Por Acaso a Felicidade

(Uma história de Rose Angel – março/2005)

 

Aí pessoal...

Olha eu aqui de novo... Mais uma vez escrevendo no estilo ALT/UBER.

Vale o velho lembrete de que esta história contém temas adultos expondo relações sexuais explícitas entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, onde você mora é proibido ler esse tipo de material ou for homofóbico, não continue a leitura. A escritora e a pessoa que mantém o website onde esse trabalho aparece não aceita responsabilidade legal pelo não cumprimento desse alerta.

Essa história tem as protagonistas inspiradas nas personagens de Xena e Gabrielle que são marca registrada da MCA/Universal e Renaissance. Elas são usadas aqui sem intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright.

Espero que gostem e desejo a todos uma boa Leitura!

Se quiserem enviar comentários acerca da história, críticas ou sugestões, trocar idéias sobre a série XWP ou simplesmente bater um papo meu e-mail é angelysr@terra.com.br

 

Por Acaso a Felicidade

 

 

 

Era início do mês de outubro de 1999 e a cidade de Santa Cruz do Sul se preparava para os festejos da Oktoberfest, festividade de origem germânica, trazida pelos imigrantes, e que conferia àquela região um encanto especial, atraindo visitantes das mais variadas localidades que vinham em busca de diversão e, obviamente, de um bom chopp. A cidade toda se preparava para a festa anual e as ruas ganhavam uma decoração que servia de pano de fundo para os desfiles dos carros alegóricos e das inúmeras bandinhas, grupos folclóricos e demais atrações da festa. Toda a cidade parecia sorrir feliz. Santa Cruz do Sul constitui-se em uma cidade de colonização alemã, onde os costumes, tradições e o folclore sempre foram mantidos pelos descendentes dos primeiros imigrantes, que desbravaram esta região do Vale do Rio Pardo, no centro do estado do Rio Grande do Sul.

Naquele ano de 1999 a cidade se apresentava como um mercado promissor para novos empreendimentos, quer pelo seu crescimento demográfico como pela economia em vias de expansão. Assim sendo várias empresas resolveram apostar naquele mercado, inclusive o Magazine Libanês, renomada loja de móveis e utilidades para o lar, cuja matriz em São Paulo procurava ramificar seus investimentos em outras regiões.

 

 

Já passava das dezenove horas quando Fernanda finalmente entrou na suíte que ocupava no Hotel Edelweiss, no centro da cidade. Definitivamente não se sentia bem. Sua cabeça pesava e uma sensação de náusea parecia fazer rodar o quarto à sua volta. Estirou-se na cama ampla, na esperança de que o mal estar fosse passageiro. No entanto, a cada minuto que passava sentia-se pior. Naquele momento desejou não estar só. Eram em situações como aquela que Fernanda sentia uma ponta de saudades do tempo em que ainda morava com seus pais. Mas ali estava ela, uma mulher independente, segura de si, sem nenhum compromisso com quem quer que fosse além dela própria. No auge dos seus 34 anos tinha conseguido a independência financeira e podia se dar ao requinte de morar naquela luxuosa suíte do Hotel Edelweiss.

Levantou-se e remexeu em sua bolsa à procura de um remédio para náuseas. Havia somente um pacotinho de sal de frutas, o qual ingeriu na esperança de melhorar aquela sensação horrorosa. Deitou-se novamente e após alguns minutos começou a sentir dores no ventre. Arrastou-se até o banheiro, sentindo o chão instável sob os pés.

Era domingo e Fernanda havia participado de um almoço de confraternização com os funcionários da loja que gerenciava, em comemoração aos aniversariantes do trimestre. Não havia bebido mais do que duas cervejas, no entanto sentia-se como se houvesse entornado um barril inteiro de wodka. Por certo comera algo que lhe fizera mal, embora não fizesse idéia do que fosse, talvez a esfirra de carne que comera na metade da manhã. Mal conseguiu chegar até o vaso sanitário, onde passou muito mal. Arrastou-se de volta para a cama e pegou o interfone:

- Portaria – disse uma voz cordial.

- Por favor, aqui é do 301, chame um táxi... preciso ir até o hospital... não me sinto bem...

- Pois não, senhorita Fernanda, imediatamente – respondeu o rapaz com a voz preocupada - Já estou subindo para ajuda-la.

- Está tudo bem, Otávio. Só estou com um pouco de mal estar... – respondeu Fernanda tentando amenizar sua situação – não se preocupe...

- Certo, certo, já estou chamando o táxi, senhorita.

- Obrigada.

 

Em menos de cinco minutos ouviu-se uma suave batida na porta do quarto 301:

- Senhorita Fernanda, o táxi já está aguardando lá embaixo. Posso ajuda-la a descer?

A porta se abriu e Fernanda respondeu:

- Muito obrigada, Otávio.

Fernanda nem havia trocado de roupa, estava com uma aparência péssima. Apoiou-se no jovem que lhe estendia a mão gentilmente e deixou-se conduzir até o veículo estacionado na porta do hotel. No táxi conseguiu contar a Otávio, embora sucintamente, o que sentia e este tentou tranqüiliza-la. Fazia seis meses que Fernanda residia no Hotel, desde que seu avô resolvera expandir os negócios da família e inaugurara uma filial do Magazine Libanês naquela cidade. Por questões de comodidade optou por instalar-se na confortável suíte 301 do Hotel Edelweiss, sendo que acabou por familiarizar-se com os funcionários do local. Fernanda tinha um temperamento extrovertido, porém era uma profissional bastante exigente. Seus subordinados acabavam desenvolvendo uma atitude de comprometimento e respeito por ela, uma vez que Fernanda sabia exatamente como dosar disciplina, dedicação e senso de justiça. Gerenciava o Magazine Libanês e seus funcionários tinham adoração por ela. Na verdade era quase que impossível conhecer aquela figura de porte elegante, pele morena e encantadores olhos azuis sem deixar-se cativar. Apesar disso, quando necessário, Fernanda era capaz de se impor em quaisquer situações e não admitia conviver ou trabalhar com pessoas nas quais não confiasse ou que tentavam tirar proveito de sua generosidade. Era uma mulher que exigia sempre transparência nas relações.

Otávio conduziu Fernanda pelo hall de entrada do Hospital, que se localizava nos fundos da Catedral, fazendo com que se sentasse enquanto se dirigia até a recepção. Ela mal conseguiu se lembrar de como entrou no Hospital, tamanha sua indisposição. Ainda na recepção tinha vaga lembrança de haver sido amparada por pessoas de uniforme branco, no momento em que se sentiu desfalecer.

 

Fernanda começou a ouvir vozes longínquas, porém permanecia com os olhos fechados. A sensação de dor e náuseas que sentia havia passado e uma agradável sonolência lhe impedia de abrir os olhos. Tentou lembrar-se do que havia acontecido, porém vagas imagens apareciam em sua mente, como flashes num filme antigo. Gradualmente porém, conseguiu recordar-se do que havia ocorrido. Lembrou-se que, ao entrar no Hospital, logo após chegar ao balcão da recepção sentiu o chão rodar e uma sensação de desmaio apagou todos os seus sentidos até aquele momento. Por certo foi Otávio quem forneceu seus dados na recepção. Ouvia um murmúrio de vozes ao fundo:

- Paciente apresentando sintomatologia compatível com quadro de intoxicação alimentar. A febre cedeu um pouco, mas ela permanecerá baixada, em observação. Aqui está a prescrição da medicação. Uma boa noite enfermeira.

- Boa noite, doutora. – respondeu uma voz melodiosa que fez com que Fernanda tentasse adivinhar quais lábios haviam pronunciado aquelas palavras.

Neste momento Fernanda sentiu um toque suave, de mãos quentes, em seu braço. Abriu os olhos e contemplou o mais belo par de olhos verdes que os seus já haviam visto.

- E então?... É caso perdido ou não?... – balbuciou sorrindo em voz baixa, ainda sob efeito de sedativos.

Aquela figura angelical retribuiu-lhe o sorriso e respondeu bem humorada:

- Depende... se tinha algum compromisso para hoje é caso perdido, caso contrário ainda resta uma esperança.

- Graças a Deus! – respondeu Fernanda, observando melhor aquela figura que lhe ministrava uma medicação pelo abocat colocado em sua mão.

Observou o quanto era graciosa aquela figura e questionou:

- Esse anjo da guarda tem nome?

- Valquíria.

- Amazona de Odin...

Valquíria levantou os olhos encarando Fernanda:

- A senhora conhece...

- Mitologia nórdica?... Com certeza. Mas "senhora" está no céu, me chame pelo nome.

- E qual é?

- Fernanda, se é que você já não bisbilhotou na minha ficha.

Valquíria sorriu e respondeu:

- Belo nome para uma moribunda...

- Que animador!

Fez-se um silêncio enquanto Valquíria verificava os sinais vitais de Fernanda. Fez algumas anotações num formulário e continuou:

- A senhora, digo, você vai passar a noite aqui conosco.

- Como assim? Eu vou para casa, quero dizer, para o hotel, amanhã é dia de trabalho...

Valquíria aproximou-se do leito e colocou sua mão na testa de Fernanda.

- A doutora que te atendeu não te deu alta, amanhã de manhã ela passa aqui pra conversar contigo. Olha, fica tranqüila, esta noite eu estou de plantão nesta unidade, qualquer coisa é só chamar, certo?

Fernanda sentiu o toque afetuoso daquela mulher em sua testa e nem pensou em contra argumentar. Na verdade tinha consciência de que estaria melhor ali. Além disso, estava gostando da idéia de ser cuidada por aquele anjo da guarda. Valquíria apagou a luz do quarto e saiu. Fernanda olhou em volta e a luz indireta do corredor permitiu que vislumbrasse em meio à penumbra um quarto decorado com um crucifixo sobre a cabeceira da cama e um quadro retratando flores na parede ao lado da porta. Havia apenas a sua cama e um armário embutido, além de um pequeno sofá e uma cadeira estofada num canto. Fernanda sentia-se bem melhor e adormeceu profundamente.

Na madrugada Valquíria adentrou no quarto e acendeu a luz de cabeceira para ministrar a medicação de Fernanda e verificar novamente seus sinais vitais. Percebeu que ela dormia profundamente e antes de toca-la parou ao lado da cama e se pôs a observar melhor aquela mulher que parecia entender bastante de mitologia. Os cabelos negros emolduravam o rosto anguloso. A boca simétrica tinha um contorno sensual e apesar da aparência abatida era a imagem de uma bela mulher, quase uma deusa, uma deusa grega, pensou Valquíria. Tais pensamentos a reportaram há anos atrás, quando ainda morava no orfanato, e olhara para uma colega com a mesma perspectiva com a qual analisava Fernanda naquele momento. Lembrou-se da atração que sentiu e dos contratempos gerados por aquela situação. Tratou de afastar aqueles pensamentos, pois lhe traziam lembranças desagradáveis.

Verificou a temperatura de Fernanda e sua pressão arterial, com muita delicadeza, tentando não despertar a bela adormecida de seu sono reparador. No entanto Fernanda entreabriu os olhos e deparou-se com Valquíria a fitá-la.

- E então, se sente melhor?

- Sim, bem melhor. Aquela sensação de náusea passou. Só tenho sono.

- A sonolência é por causa da medicação.

- Você poderia me alcançar um pouco de água?

- Claro. – respondeu Valquíria servindo um pouco de água num copo.

Valquíria levantou um pouco a cabaceira da cama e, suavemente, ajeitou o travesseiro nas costas de Fernanda para que a mesma ficasse numa posição confortável. Levou o copo com água até os lábios de Fernanda e esta ingeriu alguns goles.

- Que bom que as paredes pararam de se mexer... – brincou Fernanda.

- Pois é.

- Você deve estar pensando que eu tomei todas ontem, não é mesmo?

- De forma alguma, não costumo bisbilhotar a vida dos pacientes. – respondeu Valquíria cordialmente.

- Muito ético.

Valquíria sorriu.

- Mas o pior é que eu não bebi, antes tivesse enchido a cara!

As duas sorriram. Valquíria arrumou sua bandeja de materiais, baixou a cama de Fernanda, ajeitou novamente o travesseiro e preparou-se para sair.

- Você já vai?

- Já. Precisa de mais alguma coisa?

- Companhia. Você me acordou e perdi o sono. E quando perco o sono gosto de jogar canastra. – brincou Fernanda.

- Então vamos combinar assim: depois que eu atender a todos os outros pacientes, e caso tu consigas um baralho, eu volto para uma partidinha. – respondeu Valquíria sorrindo e franzindo o nariz encantadoramente.

Fernanda não pôde deixar de notar o quanto aquela mulher de uniforme branco era bela. Tinha por certo o mais belo sorriso que já vira.

- Você acha que na bodega aqui ao lado eles venderiam um baralho para uma mulher com um avental de bundinha de fora e arrastando um suporte de soro? – perguntou Fernanda fingindo seriedade.

- Acho difícil...

- Então vou tentar dormir e adiamos nosso joguinho para outro dia.

- Combinado. Se precisar de alguma coisa é só chamar, certo?

- Certo.

Valquíria apagou a luz de cabeceira e já estava saindo do quarto quando Fernanda chamou:

- Valquíria.

- Sim?

- Obrigada.

- Obrigada por que?

- Por tudo...

- Esse "tudo" é minha obrigação.

- Não... atender quem não está bem com dedicação e paciência é mais do que obrigação, é uma questão de postura.

Valquíria sorriu com meiguice e fechou a porta atrás de si. Fernanda fechou os olhos e não teve dificuldades em adormecer. Sonhou com uma cavalgada por entre as nuvens, onde uma amazona de Odin lhe acenava do alto de um cavalo branco.

 

Na manhã de segunda-feira, bem cedo, Fernanda despertou com a claridade que prenunciava os primeiros raios de sol, como fazia habitualmente. Por um momento teve o ímpeto de levantar-se, tomar seu banho e sair para a caminhada que fazia todas as manhãs, antes dos 50 minutos na academia. Porém logo se deu conta de onde estava e aquietou-se, aguardando pacienciosamente na esperança de que Valquíria fizesse a ronda em seu quarto. Não demorou muito para a porta do quarto se abrir.

- Que paciente comportada! Dormiu a noite toda. – disse Valquíria.

- Mas estou quase fazendo xixi na cama. Posso levantar e ir até o banheiro?

