A Imperatriz e a Guarda Real

By M. N. Silva

Contato: xena.m.n.silva@gmail.com


Uma fanfic de

 

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Entre o poder e o dever - um dia de sol

 

No segundo dia após a partida de Xena e amazonas, Gabrielle resolvera ir ao templo de Artemis fazer algumas doações às Sacerdotisas e conversar com elas sobre alguns caminhos que pensara e já tinham a aprovação da Caçadora.
A princesa das amazonas trácias não desejava que seu status fosse conhecido, então dispensou um séquito devidamente constituído em seus trajes formais e armas completas.

- Gabrielle, isso não é adequado. Tens que ir escoltada e sabes que não tenho escolha. Ephiny me esfolaria viva se algo te acontecesse e eu não tiver te cercado das melhores atenções possíveis, sem falar naquela que está com ela.
- Nada vai acontecer Assoyde, mas se ficas mais feliz, vamos como um grupo ao templo e prosseguiremos assim.
- Gabrielle, sabe que isso não é suficiente!
- Podem usar armas se elas não aparecerem e isto não está em discussão. Vou ver se as sacerdotisas precisam de algo e não iniciar uma guerra.
- Providenciarei alguma coisa princesa, mas sua guarda estará presente em toda sua capacidade.
- Eu não sou uma prisioneira e não serei dominada e vigiada. Faça como desejar, mas não quero enxergar arcos, lanças ou qualquer coisa que possa dar a entender que estejamos belicosas e isso é uma ordem comandante. Boa noite Assoyde.
- Sim alteza. Será feito como determinado. Boa noite Gabrielle.

Assoyde adquiriu neste instante um profundo e desmedido respeito por Ephiny ao perceber que não era simples caminhar entre as necessidades e os desejos da Casa Real. A comandante da guarda de Gabrielle estava em sérios apuros e com o que sabia da imperatriz, Ephiny seria o menor dos seus problemas se algo acontecesse com a irmã de Melosa.

Assim ia pensando Assoyde quando passando pelas guardas do aposento, encontrou Cora no corredor.

- Precisas de algo Assoyde? Teu semblante indica que o peso de Atlas foi aliviado indo parar em teus ombros.
- Estamos muito encrencadas Cora. Gabrielle insiste em ir ao templo e que não é permitido irmos totalmente armadas.
- Ela comentou algo sobre o templo, mas não tinha falado nada quanto a nossa companhia ser menos formal.
- Você tem alguma ideia?
- Sim, na verdade tenho, mas talvez não te seja adequada aos brios.
- Estou aberta a qualquer sugestão minha irmã, por mais que pense não descubro uma maneira de garantir a segurança desta maneira. Se for bom, faremos.
- A Conquistadora fez o General Terquien responsável pela segurança de Gabrielle em Corinto e não pareceu nada protocolar como a segurança dos demais embaixadores. Pessoalmente responsável, ela disse.
- Sim, mas qual a ideia?
- Leva a ele tua preocupação e as ordens recebidas e certamente ele espelhará nossos receios pela segurança da princesa. Se ele espalhar Falcões por Corinto e mesmo no templo, muito do risco será diminuído. As mulheres poderão agir mais livremente e certamente Helena, Narda, Kahina e Tarsila com algumas outras posicionadas adequadamente no templo farão um cinturão de segurança completo. Nós acompanharíamos Gabrielle armadas em seus termos e poderíamos ter algumas irmãs fazendo o percurso à distância como peregrinas ou nos telhados.
- Certo. Não me agrada contar com homens, mas é o melhor que podemos fazer nesta circunstancia. O orgulho não pode ser maior que a segurança de Gabrielle. A alternativa seria não dar a mínima atenção aos seus desejos, porém este é um caminho que não quero trilhar com a Escolhida de Artemis. Até amanhã Cora.
- Até amanhã comandante.

Assoyde dirigiu-se ao andar de baixo onde ficava o aposento e o gabinete do general.

- Por favor, anuncie ao general que Assoyde das amazonas solicita uma audiência.
- Sim capitã.

O Falcao não esquecera o posto de Assoyde no exército e com certeza Dietar não era um tolo.

- Assoyde das amazonas está aqui para vê-lo general.

Mesmo estranhando, Terquien sabia quem era ela e o fato de ter substituído Ephiny na guarda de Gabrielle.

- Que entre Dietar.

Assoyde entra e aguarda Terquien reconhecer sua presença. A comandante das amazonas trácias teve, a contragosto, que reconhecer que ele não era como os outros homens e procurava trata-las com o devido respeito e da forma que faria com camaradas de armas.

- No que posso servi-la comandante?
- Estamos com um problema general. A princesa deseja ir ao templo de Artemis amanhã pela manhã e não podemos ter uma guarda ostensivamente armada.
- Muitas das suas foram com sua majestade, então não vejo razão para os Falcões não ajudarem a compor seus números, comandante.
- Não se trata apenas de números general. Recebi ordens de não conduzir armas a vista ou máscaras, no entanto não posso deixar a segurança da Casa Real frágil ou a descoberto.
- Repito minha pergunta inicial comandante: como posso ser útil?
- Pensei que os Falcões e principalmente as Falcões poderiam organizar um cinturão de proteção no caminho até o templo e suas cercanias. Minha princesa estaria segura e suas ordens teriam sido respeitadas, pois dizem sobre nós e não sobre eles.
- Sem problemas. Darei ordens para que Falcões garantam as ruas de Corinto a partir de agora e algumas invisíveis de Elthor se coloquem de maneira estratégica dentro do templo e próximo a este, com ordens de atender seus comandos e àquela que secundar você.
- Agradeço por isso general. Boa noite.
- É o mínimo que posso fazer para atender a embaixadora de sua Nação comandante. Boa noite.




