Disclaimers:

Bem, em primeiro lugar gostaria de agradecer o carinho com que fui recebida na comunidade Fatorx e agradecer também aos meus leitores betas, se não fossem eles certamente vocês teriam que ler manha ao invés de manhã (odeio acentuação gráfica, odeio gramática). Quero deixar claro também que esta é minha primeira fic (na realidade a ultima vez que redigi um texto foi na redação de vestibular e acreditem faz tempo) portanto não esperem muito, já aviso também que a publicação desse texto não visa nenhum tipo de lucro por isso não infringem qualquer direito que os Studios USA/Renaissance detém sobre o seriado Xena, a Princesa Guerreira. Este texto relata a historia de amor entre duas mulheres se você for homofóbico, menor de 18 anos ou onde mora esse tipo de leitura lhe causará problemas eu sugiro que pare por aqui.

Do mais espero que desfrutem a leitura!

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By Fênix

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca, pois metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.

Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço. Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada porque metade de mim é o que penso e a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância pois metade de mim é a lembrança do que fui e a outra metade não sei.

Que a minha loucura seja perdoada pois metade de mim é amor

e a outra metade também.

Trecho de "Metade" – Oswaldo Montenegro.

Apresentações – Sou Beatriz Richter da Costa, tenho 29 anos bem vividos, uma profissão que amo e me dedico muito. Atualmente moro sozinha em Campo Alegre, uma cidade pólo petroquímico e tecnológico do Rio Grande do Sul, onde fiz meu mestrado em Biologia Molecular e é aqui que desenvolvo minha profissão: sou geneticista do hospital estadual de Campo Alegre.

Venho de uma família maravilhosamente maluca, mas que eu amo demais. Minha mãe, D. Marta, é uma coroa super moderna e assim como eu adora tecnologia; tem também meu irmãozinho (diga-se de passagem que de "inho" não tem nada) Marco, um ogrinho adorável. Temos 8 anos de diferença, mas tirando os pegas de infância sempre nos demos muito bem. Meu pai, é importante citar, nunca foi muito presente, e creio que já faça uns 10 anos que não o vejo. O fato é que ele saiu de casa quando eu ainda era uma garotinha, devia ter uns 12 anos, e Marco era praticamente um bebê, mas minha mãe sempre foi uma lutadora e tirou tudo de letra, dando todo suporte psicológico pra mim e meu irmão. E hoje, 17 anos depois, estamos aqui muito felizes, saudosos, mas felizes. Minha mãe continua morando no interior de SP com meu irmão, apesar de minha insistência pra que se mudem pra cá, minha velha é cabeça dura demais, mas vamos vivendo.

Aspectos físicos: não querendo me gabar, mas sou uma bela mulher, daquelas que chamam a atenção onde for e de quem for, seja homem ou mulher. Ostento nada mais nada menos que 1,80 de puro bronzeado, cabelos negros e lisos quase abaixo da cintura, delgada e delineada, seguida por um par de pernas com coxas torneadas e fortes e pra fechar o conjunto um par de olhos azuis de arrasar qualquer gato siamês.

Bem, informações dadas, creio que já possa começar.

6:30 – Piiiiiiii – Mais um dia começava, gosto de acordar cedo, mas não sei porque, naquela manha algo me dizia pra ficar na cama, porém como não sou nada intuitiva me levantei, tomei meu café da manhã e fui dar uma corridinha matinal.

- Bom dia Beatriz! – me disse animado Seu Sebastião, o porteiro de meu prédio, diga-se de passagem, um excelente prédio, situado bem em frente ao mar.

- Bom dia Tião! Como tem passado, e Dona Maria, como está? Já estou sabendo que logo logo tem guri novo na área! Parabéns!

- Muito obrigado! Mas as notícias voam mesmo hein!!!

- E como! Principalmente aqui no Netuno, né Tião, mas também com a jararaca da Solange morando aqui! (Solange é a mocréia da síndica, uma cinquentona encalhada que não me dá paz)

- Ô Dona Beatriz não fala assim que se ela escuta capaz de me botar na rua!!