- Claro que pode. Vem, eu te ajudo.

Valquíria desconectou o equipo do soro, pois o mesmo estava quase terminando e ajudou Fernanda a levantar-se. Esta última ficou um pouco tonta e segurou-se no braço de Valquíria.

- Fica um pouco sentadinha que já passa essa tontura. – disse Valquíria segurando-a pelos ombros, com firmeza.

Logo Fernanda sentiu-se melhor.

- Tudo bem, agora acho que já consigo andar sem me estatelar no chão.

- Então vamos.

Valquíria percebeu que Fernanda já estava bem e deixou que entrasse sozinha no banheiro cuja porta ficava do lado esquerdo da porta de entrada do quarto. Aquela ala era a dos convênios e todos os quartos daquele andar eram pequenas suítes, simples mas bem equipadas.

- Não precisa fechar a porta. Se te sentires tonta me chama.

- Eu tô legal.

Ao retornar Fernanda disse:

- Não deviam colocar espelhos em banheiros de hospital. A gente fica com uma aparência péssima!

- Não exagera, tu não estás tão mal assim.

- Ótima enfermeira, mas péssima mentirosa. Eu tô sem um pente aqui, nem escova de dente eu tenho! Preciso voltar para o hotel.

- Daqui a pouco a Drª Maristela vem te ver e aí a senhorita dirá isso a ela... – respondeu Valquíria imaginando que Fernanda não teria alta naquele dia.

Mal havia acabado de dizer aquilo e a médica entrou no quarto, para revisar a paciente.

- Bom dia.

- Bom dia – respondeu Fernanda.

- Como está te sentindo?

- Melhor, bem melhor, pronta para voltar para o trabalho.

A médica sorriu e pegou a planilha da paciente para ver como havia passado a noite.

- É, o quadro está estável. Mas eu quero que permaneça ainda dois ou três dias em observação.

- O quê??? DOIS OU TRÊS dias?

- Sim. A informação que obtivemos é que tu moras no hotel, certo?

- É, moro.

- Não há uma pessoa que poderia ficar te cuidando, uma dieta adequada. Com certeza é um quadro de intoxicação alimentar e exige cuidados nessas primeiras horas.

- Mas eu tenho os meus compromissos profissionais.

- Encare como umas férias forçadas. Fique boa logo e logo retornará ao trabalho.

Fernanda percebeu pelo tom de voz da médica que não haveria possibilidade de negociação. Estava fadada a permanecer ali por mais um tempo. Olhou para Valquíria que as observava dos pés da cama e disse:

- Parece que você vai ter que conseguir um baralho, enfermeira.

Ambas sorriram, somente Drª Maristela não entendeu a piada. Despediu-se de Fernanda e saiu do quarto. Valquíria aproximou-se da cama e disse:

- Bom, eu também estou indo.

- Você volta à noite?

- Não, volto hoje à tarde. Meus plantões são os da tarde, essa noite fiz plantão extra. Parece que tu não vai te livrar de mim tão cedo.

- Bom, pelo prognóstico da doutora parece que ainda nos veremos um tempinho nessa situação.

- É, parece. – sorriu Valquíria – Cuide-se.

- Pode deixar.

Valquíria saiu do quarto deixando Fernanda perdida em seus pensamentos: "Bom, tudo tem um lado bom... ficando aqui mais dois dias vejo essa menina novamente...", e sorriu.

 

Valquíria foi direto para casa, tomou um banho, deitou-se e dormiu profundamente. Não chegou a buscar Nina na casa da vizinha, pois precisava dormir um pouco antes de voltar para o hospital. Nas ocasiões em que fazia plantão extra era Dona Eda quem levava Nina para a escola.

Fernanda passou a manhã bem e na passagem do plantão da tarde Valquíria foi até seu quarto para ver como estava.

- Eu me comportei direitinho. Não tentei fugir, comi uma gororoba horrorosa que me serviram sem reclamar e até já penteei o cabelo!

- Muito bem, a senhorita está de parabéns! – respondeu Valquíria.

- Eu liguei para o hotel e eles mandaram alguns pertences pessoais, e uma muda de roupas para quando eu tiver alta. E olha que eu estou até me acostumando com esse modelito sensual... – disse Fernanda em tom de brincadeira, referindo-se ao avental que todos os pacientes usavam.

Valquíria não pôde deixar de rir, pois realmente era estranho usar aquele traje com abertura nas costas. Mas mesmo assim Fernanda continuava bela. Valquíria não resistiu e fez o que muito raramente costumava fazer, uma pergunta pessoal para os pacientes que atendia:

- Tu moras no Hotel?

- Moro.

- Há quanto tempo?

- Desde que cheguei na cidade, seis meses.

- É estranho morar em hotel, não é?

- Já me acostumei. Meu ritmo de vida é muito corrido, não teria tempo para os cuidados que uma casa requer.

- Mas... e a tua família?

- São Paulo. São todos de lá.

Valquíria se deu conta que estava sendo muito invasiva e desconversou, sentindo-se constrangida. Pegou sua bandeja e dirigiu-se para a porta. Antes que pudesse sair foi Fernanda quem disparou:

- E você? É daqui mesmo?

- Sou.

E antes que Fernanda pudesse formular outra pergunta Valquíria sorriu amavelmente e pediu licença para se retirar:

- Tu já sabes, se precisar é só tocar a campainha.

- Eu sei.

 

Durante a tarde Valquíria entrou duas vezes no quarto de Fernanda, uma a pedido desta, outra para os procedimentos de praxe. Fernanda percebeu que aquele setor estava bastante movimentado naquela tarde. Soube que faltaram dois funcionários e os que estavam de plantão mal davam conta dos afazeres. Naquele final de tarde Valquíria não chegou a se despedir de Fernanda antes de sair, tamanha a correria. No início da noite Fernanda perguntou por ela e foi informada de que já havia saído. Uma ponta de tristeza invadiu aqueles olhos azuis. "Custava ter dado um tchauzinho?", pensou. Passou bem durante a noite e pela manhã sentia-se muito melhor. Ficou feliz quando Drª Maristela lhe disse que ficaria só mais um dia no hospital e que na manhã seguinte, se o quadro permanecesse como o apresentado até então, iria receber alta. Frente à perspectiva de retomar sua rotina percebeu-se pensando em Valquíria. O fato de provavelmente não voltar a vê-la deixou Fernanda com um sentimento de peso. No entanto, logo em seguida sorriu, pois se deu conta que Santa Cruz do Sul não chega a ser uma metrópole, portanto não seria tão inviável encontra-la casualmente na rua. Ainda mais que sabia dos seus horários de chegada e saída do hospital. "Mas o que é isso, Fernanda, perdeu a noção das coisas?", pensou consigo mesma, "essa garota tem a vida dela, e eu a minha, e ponto final". Ainda perdida nesses devaneios Fernanda escutou uma voz conhecida logo atrás dela:

- Oi, soube que esta paciente esteve tão comportada que provavelmente terá alta amanhã.

Fernanda virou-se e percebeu aquela figura conhecida sorrindo amigavelmente para ela.

- Pois é...

- Fico feliz que esteja bem.

- Acho que vou sentir falta desse paparico, ein?

Valquíria sorriu timidamente, baixando os olhos.

- Vamos verificar essa temperatura e pressão arterial?

- Aposto que estou melhor que você!

- Não duvido. Sua carinha está muito melhor hoje.

Valquíria fez algumas anotações na planilha médica e preparava-se para sair.

- Hoje você passará aqui antes de sair? Gostaria de me despedir, pois amanhã à tarde provavelmente não estarei aqui.

Valquíria fitou Fernanda nos olhos e esta sustentou o olhar. A primeira sorriu afetuosamente e respondeu:

- Passo sim. Ontem não passei porque o dia realmente foi muito estressante, e eu tinha um compromisso importante.

- Está perdoada. – respondeu Fernanda controlando sua vontade de perguntar qual compromisso seria.

Valquíria saiu do quarto e Fernanda perdeu-se novamente em seus pensamentos: "deve ter saído com algum namorado...", "aliança ela não usa...", "mas e eu com isso!". Fernanda ligou para o Hotel e falou com Otávio pedindo-lhe um favor. Não havia passado ainda duas horas e o rapaz chegou até o Hospital portando uma encomenda para Fernanda. Foi até o quarto e esta lhe agradeceu o favor prestado.

- Fico te devendo essa, Otávio.

- Que é isso dona Fernanda, a senhora não me deve nada não. Até amanhã.

 

No final da tarde, conforme o prometido Valquíria passou no quarto 209 para se despedir de Fernanda. Sentia um misto de felicidade pelo restabelecimento dela e uma ponta de angustia por não mais encontrar aqueles olhos azuis expressivos, sempre dispostos, e aquele bom humor habitual difícil de ser encontrado, principalmente num ambiente como aquele.

- Promessa é dívida! Aqui estou para te dar tchau. Fico feliz que esteja bem.

- Aposto que vai sentir saudade... – disse fitando Valquíria diretamente nos olhos, deixando-a um pouco desconcertada e emendando logo em seguida – afinal não é sempre que deve aparecer uma paciente exemplar e comportada como eu.

- É verdade. Vou sentir falta sim.

- Mas a cidade é pequena, a gente se topa por ai qualquer hora dessas. Olha só, eu queria te dar um presentinho, por favor não repare. – disse Fernanda estendendo um vaso com violetas azuis.

- Não precisava... mas são lindas. Muito obrigada.

Valquíria não pôde deixar de reparar que o azul das flores era da mesma tonalidade que o azul dos olhos de Fernanda. Sorriu feliz.

- Se você quiser, qualquer hora dessas, conhecer a loja que eu gerencio, apareça lá. É o Magazine Libanês.

- Já passei pela frente inúmeras vezes, mas nunca entrei. É uma loja muito sofisticada para o meu poder aquisitivo.

- Mas passa lá pra gente tomar um cafezinho... quando não tiveres nenhum compromisso no final de tarde... – disse Fernanda na esperança de descobrir onde Valquíria estivera ontem.

- Quando der eu passo sim. Se não tiver nenhuma apresentação de flauta doce para assistir... – respondeu saindo do quarto e deixando Fernanda curiosa com a resposta.

Fernanda sorriu e pensou: "hummm... amante da música..." .

Valquíria caminhava pelo longo corredor do Hospital com seu vaso de violetas. "Elas ficarão lindas na janela da cozinha", pensava, "Nina vai gostar".

 

Conforme o esperado na manhã seguinte Fernanda teve alta e retornou para suas atividades normais já na tarde daquela quinta-feira. As duas semanas que se seguiram foram bastante tumultuadas, exigindo a dedicação exclusiva de Fernanda na loja. Valquíria não havia cumprido ainda a sua promessa de passar na loja para tomar um cafezinho. Não foram raras as vezes em que Fernanda pensava nela. Fazia algum tempo que não direcionava suas idéias para mulher nenhuma. Nos últimos quatro anos não havia tido nada mais do que flertes, casinhos passageiros sem nenhum tipo de compromisso nas entrelinhas, isso ainda em São Paulo. Desde que chegou a Santa Cruz do Sul nem isso. A inauguração e o gerenciamento daquela nova filial estavam consumindo todo seu tempo disponível. No entanto, desde que conheceu Valquíria, esse seu lado passional começou a aflorar novamente. As vezes sentia vontade de revê-la. No dia em que precisou comparecer ao Hospital para consultar com a Drª Maristela, para uma revisão, marcou propositalmente para o turno da tarde. Para sua decepção porém, ao passar no setor de Valquíria, informaram que ela estava de folga.

 

Quando Valquíria assumiu seu plantão na tarde daquela quinta-feira e entrou no quarto 209 não era o belo par de olhos azuis, com os quais já havia se acostumado, embora há tão pouco tempo, que lhe sorriu. A nova paciente era uma senhora de mais de oitenta anos a qual Valquíria recepcionou com a simpatia e a meiguice que lhe eram habituais. Nos dias que se seguiram também se surpreendeu em vários momentos com o pensamento direcionado para aquela figura morena e imponente com a qual havia convivido profissionalmente por tão pouco tempo, mas que lhe despertava desejos que não ousava admitir para si mesma. Nessas ocasiões lhe afloravam recordações amargas de tempos passados...

 

O domingo, dia 24 de outubro, amanheceu ensolarado. Como de costume Fernanda acordou cedo e saiu para caminhar. Andou por mais de duas horas, retornou ao hotel, tomou um banho e logo depois o seu café da manhã. Havia dito a si mesma que naquele dia não pensaria em trabalho. Precisava descansar. Por volta de dez horas da manhã resolveu sair novamente, desta vez para passear. A cidade estava em plena Oktoberfest e Fernanda resolveu borboletear pela praça central.

Logo em frente à Catedral de estilo gótico, com suas duas torres como que perfurando o firmamento e direcionadas ao infinito, descortinava-se a paisagem da praça central, com seu lago e chafariz ao centro e toda arborizada ao redor. No final uma pracinha com brinquedos para a criançada, ao lado dos sanitários. Vários bancos de madeira e de pedra circundavam a praça e encontravam-se posicionados estrategicamente sob a sombra das árvores, a fim de proporcionar aos freqüentadores do local uma opção de descanso enquanto observavam a alegre movimentação do local e da rua principal. A praça estava bastante movimentada, muitos ônibus repletos de turistas aportaram na cidade para desfrutar dos festejos da festa do chopp. Fernanda caminhava vagarosamente ao lado do chafariz quando avistou uma figura conhecida sentada na sombra de uma árvore e lendo um livro distraidamente. Reconheceria aquele perfil onde quer que fosse e sentiu seu coração disparar um pouco. Valquíria estava absorta em sua leitura e nem percebeu a aproximação de Fernanda. Somente quando esta última parou à sua frente e lhe cumprimentou é que levantou os olhos.

- Bom dia meu anjo da guarda.

Valquíria abriu um de seus sorrisos mais cativantes e respondeu:

- Ótimo dia agora! É bom revê-la, e tão bem disposta.

- Posso sentar?

- Claro! – respondeu Valquíria chegando mais para o canto do banco. – Passeando um pouco?

- É. Fiz um propósito de tirar o dia de folga. Folga mesmo! Sem nem sequer lembrar que a loja existe. Aliás, fiquei esperando a sua visita para um cafezinho.

- Pois é... não deu ainda. Também ando numa correria neste fim de ano.