- Bom dia Cassandra!
- Bom dia princesa.
- Não precisa me chamar assim Cassandra, sempre serei Gabrielle pra você.
- Gosto de usar seu título Gabrielle, ele é adequado a você. O que lhe apetece no desjejum?
- Chá, posta de carne, figos, pão de mel e sua companhia servirão bem. Como tem passado? Como vão as coisas aqui?
- Tenho ido muito bem princesa. Por mais que deteste a situação tenho que reconhecer que alguém me auxiliando mais pessoalmente tem colaborado para as tosses desaparecerem. Ao que parece a Conquistadora sabe muito mesmo como sanadora.
- Alênia não está mais com você, como tem sido então?
- A Conquistadora trouxe outra jovem. Ao que parece elas caem das árvores ou brotam dos rios.
- Entendo. Mas como está o trabalho nas cozinhas? Posso enviar algumas amazonas se o serviço está pesado.
- Não faça isso princesa. Só de imaginar estas armas por perto de minhas panelas fico nervosa. A ausência de nossa senhora deixou um vazio enorme na agilidade necessária para as refeições, mas possibilitou fazermos uma limpeza mais profunda nas dependências e principalmente nos fogões e assadores. Tenho gente suficiente pra isso, a casa é bem servida de escravos e servos.
- Eu lembro. Sei como é, pois temos a mesma questão quando Melosa viaja em missão ou caça. Quando eu atuava na taverna de Amphipolis, apenas a noite conseguíamos realizar as limpezas mais demoradas e somente duas vezes a cada verão fazer desta maneira profunda que referes.

Cassandra trabalhava enquanto falavam e prontamente estava servindo o pedido de Gabrielle.

- Este pão de nozes fiz ainda a pouco.
- Sabes que é o meu preferido. Vou ao tempo de Artemis logo mais. Desejas algo da cidade?
- Não princesa, obrigada, porém se lhe agradar algo especial para o almoço ou um lanche no meio da tarde não se furte de comunicar que providenciarei.
- Combinado. Até mais tarde Cassandra.
- Até mais tarde alteza.

Gabrielle encaminhou-se para o centro de Corinto a pé e suas irmãs lhe acompanhavam. Seus mantos longos cobriam as espadas que levavam rente a lateral da perna e suas facas dispostas em forma de “x” nas costas na altura da cintura. Iam com os rostos a descobertos e para um observador desatento pareciam um grupo de mulheres em compras num dia de mercado ou jovens que buscavam os templos para ofertar aos deuses.

O templo estava cheio de mulheres que pediam a intervenção de Artemis para suas crianças, por um parto tranquilo e uma vida saudável e feliz. Em volta dele e em suas escadarias, mulheres aglomeradas com bebês no colo, outras que não podiam caminhar e crianças das mais diferentes idades. Com semblantes miseráveis e famintos ficavam jogados estendendo as mãos aqui e ali, suplicando em nome da virgem caçadora por algum alimento ou dinares que possibilitasse amainar a fome.

- Assoyde envie uma corredora ao palácio e peça para Cassandra providenciar setenta pães a serem trazidos aqui em duas marcas de vela. Mande alguém procurar um padeiro ou pasteleiro e compre alimentos deles, traga-os e distribua.
- Gabrielle não é aconselhável diminuir nossos números.

Não dando a mínima atenção ao que escutou, Gabrielle continua a emitir comandos.

- Assoyde, reúna as crianças e distribua alguns dinares em nome da caçadora.
- Esta aparência de necessitados é um truque para enganar os incautos e de coração leve Gabrielle. Certamente sumirão correndo velozmente assim que receberem algo e levarão para quem os dirige. É um bando coordenado que vem aqui buscar dinheiro para vagabundos que provavelmente estão se embebedando em algum canto da cidade.
- Agradeço sua preocupação comandante, mas faça como pedi, por favor.
- Você não deve se expor assim. Alguém mal intencionado poderá perceber que distribuis dinares e resolver que vales o risco de uma ação mais ofensiva que poderia machucar-te ou pior.
- Assoyde, apenas faça o que pedi e não discutamos, por favor.

Foi o brilho no olhar que contrariava a voz suave, ou a força de sua mão pressionando o braço direito da capitã interina da guarda, mas Assoyde vislumbrou a Caçadora na figura de Gabrielle e não teve dúvidas de que a filha de Leto havia guiado sua Escolhida.

– Sim alteza.

Assoyde chamou sua irmã e em tom baixo, mas premente emitiu as ordens cabíveis para atender Gabrielle.

- Kleith! Busque duas irmãs e reúna algumas crianças, distribua estes dinares e preferencialmente faça como algo de tua própria mente em nome da Caçadora. Envie Zulkar ao palácio com um pedido de Gabrielle para a confecção de setenta pães que devem ser trazidos assim que estiverem prontos. Ela os quer em duas marcas de vela.

Kleith chamou Zulkar, Kasha e Silica e foi cumprir suas ordens. Para qualquer observador eram moças abastadas que buscavam o favor de Artemis através da caridade às crianças. Kleith sabia bem interpretar este papel.

- Vamos indo Assoyde, nossas irmãs nos encontrarão lá dentro depois.

A comandante não emitiu uma palavra, limitando-se a sinalizar à Squiona e Samira para adiantarem-se e abrir caminho para Gabrielle até o altar.

Com certo passo organizado na prática dos verões passados em treinamento, avançavam em formação de ponta de flecha, com Assoyde fechando ao lado esquerdo de Gabrielle e suas duas irmãs a frente, outras fechavam o lado direito e mais atrás.

Este grupo ia avançando muito lentamente, pois Gabrielle já havia manifestado que não desejava animosidades.

Até o meio do templo as pessoas iam dando espaço e as amazonas tiveram seu transito bem tranquilo. No meio do Templo tiveram seus passos barrados por um grupo de mulheres que não abriram espaço e por seus trajes era evidente terem vindo de Atenas.

- Assoyde, desviemos pela esquerda.
- Certo.