- Relaxa homem de Deus que não vai dá nada não! Bom deixa eu ir andando então... Ah Tião quando eu estava saindo deixei o Fubá (meu gatinho lindo, que vive arrumando problema pra minha cabeça, por causa da xarope da síndica!!) escapar, se você o vir, segura ele pra mim, ta??!!

- Pode deixar Beatriz que eu cuido do peludo!!!

- Então até mais, e obrigada!!

- Até!!

E assim prossegui. O dia estava prometendo um calor daqueles e então resolvi correr pela orla da praia. Tirei meu abrigo de corrida, deixei aos cuidados de uns amigos que tinham uma barraquinha e comecei.

Apesar do sol, naquele horário havia uma leve brisa que tornava a temperatura amena e agradável. Já estava correndo a uns 50 min quando comecei a apresentar sinais de cansaço, - estou meio fora de forma.

Resolvi voltar caminhando pelo calçadão. Cumprimentei alguns conhecidos, ouvi gracinhas de uns idiotas, futricos de comadres, risos de crianças e assim voltei ao prédio. Peguei o Fubá com Seu Sebastião e subi para um relaxante e necessário banho.

A água caia revigorante sobre meu corpo cansado e recuperei um pouco de minhas forças, coloquei meu uniforme, troquei a água do gatinho e fui para meu querido trabalho, no Hospital de Reabilitação de Síndromes. Sou geneticista e pesquisadora do hospital.

Peguei meu carro, e assim em uns 15 min estava na porta do hospital. Cheguei junto com uma ambulância e fui dar uma olhada no que se passava: uma garota de aproximadamente 16 anos sangrava muito denunciando um princípio de aborto. É impressionante como nesses últimos anos aumentou o numero de tentativas de aborto e gestações precoces, uma garota nessa idade não tem perfil físico nem psicológico para a responsabilidade de uma gestação.

Bom, deixei a garota nas mãos dos médicos e entrei em minha sala pra ver o que me aguardava neste dia. Corri os olhos pelos prontuários e, como já suspeitava, havia vários casos novos. Isso já me deixava sem sono há algumas semanas, pois o índice de nascimento de crianças portadoras de síndromes desconhecidas havia aumentado consideravelmente naquele semestre e, pelo visto, o dia de hoje não seria diferente. Quinze casos novos, todos eram bebês de casais jovens, saudáveis, não consangüíneos e não fumantes, e coincidentemente de uma mesma região do estado. Bom, agora não é hora de pensar nisso, afinal, lá fora há uma fila de pais sedentos por respostas difíceis e alguém tem que fazer esta parte, então, que seja eu.

Pedi à enfermeira que chamasse o primeiro casal.

- Bom dia Sr. Daniel, Sr.ª Flavia, sentem-se, por favor.

- Bom dia Dra.

- Bom, meu nome é Beatriz e eu os chamei aqui para esclarecer algumas questões quanto aos cuidados e o tratamento do bebê. Aliás, como se chama esse garotão?

- Miguel

- Hum lindo nome, nome de anjo.

- É sim, e com certeza vai nos trazer muitas bênçãos, não é Miguel?!

- Pode apostar que sim! Parece ser uma criança adorável – ufa até que esse não vai ser tão difícil, a família parece aceitar bem o bebê.

- Bom mãe vamos ao que interessa. Acho que outros médicos já te disseram que o Miguel possui uma síndrome chamada de Síndrome de Apert, que faz parte das 6000 síndromes genéticas já descritas. Apesar de ter uma baixa freqüência, a síndrome de Apert já é amplamente estudada, o que já nos deixa mais seguros quanto ao tratamento do Miguel.

- Mas Dra. por que o meu bebê nasceu assim? – perguntou a mãe.

- Olha mãe, é difícil a gente dizer o motivo da síndrome. Ela é uma herança genética, e todas nós, mulheres, corremos algum risco de ter um bebê assim. Mas acredito que agora não seja o momento de buscar culpados ou motivos e sim cuidar dessa vida que lhe foi dada.