- Família?... – bisbilhotou Fernanda.

- É...

Neste momento uma vozinha gritou ao longe, e fez com que Valquíria se virasse para responder:

- POSSO TIRAR O TÊNIS?...

- NÃO...

Fernanda virou-se também e avistou uma figurinha aparentando 4 ou 5 anos de idade, cabelos castanho claros com alguns reflexos dourados, cacheados, que lhe caíam sobre os ombros quase até a cintura, pele clara e olhar maroto. Insatisfeita com a resposta a menina correu até elas e argumentou:

- Mas eu tô com calor no pé!

- Mas, descalça tu pode machucar os pés. Tem muita pedra em volta, e os cachorros fazem as necessidades no chão. Tu bem sabes...

Nesse momento a menina olhou para Fernanda e sorriu de orelha a orelha:

- Ooooi!!!

- Olá! – respondeu Fernanda observando o quanto era belo o sorriso e o olhar daquela menina. Tinha olhos castanhos, e seus cílios eram escuros, longos e curvos, emoldurando aquelas pequenas janelinhas de ver o mundo. Algumas sardas pontilhavam seu nariz pequeno e arrebitado.

Valquíria tratou de fazer as apresentações:

- Fernanda, esta é a Nina. Nina, Fernanda, uma... amiga minha.

- Muito prazer, Fernanda, como tu é bonita!

Fernanda não pôde deixar de sorrir da espontaneidade de Nina:

- Bondade tua. Você é que é linda. – respondeu colocando o dedo na ponta do nariz suado da criança.

- Já que eu não posso tirar o tênis vou voltar para o balanço. – disse Nina já se preparando para sair correndo.

- Peraí mocinha... vem cá prender esse cabelo.

Nina ficou de costas para Valquíria que puxou o cabelo da menina num rabo-de-cavalo, prendendo-o com um elástico colorido que tinha ao redor do pulso.

- Pronto, pode ir.

Nina disparou igual um raio, subindo no balanço com a rapidez e a agilidade que somente os primeiros anos da infância nos conferem. Fez-se um pequeno silêncio, quebrado por Fernanda:

- É sua filha?

- É... não... quero dizer, é sim.

- Como assim? – quis saber Fernanda.

- Hoje eu sou a mãe dela. Desde que a mãe biológica dela morreu eu fiquei com ela.

- E faz tempo?

- Quase dois anos.

- Deve ter sido uma barra pesada para ela...

- Se foi! Mas ela é uma criança bem resolvida, e feliz.

- E... e o pai dela?... quero dizer... o seu... marido?

Valquíria sorriu divertindo-se com o gaguejar de Fernanda.

- Eu não sou casada.

- Mas deve ter namorado...

- Não tenho não, somos só Nina e eu mesmo. E a Pipoca.

- Pipoca?

- É. Nossa cachorrinha, o xodó da Nina.

- Ai, desculpe pelo interrogatório, não quis ser invasiva, foi só curiosidade, desculpe.

- Tudo bem. Mas e tu?

- Bom, eu estou morando no hotel, como você já sabe, e é o melhor para mim, pelo menos por enquanto. E vivo só. Eu e Deus.

- E como vai a tua saúde? Te recuperaste bem mesmo?

- Sim. Voltei para uma revisão e fui dada como nova em folha pela Drª Maristela!

- Eu fiquei sabendo.

- Como? – questionou Fernanda.

Desta vez foi Valquíria quem gaguejou:

- É... é que... que me disseram que havias me procurado.

- Verdade. Passei no teu setor para te dar um oizinho.

- Eu estava de folga.

- E hoje, também está?

- Estou. Mas não se consegue ficar em casa num domingo ensolarado com uma criança pequena... – respondeu sorrindo.

- Olha só... vocês não gostariam de almoçar comigo?

- Não quero incomodar...

- Mas não é incômodo algum, muito pelo contrário, me daria uma grande satisfação.

Valquíria baixou os olhos e sorriu timidamente.

- Tudo bem. Acho que a Nina vai adorar, ela está sempre pronta para um programa diferente na sua rotina. Até aula de flauta ela faz!

- O conserto de flauta doce... – disse Fernanda pensativa, mais para si mesma do que para sua interlocutora.

- Como?...

- Nada, nada não. E onde as senhoritas gostariam de almoçar?

- Qualquer lugar, tu escolhe.

- Dia desses eu almocei naquele restaurante lá no Parque da Gruta dos Índios, conhece?

- Conheço. É bom mesmo.

Nesse momento Nina chega até elas novamente, correndo esbaforida com uma bola de futebol na mão, a qual havia deixado até então ao lado dos balanços.

- Devagar, menina, não precisa levantar poeira.

Nina gargalhou e sentou-se, enfiando-se entre elas, colocando a bola no colo.

- Você gostaria de almoçar comigo hoje? – perguntou Fernanda para a pequena.

Os olhinhos de Nina brilharam, porém antes de responder olhou para Valquíria como que pedindo uma autorização para aceitar o convite. Valquíria assentiu sorrindo e Nina respondeu:

- Adoraria!!!

- Então acho que mereço um beijinho e um abraço, não mereço? – disse Fernanda.

- Fernanda, essa menina está toda suada, olha só a sujeira da roupa...

Antes porém que Valquíria terminasse a frase Nina havia se jogado nos braços de Fernanda, envolvendo-a pelo pescoço e sapecando-lhe um beijo estalado na face. Fernanda colocou a pequena em seu colo e perguntou:

- E essa bola aí? É só enfeite ou você sabe jogar alguma coisa.

- Eu jogo futebol na escola. Sou centroavante! Mas final de semana não tenho com quem treinar... – respondeu fazendo uma careta de deboche e reprovação para Valquíria.

- Nossa, que problemão!!! Mas isso a gente resolve fácil. – respondeu Fernanda colocando Nina no chão e pegando a bola que estava no banco – hoje eu treino contigo, campeã.

As duas saíram correndo atrás da bola chutada por Fernanda, ante o olhar perplexo de Valquíria. Passado o choque inicial Valquíria não conseguiu deixar de se divertir com a cena. Fernanda era uma mulher muito alta e Nina um toquinho de gente. Apesar de já contar cinco anos de idade era magra e miudinha. As duas trocavam passes e quando tentavam driblar e tirar a bola uma da outra Fernanda precisava cuidar para não atropelar Nina, ou pisar nela. Era engraçado ver aquela cena, pensava Valquíria, afinal Fernanda era uma mulher de fino trato, uma gerente de loja. E naquele momento parecia que as duas tinham a mesma idade. Reparou que Fernanda vestia um abrigo em tom azulado com listas laterais coloridas, justo, que deixava transparecer os contornos de suas pernas longas e bem malhadas. Usava uma camiseta branca, também justa e tinha os cabelos presos num coque. Naquela altura, porém, o coque já havia se desfeito e os cabelos pendiam soltos na testa agora molhada de suor. Nina também estava com os cabelos desgrenhados e suados. Valquíria havia fechado o livro que estava lendo e o colocou em sua sacola, uma vez que havia perdido totalmente o interesse pela leitura, pelo menos naquela manhã. Quando Fernanda e Nina resolveram voltar para junto dela sentaram-se lado a lado, encharcadas de suor e ofegantes devido ao esforço físico.

- Preciso beber alguma coisa... – disse Fernanda com a respiração entrecortada.

- Eu também. – disse Nina.

Valquíria sorriu e disse:

- Descansem um pouco madames, eu vou buscar uma água mineral para as duas. – e levantou-se caminhando em direção ao bar do quiosque central.

- Sem gás! – gritou Fernanda.

Em menos de cinco minutos Valquíria retornou com duas garrafas de água e quatro canudinhos.

- Essa perna de pau tem muito o que aprender comigo – provocou Fernanda em tom de brincadeira.

- É, mas eu corro muito mais! – respondeu Nina sorridente – E canso menos!

- Tá bom... mas no drible eu sou melhor.

- Mas eu aprendo rápido.

- É garota, com esse pique teremos uma futura jogadora da seleção feminina de futebol das olimpíadas de 2012. – disse Fernanda.

Nina sorriu contente e assentiu com a cabeça. Elas pegaram a água e sorveram avidamente.

- Se pretendemos realmente almoçar juntas quem sabe eu levo essa moleca para casa, ela precisa de um banho... – disse Valquíria.

- Eu não sou a única... – respondeu Nina debochadamente.

- É verdade! – assentiu Fernanda – Vamos fazer o seguinte: eu vou para o hotel, me arrumo e pego vocês em casa ao meio dia, pode ser?

- Pode!!! – respondeu Nina.

- Nina, eu acho que a pergunta foi pra mim... – disse Valquíria em tom de reprovação.

- Desculpa então.

- Tudo bem, senhorita afoita. Pode ser sim, Fernanda.

- Aonde é que vocês moram?

- É aqui pertinho, umas seis quadras. Indo aqui pela rua principal, depois do quiosque, é a quarta rua à esquerda. Aquela da sorveteria na esquina.

- Sei. – respondeu Fernanda.

- É no número 921. Quer anotar?

- Não precisa. Minha memória é muito boa. Bem melhor que a minha capacidade de correr... – disse Fernanda cutucando Nina no braço.

A menina deu uma gargalhada e abraçou Fernanda, enlaçando-a pelo pescoço e pendurando-se nela igual um sagüi.

- Nina... – disse Valquíria – tu tá toda suada... não incomoda a Fernanda.

- Deixa ela – respondeu Fernanda retribuindo o abraço apertado – eu estou mais suada do que ela...

Valquíria sorriu e pegou a menina pela mão. Despediu-se de Fernanda:

- Então, até daqui a pouco.

- Até. – respondeu Fernanda.

- Tchau Fernanda! Eu vou ficar te esperando, tá? – disse Nina efusivamente colocando sua bola em baixo do braço. – Não demora!

- Tá. – sorriu Fernanda – Eu não demoro não, campeã.

 

Fernanda ainda observou Valquíria e Nina caminhando de mãos dadas rua abaixo. Nina ia saltitante e quase na esquina ela se virou, soltou a mão de Valquíria e acenou para ela, que retribuiu o aceno. Fernanda levantou-se e caminhou até o Hotel Edelweiss. Estava feliz por haver reencontrado Valquíria. Também havia simpatizado muito com Nina. Talvez pelo fato da personalidade da menina lembrar a dela própria naquela idade. Tratou de tomar um banho, colocar uma bermuda e uma camiseta, calçar um par de tênis e pegar o carro na garagem do hotel. Pontualmente as doze horas buzinou em frente ao número 921 e viu uma figura diminuta, branca e quadrúpede disparar em sua direção vinda de dentro da casa. Era pipoca que latia dando sinal de que havia gente chegando em casa.

Fernanda observou que se tratava de uma construção antiga, uma casa geminada cuja parede da frente se localizava exatamente na divisa entre o terreno e a rua, sem nenhum espaço de pátio frontal. Havia somente duas janelas estreitas com venezianas de madeira que davam para a rua. Ao lado um corredor também estreito levava a uma porta de acesso lateral, que vinha a ser a entrada principal da casa. Por esse corredor era possível ver que nos fundos do terreno havia um pequeno pátio com algumas árvores, e muitas folhagens pendiam naquela restrita viela que levava aos fundos da casa.

Com os latidos de Pipoca anunciando sua chegada Fernanda viu o rostinho de Nina espiando na janela da frente e acenando para ela:

- A gente já tá indo!

Fernanda acenou de dentro do carro num sinal de que havia entendido e que aguardaria por elas. Em menos de dois minutos a porta lateral se abriu e Nina assoviou para Pipoca, que já havia acabado de latir e àquela altura do campeonato sacudia o rabo efusivamente na direção do carro como que para dar as boas vindas à Fernanda. A cachorrinha correu na direção de Nina que a colocou para dentro de casa fechando a porta. Após correu na direção do portão. Vestia um macacão curto, estilo jardineira, de jeans alaranjado e um top branco com detalhes em laranja nas mangas por baixo. Calçava um par de tênis brancos, e uma meia soquete cor de laranja. O cabelo fora lavado e estava solto sobre os ombros, ainda molhado. Uma travessa branca com florzinhas amarelas segurava-lhe o cabelo para que não caísse em seus olhos. Estava de fato uma gracinha. Fernanda saiu do carro, um gol com o logotipo da firma que gerenciava discretamente estampado na lateral do veículo, e abriu os braços para Nina que pulou em seu colo beijando-lhe as faces.

- A Val já vem. Ela demora pra se arrumar... nunca vi tão enrolada! Parece uma dondóca.

Fernanda não pode deixar de rir.

- Mas em compensação a senhorita é rapidinha.

- Alguém tem que ser rápida nessa casa, né?

- Tá certo! Mas a "dona rapidinha" está muito bonita, huuummm e perfumada.

- Eu tomei banho!

- Eu também.

- Quando é que a gente vai jogar futebol de novo?

- Pode ser hoje mesmo, vai pegar a bola pra gente levar junto.

Nina deu uma gargalhada de satisfação e saltou do colo de Fernanda. Valquíria já vinha saindo e Nina entrou em casa quase que a atropelando.

- O que é isso, menina?

- Vou pegar a minha bola!

- Deixa essa bola em casa.

- Mas foi a Fernanda que disse pra eu pegar – respondeu já dentro de seu quarto.

Novamente passou por Valquíria como um foguete, com a bola embaixo do braço e enfiou-se para dentro do carro de Fernanda. Valquíria fechou a porta da casa e caminhou até o portão.

- Pontualidade britânica – disse Valquíria.

- Uma das minhas qualidades. – respondeu Fernanda sorrindo.

- Parece que uma certa caroneira já se instalou. – disse Valquíria olhando para Nina que a encarava sorridente.

- Pois é... – respondeu Fernanda. – Mas vamos lá então.

O Parque da Gruta dos Índios não ficava muito longe e elas foram direto para o restaurante. O local estava bem movimentado devido aos turistas, e tiveram alguma dificuldade para estacionar. Por fim conseguiram uma vaguinha à sombra, quando um carro manobrou para sair do parque. Optaram por pedir um filé da casa, cuja porção alimentava com fartura três adultos. De sobremesa Nina quis sorvete de morango. Após o almoço caminharam pelo parque, cuja vegetação fornecia uma sombra acolhedora que abrandava o ardor do sol daquele dia de primavera.

