Dez coisas que eu odeio em você

by Diedra Roiz e Karina Dias

 

 

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Capítulo 31:

***Allison***

 

Minhas pernas começaram a tremer, minhas mãos suaram frio... Meu corpo inteiro reagiu às palavras que Pamela sussurrou no meu ouvido em Francês... Ouvi-la naquele momento, era o mesmo que ouvir uma música em Inglês sem saber falar a língua. Nem sabemos se estão nos xingando, mas chegamos ao ponto de ficarmos emocionados ao ouvir essas melodias. Assim foi pra mim,quando Pamela começou a cantar palavras em Francês no meu ouvido...
- Je peut parler tous que je veux parce que tu ne comprend rien... – ela dizia... Me instigando... Fazendo o meu coração acelerar dentro do meu peito... Que diabos essa mulher dizia??? Eu não sei, mas os seus lindos e sedutores olhos azuis me pediam incansavelmente para ter a certeza de que ela não estava me xingando... Beijei seu pescoço... Senti as suas unhas arranharem os meus ombros... Enlouqueci de prazer... Apertei-a em meus braços....  
- J'adore ton visage... Ta bouche, ton sourire, tes yeux brillants... La douceur de ta voix... La manière que tu me regarde, me caresse, me touche... – ela me excitava cada vez mais com aquele sotaque perfeito... O frânces fluente o suficiente a ponto de me fazer acreditar que eu comeria uma francesinha. Putz! Quebrei o clima, não é? Bom... Meus olhos arregalados suplicavam por uma tradução... Eu queria sentir aquelas palavras... queria poder calar o tremor que sentia o meu coração, pela ausência do amor falado por Pamela.... Caminhamos lentamente até a cama...
-  Diz alguma coisa que eu entenda... por favor... – sussurrei deixando o meu corpo pesar sobre o dela... – Tenho sede das suas palavras... Pam...- nesse instante, meus olhos lacrimejavam, contrastando com o meu sexo que pulsava de desejo diante dela... Não sei porque, mas algo me dizia que as palavras dela... justificariam tudo o que nós estávamos sentindo naquele momento – Eu preciso saber o que você sente... Amor... – disse quase sem fôlego ao deslizar minhas mãos pelo meio das pernas dela e sentir a sua excitação... A mulher segurou meu rosto delicadamente com as duas mãos... Senti que o seu corpo tremia... Sua pele suava...
- Je t'aime... – disse ela encarando-me de um jeito que eu nunca tinha visto antes...
-  Eu te amo? – perguntei mais do que disse... – Eu te amo... – sussurrei em seguida... Beijei-a de uma forma única... Colocando naquele beijo toda a intensidade de prazer... Carinho... Afeto... Paixão e amor... que eu vertia por ela... Nos beijamos longamente.... Nos acariciando... Apertando... Sentindo a textura das nossas peles... Dos nossos corpos quentes que ardiam no prazer de se desejarem como se nada fosse maior e melhor do que aquele instante de entrega... E não era mesmo... Pelo menos pra mim, estar com Pamela... Seja onde for.... Era como me perder na plenitude da felicidade nunca antes alcançada.
Nossos toques... Caricias... Beijos... Se intensificaram junto com o desejo que só aumentava... Deslizei meus lábios lentamente pelos seios de Pamela... Seus gemidos me levavam ao ápice da loucura... Desci os lábios  pelo seu ventre... As mãos de Pamela estavam afoitas... Me empurravam de encontro ao seu sexo... Não me intimidei... Fitei os seus olhos por um instante... Respirei fundo...
- Je t'aime... – disse e sorri pra ela… Pamela retribuiu o sorriso com uma mordidinha sensual no lábio inferior... Me desmontou aquela mulher. Nossa! Quando ela me olhava daquele jeito eu perdia totalmente o paradeiro... Afastei suas coxas... Acariciei seu sexo com a ponta dos dedos... Ela esquivou a cabeça para trás... Seu corpo estremeceu... Suas pernas passaram por cima dos meus ombros... A mulher lentamente puxou-me para dentro dela... Gemi assim que minha língua invadiu o seu sexo úmido... Completamente úmido... Mordi... Lambi... Suguei... Explorei cada pedacinho daquele sexo que pulsava a minha frente. Explodi num orgasmo delicioso ao mesmo tempo em que Pamela gritava de prazer e se contorcia sobre os lençóis da cama...  Antes da sua respiração se restabelecer eu escalei o seu corpo... Beijando-a... Deslizando a minha boca molhada de gozo na pele dela... Minhas mãos deslizando pelas laterais do seu corpo... Afagando os seus seios rijos de tesão... Eu queria acendê-la novamente, e como Pamela era insaciável... Foi fácil, tão fácil quanto tirar doce da boca de criancinhas... Alcancei os seus lábios... Beijei a sua boca deixando dentro dela o mel do seu líquido...  Meu sexo latejava no meio das coxas dela...
