A Herdeira

 

 

 

 

 

 

Aí pessoal...

Olha eu aqui de novo... Desta vez me aventurando numa história meio que de suspense, meio que policial... Vamos ver.

Vale o velho lembrete de que esta história contém temas adultos expondo relações sexuais explícitas entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, onde você mora é proibido ler esse tipo de material ou for homofóbico, não continue a leitura.

Essa história novamente tem as protagonistas inspiradas nas personagens de Xena e Gabrielle que são marca registrada da MCA/Universal e Renaissance. Elas são usadas aqui sem intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright.

Uma das personagens principais tem o nome dedicado a uma amiga querida, a pedidos... Beijos, Tine!

Também dedico esta história a pessoa que mais me incentiva a escrever e é minha fã incondicional... e vive comigo, e é a razão do meu existir. Te amo Mima!

E sempre merecem a minha dedicatória as amigas Paula Marinho e A.L.Benner, grandes escritoras e grandes mulheres! Para Lucia, Gê Lua, Cyn, Gisa, Drica, Deby, Cinthia, Bêra, Su, Rê, Rê Martins e todas as mulheres maravilhosas do mundo que escrevem a nossa história...

A cidade em que é ambientada esta história é fictícia, mas para quem conhece as paisagens da serra gaúcha fica muito fácil visualizar o local, e para quem não conhece ainda, fica a sugestão... Usem a imaginação e viagem pra valer!

Espero que gostem e desejo a todos uma boa Leitura!

Se quiserem  enviar comentários meu e-mail é roseangelys@yahoo.com.br

 

 

 

A Herdeira

 

Parte 1

 

 

 

Uma história de Rose Angel

roseangelys@yahoo.com.br

Agosto de 2006

 

 

Cristine caminhava apressadamente pelo corredor de embarque do Aeroporto Galeão, no Rio de Janeiro, tão absorta em seus pensamentos que mal percebia a intensa movimentação ao seu redor. O burburinho das pessoas que estavam chegando e partindo, o vai-e-vem de malas e bagagens empurradas nos carrinhos metálicos, a voz grave, aveludada e compassada que emanava dos alto-falantes e anunciava a saída e chegada de novos vôos, nada disso prendia a atenção da jovem que se dirigia à aeronave da TAM, que já recebia os primeiros passageiros em seu interior imenso. Voar era sempre a mesma angústia para Cristine. Desde a primeira vez que andara de avião a sensação era a mesma: desconforto. A pressurização a incomodava e fazia seus ouvidos e maxilares parecerem de cristal, como se fossem se quebrar ao mais suave toque. Ficava com a boca seca e as mãos suadas.

Portando apenas uma valise de mão instalou-se num dos bancos centrais, longe das janelas. Colocou seu cinto de segurança e abriu uma revista de bordo tentando distrair a mente. No entanto seu pensamento vagava entre a ansiedade de estar prestes a ficar a incontáveis metros acima do chão e a expectativa frente ao que lhe reservava seu destino.

Tão logo o avião fez a primeira manobra ainda em terra, posicionando-se de frente para a pista de decolagem, Cristine colocou um chiclete de hortelã na boca, para tentar aliviar a torrente de explosões em seus ouvidos que por certo iniciariam no momento em que o trem de pouso saísse do chão. A aeronave iniciou sua corrida veloz e Cristine fechou os olhos, sentindo a pulsação de seu coração na garganta. Em segundos sentiu o habitual frio no estômago e tomou ciência de que já não estava mais em terra firme.

Ainda de olhos fechados tentou recapitular os últimos acontecimentos, a surpresa com o telegrama e o telefonema que recebera no dia anterior e que a fizera estar ali naquela situação tão inusitada. Sentia-se “sem chão” no sentido amplo da palavra, literal e metaforicamente. Recordava que no final da tarde anterior havia recebido um telegrama em seu trabalho. Dizia o seguinte: “Senhorita Cristine Dupret Torres, favor entrar em contato urgente com Dr. Mendes. Assunto de seu interesse. Escritório de Advocacia Mendes e Winter Ltda.” Logo depois se lia o número do telefone do escritório. Movida pela curiosidade Cristine discou o número cujo prefixo era do Estado do Rio Grande do Sul e uma voz com timbre de tenor atendeu do outro lado da linha:

- Alô, Escritório de Advocacia.

- Por favor, o Dr. Mendes se encontra?

- Pois não, sou eu mesmo.

- Eu sou Cristine Torres e recebi um telegrama seu.

- Senhorita – disse o advogado suspirando profundamente, visivelmente aliviado pelo contato – solicitei um contato urgente, pois um de meus clientes é parente seu, o Sr. Artur Diaz Torres...

- Sim, é um tio meu. Na verdade eu pouco tenho contato com ele, acho que o vi somente umas três ou quatro vezes em minha vida.

- Bom, senhorita, lastimo informa-la, mas o seu tio veio a falecer no dia de hoje.

Fez-se um silêncio na linha. Nem Cristine nem o advogado sabiam o que dizer. Na verdade Cristine não tinha vínculo algum com seu tio e seria hipócrita se dissesse estar lamentando seu óbito. Mas também fôra assolada por um estranho sentimento de vazio, de perda. Novamente perdas. Havia perdido os pais ainda pequena, tragicamente. Ficara sozinha desde então. Sabia da existência de seu tio paterno, porém este nunca fizera menção de uma aproximação maior com ela. Crescera em colégios internos. Com ótima formação, porém sempre solitária. E naquele momento a sensação de estar sozinha novamente afligiu seu coração.

- Alô... senhorita...

- Sim... estou ouvindo...

- Bem... como testamenteiro de seu finado tio estou entrando em contato com a senhorita para informa-la de que será aberto o testamento de seu tio dentro em breve e seria imprescindível a sua presença.

- A minha presença?

- Sim.

- Mas, por qual motivo?

- Bem, a senhorita consta no testamento.

- Como?

- Seu tio lhe deixou alguns bens.

Novo silêncio se fez na linha telefônica. Desta vez o advogado continuou.

- Se me permite sugiro que venha para o funeral de seu tio, que será amanhã.

- Mas... como?... Eu não me preparei...

- Infelizmente senhorita a morte não manda avisos e sempre nos pega desprevenidos. Se me permite ainda posso providenciar passagens aéreas e transporte para trazê-la em tempo de despedir-se do falecido. Também devo lhe informar que poderá ficar na casa de seu tio.

- Eu não sei... preciso pensar... me organizar...

- Não há tempo para isso, senhorita.

Cristine inspirou profundamente e respondeu movida pelo impulso:

- Tudo bem então. Eu vou... Mas, para onde mesmo?

- Para Doze Colinas, aqui no Rio Grande do Sul. Eu providencio o que for necessário e lhe telefono para dar os detalhes dentro em breve.

- Tudo bem.

Cristine passou seus telefones de contato para o Dr. Mendes e tratou de ir para casa a fim de arrumar sua mala. Antes conversou com sua sócia da firma de engenharia e arquitetura, Cynthia, e combinaram que ela tomaria conta dos negócios em sua ausência, que pretendia que fosse breve.

Era pouco mais de dez horas da noite quando o telefone em seu criado mudo tocou. Estava tomando banho, no entanto conseguiu ouvir quando a secretária eletrônica capturou o seguinte recado: “Senhorita Cristine, aqui quem fala é Mendes. Está tudo resolvido. A senhorita embarca no Galeão às seis horas da manhã e nós lhe buscaremos no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. De lá seguimos para Doze Colinas a tempo de acompanhar o sepultamento de seu tio. Favor entrar em contato comigo tão logo receba esta mensagem”.

Assim que terminou de secar-se e vestir-se Cristine retornou a ligação e falou com Dr. Mendes anotando o número do vôo e demais detalhes necessários para identificar o advogado em sua chegada.

 

 

Cristine foi trazida de volta à realidade pelo toque suave em seu ombro da comissária de bordo:

- Aceita uma bebida?

- Água, por favor.

Ainda se encontrava num estado letárgico, misto de espanto e incredulidade. Da noite para o dia havia perdido o único familiar que ainda lhe restava, embora que distante, e poderia estar herdando sabe-se lá o quê. Um grande ponto de interrogação pairava em seus pensamentos. Decidiu tentar distrair-se novamente com a revista de bordo quando uma turbulência mais forte a fez empalidecer. “Calma Tine”, pensava ela, “é assim mesmo, isso é normal, vai passar”. E de fato passou. A viagem de quase duas horas foi tranqüila e quando o avião pousou em solo Riograndense, e os motores das turbinas inverteram seu giro a fim de desacelerar a velocidade da aeronave, Cristine suspirou aliviada. O barulho ensurdecedor era de fato um bálsamo para seus ouvidos, pois era sinônimo de contato com o solo abençoado e firme. O desembarque foi até rápido, mais rápido do que ela supunha que fosse. Ao dirigir-se à porta envidraçada visualizou ao longe um homem alto, com alguns cabelos grisalhos despontando em suas têmporas, aparentando cerca de cinqüenta anos, um tipo realmente interessante, segurando uma discreta placa com seu nome.