- Você quer andar no teleférico, Nina? – perguntou Fernanda.

- Eu quero!

- Bom, eu espero vocês aqui. – disse Valquíria instalando-se num banco de madeira à sombra densa de uma copa de árvore, bem defronte ao lago onde patos e gansos nadavam languidamente e algumas capivaras aproveitavam para tomar um banho de sol dentro dos limites do lago.

- A gente volta daqui a pouco, então. Tchauzinho... – acenou Nina pegando Fernanda pela mão.

A dupla entrou na fila do teleférico e subiu até quase a entrada das cavernas. Nina quis entrar nas grutas de pedras e mostrava à Fernanda os lugares que já conhecia de outras visitas com a turma da escola. Depois de quase quarenta minutos desceram novamente e encontraram Valquíria que observava a natureza à sua volta.

- E então, desbravadoras! Encontraram algum homem das cavernas? – brincou Valquíria.

- Nãããooo... e nem a macaca Chita... – respondeu Nina debochada.

- Graças a Deus! Senão era mais um bichinho de estimação que faria companhia à Pipoca! – disse Valquíria.

- Demoramos muito? – questionou Fernanda.

- Não, eu me distraí observando o movimento e nem vi o tempo passar.

Perto de onde elas estavam havia uma pracinha com alguns brinquedos bem rústicos, construídos com paus de eucalipto e cordas. Nina pediu para brincar:

- Posso ir nos brinquedos?

- Pode. Mas te cuida. – respondeu Valquíria.

Nina disparou e subiu no escorregador pela escada de cordas. Fernanda sentou ao lado de Valquíria.

- Essa garota é sempre serelepe assim? – perguntou Fernanda.

- Não. Só quando está acordada.

Ambas riram.

- Na verdade ela é um encanto. Apesar de ser muito ativa ela é bastante obediente. Não tenho problemas com ela não.

- Ela não tem mais ninguém?

- Não. A mãe dela foi criada no mesmo orfanato que eu, aqui em Santa Cruz. Nos reencontramos há três anos, quando eu voltei para a cidade e fui trabalhar no Hospital. A mãe dela trabalhava na limpeza e Nina tinha dois anos nessa ocasião. O pai dela, segundo a mãe me contou, foi embora antes dela nascer e nunca mais apareceu. Ela tem uma tia paterna que também trabalha no setor de limpeza do hospital, mas nunca sequer pergunta como ela está, acho que é porque ela e a mãe de Nina não se davam. Nina é registrada só no nome da mãe. E essa tia é como se não existisse. Na verdade Nina nem a conhece.

- Mas com certeza você consegue suprir a falta que Nina deve sentir da mãe. Ela aparenta ser uma criança de bem com a vida.

- E é. Quando a mãe dela morreu eu nem pensava em ter filhos... foi bem complicado...

- Imagino.

- Mas aí eu me coloquei no lugar dela... é muito triste crescer sem uma figura materna de referência, e eu falo por experiência própria.

- Imagino... A mãe dela morreu de repente?

- Sim. Atropelamento. Eu estava de plantão naquele dia. Quando ela deu entrada ainda estava viva e me pediu para cuidar de Nina caso algo lhe acontecesse. E foi a última coisa que disse.

- Eu imagino a tua situação.

- Não imagina, não. Acho que ninguém consegue imaginar. Eu é que fui busca-la na creche e conversei com ela sobre a morte da mãe. Nunca vou esquecer o olhar daquela criança me perguntando se a mãe voltaria para vê-la um dia, e onde ela iria morar. A fragilidade daquele olhar me fez leva-la para casa. E hoje sou eu que não vivo mais sem ela.

Fernanda olhava para Valquíria com afeto e admiração.

- Valquíria, você realmente é uma pessoa especial.

- Que é isso? Qualquer pessoa na minha situação faria o mesmo.

- Não sei...

- E além do mais agora eu tenho uma família.

- Você não conheceu seus pais?

- Lembro vagamente da minha mãe. Meu pai teve um caso extraconjugal com minha mãe e mudou-se para Fortaleza quando eu tinha dois anos. Nunca mais soube dele. Ficamos minha mãe, eu e minha irmã mais velha, com cinco anos na época. Dois anos depois minha mãe morreu e fomos para o orfanato aqui mesmo em Santa Cruz. Minha irmã que era bonita e mais saudável foi adotada. Eu era uma coisica horrorosa, de pernas finas e aparência entisicada. Acabei ficando no orfanato e quando minha aparência melhorou eu já havia passado da idade de adoção.

Fernanda ficou calada. Não sabia o que dizer naquela situação. Resolveu que o melhor seria só ouvir.

- Aí eu cresci, estudei, fui para a capital... – Valquíria fez uma pausa como que tendo uma recordação ruim – e voltei para Santa Cruz de novo.

- Porque você voltou?

- Não sei bem... um pouco de cada coisa... necessidade de voltar às minhas raízes, desilusão amorosa, saída do emprego, lance de grana... de tudo um pouco. Aí estava me organizando por aqui quando adotei a Nina. Precisei trancar a faculdade e estamos aqui... batalhando.

- Qual faculdade?

- Odonto. Parei faltando dois semestres.

- E porque você não termina?

- Tem o lance da grana e o do tempo. Tenho feito muito plantão extra no hospital.

- E quem fica com a Nina?

- A dona Eda, minha vizinha e dona da casa que eu alugo. Ela e o Seu Arno são um casal de idosos, sem filhos, e adotaram a Nina como neta. Eles me ajudam bastante. Aliás eu nem sei o que faria se não fossem eles. Mas a Nina tem o seu mérito, ela é uma criança cativante.

- É mesmo! – concordou Fernanda.

- Mas desculpe se eu estou falando tanto de mim...

- Tudo bem... eu que perguntei.

- Mas, e tu Fernanda? Não sente falta da tua família.

- Sim e não. Sim, às vezes sinto bastante... mas sempre fui muito independente. Saí de casa com dezenove anos e desde então eu sou dona do meu nariz. Nunca gostei desse negócio de compromisso. Já vivi com duas pessoas, e acabei voltando para a minha maravilhosa vida de solteira. – sorriu – Minha família toda mora em São Paulo, capital, menos o meu avô que mora numa fazenda em Sete Barras. E hoje o destino me trouxe até aqui! E eu estou adorando.

- A cidade?

- E a companhia. – respondeu Fernanda encarando Valquíria que baixou os olhos e sorriu timidamente.

- Obrigada pela parte que me toca.

- De nada. Mas você fez por merecer, afinal cuidou tão bem de mim.

- Eu já disse que não fiz mais que a minha obrigação.

- E eu já disse que fez. Foi sensível, pacienciosa e amável. Mas não cumpriu uma promessa.

- Que promessa? – quis saber Valquíria, curiosa.

- Você me deve uma partida de canastra. Tá com medo de uma derrota vergonhosa?

- De forma alguma. Aliás, preciso mesmo de uma parceira para os jogos de canastra com a dona Eda e o Seu Arno.

- Aahhh... me quer como aliada e não como adversária?...

- E eu sou boba? Com essa tua lábia é capaz de me fazer perder as calças.

Ambas tiveram que sorrir.

- E quando vai ser esse confronto? E valendo o quê? – quis saber Fernanda.

- Costumamos jogar um carteadinho nas sextas-feiras, quando eu não estou de plantão. Vale desde balas de goma até bolachinhas recheadas. Mas é Nina quem acaba comendo todo o lucro da noite, qualquer que seja o vencedor.

Fernanda riu muito:

- Muito promissor esse joguinho, ein? Sou capaz até de ficar viciada.

- É um risco...

- Mas eu topo ser a tua parceira nessa jogatina só se você passar na loja durante a semana para saldar a tua outra dívida.

- O cafezinho...

- Pois é. E então?

- Tudo bem. Eu passo sim, antes de sexta-feira.

- Combinado então.

Nesse momento Nina veio correndo até elas, o cabelo esvoaçante e a testa suada.

- Tô com sede!

- Vai até aquela barraquinha e compra água mineral pra gente – disse Valquíria estendendo uma nota de dez reais para a menina.

- Quer que eu te ajude? – perguntou Fernanda.

- Não precisa, não. Pode ficar aí que eu trago a água pra gente. – e saiu correndo de novo.

- Devagar! – gritou Valquíria.

Nina se virou e perguntou bem alto:

- Copinho ou canudo?

- Pra mim copo! – Respondeu Valquíria.

- Dois! – emendou Fernanda.

Nina se dirigiu saltitante até a barraquinha de bebidas.

- Eu fico impressionada com a desenvoltura dessa garota. – disse Fernanda.

- Tu não viu nada ainda.

- Ela é muito decidida, parece ter mais maturidade do que a idade cronológica.

- Dizem que a dor ensina a gemer... Nina precisou aprender a se virar sozinha desde pequena, eu passo muito tempo no hospital. A mãe dela também trabalhava muito.

- Mas isso com certeza é da personalidade dela.

- É, pode ser.

Nina voltou até elas com uma sacolinha plástica contendo três garrafas de água mineral, dois copos de plástico e dois canudinhos. Tratou de distribuir as garrafas e os copos. Ficou com os canudos.

- Íííí... eu esqueci de perguntar se vocês queriam a água com gás, e trouxe todas sem.

- Tudo bem, tá ótimo assim. – respondeu Fernanda – você não quis pegar refrigerante?

- A gente tem um combinado... – disse Nina direcionando o olhar para Valquíria - ...que eu só tomo refri nos domingos, ou em festas, que é pra não cariar os dentes, e nem ter celulite.

Fernanda não conseguiu evitar uma gargalhada frente à preocupação de uma criança de cinco anos de idade com celulite.

- Mas hoje é domingo! – disse Fernanda.

- Pois é... – respondeu Nina - ...só que ontem eu tomei, e era sábado. Tô compensando hoje. Combinado é combinado!

- Gente... essa menina não existe! – riu Fernanda abraçando e dando um beijo na testa de Nina.

- Vamos jogar bola??? – perguntou Nina animadamente.

- Nina... a Fernanda quer descansar. – retrucou Valquíria.

- Descanso de noite. Vamos bater uma bolinha sim, quinze minutos, ok?

- Ok!

- Mãe, joga com a gente?

- Só quinze minutinhos? – questionou Valquíria.

- Só...

- Tá bom então. – respondeu Valquíria que na verdade se derretia toda quando Nina a chamava de mãe.

Era engraçado, às vezes Nina a chamava pelo apelido, Val. Outras vezes de mãe. Valquíria nunca havia dito à Nina como ela deveria lhe chamar, um belo dia, porém foi a própria menina que perguntou se poderia chamá-la de mãe. Foi um processo natural, sem cobranças nem imposições. Certamente era por isso que a relação das duas era tão autêntica.

Os quinze minutos de jogo se estenderam por mais de uma hora. Em determinado momento Valquíria se jogou no gramado e exclamou:

- Falta!

- Não faz cena, ninguém encostou em ti... – respondeu Fernanda ofegante.

- Falta... de condições de continuar de pé!!!

Fernanda também se jogou no chão ao lado de Valquíria, rindo e sentindo suas pernas pesadas de tanto correr, isso que era habituada a fazer exercícios físicos. Nina saltou sobre elas e abraçou o pescoço de Valquíria, gritando:

- Ganhei, ganhei!!!

Fernanda puxou Nina para seu lado e fez cócegas em sua barriga fazendo a garota gargalhar e se retorcer no chão.

- Eu te dou "ganhei"... – disse Fernanda enquanto fazia cócegas em Nina.

Finalmente as três se esticaram lado a lado no chão, no meio do gramado verde bandeira, sentindo os batimentos cardíacos pouco a pouco voltarem ao normal. Recuperadas ainda caminharam pelas trilhas, encheram a barriga com sorvetes, doces e cachorro-quente, andaram de pedalinho no lago, brincaram de esconde-esconde nas grutas e observaram os animaizinhos do parque. A tarde passou sem que elas percebessem o correr das horas. Quando o sol se pôs no horizonte perceberam que já estava ficando tarde. O horário de verão atrasava em uma hora o poente, aumentando o dia e diminuindo a noite, porém a lembrança da segunda-feira fez com que Valquíria sugerisse retornarem para casa. Já anoitecia quando Fernanda estacionou o carro em frente a casa de Valquíria e Nina. Desembarcaram, e a menina deu um abraço apertado e um beijo em Fernanda e disse:

- Obrigada pelo passeio, eu adorei. Agora vou soltar a Pipoca, senão ela faz xixi dentro de casa e sou eu quem tenho que limpar!

- Nada mais justo, a cadela é tua. – respondeu Valquíria.

Nina deu mais um beijinho em Fernanda e entrou correndo em casa. Antes de entrar Valquíria sorriu para Fernanda:

- Obrigada pela companhia, foi uma tarde maravilhosa.

- Eu digo o mesmo. Vou te esperar para um cafezinho na loja, ein? Antes de sexta-feira.

- Tá. Eu passo lá sim. Talvez na quarta ou na quinta-feira.

- Vou esperar. – respondeu Fernanda entrando no carro e girando a chave na ignição.

Valquíria esperou no portão até que o carro dobrasse a esquina. Pelo retrovisor Fernanda pode ver a silhueta pequena a observa-la partir. Sorriu consigo mesma pensando em quanto fora divertido seu domingo. Ao chegar no Hotel Edelweiss foi direto para o banho. Enquanto deixava a água morna escorrer-lhe pelas costas pensava: "Tipo interessante essa Valquíria, aliás, muito interessante. Mas não posso investir numa relação dessas... como poderia me prender com uma pessoa que já tem uma filha?... E que por certo nem cogitaria olhar para mim com esses olhos... Não, isso não é pra mim... não nasci pra viver em família... mas a Nina é um encanto. Encanto mesmo é a mãe dela. Que olhos lindos, verdes e expressivos... Que é isso, Fernanda? Tá ficando doida?... E os teus princípios de liberdade acima de tudo... Bom, mas nada me impede de ter uma grande amiga, não é mesmo? Claro que não... Vai ser bom... é, acho que vai...". Fernanda mal se deitou e ferrou no sono, tamanho era o seu cansaço. Dormiu como um anjo.

 

Valquíria e Nina também se recolheram logo após o banho. Nina estava tão cansada e havia comido tanto que nem quis jantar antes de se deitar. Enquanto colocava seu pijama disse para Valquíria:

- Mãe, aonde tu conheceu a Fernanda?

