Códigos para o amor

Artêmis Lesbos

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Um enorme beijo (Fernanda P.Z. – Artêmis Lesbos)

 

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança é mero acaso.

 

CÓDIGOS PARA O AMOR

- Sou o despertar da vida!
- Arrebato os corações!
- Enlouqueço as mentes!
- Extasio os sentidos!
- Não tenho cor!
- Não tenho sexo!
- Não tenho raça!
- Não tenho idade!
- Não tenho credo!
- Não existe distância que não ultrapasso!
- Nem fraquezas que não supero!
- Não existe tristeza que não destruo!
- Nem certezas que não corrompo!
- Sou a dúvida eterna!
- E a dádiva absoluta!
- O tempo se curva diante a mim!
- O sol, a lua, o mar, as estrelas e as flores, mostram minha face!
- Quem me vê, não me nega!
- Quem nunca me viu, adoece no desejo!
- Quem eu sou?
- Vou lhe contar...

 

 

1
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Sentada, com a cabeça apoiada no encosto do acento e o ombro encostado na janela do ônibus. Sentia um leve chacoalhar e o som contínuo e suave vindo do motor, do atrito dos pneus no asfalto e da chuva que batia contra a “armadura” do veículo. Observava as gotículas que rompiam contra o vidro e deslizavam, desenhando minúsculos rios. A noite estava quente e a chuva tornava o ar úmido e os vidros opacos. Todos dormiam e ressonavam. Passou a mão no vidro vagarosamente, formando um arco transparente e pode ver as luzes dos postes da rodovia, que cortavam rapidamente a escuridão e desapareciam em seguida. Olhou para o lugar vago ao seu lado e sentiu um aperto no peito de saudade – “É ruim ir para um lugar estranho sozinha! Como eu queria a Má aqui comigo! Meu Deus! Que saudades vou sentir!” – E seu pensamento se voltou para o dia que a conheceu...

Sentiu algo estranho, um frio glacial no estômago que nunca havia sentido antes, nem mesmo nos seus piores dias. Olhou profundamente em seus olhos, eles eram azuis claros, como o céu ao amanhecer. Não conseguia desviar seu olhar e ela também não desviava. Foram segundos que levaram consigo uma eternidade e quando finalmente piscou, conseguiu visualizar o rosto completo.

Os olhos dela eram grandes e expressivos, seu nariz era afilado e a boca com traços bem definidos e rosada. A pele bem clara e o rosto oval, muito delicado. Seus cabelos eram loiros acinzentados, compridos e ligeiramente ondulados, que estavam soltos e lhe caiam pelos ombros firmes e pequenos. Ela sorriu e estendeu a mão. E seu sorriso iluminado era perfeito.

- Muito prazer! Sou a Marcela Torres. Pelo jeito vamos estudar na mesma classe!
- Pra...prazer.... Eu sou Juliana Bovaschi, parece que sim!
- Que bom que você vai estudar na minha classe!

Essa lembrança fez descer uma lágrima pela sua face, indo molhar seu pescoço. Um soluço leve saiu de sua garganta e do fundo de sua alma.

Demoraria ainda três horas para chegar ao Rio de Janeiro. Sentia-se cansada, mas suas recordações eram mais fortes. – “Porque será que precisamos passar por tudo isso, nesses dois anos?”- Começou a relembrar de suas vidas até aquele ponto, lembranças a muito trancadas dentro de si, ressurgiram. Fazendo escorrer por sua face a dor daqueles tempos...

 

 

2
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Juliana nasceu em um lar destruído. Sua mãe Ivone casou muito cedo e ficou viúva logo nos primeiros anos de casamento. Seu pai Agnaldo foi assassinado de uma forma brutal, pelo marido de sua amante em um motel barato da cidade. A descoberta da traição e do assassinato, machucou profundamente Ivone. Perdendo a confiança nas pessoas e endureceu seu coração, tornando-a uma mulher agressiva e fria. Ela voltou a morar com seus pais e assumiu o sustento dos dois filhos, o menino de sete e a menina de um. Não possuía instrução suficiente, o que lhe atribuía trabalhos árduos e salários baixos. Saia muito cedo, antes mesmo do nascer do sol e só retornava após ele baixar no horizonte. Quando chegava a seu lar, cansada das horas de trabalho e da viagem, eram despejadas sobre seus ombros as ofensas e reclamações de sua mãe Clarice, que cuidava de seus dois filhos. Com os nervos a flor da pele, sem apoio, sem carinho e esgotada por carregar o fardo desta responsabilidade sozinha. Achou na violência a forma de descontar suas frustrações e suas dores, agredindo brutalmente os filhos.