-  Quero provar você, Ali! – arranhou meu pescoço... Escorregou as mãos pelas minhas costas... Afagou minhas nádegas com sensualidade enquanto encarava os meus olhos cheia de desejo... Suas pupilas não eram em formato de fenda, e esse era o único detalhe que diferenciava os olhos de Pamela de um gato, ou melhor: uma gata. Minha carne fervia ao olhar dentro dos olhos dela... Enquanto eu pensava na beleza dos seus olhos, a mulher sedutora que estava embaixo de mim, escorregava os dedos famintos... Me penetrando... Me enlouquecendo... Ergui um pouco o quadril e senti os seus dedos me preencherem por completo... Pamela mordia os lábios e sorria... Divertindo-se com a minha face desfigurada de prazer... Fechei os olhos enquanto gemia fervorosamente pra ela e, inundei os seus dedos de gozo... Encarei novamente aqueles olhos devastadores... Levantei-me de sobressalto de cima dela...
-  O que foi, Ali? – perguntou preocupada. Acho que a minha expressão não foi a das melhores...
-  Des...culpa, Pam... Vou ao banheiro... Já volto... – Sai em disparada na direção do banheiro... Parei de frente ao espelho... Abri a torneira de água aquecida e molhei meu rosto... Fechei os olhos e meus pensamentos me levaram até a sala de Pamela na tarde de ontem... Onde o Sr. Álvaro me fez uma proposta que agora eu não sabia mais se era certo aceitar. O homem queria me dar o cargo da Pamela na revista. Dá pra acreditar? O pai dela achava que Pamela precisava de um choque de realidade para aprender o quanto é importante dar valor às pessoas. Naquele instante, achei que seria uma boa lição, afinal de contas. Seria apenas um susto. Eu ficaria no cargo dela... Trabalharia ao lado dela... E ela saberia como é receber ordens de alguém. Depois de aprendida a lição... Tudo voltaria ao normal, Pamela ao seu lugar de direito na revista, e eu galgando o meu próprio crescimento lá dentro. Com duas diferenças: ela estaria mais humana, e eu seria mais respeitada por ela. Essa era a proposta do Sr. Álvaro. No entanto, diante dos novos fatos, acho que Pamela não precisa passar por esse calvário. Eu aceitei a proposta na hora em que ele me falou, sabe? Mas... Não sei se foi uma escolha correta, na verdade... Eu não queria perder o pouco que já havia conquistado de Pamela. Assim que voltássemos ao Rio, eu contaria as novidades ao pai dela, e procuraríamos um outro meio de tentar humanizar aquela mulher. Um passo já foi dado...
- Je t'aime... – repeti em silêncio sorrindo para mim mesma enquanto olhava-me pelo espelho a minha frente. Voltei para o quarto completamente aliviada. Era simples, não é? Eu só precisava pedir ao Sr. Álvaro que esquecesse aquela estória de mudança de cargo. Puxei o lençol que Pamela havia se enrolado...
-  Amor... Me leva a torre Eiffel?
Pamela arregalou os olhos... Me olhou como se eu tivesse feito uma pergunta imprópria...
-  Hoje não, Ali – disse seca, inexpressiva. Como se ir a torre Eiffel fosse o programa mais chato do mundo.
-  Não vamos fazer nada hoje? – perguntei indignada. Abri os braços. – Estamos na França! Que graça te virmos aqui e não conhecermos nada?
-  Já disse que amanhã faço o sacrifício de te acompanhar na torre, oras!
Abri imediatamente um mapa da França que eu havia trazido comigo na bagagem...
-  O que está fazendo, Allison? – apoiou-se nos cotovelos enquanto olhava na minha direção.
-  Estou vendo um programa para fazermos hoje, oras! – percorri o dedo pelo mapa – Aqui! – quase gritei... Pulei na cama com o mapa nas mãos – Vamos ao Arco do Triunfo, amor! – sorri tentando removê-la do seu desânimo.
-  Nem pensar!
-  Caraca! – estendi o mapa na cama – É pertinho, olha! – apontei o lugar – Dá pra ir andando, anda podemos dar uma passadinha na  "Champ elisé"!
-  Des Champs-Elysées, Allison – Me corrigiu impaciente – Não acha que eu vou andar até o Arco do Triunfo, não é?  - levantou-se. Colocou um robe preto de seda.
-  Qual é, Pam! Pra você – Levantei-me e fui até ela que estava parada de frente a janela olhando a vista maravilhosa, ou melhor: perfeita que o hotel oferecia – Pra você vir a Paris é o mesmo que passar de carro num domingo por Copacabana – sussurrei no seu ouvido – Pra mim, é um acontecimento histórico – Beijei a sua nuca... Ela virou-se de frente pra mim... Olhei-a nos olhos como um cachorrinho que olha o seu dono.