Fazendo um sinal a Squiona que dobrassem ali. Assoyde começou a desviar, agora frente na flecha da formação, sendo barrada por parte das mulheres que agora cercavam o avanço das amazonas, tendo aquela que parecia ser a líder manifestado sua contrariedade.

- Chegamos há dois dias e não vemos sentido em ceder espaço para vocês, pois se queriam ser atendidas primeiro deveriam ter chegado antes.

Assoyde fez discretamente um sinal e prontamente todas sob seu comando lentamente foram tomando posição de ataque. As Falcões posicionadas nas galerias superiores do templo chamaram seus arcos mais para si e espaçadamente tomaram conta do parapeito e suas irmãs na formação colocaram o braço direito para trás acariciando o cabo de seus  punhais.

Novamente a mão de Gabrielle toca o braço direito de Assoyde, recebendo imediata atenção.

- Sim Gabrielle?
- Esta senhora tem razão Assoyde. É um absurdo que demore tanto para uma audiência com a sacerdotisa. O fato de a imperatriz desejar a resposta a uma pergunta não deve passar acima da ordem de chegada.
- E qual a pergunta que a imperatriz tanto deseja ver respondida menina?
- Isso é com a Conquistadora e a sacerdotisa do templo.
- Você está mentindo e isso é uma estratégia perigosa moça. Não se deve usar o nome da Conquistadora falsamente e menos ainda em vão.

As amazonas iam reagir ao que consideravam um insulto à sua princesa quando Gabrielle pôs em execução um plano que traçou no momento que divisou Narda e Kahina no altar, completamente uniformizadas e próximas as saídas laterais para as salas internas do templo.

- Por favor, senhora não nos entregue para as Falcões. Apenas desejávamos falar com a Sacerdotisa de Corinto antes de voltarmos para nossa terra.

Fazendo um sinal espalhafatoso para as Falcões do altar a mulher diz em alta voz seu pensamento nada acolhedor.

- Deviam ter pensado nisso antes menina.

Ao ouvir a súplica de Gabrielle Assoyde fez um sinal para Narda que juntamente com Kahina abriam caminho facilmente, se aproximando do grupo e nem bem tinham chegado com três reforços a mulher que as chamara foi falando com muita autoridade sobre o que havia acontecido.

- Estas aí tentaram desrespeitar a ordem de chegada alegando ter mensagem da Conquistadora para a sacerdotisa. Esta pequena inclusive disse que a tal mensagem dizia respeito apenas à Imperatriz.
- Por favor, oficial eu apenas desejava chegar rapidamente à sacerdotisa. Não cometemos nenhum crime.

Compreendendo o estratagema de Gabrielle, Narda faz um sinal acintoso e as Falcões uniformizadas que acompanharam a situação colocaram-se ao redor do grupo, com as arqueiras no parapeito armando seus arcos a vista de todos.

- São somente vocês ou existem mais em seu grupo?
- Tenho três irmãs que chegarão breve me procurando. Iremos com você oficial, mas juro pela Caçadora que não tentei fazer mal algum.
- Sigam e vamos ver a relação que tens com a Conquistadora. Você fica aqui Tarsila e conduza as irmãs até nós.
- Ao seu comando.

Uma senhora de idade ergueu-se para defender Gabrielle e seu grupo.

- Por favor oficial, foi apenas um mal entendido entre a menina e esta senhora sobre a prioridade para ver a sacerdotisa. Não houve ofensa real a Senhora Imperatriz.
- Vamos ver isso nas salas internas e não criem tumulto.
- Se a Senhora Conquistadora desejar julgar a menina e ouvir testemunhas eu estarei lá oficial.
- Qual seu nome senhora?
- Sou Tamar de Ítaca e não me furtarei de comparecer. Estou hospedada na casa de parentes na zona dos vinhedos, na casa de Beltiminio. É fácil encontrar.
- Lembrarei disso. Constará em meu relatório.

A acusadora de Gabrielle não se dava por vencida. Ela não captou o sorriso jocoso entre Narda e Kahina e continuou neste tom oficial e de julgamento.

- Não se pode permitir que usem o nome da Conquistadora como passe. Seria um desrespeito com a Imperatriz.
- Qual seu nome para que eu possa relatar corretamente tal dedicação senhora?
- Sou Ylevana oficial e venho das terras mais ao noroeste de Atenas.
- Fique tranquila Ylevanaque esta noite mesmo estas mulheres estarão como hóspedes da Conquistadora no palácio.

O templo inteiro foi testemunha daquelas sete jovens saindo levadas até a porta lateral e sumindo na parte interna. Muitos se penalizaram e outros concordaram com a mulher que fizera tal acontecer. O templo ficou comentando o episódio e o assunto serviu para reunir grupos que pensavam da mesma forma.

 

 

A Sucessora

 

A coordenadora do templo fora avisada de que houvera tumulto e as Falcões do Império já estavam conduzindo as responsáveis para as salas internas. Duas sacerdotisas menores foram encarregadas de receber as oficiais e assumirem a guarda das acusadas, atendendo as representantes da Conquistadora no que fosse necessário.

Gabrielle sinalizara para Assoyde que mantivessem a linha de ação inicial e ela comunicou Kahina disso por meio de sinais utilizados no exército do império.

- No que podemos servi-las oficial?
- Estas jovens desejavam uma audiência com a sacerdotisa de Artemis e dizem ter uma mensagem da Imperatriz. Estavam criando tumulto no centro do salão principal do templo e resolvemos traze-las aqui.
- Qual é a mensagem?

A sacerdotisa se dirigiu a Assoyde que havia tomado a frente e tinha se mantido até ali como a principal figura. Não passou despercebido para as sacerdotisas noviças que ela havia entrado primeiro no aposento, indicando para as demais onde deveriam postar-se.