Os avós de Juliana eram idosos e exaustos por uma longa vida de sacrifícios e privações. Seu avô Romoaldo era um homem passivo, não tinha voz ativa e evitava se posicionar. Trabalhador incansável, desde muito jovem abandonou os estudos para auxiliar no sustento da família e depois de casar-se não conseguiu realizar seus sonhos de vida, conferindo-lhe um olhar perdido e triste. Não tomava partido nas discussões, a seu ver somente o sustento da casa era sua obrigação, então não participava da educação das filhas e dos problemas do lar, sobrecarregando com essa tarefa sua esposa.

Sua avó Clarice vinha de uma criação machista e antiquada. Aprendera a duras penas as dores da falta de perspectiva. Apoiava-se nas aparências para manter seu lar intacto. Exausta, pelas lutas e as dificuldades de manter as necessidades básicas do lar com o dinheiro escasso da família, se tornou uma mulher amarga e rude. Criara suas três filhas de forma dura e agressiva, sempre mostrando a elas suas posições de submissas e dependentes dos homens, como ela havia aprendido. Então quando uma de suas filhas ficou viúva e a obrigação de apoiá-la se fez necessária, não possuía mais paciência para reiniciar esta tarefa.

O irmão mais velho de Juliana era Ricardo, a diferença de idade entre eles era de seis anos. Ele era o único neto homem de toda a família. Foi colocado em seus ombros a cobrança de se tornar o novo chefe da casa e poder nutrir o sustento de todos. Foi ensinado a ser forte e másculo, para enfrentar a vida, não poderia demonstrar fraqueza. Tinha uma condição privilegiada, posicionada pela sua avó e sua mãe. E era constantemente lembrado que deveria ser o líder e as mulheres deveriam ser dominadas por ele e respeitá-lo.

Juliana era a caçula, não aceitava sua condição de serviçal imposta pelo machismo de sua família, não aceitava o tratamento privilegiado e diferenciado que todos tratavam seu irmão. Desde muito pequena se recusava às imposições delas e do irmão e por isso era constantemente “corrigida”. Ele não conseguia fazê-la se tornar submissa, então encontrou a maneira através de mentiras. Realizava travessuras e a culpava. Sua avó e sua mãe acreditavam prontamente sem questionar e a agrediam sistematicamente.

Desde muito pequena era diferente das demais meninas, não era feminina, não se portava com delicadeza, não gostava de ficar com elas ou suas primas brincando com bonecas e quando sua avó insistia, ela sempre queria ser o papai ou o filho da brincadeira. Sempre conseguia ficar abraçada com elas e até algumas vezes conseguia roubar alguns beijos de contato.

Divertia-se mesmo com brincadeiras masculinas, na maior parte do tempo com os meninos de sua rua. Soltava papagaio, corria de carrinho de rolemã, bicicleta, skate, jogava futebol, pulavam à noite no clube perto de sua casa para nadarem, brincavam com bastões, videogame e cartas. Adorava as competições de brigas, tinha muita habilidade e sempre se saia muito bem, os garotos da sua rua a respeitava e tinha diversos amigos.

Ela sentia um desejo por conhecimento acima do normal, queria saber de tudo, adorava desafios. Adorava ler, o que aprendeu muito cedo e quase sozinha, passava horas pesquisando na biblioteca da escola algo que despertasse sua atenção e muitas outras horas lendo os livros que tinha em casa.

Era uma desenhista nata, podia pegar um objeto ou observar uma cena por algum tempo e desenharia traços perfeitos, seu avô era seu principal alvo, já que passava horas na mesma posição assistindo televisão.      Apesar das agressividades, era uma criança ativa, alegre e criativa.

Aos nove anos, limpando o quarto. Ao levantar o colchão de seu irmão, viu algumas revistas, ao folhear sentiu uma sensação estranha e um desejo incontrolável de ver tudo. Sempre pegava uma revista escondida, quando o irmão não estava em casa, colocava entre um livro e fechava-se no quarto. Ficava horas olhando aqueles corpos nus de mulheres e algumas vezes cenas de sexo. Ela não se tocava, mas colocava o travesseiro entre as pernas e ficava apertando-o, sentindo uma sensação boa. Começou então a se imaginar com as amiguinhas da escola e com atrizes de novelas e filmes que gostava.