– Tudo bem, vamos de táxi.
-  Não! Vamos andando... Pra não perdermos nem um detalhe.... – beijei os lábios dela antes que a mesma pronunciasse uma palavra – Deixa de ser preguiçosa, Srta mau humor! São só... Três quadras até a "Champs Elisé" ... – ela torceu o nariz novamente para a minha pronúncia. Continuei falando, ela não conseguia me intimidar com aquela sobrancelha erguida - ... da "champs" até o Arco deve dar umas quatro quadras... Tá ali no mapa!
-  Allison! Ir andando até lá é ultrajante!
-  Não! É emocionante! Por favor, chefinha! – olhei para o chão – Quer que eu peça de joelhos, é? – ameacei ajoelhar... Ela me puxou pelo braço...
-  Tudo bem – disse quase num suspiro.
-  Sério? – agarrei-a forte pela cintura – Oba! – gritei... Pamela sorriu... Deixei a minha euforia de lado para admirar aquele sorriso... Seus lábios eram tão rosados... Tão bem desenhados... Deslizei os dedos devagar por eles... – Seu sorriso me faz tão feliz – sussurrei antes de beijá-la... Depois do beijo Pamela me empurrou.
-  Vá se arrumar logo, Ali! Não pense que eu vou ficar andando pela cidade com você. Só o Arco do triunfo, está bem?
-  Beleza! – disse antes de correr na direção da minha calça jeans e vesti-la... Pamela também começou a se arrumar... Putz! Ela parecia que iria a uma conferência com os investidores Franceses. – Vai mesmo usar esse salto? – perguntei enquanto calçava os meus tênis. Ela apenas ergueu aquelas sobrancelhas como quem diz: "que perguntinha idiota". – Você tá linda! – beijei-a no rosto.- vamos? – disse apressada.
-  É... Vamos... – concordou desanimada.
Nossa!!! Vocês precisavam ver a poderosa andando com aquele salto enorme nas ruas de Paris. Por isso que ela não vê graça em nada, oras! Totalmente desconfortável... Segurou no meu braço duas vezes para não cair. Isso que dá só andar de automóvel, quando sai na rua fica parecendo um bebê que está aprendendo a andar... Sorri ao final desse pensamento...
-  Tá rindo de quê, Alli..son! – disse ao mesmo tempo em que se apoiou no meu braço direito pela terceira vez...
-  Xiiiiiiii! – olhei na direção do salto que ela usava – quebrou, né? – cocei a cabeça... Ela vai dar um ataque daqueles – pensei.
Pamela levou a mão até o tornozelo... Depois retirou o calçado do pé... Olhou... olhou...
-  Mas que... merde! – disse enfurecida...
-  Sorte que estamos na "Champs"- apontei um lado da rua... loja da Adidas, do outro lado... Loja da Nike – Acho que você devia se adaptar ao passeio – arrisquei dizer. Pensei que ela iria arremessar o salto quebrado na minha cabeça, mas ela fez pior.
-   Des Champs-Elysées! – disse quase aos gritos - Des Champs-Elysées! Repete comigo, Allison! – sacudiu o meu braço. Ela estava furiosa.
-  Nike, ou adidas? – perguntei. Agora sim ela tacou o salto na minha direção, depois saiu andando na frente... Mesmo com um salto apenas ela conseguia ser elegante. Dá pra acreditar nisso? Sorri, quer dizer: gargalhei da cena e fui andando atrás dela... Pamela entrou na primeira loja, ou seja: entrou na loja da Nike. Falou alguma coisa em francês com um dos vendedores e depois o mesmo voltou com uma caixa. Era um tênis. Putz! Essa cena eu tinha que registrar. Ameacei tirar o celular do bolso para fotografar...
-  Nem pense nisso! – disse assustadoramente séria... Acho que ela teria coragem de me assassinar se eu fotografasse os seus pezinhos calçados com um tênis.
-  Acha que vai... combinar com o figurino?  - contive o riso. Só pra vocês terem uma idéia, ela usava um tailler Chanel verde.
Pamela aproximou-se da vitrine... O vendedor estava atrás dela, um subalterno atencioso do jeitinho que ela gostava. Vi a mulher apontar em algumas direções... O vendedor sumiu em uma direção, depois voltou com tudo o que ela pediu... Pamela desapareceu nos provadores... Depois... bom... Eu tive que me levantar de sobressalto da cadeira onde eu estava impacientemente esperando sinal de vida dela.
-  Nossa! – disse boquiaberta – Você está linda! – Ela vestia uma calça azul marinho, uma camiseta branca e um casaco azul marinho bem esportivo com um símbolo da Nike enorme nas costas.
-  Eu sei – disse enquanto caminhava na direção da saída da loja, quer dizer, não antes de largar nas minhas mãos uma sacola enorme que continha as roupas dela.
 