- Desculpe, mas como já foi dito antes, é entre a Imperatriz e a Sacerdotisa maior.
- Lamento, mas temos ordens de atender vocês e saber qual foi exatamente o problema.
- Neste caso posso apenas informar que sua majestade deseja que sejamos atendidas pela Sacerdotisa Maior sem demora.
- Transmitiremos a ela sua mensagem. Algo mais?

Neste momento Gabrielle intervém na conversa, pois somente ela conhecia este algo mais.

- Diga-lhe que a Caçadora deseja que a Senhora da Terra seja ouvida em sua plenitude.
- Diremos. Por favor, esperem aqui.

Sem aguardar muito começaram a entrar serviçais com frutas, pães e bebidas para Gabrielle e suas acompanhantes. As falcões ficaram impressionadas com a velocidade na mudança da atitude que passou de agressiva indiferença para reverencial atenção, quando a jovem sacerdotisa se dirigiu diretamente à Gabrielle.

- A sacerdotisa solicita que vocês estejam bem e sejam recebidas adequadamente, enviando suas desculpas pela demora e mal entendido. Ela está no banho cerimonial e já virá atendê-las pessoalmente e determinou que a senhora passasse ao salão de honra e seja atendida no que desejar senhora.
- Qual seu nome?
- Me chamo Aurea senhora.
- Não irei a lugar algum sem minhas irmãs Aurea, então estarei bem aqui ou elas irão comigo.
- Certamente elas podem acompanhá-la senhora e as Falcões da mesma maneira ou aguardarão aqui se preferirem.
- Assoyde, acompanharemos esta senhora e as Falcões irão conosco. Tome providencias para que nossas irmãs que estão sendo aguardadas possam ser inseridas em nosso meio assim chegarem.
- Certamente.

Sem contradizer Gabrielle Aurea apenas se curva e indica para sua irmã de fé que mostre o caminho. De uma forma muito rápida ela vislumbrou um vulto sobre Gabrielle no momento em que seus cabelos loiros assumiam tons avermelhados e seus olhos verdes luminosos emitiram por instantes um brilho prateado. Teve a sensação de estar frente a uma enviada da Caçadora, se não fosse a própria Artemis disfarçada.

As salas de honra espelhavam a anterior, porém mais amplas e suntuosamente decoradas, com estátuas da Caçadora nas mais diferentes posições. Estranhamente havia estátuas com todos os tipos de cabelos e penteados, referentes aos povos nas mais diferentes partes da terra onde houvesse um templo dedicado a Artemis, mas a altura e tônus da musculatura permaneciam inalteradas.

Uma mesa ricamente decorada com alimentos, frutas e vinhos das mais diferentes procedências foi providenciada. Cora adiantou-se e serviu água para Gabrielle, mas não sem antes provar-lhe o gosto. O mesmo com os alimentos que cada amazona serviu-se e as Falcões colocaram-se de prontidão nas portas internas. Assoyde determinou que quatro amazonas fizessem o mesmo nas portas atrás da tapeçaria e cortinas.

Aurea apenas observou tal cuidado e soube com certeza estar na frente de uma mulher especial. A Grande Sacerdotisa de Artemis em Corinto  penetrou nas salas um tanto surpresa com a juventude reunida e quando chegou frente a Assoyde foi recebida por esta, que entendeu que Gabrielle iria intervir quando achasse necessário como fez até ali. A Grande Sacerdotisa foi manifestando seu desconforto pelo tumulto que certas pessoas fizeram. Relatou a ação irresponsável em distribuir moedas e comida nas portas e escadarias do templo, assim como nas cercanias.

- Aquelas que vêm falar em nome da Imperatriz, mesmo que trazidas pelas Falcões da Conquistadora, são sempre bem-vindas em nossa casa. As Falcões de sua majestade são testemunhas do quanto honramos seu nome.
- Somos gratas pela recepção e pronto atendimento senhora. Os Falcões agem conforme determina nossa Imperatriz, assim como minha senhora atua nos ditames da Caçadora.
- Alguma irresponsável está distribuindo alimentos e dinares na porta do templo e isso somente atrairá mais pedintes do que o mel derramado atrai formigas ao sol. Isso não deve ser feito desta maneira pública e sem critério. Espero que as Falcões tomem providências para impedir estas ações que somente criarão tumulto e provocará o populacho de Corinto para convergir para o templo.

Gabrielle responde prontamente, mas com a mansidão que lhe é característica quando deseja contemporizar.

- Os alimentos e dinares foram distribuídos em nome da Caçadora e não é de seu agrado que crianças e mulheres pereçam às portas do templo quando seu tesouro é provavelmente bem revestido de pedras e preenchido de ouro, não faltando em seus depósitos comida, azeite ou vinho.
- O que uma criança como você sabe sobre a Caçadora? Meninas deviam calar enquanto mulheres de verdade trocam impressões e cumprimentos.

Tais palavras foram ditas de maneira brusca para Gabrielle que recolheu imenso silencio, porém suas irmãs sabiam ser apenas o prenuncio de uma tempestade.

Gabrielle apenas se afasta e mira a tapeçaria por algum tempo. No tapete há uma ilustração do nascimento da Caçadora e seu irmão na ilha de Delos. Virando-se para a sacerdotisa, sem alterar a voz e de olhos fechados Gabrielle fala em um tom que não permitia equívocos após uma respiração profunda.

- “Sou aquela que veio antes, a luz da noite e a direção da seta. Sou a que garante a provisão, orienta o caminho e protege o futuro na voz de cada criança. Vim para dar a força da mulher a cada nova geração, na verdade de que a união é sagrada e a lealdade a única forma de honra. Eu sou quem serves e não admito a arrogância e a prepotência magoarem os pequenos e aquelas que deverias proteger.”


Sendo copiada por suas noviças, a Grande Sacerdotisa do templo de Corinto vai a seus joelhos na frente de Gabrielle, pois aquelas foram as exatas palavras que ela pensara para explicar ao povo no grande salão do templo a verdade de Artemis quando estava no banho cerimonial. Ela tinha muita experiência com os Deuses para saber que era a Caçadora que falava pela voz daquela menina.