Sabedora dos rigores do inverno gaúcho, Cristine precavida havia deixado um agasalho de lã à mão. Vestiu seu casacão antes de desembarcar e ao primeiro contato com o ar sulista sentiu sua pele arrepiar-se de frio. O contraste com o clima carioca era gritante. Acostumada com uma temperatura mais quente, onde se podia freqüentar as areias da praia do Leblon inclusive no inverno sem maiores problemas, aquela aragem gélida em suas faces a fez ficar corada e com o nariz avermelhado. Aquele mês de agosto estava se superando no frio e no volume de chuvas. Chovia há aproximadamente dez dias, incessantemente. Neste período raras vezes uma nesga de luminosidade parecia querer furar as nuvens cinzentas e deixar transparecer o azul celeste, no entanto logo a massa compacta das nuvens despejava uma nova enxurrada de espessas gotas, transformando em lamaçal as estradas não asfaltadas das cidadezinhas do interior e criando um caos no centro da cidade, na capital.

Enquanto dirigia-se ao Dr. Mendes a jovem não podia deixar de pensar no que a aguardaria nos próximos dias. Ao aproximar-se do advogado este esboçou uma mesura com a cabeça, estendendo-lhe a mão e dizendo:

- Senhorita Cristine?

- Sim.

- Meus pêsames, senhorita.

- Obrigada – respondeu Cristine.

- O carro está nos aguardando no estacionamento. A senhorita gostaria de tomar um café antes de partirmos?

- Não, obrigada. Estou sem fome.

- Neste caso, vamos indo. Por gentileza. – disse o Dr. Mendes gentilmente pegando a mala de Cristine e indicando a direção do estacionamento com um gesto discreto.

Dr. Mendes era um homem reservado, de poucas palavras, no entanto bastante elegante e gentil, um verdadeiro cavalheiro. Em menos de dez minutos estavam defronte ao ômega azul marinho em cujo porta-malas foi colocada a bagagem de Cristine. No curto trajeto até o carro Cristine pôde sentir o frio cortante a invadir-lhe os poros através das poucas partes de seu corpo que estavam sem proteção. Puxou a gola de seu casaco para cima tentando proteger mais seu pescoço e as orelhas, sentindo seu corpo encolher-se instintivamente, na tentativa de amenizar a sensação gélida. O cabelo loiro esvoaçava com as rajadas de vento que cruzavam os corredores do estacionamento. A porta do carro foi aberta pelo motorista, Henrique, que trajava um impecável uniforme marinho, com um pesado sobretudo negro que lhe chegava até as canelas, deixando à mostra somente a barra da calça e os sapatos cuidadosamente engraxados.

- Senhorita Cristine, este é Henrique, o motorista do falecido senhor seu tio.

- Meus pêsames, senhorita. – disse Henrique tirando seu quepe e inclinando-se respeitosamente num cumprimento, evidenciando estar de fato bastante entristecido pela morte do Sr. Artur.

- Obrigada.

– E muito prazer em conhecê-la. Este criado está ao seu dispor para o que precisar. – continuou o motorista.

- Obrigada novamente. – respondeu Cristine.

- Então vamos. Infelizmente uma ingrata e dolorosa tarefa nos aguarda... – disse Dr. Mendes segurando a porta enquanto Cristine embarcava.

 

O carro pôs-se em movimento e, em silêncio, Cristine observava a paisagem cinzenta que se descortinava ao longo do caminho. Espessas gotas de chuva teimavam em chocar-se violentamente contra o vidro do carro, turvando a visão de Cristine. Quando a chuva cedia por instantes podia observar um pouco as curvas da estrada. O vento fustigava o arvoredo e a vegetação do acostamento.  Perdida em seus devaneios sentia-se como se estivesse num sonho, como parte de um filme cuja película pudesse ser parada a qualquer momento. Porém a voz do Dr. Mendes deu-lhe a dimensão de que estava presa à realidade.

- A senhorita já conhecia este lugar?

- Não... de ouvir falar. Lembro remotamente que meu pai contava histórias de sua infância aqui... mas são lembranças muito vagas.

- Entendo... – respondeu o advogado. – Faz muito tempo que ele faleceu, não é mesmo?

- Faz.

Fez-se um silêncio, novamente quebrado pelo Dr. Mendes:

- Tem feito uns dias muito chuvosos... o tempo de fato não está ajudando em nada.

- Como se o tempo pudesse ajudar em alguma coisa neste caso... – disse Cristine, mais para ela mesma do que para o advogado.

- De fato... – ponderou Dr. Mendes – Senhorita, eu respeito seus sentimentos, e coloco-me à sua inteira disposição para lhe colocar a par de todas as circunstâncias que envolveram o falecimento de seu tio. Basta a senhorita assim o desejar. Não quero forçar uma conversa que a faça sofrer. Qualquer coisa que deseje saber é só me perguntar, certo?

Cristine olhou o advogado nos olhos e sentiu franqueza em suas palavras. Com um aceno de cabeça assentiu e tornou a olhar para a paisagem da estrada. Passados cerca de trinta minutos Cristine perguntou:

- Meu tio estava doente há mais tempo?

- Que eu soubesse não. Fazia controle médico sistemático devido a problemas cardíacos, mas nada que pudesse indicar algo mais sério.

- E qual foi a causa da morte?

- Infarto. Fulminante.

Cristine calou-se novamente.

- Seu tio era um homem circunspeto, de poucos amigos. Mas era uma pessoa pela qual eu nutria uma especial amizade e admiração. Convivíamos-nos desde que me conheço por gente. Quando eu era ainda um meninote o Sr. Artur já era um jovem gerenciador da propriedade herdada de seu pai e dos escritórios da família. A minha origem era muito humilde e um belo dia eu disse ao Sr. Artur que pretendia ser advogado – sorriu entristecido – e ele me ergueu nos braços e disse que faria de mim o melhor advogado da região. E assim o fez. Pagou todos os meus estudos até que me formasse. Desde então defendo os interesses dele como defenderia os de meu próprio pai. Por isto senhorita, empenhei-me tanto em localizá-la, pois sou sabedor de que este seria um dos desejos dele.

- Mas ele mal me conhecia... Nem consigo me lembrar do rosto dele... – disse Cristine com um tom de amargura na voz. – Porque ele não me procurou antes? Enquanto estava vivo? O senhor tem idéia do que é não ter ninguém na vida? – desabafou Cristine – O senhor sabe o que é sentir-se sem ninguém?

- Não... Não sei... – respondeu Dr. Mendes pousando delicada e respeitosamente sua mão por sobre a de Cristine – mas posso imaginar... Porém garanto-lhe que seu tio deve ter tido seus motivos para fazê-lo. Não o culpe por isso, por favor...

Cristine suspirou profundamente, engolindo uma sensação de choro contido, e respondeu brandamente:

- Tudo bem...

 

Percorreram o restante do trajeto em silêncio. A viagem até Doze Colinas levou cerca de duas horas. Ao entrarem na cidade Cristine percebeu as pequenas vielas sem asfalto que convergiam todas até a estrada principal, na qual trafegavam, e que era coberta por paralelepípedos de pedra ferro, irregulares e gastos, mais pelo tempo de uso do que pelo fluxo de veículos. Era uma cidade pequena, com alguns estabelecimentos comerciais e pouquíssimo movimento. A chuva intensa e o frio haviam esvaziado as ruas e todos procuravam um abrigo seco e quente.

Cristine olhou seu relógio de pulso e viu que já passava das dez horas da manhã. Percebendo seu movimento Dr. Mendes falou:

- O enterro está marcado para as onze horas. Chegaremos a tempo, fique tranqüila.

O veículo continuava sua marcha rumo ao pequeno cemitério local. Cristine sentia avolumar-se a sensação de gelo interior, porém não sabia definir com certeza se seria pelo clima ou pelo nervosismo.

 

 

 

TRÊS MESES ANTES...

 

Sentado em seu escritório o introspectivo Artur Diaz Torres analisava detalhadamente os documentos com as referências pessoais dos cinco candidatos para a vaga de serviços gerais que precisava contratar ainda naquele dia. Era observado por James, seu secretário pessoal e afilhado, e por Morris, o sisudo mordomo da propriedade. Dr. Mendes também estava presente, porém lia o jornal local distraidamente, atendo-se às publicações legais por serem de seu interesse profissional.

- James, - disse Sr. Artur – selecionei estes dois candidatos. Quero entrevista-los agora. Dispense os outros. Me encaminhe primeiro este aqui – e estendeu a ficha para o secretário.

Morris abriu a porta para a passagem de James e permaneceu em sua costumeira posição de sentido. Parecia que em seu íntimo ouvia constantemente a melodia do hino nacional, tamanha sua retidão na postura e seriedade. Raramente sorria e respondia sempre em monossílabos, em um tom de voz baixo, grave e respeitoso. Parecia olhar o mundo de cima de um pedestal. Apesar da aparência arrogante, Sr. Artur gostava dele. Era considerado um serviçal exemplar pelo patrão. Parecia adivinhar os pensamentos deste e não raras vezes atendia as suas vontades antes mesmo que fossem expressas verbalmente. Morris demonstrava fidelidade e discrição, virtudes indispensáveis no conceito do Sr. Artur. Contratado em uma das viagens de Artur à França, desempenhava suas funções na propriedade do novo patrão sem cogitar a possibilidade de retornar para sua terra natal. Havia se adaptado bem ao país e ao clima, cujo inverno lhe lembrava os rigores do inverno europeu.

O primeiro candidato selecionado adentrou na sala pedindo licença e respeitosamente tirando a touca de lã que lhe cobria os cabelos cuidadosamente aparados. Tinha um aspecto limpo e um discurso adequado. Respondeu ao que lhe era perguntado de forma direta, sem rodeios, o que agradou Sr. Artur.