- Tudo bem, é que esse é nosso primeiro filho e temos medo que no futuro ocorra novamente.

- Neste caso, o melhor é vocês que vocês me procurem quando desejarem um próximo filho, daí poderemos quantificar quais são as chances de haver reincidência da síndrome, mas primeiro vou lhes instruir de como cuidar do Miguel, tá bom?

- Ok.

- Então, ele vai precisar passar por algumas cirurgias daqui a alguns meses, pra poder dar espaço pro cérebro dele se desenvolver. Essa cirurgia consiste em separar as placas ósseas que formam nosso crânio. Em uma criança normal, essas placas ósseas só se fechariam após o 1º ano, mas como o Miguel é um pouquinho diferente ele vai precisar de ajuda cirúrgica pra manter essas placas abertas até lá, e algumas cirurgias plásticas nas mãozinhas e pezinhos pra separar os dedinhos. Pode ficar tranqüila mãe, porque nosso hospital conta com a melhor equipe cirúrgica de todo país, e vamos dar todo suporte necessário para a Senhora e para o bebê, não só na cirurgia, mas também com acompanhamento psicológico, fonoaudiólogo, ortodontistas, fisioterapeutas e todos os profissionais necessários para o bom desenvolvimento dele.

- Tudo bem então, mas quando começa isso tudo?

- Bem se a Senhora não tiver mais nenhuma dúvida vou te encaminhar pro setor de agendamentos e lá eles vão informar sobre isso.

- Não, creio que por enquanto é só mesmo.

- Então vou te deixar com meus contatos e qualquer coisa me ligue ou mande e-mail.

- Doutora por enquanto muito obrigada pela atenção.

- Imagina o prazer foi meu em conhecê-los, e até logo.

- Até.

E assim transcorreu o dia, cheio de indagações e dúvidas, mas com um saldo positivo.

Saí do hospital por volta das 15h30min e já no caminho de casa lembrei que precisava passar no banco e já eram quase 16h. Corri e consegui entrar por poucos minutos. O banco estava relativamente vazio, antes de mim havia apenas umas 8 pessoas, e bem na minha frente uma loirinha baixinha, que me parecia não passar de uns 21 anos, estava grávida de mais ou menos uns 7 meses. Engraçado, mas ela me parecia meio deprimida e cansada. Comecei a puxar assunto:

- Hei moça, tudo bem com você? Parece-me meio abatida, está se sentindo mal?

- Não, tudo bem, obrigada é só um mal estar passageiro, daqui a pouco melhora.

- Mas você deveria passar na frente, tem preferência por estar grávida. – olha eu não sei dizer, mas senti que aquela menina não estava nada bem e precisava sim de ajuda. Ela estava relativamente pálida e olhando melhor pude notar pequenos hematomas em seus braços além de um mais acentuado na face que, apesar do óculos de sol estar tampando, dava a impressão de que ela fora agredida recentemente.

- Não precisa! – respondeu ríspida e resolvi não insistir mais.

Já fazia uns 10 min que estávamos na fila, quando de repente ouço vozes alteradas anunciando um assalto. Pronto, tava aí o motivo do meu intuito matinal.

- TODO MUNDO NO CHÃO SE NÃO QUISER LEVAR BALA!!!

-E NENHUM PIU, SE NÃO EU SENTO O DEDO NESSA PORRA!!!

Eram cinco homens encapuzados e fortemente armados, gritavam feitos loucos e ameaçaram passar fogo em todo mundo. Fiquei apavorada e fiz o que eles mandavam.

- PRO CANTO TODO MUNDO!!!

Enquanto dois nos rendiam, três deles limpavam os caixas.

O vigia do banco se moveu tentando fazer alguma comunicação via rádio, mas um dos assaltantes percebeu e atirou nele antes mesmo dele se mexer. Todos ficaram apavorados, inclusive a loirinha grávida que chorava e gritava muito. Um dos assaltantes chegou bem perto dela gritando, mandando ela se calar, mas de nada adiantou: ela estava em pânico.