- No hospital. Ela esteve baixada por uns dias.

- Ahãã... sabe, eu adorei ela. Eu posso convidar ela para a minha próxima apresentação de flauta?

- Claro que pode. – respondeu Valquíria – Eu só não sei se ela poderá ir... é que ela é muito ocupada, tem muito trabalho...

- Mas as apresentações são de noitezinha, hora em que as pessoas voltam para casa...

- Eu sei, meu amor... faz assim: convida, e deixa que ela vai se puder, certo?

- Certo.

Valquíria fez uma trança no cabelo de Nina, para evitar nós nas pontas e choradeira para pentear as madeixas no outro dia pela manhã. Havia escovado cuidadosamente o cabelo antes de trança-lo.

- Mãnhe...

- O que?

- Eu queria muito que ela fosse na minha apresentação. É que os meus colegas levam um monte de gente e eu só tenho a Dona Eda, o Seu Arno e tu.

- O que importa não é a quantidade de gente, Nina e sim o quanto as pessoas que vão te ver gostam de ti.

- Tu acha que eu toco mal?

Valquíria sorriu e abraçou Nina:

- Não, minha querida. Tu tocas maravilhosamente bem.

Nina retribuiu o abraço e continuou:

- Depois tem a minha formatura do pré... eu vou convidar a Fernanda também.

- Mas isso é só daqui ha dois meses... depois a gente pensa nisso, tá?

- Mas se eu convidar logo ela não marca nenhuma outra coisa para aquele dia.

- Meu amor... a gente nem sabe o dia certo...

- Pode deixar que eu me informo amanhã!

- Tá bom. Vamos dormir então?

- Vamos.

Valquíria arrumou a bicama do único quarto da casa e ajeitou Nina entre as cobertas na cama de baixo. Deu-lhe um beijo de boa noite e apagou a luz. Somente com a luz da cabeceira acesa tentou ler um pouco, mas sentiu que seria vencida pelo sono. Antes de adormecer pensou em Fernanda, no quanto simpatizava com ela, até demais... tratou de afastar sentimentos perturbadores de seu pensamento. Não queria correr o risco de se magoar novamente. Apagou a luz e adormeceu profundamente, num sono sem sonhos.

 

Os dois dias que se seguiram Fernanda passou praticamente dentro da loja. A proximidade do final de ano fazia com que tivesse que aumentar os pedidos, pensar em decoração nova, gerenciar os gastos com os encargos sociais dos funcionários, tipo 13º salário e férias, organizar os festejos de final de ano dos funcionários, enfim, uma agitação só. Por vezes pensava na tarde do domingo anterior e sorria consigo mesma, lembrando do quanto tinha se divertido. Na quarta-feira Fernanda percebeu-se várias vezes olhando na direção da porta da loja. Deu-se conta que estava na expectativa da visita de Valquíria. A tarde passou, no entanto, sem nem sinal dos olhos verdes de seu anjo da guarda. Quando já era hora de fechar a loja Fernanda ainda foi até a rua e espiou para ambos os lados na esperança de divisar uma silhueta conhecida. Porém não avistou ninguém e retornou para o hotel.

 

No dia seguinte, quinta-feira, o movimento na loja foi intenso. Fernanda estava satisfeita com as vendas.

Logo após as 19 horas Valquíria caminhou na direção do Magazine Libanês. Havia saído do plantão e resolvera saldar a sua dívida. No dia anterior estava muito cansada e não teve ânimo de passar na loja. Havia trocado de blusa, vestia uma de crepe amarelo queimado, porém sua calça e sapatos brancos não deixavam dúvidas acerca de sua área de atuação. Parou em frente a loja e observou a ampla vitrine que denotava a elegância e a sofisticação daquela casa comercial. Pensou em quanto deveria ser complicado gerenciar aquele empreendimento. Empurrou a porta envidraçada e foi envolvida pelo frescor do ar condicionado e pelo agradável perfume de madeira dos móveis em exposição. Olhou ao redor encantada com a beleza destes. Instintivamente procurou por Fernanda, mas não conseguiu encontra-la até onde seu campo de visão alcançava. Logo em seguida uma funcionária vestindo um uniforme verde oliva impecável aproximou-se:

- Boa tarde, posso ajuda-la?

- Obrigada. Eu gostaria de falar com a Fernanda, ela trabalha aqui, não é mesmo?

A funcionária esboçou um sorriso discreto, como que não compreendendo bem a pergunta, e respondeu:

- Sim... Dona Fernanda encontra-se no escritório. A quem devo anunciar?

- Valquíria.

- Um momento, por favor. – respondeu a mulher dirigindo-se para os fundos da loja.

Valquíria aproveitou para observar um pouco mais os produtos em exposição. Eram móveis em estilo colonial e utilidades para o lar, tudo o que se podia imaginar, distribuídos em dois salões amplos, interligados por um pórtico arredondado. Em menos de dois minutos Fernanda veio recepciona-la sorridente:

- Ora, ora... se não é a pagadora de promessas!

Valquíria sorriu e respondeu:

- Antes tarde que nunca!

- De fato. Mas vamos até o escritório. – disse Fernanda conduzindo Valquíria pelo ombro.

Entraram num ambiente bastante acolhedor, uma sala grande e clara, com janelas amplas que deixavam entrar a claridade natural, embora o sol já estivesse escondendo-se por trás das copas das árvores. No entanto a claridade da rua ainda se fazia presente, auxiliando a luminosidade branca e artificial das lâmpadas fluorescentes. Fernanda apontou uma cadeira estilo Luís XV, muito confortável e dirigiu-se à mulher que as havia seguido:

- Por favor, Lourdes, dois cafés.

- Sim senhora, dona Fernanda.

Valquíria observou nos trajes e na pose de Fernanda. Nem parecia a mesma pessoa do domingo anterior, que havia passado a tarde rolando na grama e brincando com sua filha.

- E então, - quis saber Fernanda – o que achou da loja?

- Linda, muito linda mesmo.

- Que bom que gostou. Eu dedico quase que todo o meu precioso tempo para deixa-la à altura dos clientes.

- É uma loja para a elite.

- Nem tanto. Temos produtos muito bons com preços não tão salgados assim. E trabalhamos muito a questão dos prazos, o que facilita e pesa bastante na hora de fazer uma compra.

Valquíria não pôde deixar de rir:

- Tu é mesmo uma comerciante em potencial. Conseguiu me convencer!

- Ossos do ofício – respondeu Fernanda sorridente.

Nesta feita ouviu-se uma batidinha discreta na porta, que logo em seguida entreabriu-se para a passagem da funcionária com uma bandeja. A mulher depositou-a na mesa de Fernanda:

- Obrigada, Lourdes, pode deixar que eu mesma sirvo.

- Com licença. – respondeu e retirou-se.

- Açúcar ou adoçante?

- Açúcar, uma colherinha só.

Fernanda serviu os cafés e continuaram a conversa.

- Onde tu trabalhavas antes de vir para esta cidade? – perguntou Valquíria curiosa.

- Sempre trabalhei no comércio. Na verdade sempre nesta mesma empresa.

- Coisa difícil de se ver.

- Não quando se nasce praticamente dentro dela.

- Como assim?

- O Magazine Libanês foi fundado por meu avô materno.

- Mas então... tu não és funcionária daqui, tu és a dona?

Fernanda riu:

- Mais ou menos, digamos que acionista. E gerente geral.

Valquíria começou a reparar naquele escritório, tinha realmente a cara de Fernanda. Ficou analisando a figura imponente à sua frente que sorvia o seu café com a classe de uma dama da nobreza britânica.

- Pensando no quê? – questionou Fernanda frente a expressão meditativa de Valquíria.

- Nada... só que, sei lá. Tava pensando porque é que tu trabalha tanto, afinal poderias pagar alguém para fazer o teu trabalho.

- Ledo engano, senhorita. Primeira lição do vovô Salim: "é o olhar do dono que engorda o gado"! Em investimentos desse porte, envolvendo abertura de filiais, principalmente em outro Estado, não dá para deixar por conta de outros, não. E eu gosto do que faço. Mas com certeza daqui há, mais ou menos, um ano já vai dar para ficar mais relaxada. É só uma questão de estabilizar a nova filial e pronto.

Valquíria estava prestando bastante atenção nas palavras de Fernanda e impressionou-se com a segurança com que sustentava suas posições. Era, de fato, uma mulher de negócios.

- Mas vale a pena ficar sozinha neste quase fim de mundo? Para quem veio de uma grande metrópole?

- Tudo vale a pena. Gosto de novas experiências.

- Mesmo que estejas sozinha?

Fernanda calou-se por um momento. De fato, por vezes sentia falta, não só da família, mas de uma companheira. Sentia falta do toque macio da pele de uma mulher, do cheiro doce e das carícias íntimas, do ficar junto, ir ao cinema, jogar cartas... Olhou para Valquíria e desconversou:

- E a nossa partidinha de canastra? Está de pé para amanhã?

- Está. Já comentei com a Dona Eda e com o Seu Arno e eles estão ansiosos pelo grande confronto!

Fernanda gargalhou.

- E qual vai ser o horário do embate?

- Lá pelas 21 horas, para dar tempo de eu sair do plantão com calma, tomar um banho, dar janta para Nina, supervisionar as tarefas da escola...

- Eu passo lá então nesse horário. Olha só, eu até já comprei as balas e as bolachas recheadas.

Ambas tiveram que rir.

- E a Nina, como vai?

- Ótima. Tem perguntado por ti.

- Porque você não a trouxe junto?

- É que eu vim direto do hospital, se passo em casa acabo me enrolando e não saio mais.

- Sei como é isso.

- Bom, eu não quero mais roubar o teu tempo, já vou indo. Muito obrigada pelo café.

- De nada. Mas você não me rouba tempo nenhum, muito pelo contrário, é um prazer encontra-la. Eu não tenho muitos amigos por aqui...

- Coincidência. Conheço um lote de gente, mas amigos mesmo... acho que só a Dona Eda e o Seu Arno.

- E agora eu.

- É. E agora tu. Mas então, eu já vou indo – disse Valquíria levantando-se.

Fernanda também se levantou, abrindo a porta do escritório para ela e acompanhando-a até a saída da loja. Na porta principal curvou-se dando um abraço em Valquíria e dois beijinhos nas faces:

- Obrigada novamente pela visita. Beijinhos na Nina.

- Vou dar sim, pode deixar. Até amanhã.

-Até.

Fernanda ficou observando enquanto Valquíria seguia a pé para casa. Seu caminhar era compassado e a calça justa deixava ver a silhueta de seu corpo pequeno e com curvas sedutoras. Fernanda sentiu um calor lhe subindo pelo corpo. Conhecia bem aquele sentimento, e sabia o que significava. Ficou preocupada. Foi trazida de volta à realidade pela voz de Lourdes:

- Podemos fechar as portas, dona Fernanda?

- Sim, sim, podem. Eu também já vou indo.

 

Na noite seguinte, após o expediente na loja, Fernanda passou no hotel, tomou seu banho, trocou de roupa e por volta das oito e meia saiu para a casa de Valquíria, resolvera ir a pé. A noite estava agradável e as primeiras estrelas já brilhavam no céu. Munida de uma sacola com o numerário simbólico Fernanda caminhou devagar passando pela praça, onde se deteve no quiosque e comprou uma garrafa de vinho branco. Carregava ainda nos braços um urso bege de pelúcia que comprara para Nina. Faltando cinco minutos para as nove horas chegou no portão da casa de Valquíria. Novamente foi Pipoca que a recepcionou, a princípio latindo e logo após abanando o rabo. Em seguida Valquíria abriu a porta e dirigiu-se até o portão, sorridente:

- Boa noite!

- Boa noite. Cheguei cedo?

- Não mesmo. Pontual. Vamos entrando. – disse Valquíria cumprimentando Fernanda com um abraço discreto e oferecendo-se para pegar a sacola que carregava. – deixa que eu te ajudo com a sacola.

- E a Nina?

- Terminando de tomar banho. Aquela lá esquece da vida dentro d’água.

- Ela sabe o que é bom! – respondeu Fernanda.

Valquíria conduziu Fernanda para dentro da residência. A casa não era muito grande, construção antiga, uma sala comprida com um corredor que possuía duas portas: a primeira era o banheiro, a segunda o quarto. No final do corredor era a cozinha, com uma porta nos fundos que dava para o pequeno quintal. O pé direito da construção devia medir mais de três metros de altura e o forro era de madeira envernizada. As paredes internas pintadas de branco conferiam um aspecto asseado à casa. Os móveis eram bem modestos e na cozinha havia um fogão antigo, vermelho, com um dos queimadores desativado, e uma pequena geladeira bege. No quintal havia duas laranjeiras, uma goiabeira e um abacateiro, do qual pendia um pneu suspenso por uma corda, que servia de balanço para Nina, invenções do Seu Arno. A casinha de Pipoca ficava nos fundos do quintal, embora a mascote ficasse presa dentro de casa quando Valquíria e Nina não estavam. Haviam muitas folhagens suspensas e em vasos no quintal. No muro de pedras uma trepadeira florida disputava espaço com um pe´de maracujá que ostentava pequenos frutos, ainda em formação.

Fernanda sentou-se na sala, colocando o urso a seu lado.

- Aceita um cafezinho? – perguntou Valquíria.

- Aceito sim.

- Aliás, tu comeu alguma coisa? – quis saber Valquíria - A janta está quentinha, se quiser eu te sirvo.

- Olha, posso ser sincera?

- Claro.

- Eu belisquei alguma coisinha na loja, mas já estou com fome. Vou filar a tua janta sim.

- Então vem cá. – disse Valquíria levando Fernanda até a cozinha. – dá uma espiadinha nas panelas e vê o que tu queres.

Fernanda, sem nenhuma cerimônia, levantou as tampas das panelas e sentiu o cheiro maravilhoso do feijão novinho, do arroz e da carne de panela. Reparou no vaso de violetas azuis no parapeito da janela basculante, bem em frente à mesa.

- Que maravilha. Esse cheirinho me lembra a comidinha da minha vó Ester.

Valquíria sorriu e alcançou um prato para Fernanda. Estendeu uma toalha de tecido xadrez marrom claro impecavelmente limpa na pequena mesa e colocou os talheres sobre ela. Abriu a geladeira e pegou uma vasilha com folhas de rúcula e de alface já lavadas. Colocou sal e azeite de oliva para temperar.

