palavras.
- Me desculpa. Não consigo mais. Eu te amo, Call.
Ele fecha os olhos lentamente e vai para o “Outro lado”.
- Eu também te amo.
Ela beija a face de Philemon freneticamente. Quando percebe que ele faleceu, controla as lágrimas com muito esforço e retira o chackram do peito dele. Encara com ódio a Princesa guerreira e atira a arma na direção do pescoço de Xena, que só não acerta o alvo devido aos apurados reflexos da guerreira.
- Eu te odeio, Xena.
A guerreira assovia e faz seu cavalo se aproximar e, antes de sair a todo galope, responde:
- Eu também.
****
Callisto observa amargurada os destroços de Cirra. Tudo estava completamente destruído. O que o fogo não consumiu, foi saqueado e arrasado pelos invasores. O odor da madeira queimada se misturava com o dos corpos dilacerados, que povoavam toda a aldeia.
A menina caminhava sem rumo. Ela verificava, vez ou outra, o pulso de alguns. Parecia realmente que era a única alma viva naquela versão reduzida do Tártarus. Ao ver animais vadios remexerem os cadáveres, Callisto se lembrou do corpo de Philemon.
- Você merece um final decente, meu amigo.
Ela foi até o local onde o corpo do amigo estava estirado e o levou para uma casa que ainda teimava em existir. Juntou madeira e fez uma pequena pira.
- Será que sobrou algo deles?
Ela foi até o celeiro queimado. As lágrimas voltaram a cair ao ver novamente as cinzas. Não encontrou nada além de cinzas. Resolveu colocar um pouco em um pote e jogar na pira, simbolicamente.
Ela passou carinhosamente a mão no rosto do finado amigo. Lágrimas não tinha mais, por isso não chorava. Deu um beijo nos lábios frios de Philemon e jogou seu corpo na pira.
- Eu não sei nenhuma música fúnebre, Phil. Não acreditava que iria precisar tão cedo. Achava que era você, depois de muitos anos, quem iria cuidar do meu funeral.
O fogo consumia a pira e o corpo de Philemon. Os olhos de Callisto não transpareciam sentimento algum, pareciam dois pequenos espelhos que existiam tão somente para refletir a imagem do fogo que ardia incessantemente. Ela colocou as cinzas na pira.
- Eu queria que vocês soubessem que sempre os amei, mesmo quando dizia que não. Foram os melhores pais do mundo. Estavam sempre do meu lado. Sempre, sempre, sempre soube que poderia contar com vocês.
Ela passa as mãos no cabelo e o puxa com força. Deita escorada em uma parede e continua observando a pira.
- Por que só eu tinha que sobreviver? Por que não fui com vocês? Aquela assassina deveria ter acabado comigo também. Me desculpa, Phil, mas apesar de você dizer que eu não deveria ter ódio no coração, eu não consigo deixar de odiá-la. Xena... Você me tirou tudo. Minha aldeia, meus pais, Phil... Tudo. Deve estar comemorando a vitória agora, não é? Sabe, eu poderia acabar com minha existência inútil, mas não suportaria passar a eternidade no Hades sabendo que você está aqui, contente com suas vitórias e saques. Eu quero que você sofra... Tanto quanto eu.
Um barulho interrompe o monólogo de Callisto. Ela olha para os lados procurando a causa do ruído e vê um homem mancando indo em sua direção. Ela logo reconhece pelos trajes que é um dos guerreiros de Xena, que foi esquecido por sua comandante. Ele também a vê e tenta estabelecer um diálogo.
- Sozinha?
Ela balança a cabeça positivamente.
- Que carnificina. Vocês de Cirra me surpreenderam.
- Você... tem noção de que sou a única sobrevivente daqui? Que meus pais morreram queimados pelo exército no qual você lutava?
O soldado olha para a garota desconcertado.
- É... as coisas também não serão fáceis para mim. Nunca vou encontrar Xena de novo e mesmo se encontrar o exército não serei aceito. Está tudo acabado. Ah... Quanto a sua família, eu sinto muito.
A menina não acredita no que escuta. Ela começa a rir nervosamente.
- Você... “sente muito”?
O soldado dá um passo para trás. O rosto transtornado daquela menina maluca que não para de rir o deixa nervoso.
- Foi hilário como você disse isso... “Eu sinto muito.”... Sabe, você e sua comandante vão realmente “sentir muito”.
O soldado dá mais alguns passos para trás, tenta correr, mas a perna ferida o impede e, para seu infortúnio, tropeça em uma pedra e cai. Callisto se aproxima dele e vagarosamente enfia uma espada na perna que ainda estava sadia. Ele urra de dor.
- Escutar os gritos de dor da minha mãe machucaram até a minha alma. Pode ser que não consiga fazer você sofrer tanto, mas... – Ela ri sarcasticamente – podemos tentar, não?
Certa que ele não iria se levantar, ela procura calmamente uma corda e põe uma lança na pira.
- Achei a corda.
Ela o amarra pelos pés e o puxa até a pira.
- Quer saber o que vou fazer com isso?
Ela pega a lança fervente.
- Por favor, não. Eu não tive culpa.
Ela finge uma expressão de dúvida, ironicamente, e responde.
- Hum... Talvez, não.
Ele suspira aliviado.
- Mas... Sabe... Vou fazer assim mesmo. Não é nada especial, você só se encaixa perfeitamente. Foi um dos guerreiros que atacaram minha aldeia, certamente matou alguns amigos queridos e é o único que está aqui para satisfazer meus instintos assassinos.
Ela toca a pele dele com a lança. Gritos de dor se perdem nas ruas desertas de Cirra.
- Claro, adoraria que Xena estivesse no seu lugar, mas ela terá o que merece no futuro.
Ela apóia a lança na barriga dele e põe um dedo nos lábios, simulando dúvida novamente.
- Sabe... Isso não está sendo muito doloroso. Talvez se colocasse isso na sua garganta ou...
Ela o vira de costas com o pé.
- Por favor...
- Você fala demais, sabia? Isso vai ser legal.
Ela olha para a saída da vila e grita.
- Espere a sua vez, Princesa Guerreira.
O soldado começa a gritar e tremer convulsivamente. Os seus sons de horror são acompanhados pelas gargalhadas sádicas de Callisto. Pouco tempo depois, os gritos cessam e o homem cai morto no chão. Callisto o larga e as lágrimas, que ela acreditava extintas, voltam a cair.
- Eu te odeio, Xena. Eu te odeio...
****
Distante do acampamento, Xena observa a festa de seus homens. Bebem vinho e comemoram a vitória sobre Cirra. Ares aparece com um raio e tenta convencê-la a participar das comemorações.
- E então? Não vai comemorar a vitória?
- Cale a boca, seu estúpido.
- Vamos, Xena... Não é possível que você esteja amolecendo. Acidentes acontecem.
- Suma daqui!
Ares solta um suspiro, demonstrando seu tédio, e desaparece do mesmo jeito que apareceu.
A guerreira deita na grama e olha para a infinidade de estrelas no céu.
- Ly... é tão difícil viver sem você... É tão difícil viver sozinha...
As lágrimas percorrem seu rosto e viajam até seus lábios. O gosto salgado delas faz com que ela se lembre amargamente o que é ter sentimentos.
Fim