O segundo candidato aparentou maior nervosismo, principalmente ao ser observado pelo possível futuro patrão dos pés à cabeça. Não lhe foi dirigida a palavra mais do que duas ou três vezes.

Após a saída deste, Artur disse secamente a James:

- Já fiz a minha escolha. Quero o primeiro – disse olhando novamente para a ficha do rapaz – o Thomaz. Ele pode começar agora mesmo.

- Tem certeza, padrinho? – questionou James.

- Absoluta. Encaminhe-o aos seus aposentos, por favor, Morris.

- Pois não, senhor. – respondeu o Mordomo saindo do recinto.

- Eu ainda acho que o segundo candidato seria o mais adequado, padrinho, afinal mora aqui na cidade, é gente conhecida...

- Mas tu não és pago para achar nada. Aqui quem acha sou eu, e gostei do que escolhi. – disse Sr. Artur secamente.

- Desculpe... – assentiu James em voz baixa.

- Não se desculpe, James. Mas tente guardar seus palpites para si mesmo, e só os dê quando eu pedir.

- Sim senhor, padrinho. Com licença. Vou dar as orientações que o rapaz precisa.

- Isso. Vá, vá...

James saiu da sala deixando Sr. Artur e Dr. Mendes sozinhos. Este último sorriu e disse:

- Artur, Artur... Tente controlar sua impaciência. Tu pegas muito pesado com o rapaz – disse referindo-se a James.

- Mas ele consegue me tirar do sério, Adroaldo. Sempre tem um palpite furado para dar. E quando é preciso não sabe tomar as decisões adequadas. Não poderia nunca tocar os negócios para frente.

- Mas quem sabe agora tenhas a pessoa certa...

- Quem sabe. – respondeu Artur secamente e apressando-se em mudar de assunto – e então, como me saí?

- Acho que acertou na escolha. – respondeu Mendes sorrindo discretamente e tornando a ler a página das publicações legais de seu jornal. – Agora me sinto mais tranqüilo.

- Eu também... – respondeu Artur em voz baixa, mais para si mesmo do que para o amigo.

- Artur, - disse Adroaldo Mendes agora deixando transparecer preocupação na voz – tem certeza que não seria melhor conversar com o Munhoz sobre o incidente do carro?

- Acho que não. Realmente foi uma falha mecânica. Podia acontecer com qualquer um.

- Mas foi contigo.

Artur calou-se pensativo e continuou:

- Não... ainda acho que foi coincidência...

- Eu não tenho essa certeza – respondeu o advogado. – E as armas da coleção? Conseguiste acha-las?

- Ainda não, devo ter guardado em algum lugar por aí.

- Será? Metódico como és não poderias ter simplesmente esquecido...

- Mas tu chega a ser um mau agouro, ein, Adroaldo! – retrucou Artur.

- Sou apenas um amigo preocupado...

- Ta bom, ta bom... – retrucou o homem mais velho com irritação.

 

 

**********************

 

 

 

Quando o carro parou em frente ao cemitério da cidadezinha Cristine sentiu novamente a sensação de frio no estômago avolumar-se. O cemitério era cercado por um muro alto, de pedras, por sobre o qual se conseguia avistar os mausoléus de família e as imagens dos anjos e santos de mármore cuja função era velar o sono eterno dos que ali, em paz, repousavam pela eternidade. A chuva novamente voltara a castigar a cidade e caía abundantemente, precipitada com força pelas nuvens escuras e carregadas que pareciam querer abafar as copas das árvores mais altas.

O automóvel cruzou o portão de ferro do campo-santo e rumou por um curto caminho de paralelepípedos até a pequena capela mortuária.

Dr. Mendes desceu do carro e abriu um guarda-chuva negro, fazendo a volta para acolher Cristine e protegê-la da chuva espessa. Henrique já abrira a porta do carro e a jovem sentira o frio novamente assolando sua cútis clara e sensível. Sentiu o coração disparar. Estava preste a presenciar o funeral do único familiar que ainda sabia existir e do qual não tinha sequer a menor recordação. Apesar disso sentia o coração enlutado, com um sentimento de perda que não saberia definir. Ao desembarcar, Dr. Mendes passou o braço por cima de seus ombros, acolhendo-a junto a si e conduzindo-a para a porta de madeira que se encontrava totalmente aberta. Neste momento o sino começou a tocar, em badaladas rítmicas e melancólicas, anunciando que o momento da despedida final se aproximava. Cristine pôde ver a movimentação dentro do pequeno recinto, onde as pessoas se aproximavam da urna mortuária, cercando-a solenemente, embora mantendo certa distância, como que reservando um espaço para sua entrada.

Por um momento Cristine estancou, sendo tocada com suavidade no ombro pelo advogado da família, como que a encorajando a aproximar-se. Retomou a marcha lentamente e chegou até os pés do caixão que repousava sobre um rústico cavalete de madeira escura.

Cristine sentiu que todos os olhares se dirigiram do falecido para ela, porém era como se estivesse fazendo parte de um outro cenário. Por instantes era como se somente ela e o tio, inerte naquela urna de mogno envernizado, fizessem parte da mesma dimensão. Sua mão percorreu a borda do caixão, desde a parte de baixo, e pousou sobre as mãos do falecido, cruzadas sobre seu peito e tendo um único adorno no dedo anular esquerdo, uma aliança de prata desgastada pelo tempo. Sentiu o frio soturno da morte sob seus dedos, advindo daquele corpo agora sem vida.

Observou os contornos de seu rosto e não pôde deixar de notar a semelhança com os traços de seu pai, ou do que se lembrava dele, imagens avivadas pelas fotos de família. Tinha os cabelos grisalhos e as têmporas eram totalmente embranquecidas. As sobrancelhas espessas emolduravam um olhar que jamais veria. “Qual seria a cor de seus olhos?”, pensou Cristine. Aparentava ter sido um homem de porte físico grande, ombros largos, porém as mãos eram delicadas e os dedos eram longos. E ali jazia inerte e sem vida. Sentiu uma ponta de dor na alma, um misto de saudade e solidão. Uma lágrima escorreu do canto de seus olhos umedecendo-lhe o canto da boca. Era como se estivesse enterrando ali toda sua família, e sua história. Dr. Mendes estendeu-lhe um lenço ao perceber a trajetória daquela gota que escorria pelo rosto.

Neste momento o padre adentrou no recinto e todos fizeram o sinal da cruz. O padre, com sua batina longa e negra, iniciou o ritual da encomendação do corpo. Antes que terminasse a primeira oração ouviu-se o ruído do motor de um outro veículo que estacionava em frente à capela mortuária.

Em silêncio e de soslaio todos os presentes dirigiram o olhar para a figura esguia, alta, loira e pouco discreta que desembarcava, quase que teatralmente, do carro. Vestida de negro, com um chapéu de veludo de abas largas e um véu rendado a cobrir-lhe o rosto, aproximou-se chorando do corpo inanimado.

- Nããão... Artur... nããão... – disse debruçando-se sobre o caixão e abraçando o falecido.

Um homem mais jovem que a acompanhava amparou-a pelos ombros puxando-a delicadamente para trás. Os presentes, espantados, aguardavam em silêncio o desenrolar da cerimônia, momentaneamente interrompida. O padre tossiu discretamente, lançando um olhar de desaprovação para a loira, que se abraçou ao rapaz que a acompanhava enquanto soluçava mais discretamente, secando suas lágrimas com um lenço de seda vaporoso e lilás. Dr. Mendes e o delegado Munhoz entreolharam-se rapidamente mantendo, contudo, a fisionomia impassível. Passado o impacto inicial o padre seguiu com a encomendação. Cristine não conseguia entender o que se passava. E por certo não era o momento de dissipar suas dúvidas, afinal passaria alguns dias naquela cidade e poderia tomar ciência de toda a situação.

O ritual transcorreu como de costume. Procedidas as orações e a bênção final a pesada tampa de madeira foi colocada sobre o ataúde, não antes dos presentes fazerem sua última despedida do morto. A loira foi a mais tempestuosa, abraçando-se ao corpo e chegando a pedir que o falecido a levasse com ele, numa cena que chegava a ser patética, não fosse a tragicidade do momento. Sempre amparada pelo homem mais novo, que Cristine comparou a um verdadeiro Adonis pelo porte físico e beleza, a loira foi mantida à distância e impedida de extrapolar na demonstração de desconsolo e afeto pelo finado.

Cristine observou ainda quando uma outra figura digna de ser comparada a uma divindade aproximou-se do esquife e respeitosamente depositou uma flor logo abaixo das mãos cruzadas do Sr. Artur. Numa oração silenciosa contemplou o falecido e deixou cair uma lágrima perceptível somente após passar pela barreira da lente escura dos óculos que impediam que se visse o seu olhar. Fora isso nenhum músculo de seu rosto se moveu, demonstrando autocontrole e discrição. Era uma mulher muito alta, cabelos escuros que pendiam soltos cortados em camadas até a altura dos ombros. A pele era morena, mas parecia mais clara no contraste com a roupa negra.

Nesta feita Cristine, já um pouco mais tranqüila, passou a observar o seu redor. Não havia muitas pessoas ali, talvez umas vinte. Seu tio parecia não ser muito popular, mesmo considerando-se morar numa cidade pequena.