... Assim que paramos em frente ao Arco do Triunfo eu tirei do bolso do casaco um livrinho pequeno que falava sobre os lugares turísticos da França...
-  O que é isso, Ali?
-  Olha que magnífico! – acho que nem ouvi a pergunta de Pamela... Eu estava encantada folheando o livro – Olha isso, Pam! – disse olhando na direção da base – É o túmulo do soldado desconhecido, idealizado por Napoleão, celebra as vitórias francesas....
-  Eu sei... – disse impaciente. Não me importei com o que ela dizia.
-  ... O túmulo representa todos os soldados que morreram em batalhas... – continuei lendo... Lia e olhava para o monumento a minha frente.
-  Eu sei...
-  Em especial na primeira guerra mundial! – completei sorrindo.
-  Eu sei disso tudo, Allison! Merde! – continuou impaciente... E brava. – O Arco testemunhou momentos históricos como a invasão do Exército  alemão e as comemorações de libertação de Paris com o General Charles de Gaulle à frente. E há um pequeno museu lá em cima! – disse quase sem respirar.
-  Tô impressionada – fechei o livro... guardei-o no bolso do casaco – vamos subir! – puxei-a pela mão.
-  Aí você já quer demais! São mais de duzentos e oitenta degraus menina!
-  Legal! Vem! – puxei-a, ou melhor... Arrastei-a para que subíssemos a escadaria.
 