Sua vida mudou completamente aos onze anos...

 

 

3
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Jorge, vinha de uma família de classe operária de Belo Horizonte, era um jovem trabalhador, sonhador e ambicioso. Após o casamento de sua irmã Jussara, que se mudou com o marido para a fazenda da família dele em outra cidade. Ele convenceu seus pais a se mudarem para São Paulo. Trabalhava em indústrias da capital e mantinha quase sozinho o sustento da casa. Aos vinte e seis anos, com muitas privações iniciou o curso superior. Logo no primeiro ano conheceu Iolanda, ela acabara de sair do curso de nível médio e ingressara na faculdade em seguida.

Iolanda era uma moça quieta e educada. Filha única, ficara órfã muito cedo e seus tios a mantinham em um internato religioso tradicional. O internato sustentava uma educação privilegiada e rígida. Ela tornou-se muito devota à religião. Após a conclusão dos estudos e a saída do internato, foi morar sozinha em um pequeno apartamento alugado pelos tios próximo à faculdade.

No primeiro ano de namoro Iolanda engravidou. Casaram-se e Iolanda deixou os estudos para se dedicar exclusivamente à casa e a filha. Jorge concentrou seus esforços no trabalho e estudos. Permanecendo pouco tempo ao lado da esposa e a filha Marcela. Era ambicioso e persistente na busca dos seus objetivos. Conseguiu uma carreira de sucesso. Em poucos anos já se consagrara gerente de uma grande indústria. Proporcionando aos pais e a sua família boas condições de conforto e segurança. Mas mantinha muito tempo destinado ao trabalho, sem participar da criação da filha.

Marcela morava em um bairro de classe média de São Paulo, era uma criança extremamente ativa e alegre. Muitas vezes realizava peraltices no prédio onde vivia, era cercada de amigos e sempre muito comunicativa. Ousada e impulsiva sempre buscando formas novas de descobrir as coisas. Tinha o temperamento forte e impaciente, não aceitava ordens, mas nunca fora castigada por isso. Iolanda sempre achava uma maneira de proibir a filha de algo que ela desejava até conseguir que realizasse suas exigências. Impunha-lhe limites, cobrando postura adequada e chamava constantemente sua atenção, sobre algo que fizera.

Passava boa parte do dia na escola, realizando diversas atividades. Fazia parte de quase todos os grupos e diversas aulas extras de ballet, dança, canto, teatro e idiomas.

Nos finais de semana ia com os pais para o litoral onde mantinham uma casa de veraneio ou para a casa de seus avós Pedro e Judite, que lhe acentuavam os mimos e estragavam o trabalho de criação de Iolanda. Sempre realizando seus gostos e vontades.

Nas férias viajava com seus pais para outros países ou para a fazenda de sua tia Jussara no interior de Minas Gerais.

Com seis anos seu avô falecera. Seu pai trouxe a mãe para morar com eles. Judite era uma senhora calma, centrada que proporcionava à neta momentos de ternura e mimos. Sempre cozinhava seus pratos e doces prediletos e a ajudava com as tarefas da escola. Marcela adorava a avó e passava boa parte do seu tempo com ela. Pois sua mãe sempre era distante e muito rígida.

Alguns meninos do prédio e da escola tentavam se aproximar dela, mas Marcela nunca queria ficar sozinha com eles. Não sentia vontade de namorar e passear com eles, como faziam as suas amigas da mesma idade.

Mas aos doze anos algo despertaria sua curiosidade...

 

 

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A vida de Juliana começou a mudar aos onze anos, quando o irmão de sua avó, José, mudou-se para uma casa ao lado da sua. Ele era divorciado. Sua ex-esposa e seus filhos moravam em outra cidade. Possuía um veículo da época e era prestativo com a irmã e os parentes que viviam próximos. Sempre os levando para fazerem compras ou em alguma emergência médica. Era visto por todos como um homem bom, gentil e educado.

Em uma tarde, dona Clarice mandou Juliana ir limpar a casa de José, mesmo contrariada, por que detestava fazer tarefas domésticas, Juliana teve que ir. Sobre a ameaça de ser castigada quando sua mãe chegasse e ainda sendo lembrada de se portar direito, caso contrário também seria castigada.

Chegando à casa de José, ele mostrou a ela as tarefas que realizaria. Após alguns minutos que havia começado a lavar as louças, ele se aproximou e a segurou por trás, tapando sua boca com uma mão, falando em seu ouvido. Disse para ela não gritar, pois inventaria que ela havia respondido ou quebrado algo e ela apanharia de sua mãe. E se falasse algo ninguém acreditaria, pois ele era tido como um homem bom.

Arrastou-a para o sofá, mantendo-a em seu colo, esfregando nela com força, colocou a mão por dentro do seu short e começou a tocá-la, gemia, movimentava os quadris e urrava. Enquanto Juliana chorava de medo e raiva. Após alguns minutos ele parou, ofegante. Apertou a garganta dela, dizendo que se ela falasse a alguém, ele iria negar.

Ela saiu da casa de José correndo e chorando, se escondeu nos escombros de uma casa velha e abandonada, no fim da rua. Chorou por horas, e só retornou em casa ao anoitecer. Ao chegar, sua avó se aproximou com um cinto na mão, dizendo que José havia dito que ela tinha quebrado dois copos e respondido com falta de educação. Ela tentou negar e dizer o que tinha ocorrido, mas como sempre não teve a chance. Apanhou de sua avó e quando ela estava indo colocá-la de castigo, sua mãe chegou em casa. Vendo a cena, perguntou o que tinha acontecido. A avó contou a história de José. Sua mãe a arrastou para fora, pegou um pedaço de madeira que estava no quintal e bateu diversas vezes em Juliana. Acertando em suas costas, pernas, braços e cabeça. Ela caiu e a mãe continuou batendo, gritando e xingando. Juliana não respirava, não tinha forças para levantar, sua boca sangrava, chorava, soluçava com dificuldade sem ar, sua visão escureceu. Ficou deitada no chão por algum tempo até voltar a respirar. Por duas semana ela não conseguia andar ou sentar, todo o seu corpo doía e tinha vários hematomas, sua boca e o olho esquerdo estavam inchados. Sua avó achou melhor ninguém ver os hematomas e há deixou sem ir na escola e sem sair. Obrigando-a a limpar a casa e depois ficar trancada no quarto.

Passados os dias, sua avó a mandou novamente na casa de José, sem poder contestar as ordens, assim que entrou, ele a segurou e arrastou para o canto, dizendo que fez aquilo, para ela entendesse que ele estava falando sério e se pensasse em dizer algo, iria ser muito pior.

A partir daquele dia, duas vezes por semana Juliana era obrigada a ir na casa de José após as aulas para fazer faxina. E todos os dias, José a molestava, cada vez mais intenso. Abria suas calças retirava seu membro e fazia ela segura-lo e masturbá-lo, erguia a blusa dela e suga seus “seios” que ainda não existiam, e tocava em seu sexo. Juliana ficava imóvel, apática, não reagia, não contestava, não expressava nada.

Ela se tornou mais agressiva e não deixava as pessoas se aproximarem dela. Começou a se portar com mais masculinidade e não permitia mais que nenhum amigo a tocasse, agredia com ferocidade caso ousassem. Aos poucos foi se afastando de todos seus colegas da rua e se tornou mais quieta e fechada, dificilmente ria. Mas sempre chorava, chorava constantemente por qualquer palavra dita de forma mais áspera.

Retornava para casa após as aulas, ajudava nas tarefas domésticas, fazia as obrigações escolares e ia para o quarto, sempre apática, ficava deitada o tempo todo. Algumas vezes chorando, outras imaginando como seria sua vida se seu pai fosse vivo. Deitada em sua cama, ela imaginava um mundo particular, diferente, sem os avós, sem a mãe, sem o irmão e sem o tio.

As faxinas da casa de José permaneciam da mesma forma, ele a segurava, molestava de diversas formas e ela tinha que realizar a faxina e ir embora para casa calada e humilhada.

Quando completou doze anos recebeu a notícia que seu tio José estava doente e após exames descobriram que ele estava com câncer, seus filhos que viviam em outra cidade, levaram-no para receber os tratamentos necessários. Após um tempo receberam a notícia de sua morte.

Na mesma época, saindo da escola viu alguns garotos e garotas encostados em um muro, todos de preto. Os alunos passam por eles com medo, ninguém tinha coragem de olhar diretamente e passavam rápido. Ela gostou da sensação que eles causavam nas pessoas e os observava sempre de longe, sem coragem de se aproximar. Começou a imitar os figurinos, conseguiu algumas camisas pretas, fez uns rasgos nas pernas da calça, se colocava mais despojada e começou a tentar se aproximar.

Foi então que conheceu Alan. Começou a freqüentar as aulas de basquete e como era alta e jogava bem, quando precisava de alguém para substituir ela entrava no time. Foi assim que se aproximou dele.

Alan não a tratava como uma menina e era isso que ela adorava nele, eles conversavam sobre o time de basquete, sobre música, Skate e Juliana se sentia bem ao lado dele. Aos poucos foi se soltando mais e conhecendo os outros membros do grupo, Reginaldo, Marcos, Yasmim e Tábata.

Se sentia diferente ao lado deles, eram todos atenciosos, eram inteligentes, tinham bastante humor, tiravam sarro de tudo e de todos. As meninas eram carinhosas e sempre a recebia com beijos no rosto e abraços, os meninos com aperto de mãos estilosos. Não cumprimentavam Juliana como Tábata e Yasmim, isso a fazia se sentir radiante, como se fosse um garoto também, tratada como igual.

Depois das aulas, iam para um bairro vizinho e ficavam provocando os alunos de outra escola, até conseguirem brigas. Todos brigavam bem, Juliana se destacava pela força que tinha e potencia dos socos, derrubando até garotos mais velhos que ela.

Ela tinha muita habilidade e nunca se machucava, eram apenas alguns arranhões e algumas luxações, nunca levou um soco no rosto ou teve ferimentos aparentes, então sua família não desconfiava das brigas que aconteciam em outros bairros. Ela começou a ter fama entre os alunos de boa lutadora.

Aos poucos muitos da escola passaram a respeitá-la, era sempre chamada para as rodas mais badaladas e todos a cumprimentava com apertos de mãos. E as meninas com beijinhos e abraços.

Começou a fazer exercícios escondidos, levava para a casa abandonada latas de tinta, que enchia com pedras e areia que conseguia de construções próximas, conseguiu alguns livros de artes marciais e ficava treinando sozinha, dando socos e chutes em sacos de pano, que enchia com serragem. Ia correr em lugares longe de sua casa e dos bairros onde brigava.

Sua forma física despertou a atenção de algumas meninas que sempre se aproximavam. E quando tinham alguma satisfação para tirar com outras, chamavam Juliana para ir junto como guarda-costas. Ela sabia que era puro interesse, mas essas meninas que ajudava se tornavam mais próximas dela e sempre queriam estar na companhia dela. Isso significava para ela, mais beijos no rosto, abraços, ela as segurava no colo como brincadeira e algumas sentavam em suas pernas. E a noite sozinha em sua cama ela fantasiava coisas com essas garotas.

Passaram quatro anos, e estes foram os melhores anos na escola e na sua infância, onde fez grandes amigos e se sentia novamente alegre e viva.

De repente, um ato impensado fez tudo mudar novamente...

 

 

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Nas férias de verão daquele ano Marcela foi para a fazenda de sua tia Jussara, no interior de Minas Gerais. Os primeiros dias foram muito agitados, com várias atividades na fazenda. Sempre acompanhada de sua prima Camila que era três anos mais velha. Elas passeavam a cavalo, iam para a cachoeira, viam os animais recém nascidos, acompanharam os peões no pasto, ajudavam sua tia na casa e iam nas festas regionais juntas, acompanhadas por Venâncio que era o capataz chefe da fazenda. Na semana seguinte, chegou na fazenda Edson, filho único de Venâncio. Edson morava com parentes na cidade ao lado. Tinha dezoito anos e desde os catorze vivia com os parentes. Sua mãe morrera em seu parto e Venâncio nunca mais casara. Criou o filho com a ajuda das mulheres dos funcionários da fazenda. Então quando Edson completou catorze anos, o enviou para morar com os parentes na cidade ao lado para poder estudar em uma boa escola. Duas vezes por ano ele vinha para passar as férias com o pai.