- Assim disse a Caçadora, Sacerdotisa. Estas foram suas exatas palavras para mim e que Sua casa deverá ser uma casa de proteção e não de exploração. Peço que me perdoe, pois não foi a maldade que ditou minhas palavras, mas o medo. Eu realmente não sei como atender este exército de necessitados que chegam a nossa porta todas as manhãs. Como poderemos ajudar? Somos tão poucas e as necessitadas tantas!
- Ergam-se, por favor. A Caçadora indicou-me que estas palavras deviam ser ditas ao ser atendida em sua casa por aquela que dirige o templo. Não há mal algum em tuas palavras a não ser o erro da direção de teus comandos e também a Conquistadora incumbiu-me de fazer saber sua intenção para com o templo.
- Fale e faremos conforme for determinado. A Imperatriz possui em nós fiéis súditas e acreditamos na justiça de sua palavra.
- É intenção da Conquistadora tornar o Templo da Caçadora lugar de orações, mas também de ações mais positivas. Haverá uma verba disponível esperando esta casa no Tribunal de Corinto em uma lua e a rainha das amazonas envia um convite para você e suas irmãs cearem com a princesa das amazonas trácias, embaixadora da nação em Corinto daqui a duas noites.
- Certamente, mas que ações positivas poderíamos ter feito ou deveremos fazer senhora?
- Em primeiro lugar vamos construir fornos no pátio interno do templo e criar uma maneira das mulheres conseguirem fabricar seus próprios alimentos. Em segundo, vamos organizar uma maneira de atender as crianças em suas necessidades básicas de alimento, vestuário e abrigo, estabelecendo uma forma de aprenderem a escrita e ao menos uma língua estrangeira para poderem ter chance de trabalho no comércio ou mesmo no mar se desejarem.
- Sou grata à caçadora e também à Conquistadora por enviarem a senhora como mensageira e garanto que faremos conforme suas recomendações.
- Peço que traga aquela que me acusou e escute suas necessidades com toda atenção, pois embora ela tenha sido agressiva em sua ação, sua intenção e reivindicação eram legítimas. Desejo saber suas solicitações à Caçadora e assim também sobre Tamar de Ítaca.
- Por favor faça como melhor lhe parecer e siga esta noviça que lhe mostrará um modo de ver sem ser vista e ouvir sem ser escutada. Obrigada senhora.

Assumindo um canto da sala seguiram a companheira de Aurea até uma reentrância que formava uma sala auxiliar com saída para uma escada dando acesso a um mezanino. Gabrielle e suas irmãs subiram e buscando assento nos divãs se posicionaram para acompanhar a entrevista de Ylevana de Atenas. As duas Falcões formaram guarda não na sala de honra, garantindo segurança para esta rota de acesso e certificando-se que Assoyde e as amazonas conseguiriam controlar as demais entradas. O mezanino já estava abastecido com alimentos, frutas e vinhos.

Sem muita espera a mulher que acusara Gabrielle e suas companheiras entraram nas salas de honra tendo a sacerdotisa o cuidado de colocá-las de costas para o mezanino de maneira que poderiam ser vistas e ouvidas sem as ocupantes acima serem detectadas.

- Me foi informado que desejavam uma audiência. Eu sou Vidioni, a responsável por este templo e a caçadora por vezes faz saber seus desígnios aqui. Como podemos ajudá-las?
- Eu sou Ylevana de Atenas e venho pedir a orientação de Artemis por uma possibilidade de sucesso junto a Conquistadora.
- Por que aqui e não no templo de Atena que é a protetora do império?
- Meu caso é sobre a discriminação que sofri por ser mulher e mais que a injustiça importa saber reverter esta atitude que levará cada vez mais as mulheres para um submundo que não lhes pertence.
- Fale sem medo Ylevana de Atenas e esperemos que este templo possa orientá-la em sua empreitada.
- Desde a infância eu e minhas duas irmãs temos tido o dom dos bardos e em sua sabedoria nossos pais nada nos negaram de ensino e oportunidades de aprendizado. Estudamos os grandes filósofos, matemáticos e historiadores, tendo recebido educação nas artes das ciências, mas é entre os bardos que nosso coração mais aqueceu, inclusive por duas vezes fomos companhia para a décima musa.

Por três anos tentamos ingresso na Real Academia de Bardos de Atenas e sequer fomos recebidas ou tivemos permissão para efetuar inscrição, buscando uma audiência ou sorteio no teste de seleção. No início deste verão nos foi indicado que para termos a menor chance de talvez sermos recebidas, deveríamos fazer uma contribuição de quinze talentos de ouro cada uma e ainda assim não seria garantido termos nossa audiência, menos ainda que ela seria imparcial. Ainda por várias vezes sugeriram que deveríamos nascer novamente e homens se realmente quiséssemos entrar na Academia. Este é meu caso e para apresentá-lo à Imperatriz precisamos da orientação da Caçadora.

Olhando para cima a sacerdotisa encontra uma Assoyde lhe sinalizando um pergaminho.

- Aurea, faça servir nosso melhor vinho às suplicantes de Atenas e vá ter comigo. Vocês esperarão aqui que irei consultar a Caçadora e verei o que posso fazer, se for vontade da Caçadora eu trarei sua resposta em breve. Fiquem bem.

A sacerdotisa vai até a primeira sala interna e envia Aurea ao mezanino na busca do pergaminho, enquanto eleva seus pensamentos para a caçadora, protetora das mulheres, das crianças e da natureza.

- “Artemis sagrada protetora das mulheres, Caçadora das florestas e Deusa da Lua orienta-me para que a Conquistadora encontre mérito na demanda desta que é como uma criança a teus olhos e seus sonhos inocentes. Que ela possa ser atendida em sua esperança, pois que a tal pedido flutua a aura da correção e do interesse não apenas próprio, mas de todas as mulheres.”