- CALA BOCA VAGABUNDA OU A PRÓXIMA VAI SER VOCÊ!!!

Nesse momento vi que se eu não fizesse nada eles iam matá-la ali na minha frente. Cheguei perto dela, tentando acalmá-la, e a tomei em meus braços, sussurrando palavras de consolo.

- Calma, vai dar tudo certo, logo eles vão embora e vai ficar tudo bem, fica calma.

E assim prossegui com meu mantra tentando controlar o choro compulsivo daquela pequena garota.

Enfim começamos a ouvir sirenes de polícia e uma voz ao megafone ordenando que se rendessem, pois o prédio estava cercado. Quando achei que o pesadelo iria acabar, um dos bandidos tomou dos meus braços a pequena loira e seguiu com ela até uma porta de vidro que dava pra rua.

- SE ENTRAR ALGUÉM AQUI EU METO BALA NELA!!!

- OU VOCÊS ARRUMAM DOIS CARROS E SE AFASTAM OU MATO TODO MUNDO QUE TÁ AQUI DENTRO!!!

Fiquei apavorada e me levantei atrás do bandido, que me deu um baita de um empurrão. Naquela hora percebi que era melhor ficar quieta, pois estava em completa desvantagem. Senti uma dor terrível ao ver a loirinha na mão dos assaltantes, e se eu pudesse trocaria de lugar com ela.

- AI SEUS FROXOS OS GUARDA TÃO AI FORA, SE FICAR TODO MUNDO QUIETINHO NINGUÉM MORRE, MAS SE DER PALHAÇADA É BALA NA CABEÇA!!!

Depois de horas de negociação e liberação de alguns reféns, a polícia resolveu ceder, afinal, os caras não estavam pra brincadeira mesmo. Por fim ficamos só eu e a loira (puta que pariu, com tanta gente tinha que ser justo eu!!!!), a garota estava em estado de choque, não abriu a boca um minuto sequer.

- VAMO LEVANTANDO VADIAS QUE NOS VAMO DÁ UMA VOLTINHA.

- VOCÊ AI BOAZUDA DE BRANCO, LÁ PRA FORA E A LOIRINHA PRENHA VAI COM A GENTE.

Senti um frio na espinha e uma sensação de que não podia deixar aquela menina sozinha. Nessa hora me dei conta de que sou realmente louca.

Levantei apoiando a garota, que nessa altura do campeonato já não respondia a comando nenhum, e segui em frente como eles ordenaram. Quando chegamos na porta eles me mandaram correr pro lado da polícia, mas eu não fui e disse que ficaria ali com a loira. Entramos em um carro e arrancamos a toda velocidade, perseguidos, é claro, pelos policiais. Foi só nesse momento que a garota em meus braços pareceu despertar de seu transe, e se pôs a gritar.

- CALA A BOCA OU TE JOGO PRA FORA DO CARRO SUA VAGABUNDA!!!

E meteu-lhe um tapa na cara. Nessa hora, quem perdeu a boa fui eu e gritei:

- ESCUTA AQUI SEU ANIMAL, A GAROTA ESTÁ APAVORADA, NÓS JÁ ESTAMOS RENDIDAS, E AINDA ASSIM VOCÊ VEM COM AGRESSÃO?! ESCUTA BEM SE VOCÊ ENCOSTAR NELA DE NOVO QUEM TE JOGA PRA FORA DO CARRO SOU EU!!!

- Calma viu querida que vai acabar tudo bem.

Nesse instante a polícia começou a atirar nos pneus e os ladrões também atiravam. De repente senti uma dor aguda no braço e percebi que estava sangrando. Tudo aconteceu muito rápido. Várias outras balas voavam pelo ar e, logo em seguida, o carro capotou. Tentei como pude proteger a loirinha com meu corpo, mas meu braço doía muito e eu não tinha noção da gravidade do ferimento. Segundos depois, mas que me pareceram horas, o carro parou de rodar e todos nós estávamos muito machucados. O bandido caído ao meu lado estava desmaiado, e assim a polícia e o resgate chegaram.

