A Imperatriz e a Guarda Real

By M. N. Silva

Contato: xena.m.n.silva@gmail.com


Uma fanfic de

 

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Melosa

 

“Canto a coragem de uma jovem rainha que ascendendo ao trono após a morte de sua mãe em combate, tudo fez para estabelecer a paz de seu povo e manteve seu caráter guerreiro e as tradições em concordância com a prosperidade e o futuro. Uma rainha justa e sábia. A Representante de Artemis na Terra. Canto a história de Melosa das amazonas Trácias e sua viagem para encontrar a sabedoria do Norte. Desde cedo ela fora preparada para o momento em que assumiria o lugar de sua mãe. Melosa ia adivinhando a amazona que cavalgava à frente que apresentara-se como enviada da rainha Cyane e seria a responsável pela segurança do grupo até chegarem na vila. Acostumada com as deferências devidas aos membros da Casa Real, a princesa trácia ia avaliando a missão que a trouxera para estas paragens, mas seu pensamento firmara-se na guarda. Ela era simplesmente linda. Seu cabelo negro abaixo dos ombros contrastava com sua pele branca. Seus olhos escuros realçavam o vermelho de seu lábios que usavam algum tipo de tintura, conferindo a eles um tom mais noturno. Usava ter a sobrancelha fina delineando um olhar firme. Seis pés de altura e seu corpo torneado e forte deixam explicito não ser fácil vencê-la em qualquer confronto. Afrodite assim seria, se seus cabelos negros fossem. Irina era um membro destacado da guarda real e as conduziam à presença da rainha que era a mais jovem a assumir tal posto. Cyane assumira aos dezesseis verões e a cada estação deixava mais aparente sua ligação com a Caçadora que tinha nela uma escolhida. Melosa ia ladeada por quatro amazonas fortemente armadas seguida de quatro jovens da tribo pessoalmente escolhidas por sua mãe para esta viagem enquanto cinco guerreiras fechavam a formação. O restante do cortejo era formado por amazonas do norte. Ela olhava o caminho com atenção buscando identificar os fios invisíveis que sustentavam os alarmes e armadilhas pelo caminho e Eucadia ia conversando com Irina sobre a melhor forma de proteger quando em comboio. Um fio de energia perpassava o cortejo das amazonas trácias. Suas anfitriãs as buscaram no inicio do território após as vilas portuárias e já estavam em meio às estepes. Ephiny gostaria de saber quando aquele vento cessaria e Assoyde ia silenciosa, buscando mentalmente corrigir as flechas que sairiam de seu arco aos mais diferentes alvos do caminho. Conseguia imaginar e visualizar a trajetória de cada seta que pudesse ser disparada.
- É conhecida a sabedoria de tua rainha Eucádia, mas penso temerário trazer amazonas tão jovens em uma viagem tão desgastante.
- A rainha tem seu próprio pensamento Irina, mas acredito que toda viagem é uma ótima oportunidade para qualquer guerreira. Elas são jovens e estão tendo o devido acompanhamento.
- Não duvido . Certamente são um orgulho para a Nação ou não estariam acompanhando a princesa.
- Melosa tem uma maturidade que seus verões não deixam adivinhar e as quatro saberão portar-se a altura. Como é a rainha Cyane?
- Uma rainha justa e sábia. A princesa dá muito trabalho?
- Melosa é muito confiante e como guerreira é totalmente dedicada. Esta viagem fechando o terceiro ciclo a deixará pronta para assumir o trono quando chegar a ocasião. Treina arduamente e sabe controlar seu temperamento, mas ainda tem muito a aprender quanto ao uso de armas ou do poder.
- Tenho certeza que será proveitosa sua estada conosco. Tranquiliza-te Eucádia que o caminho está guardado até a tribo.
Melosa nada dizia e a jovem Solari andava com olhar atento a escritura no solo e muitas vezes se perguntou que animais habitariam tal vastidão. Eponin apenas cavalgava manuseando o punhal de um dedo para outro, marcando os passos do cavalo com a troca de empunhadura. Chegaram na aldeia e tudo fazia sentido. Cyane era um assombro como persona e lenda. Sua aura de liderança podia ser sentida no brilho de cada amazona da tribo. Seu nome era reverenciado não com idolatria, mas com paixão. A rainha das amazonas do norte aguardava a comitiva vinda da Tracia com a tranquilidade de que tudo estava sendo feito conforme fora ditado por Artemis e assegurara de enviar Eucádia para conduzir suas visitantes o que significava sucesso. Não havia espaço para erros. Desejava conhecer Melosa, pois a jovem princesa era uma grande promessa na Nação.
“Da Grécia será a amazona que levara a Nação à sua grandeza e tu vais conduzi-la no caminho da Caçadora. Tua é a responsabilidade de transmitir segredos que nas Estepes são guardados. Acolhe com sabedoria Cyane.”
Estas foram as palavras que ouviu nos vapores após o banho quando assumiu no lugar de sua mãe. Estava curiosa sobre o que esta princesa carregava de tão especial para a própria Caçadora manifestar-se, se é que seria sobre Melosa o aviso. O grupo se aproximava calmamente e tinha certeza que Irina e Eucadia haviam conversado sobre as principais diretrizes. Todas desmontaram em grupo com a guarda abrindo posição e apenas Melosa e suas acompanhantes se aproximaram de Cyane e colocando o joelho direito no solo se fizeram conhecer.
- Saudações majestade, que longo seja seu reinado e próspero o seu povo. Minha rainha envia seus cumprimentos e respeitosamente solicitamos permissão para sermos aceitas e aprender entre nossas irmãs.
- Ergam-se amazonas e que sua estada entre nós seja proveitosa. Patro irá se responsabilizar pelas jovens que iniciarão imediatamente seu treinamento entre nós. Tua cabana já está preparada e Irina que você já conhece, irá servi-la pessoalmente Melosa. Tua guarda está sendo esperada para instruções com nossa mestre de armas e terá aposentos na cabana junto a tua, no outro lado da praça principal. Todas estão convidadas para a festa em sua honra que iniciará quando a lua estiver a meio caminho do ponto mais alto. Descansem agora. Sejam bem vindas.
Todas se ergueram e foram realizar seus deveres e tomar ciência da hospitalidade do Norte. Cyane volta para sua cabana e solta os cabelos, largando suas armas sobre a mesa.
- Como foi a viagem Slyana?
- Tranquila e sem ocorrências maiores. Irina veio conversando com a comandante da guarda e o restante do grupo veio em silêncio. As jovens estavam observadoras do caminho e a princesa se manteve calada todo o trajeto.
- Converse com todas da comitiva, desejo um relatório antes da festa. Diga a Patro que as jovens devem ser ensinadas sobre filosofia, leis, ciência, história e funções de armas. Não as quero perto da princesa em nenhum momento antes de duas luas. Ela tem quatro noites pra descobrir qual a melhor arma de cada uma delas e principal habilidade.
- Certamente.
- Descanse até o inicio da noite e diga para Irina fazer o mesmo.