Quando retornamos ao hotel... Fizemos amor uma única vez... Pamela estava exausta... Tadinha, acho que a pobre nunca andou tanto na vida dela. Fiz carinho nos seus cabelos até que ela adormeceu... Nem sei como explicar o que estava sentindo por estar naquela cidade tão romântica com a mulher que eu amava incondicionalmente.

 

Capítulo 32:

***Pamela***

 

Quando abri os olhos – com muita dificuldade, estava exausta da maratona na véspera - dei de cara com uma Allison de cabelos molhados e olhos muito abertos me observando.  Fui brindada com um sorriso magnífico. Resmunguei, absolutamente mal humorada:
- Pelo amor de Deus... Que horas são?
Ela pulou em cima de mim, me beijando sem parar. Tentei em vão não sorrir, mas... foi inevitável...
- Dez. Levanta, Pam... Vai ficar a manhã inteira na cama, é?
Allison riu da minha cara de pesar – eu estava achando dez horas da manhã de madrugada...
- Muito cedo... estou morta de cansaço, quero dormir mais...
E coloquei o travesseiro na cara. As mãos dela puxaram o lençol que me cobria e começaram a passear pelo meu corpo inteiro de uma forma absolutamente safada. Voltei a resmungar:
- Para, Allison! Me deixa em paz!
Mas nós duas sabíamos que dessa vez a minha voz não tinha soado nem um pouco irritada. Nem eu tinha rejeitado o contato. Pelo contrário. Me virei grudando o corpo no dela num abraço, nossos lábios se encontrando com voracidade. Adorando aquele jeito de ser acordada...

Passamos a manhã e o começo da tarde entre carícias, beijos e palavras sussurradas. Pedimos o café e o almoço no quarto.
Allison não reclamou, mas quando saí do banho ela estava parada em frente à janela, olhando para a vista com uma carinha de bichinho enjaulado.
Como a reunião com os franceses só seria no dia seguinte, me dispus a aproveitar a tarde para levar Allison na Torre Eiffel. Estava pegando o telefone para pedir um táxi, quando ela sugeriu:
- Vamos de metrô?
A olhei, sem acreditar. Definitivamente, ser pobre era um estado de espírito... Ao invés de ir de táxi, Allison preferia o transporte... arg... público? Incrível! No pior sentido da palavra.
Dei um suspiro exasperado, já ia recusar quando ela me puxou pela cintura, um sorrisinho pidão nos lábios ao dizer:
- Por favor, Pam... Dizem que é lindo atravessar o rio...
Ela sacou o maldito livrinho para turistas do bolso e começou a folhear. Procurando o quê? A informação que qualquer criança saberia dar:
- Sena.
Ignorando completamente meu tom de reprovação, ela continuou:
- No metrô que passa atrás da Torre Eiffel, por cima da ponte...
Allison voltou a folhear o livrinho infernal. E eu voltei a completar:
- Bir-Hakeim.
- Isso.
Suspirei novamente. A "cultura de almanaque" de Allison era bonitinha, mas... abominável. Precisava ser corrigida urgentemente. Antes que – muito francamente - eu perdesse a minha pouca, quase nula paciência.
Mas então, Allison sorriu novamente, e o que eu estava pensando foi imediatamente substituído por um insano desejo de satisfazer a vontade dela:
- Está bem. Desde que você não me faça andar quilômetros como ontem.
Acabei concordando, me rendendo à inevitável sensação - por mais absurdo pudesse parecer – de que com Allison ao meu lado, até ir ao inferno caminhando seria um prazer.
 