Após ser depositada a tampa do ataúde os cravos foram parafusados, um a um, num silêncio sepulcral quebrado apenas pelo soluçar da loira. O crucifixo de metal incrustado na tampa do esquife reluzia à chama tremulante das quatro velas que circundavam o morto. Cristine logo reparou nas velas, estranhando o fato, uma vez que nos funerais contemporâneos costumava-se utilizar luminárias artificiais. As velas, com seu tremular tristonho, conferiam uma atmosfera antiga e mais solene à cerimônia e ao local.

Vagarosamente o cortejo fúnebre partiu em direção à sepultura previamente preparada pelo coveiro local. A procissão seguia sob a forte chuva que caía insistente. O pequeno mar de guarda-chuvas negros parecia ondular ao som dos pingos de chuva que ensopavam o cortejo e faziam escorrer pequenos córregos pela madeira envernizada do caixão. Ouviam-se somente as batidas secas dos solados dos calçados de encontro à rigidez das pedras assentadas no caminho principal do cemitério, além do ruído abafado das gotas de chuva que ecoavam no pano dos guarda-chuvas e nas lápides esbranquiçadas de cal.

Enquanto o cortejo ia sem pressa o sino da capela novamente soou naquele cenário cinzento. Batia devagar e compassadamente sua melodia funesta. Seu tinir sorumbático ecoava ao longe e parecia penetrar na mente de Cristine e dizer-lhe sombriamente: adeus.

Tão logo o ataúde desceu ao jazigo, atado por espessas cordas, e a lápide de mármore foi colocada por sobre a abertura, o diminuto cortejo foi se dissipando gradualmente. Cristine não chegou a ser cumprimentada por ninguém, uma vez que não conhecia nenhuma das pessoas presentes. Ficou parada onde estava, um pouco afastada do jazigo, sem fazer menção de sair dali. A mulher morena e alta que depositou uma flor nas mãos de seu tio passou por ela e dirigiu-lhe um olhar escondido sob as lentes escuras. Com um movimento de cabeça cumprimentou-a formal e seriamente, porém não lhe dirigiu a palavra. Com a mesma seriedade Cristine devolveu a mesura.

Ainda amparada por Dr. Mendes permaneceu ali, ao lado da sepultura da família, e pela primeira vez pôde ver onde estava uma parte de seus ancestrais. Aproximou-se e observou a lápide de mármore escuro onde se lia em letras gravadas na própria pedra o nome dos seus avós paternos. Mais abaixo, em letras de metal dourado, o nome de seu tio, Artur Diaz Torres, e a inscrição já desgastada pelo tempo, ainda do tempo de seus avós: descanse em paz. Na parte superior do jazigo se erguia um pedestal que servia de base para os pés de dois anjos esculpidos num mármore mais claro. O primeiro impunha uma trombeta e parecia anunciar aos quatro ventos a entrada triunfal daqueles mortos no reino dos céus. O outro, sentado sobre o pedestal, segurava um crucifixo com uma mão e com a outra, estendida na direção da terra, parecia querer auxiliar os espíritos a deixar a cova sombria e irromper a barreira da vida e da morte. A garoa espessa e contínua fazia com que as pontas das asas dos anjos gotejassem e filetes de água corrente descessem pelas faces das estatuetas, como se estas tivessem vida e derramassem um pranto silencioso sobre a lápide fria. Logo abaixo dos anjos se lia: “O Senhor é meu Pastor, nada me faltará, mesmo que eu ande pelo vale da morte nada temerei, pois o Senhor me conduz pela mão e me leva a descansar”.

Cristine observava em silêncio. Somente ela e Dr. Mendes ainda estavam defronte ao jazigo. Até mesmo o coveiro já havia encerrado sua função naquela manhã chuvosa. Por um instante a atenção de Cristine voltou-se para um ponto atrás da sepultura, onde um arbusto dava a impressão de esconder um vulto nas sombras. Apurando mais a visão pareceu à Cristine avistar um rosto por entre as folhas molhadas, um olhar a observá-la atentamente. Percebendo-se também observado o vulto furtivo esgueirou-se pela vegetação espessa e sumiu do campo de visão da jovem. Cristine empertigou-se, como que tentando definir a veracidade daquela cena. Ficou em dúvida se realmente havia alguém ali ou se tal impressão havia sido fruto de sua imaginação, ainda sob o efeito dos últimos acontecimentos. Seu devaneio foi interrompido pela voz do Dr. Mendes.

- Cristine, vamos para casa? – disse o advogado brandamente.

A jovem assentiu com um movimento de cabeça e rumou em silêncio para o carro que continuava estacionado no mesmo lugar. Henrique estava a postos no volante e apressou-se a abrir a porta para ela. Antes que o carro se pusesse em movimento a jovem disse:

- E agora, Dr. Mendes? – questionou Cristine, rompendo o silêncio.

- Agora precisamos dar andamento nas nossas vidas... Temos providências práticas a tomar.

- Sim, eu sei... Mas como vai ser?

- Cristine, tu ficarás na casa do teu tio, que também é tua, e daqui a uma semana abriremos o testamento do falecido, conforme sua vontade.

- Não sei... Acho que prefiro ficar num hotel... – respondeu Cristine.

- De forma alguma. Seu tio ficaria ofendido se a ouvisse cogitar essa possibilidade.

- Mas eu fico constrangida...

- Constrangida com o que? – quis saber o advogado.

- As pessoas não me conhecem... Fica parecendo que estou aqui por causa da herança do tio Artur... – argumentou Cristine.

- Mas nós sabemos que não é assim. Além do mais não compete aos serviçais julgarem a conduta de seus patrões. E agora a senhorita é a patroa.

- Como assim?

- Bom, a senhorita é a familiar mais próxima de seu tio. Além do James.

- Quem é James? – questionou Cristine.

- É o afilhado do Sr. Artur. Na verdade é filho de uma prima em segundo grau do seu tio que morreu quando ele era pequeno e o Sr. Artur acabou assumindo-o na adolescência, quando tomou conhecimento de sua existência. O pai do rapaz é desconhecido e ele passou dos cinco aos doze anos num orfanato. Quando seu tio soube dele fez questão de terminar de criá-lo. É quase um filho.

- Mas então, por direito, os bens de titio pertencem a ele. Eu não tenho o que fazer aqui. Porque o senhor me trouxe?

- Porque seu tio assim o desejou.

- Como assim? Ele sabia que iria morrer? – questionou Cristine.

Dr. Mendes pigarreou e continuou:

- Não... Não sabia...

- Mas então?... – continuou Cristine.

- Senhorita, com certeza temos muito ainda o que conversar, mas creio que este não é o momento. Vamos para casa, a senhorita se instala, descansa, se alimenta, e posteriormente retomamos esta conversa. – respondeu em tom categórico, ao qual Cristine não se sentiu em condições de contra-argumentar.

 

******************

 

 

O veículo seguiu por uma estradinha de chão batido, transformada pela ação da chuva num lamaçal avermelhado, e não levou mais do que três minutos para entrar no portão principal da propriedade de Artur Diaz Torres. Na verdade o local ficava quase que ao lado do cemitério, sendo que o terreno destinado ao campo-santo havia sido doado pela família Diaz há mais de um século.

Cruzaram um imenso portal de pedras onde pendia uma placa de madeira entalhada em baixo relevo com a seguinte inscrição: Rincão dos Diaz. Quase toda a propriedade era cercada por um muro de pedras brutas, artesanalmente dispostas sem nenhum tipo de cimento, utilizando-se apenas o formato natural de cada uma delas, como se fosse um quebra-cabeça gigante. Formavam um paredão de cerca de dois metros de altura e circundavam o Rincão dos Diaz conferindo-lhe um ar medieval.

Seguiram por uma alameda cujo calçamento irregular, também de pedras arredondadas, fazia trepidar o veículo. A estrada era ladeada por pinheiros plantados simetricamente em quase toda sua extensão. As copas das árvores tocavam-se no alto, formando um túnel verde. O caminho era na verdade um aclive tortuoso, cuja tonalidade cinzenta do dia conferia uma atmosfera lúgubre.

A construção principal ficava na encosta de um morro e o carro empreendeu uma subida íngreme até a casa, chamada pelos serviçais e pela população da cidade de “castelo”. Tão logo Cristine desembarcou entendeu o porquê daquela alcunha. A construção parecia realmente um castelo. Havia sido projetada pelo bisavô de Cristine, porém quem de fato a edificara havia sido o pai de seu tio Artur.

Cristine começou a se dar conta que descendia de uma família de excêntricos e chegou a achar graça disto. Recordou-se de uma fantasia sua, de infância, na qual sonhava ser uma princesa e morar num castelo encantado, cujo portão principal era vigiado por um temível dragão de duas cabeças. Imaginava que um valente príncipe montado num cavalo branco mataria o dragão e a pediria em casamento, transformando o castelo imaginário num lar próspero e feliz. Porém sempre despertava e se deprimia ao perceber a realidade das paredes esbranquiçadas dos vários colégios internos nos quais passou. Muito mais tarde, após incontáveis sessões de análise, conseguiu entender a simbologia de seu dragão imaginário, seu castelo encantado e de seu príncipe, que na verdade custou a aceitar que seria uma princesa, uma bela e sedutora princesa num corcel negro.

 

 

Cristine foi trazida de volta à realidade quando o carro estancou em frente à porta principal da morada. O castelo era de fato gigantesco, deveria ter inúmeras dependências em seu interior suntuoso. Todo construído com pedras regulares de uma coloração cinza-rosada, tinha duas torres na parte da frente. As aberturas eram em forma de arco e lembravam um pouco as antigas igrejas em estilo renascentista. Vistas de fora as venezianas de madeira maciça escondiam-se atrás das vidraças quadriculadas alojadas em armações de madeira escura.  A porta principal abria-se em duas partes e tinha cerca de três metros de altura por quase dois e meio de largura. Era também de espessa madeira maciça, lisa, sem nenhum tipo de trabalho na parte externa, somente com uma aldrava de metal em forma de carranca, de cujo nariz pendia uma pesada argola de ferro que servia para bater à porta.

Naquele momento a chuva havia estiado um pouco e somente uma garoa fina insistia em umedecer e acinzentar a paisagem.

Como que adivinhando a chegada deles a porta abriu-se vagarosamente emitindo um rangido de metal ressecado. Cristine arrepiou-se com aquele barulho, porém não saberia dizer o porquê.

Do vão da porta surgiu a figura austera de Morris, em sua habitual postura ereta. Dr. Mendes conduziu Cristine para a entrada e apresentou-a ao mordomo.

- Morris, esta é a senhorita Cristine, a qual aguardávamos.

- Encantado, senhorita – disse Morris seriamente – E meus sinceros pêsames pelo senhor seu tio.

- Obrigada.

 

Morris deu o lado aos dois para que entrassem na casa. Ainda no saguão, aos pés da escadaria suntuosa Cristine foi apresentada aos demais serviçais da casa. Anemary Frank, a governanta inglesa, de 57 anos, porte elegante e vestimenta engomada cumprimentou-a com uma mesura e um português impecável, ainda que carregado de um sotaque europeu:

- Mademoiselle. Faço minhas as palavras de Morris. E apesar das circunstâncias trágicas lhe desejo boas vindas.

- Obrigada – respondeu Cristine.

- Este é James – falou o advogado dirigindo-se ao jovem que descia as escadas com pressa – o afilhado do Sr. Artur do qual já lhe falei.

James dirigiu-se à Cristine abraçando-a e tentando controlar as lágrimas:

- Muito prazer, prima. Embora eu quisesse imensamente tê-la conhecido numa outra circunstância. – disse enxugando uma lágrima que lhe escorria nas faces.

- Muito prazer, James. E tenha a certeza de que eu também.

Cristine observou que James era um tipo bastante comum, muito magro, estatura mediana, cabelos pretos e cortados bem curtos, nariz adunco, óculos de lentes grossas e aro de acrílico escuro, rosto bastante marcado por cicatrizes, provavelmente de acne ou catapora. Aparentava cerca de trinta anos, sendo que mais tarde Cristine descobriu ter trinta e quatro anos. Parecia estar arrasado com a morte do tio, “também pudera, era um pai para ele”, pensou Cristine.

Assim que James deu um passo para trás o advogado continuou.

- Ainda temos a Regina e o Israel – continuou Dr. Mendes – que são a cozinheira e o nosso jardineiro, além de Adelaide, a arrumadeira e copeira, e Thomaz, nosso encarregado de serviços gerais. Adelaide está de folga hoje e Thomaz deve estar em seus aposentos. Regina deve ter ido providenciar algo para comermos e Israel com certeza recolheu-se em sua casa, nos fundos desta propriedade. Deve estar muito abalado com o falecimento do Sr. Artur, afinal, mais do que um empregado Israel era um amigo do seu tio. Eles se criaram praticamente juntos. O pai de Israel trabalhava com o pai do Sr. Artur nesta mesma propriedade e ambos nasceram aqui.

- Imagino como ele deve estar se sentindo... – ponderou Cristine educadamente.

- Bom, ainda vive nesta propriedade o filho de Regina e Israel, o jovem Ariel, um adolescente que estuda na cidade e eventualmente auxilia o pai nas atividades deste. Também está aqui no momento a filha mais velha deles, Angélica, que mora na capital, mas está passando uns dias de férias com os pais. Eu tomei a liberdade de convidá-la para vir aqui hoje, para que a conheça. É uma moça encantadora e pedi que lhe fizesse companhia por estes dias. Sei que deves estar te sentindo afligida por estar aqui, considerando-se esta situação toda, e acredito que Angélica possa ajudá-la a superar este momento desagradável. Ela é jovem como a senhorita, com certeza lhe será uma companhia agradável, com assuntos condizentes com a sua realidade e juventude.

- Dr. Mendes, por favor, não fale como se fosse um ancião... – riu-se discretamente Cristine.

- Por certo ainda não o sou... Mas quase. – emendou brincando – Mas afirmo-lhe que Angélica lhe será uma companhia melhor do que os demais. Ela, gentilmente, se dispôs a lhe mostrar a propriedade e ficar à sua disposição por estes dias.

- Eu também posso fazer companhia à Cristine, isso me daria muito prazer e me ajudaria a superar a dor que estou sentindo. – interveio James.

- Obrigada, James. – disse Cristine.

- Muito gentil de sua parte James – disse Dr. Mendes - Mas com certeza as moças devem querer conversar sobre assuntos tipicamente femininos, o que foge de sua alçada, meu caro.

- Mas mesmo assim, Cristine, pode contar comigo para o que precisar. – reafirmou James.

- Novamente agradeço. – disse Cristine - Só não quero incomodar, nem impor minha presença para ninguém.

- Não é incômodo algum, - continuou James – É um prazer.

- Tudo bem, então. – concordou tímida.

Com certeza Dr. Mendes e James estavam bem intencionados e desejavam que sua estadia naquele castelo fosse o mais agradável possível, embora em seu íntimo preferisse ficar sozinha mesmo. Mas não quis ser desagradável com o advogado, nem com James, mostrando-se pouco sociável ou ermitã. Há seu tempo daria um jeito de dispensar educadamente o primo James e a amiga arranjada para ela, ou não... Quem sabe.

 

- Senhorita, por favor, queira me acompanhar – disse a governanta – lhe mostrarei os seus aposentos. A senhorita poderá tomar um banho e tão logo o almoço esteja pronto eu lhe chamo.

James fez menção de pegar a pequena mala de Cristine que estava no chão ao lado do Dr. Mendes, porém Morris antecipou-se a ele, dizendo:

- Pode deixar, senhor, eu levo.

 

Cristine foi conduzida pela escadaria que levava ao segundo pavimento do prédio. Tudo ali lhe fazia lembrar um castelo medieval, a decoração dos ambientes, as luminárias dos corredores, as portas de madeira maciça e o pé direito altíssimo da construção. O ambiente todo era sombrio, com poucas luzes artificiais acesas. As paredes de pedra, com uma atmosfera mais úmida e sombria devido ao tempo nublado, chegavam a ter um ar fantasmagórico. Cristine percebeu que o longo corredor abrigava inúmeras portas cerradas. Uma delas por certo deveria ser o quarto de seu tio, agora relegado a ser provavelmente um cômodo abandonado.

O amplo corredor fazia uma curva à esquerda e outros tantos aposentos com aberturas lacradas por escurecidas madeiras de lei pareciam querer intimidar os transeuntes.

Cristine não pôde deixar de notar a figura que se movimentava à sua frente. Anemary Frank era uma mulher alta, com os cabelos grisalhos presos num coque no alto da cabeça, onde nenhum fio de cabelo aparentava estar fora do lugar. Seus passos eram firmes e curtos, ecoando ritmicamente pelos corredores devido ao salto pontiagudo do calçado. A vestimenta negra demonstrava o luto pela perda do patrão, embora parecesse à Cristine que aquela mulher jamais usasse outra cor de roupas, que não fossem as escuras.

Anemary estancou defronte a uma das portas descerrando-a com facilidade. A porta deslizou para a direita suavemente, sem emitir o menor rangido, dando a conhecer um espaçoso quarto que em nada condizia com a austeridade dos corredores. Apesar das paredes de pedra o quarto tinha um ar jovial. Móveis de cerejeira, cuidadosamente polidos e sem o menor resquício de qualquer partícula de pó, estavam dispostos harmoniosamente. A cama imensa, com um colchão de molas confortável, tinha uma armação de madeira clara que sustentava um vaporoso mosquiteiro de tule branco. Cristine parecia estar defronte à cama de uma rainha francesa. O edredom de seda alaranjado exibia a borda de um lençol imaculadamente branco, com um bordado à mão de flores e borboletas em um fio dourado. Uma das paredes era coberta de fora a fora com uma cortina de seda, também alaranjada, que ia do teto ao chão e parecia quebrar a austeridade das paredes de pedra. Um móvel no canto do aposento sustentava um aparelho de TV de 29 polegadas, um decodificador de antena parabólica e um DVD, alem de um aparelho de som. Uma confortável poltrona estofada, estilo Luís XV, estava estrategicamente posicionada de frente para a televisão. O roupeiro era amplo e estava totalmente vazio, permitindo à Cristine acondicionar seus pertences com muita comodidade. Em ambos os lados da cama havia criados-mudos com uma luminária em cada um. O quarto tinha o necessário para que ela se instalasse confortavelmente.

O que mais havia chamado a atenção de Cristine naquele lugar era a temperatura agradavelmente aquecida. Percebeu que um sistema de calefação mantinha a temperatura do quarto entre 20° e 24°C, uma maravilha se comparada à temperatura do lado de fora do castelo e dos corredores deste.