Vidioni dedicara sua vida ao serviço do templo da Caçadora e mesmo em sua avançada idade, aos quarenta verões, não estava preparada para o que viria. Uma voz clara e tão suave quanto forte surgiu em sua mente e tomada de temor ela foi aos seus joelhos reverencialmente, pois sabia ser a voz daquela a quem servia com devoção e orgulho.

“Não tema Vidioni. Ouvi tua súplica e resolvi trazer tua resposta pessoalmente. Atende as orientações que receberás e ouve àquela que as emitir, pois é em meu nome que ela o faz. Saiba que estou feliz contigo, pois soubeste reconhecer teu erro e buscar corrigi-lo. Saiba ainda que já escolhi a sacerdotisa que guiará o templo após teu tempo. Aurea entrou em minha graça, portanto a cuidar de hoje prepara-a com carinho e cuidado, pois ela assumirá tuas sandálias quando for o momento. Fica bem Vidioni, filha de Giana.”

Aurea retorna trazendo o pergaminho que Assoyde mostrara e aguardou pacientemente que Vidioni lhe desse indicação de reconhecer sua presença e desejar tomar conhecimento do conteúdo. Ele era simples.

“Faz com que narre quatro contos e depois hospeda-as no templo, levando-as contigo ao palácio para a entrevista com a princesa amazona se ela realmente demonstrar o talento que diz ter. Y .”

 

 

Dois irmãos e quatro vidas

 

Voltando às salas de honra Vidioni e Aurea transmitem às mulheres de Atenas a voz da Caçadora. Aurea se surpreendeu com a força daquela jovem que tinha ido ao templo e falava no palácio, pois era sabedora que somente a Conquistadora falaria com tal autoridade no império e na casa da deusa, como escolhida de Atena.

Olhando brevemente para cima, vislumbrou de forma rápida uma mulher de cabelos avermelhados e olhos verdes ao lado daquela que falara com a Grande Sacerdotisa no inicio da manhã trazida por duas Falcões do Império.

Aurea começou a explanação sendo seguida por Vidioni.

- Ylevana de Atenas, eis a palavra da Filha de Leto: devem narrar quatro contos e se tal for o mérito, que a Caçadora se compraza, te tornarás hóspede desta casa e tu e tuas irmãs irão ao palácio na segunda noite a contar de agora quando poderás solicitar uma audiência com a Imperatriz.
- Ouviremos suas vozes atentamente mulheres de Atenas e então será decidido. Se não houver mérito aos olhos da Sagrada de Delos, vocês serão convidadas a não mais buscar sua intervenção nem buscar o caminho da Real Academia de Bardos de Atenas.
- Assim seja feito. O que gostariam de ouvir?
- De vocês será a escolha e nossa a decisão. Nosso julgamento começará agora, mas comecem quando estiverem prontas.

Sentando-se nos divãs e sendo servidas de frutas e vinhos, ambas as Sacerdotisas se preparam para uma atenta audiência e as demais noviças acomodam-se no chão a seus pés, sendo que em nenhum coração flutuava a inveja pela posição que Aurea havia alcançado.

Ylevana olha para suas irmãs e orando para Artemis lhe entregar o dom da palavra, dá inicio à apresentação de suas vidas. Tinham certeza que somente com o apoio do templo de Artemis em Corinto  teriam ao menos uma chance de serem recebidas pela imperatriz em condições de defenderem seu caso.

-“Canto o amor entre dois irmãos e a formação de um povo corajoso e suas terras. Muitas luas após seu nascimento Apolo e Artemis estavam a competir com seus arcos sobre qual teria mais alcance e equilíbrio. O arco de ouro que Apolo recebera de seu pai ou o de prata que Artemis também ganhara do Tonante.
Alvos fixos, móveis ou longínquos não escapavam do olhar e pontaria dos gêmeos de Delos. Apolo  instigou a virgem caçadora a uma competição de tiro simultâneo onde ambos, de seus astros, lançariam setas ao mesmo tempo. Artemis determinou que para a competição ser justa não haveria visitas para Endimión, mas lançariam flechas no mar, com a permissão de Poseidon, o sacudidor da terra. Juntos acordaram que conseguiria o feito aquele que criasse o ambiente mais útil aos homens que nele fossem estabelecer-se e a própria Atena faria o julgamento da disputa. Aquele que tudo vê armou seu arco e a seta disparou que foi sumindo no mar. No local surgiu uma ilha de terra vermelha como seu carro ao ser guardado, árvores frondosas, animais exóticos e algumas montanhas. Artemis lança sua seta que após tocar levemente o solo da ilha, submerge bem próximo a ela. Nos locais onde a flecha da Caçadora tocou o solo foram sendo criados rios, córregos, lagos e cachoeiras com vegetação rasteira, muitas plantas medicinais. Circundando a ilha criou alguns viveiros para peixes com corais em algumas enseadas, mantendo ligações entre si e algas permeavam alguns espaços, com a navegação de fácil trânsito em cabotagem e também enseadas que tinham praias de areias brancas. Mangues povoados por pequenos animais propícios para alimentação dos homens que se fizessem ao mar para buscá-los. Assim surgiu a ilha de Ítaca, terra de Odisseu que lutou em Tróia, filho de Laerte. Foi formada a ilha abençoada por Atena nos instantes em que Hélios e a lua estavam alinhados e a terra escureceu ainda no meio do dia levando medo ao coração dos homens. Nike a deusa da vitória sorriu para Artemis, deusa da lua e do parto; protetora das mulheres; das crianças e das amazonas, suas filhas bem amadas.”

 

 

A pupila da conquistadora

 

Olhando para suas irmãs a barda vinda de Atenas sinaliza para iniciar a segunda apresentação da manhã.