- Calma minha senhora, agora vai ficar tudo bem – dizia um pára- médico enquanto imobilizava meu pescoço. Dei uma última olhada na loira e ela me sussurrou um "obrigada". Aquilo mexeu comigo de tal maneira que meus olhos marejaram e eu apenas segurei bem forte sua mão.

Parecia que o pesadelo havia acabado. Já estávamos na ambulância e pela dimensão do acidente os ferimentos eram leves. Apesar de meu ferimento no braço esquerdo, não estava sentindo tanta dor.

Chegamos ao hospital e cada uma seguiu uma direção. Comecei a me agitar e perguntar pela loirinha, que nem o nome eu sabia, mas logo senti minhas pálpebras pesarem e caí num sono profundo. Acordei moída, parecia que tinha sido atropelada por um caminhão. Não sabia ao certo onde eu estava e abri meus olhos bastante confusa, uma enfermeira sorridente veio até mim e se pôs a perguntar:

- Bom dia senhora! Sabe em que ano nós estamos?

- Claro que sim, estamos em 2007.

- Muito bem, se lembra do mês?

- Acho que estamos em janeiro, só não me lembro do dia, acho que é 26.

- Estamos em janeiro, mas o dia é 28.

- Há quanto tempo estou aqui?

- A senhora deu entrada ontem no início da noite.

- Fiquei todo esse tempo sedada?

- Creio que sim, a senhora passou por uma cirurgia delicada no braço esquerdo, mas já esta tudo bem.

Nesse instante lembrei da loira.

- Sabe me dizer se alguém foi internado junto comigo?

- Sim, uma garota. Vocês são parentes?

- Não, mas eu gostaria de saber de seu estado, será que é possível?

- Vou ver o que posso fazer, mas antes preciso checar seus sinais vitais.

Me examinou minuciosamente e deu seu parecer.

- Parece que está tudo bem. Se sentir dor é só apertar o botão ao lado e venho te ver.

Me apontou um grande e redondo botão vermelho bem ao lado da cama, li em seu crachá q se chamava Rose, agradeci a gentileza e ferrei no sono de novo.

Na manha seguinte já me sentia bem melhor e até me arrisquei a levantar. Tive sucesso e quando estava quase alcançando a porta, dei de cara com minha mãe entrando.

- Querida, mas o que foi acontecer com você meu Deus do céu! – ela falava nervosa e com lágrimas nos olhos.

- Já estou bem melhor mamãe, não se preocupe – disse tentando abraçá-la. Tranqüilizei-a, dizendo que já estava tudo bem.

Com minha mãe mais calma, voltei pra cama e começamos a conversar.

- Mas meu bem, como isso foi acontecer, quando ouvi na TV uma notícia de assalto em um banco no RS, meu coração gelou! Tive uma sensação horrível e comecei a ligar no seu celular e bip, mas ninguém atendia e aí eu quase morri – ela ia falando e gesticulando muito me deixando até tonta.

- É, foram momentos terríveis. Naquele dia acordei com um pressentimento ruim... Sabe aquela vontade de ficar em casa? Mas me levantei e fui trabalhar. Como lá no hospital correu tudo bem, nem estava me lembrando do tal pressentimento. Passei no banco pra fazer um depósito e pronto: tava feita a confusão.

- Ai, mas graças a Deus agora está tudo bem.

- Mas afinal, quando você chegou mãe?

- Ontem pela manhã, mas só pude te ver pelo vidro, os médicos disseram que você precisava descansar.

- É, mas agora o pesadelo já acabou. A senhora veio sozinha?

- Não, seu irmão veio comigo, está lá fora louco de vontade de te ver.

- Manda um beijo pra ele e diz que eu também tô morrendo de saudades.

Nesse momento um médico entrou no quarto.