À esquerda da suíte havia uma porta que levava ao quarto de banho e Cristine observou que na parede oposta à cama havia outra porta, provavelmente levando para uma sacada.

Anemary a deixou sozinha, pedindo licença para se retirar.

Cristine desfez rapidamente sua mala e entrou no banheiro, disposta a tomar uma ducha reconfortante. O que a admirou naquele toalete foi o fato de ter uma grande banheira esmaltada, daquelas antigas, porém adaptada para hidromassagem e com um cardal que a mantinha aquecida ao gosto do usuário. Não se fez de rogada, afinal o que mais precisava naquele momento era relaxar um pouco. Ligou a água e esperou que a banheira ficasse quase transbordando para mergulhar naquela água quente e borbulhante. Relaxou a ponto de quase adormecer dentro d’água. Fechou os olhos e desejou estar de volta ao seu apartamento no Leblon e ao seu escritório no centro da cidade maravilhosa. Depois de cerca de meia hora de molho, secou-se e vestiu-se com uma de calça de lã escura. Colocou uma segunda-pele por baixo de uma camiseta de algodão e arrematou o conjunto com um suéter de lã verde-musgo. As meias de lã que comprara por insistência de sua sócia, Cynthia, agora estavam lhe servindo em muito. Ainda pegou um agasalho estofadinho que usara uma única vez em uma viagem a Buenos Aires. Sentia-se agora preparada para enfrentar o rigor do frio.

 

 

Quando já eram quase duas horas da tarde Anemary bateu à porta avisando que o almoço estava servido. Aguardou Cristine e a conduziu até a sala das refeições.

A imensa mesa estava posta e James já estava instalado à direita da cabeceira, cuja cadeira de espaldar alto se encontrava vazia. Dr. Mendes aguardava Cristine aos pés da escadaria e acompanhou-a até a mesa. Morris indicou-lhe um lugar puxando a cadeira para que se sentasse. Logo em seguida Dr. Mendes acomodou-se a seu lado. O clima era de consternação frente ao lugar vazio na cabeceira da mesa. Em silêncio Morris serviu o almoço. James mal tocou na comida, assim como ela e Dr. Mendes. Cristine continuava com uma sensação de angústia, que lhe impedia de conseguir comer. Forçou algumas garfadas, ciente de que precisava alimentar-se para não piorar a situação.

Logo após o almoço Dr. Mendes sugeriu à Cristine que fosse repousar um pouco.

- Senhorita, seria bom se descansasse por um tempo.

- Acho que realmente estou precisando me recostar um pouco. – respondeu Cristine.

- Eu preciso resolver algumas questões no escritório agora à tarde.

- Mas o senhor vai voltar depois e ficar aqui hoje, não vai? – questionou Cristine deixando transparecer um tom de súplica na voz – É que gostaria de conversar um pouco mais sobre meu tio... – continuou tentando justificar-se.

Na verdade Cristine sentia-se bem ao lado do Dr. Mendes, embora o conhecesse somente há algumas horas. Ele lhe passava um sentimento genuíno de confiança e segurança.

- Venho sim, pode ficar tranqüila. – anuiu o advogado, para o alívio da jovem.

 

Cristine agradeceu e dirigiu-se ao seu quarto. Tirou as botas de cano curto e deitou-se na cama, sobre o edredom. Adormeceu quase que instantaneamente. Teve um sono agitado, povoado por imagens difusas e acinzentadas. Um trovão mais alto, que ecoou por entre as paredes de pedra, despertou-a de sobressalto. Sentou-se na cama custando um pouco a se conectar com a realidade e entender onde estava. Gradualmente os acontecimentos das últimas horas voltaram à sua memória. Suspirou profundamente.

A chuva continuava incessante e as espessas gotas eram jogadas violentamente contra a vidraça. A veneziana estava aberta e Cristine foi até a janela. A única coisa que conseguia visualizar eram os filetes de água que escorriam externamente de encontro aos vidros, formando arabescos tremulantes e úmidos. Aproximou o rosto da vidraça e com a palma da mão limpou o vidro embaçado, livrando-o da camada interna de gotas microscópicas que turvavam a visão, na tentativa de observar a paisagem da rua. Conseguiu distinguir somente uma neblina densa que limitava a visibilidade a alguns poucos metros da casa. Um caminho pavimentado com pedras irregulares circundava o castelo e bifurcava-se de quando em quando estendendo as pequenas vielas na direção dos arredores da propriedade. Cristine não conseguia ver para onde aqueles caminhos conduziam.

Os trovões ecoavam estridentes e faziam com que a jovem se encolhesse a cada som mais alto, cuja vibração fazia trepidar os vidros da janela. Instintivamente Cristine apertava os braços cruzados à frente do corpo. Resolveu descer e procurar alguma viva alma naquele imenso e lúgubre castelo.

Calçou novamente suas botas que possuíam um revestimento de lã de ovelhas e cruzou os corredores sombrios rumo à escadaria principal. Desceu os degraus ouvindo o ruído dos trovões e da chuva torrencial que abafavam o som dos próprios passos. Percebeu que o hall de entrada assim como a sala estavam vazios. Uma sensação de desconforto a invadiu.

Na tentativa de localizar alguém rumou por uma porta que dava para os fundos da casa. Um corredor mais curto levava à cozinha, a qual Cristine localizou pelo odor agradável de café recém passado. Ao cruzar o portal de acesso àquela peça deparou-se com uma cozinha ampla e clara, com as luzes fluorescentes ligadas e um bule fumegante repousando num canto de um fogão à lenha. A luminosidade e a energia daquele local destoavam do resto do castelo. De costas para a porta, remexendo uma panela de ferro, Cristine viu uma figura de baixa estatura e cabelos grisalhos presos debaixo de uma touca de tecido xadrez esverdeado. Como que percebendo sua entrada a mulher mais velha virou-se e sorriu-lhe amorosamente:

- Boa tarde. A senhorita deve ser a sobrinha do Sr. Artur... Eu sou Regina, a cozinheira.

- Boa tarde, Regina. E muito prazer. – respondeu Cristine.

- Igualmente. E queira aceitar meus sentimentos pela perda de seu tio.

- Obrigada.

- Com certeza foi uma grande perda... – disse a cozinheira – Meu marido está inconsolável. Eles eram mais que patrão e empregado, eram amigos...

- Eu lamento.

Regina sorriu tristemente, mas logo tratou de alegrar sua expressão e perguntar amistosamente:

- Está com fome? Quer alguma coisa? Morris me falou que a senhorita mal tocou na comida.

Cristine percebeu-se com um pouco de fome.

- Não quero dar trabalho – respondeu a jovem.

- Não é trabalho algum, senhorita.

- É... Regina... Posso lhe pedir uma coisa?

- Claro.

- Não me chame de senhorita. Acho tão formal... Prefiro que me chame pelo nome, Cristine.

- Pois não, senhori... digo, Cristine.

A cozinheira indicou-lhe uma cadeira junto à mesa de tampo de madeira envernizada.

- Senta aqui, então. Vou te servir um lanchinho. – disse sorridente.

Enfim Cristine sentia-se próxima a alguém naquele lugar sombrio. Havia simpatizado com Regina assim que a viu. E esta também sentira a mesma coisa a seu respeito. A cozinheira tinha uma energia boa, um astral luminoso apesar das circunstâncias.

Antes que Regina terminasse de servir Cristine a porta que dava acesso à rua abriu-se e uma figura esguia praticamente saltou para dentro, espanando-se a fim de tirar a água de cima de sua capa plástica. Regina disse:

- Minha filha! Tu estas igual a um pinto molhado! Tira essa capa e deixa ali no canto.

- Oi mãe! – disse dirigindo-se à Regina, sapecando-lhe um beijo nas faces, e logo em seguida à Cristine – Olá!

- Olá. – respondeu Cristine.

- Esta é minha filha, Angélica. – apresentou Regina – Ela está passando as férias aqui conosco.

- Dr. Mendes já havia me falado nela. – disse Cristine educadamente.

- Muito prazer, Cristine. – disse Angélica estendendo-lhe a mão num cumprimento formal.

- Igualmente.

Angélica tinha um aperto de mão firme e Cristine sentiu o olhar desta fixo no seu. Pareceu-lhe momentaneamente ser aquele um cumprimento por segundos mais longo do que necessitaria ter sido. Manteve o olhar fixo em Angélica e esta disse soltando sua mão:

- Eu lamento pelo seu tio...

- Obrigada – respondeu Cristine.

- Eu gostava muito dele, muito mesmo... – disse Angélica deixando transparecer consternação na voz.

- Eu imagino...

- Dr. Mendes me pediu que te fizesse companhia e cá estou. – disse Angélica sorrindo afetivamente para Cristine.

- Olha... Eu não quero dar trabalho...

- Tudo bem... Eu tô de férias mesmo. E não será trabalho algum te fazer companhia – disse Angélica novamente olhando Cristine diretamente nos olhos.

Sem querer Cristine enrubesceu e desviou o olhar.

Angélica sentou-se à mesa, de frente para Cristine e serviu-se de uma xícara de café quente. Precisava tomar algo que lhe esquentasse por dentro. Envolveu a caneca fumegante com as mãos no intuito de aquecê-las. Estava com os nós dos dedos descoloridos pela pouca circulação sangüínea devido ao frio.