Antes do cair da noite as jovens guerreiras da Tracia estavam alojadas, alimentadas e sendo instadas a contarem de suas experiências na tribo. Patro ia conduzindo a conversa para o treinamento do dia seguinte que iniciaria com o alvorecer e ao mesmo tempo dando indícios de que a festa será memorável. Seu amor pela vida não deixava em nada transparecer a feroz guerreira presente. Seu sorriso iluminava como a lua dirigia as andarilhas no caminho da noite. Morena, de estatura mediana estava sempre a olhar o entorno antecipando o revoar dos pássaros e sabendo em antemão o caminho do vento. Era um espírito livre, de mente aguda e autodeterminada. Deixou claro que dispunha de seu tempo como melhor lhe conviesse e somente uma fala de Cyane ou sua comandante faria ela modificar seus planos. Embora tenha assentido como esperado, seus olhos contrariavam a concordância que emitia, pois ser guardiã de cinco visitantes não era como pretendia passar a primavera. Esperava transformar este dever em fonte de prazer como fazia com tudo que lhe caia nas mãos. Eponin estava encantada com a liberdade que irradiava desta que lhe indicaram ser sua tutora e isso não lhe passou despercebido.
A cabana destinada a Melosa era ampla, com dois cômodos e uma área de privacidade para atender aos chamados da natureza. No primeiro cômodo estavam cadeiras, uma mesa, uma lareira e o tapete de um enorme urso e no segundo aposento a maior cama de peles que já havia visto. Alta, daria para sentar confortavelmente e ainda apoiar os pés no chão. Camadas e mais camadas de almofadas cobertas por várias peles costuradas conferindo uma firmeza que impedia de afundar na maciez, o que dificultaria os movimentos rápidos e precisos em caso de emboscada ou outras situações. Com um sorriso leve ao pensamento de quantos outros movimentos lhe ocorria experimentar, Melosa tinha em mente sua recente acompanhante e certamente Eucádia não diria nada em contrário. Afinal, a própria rainha Cyane formulou a designação. Pensando em Irina, a princesa trácia jogou-se na cama e buscou descansar enquanto seu equipamento era transportado.
- Estaremos na cabana ao lado se precisares de alguma coisa. Deixarei uma das guardas em tua porta. A festa será em cinco marcas de vela.
- Não! Vocês estão sendo aguardadas junto a mestre de armas e não é necessário guardas entre irmãs. Já tenho minha acompanhante permanente Eucádia. Nos veremos na festa.
- É o protocolo Melosa, sabes disso.
- É o comando de Cyane, não se fala mais no assunto. Até a noite.
- Até a noite Alteza.
Duas marcas de vela depois Melosa acorda e percebe a presença de outra pessoa na sala ao lado. Levanta sabendo de antemão de quem se tratava.
- Conseguiste descansar Irina?
- Sim Alteza, obrigada.
Por muitos instantes ficam uma olhando a outra sem nada dizer. 
- Seu banho está preparado Alteza.
- Obrigada Irina, você me acompanha?
- Claro.
O espaço para banhos era confortável com uma banheira que caberia uma pessoa em todo seu comprimento e havia uma esponja com produto para banho. Melosa ficou nua e entrou nas águas tépidas. Esperava algo gelado e foi uma agradável surpresa esta quebra no frio, embora não chegasse perto das águas termais da Casa Real da Trácia. Irina tomou a esponja e o sabão de banho e começou a esfregar o corpo da princesa, sempre do alto para baixo e das extremidades para o centro do corpo como manda a boa medicina, auxiliando a circulação do sangue para o coração.
- Entre meu povo, não é de bom tom estar vestida quando se acompanha a realeza no banho Irina. Convidei-te para participar do banho e não para usar ser uma serva.
- É necessário que minha atenção esteja voltada para suas necessidades princesa. Meu corpo pode e deve esperar.
- Entre nas águas comigo e farei que minhas necessidades sejam conhecidas.
Irina não esperou um segundo convite, se é que poderia ser chamado assim. Rapidamente deixou as roupas no canto mais seco do ambiente e entrou nas águas tirando a poeira da estrada de sobre seu corpo. Foi uma experiência estranha ver sua visitante insistindo em lavar seu cabelo como ela havia feito. Estavam frente a frente quando Melosa resolveu demonstrar pessoalmente o que significava mapear o corpo. Buscou os seios de Irina com sua boca, não sem antes um olhar profundo solicitando permissão, que foi dada num silenciado respirar.
- A lareira está acesa, talvez seja melhor irmos experimentar o que o amigo urso tem a nos oferecer.
Lentamente Melosa conduziu a amazona para a sala ao lado fixando-se no tapete frente a lareira e começou a explorar o território. Irina não era uma inexperiente. Sabia exatamente onde tocar e levar seu tempo. Por muitas contagens o prazer foi revezando entre vendavais e brisas, ondas e labaredas. As sombras que as chamas faziam nos corpos dançando iam sendo percorridas por dedos, línguas e olhares.
- Creio que é momento de tomarmos um banho a sério. Falta pouco para a festa. Está tudo bem?
- Sim alteza.
- Então irei dormir e sugiro que faças o mesmo. Me acorde em uma marca de vela por favor.
- Sim alteza, mas não poderei dormir agora. Tenho algo a preparar para a festa. Durma tranquila que chamarei.
A música chamava para a reunião e os pratos servidos iam passando entre as convidadas com os cortes previamente feitos. Frutas, pães, queijos e caça em abundância faziam parte desta festa com os peixes estando no topo da lista de especialidades e o ritmo marcado convidava pra um movimento em grupo.
A rainha Cyane circulava entre suas irmãs sem grandes espalhafatos, fazendo parte da conversa nos pequenos grupos. Eucádia e suas cinco acompanhantes tentaram formar um grupo para trocar impressões, mas de maneira sutil suas atenções foram chamadas para este ou aquele evento, não possibilitando uma reunião. As quatro pequeninas foram espalhadas nos cantos da festa e não estavam próximas o suficiente para trocar uma palavra e nem desejavam. Tudo era novo e tudo era diferente. Patro havia sido muito específica sobre suas funções na festa: Se divertir. Tudo era permitido dentro da capacidade de seus corpos e desejo de seus corações. O vinho corria solto e peles de carneiro estrategicamente colocadas nos cantos mais privados da praça convidavam a descansar ou realizar uma dança mais horizontal. Os vários tambores criavam uma memória e estranhas flautas feita de osso traziam uma melodia harmoniosa e ao mesmo tempo frenética. Um instrumento com cordas esticadas e tocado com um arco produzia um som mais agudo que ia se modificando dependendo do movimento dos dedos de quem o manuseava.
Diferente de sua tribo, perceberam que as amazonas do norte dançavam em grupo, tocando-se e fazendo o movimento andando em um círculo ou vários. Em determinados momentos se desligavam e o movimento dos corpos no espaço formavam várias figuras. As mãos eram batidas no ritmo dos tambores e uma amazona adentrava ao centro, mostrando habilidade, coordenação e equilíbrio sem perder o ritmo. Estas demonstrações ritmadas do controle corporal também era feito em duplas. Finda a apresentação eram substituídas por outras e assim avançava a dança por muitas marcas de vela. Repentinamente os tambores cessaram.  Uma pequena marcação era feita de forma suave com instrumentos feitos apenas de madeira oca e as flautas juntamente com o instrumento de corda ficaram mais lentos, quase um lamento, acompanhado pela voz de quatro amazonas que cantavam ao mesmo tempo uma melodia que jamais haviam ouvido, uma melodia que se repetia indefinidamente. A língua lhes era desconhecida.

Ratznavêra a a aa  ierá ri áa ro.
Iakemaketsuuuierá ri á rô.
Kaioozt vikânáuierákavêriáaaa.
Ratznavêra a a aa  ierá ri áa ro  uhuhuhuuuuuuuu   uhuhu uuuuuuu uuuu
Iutsáaa maielôkiaveriá maseia ireatzuveiko kiaveriá maseiá. Iatuso maielkioveriá
Ratznavêra a a aa  ierá ri áa ro  uhuhuhuuuuuuuu   uhuhu uuuuuuu uuuu

Cyane mira fixamente uma amazona de sua guarda real que conversava com a mestre de armas e Eucádia. Melosa acompanha o olhar da rainha que parara na amazona ruiva de cabelos ondulados. Seus olhos verdes eram de uma limpidez impressionante. Deixando suas interlocutoras para tras, a amazona se aproxima da rainha que a enlaça pela cintura e seguindo a música faz passos certos, sincronizando movimentos e a batida do coração. Foram tomando conta do espaço central do paço de danças. Os corpos estavam tão unidos que seria interessante pensar que não se soltariam mais. As mãos da rainha passeavam pelas costas de sua acompanhante e levemente estendeu-se por sobre o contorno dos braços que enlaçavam seu pescoço. Aproximando seu rosto, Cyane começa a beijar suavemente o rosto, fixando seus lábios junto a boca num beijo prolongado. Agiu como se fosse um sinal. Vários pares assomaram ao centro e dançavam abraçadas. Algum tempo depois esta canção deu lugar a ritmos mais excitantes e os tambores voltaram a marcar em ritmo frenético as danças coletivas.
Puxando sua acompanhante pela mão Cyane das Estepes apresenta-a às suas visitantes que haviam se reunido para melhor assistir a dança.
- Conhecias a capitã de minha guarda Eucádia?
- Apenas de nome majestade. Foi uma digna performance minha irmã.
- Cyane me concede esta honra de tempos em tempos. Minha rainha é uma mulher muito sábia. Tão sábia quanto bela.
- Esta é Melosa das amazonas da Trácia. Melosa, esta é Amarice, capitã de minha Guarda Real.
- Foi uma linda dança.
- Vocês não dançam na Trácia?
- Sim mas não como isso. Foi... vamos dizer... empolgante !
- Sinta-se livre para se empolgar entre nós Melosa. Amarice não estará disponível mas certamente Irina irá auxiliar no que precisar. Se teu coração acelerar por outra, basta manifestar tuas intenções. Todas são livres para aceitar um convite. Você também está livre Eucádia.
- Agradeço majestade, mas minha noite está inteiramente voltada para a princesa.
- Deixe disso Eucádia. Não preciso de uma fiscalização constante e tenho Irina por perto. Aproveite a noite.
- A princesa está certa Eucádia. Muitas de minhas irmãs gostariam de ter um contato mais prolongado com as visitantes. Circule mais pela festa e seja feliz. A guarda está muito bem estabelecida e as escoteiras fecham os acessos até a vila perfeitamente. Aproveite a noite por que amanhã o dia será longo e difícil.
- Obrigada Amarice, mas Melosa é responsabilidade minha.
 A voz de Cyane não deixou dúvidas.
- Não Eucádia, Melosa é responsabilidade minha. Vá se divertir e deixe ela em paz. Amanhã poderás voltar a manter teu olhar de falcão.  Tu Irina, apresenta nossas danças pra Melosa. Boa noite senhoras.
- Boa noite majestade.
Levando Melosa até a área de dança, Irina convidou a princesa trácia a ouvir a música e buscar realizar seus próprios movimentos. Ambas estavam neste fazer quando uma segunda amazona ingressou no grupo e começou a imitar os movimentos e uma terceira, quarta e quinta. Quando Melosa percebeu eram mais de quarenta amazonas realizando o mesmo movimento no mesmo ritmo. Repentinamente o grupo se abriu em um círculo mantendo apenas a princesa ao centro. Eucádia estava pronta pra intervir no que entendia ser uma exposição desnecessária quando foi segura pelo braço por uma Patro sorridente.
- Não se meta, sua princesa irá se sair bem.
- Eu devo protege-la Patro.
- Ela não está sendo ameaçada. Fique tranquila e desfrute o momento.
Melosa começou de modo tímido e os tambores marcavam um ritmo tranquilo acelerando gradativamente e a coreografia que estava sendo criada ampliava em dificuldade. Quando a música cessou uma arquejante e feliz Melosa foi ovacionada e aplaudida por suas irmãs. Novamente a canção lenta começou a ser tocada e as amazonas lado a lado esperavam que a jovem princesa escolhesse quem teria a honra de acompanhá-la. Melosa ergueu-se e encaminhou-se para Eucádia com um semblante ainda sério. Abriu seu sorriso e tomando a mão de Patro voltou ao centro, criando um movimento uno com a morena. Assinalou à Irina que se juntasse a elas e agora era um trio que movia-se como um só ser. Ao final da música Melosa pegou as mãos de ambas e dirigiram-se para sua cabana, passando por alguns pares que estavam descansando nos velos.
O carro de Apolo recém estava dando mostras de seu andar quando Eucádia entrou na cabana de Melosa sendo barrada por uma Irina já desperta sinalizando o caminho lateral.
- O que traz você aqui tão cedo Eucádia?
- As instruções começarão logo mais e vim ver se Melosa estava acordada ou precisava de alguma coisa.
- Ela está bem. Dorme agora o terceiro sono, mas brevemente acordará. Recebi instruções de deixá-la dormir e Cyane vai ter com ela apenas no almoço. Até lá ela tem seu tempo livre.
- Isto está errado Irina e sabes disso. Não viajamos tão longe para que Melosa passe a dormir até mais tarde. Uma guerreira não é nada se não estiver atenta e pronta pra batalha antes do carro de Apolo sair no céu.
- O tempo é medido diferente por aqui  e se Cyane deseja que Melosa descanse como quiser é assim que será sem interferências. Pelo que sei vocês cinco deveriam estar com a mestre de armas e as jovens irão ter com Slyana daqui a algumas contagens. Patro se encarregará disso.
- Não quis ofender Irina, apenas cumprir meu dever.
- Cyane disse ontem Eucádia que a princesa é nossa responsabilidade e todas são na verdade. Vieram ter conosco e aprenderem nossos modos, então te sugiro que esqueça a maneira como fazem as coisas na Trácia e se foque totalmente em seguir as diretrizes que são dadas. Isso será impossível se continuarem a agir como se estivessem em suas terras.
- Está bem Irina e obrigada pelo conselho. Até mais.
- Que a Caçadora esteja com vocês minha irmã.
Três luas haviam se passado e as amazonas da Tracia mostraram em nada ficar atrás de suas irmãs. Seja na caça ou na guarda dever todas eram capazes e resolutas. As quatro jovens e a princesa Melosa eram ávidas por aprendizados e camuflar-se naquele terreno arenoso e seco fundamentava uma nova forma de se portar. Ficou determinado e evidenciadas as armas preferenciais: Melosa usaria chobos, Ephiny a espada curta, Assoyde o arco, Solari o bastão e Eponin os punhais. Assim, seria ao menos duas horas no dia o treinamento específico desde a quinta noite em terras do norte por ordem de Cyane. O arvorismo estava na ordem do dia e seguir pistas era prioritário. A caça se tornou obrigação das cinco jovens que passaram a dormir apenas quatro horas initerruptas e o que mais conseguissem durante o dia e muitas vezes a fome e a sede foram suas companheiras. Após a caçada o esfolar a presa e preparar a carne era função de uma delas alternadamente. Não sairiam das terras do norte sem este conhecimento. Patro mostrou-se uma grande mestra e era no convívio que tinha sua maior arma para o ensino. A lua foi encontrá-la sobre o posto de observação acompanhando uma Eponin cada vez mais encantada com os costumes do norte.
-Tu tens andado muito calada Eponin. Algo a preocupa?
- Não sei se o que sinto é apropriado Patro. Estou cada vez mais interessada nas armas e tudo que envolve isso. A maneira como Slyana utiliza o tempo no manejo das armas curtas é impressionante e é útil na caça como na defesa. Espero aprender o suficiente para continuar meu treinamento quando retornar à Tracia.
- Isso é louvável Eponin e os indícios de observação que aprendeste até aqui já será útil na jornada de retorno, mas não é isso que a preocupa. Queres partilhar teus pensamentos? Sinta-se livre para isso.
- O que nos foi ensinado esta tarde sobre esfolar...  realmente falavam de uma pessoa?
- Desligar a pele do corpo, sem ferir a carne requer muito treino. Existem maneiras de se obter informações ou justiça que são mais cruéis que isso Eponin. Temos de ter em mente as amazonas que salvamos se utilizarmos este processo.
- O que alguém teria de fazer para merecer um tratamento tão violento? Não me entenda mal Patro, eu o faria se fosse necessário, mas que crime mereceria tal punição?
- Qualquer um que a rainha decidir assim. Esta é a maneira pela qual nós temos nos estabelecido nestas terras por gerações. O batismo de sangue tem sentido quando é no sangue das gerações passadas que firmamos nosso modo de vida e nossa liberdade. Sem esta luta poderíamos ser escravizadas ou transformadas em objetos como ocorre nas cidades onde o homem comanda. Nossa força também é vida, alegria e vitalidade Eponin. Ser guerreira é muito mais que lutar para não morrer.
- Eu sei, mas me parece tão errado. Parece coisa de Hades ou Ares e não das filhas de Artemis.
- Assim é a vida da guerreira Eponin, mas há algo mais. Fique certa que o que disser aqui será apenas entre eu e tu. Tomo Artemis como testemunha.
Eponin mediu a sinceridade de sua orientadora e jogou os cuidados ao vento. Já havia prometido a si mesma que não deixaria passar a oportunidade se ela surgisse.
- Quando estou perto de ti meu corpo treme. Muitas vezes perco o foco e esqueço das instruções prestando atenção apenas no som de tua voz. Fico imaginando como seria se nós tivéssemos criado o momento mágico em que deixaria de ser uma cria e formasse com as guerreiras da tribo.
- Eu não tenho paciência com iniciantes Eponin. Este momento deve ser mágico para ambas as mulheres e não um espaço onde uma guiará e a outra será guiada. Realmente eu não sou boa pra isso. Provavelmente haverá momento em que Suaguini será ofertado e tu poderias te arrepender de não ter esperado.
- Falei com a princesa Melosa e ela não se opõe. Eu não sou iniciante. Não tenho vasta experiência, mas suaguini se deu pouco antes de alcançarmos tuas terras. Eucadia me disse que uma guerreira sabe o momento de segurar e o momento de lançar o punhal e que é somente dela a decisão. Eu te quero Patro, quero como nunca quis nada na vida.
- Tu és jovem e tua vida é muito curta para teres esta medida. Espera para tomares a decisão com o coração livre.
- Eu estou livre. Posso morrer hoje. Posso morrer amanhã e não terei vivido ou experimentado coisas que apenas o reino de Afrodite nos trazem. Quero experimentar contigo.
- Veremos. Termina teu turno de observação e se teu desejo ainda se mantiver, vá ter comigo junto as pedras na beira do lago atrás do terreno sagrado.
- Estarei lá. Espere por mim que estarei lá.
- Veremos Eponin, veremos.
Patro entra na cabana que dividia com Slyana parecendo um vendaval.
- O que está acontecendo Patro? Teu potro fugiu novamente?
- Antes fosse Slyana. Aquela morena que veio da Tracia está querendo que eu a conduza no campo de Afrodite. Ela está cheia de ideias românticas e desejos. Cyane não verá com bons olhos eu deitar com uma amazona que me foi confiada para orientar. Estou na caça de campo sem cavalo isso sim.
- Fale com Amarice. Certamente ela terá algum conselho para lhe dar nesta situação. O que você fez?
- Já falei com a capitã e ela autorizou duas noites de aprimoramento nas cavernas. Marquei com a menina no lago quando terminar seu turno de guarda. Se tem idade para lutar, tem idade para ser feliz.
- Entre elas como será? Suaguini? Ela é tão jovem.
- Creio que não será problema. Ela é muito dedicada e tem tempo e tamanho pra isso. Sua princesa autorizou. Ela quer, então vou fazer as honras.
O nascer do sol encontrou uma Eponin ansiosa adentrando a margem do lago. Não demorou muito Patro chegou puxando dois cavalos pelo cabresto.
- Vamos Eponin, quero te levar onde os céus encontram a terra.
Cavalgaram em direção às montanhas e uma cadeia de montanhas era vista até sumir no horizonte. De igual forma o planalto se fazia notar ao longe.
- Esta é nossa terra e nos abriga tanto na guerra quanto na paz Eponin. Venha comigo.
Uma caverna na encosta da montanha deixava claro que não era a primeira vez que Patro usava o local. Uma fogueira já estava armada e velos colocados estrategicamente ao fundo faziam saber ser esta a Caverna de Afrodite que tanto Eponin ouvira falar.
- Ao fundo tens uma fonte. Banhe-se e venha pra cá usando esta toalha ou não. É tua a escolha.
- Certo.
Enquanto Eponin ia se banhar, Patro providenciava algo de alimento para ambas. Eponin voltou pensando em como iriam driblar o frio que começava a dar sinais de sua presença e como fariam a segurança de um lugar tão amplo e longe da aldeia.
- Cuide para que o assado não queime de um lado enquanto eu vou até a fonte e não te preocupes que o caminho está guardado. Breve estarei de volta.
Foram duas noites e dois dias em que ambas as mulheres visitaram o Reino de Afrodite. Patro estava descobrindo o prazer de tocar um campo nunca antes cultivado, pois certamente a experiência de uma noite com Melosa não qualificava Eponin com a mais requintada das amantes. O que ela não tinha em conhecimento superava em muito com entusiasmo e dedicação. Todo seu corpo estava alerta para os sinais de sua companheira e os vários toques possíveis e posições alcançáveis a jovem amazona grega estava descobrindo e oportunizando. Certamente as filhas de Artemis honraram Afrodite. Eponin encontrou com Melosa e suas irmãs trácias duas marcas antes do almoço do terceiro dia. Eucadia sabia impossível, mas Eponin parecia meio pé mais alta e com as costas ainda mais largas. Sua postura modificou, seu andar era mais forte e suas mãos não paravam de fazer bailar o punhal. Algo havia ocorrido. Ela estava mais segura, decididamente mais feliz e mesmo que não falasse nada era nítido que alguma coisa havia mudado Eponin para melhor. Seja lá o que Patro dirigiu a jovem morena a fazer, despertou nela uma segurança e foco que ainda não havia nas demais componentes da comitiva. Nem Melosa havia alcançado tal desempenho. Na manhã do quinto dia da lua crescente, Melosa havia sido convocada à cabana de vapores da Rainha Cyane e todas as amazonas dispensadas. A guarda de Melosa estava em treinamento com a mestre de armas quando Eucadia viu a jovem princesa encaminhando-se para lá e o movimento de debandada que dali partiu chamou sua atenção. Fazendo um sinal para sua acompanhante, Eucadia abandonou a área de treinamento e deu uma corrida até o local sendo barrada por uma Irina que já a aguardava escorada no portal de acesso, enquanto Amarice fazia um sinal circular com a mão direita e a guarda real fechava o perímetro da cabana de vapores.
- Onde é o incêndio Eucadia?
- O que está acontecendo aqui? Por que estão todas se afastando e está sendo fechado o perímetro?
- Ordens da rainha: somente ela e a princesa na cabana. Até as atendentes saíram.
- Não vou ficar parada e ver Melosa ser utilizada para conforto de ninguém e não chame sua espada Irina, pois você não é páreo pra mim. Nem você Amarice.
- O perímetro da cabana está sendo feita pela guarda, mas não temos permissão para levantar contra as visitantes Eucádia e sabes disso. Pretendes ignorar a rainha? Amarice não permitirá, nem que tenha de responder por suas ações mais tarde.
- Saia da minha frente Irina e eu irei impedir o que estiver acontecendo lá dentro, nem que eu tenha de responder por minhas ações mais tarde. É como tem que ser.
Irina se desencosta do portal e olhando para Amarice dá um sorriso ao divisar Patro junto à capitã da guarda real. A guarda abre espaço para um avanço resoluto de Eucádia que tem sua passagem bloqueada por quatro amazonas de sua própria tribo.
- Eu sinto muito mamãe, mas você não passará . Estas são nossas ordens e juro pela Caçadora que seja o que for que está para ocorrer na cabana de vapores irá transcorrer sem interrupções. Mirem nos joelhos.
Uma Ephiny empunhando uma espada barra o caminho de Eucádia, seguida por uma Solari com seu bastão ladeada por uma Eponin armada com dois punhais e por uma Assoyde empunhando um arco de curta distância um pouco mais afastada . A seriedade das jovens deixava claro que não era um exercício e ela conhecia sua filha o suficiente para saber que ela não estava blefando.
Elas ficaram frente a frente imóveis por muitas contagens até que Eucádia afastou-se andando para trás alguns passos voltando a seu treinamento sem olhar pra trás e cinco marcas de vela depois Melosa e Cyane saíram da cabana de vapor em direção ao campo de treino sem se aperceber da tensão que pairava entre suas súditas.
Cyane rapidamente convida Eucadia para um treinamento mão a mão tendo seu convite imediatamente aceito antes que Slyana fizesse qualquer gesto para impedir.
Foi uma luta veloz e violenta. Os golpes de Eucádia não eram moderados e buscavam sempre as pernas da rainha das Estepes. Apenas a grande forma física de Cyane conseguiu mante-la afastada dos chobos que a guarda manipulava com perfeição e Melosa entrevia no olhar de Eucadia algo mais que simples concentração de treino. Por uma marca de vela o ritmo não esmoreceu e Cyane resolveu por fim à contenda. Afastando-se o suficiente para não ser atingida ela levanta a mão direita e faz o sinal que interromperia a luta. Eucádia abaixa os chobos mas não tira o olhar da Rainha das Estepes.
- Foi uma boa luta Eucádia e vejo que a Tracia esta produzindo guerreiras de valor como sempre. Descansa agora e nos veremos no jantar. A ordem de separação está revogada, vocês podem interagir como bem desejarem. Vamos Slyana e tu Amarice treine Melosa por meia marca, mas não use este ritmo de combate’.
Com estas palavras Cyane dirige-se à cabana cozinha para tratar de outras diretrizes com o Conselho.
Passaram-se cinco noites e na última manhã a comitiva para o porto estava preparada. Usariam a cidade portuária de Uriev na Cólquida que levaria até o porto de Abdera. Dali seguiriam a cavalo. Patro, Slyana e a jovem Kantua seguiriam até a Tracia e lá ficariam até serem chamadas de volta.
- Sigam com as bênçãos da Caçadora e lembra-te sempre Melosa que devemos seguir os ditames de Artemis ao guiar seu povo, mesmo que doa em nosso coração. Fiquem bem.
- Seguiremos com o povo das Estepes em nossos corações e os ensinamentos de sua grande rainha se farão notar na Tracia. Fiquem bem majestade e que a Caçadora possa sempre brilhar seus caminhos.
Assim foi o encontro de duas gigantes do povo amazona e neste encontro que firma a amizade e a unidade da Nação fica claro que a Caçadora faz conhecer seus desígnios e eles são exercidos na terra.
Por vários instantes se ouvia apenas o respirar dos presentes até que uma salva de palmas que mais parecia ter o Tonante trazido seu poder a terra se estendeu por várias contagens. Silvos, assovios, batidas na mesa e todo som que pudesse demonstrar o apreço pela história recém ouvida deram esperança e alegria ao coração da barda.
Gabrielle ergue sua mão e o barulho vai diminuindo até não ser mais ouvido.
- Foi uma grande história esta e sua maneira de contar traz a certeza que os diretores da Academia de Bardos de Atenas estão loucos em deixar partir tal talento. Farei tudo ao meu alcance para que tenham a acolhida merecida neste centro de aprendizado, mas garanto que nos templos de Artemis vocês terão palcos abertos para serem ouvidas sempre que desejarem. Basta tratarem com a Sacerdotisa local e este é um decreto para todo o Império e Nação Amazona.
Novamente as palmas ecoaram e as lágrimas que escorriam pelo rosto das jovens davam a medida de sua felicidade.
A recepção terminou sem mais surpresas e a Sacerdotisa de Artemis em Corinto ficou aliviada de saber que agora o tesouro do Império iria prover de recursos as atividades usadas para auxiliar os necessitados e não apenas junto ao templo de Atena.
Tamar foi agraciada com um colar e a certeza de que onde precisasse encontraria nas amazonas auxilio e conforto e uma princesa muito preocupada sentiu uma ponta de tristeza ao pensar que seu amor estava demorando muito em voltar. Queria Xena em seus braços o quanto antes.

