Dez coisas que eu odeio em você

by Diedra Roiz e Karina Dias

 

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Capítulo 33:

***Allison***

 

Depois do passeio na Torre Eiffel, retornamos ao hotel num clima romântico de recém-casadas... Nossa! Como era gostoso fazer amor com Pamela tendo ao fundo um dos cartões postais mais lindos do planeta. Era um sonho em todos os sentidos. A poderosa estava completamente entregue ao momento que estávamos vivendo. Tá certo que uma hora ou outra ela alfinetava de alguma forma, mas isso não me preocupava. Na verdade, eu até gosto desse jeitão que ela tem de decidir as coisas, de saber tudo, querer sempre que a razão esteja pendurada no seu pescoço. Se eu relaxar é até divertido. O que eu e o Sr. Álvaro não gostávamos nela, era a forma humilhante que Pamela submetia as pessoas. Ela não respeitava os sentimentos de ninguém, e alguém que não respeita os sentimentos das pessoas, deve ter uma pedra no lugar do coração. Eu realmente não podia, e não queria acreditar que a minha Pam tinha uma pedra no lugar do coração...
Acordamos quase ao meio-dia. A reunião com os franceses estava marcada para as dezessete e quarenta. Beijei Pamela para tentar removê-la do objetivo de podar as minhas esperanças para mais um passeio pela cidade. Eu sabia que para ela estava sendo um saco visitar os lugares que provavelmente já havia estado milhões de vezes, mas mesmo assim, a esperança é a última que morre, não é? Então:
Puxei o lençol que cobria o corpo dela... Comecei beijando os seus pés... Massageando as suas panturrilhas com carinho... Escalei seu corpo deslizando os lábios pelas suas pernas, alternando uma e outra. Alcancei as suas coxas... Pamela já estava com os olhos arregalados... Me fitando cheia de desejo... Mordendo os lábios daquele jeito que ela sabe que me deixa louca...
-  Bonjour  - sussurrei enquanto deslizava as mãos espalmadas pelos seus seios rígidos e rosados... Meus lábios continuavam deslizando pelas suas coxas... Minha respiração alcançava o seu sexo... Pamela não me respondeu nada, apenas se contorceu nos lençóis indicando que queria um contato maior... Deslizei a língua de leve pelo sexo dela... Retirei a mão direita do seu seio e com os dedos senti a sua excitação... Molhada! Ela estava docemente, digo, completamente molhada... Afundei meus lábios, língua... Dedos dentro dela... Senti seu quadril levantar-se do colchão... Agarrei-a pelas nádegas com a mão esquerda e a trouxe para mim, como se eu pudesse entrar dentro dela com aquele contato... Gemi sentido minha carne vibrar com o calor do sexo da mulher que eu amava como nunca amei ninguém em toda a minha vida... Gozei... Ela gozou... Escalei o corpo dela e beijei os seus lábios...
-  Bonjour, mon amour. – disse ela espreguiçando-se.
Aumentei os beijos nos lábios de Pamela... Capturei sua língua e suguei-a com paixão... Aquele beijo estava nos deixando completamente excitadas novamente.
-  Que tal passeio no museu do Louvre? – disparei. Pamela me olhou desconfiada... Me preparei para ouvir o seu "não" bem sonoro – Por favor!
-  Pela milésima vez, Allison...
-  Quero ver a Monalisa! – justifiquei.
-  Pela milésima vez, Allison... – repetiu com aquela cara de quem não está nem aí para a minha curiosidade – Irei ao Louvre, mas com você... Certamente será muito diferente – sorriu. Aquele sorriso iluminou o meu dia. Arrisco dizer que eu fiquei até emocionada. Minha Pamela não tinha mesmo uma pedra ao invés de um coração...
-  Claro que será diferente, oras! Te farei milhões de perguntas!  Adoro explorar a sua inteligência!
Sorrimos... Pam deu um salto da cama... Caminhou nua até o banheiro... Ela me provocava ao andar... Olhou pra trás antes de fechar a porta... Piscou sedutoramente pra mim...
-  Você não vem? – sussurrou.                                                                        
 
Almoçamos as pressas... Correndo para que desse tempo de irmos realmente ao Museu do Louvre. Minutos depois... Insistência é a alma do negócio! Eu estava radiante quando entramos no museu. Olhava cada cantinho do lugar cheia de sede para conhecer um pouquinho mais da história que repousava ali. Parece que Pamela leu os meus pensamentos... Na medida em que andávamos pelo museu, ela ia me contando algumas histórias.
-  Esse museu possui uma das mais importantes coleções de arte do mundo... – dizia ela.
-  E a Monalisa, onde está?
-   Calma, Allison – sorria – Construído em 1190 como fortaleza do rei Filipe Augusto e para proteger Paris dos ataques dos vikings.
-  Os vikings, legal! – passamos por um enorme corredor – E a Monalisa, onde está?
-  Mas que coisa, Allison! – pareceu impaciente – dá para esperar um minuto? – continuamos andando.
-  Já passou um minuto – disse e fitei-a de rabo de olho para provocá-la. Ela me olhou de volta e apontou uma parede...
-  Ai está a sua Monalisa!
Olhei... Olhei de novo... Sabe quando você se decepciona imediatamente com alguma coisa.
-  Nossa! – disse frustrada. Acho que Pam não percebeu a minha frustração... Cruzou os braços e ficou contemplando o quadro a nossa frente.
-  Leonardo da Vinci pintou este retrato por volta de 1504. Logo foi considerado o exemplo do retrato renascentista.
-  É... É... Pequeno! – disse balançando a cabeça negativamente. Vocês tinham que ver o tamanho daquele quadro. Putz! Insignificante. Eu não gostei!
-  É lindo, Allison! – disse Pam afrontada com a minha ousadia ao dizer que o quadro era pequeno.
-  Eu não gostei! – dei as costas imediatamente ao pequenino quadrinho da florentina, conhecida como La Gioconda. Voltei a olhar para Pam que estava imóvel. – Podemos ver a Vênus de Milo?
-  A Monalisa é fantástica!
-  O quadro de margarida que eu tenho em casa é mais bonito que ela.
- Você não vai conseguir me irritar com esse seu comentário... Insolente! – estava furiosa.
-  Relaxa, Pam! É só um quadro...
-  Não tente se justificar Allison! Está piorando ainda mais as coisas.
Sorri... Puxei-a pelas mãos para que andássemos mais rápido... 
 
Pamela ficou um pouco descontente por eu ter falado mal da Monalisa, mas eu não gostei, oras! O que ela queria que eu dissesse? Essas mulheres tem cada uma, viu? Ela ficou de bico até o jantar com os franceses. Depois de algumas taças de champagne, Pamela voltou a sorrir. E como sorriu! Os dois idiotas que falavam fazendo biquinho estavam completamente derretidos por ela, e eu, completamente enciumada. Só parei de sentir ciúmes quando ela segurou minha mão discretamente por baixo da mesa... Nesse momento nossos olhos se encontraram, Pamela sorriu e eu li no seu sorriso a seguinte frase: "está tudo bem". Foi o céu, não é?  Relaxei e encarei a reunião com um pouco mais de tolerância. Negócio fechado! Dentro de três meses a "GENTE CHIQUE" iria invadir o território francês. Uma coisa eu tenho que admitir: o charme da Pam ajuda, e muito, nos negócios da revista. Ela convence os caras com um olhar. Nossa! Estou cada vez mais apaixonada, não é? De volta ao Rio, a primeira coisa que vou fazer é ir ao encontro do Sr. Álvaro e dizer que nosso plano não precisa ser colocado em prática. Pamela está mudando, do jeito dela, mas está mudando... Isso é evidente!
 
Nossa noite de amor foi maravilhosa como todas as outras... As lembranças de Paris ficariam imortalizadas dentro do meu peito como as melhores de toda a minha vida!
Aterrissamos em solo brasileiro e o choque pelo fuso horário nos fez dormir sem ao menos termos tempo de nos amarmos mais uma vez.
Saí da casa de Pamela e fui direto para a revista. Havia marcado com o Sr. Álvaro que assim que nós chegássemos, ele iria passar lá para fazer a troca de cargos. A essa altura Arlete já devia ter avisado ao meu sogro que estávamos no Brasil. Tentei inúmeras vezes ligar para ele durante o trajeto até a revista... Em casa, a informação era que ele não se encontrava. O celular, o homem não atendia. Foi batendo um desespero. Não queria que aquele mal entendido acabasse com os dias maravilhosos que eu e Pamela tivemos em Paris.
Cheguei na revista completamente transtornada à procura do Sr. Álvaro.  Arlete disse que não sabia do paradeiro dele, mas que o mesmo estava ciente de que eu e sua filha estávamos no Rio de Janeiro. Bati na mesa da secretária que não conseguia entender o porquê de eu estar tão nervosa. Na verdade, acho que eu nunca estive tão arrependida e tão nervosa em toda a minha vida... Léo abraçou-me por trás... Virei-me imediatamente de frente pra ele...
-  Que carinha de aterrorizada é essa, amiga?
- Acho que fiz a maior burrice de toda a minha vida. – fitei-o com lágrimas nos olhos.

 

Capítulo 34:

***Pamela***

 

- Eu não gostei!
Essa foi a frase absurda de Allison ao ver La Gioconda. Irritada era pouco,  aquilo me deixou simplesmente... revoltada! Retruquei:
-  A Mona Lisa é fantástica!
Ia começar a explicar porque aquele era o mais famoso quadro na história da arte, senão, o mais famoso de todo o mundo, quando ela completou:
-  Relaxa, Pam! É só um quadro...
Só um quadro? Fiquei paralisada, sacudindo a cabeça negativamente. Allison sorriu, tentando me puxar pela mão enquanto eu protestava:
-  Não tente se justificar Allison! Está piorando ainda mais as coisas. Fique sabendo que "La Gioconda" foi a obra onde Leonardo Da Vinci melhor concebeu a técnica do sfumato...
Ela parou, rindo da minha cara:
- Esfu o quê?
Suspirei profundamente – haja paciência! – antes de responder:
- Sfumato, Allison, é uma técnica usada para gerar gradientes perfeitos na criação de luz e sombra de um desenho ou de uma pintura. Foi uma técnica inovadora na Renascença Italiana.
Ela ficou me olhando, tentando se manter séria, sem muito resultado. Mesmo assim continuei:
- Da Vinci foi o primeiro a perceber que o verniz de madeira corrói a tinta a óleo, gerando um gradiente perfeito no local. É praticamente impossível perceber as pinceladas nas obras dele. Entendeu?
Ela sacudiu a cabeça afirmativamente, com um brilho divertido nos olhos... Mas sequer voltou a olhar para a Monalisa. Apenas sugeriu:
- Impressionante, mas... Agora podemos ver a Vênus de Milo?
Fechei a cara de vez. Respondi muito, mas muito irritada mesmo:
- Podemos. A Vênus de Milo, a Vitória de Samotrácia, a Dama de Auxerre, a Madona das Rochas, tudo o que você quiser. Desde que trate as obras de arte com o respeito que elas merecem!
Saí andando rápido, com Allison me seguindo de perto. Absolutamente furiosa, principalmente ao escutar o risinho que ela tentou abafar, sem muito êxito...

O jantar com os investidores franceses foi um sucesso. De volta ao hotel, não pude deixar de dizer:
- Allison, você enlouqueceu? Sua crise de ciúmes infantil poderia ter atrapalhado e muito!
Ela não se intimidou. Ao contrário, disse com todas as letras:
- Pam, eles estavam dando em cima de você!
Deixei escapar uma gargalhada. Impossível conter... Allison me olhou feio. Respirou fundo, franziu o cenho... Retruquei:
- Meu amor, os homens dão em cima de mim o tempo inteiro...
Allison explodiu:
- Porque você fica sorrindo e flertando com eles!
Caminhei até ela com meu sorriso mais irresistível. A puxei pela cintura sedutoramente. Allison estremeceu... Grudei minha boca no ouvido dela e sussurrei:
- Ali... Entenda de uma vez: eu sorrio pra eles, mas amo você...
O corpo dela se arrepiou inteiro. Um gemido escapou por entre os lábios que rapidamente procuraram os meus. Foi um beijo delicioso. Ardente, urgente, pleno de algo muito maior e mais profundo do que um simples desejo... Quando nossas bocas se separaram, disse olhando nos olhos dela:
- Quer dizer então que arrumei uma namorada ciumenta...
Após um piscar de olhos muito surpreso, Allison gaguejou:
- Namo... namorada? Eu?
A beijei nos lábios mais uma vez antes de responder de forma provocante:
- Prefere ser só amante?
Ela abriu um daqueles sorrisos que me desarmavam sempre... Antes de responder, os lábios descendo por meu pescoço, as mãos abrindo o zíper do meu vestido, queimando minha pele:
- Não... namorada é perfeito...
Perfeita foi ela... a noite inteira...

Depois de um café que foi mais um almoço – afinal passavam das duas horas da tarde quando finalmente acordamos, ambas exaustas de fazer amor até amanhecer – declarei:
- Allison, você não pode ir embora sem conhecer Notre Dame!
Ela resmungou, reclamou, repetiu várias vezes que preferia aproveitar os últimos momentos em Paris na cama, ao invés de perder tempo conhecendo uma "igreja metida a besta", mas quando nos aproximamos da catedral, ela mudou de idéia:
- Uau!
Foi só o que conseguiu dizer. A puxei pela mão com um sorriso imenso:
- