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Donna

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CAPÍTULO 42

 

“Não há escuridão eterna. A luz vem para nos resgatar das trevas e dar vida àquilo que aos nossos olhos já está perdido.”

 

- Era ela?
- Sim.
- Ciumenta?
- Um pouco. Sei lá. Acho que sim. Mas... isso não tem importância agora.

Olhei pro mar mirando os reflexos do sol da manhã na água e pensando em como há épocas em que as coisas vêem numa sequência louca em nossa vida e nos sentimos perdidos em um redemoinho que vai nos arrastando até onde nem imaginamos ir. E o pior não é estar no meio do redemoinho, o pior é não sabermos mesmo onde iremos parar, depois de tudo.

- Porque vocês não tentam conversar de novo?

Maurício me tirou dos meus pensamentos com o semblante interessado.

- Porque não dá. – Suspirei pesado.
- Não dá porque ela não quer mais ou foi você que desistiu primeiro?

Olhei-o pensativa.

- Já passou nosso tempo. – Respondi secamente abaixando a cabeça.
- Eu realmente lamento.
- Pra alguém que queria “me pegar” você se conformou muito rápido em não ter nada comigo.
- E quem foi que disse que me conformei!? – Se aproximou e me deu um cutucão com o braço. – Caso você não tenha notado ainda estou tentando!
- Não preciso dizer que não tem chance nenhuma, não é? Você é casado.
- E você é apaixonada.... por outra pessoa. Quem me dera fosse eu.

Sorri.

- Você continua o mesmo...
- De verdade. Despeitos a parte, acho muito bonita a forma que você gosta dessa sua amiga. De tudo que você fez por ela. Sei lá, eu acho que ainda não acabou não, pra vocês.

Ele colocou a mão entre as minhas, em meu colo.

- Deve ser estranho pra você eu dizer isso, mas eu acredito no sentimento que une vocês duas e tem muita água pra rolar ainda.

Olhei-o franzindo o senho. Ele poderia estar certo e por um momento senti uma ponta de esperança em meu peito. Mesmo sabendo que dentro em pouco ela poderia se casar e ir pra tão longe de mim, que eu não a alcançasse mais. Todos se separam um dia. Porque não há amor que resista a tantos desencontros.

Ele me levou até o portão de casa e nos despedimos, não sem antes me lançar uma galanteria lisonjeira. Agradeci e mandei lembranças pra sua esposa. Desse dia em diante nunca mais o vi, mas acredito que ele tenha trazido de volta algum tipo de esperança, não só em relação a Eduarda e eu, mas à minha vida como um todo.

Uma única palavra passou a rondar a minha cabeça: recomeço. E foi isso que tentei fazer.

Depois da primeira cirurgia, no fundo, eu sentia que alguma coisa ruim, poderia me acontecer, de novo, mas eu tinha certeza que poderia sair dessa coisa, como havia feito tantas outras vezes em minha vida. Mais exames e mais testes. Segunda cirurgia. Arranca-se pedaços de você como se nunca tivessem lhe pertencido realmente. Pedaços de doenças incuráveis como as vezes, o amor se transforma. Sete meses de batalha e mais meses de recuperação. Agora, eu me olhava no espelho e meus cabelos já estavam bem maiores. Curtíssimos, mas sadios. Mesmo assim eu usava sempre um gorro ou um boné, tão acostumava eu estava a cabelos longos.

Meus olhos possuíam um ar vítrio, porque não havia mais brilho. Não havia mais eu. Essa mulher que se olhava no espelho não era mais a Fernanda que sempre pensei ser. Toco o meu peito, que antes possuíam dois seios sadios e lembranças de carícias ousadas dançam em minha mente. Outras coisas, como a ponta de um dedo frio. Um sopro quente de amor e o arrepio da pele branca e delicada num dia frio de inverno. Uma lágrima cai. Duas. Três. Já não conto mais. Gemo ao perceber que nunca mais terei essas sensações. Elas não mais me pertencem.

“E que sensações mais poderiam estar reservadas a mim depois disso tudo!?” Penso.

Sem querer, em meio a minha dor sutil, me vem a mente o nome adorado de Eduarda. Gostaria de saber porque sempre nos momentos de dor, é nela que penso. Talvez funcionasse pra mim como uma válvula de escape nos dias nebulosos. Lembro do seu olhar apaixonado pra mim e vislumbro no espelho um estranho brilho de devoção, de volta. Eu ainda estava apaixonada como antes. Nunca deixei de estar e acho que nunca deixarei. Ela é uma doença crônica pra mim, tal qual meu câncer. Percebi meu sorriso de satisfação no espelho, acompanhado de um suspiro apaixonado.

“Que idiota!”

O telefone toca e eu atendo com movimentos lentos e automáticos. A voz de dona Virgínia do outro lado da linha expressa agonia e preocupação. Ela pergunta da nova enfermeira, que por insistência sua, permito que passe meio período do dia ao meu lado. Dona Mirtes, a jovem senhora de 53 anos, era mais necessária do que eu poderia supor. Depois de minha cirurgia ela me acompanhou por meses a fio. Além de ser uma enfermeira muito dedicada é especializada em pacientes graves. O que não era, necessariamente, o meu caso, mas parecia que todos queriam me fazer acreditar nisso.

Depois de pouco mais de dez minutos no telefone e das costumeiras recomendações, desliguei. A verdade é que mãe acha que nunca crescemos. Estava uma manhã fria de final de julho e eu fechei meu roupão, me abraçando em seguida. Às vezes tinha a impressão que a morte me rondava. Era mórbido pensar assim, mas virara um hábito ultimamente.

Me dirigi a geladeira pra pegar um copo de leite gelado, que por incrível que pareça, era a única coisa que parava no meu estômago, quando todo o resto insistia em voltar pra fora. Eu tinha passado a tarde anterior numa curta sessão de radioterapia e me sentia extremamente enjoada. Em meus passos curtos até a cozinha, tinha ouvido a campainha tocar e estranhei pela hora. Olhei no relógio da parede muito branca da cozinha. “Quem poderia ser às oito da matina!?” A enfermeira se prontificara a atender e, apesar da minha debilidade, sempre escutara muito bem, pensei ter ouvido a voz de Eduarda.

Como que lendo meus pensamentos, dona Mirtes viera me avisar que “uma tal de Eduarda” queria levar uma palavrinha comigo. Sem querer, ou por puro nervosismo, o copo de leite escorregou de minhas mãos trêmulas e se espatifou no chão espalhando todo seu conteúdo branco no mesmo.

- Droga! – Praguejei, confusa com minha própria reação inconveniente.
- Não se preocupe, dona Fernanda, eu limpo. – Ofereceu-se.
- Não é necessário. Eu fiz a merda,eu limpo!

Falei mais duro do que o normal, enquanto a mulher me olhava confusa e sem reação, enquanto esperava que eu disesse o que era pra fazer.

- Tudo bem. Se a senhora quer...
- Me desculpe.
- E a moça, o que digo?

“Jesus! O que faço!? Eu não quero que ela me veja assim, desse jeito. Afinal, o que ela pode estar querendo comigo?”