Discretamente Cristine passou a observá-la. Deu-se conta de haver sido ela quem lhe cumprimentara discretamente logo após o enterro de seu tio naquela manhã. Continuou seu exame minucioso. Angélica era uma mulher bastante alta, cujos cabelos escuros, cortados em camadas caíam-lhe displicentemente sobre os ombros escapando pelas bordas de sua touca de lã negra. Os olhos, de um azul incrivelmente vivo, contrastavam com a tonalidade escura dos cílios longos. A boca com dentes imaculadamente brancos era afilada e um sorriso de revés fazia com que aparecessem os esboços do que seriam pequenas covinhas nas faces. O rosto, apesar de anguloso, ostentava feições bastante delicadas. A pele de uma tonalidade moreno-clara era aveludada e aparentava maciez ao toque.

Por instantes Cristine teve o ímpeto de tocar naquelas mãos que seguravam avidamente a caneca de café quente. Como que temendo que lessem seus pensamentos tratou de desviá-los para outro enfoque.

- Chove sempre assim nesta época do ano? – perguntou Cristine.

- Geralmente não tanto. Nosso inverno é sempre muito frio, já chegou inclusive a nevar a alguns anos atrás, mas fazia tempo que não chovia tanto! – respondeu Regina.

- E o frio também está se superando este ano, não é mesmo mãe? – emendou Angélica.

- Ô se está! – disse Regina – Mas neve não caiu.

- E espero que não caia! – retrucou Angélica – Quero mais é que o verão chegue logo!

- Eu confesso que estou bastante preocupada. Acho que não sobreviverei uma semana por aqui. – disse Cristine em tom de desalento.

- Sobrevive sim. A gente se acostuma. – disse Angélica.

- Espero... – retrucou Cristine.

- É uma lástima que tenhas vindo para cá numa situação como esta... – falou Angélica – Afinal esta é uma bela cidadezinha para se descansar.

- Pois é... – anuiu Cristine.

- Mas caso a chuva dê uma trégua podemos andar por aí amanhã. – continuou Angélica – Te mostro a propriedade e os arredores do castelo.

Cristine riu e comentou:

- É muito engraçada a naturalidade com que vocês se referem a esta casa como “castelo”...

- Mas é isso que ela é. – riu-se Angélica – Ou tu tens um nome mais apropriado?

- Acho que não. – respondeu Cristine pensativa.

- Esquisitices do padrinho... – disse Angélica.

Regina fuzilou-a com o olhar e tentou remendar:

- Na verdade o Sr. Artur era um excêntrico...

- Esquisito, mãe! Mas eu o adorava e tu sabes bem o quanto. E não quero precisar de meias palavras para falar dele só porque ele morreu...

- Por favor, Angélica... – disse a mulher mais velha.

Cristine tentou amenizar o clima de desconforto e disse:

- Ele parecia ser de fato bastante... diferente.

- Na melhor das hipóteses, Cristine. – respondeu Angélica – Mas era uma pessoa pela qual eu nutria um especial afeto. E a minha mãe sabe disso. E era recíproco. Eu era afilhada dele, de batismo, e sempre tivemos muito em comum. Mas eu o respeitava nas esquisitices e ele me respeitava no meu jeito de ser.

- Bom, vocês querem que eu faça uns bolinhos de chuva? – perguntou Regina tentando desviar o rumo da conversa.

- Acho ótima idéia! – respondeu Cristine.

- Eu idem – disse Angélica.

- Então vou por mãos à obra. Angélica, pega a farinha pra mim, na prateleira de cima. E tu, Cristine, me alcança dois ovos ali do balcão. – disse Regina tratando de pegar uma bacia ovalada para fazer a massa.

Cristine pegou os ovos e ao se virar pôde constatar as curvas arredondadas do corpo de Angélica que se esticava para alcançar na prateleira superior. Por certo Regina jamais alcançaria ali sem o auxílio de um banquinho, assim como ela própria. Mas para Angélica era uma tarefa bastante fácil. A morena tinha o corpo muito bem definido, pelo que podia perceber por sob a calça jeans apertada e a blusa de lã colada ao corpo. Calçava botas de couro de cano alto e tonalidade marrom escura. Movia-se com a elegância de uma leoa. Novamente Cristine tratou de desviar os pensamentos, dirigindo sua atenção aos ovos que estendia cuidadosamente para Regina.

A mulher mais velha preparou a massa enquanto colocava uma pequena panela de ferro com óleo para aquecer. Cristine notou que Angélica em quase nada se parecia com sua mãe. Excetuando-se os olhos que tinham a mesma tonalidade e o sorriso que evidenciava covinhas na face, em mais nada se pareciam. Isso, porém, sem levar em conta a simpatia. Tanto Angélica quanto Regina pareciam ser pessoas de fácil convívio, espontâneas e encantadoras.

Antes de Regina servir os bolinhos, enquanto ainda os passava numa mistura de açúcar com canela, a porta dos fundos novamente se abriu dando passagem para um senhor de meia idade, ao qual Cristine não precisaria ser apresentada, visto logo saber de quem se tratava: Israel, o pai de Angélica. A filha era a cópia xérox numa versão feminina do pai. O mesmo porte avantajado, o mesmo tom de pele e de cabelos, as mesmas feições, enfim, um caso que dispensava qualquer teste laboratorial de paternidade, bastava apenas uma olhadela e pronto. O homem caminhava lentamente e cabisbaixo. Ostentava uma expressão de desconsolo e tinha os olhos avermelhados como se houvesse chorado ainda há pouco. Ao ver Cristine dirigiu-se para ela estendendo-lhe a mão.

- Pai, esta é Cristine, a sobrinha do padrinho... – disse Angélica.

O velho senhor nada conseguiu dizer. Apenas apertou a mão de Cristine para logo em seguida secar algumas lágrimas que lhe brotaram dos olhos.

- Desculpe, senhorita... – disse Israel – Mas não consigo me conformar...

- Eu imagino... Soube que vocês eram muito amigos... – respondeu Cristine.

- Pois é... Eu perdi um irmão.

- Eu lamento. – disse Cristine.

- Vem aqui meu velho – disse Regina carinhosamente – Vou te servir um café.

- Eu não quero. – respondeu o velho.

- Pai... O senhor tem que comer alguma coisa... Por favor... – pediu Angélica.

- Me dá um cafezinho preto então... – anuiu Israel.

- Toma aqui, come um bolinho também – pediu Regina – Só um...

O jardineiro pegou um dos bolinhos a contragosto e pôs-se a comê-lo vagarosamente, com o olhar perdido na direção da parede.

- O velho Israel aqui é um exímio conhecedor de botânica, sabia Cristine? – disse Angélica, referindo-se às habilidades de seu pai.

- Não exagera Angélica... – respondeu o velho tentando esboçar um sorriso.

- Mas é verdade! – continuou a morena – Se quiseres saber qualquer coisa sobre qualquer planta desta região é só perguntar pra ele.

- Essa menina aumenta as coisas... – disse Israel.

- Não aumento nada. O senhor é que é modesto.

- É verdade – emendou Regina – o Israel é conhecedor de todas as plantas daqui das redondezas. E o jardim da propriedade é lindo! Quando parar de chover terás a oportunidade de vê-lo.

- Com certeza. – respondeu Cristine.

Israel sorriu tristemente e depois de sorver sua taça de café pediu licença e saiu na direção dos fundos, pegando uma sacola com algumas ferramentas de jardim que estava atrás da porta e dizendo que retornaria para casa.

Tão logo o velho saiu Regina suspirou tristemente.

- Eu não posso ver o Israel assim... Me corta o coração. Nem quando ele perdeu o pai ficou tão abalado.

- Mas mãe, o vovô estava doente há muito tempo... e o papai sabia que ele morreria dentro em breve. Só que no caso do padrinho foi diferente...

- Eu sei, minha filha... Mas me dói...

- Mãe, ele precisa de tempo... Só isso. A gente supera tudo na vida. Só precisa dar tempo ao tempo.

Novamente Regina suspirou. Cristine ficou observando como Angélica era ponderada. Aparentava ser uma pessoa muito carinhosa, porém prática e decidida frente aos contratempos da vida. Deixava transparecer firmeza e segurança, exatamente os sentimentos que Cristine precisava para se manter naquele momento. Decididamente a idéia do Dr. Mendes em pedir que a morena lhe fizesse companhia havia sido providencial. Percebeu-se com vontade de ficar perto de Angélica, até mesmo porque estava gostando muito de observar os trejeitos daquela bela mulher.

 

Neste momento James entrou nas dependências da cozinha e cumprimentou as três mulheres. Cristine percebeu o tom de frieza com o qual se dirigiu à Angélica, para logo em seguida sorrir amavelmente para ela própria.

- Como está, prima? – perguntou James – Conseguiu descansar um pouco?

- Consegui sim.

- Que bom. Mas... – continuou dirigindo-se formalmente à Regina - ...porque não foi servido o lanche da senhorita Cristine na sala de jantar? A cozinha não me parece ser o lugar mais adequado para recepcionar um hóspede da casa.

Regina não respondeu. Limitou-se a baixar os olhos. Angélica saltou em defesa da mãe:

- Pelo que me conste ela não é hóspede. É a dona desta casa! Ou estou enganada? Logo, ela come aonde quiser. – disse a morena desafiadoramente.