- Bom dia! Como estão as mocinhas? – o ele parecia muito simpático. Mamãe pareceu adorá-lo: era um cinqüentão, mas ainda dava uma boa meia sola.

- Bom dia Dr. – respondemos juntas.

- Enfim te vejo acordada menina! Que bom que está se recuperando.

- Obrigada Dr...

- Henrique – ele disse.

- Dr. Henrique, mas foi o senhor que me operou?

- Foi sim, e garanto que você é forte como um touro. Qualquer um chegaria no mínimo inconsciente depois de um tiro de uma 38mm, mas você resistiu bravamente e só dormiu depois da sedação.

- Ah Dr. Mas essa menina sempre foi durona, desde pequena. Precisava ver, mesmo quando levava um baita tombo nem chorava. –

É pessoal, essa aí é minha querida mãe, mal conhece as pessoas e já começa a tecer comentários da minha infância!!!

- É acho que o Dr. já entendeu, né mãe?

- Bom, só passei aqui pra dar uma olhadinha em você, mas acho que está bem, só precisa descansar. Creio que já tenham falado muito por hora, não é? Então vamos conversar um pouco lá fora dona...

- Marta!

- Dona Marta, e deixar a Beatriz descansar.

Dona Marta, minha digníssima mãe, é uma coroa enxuta, tem 55 anos bem vividos e é muito legal, apesar da sua fase punk, quando descobriu que meu pai a estava traindo e sustentando vagabundas pelo mundo.

Capotei de novo e acordei com Rose (aquela enfermeira) verificando minha temperatura.

- Olá menina, que bom que acordou! Como está se sentindo? – me perguntou sorridente.

- Muito bem, acho que até já estou com fome!!

- Mas isso é muito bom, parece que adivinhou que está na hora do jantar.

Minutos depois estava lá, eu, uma apreciadora assídua de churrascos, com um enorme prato de uma sopa rala na minha frente. Maldita hora que reclamei de fome.

- Puxa Rose, não tem nem um pãozinho pra acompanhar não? – fiz cara de nojo.

- Não, não! Essa é a dieta passada pelo médico. – disse com um ar zombeteiro.

- Fazer o que né! – disse resignada

- Rose, por um caso você achou a tal mocinha de que te falei? – perguntei esperançosa.

- Ah achei sim, ela está no andar de baixo, e também está se recuperando bem, uma pena que tenha perdido o bebê.

Naquele instante senti como se uma lâmina estivesse trespassando meu peito, e senti vontade de chorar.

- Qual o nome dela? – perguntei triste.

- É Eleonora, mas é muito calada, não sei nada além daquilo que está no prontuário, e também não notei nenhum parente vindo visitá-la, acho que é sozinha no mundo, pobrezinha.

É por isso que eu adoro gente fofoqueira: você faz uma perguntinha e elas te dão a ficha completa!

- Será que eu posso vê-la? Estávamos no mesmo acidente e gostaria muito de falar com ela. – perguntei com a melhor cara de "cachorrinho que caiu da mudança em dia de chuva", que eu tinha.

- Hum, não sei se convém...

- Ah, por favor deixa vai! – olhar de gato de botas!!

- Tá bom vai. Mas se ela te der um coice a culpa não é minha.

- Beleza! – e lá estava eu indo, com aqueles aventais modelito "bundinha de fora", ao encontro da pequena que agora tinha um nome – Eleonora.

TOC TOC

Rose ia na frente abrindo caminho.

- Olá garota, tem visita pra você. – falou toda animada.

- Não quero visita nenhuma. – respondeu de maneira ríspida, sem se virar para a porta, mas eu tinha que arriscar, essa menina não saia da minha cabeça.

- Ahn, olá Eleonora, desculpe atrapalhar, mas é que eu queria saber como você estava. – perguntei receosa.

- Oh oi, desculpa é que eu achei que fosse o idiota do meu primo. – naquele instante me deparei com os olhos mais lindos que já vi em toda minha vida.

Continua...