- Por favor, Mirtes. Se não for pedir muito, deixe-a entrar e peça pra me aguardar na sala, que já estou indo.
- Está certo, dona Fernanda. Dá licença.

Fui até o quarto e troquei-me rapidamente. Coloquei a primeira roupa que vi na frente: um conjunto de moletom rosa pra ginástica e um tênis para corridas. Desci com um gorro na cabeça. O gorro sempre me livrava dos olhares perplexos dos curiosos e o frio, era bem proposital. Com passos incertos, desci pela cozinha até a sala. Mirtes já havia servido um cafezinho, por conta própria à visita inesperada e parecia fazer sala pra ela até a minha chegada.

Eduarda não me viu. Estava sentada na sala de costas para o corredor, ouvindo atentamente a enfermeira falando sobre uma doença do neto que parecia ser congênita. Fiquei longos segundos observando seu semblante  sério e compenetrado na conversa da mulher. Seus traços doces e sua pele macia contrastavam com as roupas brancas e austeras de hospital.

Por fim, Mirtes me notou e antes de entender o sinal de silêncio que eu lhe fazia, Eduarda seguiu a direção do seu olhar e virou totalmente o pescoço em minha direção, fixando seu olhar preocupado diretamente no meu. Ficamos por instantes em suspenso. Só nossos olhares falavam e desvendavam medos, dúvidas e incertezas. Me aproximei.

Ela foi a primeira a falar.

- Me desculpe se a incomodei. Sei que é cedo demais, mas eu tava saindo de um plantão aqui perto e resolvi passar por aqui.

Notei a aliança em seu dedo anular esquerdo. Aquilo mexeu comigo mais do que eu me dei conta.

“A aliança pode ser o que mais me incomoda nesse momento.”

- Não tem problema. Sente-se.
- Não quero atrapalhar sua caminhada. – Olhou-me de cima embaixo.
- Não vai. Uns minutos não vão me matar, além do mais, o calçadão não vai sair de lá.
- Claro.

Ela sorriu, sentando-se logo em seguida.

- Bem, já que a senhora chegou eu vou lá na cozinha limpar aquela bagunça.
- Não é necessário, Mirtes. Pode sair mais cedo hoje, se quiser.
- Não, dona Fernanda. Não me custa nada. Além disso, a senhora não está em condições de ficar se esforçando. Recomendações médicas. – Disse a enfermeira, nos deixando a sós.
- Aconteceu alguma coisa? – Perguntou Eduarda, curiosa com a nossa interação.
- Um pequeno acidente, por conta da campainha. Me assustei e quebrei um copo. É isso.
- Seus ouvidos devem estar mais sensíveis do que de costume. Deve ser a radiação.
- Sim. Está sim. Você é a médica aqui. Deve saber melhor do que eu os efeitos de um tratamento como esse. Mas, como ficou sabendo?
- Não importa como.

Ela levantou-se de onde estava sentando-se ao meu lado e sem cerimônias, aconchegou minhas mãos entre as suas.

- Fernanda. Vou direto ao ponto. Vim oferecer ajuda. Sei o que está passando e...

Senti o metal frio da aliança roçando em meus dedos e estremeci, soltando abruptamente minhas mãos das suas.

- Agradeço, mas não estou precisando de ajuda. Já tenho muita gente fazendo isso por mim.
- Claro que precisa.Todos precisamos. Além do mais, ajuda nunca é demais.
- Seu marido sabe que você está aqui?

Ela olhou pra mão automaticamente e fingiu não dar importância ao meu sarcasmo.

- Escuta. Guarde suas armas porque eu não vim como sua inimiga.
- Eu estou me virando muito bem sem sua ajuda  – Cruzei os braços – De qualquer forma, agradeço.

Ela continuou como se não tivesse me ouvido e enquanto ela falava pude notar o quanto ela havia mudado na aparência. Seus cabelos, antes compridos, tinham agora tons de cinza e estavam repicados, um pouco abaixo dos ombros. Seu porte havia mudado também. Estava mais altivo e lhe emprestava um ar mais sério e confiante. Pelo pouco que pude saber de sua vida durante esses meses todos, desde a última vez que a vi, soube que se casou com um neurologista e que mantinha ótimas relações, após formada. Havia virado uma pediatra de respeito e muito dedicada aos seus pequenos pacientes. Nos poucos meses que estava clinicando em hospitais já tinha dado um passo importante rumo ao seu próprio consultório, ajudada pelo tal cirurgião. Enquanto ouvia ela falar, senti uma palavra corroer meu coração: marido. E, num ímpeto de despeito, perguntei, mais sarcástica do que anteriormente.

- Você o ama ou só se casou com ele por dinheiro?
- Como?
- Você entendeu. Sei de muito mais coisas da sua vida. Mais do que imagina.
- Porque isso, Fernanda!? Porque tanta mágoa em seu coração quando eu só vim te estender a mão?
- Você não sabe mesmo?

Dona Mirtes surgiu na porta como um fantasma . Se despediu e saiu, notando o clima tenso entre nós.

- Vamos parar com esse joguinho de palavras porque quem deveria estar magoada com você era eu e eu não estou. Aceitei tudo que se passou entre a gente numa boa e tentei tocar minha vida daquele dia em diante.
- Você já estava noiva quando foi me procurar.
- Sim, é verdade. E você estava de caso com aquele homem da praia.
- Caso?
- É. Caso sim. Porque você nunca foi mulher de namoro. Não é?
- Eu não deveria estar te dando satisfações, mas as coisas nem sempre são o que parecem.
- É claro! Eu devo ter perdido alguma parte a mais nessa estória.
- Não sou eu a traidora aqui, que se casou com o primeiro que apareceu na frente.
- Cuidado como você fala do Otávio. Ele é um homem muito digno e que me ajudou muito quando eu mais precisava.
- E você vai fazer com ele o mesmo que fez comigo!? O descartar em detrimento de outro?
- Deus! – Ela se levantou exasperada. – Porque estamos tendo essa conversa torta!? Não vamos chegar a lugar nenhum nos ofendendo. Não adianta mais ficarmos procurando culpados, porque nós duas erramos. Você não entende isso?? Que droga!
- Você não precisava ter vindo aqui. Se, se sente culpada, de alguma forma, pelo meu estado, não se sinta. Eu não fiquei doente por sua causa. São coisas da vida. Não precisa do meu perdão pra nada.

Notei seu olhar sobre meu peito e num impulso macabro abri o zíper do moletom e levantei a blusa para que ela visse o resultado da operação.

- Viu como fiquei linda!?

Seus olhos congelaram no meu peito. Podia dizer que ela estava chocada. Não que ela nunca tivesse visto uma coisa parecida, já que agora ela era médica. É por nunca ter visto defeito nenhum em meu corpo. Ela baixou a cabeça, muda, enquanto eu tentava controlar a sensação estranha que se apoderava de mim, quando vi pingarem lágrimas silenciosas e molharem o tecido grosso de sua calça branca. Quando ela levantou a cabeça, seus olhos estavam cobertos por grossas lágrimas e eu não sabia se sentia mais pena dela ou de mim pelo meu estado. Abaixei a blusa, arrependida do meu gesto impensado e fiquei parada, no meio da sala, como uma criança levada que acabou de quebrar um brinquedo e não sabe explicar porque o fez. Ela me olhava agora, expectante.

- Eduarda...

Ela levantou e se aproximou de mim, com um olhar que eu não sabia definir. Acariciou o zíper do meu moletom e o fechou até a altura da garganta. Descendo as mãos delicadamente, passou em meu peito, em cima das cicatrizes gigantes e segurou minhas duas mãos. Seu olhar transparecia confusão, mas ao mesmo tempo, a tranquilidade de ter tomado a decisão certa para situação.

- Você não vai conseguir me afastar com esse teatrinho barato. Aprendi a lidar com situações muito mais constrangedoras e difíceis do que essa e sobrevivi. – Segurou meu rosto com firmeza – Eu vou te ajudar, da mesma forma que fez comigo. Você querendo ou não!
- Você não entende...
- É você que não entende! – Colocou a mão nos meus lábios – Nada do que você disser ou fizer vai me assustar a ponto de sair correndo por aquela porta. Trate você de entender isso de uma vez por todas, Fernanda Villar Schmidt! É por sua causa que sou o que sou agora. É por sua dedicação que estou viva aqui na sua frente. É por todas às vezes que eu fui uma pedra no seu sapato, mas mesmo assim e do seu jeito, você nunca me virou as costas.

Eu a olhava abismada.

- Se eu estou vestida de branco agora e muito bem casada sim – Mostrou-me a aliança - é porque você foi a única que sempre acreditou que eu podia melhorar, mesmo eu dizendo que não. É por você que eu renasci das cinzas, Fernanda. E agora, você me manda sumir da sua frente, como se eu nunca tivesse existido!? Como se eu não tivesse tido a importância que tive na sua vida!? Eu não esqueço das coisas Fernanda... Não esqueço dos advogados caros que você me pagou. Não esqueço do seu casamento de conveniência pra me ajudar a tirar da cadeia...

Fui abrir a boca pra falar e ela me interrompeu com a mão.

- Eu sei de tudo! De todos os seus sacrifícios por mim. Apesar de você não ter a mínima ideia dos sacrifícios que fiz por você, mas isso não vem ao caso. Eu acreditei em você e quero continuar acreditando. Não me tira essa única satisfação.

Ela tirou meu gorro e começou a acariciar meus cabelos ralos.

- Não dou dois meses pra eles começarem a crescerem fortes e bonitos. Como antes. - Disse emocionada.

Nada disse. Apenas aceitei o abraço no qual ela me envolveu, acariciando minhas costas.

- Haja o que houver, eu nunca vou desistir de você, Fernanda. Mesmo que você desista de mim. Você entendeu!?

Pousou um beijo delicado em minha testa, pegou a bolsa e saiu sem dizer mais nada. Continuei extática, no meio da sala soluçando até que caí no chão, cansada de retrair minhas emoções e deixei minhas angústias saírem pra fora. Chorei por nós duas e nosso amor. Eu sabia que a tinha perdido de várias formas e apenas havia restado em seu coração o reconhecimento e a compaixão por meu sofrimento. Sei que ela não se comportaria diferente. Eduarda tinha seus defeitos, mas tinha o coração de ouro. E eu, resolvi aceitar o que ela tinha pra me oferecer, mesmo que fosse por caridade.

Dali pra frente sempre mantínhamos contato. Ela me ligava sempre que podia e fazia questão de estar comigo em uma consulta ou outra. Outras vezes, me ajudava, pesquisando tratamentos alternativos, que pudessem aliviar minhas dores físicas e mentais. Me recomendou um psicólogo muito bom, o qual me acompanhou por algum tempo. Meu humor melhorou e eu já não ficava confinada o tempo todo em casa. Fazia caminhadas pela manhã e algumas vezes com ela, quando não estava de plantão. Ela estava morando em um apartamento no Flamengo com Otávio, o que, de carro, era relativamente perto da Urca.

Numa das vezes que veio do plantão da madrugada, acabou por adormecer no sofá depois de tomarmos café juntas. Era assim, de uma forma ou de outra, sempre estávamos juntas. Nossa relação continuava estreita, só que de uma forma bem mais calma e sem exigências de nenhuma das partes. Não tocávamos em assuntos íntimos e desviávamos deles o quanto podíamos. Nos finais de semana em que o marido estava entretido em algum congresso ou cirurgia urgente, subíamos a serra e íamos pra Petrópolis matar a saudades das crianças, que agora não eram tão crianças assim; e da velha e boa Adelaide que abria um sorriso enorme quando nos via juntas e não perdia a oportunidade de soltar uma faísca na brasa adormecida.

Conheci Otávio, o “marido” de Eduarda. Sempre foi estranho pra mim aceitar esse fato dado o nosso passado. Ele realmente era um homem bom pra ela. Apesar disso, por sua profissão, ficava muito ausente de casa, mas quando voltava, a cobria de mimos e carinhos. Era o que ela realmente precisava pra tomar o rumo certo de vez, mas quanto mais tínhamos contato, mais me oprimia a felicidade do casal. Ou pelo menos, a felicidade que ela queria aparentar pra mim.

- Seu marido sabe de nosso passado juntas? – Perguntei casualmente um dia.
- Sim. Ele sabe de tudo.

Fiz cara de quem não estava acreditando.

- Ele é diferente dos outros. Não é um homem preconceituoso e eu sempre fiz questão de ser sincera com ele. Talvez ele me entenda porque também veio da pobreza e já passou fome e frio como eu.

Não sabia se tinha sido uma indireta ou não, pra mim, mas o fato é que aquele comentário me  incomodou. Será que o que sempre tinha nos separado fora nossa classe social!? No fundo, sei que não. Porque dizem que o amor a tudo supera.

“Porque o amor não superou a nossa distância física e psicológica, Eduarda!?”

Como que lendo meus pensamentos ela fez cara de interrogação, mas compreendendo o meu dilema abriu um sorriso reconfortante. Não falamos mais sobre o assunto.

Eu evitava pensar em toques ou beijos entre eles. Me dilacerava a alma pensar que ela pudesse dar a ele tudo que parecia estar guardado só pra mim. Nunca consegui entender o que ela sentia por ele e muitas vezes, até tive dúvidas se a nossa chama havia se apagado. Algumas vezes eu pegava olhares mais melosos em minha direção. Ela disfarçava e eu fingia que não entendia. Isso teria continuado, talvez por muito tempo, se não fosse a mão pesada do destino, novamente em nossas vidas.

Por muita insistência dela e de Cecília, resolvi tentar fazer uma cirurgia reconstrutora. Uma bateria de exames preliminares me foi passada e em um deles detectou-se o que mais eu temia e que faria eu desistir da minha vida, de vez. A doença tinha se disseminado, silenciosamente pelo meu corpo. Mesmo com tantos tratamentos e duas operações, eu havia perdido a batalha pro maldito câncer. Seria isso possível? Eu não estava tendo um pesadelo? Fiquei uma semana com isso na cabeça e me afastei de todo mundo, de maneira que ninguém desconfiasse. Fiz novos exames e antes de pegar os resultados outra notícia me veio como uma ducha gelada. Meu pai havia tido um ataque cardíaco fulminante. Viajei às pressas pro enterro e voltei de Porto Alegre pior do que fui, com ideias de morte iminente.

Eu não queria passar por tudo de novo. Mais quimioterapias, mais radiações, mais tudo. Pensando nisso, fui sozinha até o consultório do oncologista. Fiz todos pensarem que seria apenas uma consulta de rotina, mas eu sabia que ia assinar minha sentença de morte.

Minha vida parecia haver voltado para os eixos, mas novamente, eu estava sendo jogada de encontro a um muro de concreto. Nicole tinha voltado a viver comigo por conta das minhas visíveis melhoras e eu havia decidido me dedicar ao trabalho novamente, tirando o peso das mãos de João Carlos.

Mas, a vida havia se decidido a me dar uma rasteira. As explicações do médico não foram convincentes quanto aos vários tratamentos sem sucesso e o que crescia em mim era a revolta com tudo. Até com Deus. Que ele me perdoe. Será que ele estava sendo injusto comigo, ou isso era mais um obstáculo que eu teria de transpor!? Eu não era de ferro. Será que eu suportaria mais?

Metástase pulmonar. Essa era a palavra. Sem cirurgia possível, apenas quimioterapia intensiva. Iria começar tudo novamente. A pergunta era, como algo, aparentemente controlado, tinha perdido o controle novamente!? Hoje no pulmão, amanhã se espalhará só Deus sabe por onde.

Aos poucos, os mais chegados foram sabendo de minha situação e me ajudando. Fui ficando amarga e me enclausurando em casa novamente. Não aparecia mais no escritório e evitava receber visitas. Minha mãe veio morar comigo no Rio e ficou cuidando de Nicole durante todo o meu tratamento. Eu havia me tornado uma mãe ausente e relapsa. Não me reunia mais com os amigos e nunca mais havia voltado a Petrópolis. Passava manhãs inteiras olhando o mar ou escrevendo e a tarde, quando não dormia, tocava piano até a exaustão e depois me recolhia em minha solidão.

Num belo dia sumi o dia inteiro desligando o celular. Ninguém me achava, porque eu não queria ser achada. Peguei meu velho Cross Fox e dirigi o dia inteiro. Entrei e saí de lugares que nunca estive. Revirei a cidade do Rio, de cabo a rabo. Abasteci umas três vezes pra não parar por falta de gasolina. E quando caiu a noite, parei no píer de Ipanema, pra olhar o mar. Fiquei por longo tempo imóvel, sentindo a maresia entrar pelas minhas narinas nuas. As pedras do Arpoador são maravilhosas, mesmo no escuro. Dava pra ver as ondas açoitando a costa e o vento trazendo os respingos ao meu rosto.

De repente, me lembrei de que já podia ser tarde e olhei no relógio de pulso. Havia esquecido até de trazer o relógio de pulso. Perguntei as horas pra um desconhecido e liguei  o celular me deparando com inúmeras chamadas não atendidas. Todos deveriam estar preocupados comigo.

“Não, meus caros. Eu não vou me suicidar. Morrerei de cabeça erguida.”

Voltei a olhar o mar e o barulho de uma chamada no celular me despertou. No visor, o nome de Eduarda. Sem saber se atendia ou não, acabei apertando a tecla pra aceitar a ligação e imediatamente escutei a voz de desespero da mulher que eu amava do outro lado da linha.

- Fernanda!? Pelo amor de Deus,onde você está?? Ta todo mundo preocupado com você. Você tá bem, meu amor? Fala!

“Meu amor!?”

Coloquei no viva voz.

- Calma... calma Eduarda. Eu to bem.
- Me diz aonde você está. Eu vou te buscar agora.
- Ta tudo bem comigo. Eu não fiz nenhuma besteira. Só saí pra respirar ar puro.
- Você tá perto de alguma praia? To escutando barulho de mar.
- É. To em Ipanema. Mais precisamente no píer do Arpoador.
- Eu vou praí agora. Não sai daí!

Antes de eu falar qualquer coisa ouvi o clique de desconexão do celular. Respirei fundo e pensei que meu dia não poderia terminar pior do que começou. Fingi que não reparei, quando senti, meia hora depois, seu corpo esbarrar no meu, se sentando nas pedras ao meu lado.

- O que aconteceu, Fernanda? - Perguntou aflita, tirando as mechas dos meus cabelos que já haviam crescido um pouco, da testa. Por pouco tempo.

Sem me justificar pedi um abraço. Ela não fez mais perguntas, apenas se deixou ser amarrotada por mim. Ficamos assim, nos acariciando por um tempo. Quando desfizemos do abraço eu perguntei de sopetão.

- Você ainda me ama?
- Você bebeu?
- Eu não preciso estar embriagada pra dizer o que sinto.
- Eu estou sentindo o bafo.Você sabe que não pode beber por causa dos remédios e da quimioterapia, não sabe!?
- Só foi uma única taça de vinho que bebi num barzinho qualquer. Não foi nada demais.
- Pois do jeito que você tá tonta, parece até que foi uma garrafa inteira. Aonde esteve esse tempo todo?
- Por aí.
- Não vai me dizer o por que do sumiço?
- Só se você responder minha pergunta primeiro.
- E qual foi?
- Você ainda é apaixonada por mim?
- Essa conversa não tem cabimento.

Ela se levantou e ajeitou as abas do vestido plissado que sem querer provocou minha libido. A comi com os olhos. Ela notou e virou a cabeça em direção ao mar.

- É melhor irmos embora antes que a gente fale demais.

Eu levantei e segurei seu braço forçando-a a me encarar.

- Do que você tem medo? De mim?
- Não, Fernanda. De mim mesma. – Ficamos nos encarando - Por favor, me solte.

Exasperada, soltei-a.

- Vá sem mim. – Sentei-me de novo.
- Não! Eu não vou sair daqui sem você.
- Porque você não facilita as coisas pra mim e vai pra casa cuidar do seu maridinho, hein!?

Ela se postou na minha frente com as mãos na cintura.

- Deixe de ser arrogante, Fernanda! Seu egoísmo não te deixa ver que as pessoas que te amam estão preocupadas com você. Sua mãe já me ligou diversas vezes e eu mesma já tava desesperada. E você só consegue ficar aí, pensando nas suas próprias dores e se esquecendo que não é só você que tá sofrendo nessa estória toda.
- Por pouco tempo! Logo vocês não precisarão mais se preocupar comigo e seguirão a vida de vocês em paz. Não é assim que deve ser!?
- Não. Não é assim que tem que ser não. – Ela colocou a mão na testa, pensando – Olha... Eu não sei o que te disseram naquele consultório, mas a vida é uma batalha e dia após dia temos de matar vários leões pra sobreviver. Você mesma me disse isso várias vezes. Foi você quem me ensinou a ser forte e a olhar a vida de uma forma mais leve.
- Eu não sou mais aquela Fernanda...
- Você ainda é a minha Fernanda. E eu não espero menos de você, do que ser você mesma, como sempre foi.
- Me deixe sozinha.
- Não vou deixar.

Me levantei e entrei por dentro de umas pedras, na parte mais escura da praia, contando que ela não me seguisse, mas eu escutava sua voz cada vez mais perto de mim.

- Você não pode fugir de si mesma!
- Me deixe em paz!
- Você não é uma vítima. Pare de se comportar como uma criança.

Sem pensar me virei e a joguei bruscamente em cima de uma pedra encostando meu corpo no dela com uma raiva incontida.

- Quem você pensa que é pra me dar lição de moral? Seu disfarce de menina de família não consegue esconder muito bem a piranha que você continua sendo, que na primeira oportunidade arranja um otário pra se encostar.
- Você não vai me ferir com essas palavras. – Disse, tentando se soltar das minhas mãos. – Eu sei que são da boca pra fora.
- Eu vou te mostrar que você não me conhece muito bem.

Beijei-a com força, enquanto tentava subir sua saia. Não me importando se tinham ou não pessoas por ali. Ela mordeu-me os lábios.

- Me larga, sua filha da puta! – Gritou.
- Isso! Bota pra fora a mulher que você é de verdade.
- Eu não quero! - Se debateu, me chutando.

Consegui, com muita dificuldade, alcançar sua calcinha e afastá-la. Meus dedos puderam sentir novamente sua umidade e por mais que ela negasse e a situação fosse contraditória, ela estava tão excitada quanto eu. Sem pensar em mais nada, a não ser no desejo recalcado por meses e meses, eu a penetrei, com a mesma urgência que eu tinha de senti-la de novo junto a mim. Seu corpo quente. Seus beijos. Como poderia anular aquilo tudo? Deixei o vulcão entrar em erupção. Ela gemia embaixo de mim e ao mesmo tempo tentava se desvencilhar. Talvez por culpa.

- Deixa... Relaxa! O que você tem a perder? Hein..!? – Dizia entre suspiros, em seu ouvido – Você nunca mais vai poder me sentir assim, tão perto. Sabe disso... Deixa ...

Senti os seus músculos internos relaxarem e ela parou de se debater. Num frêmito selvagem e imperioso, envolveu suas pernas em minha cintura e empurrava-se pra se enterrar mais em meus dedos. Deixei-a cavalgar em minha mão. Louca de saudade e tesão, beijei-a como se só nos restasse aquele último encontro. Ela se segurava na gola da minha jaqueta, enquanto sua boca escapou da minha e num impulso de prazer, lançou sua cabeça pra trás e gozou, agonizante. Consciente de onde estávamos, deitei mais em seu corpo e tentei abafar seus gemidos com minha própria boca. Seu corpo amoleceu e seus braços caíram, a esmo, por sob a superfície áspera da pedra. Me levantei um pouco e percebi o brilho prateado da lua refletido em seu seio, que na briga, havia escapado do vestido diáfano.

Mesmo em meio aos eflúvios amorosos, me liguei de onde estávamos, devido ao cheiro de maconha e olhando ao redor, vi brasas de cigarros no escuro e risadinhas de quem havia adorado o espetáculo e também estava aproveitando. Tirei meus dedos de dentro dela mais rápido do que pretendia, provocando um leve desconforto, que percebi em seu gemido de dor.

- Me desculpe...

Encostei em outra pedra, de frente pra ela, confusa e ofegante. Meu sexo doía ainda de tesão. Eu não tinha conseguido chegar ao ápice, como ela.

No escuro pude ver o reflexo sombrio dos seus olhos me observando e também, tentando entender tudo aquilo. A maresia que passava por nós dissipava o cheiro forte de sexo que tinha ficado no ar. Senti meus pés molharem e aproveitei pra me abaixar e lavar minha mão. Ela parou de ofegar e levantando da pedra começou a se ajeitar, sem dizer uma única palavra. Não havia o que poderia ser dito. O silêncio, para uma atitude impensada era o melhor remédio.

- Vamos pra casa. – Falei, sem ter mais nada a dizer.

Caminhamos no mesmo silêncio até o meu carro, deixando pra trás todas as palavras que pediam pra serem ditas. Por ironia, nossas pegadas andavam juntinhas, pelo menos, na areia. Diferentemente da vida.

- Você veio de carro?
- Não. Do Flamengo até aqui eu peguei um táxi. Meu carro tá na oficina e eu não quis pegar o do Otávio. Aliás, eu preciso avisar a ele que estou bem.
- Claro.

Virei as costas, desolada e a deixei na areia conversando com o chifrudo. Era impressionante como ela conseguia fingir que estava tudo bem, pro marido, quando havia acabado de transar comigo. Dei um soco na lataria do carro e ela me olhou assustada. Fiquei olhando as pedras que acabaram de ser testemunhas da nossa paixão e me lembrei de um pequeno poema, que vi em algum lugar, sobre o Arpoador:

Quando ando até o Arpoador,
O ar do mar arde de calor.
O ar do mar, arde de amor!


Depois de alguns minutos melosos no telefone, ela voltou pra junto de mim com um sorrisinho cínico.

- Eu te levo em casa. – Falei seca.

Entrei no carro e destranquei a porta do carona pra ela. Apesar de ser uma noite fria, liguei o ar-condicionado. Sentia um calor insuportável, ainda mais, com ela perto. Olhei pro relógio digital do carro e me assustei com a hora, eram 02:02 da manhã. Com os vidros fechados só escutávamos o barulho macio do ar-condicionado.

Liguei o rádio em uma estação qualquer, pra me distrair dos pensamentos que me deixavam cada vez mais exaltada. Entramos na orla de Copacabana. Tantas lembranças passaram pela minha cabeça.

- Se importa se eu abrir o vidro?

Olhei-a de soslaio e disse que não. Desligando o ar logo em seguida. Talvez ela tivesse tendo as mesmas lembranças que eu. Tem coisas que não dá pra esquecer. Dessa vez ela não se pendurou na janela como da primeira vez. Agora, ela era uma mulher que sabia apreciar as coisas sem exageros.

“Minha Eduarda cresceu!”

- Eu não o amo, porque nunca deixei de amar você.

Olhei-a, me perguntando se tinha escutado mesmo isso. Me mantive calada, prestando atenção na direção. Ouvi-a soluçar e começar a chorar e meus próprios olhos se embaçaram. Seus soluços eram cada vez mais altos e seu peito se sacudia, com os mesmos.

- Eu ainda te amo. Você tá me ouvindo!?

Ela se encolheu e se abraçou. Seus poros estavam arrepiados, do frio que entrava pela janela.

Encostei o carro e fechei os vidros abaixando o volume do som. Depois, tirei minha própria jaqueta e coloquei em cima do seu peito como se fosse um cobertor.