- Nossa, que delícia – exclamou Fernanda – desse jeito eu vou ficar mal acostumada. Faz meses que não como uma comidinha caseira, sabia?

- Pois sinta-se em casa para vir sempre que quiser. Mas eu não sou muito boa na cozinha não. Só sei fazer o básico mesmo.

- Mas está delicioso. Eu é que sou uma negação na cozinha. Até o meu ovo frito sai deformado.

Valquíria riu:

- É só uma questão de treino: fritar ovos é uma ciência! – brincou - Queres um suco de laranja? Ou limão?

- Água, por favor.

Valquíria serviu-lhe um copo de água gelada e sentou-se à mesa com ela, após servir um prato para si também. Ao longe, por detrás da porta do banheiro, escutava-se a conversa de Nina e suas risadas com os brinquedos que levara para o banho. Como em muitas casas antigas, havia uma banheira esmaltada e enorme no canto do recinto, bem debaixo do chuveiro. Nina adorava encher a banheira e ficava um bom tempo brincando na água. Saía dali quando Valquíria chamava ou quando percebia que suas mãozinhas já estavam bem murchas pela imersão. Em dado momento seus ouvidos captaram uma conversa na cozinha e percebeu que Fernanda já havia chegado. Tratou de enxugar-se e vestir-se e foi para junto delas. Abraçou Fernanda efusivamente:

- Oi... eu tava morrendo de saudades, sabia? – disse Nina teatralmente.

- Eu também. – respondeu Fernanda.

- Sente-se mocinha, que eu vou servir o teu prato.

Nina sentou-se ao lado de Fernanda e tratou de devorar sua janta. Estava com fome. Quando terminaram foi Nina quem recolheu os pratos e colocou um banquinho em frente à pia para lavá-los, ante o olhar atento de Fernanda.

- Deixa que eu lavo os pratos – disse Fernanda.

- Não mesmo – respondeu Nina – Tu é visita, e visita não lava a louça. E a louça da janta é atividade minha.

- Então eu seco.

- Não precisa. A gente deixa no escorredor e depois é só guardar amanhã de manhã. Mas se tu queres fazer alguma coisa pega aquela latinha ali, ó... – disse Nina apontando para uma prateleira baixa – e coloca a ração no prato da Pipoca que está do lado de fora da porta.

Fernanda assentiu e fez o que Nina havia lhe pedido. Valquíria terminou de tirar a mesa e foram para a sala. Quando Nina avistou o urso no sofá seus olhinhos brilharam e olhou rapidamente para Fernanda.

- Eu trouxe pra ti. Espero que goste.

Nina pulou e abraçou Fernanda.

- Adorei!!!

Soltou Fernanda e correu abraçando seu urso de pelúcia.

- O nome dele vai ser Fernando. – disse Nina.

- Nina! Por favor... – disse Valquíria.

- Belo nome! – respondeu Fernanda. – Aliás esse urso tem cara de Fernando mesmo.

Valquíria balançou a cabeça, desistindo de argumentar.

- Mas então, vamos ao nosso joguinho? – perguntou Valquíria.

- Vamos lá.

Nina correu na frente levando seu Fernando nos braços. Fernanda pegou sua sacola com as guloseimas e o vinho e seguiu Valquíria. Elas fizeram a volta pela frente do pátio e entraram na casa ao lado, cuja parede fazia divisa com a que ocupavam.

 

Já passava das nove e meia e o casal já as aguardava.

- Seu Arno, Dona Eda, esta é Fernanda, a amiga da qual eu falei.

- Muito prazer – disse Fernanda.

- O prazer é todo nosso! – exclamaram – Por favor fique à vontade, a casa é sua.

- Obrigada. Eu trouxe um vinho branco, não sei se vocês gostam.

- Eu gosto muito! – respondeu Seu Arno. – Mas não precisava se incomodar.

- Ora, não foi incômodo algum, muito pelo contrário.

- Mas então vamos ao nosso joguinho – disse Dona Eda apontando para a mesa que já estava preparada com uma toalha verde escuro e um baralho novinho no centro.

Numa cadeira ao lado Fernanda avistou pacotes de balas e bolachinhas. Não pode deixar de sorrir. Ligaram a televisão e colocaram uma fita com um desenho animado que haviam locado para distrair Nina. Esta aninhou-se no sofá, abraçou seu urso e começou a ver televisão. Realmente era uma criança que não incomodava em nada. Sabia perfeitamente diferenciar a hora de brincar e a hora de aquietar-se para não perturbar os adultos. "Coisa difícil de se ver hoje em dia", pensou Fernanda. A noite transcorreu muito agradável. Jogaram até quase três horas da manhã. Fernanda e Valquíria fizeram uma boa dupla e no final computaram mais guloseimas do que haviam levado inicialmente. No entanto resolveram deixa-las por lá mesmo, uma parte para Nina e a outra para o jogo da sexta-feira seguinte, para o qual foram intimadas pelo casal. Eles eram extremamente simpáticos. Não tinham filhos, tinham uma única sobrinha que havia ido para a Alemanha estudar, casara por lá e não retornara mais ao Brasil, a não ser para ocasiões de visitas. Portanto o casal ficava muito solitário. Para amenizar a situação ajudavam a cuidar de Nina e participavam das atividades do grupo de terceira idade, no projeto mantido pela prefeitura local. Nina já havia adormecido há muito tempo. Quando Valquíria quis acorda-la para ir para casa Fernanda disse que a levaria no colo. Pegou a menina com facilidade, levando-a até sua casa e colocando-a em sua cama.

- Queres ficar aqui? – perguntou Valquíria – é muito tarde.

- Não dá. Amanhã tenho que estar na loja cedo.

- Mas tu vieste a pé?

- E o que é que tem isso? Volto a pé.

- Mas é perigoso.

- Eu sei me cuidar, não se preocupe.

- Então me liga quando chegares no hotel. – disse Valquíria pegando um bloquinho de rascunho e anotando o número de seu telefone.

- Tudo bem. Deixa eu anotar os meus números pra ti também, do hotel, da loja e celular. – respondeu Fernanda pegando também uma folha do bloco.

- Fernanda...

- O quê?

- Obrigada pela companhia.

- Eu que devo agradecer.

- E obrigada pelo carinho com a Nina.

- Isso é mérito dela. Ela é uma criança muito afetiva e cativante.

- Mas mesmo assim. Obrigada. E me liga quando chegar.

- Ligo sim. E vê se aparece na loja durante a semana.

- Pro cafezinho?...

- É, pro cafezinho.

- Vou fazer o possível, mas se não der nos vemos na próxima sexta. Te esperamos para o jantar.

Fernanda sorriu afetuosamente. Elas se despediram e Fernanda seguiu a pé para o hotel, tendo a noite estrelada como pano de fundo para suas divagações. Tão logo entrou em sua suíte ligou para Valquíria.

- Pode dormir tranqüila, meu anjo da guarda, que eu já cheguei. Sã e salva.

- Ótimo. Durma com Deus – disse Valquíria.

- Igualmente.

"E pretendo sonhar com os anjos", pensou Fernanda após desligar o telefone, "aliás com um belo anjo da guarda".

 

 

Os próximos dias transcorreram normalmente, sendo que Valquíria marcou todos os plantões extras noturnos possíveis, em função dos gastos a mais de final de ano, tais como presentes de Natal, rematrícula de Nina, etc. Só evitou trabalhar nas sextas-feiras, pois não queria deixar seus parceiros de jogo na mão. Na verdade, não queria perder a oportunidade de encontrar Fernanda, na qual estava pensando com muita freqüência durante o dia.

Na quinta-feira, véspera do segundo jogo de sua nova parceria, Fernanda estava em seu escritório quando Lourdes bateu à porta e disse:

- Dona Fernanda, com licença...

- Sim?

- Tem visita para a senhora.

Os olhos de Fernanda brilharam, imaginando quem estaria à sua procura, provavelmente para tomar um cafezinho. Antes que pudesse levantar de sua cadeira uma cabeleira encaracolada enfiou-se através da porta e de Lourdes, espiando para dentro do escritório.

- Oizinho... adivinha quem veio te visitar?...

Fernanda abriu os braços, sorridente, convidando Nina para um abraço afetuoso. A menina correu até ela, grudando-se em seu pescoço e sendo levantada do chão. Passou as pernas ao redor da cintura de Fernanda, como um filhote de primata se agarra à mãe. Estava com o uniforme do colégio e tinha sua mochila cor-de-rosa presa às costas. Fernanda ficou olhando para a porta, na expectativa da entrada de Valquíria. Nina percebeu o olhar de Fernanda e disse:

- A Val não veio, eu vim sozinha!

- Sozinha??? Como assim? E ela sabe disso?

- Calma... Sozinha, sozinha não. A dona Eda me trouxe, mas ficou lá na loja olhando os tarécos de cozinha. Aí aquela moça me trouxe aqui. É que eu pedi pra passar aqui porque precisava te trazer uma coisa...

- O que é? – perguntou Fernanda curiosa, colocando Nina no chão.

A garota sentou-se na cadeira em frente, colocou sua mochila no colo e abriu o fecho do bolso externo. Retirou uma folha de papel cuidadosamente dobrada e a estendeu à Fernanda, ostentando um sorriso de orelha a orelha. Fernanda verificou tratar-se de um convite para uma apresentação de flauta doce, no anfiteatro de sua escola, que se realizaria dentro de duas semanas, numa sexta-feira.

- E então? – Perguntou Nina com ansiedade – Tu vai poder ir? É na outra sexta-feira, sem ser amanhã.

- Com toda a certeza, eu jamais perderia um espetáculo da minha artista preferida.

Nina começou a pular de felicidade.

- Ôba, ôba, ôba...

Fernanda teve que rir frente à explosão de alegria da menina.

- Escuta, a Valquíria não vai passar aqui hoje?

- Acho que não, ela tem plantão hoje à noite. A Dona Eda me pegou na escola e eu vou dormir na casa dela. Amanhã tu vai jantar lá em casa, né? A Val disse que tu vai. Ela até já passou no supermercado e comprou um monte de coisas pra janta, tem até sorvete de sobremesa.

- Quanta honra. Com toda essa gentileza eu não poderia deixar de ir, não é mesmo?

- É.

Nesse momento a porta do escritório se abriu vagarosamente e uma voz conhecida disse:

- Com licença... estou procurando uma mocinha que não me esperou... – disse Dona Eda em tom de brincadeira.

- Boa tarde, querida. – cumprimentou Fernanda levantando-se para abraçar a velha senhora.

- Mas a senhora ia demorar muito, eu sei que gosta de ficar vendo enfeites, e panelas, e vasos, e tudo. – justificou Nina.

- Tá bom... e então, Fernanda, pronta para amanhã?

- Prontíssima.

- Nosso joguinho vai ser na casa da Valquíria, ela me falou que quer fazer uma jantinha antes.

- Por mim tudo bem.

- Vamos indo então, Nina?

- Ahaaa... a gente recém chegou... – protestou Nina.

- Mas aqui não é lugar de visita, é lugar de trabalho, e a gente está atrapalhando a Fernanda.

- Não estão, não, Dona Eda. Amigos não atrapalham. – respondeu Fernanda cordialmente – eu já estou quase acabando meu expediente mesmo hoje.

- Mas eu tenho que ir para casa atender o Arno, ele gosta de tomar um café com leite nesta hora.

- Escuta, Nina poderia ficar aqui comigo mais um pouco? Depois eu a levo até sua casa, sei que ela vai dormir lá hoje, não é mesmo? – questionou Fernanda.

- Eu não sei, não perguntei para a mãe dela...

- Por favor, Dona Eda... – pediu Nina – eu prometo que me comporto... e a minha mãe ia deixar sim, eu sei.

- Está bem... mas as sete e meia eu a quero em casa, para jantar e dormir cedo. Amanhã é dia de aula.

- Pode deixar que eu serei pontual – disse Fernanda – eu só vou leva-la para tomar um sorvete.

Nina saltitou novamente de felicidade.

- Me dá a tua mochila que eu levo pra casa – pediu Dona Eda.

Nina estendeu sua mochila e deu um beijo na velha senhora:

- Obrigada Dona Eda!

Dona Eda era uma senhora alta, cerca de 1,75m, pele clara e olhos azuis esverdeados. Era bem gorducha e suas faces eram avermelhadas. Já o Seu Arno devia medir 1,60, se muito, e era bem magrinho, quase um "pau de virar tripas". Era engraçado vê-los passear de mãos dadas, devido à desproporção entre os tipos físicos. Mas estavam sempre juntos, e dançavam sem maiores constrangimentos nos bailes da terceira idade dos quais participavam. Seu Arno era um piadista nato e não perdia uma oportunidade de fazer uma anedota envolvendo sua mulher. Nina gargalhava toda vez que Seu Arno dizia: "não posso arriscar de deixar a Eda irritada, senão ela senta em cima de mim e eu viro uma panqueca!". Ao que Nina respondia: "íííí, seu Arno, lá vem a dona Eda... e eu acho que ela tá braba!".

Dona Eda foi para casa, caminhava compassadamente devido ao seu peso. Pensava pelo caminho: "acho que a Valquíria não vai ficar chateada de eu ter deixado a Nina ficar um pouco com a Fernanda, afinal é amiga dela, até já convidou para ir em casa, e quando a Valquíria convida alguém para ir em casa é porque é gente de confiança, eu conheço aquela menina. E a Fernanda parece ser uma boa moça, trabalhadora, de família, uma boa companhia pra Valquíria que anda sempre tão sozinha, não se diverte, é só do trabalho pra casa e da casa pro trabalho...".

 

Fernanda tratou de terminar rapidamente seu serviço pendente enquanto Nina esperava por ela sentada numa poltrona no canto do escritório. Ficou esperando em silêncio para não atrapalhar Fernanda, sendo que observava atentamente seus movimentos e sua conversa ao telefone com alguns fornecedores. Quando Fernanda finalmente desligou o telefone e olhou para Nina com uma expressão de quem estava pronta para sair, a menina lhe disse:

- Quando eu crescer quero ser gerente de loja, igual a ti.

Fernanda riu e perguntou:

- E posso saber porquê?