“- Canto a ventura entre dois amantes.
No tempo em que a Grécia estava sendo dominada por senhores da guerra que invadiam os povoados, escravizavam, matavam e roubavam o fruto do trabalho de um verão inteiro, nem bem o ciclo das estações estava terminado, Mirenon foi invadida por mais um exército de homens, que nada sabiam a não ser extorquir e matar, um exército ergueu-se para defender o povo. A fragilidade da região estava na ausência de união entre as famílias poderosas, que tinham como defender-se e no fato do povo simples não apresentar nem força, nem uma liderança para fazê-lo. Foi neste tempo que um jovem criador de cavalos, que havia sido marinheiro nos mares ao sul de Esparta retornou para sua vila em atenção aos seus pais, já de idade avançada. Com sua experiência resolveu fazer algo para auxiliar aqueles que o viram crescer, tornar-se um homem e auxiliar os que viriam após ele. Com as lides dos cabos e velas também aprendera os caminhos das armas. Rapidamente organizou sua cidade para resistir aos bandidos que grassavam por toda a Grécia, mas nos últimos tempos atuavam fortemente em sua região e ouvira falar que no norte da Macedônia um exército estava sendo reunido com o mesmo propósito. Ainda que tenha deixado uma milícia relativamente pronta, sentiu que seu povo teria mais chances se tal exército viesse a protegê-los. O jovem arrumou quem apoiasse seus pais em sua ausência, partindo assim que conseguiu. Após cinco dias de cavalgada, interrompida apenas para dar descanso e alimento ao animal, ele encontrou o exército que procurava, sendo barrado pelos sentinelas. Causou-lhe espécie que as sentinelas o conduzissem a uma mulher, mas nada comentou e ele ouviu a voz daquela que lhe foi apresentada como uma oficial.
- Amanhã os novos recrutas serão testados e você pode sentar em qualquer lugar, deixando seu cavalo nas mãos dos tratadores. A comida será servida em duas marcas de vela e deves manter seus cobertores e armas com você.
No dia seguinte antes do nascer do carro de Apolo, todos os novos recrutas foram reunidos sendo colocados em um círculo, onde os oficiais ficaram na parte mais elevada do terreno, sendo que a mesma mulher que lhe falara na noite anterior estava estabelecendo as regras que vigorariam e regeriam suas vidas caso fossem aceitos.
- Neste exército não há espaço para covardes, egoístas ou insubordinados. A voz de quem nos comanda é lei e deverá ser obedecida. Traidores ou insubordinados são severamente punidos e não é permitido o roubo, a mentira, a pilhagem ou o estupro. Somos guerreiros e não a escória que buscamos combater. Aquele entre vocês que não concordar com este compromisso poderá partir livremente que nada lhe será cobrado, nada lhe será tirado, mas o que aceitar saiba que nossa missão está em livrar a Grécia destes parasitas, levar paz, segurança e prosperidade ao povo. Quem quiser desistir deve fazê-lo agora!
Seis homens se adiantaram.
- Tragam seus cavalos, coloquem provisões e que eles sigam em paz.
- Ao seu comando!
- Vocês agora serão testados, devendo lutar entre si até que reste apenas um em pé. Este irá enfrentar a mim.
Os homens combateram por quase quatro marcas de vela, ficando em pé apenas o jovem marinheiro, que enfrentou a oficial por meia marca até ser derrotado.
- Você receberá o comando de um grupo e está marcado como sargento. Jantará com a Espada de Ares, que em nome dele faz a guerra para libertarmos a Grécia. Todos devem tomar banho e fazer a barba. Sejam bem vindos.
No jantar o jovem caiu nas graças da Espada de Ares, sendo comunicado que sua unidade estaria disponível pela manhã. Lhe seria permitido relacionar-se com a oficial se fosse de sua vontade, não sendo a isso obrigado. Ele tinha captado o interesse da guerreira que o recebera e estava encantado por ela.
Juntos passaram as noites e fizeram uma dupla imbatível a servir a Espada de Ares. Quando a linda mulher morreu em batalha vitimada por quatro flechas traiçoeiras durante um confronto com um exército inimigo, ele ficou arrasado. Após o funeral ele tornou-se incomunicável por três dias, quando um ordenança entrou em sua tenda informando que estava sendo chamado na tenda de comando e a Espada de Ares não admitia atrasos. Lentamente reagiu e buscou atender aquela a quem servia:
- Ao seu comando!
- Não é admissível que continues assim. Sabemos que ela foi a melhor e quem mais entendeu nossa missão. Tens minha permissão para deixar o exército se for de teu desejo. Fala com Terquien e ele providenciará trinta talentos de ouro e um cavalo.
- Com sua permissão pretendo servir ao exército até meus dias sobre a terra terminarem comandante e realmente ela era a melhor, mas meu tributo a ela será uma Grécia livre destes animais que massacram diariamente.
- Xena! Podes me chamar por meu nome indicado Volaire assumirás o posto dela. Realmente ela era a melhor e dificilmente haverá no exército quem a substitua. Diga seu nome, pois os mortos podem ouvir os vivos e ela estará sempre ao teu lado assim que o fizeres.
O jovem guerreiro olhou sua comandante e entendeu o que estava sendo dito. Uma lágrima desceu por sua face e ele chamou num sussurro quase surdo, aquela que amara mais que a qualquer outra.
Callisto!


Aguardando um sinal da Sacerdotisa a irmã caçula de Ylevana inicia o terceiro conto.

Cyane
- “Eu canto a história de um tempo em que a Senhora da Lua estava feliz com a formação de seu povo e no norte havia uma tribo de guerreiras que sabiam seu valor. Canto a história de Cyane das Estepes e o caminho da Caçadora.”


Com este chamado ela obteve a audiência atenta de toda sua platéia e ao mesmo tempo de suas irmãs. Era um conto que lhe falava caro ao coração e guardara para um momento como este. Um conto que jamais contara em público e sequer suas irmãs tinham assistido.