- Porque você tinha que me despertar pra você de novo!?
- Eu sinto muito...
- Porque fez isso comigo?? – Bateu nos meus braços.
- Eu não sei!!! Talvez, porque sinta o mesmo.
- Não, você não sente. Você não pensou em mais ninguém, além de você, do seu próprio prazer. Ta satisfeita agora? Era isso que você queria? Me deixar louca por você de novo?
- Você está errada! – Gritei – Eu nem consegui sentir prazer. Não daquele jeito, animal. Não sei o que foi que me deu. Eu queria te castigar, pelas coisas que dizia. Talvez a lua, o seu cheiro, as saudades... Eu não sou de ferro! Mas saiba que já me arrependi. E sim, sinto muito! Não foi tão bom pra mim, quanto foi pra você.

Um silêncio pairou no ar. Liguei o carro e dei a partida.

- Eu não quero ir pra casa. – Disse, limpando as lágrimas.
- Seu marido...
- Não tem ninguém me esperando. Ele tem um plantão cirúrgico essa noite.
- Aonde quer que te deixe, então?
- Não quero que me deixe essa noite.

Olhei-a sem entender.

- Vamos terminar o que começamos, Fernanda. Tem um motel muito bom, há dois quarteirões da próxima virada.
- Não vou fazer isso. Não vou barganhar o meu amor.
- Você já fez isso comigo outras vezes, qual é a diferença agora?
- Você não é mais uma prostituta.
- E você não é mais minha cliente. Há muito deixou de ser. Você virou a mulher que amo e precisa de mim, tanto quanto eu preciso de você essa noite. Se não for por nós mesmas, que seja pelos velhos tempos, Fernanda. – Colocou a mão, em cima da minha, na marcha.
- Tudo bem. Mas, quero que seja do meu jeito.

Ela sorriu e me deixou guiá-la até onde eu quis levá-la.

Paramos em frente ao letreiro iluminado do hotelzinho na rua escura. Ela olhou-me sem entender.

- Porque?
- Você já vai entender. Suba e peça o mesmo quarto de antes. Eu vou arrumar um lugar pra estacionar e já estou subindo também.

Ela saiu do carro e subiu as escadas mal conservadas que rangiam com o peso dos passos. Estacionei o carro em frente ao hotel já que não tinha mais do que me esconder. A rua não estava mais tão movimentada como da primeira vez que estive lá. Duas ou três prostitutas que tinham a petulância de enfrentar o frio e se esquentavam com uma garrafa de aguardente. Alguns boêmios que passavam ao largo, mas não paravam, com pressa. Era uma noite fria. Muito fria. Começou a cair um sereno fino, que embaçava o vidro dos carros. Entrei e reconheci, na pequena recepção, o mesmo homem da primeira vez que estive lá. Ele sorriu com desdém, quando eu estendi uma nota de 100 pelo quarto.

- A garota já pagou meio período.
- Então, eu quero a melhor champanha que vocês tiverem aí.

O homem deu uma gargalhada.

- Eu pareço estar brincando?
- Não. Mas a garota é profissa. Já subiu com o champanha também. Pelo visto, hoje é ela que manda.

Soltou outra gargalhada. Guardei a nota de 100 e andei pelo longo corredor, onde no final, era o quarto. A porta estava entreaberta, como da primeira vez. Entrei, sem fazer barulho. Tudo era exatamente igual. O tapete vermelho e cheio de bolor, as cortinas cheirando a mofo e a pequena janelinha, onde havia visto a forma nua de Eduarda, fumando despreocupada.

- Tantas lembranças...

Virei-me e me deparei com Eduarda vindo do banheiro, com os cabelos úmidos e um roupão branco com as iniciais do hotel. Ela se aproximou e me abraçou por trás.

- Senti tanta falta disso. De ter você, simplesmente, em meus braços. De sentir seu cheiro gostoso de mulher fina e elegante.

Estávamos perto da janela e eu fui puxando-a devagar e mostrei-lhe a lua, que estava cheia naquela noite.

- Será que ela tá assim por nossa causa? Pra deixar nossa noite mais encantada do que já está? – Falou bem perto do meu ouvido, se aconchegando mais em mim.
- Não sei... - Me virei –Mas, eu acho que ela adivinhou que íamos nos amar hoje. – Sorri e a beijei.

Tudo, de fato, parecia ter uma magia especial. Mas, era a pura impressão que o amor dá a uma coisa que você sabe que nunca mais vai sentir.

- Fernanda...
- Hum?
- Eu não quero que essa noite seja igual àquela.
- E não será, meu bem. – Mal terminei de falar e já fui pegando-a no colo. Ela se assustou.
- O que você tá fazendo, sua doida!? Nós duas vamos cair!

Eu comecei a rir e fui tropeçando com ela até cairmos na cama o que provocou um barulho ensurdecedor, além de quase quebrar a velha cama de ferro. O casal ao lado parou o que estava fazendo e escutei o homem socando a parede e berrando logo em seguida para transarmos mais baixo.

Gargalhamos pra valer e ela me fez sinal de silêncio pra escutar os gemidos que vinham do quarto ao lado. Rimos baixinho enquanto aqueles gemidos foram começando a nos excitar. Eduarda começou a me acariciar e me beijou com fome.

- Você é minha? – Perguntei-lhe.
- Sempre fui. – Ela respondeu, me olhando dentro dos olhos.
- Então, porque se casou?

Ela levantou de cima de mim e sentou na cama, séria.

- Por tantos motivos... Mas, principalmente porque fui covarde e deixei que você colocasse uma muralha intransponível entre nós duas.

Eu levantei meu corpo e fiquei prestando atenção às suas expressões.

- Eu sinto muito, Eduarda. – Acariciei seus cabelos acinzentados. – Se o fiz, não foi com intenção de afastá-la. Sei que tenho culpa e paguei um preço muito alto por isso. A minha infelicidade piorou ainda mais o meu estado.
- Shiii... - Ela me calou – Não vamos mais falar de tristezas e separações. Essa noite não!Essa noite você é minha e eu sou sua. Só deixe eu te amar. Não importa se será só essa noite ou pelo resto da vida. Vamos viver o nosso momento. Vamos nos entregar a esse sentimento que nunca deixou os nossos corações, nem um só minuto.

Ela deitou-me devagar na cama e sentou nos meus quadris. Depois da segunda cirurgia eu só usava blusas de gola fechada e sutiãs com bojo para disfarçar a falta dos seios. Então, calmamente, ela foi abrindo botão por botão e no último eu a parei.

- Não.
- Porque?
- Você não precisa ficar vendo isso.
- Isso faz parte de você.
- Mas eu não quero.

Fiz menção de levantar e ela prendeu firme suas pernas em meu corpo. E sem eu me dar conta, em menos de 5 segundos estava algemada a cama. Eduarda tinha uns artifícios na intimidade que eu tinha que reconhecer que eram de profissionais do sexo com muitos anos de experiência.

- O que está fazendo? Onde arrumou isso?
- Antes você não reclamava.
- Mas, agora é diferente e você sabe. Por favor, me solta.
- Calma, meu amor. Eu não vou fazer nada que te magoe. Quero te dar prazer, só isso. Confie em mim.