 

 

Uma caçada nada convencional

 

No dia seguinte as amazonas partiram em expedição de caça, porem não havia nem rastro de saída recente de Rakshin e seus filhotes na caverna ou próximo à ela e em verdade, apenas os restos de animais que haviam servido de alimento para esta força predadora davam a certeza de que não tinha sido uma alucinação. De uma maneira inexplicável a loba e seus filhotes saíram da região sem deixar uma pegada sequer.
Xena e as duas jovens se olharam e imediatamente agradeceram a caçadora por sua misericórdia.

- Cacemos para o jantar e vocês assumirão a guarda em pontos fixos assim que chegarmos, pois é importante que seu senso de observação seja melhor apurado. Como a trial é um ser vivo e inteiro, Karin e Dieynisa acompanharão vocês neste aprendizado e quando seu turno terminar falaremos sobre atender as necessidades e desejos da Casa Real.
- Sim comandante.

Xena voltara da caçada à Rakshin com sua missão concluída e de uma maneira nada sutil a capitã da guarda real recordou que elas quatro deveriam dividir um coelho, uma vez que a trial era um só corpo. Ela não estava sendo considerada. Contava com a integridade do amor por Riki para que sua treinadora decidisse o melhor para Gabrielle. Já estivera no reino de Afrodite em várias formas, mas Daiki tinha razão em uma coisa: ela sempre estivera no comando. Era consciente de que não seria difícil seguir os ditames de Gabrielle, até porque sua esposa não usava jogos ou se excitava com o poder. Ela amava. Simplesmente, amava como o amor pode penetrar no reino da luxúria, volúpia e do erotismo dando e recebendo sem subterfúgios, completamente. Infelizmente o que dissera em Esdel para Gabrielle era verdadeiro e o poder era extensivo a toda a Casa Real e oficiais superiores, principalmente na Guarda. Conhecia os guerreiros e o poder. Era inebriante subjugar o outro fazendo-o realizar todas as suas vontades e amazonas não eram diferentes de outros guerreiros. Todo o discurso de irmandade e conforto à Casa Real era verdadeiro, mas a possibilidade de ter a senhora da terra a seus pés deverá ser tentadora para muitas, principalmente aquelas que ela humilhou deliberadamente em Esdel. Ela faria seu melhor e cumpriria o juramento feito a Daiki, apenas esperava que o treinamento e o fato de não ter sido sua escolha ou o desconhecimento da sua posição perante Gabrielle por parte de quem a submetesse, fossem atenuantes perante sua esposa e sua princesa.

Um pequeno farfalhar de folhas e corte no som do rio indicaram para a Conquistadora que não estava só. Duas pessoas invadiam seu espaço de vigilância e a forma como o faziam indicava guerreiras treinadas. Subindo silenciosamente alguns galhos, sempre colada ao tronco, aguardou sua intrusa passar de galho em galho procurando-a no nível anterior. Xena jogou-se derrubando a intrusa e ficando em pé na sua frente e a mascarada através de seu cabelo dava para a Conquistadora sua primeira resposta: não era Ephiny.

Juntou-se a ela sua companheira e ambas chamaram suas espadas dando à Imperatriz da Grécia muito que pensar, pois Ephiny lhe proibiu de carregar a sua visto ter subtraído a espada de sua capitã. Não importou que recebesse ordem superior, tendo sido decidido que aquele foi um ato que ela não deveria ter feito, mas buscado uma alternativa. Agora precisaria lutar sem a arma, tendo apenas um punhal que pouco serviria contra duas espadas se pudesse utilizá-lo, mas não poderia.

Pegando um galho Xena começou a desviar as estocadas, sem, no entanto tocar em suas adversárias, pois sabia que pela qualidade da abordagem e da luta não eram novatas inexperientes e seria um ato de insubordinação atingir seriamente uma oficial, mesmo nesta situação.

Xena deixou sua guarda aberta e abaixando-se no ultimo momento aplicou um ponto de pressão na perna daquela mulher que havia vindo pela água deixando-a fora de combate. Sua companheira atacou com toda rapidez, mas Xena já não estava no mesmo lugar. Desarmando rapidamente sua oponente a Conquistadora aponta a espada para a máscara da atacante que reconhece sua derrota, então a Conquistadora desfaz o ponto de pressão da perna da sua primeira vitima e aplicando outro ponto de pressão explica o que acontecerá à sua oponente que estava sentindo os efeitos prolongados da ação.

- Você sentirá algum desconforto esta noite, mas amanhã estará bem. Agora se identifiquem ou deverei mantê-las aqui até a troca da guarda.

Ambas erguem-se do solo fazendo o sinal da paz amazona e Xena devolve suas armas, deixando que passassem, voltando para seu posto, abre um sorriso ao pensar que as amazonas tentaram realmente pega-la desprevenida e desatenta em seu trabalho.

Duas marcas depois Xena foi substituída em sua função tendo sua presença imediatamente requisitada junto à comandante. As quatro jovens da trial de Karin já estavam perfiladas com todas as suas armas e Xena apresenta-se conforme ordenado.

- Comandante.
- Dispam-se.

Todas as cinco amazonas ficam inteiramente nuas, mas não dizem uma só palavra.

- É importante que saibam dar segurança e conforto à Casa Real e isso indica não apenas oferecer sua morte ou seu sangue para aquelas que representam Artemis na terra, mas também seu corpo, sua privacidade e sua intimidade. Dedicar a vida é muito mais que viver ou morrer, pois também indica o como e quanto viver.

Vocês ficarão neste local e nesta posição até que seja ordenado diferente por qualquer amazona presente no campo e receberão ensinamentos sobre como fazer completamente a entrega. Esta etapa somente é realizada sob estrita concordância e nada será segurado contra quem se negar, podendo ingressar livremente em qualquer grupo da Elidia de defesa com todas as honras merecidas.

É importante que fique claro que esta etapa é requisito para passar à fase final do teste de aceitação na guarda real e uma vez oferecida, esta oportunidade nunca mais será ofertada. Vocês acatam isso? Desejam e aceitam passar nesta penúltima etapa?

- Sim comandante.      
- Então boa sorte senhoras e que Artemis esteja com cada uma de vocês.

As cinco amazonas estavam paradas lado a lado por duas marcas de vela, quando Lara foi envolvida por duas mulheres, aparentemente as intrusas que Xena havia interceptado. A Trial teve seus olhos vendados e ambas envolveram o corpo de Lara com os seus, como se fosse uma pérola em uma ostra.

Seus movimentos iam cobrindo cada espaço, como que navegando de alto abaixo e aos lados. Não houve um espaço intocado no tronco, pernas e braços de Lara. Mesmo suas mãos, pés, rosto e pescoço foram tocados, alisados, massageados ou simplesmente aquecidos. O mesmo era feito com suas irmãs de Trial e com Xena.

- Recuem doze passos e fiquem em seus joelhos e podem tirar as vendas. Você não Xena. Você deve ficar em seus joelhos e em suas mãos no lugar em que está, sem mover a cabeça, como se mantivesse os olhos no solo à sua frente.
- Sim comandante.

Fizeram conforme ordenado da maneira mais urgente possível, ainda sob efeito da experiência de toque na pele, que exercia uma grande dominância sobre os sentidos.

Xena apenas ouvia e estava começando a pensar que Gabrielle tinha razão ao afirmar que era errado. O sentimento de que Lara e suas irmãs deviam ter o direito de estar com estas sensações descobertas em amor e respeito e não para servirem ao propósito de dar conforto e prazer a outra pessoa, a revelia de seu desejo, mesmo considerando uma honra fazê-lo com um membro da Casa Real, foi tornando-se cada vez maior.

Após todas estarem ajoelhadas, duas amazonas começaram a visitar o reino de Afrodite sendo observadas pela trial. As oito executaram as artes da deusa do amor, tendo cada dupla realizado tal feito com uma de suas componentes assumindo o papel da Casa Real, identificada por uma tarja verde em seu braço direito.  

A “Casa Real” estava em um papel ativo em uma dupla, passivo em outra, indo do fácil e suave ao difícil e exigente.
Xena não tinha como saber a forma escolhida de treinamento e em sua mente a trial de Karin estava atuando como suas escravas corporais usavam fazer em Corinto ou qualquer lugar, sendo submetidas a todo tipo de situações que sua mente e sua vontade exigissem.

As duplas davam suas demonstrações uma após a outra, sendo tal ensinamento levado até quase o surgir do carro de Apolo e a Senhora do Mundo mantinha a máscara impassível, mas em seu pensamento Xena chorou de vergonha por sua presunção e prepotência em submeter mulheres ao seu capricho a fim de alcançarem alguma misericórdia ou simplesmente por que ela desejava assim e era dever delas atendê-la.

Após concluídas as demonstrações Ephiny novamente falou para as aspirantes.

- Ergam-se e dirijam-se com calma até o rio, levando o tempo que desejarem nas águas e depois vão dormir. No almoço vocês serão informadas se foram aceitas na última etapa para a guarda ou deverão procurar outra colocação na Elidia de defesa. Fiquem bem minhas irmãs.           

As cinco amazonas caminharam em direção ao rio, pois tantas marcas de vela em seus joelhos cobrou seu pedágio sobre a musculatura. Entraram nas águas e mergulharam, buscando aliviar o cansaço que sentiam da nuca ao calcanhar.

Xena nadou lentamente e mergulhou muito suavemente, agradecendo à Artemis a oportunidade de conhecer melhor sua Nação e ter a certeza que Gabrielle estaria segura com suas irmãs.

Elevando seu pensamento à Caçadora a Senhora do mundo flutua por um tempo, dedicando-se a seguir em lavar-se completamente e saindo das águas buscou um lugar para dormir.

 

 

Uma prova de fogo: Ephiny

 

No local onde a figueira deita sobre o rio, no meio da tarde a capitã da guarda real amazona reuniu-se com a treinadora específica da Trial, chamando-a para dar seu parecer de forma muito objetiva.

- Qual o veredicto? Merecem ir até o fim? Venceram ou fracassaram nos testes de formação? Devem permanecer na guarda ou encaminharemos nossas irmãs para o exército regular, escoteiras, arqueria ou casa de armas Taira?
- Acredito sinceramente que reprova-las seria um erro Ephiny. Foram corajosas, leais, incansáveis nas tarefas de vigilância e cumpriram fielmente todas as ordens com energia. Xena me surpreendeu principalmente nesta última prova realizada. Nunca imaginei que a Conquistadora se deixaria tocar daquela maneira e muito menos cairia a seus joelhos e suas mãos imediatamente como o fez. Sua obediência foi sem correções a fazer Ephiny e sua habilidade ficou claramente demonstrada ao levar tua espada.
- Tu viste?
- Claro que sim. Eu estava observando a Trial do alto da aponia. Ela realmente foi muito eficiente e a maneira como surgiu do lado oposto foi magistral.

Ephiny olha para cima e parece considerar a opinião de Taíra, quando para surpresa de sua irmã, pede o parecer para o alto das árvores.

- Daiki?     

O fato de a mestre da guarda estar no acampamento era desconhecido por Taira que imediatamente se coloca em pé e leva o punho direito ao peito, curvando levemente a cabeça. Era o sinal de respeito e mais que isso era demonstração de gratidão, pois Taira fora uma das amazonas treinadas por Daiki que obtivera êxito nos testes da Guarda e a treinadora carregava um shuriken tatuado em alusão a este fato.

Daiki reconhece o cumprimento ao juntar-se as duas descendo das árvores.

- Elas foram perfeitas em seu sentido de grupo e mesmo desejando ajudar, se abstiveram de colaborar para que Xena tivesse sucesso na condução do cervo, no entanto negaram-se o direito de chegarem antes e descansarem, acompanhando-a todo o trajeto. Foram eficientes na caçada demonstrando ótima coordenação, merecendo estar na Guarda e mais que isso: a Trial será um acréscimo importante para o sentimento de grupo. Gostaria de parabenizar sua orientadora.
- Obrigada mestre.
- Quanto a Xena, ela encontrou o espírito do grupo quando abriu mão de vencer sozinha com suas pedras do rio e certamente demonstrou respeito quando foi atacada no posto de vigilância e nesta penúltima prova, realmente estava concentrada em não permitir ao seu corpo reagir quando não deveria e em não assumir o comando. Creio que devem ser aprovadas para o teste final.
- Concordo com vocês. Após o jantar daremos a decisão neste local. Você poderia estar conosco? Daiki?
- Sem problemas comandante, depois do jantar estarei aqui.

Após o jantar as amazonas estavam sentadas em círculo no local onde a figueira deita sobre o rio com uma fogueira ao centro. Cada uma contava um episódio de caçada e quando Daiki chegou e aguardou no espaço vazio, frontal à capitã da guarda real, todas as amazonas, exceto Ephiny se levantaram ao perceberem a presença da mestre da guarda.

- Seja bem-vinda Daiki, por favor, sente e beba conosco.
- Obrigada Ephiny. Todas vocês, sentem-se, por favor.

A prova final seria a mais simples de todas e também a que mais diria ao coração das aspirantes. Ephiny falou diretamente a todas com uma irmã mais velha faria: com amor.

- Entre todas as amazonas há o elo da irmandade e cada uma das Elidias possui os segredos de sua atividade. A Elidia de defesa estabelece que tenhamos união e confiança entre nós e na guarda Real, para que possamos desempenhar com maestria nosso objetivo, se faz necessária intimidade. Assim cada uma de vocês está convidada a contar sobre sua vida, sua crença, seus segredos e o motivo real de escolher a Guarda. Quem desejar desistir desta etapa tem livre arbítrio e pode retirar-se para o acampamento e nada será segurada contra ela, porém aquela que permanecer estará na guarda para sempre, imediatamente e para a eternidade. Vocês foram aprovadas para esta última atividade que sendo mais que um teste, vai cumprindo um completo acolher.

Esta foi a deixa para que Xena pudesse sair se não fosse permanecer e Ephiny estava olhando firmemente a Senhora do Mundo em franco desafio.

Todas esperavam que a Imperatriz assumisse um dos caminhos que conduzem para o acampamento e todas se surpreenderam com sua permanência no local. Todas exceto Karin que cedo tinha compreendido não ser uma aventura da Senhora da Terra, este treinamento. Lembrava-se claramente do olhar de Xena para Gabrielle no barco e tinha certeza que mesmo a princesa não ousaria colocar na guarda uma escrava, havendo então apenas o fato de que era real o empenho de Xena. Também não foi surpresa para Karin Daiki surgir no local, pois apenas a melhor treinadora da guarda se arriscaria a treinar a Imperatriz do mundo.

Xena sentou-se com o garbo de quem busca um trono e a simplicidade do descansar em um tronco numa partida de caça. Ela era por si e em tudo a Senhora da Terra e isso não estava em jogo.

Ephiny se recompôs logo, pois ainda em choque com a reação da Imperatriz e pelo que tudo indicava, era agora sua irmã e suliana o que era uma maneira de chamarem aquelas que estavam subalternas na Guarda. Duas oficiais surgiram carregando alguns odres de vinho e esta recepção na guarda seria memorável.

O vinho começou a correr e a Comandante deixou claro que estava aberta a roda de compartilhamento. Foi uma surpresa para todos quando Taira passou a relatar um momento de entrega para uma superior, subtraindo o nome da mesma, mas mantendo vívido em sua mente cada instante e característica da maior das treinadoras:

“Eu cheguei perto dela sem saber o que esperar, pois tudo que sabia era o local onde deveria estar antes do Carro de Apolo surgir. A oficial mal me dirigiu um olhar e continuou a organizar suas coisas. após meia marca de vela sem mover-me o silencio estava levando a melhor sobre mim. Finalmente ela levanta-se e chegando próximo leva sua mão ao meu rosto e a leve pressão para baixo deixou claro que continuar em pé não era uma opção. Eu não sabia exatamente o que esperar mas confiava nela com a minha vida e tinha certeza de que não seria magoada. Estava errada. A oficial não estava preocupada comigo nem com o fato de eu ser muito jovem. Seus movimentos buscavam alguém que não estava ali, para o qual eu era apenas um objeto substituto. Os beijos dela eram suaves e exploradores e repentinamente começam a flutuar com fúria como se desejasse demarcar território. Meus braços foram imobilizados e mesmo que tentasse somente conseguia girar um pouco o corpo, deixando sempre um seio a disposição e por todo o tempo nada foi dito, mas Eu tinha certeza que ela estava muito longe dali. Apegava-se ao meu corpo como se não fosse deixar que me afastasse. Pouco a pouco minha pele foi sendo marcada pelos dentes e mãos fortes fazendo com que assumisse as mais diferentes posições. Embora de maior envergadura que aquela que me guiava eu nada podia ou desejava fazer para me esquivar destas atenções quando por duas vezes tentei erguer-me e por duas vezes um tapa bem colocado lembrou-me de quem estava no comando. Novamente meu rosto foi pego e desta vez com uma dureza e rispidez que somente o olhar desafiador deixava transparecer que minha escolha e meu prazer não estavam em jogo ali. Eu deveria fazer o que fosse ordenado e quando fosse ordenado. Meu espírito revoltou-se com a situação, mas minha mente deixou-me evidente que a oficial da guarda estava no seu direito e mesmo assim, o aperto em meus braços foi relaxando e com alguma dificuldade busquei envolver o corpo de minha parceira. Era tarde. Aquela que comandava o momento já se posicionara e sua respiração aquecia o centro de prazer. Sua língua foi fazendo círculos, envolvendo-a em uma nuvem de sensações que quase eletricamente enviavam ondas de prazer e ela já não sabia mais se havia sido conduzida ou empurrada para tal posição. Era uma angústia de desejar cessar toda atividade e não querer que interrompesse. Uma sensação inexplicável de implorar por piedade e exigir maiores e mais ríspidos movimentos. Suavemente, quase de repente ela surgiu frente ao meu rosto e uma sucessão de beijos e carícias me deixou a certeza de que fora contemplada com um momento de prazer dado a poucas e tudo que senti foi uma gratidão e reconhecimento pela atenção dela. Com minha pouca experiência tentei retornar as atenções, mas fui barrada em minha intenção. Ela não desejava ser tocada. Até hoje me lembro daqueles momentos e busco uma oportunidade de novamente sentir seu toque e devolver os instantes de prazer com que fui contemplada. Este é meu segredo mais agradável na Guarda.”
- A Oficial ainda está viva e na Nação Taíra?
- Sim Comandante.
- Agora que és uma Oficial da Guarda tudo pode acontecer. Procura por ela e diz o que sentes.
- Talvez ela ainda esteja buscando aquela que substituíste Taíra e tal atenção seja pra ela uma recordação daquela que perdeu. Talvez ela não seja livre e seu coração pertença a alguém. Ela voltou a te procurar?
- Não Karin, mas espero que um dia ela perceba que estou aguardando.
- Ela com certeza sabe da possibilidade, mas entende que está respeitando-te . Não é de forma leviana que uma Oficial da Guarda usa de seu poder sobre as Sulianas. Tudo tem um propósito.
- De forma livre eu a procuraria Daiki se soubesse haver uma possibilidade apenas, mas não quero ofender.
- O amor livremente oferecido e livremente aceito é uma lisonja e carinho entre pessoas livres Taíra. Jamais ofenderia. Tenha coragem e busque.
- Pode ser Xena, vou pensar nisso.
Xena, Ephiny e Karin não perderam a troca no brilho do olhar de Taíra e Daiki e tiveram certeza de quem se tratava o conto.
Por instantes o vinho correu solto e apenas silêncio corria entre elas, com o conto de Taíra muito vívido. Repentinamente Ephiny começou a tecer a história de seu suaguini, contando sobre Terreis e toda a atenção que a princesa Trácia demonstrou com ela. Ambas descobriram os prazeres do sexo e juntas se tornaram mulheres e embora Ephiny fosse dois verões mais velha que Terreis, a princesa decretou que teriam a mesma idade dali pra frente.
Karin pensou em dividir sua experiência, mas achou melhor conter sua língua e guardar sigilo, pois sua Princesa solicitou que aguardasse até que ela mesma desse mostras de tal ter acontecido.
Xena começou de maneira tímida contando a história de uma camponesa de Amphipolis, a perda de seu irmão, a luta para evitar que tal repetisse e a construção do Império. A derrocada de César, a Conquista do Mundo Conhecido. Um encontro nas matas em Esdel, sua paixão por Gabrielle, seu crime e seu perdão por Artemis, seu filho, seu casamento pelas três Deusas e seu espírito pronto para proteger Gabrielle de qualquer coisa, mesmo que fosse dentro da Guarda Real.
Quando a Senhora da Terra silenciou a mata inteira parecia estar de acordo.
Daiki apenas sorriu satisfeita de que o espírito da Guarda foi apanhado pela Senhora do Mundo e o que era segredo compartilhado entre elas agora se fazia de domínio do grupo, com igual comprometimento em manter e proteger as informações. Nada une mais um grupo do que saber e pensar, sentir e perceber o amor em tal profundidade.
Cinco contos e dois barris depois, as amazonas foram dormir para providenciar o retorno a Corinto com mais cinco membros na Guarda de Elite: a Guarda Real.
Ephiny estava feliz, pois cumprira o prometido a Gabrielle e novamente a visão daquela que Representa Ártemis se mostrou verdadeira: Xena era por tudo e em tudo uma amazona digna da Guarda Real.

 

 

Encontros

 