James ficou rubro, deixando transparecer irritação. Cristine tentou apaziguar os ânimos:

- James, fui eu que pedi para ficar aqui. Eu não me importo, muito pelo contrário. Aqui está quentinho por causa do fogão... o hall e a sala de jantar estão muito frios.

- É a maldita calefação! – respondeu James – Precisamos consertá-la o quanto antes. O padrinho estava providenciando isso...

Fez-se um silêncio. James continuou:

- Angélica, se quiser voltar para casa ficarei com Cristine. Obrigada por ter vindo.

- Mas eu não pretendo ir. Vim para fazer companhia pra ela e vou fazer. A não ser que ela me peça para ir. – respondeu Angélica em tom baixo e categórico.

Novamente James enrubesceu de fúria. Cristine interveio:

- Olha só, eu agradeço a atenção dos dois. É muito gentil da parte de vocês, muito obrigada mesmo. Mas não quero causar nenhum constrangimento, por favor.

Conscientizando-se da situação a que Cristine estava sendo exposta Angélica abrandou o tom de voz:

- Desculpe... Eu não quis constrangê-la – disse levantando-se da mesa.

- Nem eu. – emendou James – Desculpe-me.

- Tudo bem... – respondeu Cristine.

Angélica continuou:

- Bem, eu vou fazer o seguinte: vou até a biblioteca e deixo vocês à vontade para conversarem. Cristine, se precisar de mim estou na segunda porta à esquerda, depois da escadaria. Com licença.

- Não. – disse Cristine instintivamente, ao que Angélica estancou.

Fez-se um instante de constrangimento entre eles. Regina deixou o avental no encosto de uma das cadeiras e disse que iria até a despensa, saindo do recinto. Angélica encarou Cristine nos olhos. James disse:

- Bem, neste caso, sou eu que vou deixá-las à vontade. Desculpe novamente Cristine, eu só quis ajudar.

- Eu sei James, e agradeço. Mas preciso ver umas questões com Angélica... – desculpou-se.

- Tudo bem... Se precisar de qualquer coisa estou no meu quarto. Com licença. – disse James e saiu da cozinha.

Depois que o rapaz saiu Angélica, colocando as mãos na cintura, disse:

- Putz, desculpa, foi mal. Mas é que esse cara me dá nos nervos!

- Tudo bem, só que comigo ele foi muito receptivo e amável...

- Mas não te ilude. Isso aí é um adulador barato! – desabafou Angélica, para logo em seguida abrandar a voz – Olha, eu sei que não deves ter entendido nada, mas eu te explico, ok?

- Por favor. – anuiu Cristine.

- É que desde que James veio para cá nós sempre tivemos uma relação digamos que... conflituosa. Ele sempre teve ciúmes do padrinho, queria atenção exclusiva. Tudo bem, eu entendo que ele tem uma história de vida e de infância muito triste, mas não justifica as atitudes dele... Pelo menos hoje. O padrinho sempre foi muito ligado a mim e James passou a competir comigo cada centímetro de espaço afetivo junto ao tio. E aí se originaram todos os nossos conflitos. Coisas de infância...

- Entendo. – disse Cristine.

- Mas... – continuou Angélica em tom maroto - qual é a questão que tu precisas ver comigo mesmo?

Cristine novamente ruborizou-se, divertindo Angélica com seu desconcerto.

- Beeem... ééé... livros. Você falou em biblioteca e eu fiquei curiosa. Tenho certa predileção por livros. É isso.

- Ah, bom. – respondeu Angélica mantendo firme o olhar em Cristine.

- Além do quê eu não pretendia ficar no meio do arranca-rabo de vocês...

Angélica foi obrigada a sorrir lembrando-se da saia justa de Cristine. Novamente tratou de desculpar-se:

- Me desculpa de novo, ok? Não vai mais acontecer.

- Tudo bem. – respondeu Cristine.

- Bom, mas então quem sabe a gente vai até a biblioteca. – sugeriu Angélica.

- Ótima idéia. – concordou Cristine.

 

 

****************

 

 

Angélica conduziu Cristine pela escadaria e pelo álgido corredor de acesso ao segundo piso do castelo e parou defronte a uma das imponentes portas de madeira, escura e maciça, que ocultava um universo até então desconhecido para Cristine. Angélica empurrou a porta e o que se descortinou foi um ambiente escuro onde reinava o mais absoluto silêncio e em cujo ar pairava um odor morno de papéis envelhecidos e de bolor. Cristine estancou na porta, temendo adentrar na escuridão do aposento e esbarrar em algum móvel ou objeto. Angélica moveu-se tranqüilamente na escuridão, familiarizada com o ambiente. Dirigiu-se para a parede à esquerda da porta de acesso e levou sua mão diretamente ao interruptor acendendo as fracas luzes de um grande candelabro que pendia no centro do teto. Assim que o espaço foi iluminado, ainda que parcamente, Cristine pôde ver a dimensão daquela biblioteca. Tratava-se de um salão imenso, cuja extensão deveria exceder cento e sessenta metros quadrados. Como as demais peças daquele castelo o pé direito era bastante alto e a parede lateral direita ostentava prateleiras de livros que iam do chão ao teto. Da mesma forma havia mais três fileiras de prateleiras de livros que cruzavam o recinto longitudinalmente, porém deveriam medir, no máximo, dois metros de altura cada uma. Em toda a extensão da parede do lado esquerdo da biblioteca havia armários envidraçados ostentando a coleção de moedas e de armas pertencentes ao excêntrico Artur. Mais próximo à porta havia uma infinidade de moedas antigas dispostas metodicamente e catalogadas conforme o ano de cunhagem. Ao longo da prateleira envidraçada encontravam-se vários tipos de armas, desde rifles antigos, espingardas de caça, revólveres, pistolas, até arcos e flechas, punhais, espadas e adagas. Todas as peças pareciam em ótimo estado de conservação, com os metais reluzindo à claridade do candelabro. Bem no final do imenso salão havia uma janela cujos vidros encontravam-se escondidos por um espesso acortinado de veludo negro. Cristine teve a impressão de que aquela janela jamais devesse ter sido aberta, pois tudo no ambiente cheirava a confinamento. Defronte à cascata ondulada do tecido cor de ébano havia uma mesa de tampo de madeira, muito comprida, com os pés torneados, ladeada por quatro cadeiras de espaldar alto, e estofado aveludado, do mesmo tecido das cortinas. Angélica continuou sua caminhada pelo aposento e passou a acionar interruptores dispostos ao longo das prateleiras e que acendiam lâmpadas fluorescentes dispostas simetricamente entre uma estante e outra.

Como que por encanto a atmosfera sombria foi substituída por uma luminosidade que chegava a ofuscar a visão ambientada à penumbra inicial. Desta feita Cristine passou a se deslocar pelo salão e a ter uma imagem mais fiel do ambiente que a cercava.

Foi até o fundo, sendo acompanhada em silêncio por Angélica. Estancou ao lado da enorme mesa e reparou nas esculturas que a rodeavam. Em ambos os lados da mesa, parecendo incrustadas em pedestais de mármore, estátuas de bronze em tamanho natural de caçadores exibindo a caça abatida pareciam ter vida própria. Um deles segurava uma lebre pelas orelhas e Cristine sentiu repulsa pela imagem pensando em como alguém poderia ter coragem de matar um animalzinho tão indefeso. Na outra o caçador repousava seu pé sobre uma onça prostrada, enquanto que com as mãos impunha o rifle que vitimara o animal. Da mesma forma Cristine sentiu-se angustiada frente àquela representação, mesmo sabedora de tratar-se apenas de uma obra de arte. Como que adivinhando os pensamentos de Cristine, Angélica quebrou o silêncio:

- Eu também não gosto delas. – disse absorta.

- Pois é... – respondeu Cristine - ...por mais que argumentem eu não consigo ver a caça como esporte. Para mim é só uma matança cruel.

- Eu também acho.

Fez-se um silêncio até que Cristine perguntou:

- O tio Artur caçava?

Angélica sorriu:

- Ironicamente, não. O padrinho era um... pode-se dizer pacifista. Era incapaz de ferir alguém, ou algum animal.

- Mas então... porque as estátuas? E a coleção de armas? Eu não entendo... – disse Cristine.

- Isso são reminiscências do pai dele e do avô, objetos de família que ele resolveu manter. Eu cresci ouvindo o padrinho falar: “Queres conhecer verdadeiramente um homem? Dê-lhe o poder... e uma arma. O sábio a guardará em lugar seguro, pois sua fortaleza vem de dentro, enquanto que o covarde a ostentará aonde for, para que todos vejam o quanto é poderoso”. E lembro quando ele me pegava no colo e apontava para estas estátuas e dizia: “Estás vendo aquele ali? Tira-lhe o rifle que a onça o devora. E aquele outro? Desarma-o que é capaz de disparar de medo da lebre. O sábio respeita a onça em seu território, e não permite que ela se aproxime a ponto de expor ambos a um risco desnecessário, e aprende com a lebre a agilidade de fugir da onça”. Por muitos anos eu não entendi a mensagem. Hoje entendo.

Cristine ficou encantada em conhecer aquele lado de seu tio. E começou a admira-lo naquele momento. Continuou a observar o seu redor e ver a imensidão de livros existentes ali.

- Deve ter milhares de livros aqui... – conjeturou Cristine.

- Realmente. – concordou Angélica – E a maioria destes foi o padrinho quem adquiriu. Ele costumava freqüentar as livrarias e os sebos a