Quando perguntei ao rapaz na recepção como eu chegava de metrô na Torre Eiffel, ele me olhou como se eu estivesse louca. E estava mesmo. "Folle d'amour"...
O olhar que lancei para ele o fez engasgar. Nada demais. O efeito de sempre. Que me deixou satisfeita, com um risinho sarcástico nos lábios. Ser boazinha com Allison era uma coisa. Com os outros seres inferiores... Nem se eu estivesse doente!
Depois de uma explicação rápida gaguejada por ele, caminhei em direção à porta, sem agradecer. Allison me seguiu quase correndo, resmungando um:
- Pam, precisava tratar o rapaz daquele jeito?
Não estava com a mínima vontade de discutir, por isso segurei a mão dela com um sorriso irresistível, que eu sabia que a faria esquecer o assunto.
Caminhamos de mãos dadas até a estação que o rapaz tinha indicado: Charles de Gaulle Étoile. Allison parou para olhar para o Arco do Triunfo novamente.
E sacou a máquina fotográfica. Sinceramente? Eu achava essa coisa turista, de quem vai a Paris pela primeira vez e fica tirando foto de tudo de um mau gosto gigantesco. Mas a alegria quase infantil de Allison me amoleceu. Deixei ela fotografar a vontade, sem uma reclamação sequer. Só levantei uma sobrancelha quando ela pediu:
- Vamos lá outra vez?
- Para quê? Ontem já não foi suficiente?
Ela voltou a fazer a carinha de cachorrinho sem dono que sempre me amolecia:
- Mas eu não fotografei desse ângulo, Pam...
Mas não daquela vez:
- Allison, Paris tem milhares de monumentos, não é só esse...
- Por favor...
Sacudi a cabeça negativamente. Num impulso, Allison exclamou, colocando uma máquina digital das mais baratinhas nas minhas mãos:
- Eu vou e você fotografa, ok?
Atravessou a rua correndo, antes que eu pudesse discordar. E eu? O que eu ia fazer? Fotografei...

Chegamos na Torre Eiffel, com uma Allison encantada ao meu lado, sem  parar de dizer:
- A cor é linda... Diferente das fotos... E é... imensa...
Até aí tudo bem. Comentários que eu era capaz de digerir. Até ela sacar o insuportável livrinho:
- Inaugurada em 31 de Março de 1889, a Torre Eiffel foi construída para honrar...
Eu já não sabia o que era mais cansativo: ela ficar repetindo coisas óbvias como se fossem incríveis, ou eu acabar sempre completando as informações ridículas:
- O Centenário da Revolução Francesa. Allison, quem não sabe disso?
Ignorando minha irritação completamente, ela continuou:
- A Torre Eiffel possui três plataformas. Do topo, o ponto mais alto de Paris, tem-se uma vista panorâmica da cidade. Tem 300 metros de altura. Somando-se a extensão da antena, a altura total da Torre é de 320,75 metros. Seu peso total é de sete mil toneladas, incluindo 40 toneladas de tinta. Possui 15 mil peças de aço e 1652 degraus até o topo...
Depois do pesadelo da véspera, retruquei com um profundo e sincero alívio:
- Felizmente, existe um sistema de elevadores.
Minha observação a fez rir. Allison guardou o livrinho, e me puxou entusiasticamente pela mão. Antes de entrarmos na... arg...  fila para comprar o "billet" para subir, me fez andar entre o povinho sentado na grama fumando, lendo, conversando ou simplesmente apreciando o monumento.
Voltou a fotografar exaustivamente. Lamentou:
- Não consigo pegar ela inteira...
Com uma benevolência imensa – eu não estava me reconhecendo – tentei  deixá-la satisfeita:
- Depois vamos até Trocadéro. De lá você consegue uma foto perfeita.
- Trocadéro?
Abriu o livrinho novamente. Folheou e depois começou a ler, com uma animação horrenda:
- O Trocadéro é um lugar de Paris localizado do outro lado do Sena a partir da Torre Eiffel. Neste local existiu o Palácio de Trocadéro no lugar onde se ergue o atual...
Foi quando finalmente minha paciência acabou. Não fui nem um pouco doce ao dizer:
- Palais de Chaillot! Mon Dieu, Allison! Você está conseguindo me tirar do sério! Se abrir esse livrinho idiota mais uma vez juro que atiro vocês dois no Sena!
O jeito que ela me olhou... Magoada, muito magoada. Profundamente. O sorriso sumiu por completo dos lábios dela. Na mesma hora me arrependi.
Fiquei olhando para Allison, meio sem saber o que fazer – não ia pedir desculpas, evidente!  - e então, com um tom de voz suave e carinhoso ao extremo, tentei... corrigir o... erro:
- Já viu uma foto famosíssima de Hitler com a Torre Eiffel ao fundo? Foi tirada de lá, amor...
Os olhos castanhos, que se mantinham fixos no chão, me fitaram, surpresos. E depois, aquele sorriso safado e sedutor voltou, me arrepiando inteira:
- Você me chamou de quê?
Sorri de volta ao responder:
- Você ouviu da primeira vez...
Ela voltou a sorrir. E a insistir:
- Ouvi sim, mas... quero ouvir outra vez.
Ficou me olhando como se esperasse que eu repetisse. Me esquivei:
- Vai ouvir muitas vezes, Allison. Só que... agora não temos tempo.
Ela colocou as mãos na cintura, franziu o cenho. Sem desmanchar o sorrisinho dos lábios perfeitos. Tentei resistir:
- Agora não... Depois...
Ela suspirou, bateu o pé no chão, fingindo impaciência. O riso subiu pela minha garganta - impossível conter. E acabei dizendo:
- Está bem: amor... Satisfeita?
- Nem um pouco... Quem sabe se você disser mais uma vez?...
Não foi a resposta dela, foi o jeitinho provocante... Irresistível mesmo. Não questionei nem sufoquei a vontade que veio. Com um beijo que não passou de um leve encostar nos lábios dela, e um sorriso imenso, sussurrei:
- Vem, amor... Quero te mostrar Paris inteira. Começando pelo alto da Torre Eiffel.
Paris vista de cima... Inacreditável? Maravilhoso? Magnífico? Indescritível... As construções históricas numa tranqüilidade de quem não é ameaçado pelos arranha-céus de La Défense. Incrível contraste entre  antigo e moderno, coisa de filme, capaz de levar à loucura qualquer um que observe...
Para mim mais parecia uma maquete. Fui apontando e explicando, me sentindo um site de busca da internet: Cathédrale Notre Dame de Paris, Musée du Louvre, Musée D'Orsay, Ópera Garnier, Obélisque de Luxor, Place de la Concorde, Des Champs-Elysées...
Allison fotografou tudo entusiasticamente. Sem abrir o livrinho infeliz uma vez sequer. Ia perguntar algo, mas se arrependeu. Provavelmente por causa da minha... do que eu tinha dito antes.
- Allison...
Ela murmurou distraidamente, concentrada em me fotografar com Paris ao fundo:
- Uhm?
- O que você quer saber?
Depois de desgrudar os olhos rapidamente da tela da máquina para me olhar nos olhos, ela voltou ao que estava fazendo:
- Nada não. Besteira.
Tirei a máquina das mãos de Allison. E a fotografei, dizendo:
- Quero fotos suas também.
O sorriso que capturei foi perfeito. Completei:
- Pode perguntar o que quiser. Não vou me aborrecer. Prometo.
A nova foto ficou ainda mais bonita. A expressão que eu adorava, e que ela sempre tinha quando estava feliz.
- Pra que essa rede? Atrapalha as fotos e a vista...
A pergunta, feita de repente, me pegou de surpresa. Mas respondi imediatamente:
- É para impedir que as pessoas se suicidem.
- Mesmo?
Fiz que sim com a cabeça.
Com um espanto evidente, Allison falou como quem deixa escapar um pensamento:
- Quem ia querer se suicidar num lugar lindo desses?
- Muito mais gente do que você pensa.
De um jeito muito sério e pensativo, Allison falou:
- Imagine a dor que é preciso se estar sentindo para...
Um silêncio pesado se estabeleceu. Allison com os pensamentos dela. Eu com os meus.
Como sempre, Allison tinha o poder de me surpreender. Tinha pouca cultura, mas... era inegavelmente inteligente. Isso me instigava, porque... cultura ela poderia adquirir com o tempo. O que seria... perfeito.
A abracei por trás, querendo acabar com aquela expressão que ela tinha no rosto, quase de sofrimento, que eu não conseguia entender. A beijei perto da orelha, e sussurrei:
- E então? Está gostando de Paris?
Imediatamente consegui um sorriso. Allison se virou para mim, antes de responder:
- Muito. Mas eu ia adorar o Iraque se estivesse com você.
Dessa vez quem sorriu fui eu. Aplaudindo mentalmente. "Bravo, Allison! Touché..."