Na manhã seguinte seguiram pra Corinto com o coração mais leve e a certeza de que Gabrielle estava com a maior segurança que a Nação poderia proporcionar. Ao entrarem no pátio principal do palácio encontraram com várias amazonas desmontando de seus cavalos sendo recebidas por Assoyde e isso seria um acontecimento corriqueiro se entre elas não estivesse a Rainha Melosa.
Ephiny rapidamente recuperou seu estado de espírito e começou a dar ordens visando organizar o desembarque dos equipamentos e o conforto da rainha. Bastou uma troca de olhares entre ela e Xena que tudo se precipitou da melhor maneira possível.
- Palaemon!
- Majestade.
- Avisa Akiba que terei audiência com a Rainha das Amazonas em uma marca de vela no estúdio e tudo deve estar pronto conforme o protocolo e comunica ao mesmo tempo Siana e Cassandra da presença das convidadas. Diga-lhe para ocupar-se dos frutos da caçada para o almoço. O aposento que era usado pela princesa ficará para a rainha Melosa e deve estar pronto quando eu chegar aos meus aposentos. Dispensado.
Palaemon não era um estreante e situação assim é muito comum quando se divide a vida com a Senhora do Mundo. Cora se dirigia para junto de Melosa, mas ao avistar Ephiny trocou olhares com a capitã e voltou para dentro do palácio buscando comunicar a chegada da rainha para Gabrielle.
- Bem vinda a Corinto Majestade. Desejo que sua estada conosco seja a mais proveitosa possível.
- Obrigada Imperatriz. Como está a convivência com meu povo? Vejo que voltam de um evento. As meninas se portaram bem Ephiny?
- Sim majestade, não houve baixas e todas passaram no teste com louvor. Tenho a honra de comunicar que sua guarda possui mais cinco membros de valor.
- Cinco? Pensei que eram quatro, mas seja como for fico feliz em ouvir isso. Onde está Gabrielle?
- Já foram avisá-la de sua presença majestade. Provavelmente está envolvida com a biblioteca do palácio.
Gabrielle estava descendo as escadarias e juntava-se ao grupo neste exato momento.
- Realmente eu estava na biblioteca. Seja bem vinda majestade. Seus aposentos já estão organizados e há um banho aguardando se for de vosso agrado.
- Realmente o que eu gostaria neste momento é uma audiência privada com a Senhora do mundo e você minha irmã.
- Isso é simples de arranjar Melosa. Por favor, siga-me.
Dizendo estas palavras Xena começa a se deslocar em direção a seu estúdio privado. Não sem antes fazer sinal para Palaemon que providenciou incontinente fechar o terceiro piso e fazer uma varredura simultânea em todos os cômodos por onde passaria o cortejo.
Ephiny seguia lado a lado com Palaemon e ambas as guardas sabiam de antemão seu papel.
Todo acesso ao terceiro piso estava bloqueado e apenas as três mulheres seguiram para o estúdio ao lado dos aposentos da Conquistadora .
Entrando no aposento Xena verificou que não haveria reparos a fazer, pois tudo estava no lugar que deveria. Das frutas e vinho aos papeis sobre a mesa e mapas pendurados. O estúdio estava funcional e limpo.
- Talvez a Senhora da Terra deseje descansar, pois vejo que chegou de uma caçada.
- Na verdade não estou cansada Melosa e tudo que desejo é atender às suas necessidades. Estou à sua disposição.
Gabrielle olhava para uma e para outra. Não sabia que atitude tomar nem o quanto deveria revelar para sua irmã e rainha sobre a real situação de Xena na Nação, no Império e mais importante : em sua vida.
As palavras lhe faltavam e tudo que lembrou de fazer foi orar à Caçadora.
“- Artemis, Deusa da lua, protetora das crianças, das mulheres e do parto. Deusa das Amazonas ouve meu chamado. Realmente não sei o que fazer nem o quanto revelar para minha irmã. A tensão está forte e andamos no limiar do precipício. Guia-nos e orienta-nos, pois em nada desejamos ferir teus desígnios.”
“- Tranquiliza teu coração Gabrielle pois tudo está posto e se resolverá da melhor maneira como está escrito desde muitos verões atrás”.
Melosa tenta medir as palavras da Imperatriz e resolve não se preocupar com sentidos ocultos. Enfrentaria esta batalha como sempre o fez.
- A muitos verões conheci Cyane das Estepes. Era uma jovem rainha que tinha assumido o trono nas terras do norte. Algumas luas antes de eu voltar deste tempo de aprendizado ela me chamou e disse que da Grécia seria a amazona que levaria a Nação à grandeza e prosperidade e que se deveria saber diferenciar justiça de vingança. Na época pensei que se referia a minha mãe, ou talvez a mim. Depois pensei em Terreis. Embora muitos pensem na Imperatriz como a maior amazona que já existiu à frente do maior exército que esta terra já viu, você não é amazona Xena. Então apareceu Gabrielle que traz mais sabedoria em um dedo do que jamais terei no corpo inteiro. No início da lua nova eu tive um sonho: Artemis falava comigo sobre Cyane e seu legado; sobre a sabedoria da vastidão das estepes e sobre entender seus desígnios. Um falcão pousou no galho atrás de Artemis e uma pomba pousou ao lado. As duas aves alçaram voo juntas e juntas tornaram a pousar. Como é comum quando há uma trial sendo testada um totem para cada amazona surge em meus sonhos e uma loba negra e quatro jovens lobas brancas vieram até mim e lamberam minhas mãos. Foi assim que eu soube que a trial de Karin havia tido êxito, no entanto mais dois animais surgiram vindos do sul um cavalo negro e uma égua branca e quando chegaram perto de mim a ponto de comerem a maçã de minhas mãos as aves pousaram neles e eles se afastaram alguns passos e ficaram ali me olhando. Lembrei-me de suas montarias na guerra que travamos na Trácia. Majestade, minha irmã, há algo que gostariam que eu soubesse? Uma pergunta tão sensata, tão comedida e simples. Direta.
Não haveria como desviarem de uma pergunta direta e ambas sabiam o quanto as amazonas tinham apreço com a verdade e a realeza com respostas diretas aos seus questionamentos.
Xena olha para Gabrielle e ambas demonstram todo amor que sentem, preenchendo-se de confiança e coragem.
- Eu aceitei uma nova amazona na Nação, majestade e solicitei a Ephiny que a acolhesse na guarda real. Ela foi testada juntamente com a trial de Karin.
- Então está explicado serem cinco animais. Cinco na matilha. Algo mais?
- Este tempo que estou em Corinto tem sido muito importante pra mim e pra Nação majestade. Encontrei alguém que me completa e deixa a vida ser mais pulsante, mais vibrante e eu sou mais feliz. Encontrei minha alma gêmea.
A voz de Melosa ficou muito fria e seu olhar não demonstrava nenhuma cordialidade.
- É um homem ou uma mulher?
- É uma mulher, mas que diferença faz?
- És uma princesa amazona Gabrielle. Isso é maravilhoso. Tens ideia o quanto é difícil e raro isso tudo acontecer junto? Eu conheço? Ela tem boas intenções com você? Temos que mandar Ephiny investigar esta pessoa antes que te envolvas com ela.
- Eu já estou envolvida majestade.
- Como você pode? Não tem nenhum respeito pelas tradições Gabrielle? Ela pode não ser digna de você!
Gabrielle foi esquecendo com quem falava e como em toda discussão foi se empolgando com seus próprios argumentos e se indignando com o que sentia ser um insulto velado àquela que amava.
- Ela é digna de mim e muito mais e ela não precisa ser investigada por ninguém! Eu não aceitarei isso. Sou uma mulher livre por meu próprio direito e não vou admitir Ephiny ou qualquer outra criatura interferir na nossa relação!
Xena lembrava bem como Gabrielle se esquecia de seu entorno e podia se complicar cada vez mais quando estava defendendo uma causa. O olhar de Melosa e sua expressão davam mostras que rapidamente iria ensinar a sua irmã mais nova o sentido de respeito devido a uma rainha.
- A rainha Melosa não quis ofender Gabrielle, ela apenas estava se referindo ao cuidado que a Nação tem com os membros da casa real como um todo. Aliás pelo que me lembro tem este mesmo cuidado com qualquer amazona que pretenda casar.
- Isso mesmo Xena. Gabrielle não entende que existem muitas pessoas que se aproveitariam para chegar perto da Casa Real utilizando seus sentimentos e amor pela vida.
- Não é este o caso Majestade. As intenções são as mais honestas possíveis. O envolvimento da princesa é correspondido em igual medida e o relacionamento foi aprovado pela Caçadora pessoalmente.
Colocando o joelho direito no solo, Xena estabelece com Gabrielle dar à rainha Melosa o devido respeito e ao mesmo tempo colocá-la a par da situação de ambas.
- Fomos casadas pela Caçadora, Atena e Afrodite quando voltamos da Tracia e eu sou a amazona aceita na Nação e quinto elemento no treinamento da Trial da guarda real.
- Tudo foi feito com o consentimento de Artemis majestade e Xena foi perdoada pelos crimes que cometeu contra a Nação no passado pela própria Caçadora.
A voz de Melosa amaciou e nada lembrava aquela expressão dura e fria.
- Eu sabia que algo havia acontecido e segui os rumos de meu coração. Faço do acolhimento da tua princesa minhas palavras Xena: seja bem vinda à Nação e com certeza tua capitã deixou claro a situação de uma guarda real.
- Perfeitamente majestade.
- Esta noite saberei das virtudes tão cantadas da Imperatriz do mundo no reino de Afrodite. Ergam-se minhas irmãs.
Tanto Xena quanto Gabrielle ergueram-se olhando pra Melosa que estava com expressão indecifrável. O ciúme na alma de Gabrielle estava estampado no rosto e algo de surpresa também cobria o rosto de Xena, mas ambas assentiram como seria devido.
- Eu espero que tu me contes todos os detalhes durante o desjejum irmãzinha agora vou tomar um banho e tu providencia o mesmo pra ti Xena, pois estás insuportável.

Melosa começa a rir com gosto e dá um abraço em Gabrielle contando um segredo: sejam sempre unidas e eu me sentirei feliz.

 

 

Fim