- Porque é legal, e porque eu gosto de falar no telefone, e porque a gente usa roupas legais. Eu queria ser médica, mas eu tenho nojo de sangue, e de curativo. Então eu decidi ser gerente de loja! E jogadora de futebol, nas horas vagas.

Fernanda sorriu afetuosamente frente ao projeto de vida de Nina:

- E querer é poder, sabia? – disse Fernanda.

- A Val já me disse isso.

- Mas, vamos ao nosso sorvete?

- Vamos!!! – respondeu Nina levantando-se num pulo.

Fernanda pegou sua bolsa, deu a mão à Nina e ambas saíram em direção à rua. Ainda dentro da loja Fernanda dirigiu-se a um funcionário:

- Eu vou sair mais cedo hoje. Qualquer problema estou no celular. Mas, por favor, só se for urgente, ok? Caso contrário eu resolvo amanhã.

- Pode deixar, dona Fernanda. Um bom descanso.

- Obrigada e igualmente.

- Tchauzinho garotinha bonita. – disse o rapaz para Nina.

- Nina. Meu nome é Nina. E tchauzinho pra ti também. – respondeu acenando.

 

As duas passaram rapidamente no hotel, onde Fernanda trocou de roupa, colocando uma vestimenta mais confortável. Esse era um de seus maiores prazeres: trocar a roupa de executiva por um agasalho esportivo e um par de tênis. Depois foram caminhando na direção da sorveteria. No caminho passaram por uma banca de revistas, pois Fernanda queria comprar uma revista de palavras cruzadas, um de seus passatempos preferidos. Nina foi direto na seção de livros infantis. Apesar de estar somente semi-alfabetizada adorava livros.

- Escolhe um livro pra você, Nina.

- Mas eu não tenho dinheiro...

- Eu quero te dar de presente.

- Não precisa...

- Mas eu faço questão.

- Então tá! – respondeu Nina alegremente escolhendo um livro de capa dura com a história de um cruzeiro de navio repleto de animais. – Pode ser qualquer um?

- Pode.

- Então eu quero esse aqui. – disse estendendo o livro para Fernanda – não é muito caro?

Fernanda sorriu e respondeu:

- Você podia ser neta do meu avô Salim, sabia?

- Porquê???

- Sempre preocupada em conter os gastos...

- Mas a Val me diz sempre que não dá pra gente comprar tudo o quer, tem que levar só o que o dinheiro dá.

Fernanda se abaixou e abraçou Nina afetuosamente:

- Mas esse livro dá pra levar, sim, ok?

- Ok! – respondeu Nina sapecando um beijo estalado na face de Fernanda.

Fernanda pagou a conta e elas seguiram para a sorveteria, instalando-se numa mesa em frente à porta, de onde podiam observar o movimento da calçada. Nina pediu um sorvete de morango e pistache, com cobertura de chocolate granulado. Fernanda pegou o de sempre, chocolate.

- Eu A-DO-RO sorvete, sabia???!!! – disse Nina.

- Imaginava... – sorriu Fernanda.

- A Val também gosta. Ela gosta de sorvete de uva, acho que é por causa da cor.

- Realmente é uma cor bonita. A do pistache também.

- Pois é. Fernanda... posso te pedir uma coisa?...

- Pode. O quê?

- Tu vai na minha formatura do pré?

- Huuummm... talvez... – respondeu Fernanda – se é que eu vou receber um convite.

- Claro que vai! – respondeu Nina com os olhos brilhando de felicidade – Eu só não sei ainda o dia. Eu já perguntei, mas a minha professora ainda vai marcar. Eu já passei de ano, a professora já falou pra minha mãe. Eu quase já sei ler. Sei fazer o meu nome, o nome da minha mãe e o teu.

- O meu? – surpreendeu-se Fernanda.

- O teu! Quer ver? Tem uma caneta aí contigo?

- Não, mas isso não é problema. – respondeu Fernanda levantando-se e pedindo uma caneta no balcão.

Pegou um guardanapo e estendeu para Nina junto com a caneta. Nina empurrou o sorvete para o lado e começou a desenhar o nome de Fernanda. Ao terminar estendeu o guardanapo solenemente para a amiga. Fernanda percebeu que realmente ela sabia escrever seu nome e sem saber porque se emocionou com aquilo. Aquela grafia infantil encantou seus olhos e pôde perceber o carinho e a admiração que Nina tinha por ela. Olhou carinhosamente para a criança e disse:

- Que letra linda... e você sabe mesmo escrever o meu nome.

- Eu não te disse? Eu pedi pra professora me ensinar. Gosto de saber escrever o nome de quem eu gosto. Também sei fazer Eda, Arno e Pipoca.

- Que ótimo! – riu Fernanda – Mas agora toma o resto do sorvete, senão vai derreter.

- Iiiii... é mesmo!

Fernanda dobrou cuidadosamente o guardanapo e o guardou no bolso de seu agasalho. Olhou para Nina e impressionou-se com a capacidade daquele pequeno ser de fazer com que ela se sentisse responsável pelo que havia cativado, assim como o Pequeno Príncipe. Após o sorvete ainda deram uma volta na praça, onde Nina andou de balanço e brincou no escorregador, sob o olhar atento de Fernanda. Um pouco antes das sete e meia Fernanda entregou Nina na casa de dona Eda, conforme o combinado. Encontrou a referida senhora às voltas com o marido que teimava em querer continuar sentado na rua.

- Mas Arno, já está caindo sereno, depois fica resfriado!

- Mas eu quero ver a lua, Eda! Vem aqui também, assim a gente namora um pouquinho...

- Olha as meninas, Arno! Não diz semvergonhices!

Tanto Nina quanto Fernanda tiveram de rir da cena, principalmente do rubor das faces de dona Eda.

- Esse Arno é teimoso como ele só... – reclamou dona Eda.

- Tá bom, tá bom! Para fazer a minha Edinha feliz eu entro em casa... mas só se eu ganhar um beijinho.

Dona Eda deu um tímido beijinho na testa do marido e este se levantou sorridente de onde havia se instalado para observar o nascente da lua em quarto crescente. Fernanda se despediu e voltou para o hotel, deixando Nina que ficou no portão lhe acenando enquanto não dobrava na esquina da rua principal. No caminho se deu conta que estava se afeiçoando àquela garotinha, mais até do que imaginava. Sentia vontade de ficar mais tempo com ela. E com a mãe dela também.

 

No dia seguinte Fernanda tratou de telefonar para o hospital e perguntar à Valquíria se ela queria uma carona na saída de seu plantão, afinal gostaria de ir cedo para ajuda-la a preparar a janta.

- Mas não precisa se incomodar. Eu preparo tudo sozinha. Aliás, a senhorita disse que não sabe nem fritar ovos... – respondeu Valquíria.

- Mas sei lavar as verduras e coloco a mesa como ninguém.

- Bom, nesse caso te espero na saída do hospital, lá pelas sete e quinze.

- Combinado. – respondeu Fernanda, desligando o telefone.

Ficou recostada em sua cadeira de trabalho, com o olhar fixo no vazio e pensando em Valquíria. Ela era uma pessoa meiga, extremamente dócil, e ao mesmo tempo conseguia ser firme e persuasiva quando as situações assim o exigiam. Era de fato uma mulher especial. E bela, muito bela.

 

Pontual como sempre Fernanda aguardava Valquíria em frente à porta principal do hospital, um pouco antes da mesma aparecer na portaria. Valquíria embarcou no carro de Fernanda e elas foram para a casa da primeira, onde Nina já as aguardava ansiosamente, de banho tomado, vestida e penteada, como uma pequena lady. Ao ouvir o barulho do carro correu para o portão, para recebe-las, chegando antes mesmo de Pipoca. Dona Eda já estava lá também e assistia à sua novela na TV da sala. Seu Arno viria mais tarde, depois de arrumar o liquidificador da esposa, o qual havia desmontado e agora sobravam peças. Nina ficou na sala com Dona Eda e Fernanda ajudou Valquíria na cozinha, depois dela tomar um banho e mudar o uniforme do hospital. O cardápio era uma massa caseira com molho branco e frango assado no forno, com saladas verdes, alface, rúcula e radite. Enquanto Valquíria preparava os pratos quentes Fernanda se distraía lavando as verduras e arrumando a mesa. Conversavam animadamente:

- Quer dizer que a Nina te fez uma visita ontem? Essa menina está ficando passadinha.

- Deixa ela, fiquei contente. – respondeu Fernanda.

- A primeira coisa que ela me contou foi sobre o sorvete que vocês tomaram ontem.

- Pois então... você não ficou chateada de eu ter ficado um pouco com ela, ficou?

- Não, de forma alguma. A dona Eda veio cheia de explicações, mas não fiquei chateada não, muito pelo contrário. Nina acaba ficando muito sozinha. Eu sei que sou muito exigente com ela, não sou de deixar ficar indo em casa de colegas, enfim, como eu não tenho tempo de acompanhar de perto prefiro que ela fique em casa. Mas contigo é diferente...

- Diferente?...

- É, eu te conheço... e confio em ti.

- Muito obrigada. Apesar da gente se conhecer ha pouco tempo eu já gosto bastante dessa menina. – disse Fernanda.

Valquíria se virou para Fernanda encarando-a e disse:

- Eu sei. E ela gosta de ti também, muito.

- E a mãe dela? – disparou Fernanda à queima roupa, também encarando Valquíria nos olhos.

Valquíria sentiu o coração disparar e percebeu a sutileza nas entrelinhas da pergunta de Fernanda. Em outra situação ficaria desconcertada, mas naquele momento reagiu desconhecendo-se. Manteve o olhar em Fernanda e respondeu com um sorriso enigmático:

- O que é que tu acha?

Desta vez foi Fernanda quem se surpreendeu com Valquíria e antes que pudesse formular uma resposta Nina irrompeu na cozinha:

- Tô com fome!

As duas mulheres recuperaram a linha e Valquíria respondeu:

- Tá quase pronto, meu amor. Pode ir lá chamar o Seu Arno. Diz pra ele que daqui a quinze minutinhos a gente janta.

- Tá bom. – respondeu Nina e saiu correndo da cozinha.

Valquíria voltou a sua atenção para o molho novamente, que quase havia queimado no fundo da panela. Fernanda deu mais uns retoques na mesa e questionou:

- E então? Tá legal a arrumação desse jeito?

Valquíria observou a mesa com um olhar inquiridor e depois de certo tempo disse:

- Ótimo! Está contratada como copeira dessa residência!

Ambas tiveram que rir.

- Você tem um sorriso lindo, sabia? – disparou novamente Fernanda.

- Pára com isso, senão eu fico convencida.

- Mas é verdade. Aliás, você É uma pessoa linda. Nina não poderia ser diferente sendo educada por você.

- Fernanda, pára com isso. Tô ficando sem jeito.

- Mas é verdade Val. Acho que existem poucas pessoas no mundo como você. Eu pelo menos conheci bem poucas, sabia?

- Ah, tá! – respondeu Valquíria. – Mas tu também é diferente.

- Diferente como?

- Diferente. Tu é uma pessoa que tem uma família rica e mesmo assim trabalha, e vem aqui em casa e fica à vontade como se estivesse na tua.

- E não deveria?...

- Claro que deveria, mas é que... eu te vi na loja, eu vi a executiva, a acionista, a mulher de negócios. As pessoas te tratam com cerimônia. E aqui em casa eu vejo uma outra Fernanda... uma Fernanda que passou horas brincando com uma menina que mal conhecia... que não se importa em conviver com uma pessoa que não tem nada e nem ninguém...

- Tem sim, tem uma filha maravilhosa que é um encanto graças a ela.

Valquíria baixou os olhos. Fernanda continuou:

- Tudo nesta vida tem um porquê. E eu com certeza estou muito feliz de ter ficado doente, afinal assim eu conheci vocês duas, e a dona Eda e o Seu Arno, e a Pipoca.

Valquíria sorriu:

- Grande achado!

- Grande mesmo...

Neste momento ouviram conversas na sala. Era o Seu Arno que vinha chegando. Valquíria serviu o jantar que foi elogiadíssimo por todos. Logo após Nina foi ver televisão e as duplas foram para o joguinho de canastra tão esperado. Naquela noite o Seu Arno e a Dona Eda ganharam disparados. Talvez porque as adversárias estivessem bastante distraídas e não raras vezes ficavam trocando olhares como que tentando adivinhar o que a outra pensava. E o que menos tentavam imaginar eram as cartas que cada uma tinha nas mãos...

 

Naquele final de semana Valquíria trabalhou no sábado e no domingo, e durante a semana que se seguiu também não teve tempo de passar na loja. Na quarta-feira foi Nina quem conseguiu convencer dona Eda a passar com ela na loja após a escola, para reforçar o convite de sua apresentação de flauta que seria dali ha dois dias.

- Tu não esqueceu do meu concerto, esqueceu? – quis saber Nina.

- De forma alguma. Esse compromisso já está marcado na minha agenda. – respondeu Fernanda solenemente.

Nina sorriu satisfeita.

- Hoje eu não posso demorar. A dona Eda não queria passar aqui, mas eu falei que era só um minutinho, e que era importante. Aí ela deixou, e já ficou lá na loja bisbilhotando as novidades. Além do mais eu prometi pro Seu Arno que eu vou com ele na Floricultura, para escolher os pinheirinhos de Natal.

- De Natal? Mas ainda estamos na primeira quinzena de novembro, falta muito tempo para montar a árvore.

- Mas como a gente usa pinheiro de verdade ele gosta de ir bem cedo e escolher os mais bonitos. Depois do Natal ele planta as mudas por aí. Ele me falou que já plantou mais de duzentos!

- Mas ele não passou por tantos Natais assim... – sorriu Fernanda.

- Não... mas ele planta mesmo quando não é Natal. Ele me contou que na terra dele tinha muitos pinheiros, por isso ele gosta deles.

- Aha... entendi.

- Eu gosto mesmo é de arrumar a árvore. Sou eu quem bota a estrela no topo!