Nos primeiros dias Edson as acompanhava em todas as atividades, passava o dia todo junto com Camila e Marcela. Passado uma semana, Marcela não encontrava mais os dois. Eles não a acompanhava mais nas atividades diárias e sumiam durante algumas horas do dia. Então em uma tarde Marcela pegou o cavalo e subiu a mata do fundo da fazenda em direção à cachoeira, ao se aproximar, viu Edson e Camila se beijando encostados em uma árvore. Com o barulho dos passos do animal Camila e Edson se assustaram, tentaram se esconder, mas viram que era Marcela.

- Má, por favor não conta para meu pai! Por favor! Ele me mata ou o Edson. Vive dizendo que sou muito nova para namorar! E não quer ninguém encostando em mim!
- Tudo bem Cá, mas vocês poderiam ter me contado, né? Não precisava ter escondido! Eu não vou contar nada para o tio Norberto.

E a partir daquele dia, Marcela os acompanhava, sendo o pretexto perfeito para o casal. Poderiam ficar o dia todo na cachoeira ou andando pela fazenda. E ninguém desconfiaria, afinal, estavam com Marcela junto.

Marcela gostava da forma como Edson tratava Camila, e começou a sentir algumas sensações diferentes quando eles se beijavam perto dela. Era diferente dos beijos do pessoal da escola, eram mais fortes, mais intensos.

Na véspera da sua partida, Marcela estava no quarto de hóspedes deitada, mas seu sono não aparecia, sabia que iria embora no dia seguinte, mas não queria partir. Quando ouviu um barulho do lado de fora, abriu uma pequena fresta na janela e viu Camila e Edson de mãos dadas andando rapidamente, indo para o estábulo. Marcela sentiu uma vontade incontrolável de ver pela ultima vez eles se beijando. Seus pais chegariam bem cedo e ela não teria outra chance. Abriu a janela sorrateiramente apoiou os braços e desceu o mais silenciosamente que conseguiu. Saiu na varanda que contornava a casa, depois desceu os degraus. Esgueirando-se lentamente chegou a um ponto no estábulo, onde estava muito escuro e não poderia ser vista, mas naquela distância poderia ver os dois perfeitamente.

Edson beijava Camila que estava encostada na parede do estábulo, perto dos baldes de leite. Marcela sentia uma sensação diferente, o beijo era muito mais intenso que os outros que havia visto. Os dois respiravam com dificuldade e os corpos estavam muito unidos. Passado alguns minutos Marcela viu Edson deslizando as mãos pelo corpo de Camila e parando no seio dela, ela tentou retirar a mão, mas ele persistiu e ela acabou desistindo. Não contente por tocar em cima do tecido, colocou a mão por dentro, mais uma vez Camila tentou segurar as mão dele, mas não se esforçou o suficiente. Ele a tocava e a beijava com desejo. Levantou a blusa dela e desceu o rosto, sugando e lambendo o seio dela. Camila segurava nos cabelos dele e apertava a cabeça contra seu peito. Edson desceu a mão, tocando-a sobre a saia, mais uma vez ela tentou protestar, mas desistiu mais rápido que nas vezes anteriores. Ele a tocava entre as pernas e sugava seus seios, Camila segurava fortemente nos cabelos dele, se contorcia aos toques e respirava com dificuldade. Edson ousou um pouco mais, desceu a mão, subindo-a novamente, mas desta vez por dentro da saia de Camila, que não protestou. Ele a tocava e beijava ao mesmo tempo, ela apertava seu corpo contra o dele. Com a outra mão, ele segurou a mão de Camila e a fez sentir o volume sob suas calças. Ela segurava em Edson e ele a tocava. Passado mais alguns minutos ele abriu seu zíper, deixando à mostra o volume que a calça escondia. E Camila segurou-o movimentando-o e ele a tocava, com a saia erguida. Em um movimento rápido, Edson pegou Camila nos braços, suspendendo-a. Ela cruzou as pernas pela cintura dele e abraçou seu pescoço. Ele movimentou o quadril e Camila fez uma expressão de dor, apertando os olhos. Mas a expressão de dor foi se desfazendo aos poucos. Ela agora com a cabeça pendente para trás expressava prazer e desejo, mordendo os lábios e controlando para não gemer alto. Ele movimentava rapidamente o quadril e soltava gemidos abafados. Após algum tempo ele parou e soltou lentamente Camila. Permaneceram Ainda encostados na parede, ambos com a respiração ofegante se beijavam e abraçavam. Ficaram mais alguns minutos. Arrumaram suas roupas e partiram sorrateiramente de mãos dadas.

Marcela estava respirando rapidamente e sentia seu corpo todo queimar. Voltou para o quarto e não conseguiu dormir, ficou a noite toda lembrando das expressões de Camila encostada na parede. Dos gemidos e dos toques e movimentos que eles fizeram.

No dia seguinte se despediu de todos e partiu com os pais devolta a São Paulo. Mas não conseguia parar de lembrar da cena que havia visto. Todas as noites em seu quarto lembrava dos dois e seu corpo ficava quente. Mas quando lembrava das expressões de Camila, sentia arrepios que percorriam o corpo de cima a baixo.



Ela era muito bonita e despertava a atenção dos garotos na escola, no prédio e na igreja, participava de quase todos os eventos e dos grupos. E por não ficar com nenhum garoto, lhe dava a fama de garota fatal. Todos os garotos faziam apostas para saber quem ficaria com ela, mas eles sempre saiam frustrados. Marcela passava a maior parte do tempo junto com as meninas. Dificilmente algum garoto entrava no grupo e se isso acontecia não conseguia seu objetivo e acabava namorando alguma outra garota do grupo.

Um dia foi à igreja junto com a sua mãe, que era uma das orientadoras do grupo de jovens. Ela estava participando do mutirão de montagem de uma festa para angariar fundos. Ao descer de uma escada após prender alguns enfeites, Marcela tropeçou e Vinicius a ajudou. Ele tinha quatorze anos. Era um rapaz bonito, educado e sorridente. Sua mãe sempre o levava na igreja ou em outras festas dos grupos de jovens. Eles tinham acabado de se mudar para o bairro e ele despertava os olhares das meninas da igreja.

Após ajudá-la, eles iniciaram um papo animado e aos poucos Marcela foi se soltando, ele a ajudou com os afazeres da festa e também durante, servindo nas barracas. Ela começou a se sentir bem com a presença dele. Saiam com o pessoal do grupo, iam para cinemas, apresentações de músicas, corais, teatros e algumas festas na casa de algum membro do grupo. Aos poucos ela foi gostando de estar com ele e sentia um incomodo e nervosa quando as meninas se aproximavam. Durante os dois anos que se seguiram eles ficavam sempre perto um do outro, mas nunca haviam se beijado ou se tocado. Marcela não permitia, gostava da companhia dele, queria a atenção dele, mas não sentia vontade de beijá-lo. Nas três tentativas que ele fez de beijá-la, ela o afastara, ficando várias semanas sem se aproximar novamente dele. Aos poucos ele foi desistindo.

Um dia, agora com catorze anos, ela entrou na igreja e viu Vinicius sentado. Foi se aproximar como sempre, mas Amanda uma outra garota do grupo estava sentada ao lado dele, ele passou a mão por trás das costas dela e ela o beijou. Marcela sentiu um sensação de raiva, de traição, seu corpo tremia e seu expressão fechou. Não se aproximou naquela noite.

Na semana seguinte ele se aproximou dela no fim do culto. Pediu pra ela aguardar que queria lhe falar. Eles iam para uma lanchonete perto da igreja. No caminho Vinicius segurou no braço de Marcela e a empurrou contra o muro, ela tentou sair, mas desistiu. Ele a beijou e ela experimentou. Ela sentiu o coração disparar, pela emoção, queria saber como era beijar algum garoto, mas não sentiu vontade de continuar. Cortou o beijo, ele protestou e tentou novamente, mas ela não deixou.

Ela não sabia explicar, mas não sentia vontade de continuar beijando ele, nem de namorá-lo. Quando ficava sozinha, lembrava das expressões de Camila e isso a deixava quente. Mas não se sentia assim na companhia de Vinicius e dos outros garotos. Dessa vez se afastou definitivamente dele. Ia na igreja em horários que saberia que não o encontraria, evitava ficar com o grupo na lanchonete e aos poucos foi se afastando do grupo de jovens da igreja.

Um ano depois, seu pai recebera uma proposta para ser diretor de outra empresa.

Mudam de cidade e outra pessoa despertaria sua atenção...

 

 

Continua...