Ela foi desabotoando devagar minha calça jeans e beijando minha barriga, deixando rastros de lambidas até embaixo do bojo do sutiã, mas não fez nenhum movimento para tirá-lo. Depois, desceu de novo e enquanto descobria minhas pernas, beijava-as até chegar as pontas dos meus dedos dos pés. Soltei um gemido. Ela olhou-me com os olhinhos reluzentes.

- Vou fazer com você, tudo que eu não pude fazer esses meses todos, minha Fernanda. – E foi subindo de novo em meu corpo, até chegar a minha calcinha, que abocanhou e puxou. – Senti falta do seu cheiro... Nossa, como você é cheirosa, minha gata.

Eu me contorcia e tentava que meus pulsos escorregassem da algema. Quando senti sua língua brincar em minha intimidade, soltei um gemido rouco e puxei as algemas com mais força do que queria.

- Não me tortura assim, Edu... arrr... ahhhhh... aiiii

Eu não sabia dizer se eram meus pulsos que latejavam mais ou era meu sexo, implorando pelo toque mágico daquela mulher que eu amava com todo meu ser. Abri mais minhas pernas pra facilitar o seu doce trabalho, enquanto ela mergulhava mais ainda em minha intimidade. Sua língua era um instrumento de tortura inebriante, já que na posição que eu estava, não podia me mexer e nem mesmo retribuir suas carícias. Lembrei-me de que antes, Eduarda gostava de se entregar ao beijo íntimo, excitando os bicos dos meus seios. Sem querer, a lembrança me fez fechar minhas pernas e eu soltei um soluço estrangulado. O inesperado do ato a assustou e ela parou, entendendo imediatamente o que estava acontecendo. Pacientemente, ela soltou-me das algemas e me envolveu em seus braços, deitando minha cabeça em seu peito e acariciando meus cabelos.

- Fica assim, quietinha aqui. Calma... – Começou a fazer massagem nos meus pulsos vermelhos.
- Eu, não... consigo. – Voltei a chorar.
- Shiii... Calma, meu amor. Eu te entendo, perfeitamente. Calma. Vamos ficar aqui quietinhas até você se acalmar.

Quando eu parei de chorar ela levantou e abriu o champanhe, me servindo em seguida uma taça pela metade.

- Isso vai te acalmar um pouco. - Disse, sentando-se na cama e me oferecendo a taça.

Eu tomei todo o conteúdo em um único gole, tal o estado de nervos em que me encontrava e entreguei-lhe a taça.

- Obrigada.
- De nada.
- Eu to me sentindo uma adolescente virgem. Isso nunca aconteceu comigo antes.
- Eu sei que eu sou o máximo e deixo todo mundo nervoso mesmo.

Sorri e dei um tapa em seu braço.

- Você anda seduzindo tanta gente assim? – Perguntei, fazendo graça.
- Não. A única pessoa a quem me interessa seduzir e dar prazer até o limite que ela suportar é você.
- Você sente prazer com o seu marido?
- Porque essa pergunta?
- Preciso saber. Responde.
- Não. Sempre que nós... você sabe. Eu penso em você.
- E ele não suspeita de nada?
- Não. Eu sou muito convincente. - Ela sorriu, se gabando.
- Pois então, quem garante que você sente comigo?

Ela levantou-se e tirou o roupão, depois, apontou-me o seu triângulo negro. Havia gotículas de um líquido brilhoso que, sutilmente umedecia suas coxas. Não satisfeita, ela pegou minha mão direita e colocou na entrada do seu sexo.

- Ele nunca fez eu me sentir assim. Você faz, só de me olhar. Em qualquer lugar que eu estiver. Pode ser dentro de um elevador, no banco do carona ou no meio da rua. Minhas pernas ficam bambas e eu perco a noção de tudo ao meu redor. Você me hipnotiza e me seduz sem dizer uma única palavra pra isso. Só você tem essa capacidade. Em toda minha vida de prostituição, com todas as pessoas que já me deitei... Ninguém me fez sentir tão excitada e tão satisfeita quanto você. Ninguém nunca me completou e nem vai completar, como você, minha Fernanda. Sabe porque?
- Me diz... – Disse emocionada.
- Porque você é o amor da minha vida. Você é tudo que esperei pra me sentir completa, inteira. Eu nunca esperei que fosse uma mulher e não da forma que foi. Mas... - Sorriu – Da primeira vez que você foi à boate me procurar, eu senti uma coisa estranha aqui – Apontou o coração – quando te vi. Eu não sabia o que era, mas você me deixou mais nervosa do que qualquer outra pessoa até aquele momento. E depois que nos encontramos, foi tão... mágico! Você me deu o primeiro orgasmo espontâneo de minha vida. Eu nunca me permiti sentir com ninguém. Eu só consegui o prazer verdadeiro com você e fiquei com medo de me viciar nisso. De estar presa a uma pessoa que só se interessava pelo prazer que eu tinha pra oferecer a ela. Porque a verdade, é que uma pessoa como você nunca poderia querer outra coisa de mim.
- Não é assim...
- Deixa eu terminar, por favor. – Ela suspirou - Por isso eu fugi e fiz tanta besteira. Eu tinha um medo terrivel de me apaixonar por você. De ficar a sua mercê. De só conseguir um pouco de alegria ao seu lado. E mesmo eu não querendo, foi o que aconteceu.

Enquanto ela falava a pouca luz do recinto iluminava seus cabelos acinzentados, dando a impressão de formar um halo de anjo em sua cabeça mimosa.

- Eu tentei fugir de você de todas as formas, Fernanda. Desse sentimento que tomava conta de todo meu ser. Mas, cada vez você se aproximava mais e mais, com essa sua conversa de ajudar, eu sabia que você só sentia pena de mim...
- Não! Não era isso. Eu também estava confusa.

Ela levantou a mão pra que deixasse ela terminar.

- A verdade, Fernanda, é que eu não sei explicar como ou porque, mas quando você saiu desse quarto de hotel da primeira vez, eu já estava irremediavelmente apaixonada por você... E não tinha mais volta. Eu já sabia que você seria o meu calcanhar de Aquiles. O meu ponto fraco.
- A gente tinha que se encontrar, Eduarda. De qualquer jeito. Estava escrito nas estrelas. – Apontei o céu.
- Não tem estrelas lá fora, sabichona! – Ela sorriu. – A lua e as estrelas sumiram e tá chovendo.
- Sim, como da primeira vez.
- Você acredita em destino? – Ela perguntou, interessada.
- Antes de você, não. Nem sei se acredito agora, mas... Eu sei que há alguém lá em cima manipulando nossas vidas. Mas também sei que nós contribuímos em boa parte pra selarmos os nossos destinos.
- Nosso destino é sermos felizes juntas, Fernanda?
- Eu não sei...
- Então, vamos aproveitar o que temos hoje. Vamos ser felizes hoje, meu amor...

Aquela noite foi mágica. Fizemos amor por horas a fio. Primeiro bem selvagem, depois, com uma doçura imprevisível. Nós estávamos apaixonadas e tínhamos certeza que ambas éramos correspondidas. Não importaria se o mundo acabasse lá fora. Não importaria se nunca mais nos víssemos. Eu sempre teria certeza do seu amor e ela do meu.

Acordamos de manhã, tomamos banho e nos vestimos. Quando estávamos saindo, chamei-a da porta. Ela se virou, curiosa.

- Posso te fazer uma proposta?
- Não vai me pedir em casamento, vai!?
- Não. Você já é casada e isso seria bigamia.

Rimos.

- Boa desculpa pra fugir das suas responsabilidades, Dona Fernanda. Comendo a carne, você teria que roer o osso.
- Bem. Não é casamento, infelizmente. Mas, eu ia te pedir pra passar o dia comigo. Pra desligarmos o celular e esquecermos do resto do mundo. O que você acha?
- Vai ter mais sexo no final do dia, senhorita insaciável?? – Brincou.
- Você só pensa nisso, é!?
- E você quer que eu pense em outra coisa com um mulherão desses ao meu lado?
- Então? Aceita ou não?

Saímos pra tomar café num barzinho pé de chinelo que servia média de pão com manteiga. Ela adorou e eu adorei a simplicidade com a qual ela falou do passado.

Saímos pra passear de mãos dadas pela Praça Mauá, sem nos importarmos com os olhares curiosos. De alguma forma, eu e ela tínhamos necessidade de reviver cada detalhe de nosso reencontro. Fomos à pequena igreja de São Benedito, agradecer a felicidade que tínhamos alcançado até ali. Por acaso, o padre estava rezando uma missa e ouvi Eduarda rezando por nós duas. Parecia um anjinho barroco ajoelhada no chão, com uma fé que eu nunca tinha percebido nela. Me emocionei. Saímos da igreja e fomos almoçar no self-service que eu costumava ir para vê-la. Ele ainda existia, do mesmo jeitinho. As mesas do lado de fora, o grande toldo verde e branco que cobria os clientes do tempo.

Sentei com ela e pedimos bife com fritas e Coca-Cola. Ela parecia estar se divertindo muito. Eu aproveitei pra contar detalhes de como eu fazia para vê-la passar todos os dias. Como se fosse um retrospecto em minha cabeça, fui revivendo cada momento maravilhoso daqueles dias suspirados por uma simples desconhecida.

Ela se sentiu envaidecida e agradeceu por eu existir na vida dela. Como que para me lembrar do meu estado delicado, senti uma pontada fina debaixo da costela. Involuntariamente, fiz cara de dor. Ela perguntou se eu estava bem. Eu menti e disse que eram gases. Ela sorriu da minha estupidez. Eu sorri de minha pequena mentira. Não ia deixar nada estregar o nosso dia. Seria só meu e dela.

Saímos dali e ficamos andando pelo centro até chegarmos a Cinelândia. De repente ela parou e me puxou pela mão.

- Estou com vontade de te beijar.
- Como!? Aqui?
- Se você não arrumar um lugar agora, eu juro que te agarro aqui mesmo.

Olhei ao redor.

- Ok... Vamos ao cinema. Aqui perto tem o Odeon. A gente pode pegar a sessão das duas e meia.
- Você nunca me convidou pra ir ao cinema.
- É porque nunca surgiu a oportunidade. Mas, agora que você quer um beijo, penso que esse seria o melhor lugar pra isso, no momento.

Fomos ao cinema. Eduarda fez questão de comprar os ingressos e nem me lembro pra que filme foi, porque não o vimos. Tinham poucas pessoas no cinema e tudo que nos interessava era fazer uma coisa que realmente nunca tínhamos feito: namorar no cinema. Me senti como uma adolescente apaixonada. Como se isso fosse possível. Fizemos o favor de derrubar as pipocas e os refrigerantes nas cadeiras aveludadas, tal era o nosso frisson. A primeira gafe que eu cometi em público depois de adulta.

Lembro uma vez, de Eduarda comentando que nunca tinha ido ao teatro ou numa biblioteca. Fiz questão de levá-la numa visita guiada, no Teatro Municipal. Ela ficou alucinada com os vitrais e com os belos móveis de época. Depois, demos uma passada rápida na biblioteca e em meio a tantas estantes de livros, ela me roubou um beijo. Depois, leu uns trechos do Pequeno Príncipe pra mim e eu prometi comprar pra ela.

Saímos de lá e fomos jantar num restaurante mexicano que ficava ali pelos arredores. Depois, levei-a até a praia de Copacabana, pra esticar as pernas na areia.

- Eu nunca tive um dia tão feliz como esse. – Olhou-me com os olhinhos reluzentes.

Sorri da pureza em suas palavras. Que mulher impressionante. Tão vadia e tão casta. Tão doce e tão selvagem. Eduarda era uma contradição só. Fiquei feliz por tê-la encontrado e poder conhecê-la como conheci. Era uma coisa que sempre iria marcar a minha vida, pelo resto dela. Estando juntas, ou não.

Passamos em uma via que continha o cartaz de uma peça teatral. Perguntei a ela se, se interessaria em vê-la. Levei-a. Era uma peça dançante, com a Cláudia Raia. Ela adorou. Fechamos a noite tomando um sorvete numa sorveteria da Nossa Senhora de Copacabana.

Levei-a até em casa, já que ela estava sem carro. Paramos em frente ao prédio, do outro lado da calçada. Foi um dia maravilhoso. Nos despedimos com um beijo, já cheio de saudades e promessas de amor eterno. Quando ela ia sair do carro, puxei-a de volta.

- Eduarda!? Mesmo que nunca fiquemos juntas. Mesmo que nos percamos, por algum motivo além de nós duas... Nunca esqueça que eu te amo e esteja onde estiver, vou sempre amar você. Juntas ou separadas, seremos sempre uma da outra.
- Meu amor... - Ela segurou meu rosto – Não diga essas coisas, que me corta o coração. Nunca vamos nos separar. Nunca!

Nos beijamos novamente. Loucamente. Como se nunca quiséssemos nos largar. Por fim, interrompemos o beijo. Ela me olhou dentro dos olhos e entrelaçou suas mãos nas minhas.

- Pra sempre... Não esqueça!

Depois, abriu a porta do carro e saiu atravessando a rua, chorando. Meu coração também chorou porque eu sabia que seria a última vez que nos veríamos daquela forma.

Alguns dias depois me internei por necessidades médicas e isso passou a ser minha rotina ao longo dos meses seguintes. Não sei precisar quantos meses. Travei uma batalha feroz pela minha vida. Mas, sei que perdi. Eduarda vinha me ver algumas vezes e sempre nos tratávamos da forma mais normal possível. Só nossos olhos comunicavam o que verdadeiramente sentíamos. Ela sabia que aquela noite tinha sido a despedida do nosso amor. Um amor que atravessou fronteiras, barreiras e sofrimentos. Que foi alucinado, sentido e usufruído até a última gota de forma intensa e avassaladora. Mas, que não nasceu pra morrer junto.

A minha estória termina aqui.

Daqui pra frente, outros a escreverão por mim...

 

 

Continua...

 

 

 

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