Fernanda sorriu para Nina e a abraçou afetuosamente. Por momentos relembrou sua infância, e os Natais em sua casa, onde a criançada acabava sempre brigando por causa da estrela. E sempre era ela quem conseguia ser erguida no colo e colocava o símbolo máximo no topo da árvore. Sentiu uma ponta de melancolia e se deu conta de que estaria sozinha naquele ano, pois seria impossível deixar o trabalho naquela época. A loja iria funcionar até as 21:00h do dia vinte e quatro de dezembro. Provavelmente seria o dia em que as vendas atingiriam o pico do mês. Não teria como ir para casa de seus familiares. E seria o último Natal daquele milênio. Como que captando os pensamentos de Fernanda, Nina lhe perguntou:

- Tu vai pra casa da tua mãe no Natal?

- Não... não vai dar, vou ficar por aqui mesmo.

- E onde tu vai passar o Natal?

- Trabalhando...

- Não... quero saber depois do trabalho.

- Ainda não sei.

- Então por que é que tu não passa o Natal com a gente? – convidou Nina sorrindo – Lá em casa é bem legal! O Seu Arno se veste de Papai Noel, mas eu sei que é ele. – riu Nina – porque ele é muito magricelo e a barriga postiça fica caindo. Mas eu finjo que não sei que é ele, assim ele fica bem contente. Eu gostaria que tu fosse passar com a gente.

- Não sei...

- Não sabe o quê?

- Eu não gostaria de incomodar.

- Mas tu não incomoda! E a Val vai ficar contente se tu for.

- Mas ela nem imagina que você está me convidando.

- Mas ela gosta de ti.

- Ela falou isso?

- Não falou mas eu sei. Ela gosta.

- Bom, eu vou pensar, ok? Vamos combinar assim: a gente não fala nada pra Val e se ela convidar eu vou.

- Mas na minha apresentação tu vai, né?

- Vou, eu já disse que vou.

- Então tá. – disse Nina levantando-se e pegando sua mochila que estava no chão ao lado da mesa de trabalho de Fernanda – eu já vou indo. A gente se vê na sexta-feira.

- Até lá.

Fernanda se abaixou e abraçou Nina que lhe envolveu o pescoço carinhosamente repousando sua cabeça no peito de Fernanda enquanto passava a mãozinha por uma mecha de cabelo negro. Levantou o rosto e deu um beijo afetuoso na face de Fernanda. Abriu a porta e ainda virou-se para acenar um tchauzinho através do vão da porta. Fernanda permaneceu pensativa. De repente todo seu ímpeto de liberdade e independência sentia-se relegado a segundo plano, cedendo lugar a uma vontade de novamente passar um Natal em família, e o que era mais perturbante, junto a uma família que não era a sua.

 

Já passavam das oito horas da noite quando Fernanda finalmente terminou seus afazeres no escritório naquela sexta-feira. Olhou no relógio e se deu conta que lhe restavam somente quinze minutos para chegar até o anfiteatro da escola de Nina. Não teria tempo de passar no hotel e resolveu ir direto dali. Retocou a maquiagem e foi a pé, uma vez que a escola era bem perto dali.

Quando Nina pisou no palco a primeira coisa que fez foi passar os olhos na platéia. Na primeira fila estavam Valquíria, dona Eda e Seu Arno. Havia um lugar vago entre Valquíria e dona Eda, que ela havia pedido para a mãe guardar para Fernanda. Não conseguiu disfarçar o ar de decepção quando se deu conta que o lugar estava vazio. No entanto, no momento seguinte, os seus olhos brilharam e ela acenou de cima do palco para uma figura imponente que adentrava pelo corredor central do recinto. Nina fez um sinal com a mão indicando à Fernanda onde sua mãe estava sentada. Percebendo a movimentação Valquíria se virou e também acenou para Fernanda. Valquíria não pode deixar de contemplar aquela figura que se aproximava, ostentando um sorriso largo e encantador. Vestia um conjunto preto, saia e bleiser, com uma blusa de seda azul que lhe realçava a cor dos olhos. O cabelo estava preso num coque e brincos prateados em forma de pingentes lhe adornavam os lóbulos das orelhas. Os sapatos sociais, com salto, a deixavam ainda mais alta. O passo cadenciado e a figura imponente fez com que quase todos os presentes desviassem os olhares do palco e observassem sua caminhada até a primeira fila. Fernanda, tentando ser discreta, cumprimentou o casal de idosos e Valquíria com um aperto de mão. Instalou-se em sua poltrona reservada de antemão e acenou discretamente para Nina, que sorriu de orelha a orelha. A menina vestia uma túnica amarelo ouro, assim como os demais artistas, e tinha o cabelo preso numa trança. A apresentação durou cerca de uma hora e meia, onde se apresentaram os aprendizes de flauta, violão, teatro e dança. No final, após os aplausos onde todos os que se apresentaram voltaram para o tablado, Nina correu até a beirada do palco e Fernanda pegou-a no colo, trazendo-a para a platéia.

- Meus parabéns, garota! Você toca muito bem! – disse Fernanda.

- Obrigada. – respondeu Nina orgulhosa.

- E essa roupa está muito bonita também.

- Eu adoro amarelo!

- Bom, - disse dona Eda – nós vamos indo. Hoje temos um aniversário para ir, de uma amiga do grupo da terceira idade. Nosso jogo fica pra semana que vem.

- Estão com medo da revanche, ein? – brincou Fernanda.

- Não mesmo – respondeu Seu Arno – espera só até a próxima. Vai ser outra lavada! – e sorriu para elas.

- Tudo bem... vamos ver. – disse Fernanda.

O casal se retirou e Valquíria disse:

- Bom, vamos jantar lá em casa?

- Tenho uma idéia melhor. Que tal um jantar fora para comemorar a performance da nossa artista?

- Não sei.

- Olha só, é por minha conta. Eu quero retribuir o jantar da semana passada. – emendou Fernanda.

- Tá bom. – concordou Valquíria.

- Uêêêba!!! – gritou Nina.

Nina abraçou Fernanda e saiu caminhando a seu lado, apresentando-a a seus coleginhas toda orgulhosa.

- Essa é a Fernanda, minha amiga!

Fernanda retribuía os cumprimentos enquanto Valquíria se divertia com a situação, pois Nina estava deixando Fernanda tonta, tamanha agitação e ânsia de apresenta-la aos colegas. Fazia tempo que Valquíria não via Nina tão feliz num evento da escola. Elas pegaram um táxi e foram até um restaurante próximo à entrada principal da cidade.

Já instaladas numa mesa de canto conversavam animadamente enquanto esperavam que o garçom trouxesse o pedido. Fernanda elogiava a apresentação de Nina, para alegria desta e orgulho da mãe coruja. Nina havia tirado sua túnica amarela e estava com um vestido em tom lilás, com minúsculas margaridas amarelas estampadas em toda sua extensão. O cabelo solto, cuidadosamente escovado antes de sair de casa já apresentava sinais de rebeldia, fazendo com que Valquíria prendesse as mechas encaracoladas com uma presilha em forma de borboletas, evitando desta forma que as madeixas invadissem o prato de comida da menina.

- E então, a flautista está com fome? – perguntou Fernanda.

- Muuuuita!

- Que bom, porque lá vem o nosso pedido.

Os olhos de Nina brilharam em frente ao prato de batatas fritas com bife.

- Nunca vi ninguém gostar tanto de batatas fritas. – riu Valquíria.

- Crianças sabem o que é bom... – emendou Fernanda.

- Eu também adoro panetone... – disse Nina – ainda bem que o Natal tá chegando...

- Falando em Natal, - disse Valquíria – um passarinho me contou que certa amiga nossa não vai passar com a família...

Fernanda olhou rapidamente para Nina, fingindo uma cara feia. A garota disfarçou daqui, disfarçou dali e disse:

- Ai, desculpa, eu sei que tu pediu pra eu não falar, mas escapou.

- Sei... – disse Fernanda.

- É verdade então. – falou Valquíria.

- É. Não vai dar para ir. A loja funciona até a noite, não ia dar tempo.

- Nós gostaríamos muito que passasses o Natal conosco – continuou Valquíria. – Somos só Nina, Seu Arno, Dona Eda e eu. É a nossa grande família!

Fernanda sorriu e assentiu:

- Obrigada pelo convite. Eu vou sim. Mas chego tarde.

- Não tem importância, a gente sempre espera a meia noite mesmo.

- Então está combinado.

- Ôba!!! – disse Nina num gritinho.

- Como essa época de final de ano é agitada. Eu ando bem cansada. Tenho praticamente morado dentro do hospital. – disse Valquíria.

- Em tudo que é lugar é assim. Na loja também. Quase não tenho tempo de respirar! Mas não me queixo, pois é a melhor época de vendas. Mas depois do Ano Novo tudo volta a normalidade...

- Pois é...

- Quando é tua próxima folga? – quis saber Fernanda.

- Neste domingo, porque?

- Nada... é que eu tava pensando... eu quero dar um pulinho na capital. Mesmo não indo para casa no Natal quero mandar alguns presentes. Meu avô é fascinado por antiguidades e aos domingos tem uma feira muito interessante, o Brique da Redenção, conhece?

- Conheço.

- Que tal a gente ir até lá?

- Bom...

- Se você não estiver muito cansada, é claro. Não quero atrapalhar o teu descanso.

Nina acompanhava aquele diálogo com a maior atenção, controlando sua vontade de dizer: "aaaah... vamos?..."

- Tudo bem, acho que vai ser ótimo fazer um programa diferente.

- Eu vou adorar!!! – exclamou Nina, mal cabendo em si de contentamento.

Elas terminaram de jantar e novamente pegaram um táxi para voltar para casa. As primeiras a desembarcar foram Valquíria e Nina.

- Então vamos combinar assim: no domingo eu pego vocês aqui por volta de oito horas, pode ser?

- Está ótimo. – respondeu Valquíria.

- Então, uma boa noite às duas!

- Boa noite. – respondeu Valquíria.

Nina estendeu os braços e Fernanda pegou a menina no colo:

- Muito abrigada por ter ido. Eu fiquei muito feliz. – disse Nina dando um beijo carinhoso no rosto de Fernanda.

- Foi um prazer, querida. Eu adorei ter ido.

Nina abraçou Fernanda bem forte e lhe deu mais um beijo estalado na face. Fernanda a colocou no chão e entrou no táxi que a aguardava. Nina e Valquíria acenaram para ela antes de entrarem em casa, enquanto o táxi se afastava lentamente. De volta ao hotel Fernanda custou a conciliar o sono. Sentimentos estranhos estavam perturbando seus pensamentos nas últimas semanas. Realmente estava se afeiçoando de uma forma muito especial àquela menina meiga de cabelos revoltos, e à mãe dela também.

 

No dia seguinte, sábado, Nina mal conseguia conter sua expectativa. Quando Valquíria chegou em casa, por volta das dezenove e trinta horas, a menina já havia separado sua roupa para o dia seguinte, os acessórios que combinavam, o par de tênis, a mochila e o óculos de sol com armação estilo gatinha. Valquíria foi obrigada a rir, ela própria não era tão organizada quanto Nina. Logo após a janta a menina foi se deitar, como que para o tempo passar mais rápido. Valquíria sentou na sala, em frente à televisão ligada, porém seus pensamentos estavam muito longe. Pensava em Fernanda, em seus olhos azuis, em seu sorriso encantador, em seus cabelos perfumados, em seus atributos físicos... e um calor começou a invadir-lhe os sentidos. Resolveu tomar um banho frio. E depois foi se deitar.

 

No dia seguinte, um amanhecer num céu azul sem nuvens prenunciava um domingo quente e ensolarado. Fernanda acordou cedo, deu uma caminhada, tomou uma ducha e um bom café da manhã, vestiu uma calça jeans corsário e uma blusa regata de algodão em cor salmão. Calçou seus tênis e pegou sua bolsa esportiva a qual colocou atravessada nas costas. Prendeu o cabelo num rabo-de-cavalo e escolheu um de seus óculos de sol, o que considerou melhor adequar-se àquela vestimenta. Pegou a chave de seu carro e dirigiu-se para o estacionamento do hotel. Ao passar pela portaria Otávio cumprimentou-a:

- Bom dia, dona Fernanda!

- Bom dia, Otávio.

- Vai dar um passeio?

- Vou. – respondeu Fernanda enveredando na direção do estacionamento.

- Dona Fernanda, - interveio Otávio – a senhora quer que eu peça para trazer o seu carro?

- Não, obrigada, pode deixar que eu mesmo pego. – respondeu alegremente já cruzando a porta de saída do hall do hotel.

 

Conforme o combinado, às oito horas ouviu-se uma buzinada na frente da casa de Valquíria. Nina, que já estava pronta desde as sete horas, gritou para sua mãe que ainda estava terminando de se arrumar:

- A Fernanda chegou!!! A Fernanda chegou!!!

- Tô indo! – respondeu Valquíria – Vai indo para o carro e diz que eu vou já.

- Fuuui! – respondeu Nina e saiu correndo para o portão de entrada.

Fernanda havia saído do carro e abraçou Nina afetuosamente, erguendo-a no colo:

- E aquela tua mãe enrolada? Já tá pronta ou a gente vai ficar esperando muito? – brincou Fernanda.

Nina riu e respondeu:

- Já tá vindo aí.

Fernanda acomodou Nina no banco de trás ajustando o cinto de segurança na criança. Em menos de cinco minutos Valquíria foi ao encontro delas. Após fechar a porta da frente e assegurar-se de que Nina não havia esquecido de colocar água e ração para Pipoca cruzou o portão de saída do pátio. Fernanda a aguardava sorridente do lado de fora de seu carro, de braços cruzados e escorada no capô do veículo. Valquíria não conseguiu esconder seu ar de satisfação ao vê-la e retribuiu o sorriso encantador. Passados os segundos da troca de olhares Valquíria observou o carro no qual estava prestes a entrar. Foi tomada de surpresa, pois esperava fazer uma viagem de Gol, o que já conhecia, da loja. E o que se descortinava à sua frente era a visão de uma magnífica BMW prateada, quatro portas, com cheirinho de recém ter saído da concessionária.

- O que é isso? – perguntou Valquíria boquiaberta.

- Olha, pelo que me conste é um carro estacionado, com uma menina dentro, e uma mulher encostada do lado de fora.

- Gracinha... – respondeu Valquíria esboçando um sorriso frente ao deboche de Fernanda. – Estou me referindo justamente ao carro.

- Então respondi certo.

- É teu?

- Olha, eu ainda não costumo furtar veículos e levar inocentes moças para um passeio antes de assassina-las.

- Debochada!

- Bobinha...

- Eu perguntei porque nunca entrei num carro desses.