“ Nos princípios vivia entre as mulheres uma jovem com o coração puro e alma forte que em tudo orgulhava os seus. Treinava arduamente para conhecer o caminho da guerreira, mas com igual ênfase se dedicava à cura, às plantas e ao caminho da vida. De todos os aspectos da vida em comum o que mais atraia a jovem era o nascer de uma nova existência. Tanto entre os animais de criação, silvestres ou nascer de outro ser humano a menina tinha uma inspiração divina e não havia parto difícil ou luta perdida. Muitas de suas irmãs deviam a ela e seus conhecimentos a vida e muitas deviam a vida de suas filhas, no que pese sua pouca idade. O grupo estava em uma partida de caça nos limites da terra amazona. Os sinais indicavam estarem próximos do seu objetivo quando encontraram um acampamento deserto, atacado por um grande urso. Os cavalos saíram carregando pessoas e não havia nenhuma a vista no campo. As amazonas cercaram a área e as caçadoras empunharam com mais firmeza suas lanças e arcos, mantendo o cerco de tal modo que o  animal não sairia daquele espaço. Havia movimento numa das barracas indicando que o urso ainda estava ali. Os olhos de Cyane não se enganaram quando ela divisou movimentos no catre da quarta barraca e ela não esperou mais. Invadiu o espaço agitando os braços e fazendo a maior algazarra. Gritava, assoviava e saltitava buscando chamar a atenção da fera que começou a se incomodar com ela. O urso disparou em sua direção e Cyane se preparou para desviar no último momento. Seis flechas cravaram-se no pescoço do urso, quase ao mesmo tempo que 3 lanças fixaram-se na costela. O animal enfureceu-se erguendo-se em toda sua altura e Cyane virou-se imediatamente para as arvores estendendo o braço. Uma lança cruzou o espaço caindo na vertical próxima de sua mão. Era o tempo exato. Firmando o pé da lança no solo e mirando sua ponta no plexo do Urso que insistia em lançar seus braços para alcançá-la com suas garras ela esperou. O próprio peso o traía e ele tombou varado pela lança da amazona que girando rapidamente saía de baixo deixando a terra receber esta força da natureza. Cyane não esperou para ver o resultado. Correu para a barraca onde jazia uma mulher em estado avançado de gravidez. Sua testa estava muito quente e seus tornozelos inchados. A coleira em seu pescoço presa por uma corrente à estaca no chão declarava seu status: escravidão. Examinando-a Cyane percebeu que não iria demorar muito para o nascimento e rapidamente buscou em sua bolsa as folhas que macerou com um pouco de água fria. Suas irmãs começaram a cavar ao redor da estaca para soltar a corrente do chão enquanto ela fazia o que mais gostava: tirar a dor. Ergueu a cabeça da mulher e instou-a a beber engolindo também as ervas que eram maceradas. Imediatamente a mulher engoliu e voltou a ficar com a consciência enevoada. Suas irmãs arrancaram a estaca deixando-a livre e sua comandante rapidamente foi dando ordens sobre quebrar o acampamento e organizar a caça.
- Não podemos removê-la agora. Teremos de pernoitar aqui comandante.
- Isso não é aconselhável Cyane e sabes disso. Não apenas por que os que abandonaram essa aí poderão voltar, mas é fora de nossos limites.
- A caçada teve sucesso. Despachemos alguém para buscar auxilio e levar o resultado como o novo tapete pra cabana da rainha. Devemos ficar aqui até ela voltar a si. A criança está em risco e não podemos permitir uma piora.
- Ela está quase morta Cyane e não vejo sentido em arriscar nossas vidas por um cadáver.
- Ela tem chances e a criança dentro dela também.
- Os que prenderam esta mulher podem voltar e embora os sinais indiquem serem poucos ainda são em maior número que nós.
- Em nome da Caçadora peço permissão para ficar. Artemis não levará de espírito leve uma afronta aos princípios que nos guiam apenas por uma questão de comodidade e segurança comandante.
- Não ficaremos Cyane. Atenda-a como quiseres, mas as amazonas voltarão para sua trilha antes do esconder do carro de Apolo e isso está encerrado.
- As filhas de Artemis nunca foram conhecidas por covardia. Eu não retornarei sem que ela esteja segura e seu destino conhecido e se eu tiver que pagar com minha vida toma-a agora comandante, mas eu não agirei de maneira covarde. Não vou abandoná-la!
Poderia ser pelo findar do dia e os reflexos vermelhos da luz solar ofuscar a comandante da partida de caça, ou o tom firme com que aquela jovem menina proferia palavras de força tão antiga. A voz de Cyane soou como um rosnado e o vento surgiu com força tão rápido quanto cessou. A comandante tomou sua decisão de maneira inequívoca, deixando para a rainha decifrar os caminhos da Caçadora que ela apenas intuía.
- Acalma-te pequena e não seja tão pronta a julgar tuas irmãs quando estão pesando entre várias leis e a situação em mãos. Tomem a guarda de perímetro em três estádios, montem fogueiras e tu Dylina vai buscar ajuda para levarmos nossa carga para a aldeia amanhã. Fica com tua paciente Cyane e que a rainha ouça e meça tuas palavras.
Assim era o agir daquela que se tornou a mais grandiosa rainha amazona depois de Mirinia que suplantara a grande Pentesileia que participou da Guerra de Troia.
Cyane das Estepes se tornou uma lenda e seu exemplo ainda hoje é seguido em fazer valer os ditames da Caçadora, deusa protetora das crianças, do parto, das mulheres e das amazonas.
Os ditames de Artemis, deusa da lua.”


- Tres contos já estão suficientes por agora, o quarto contarão no jantar. Depois serão informadas do resultado. Por favor, sigam esta noviça que lhes mostrará seu quarto.

 

 

 

Continua...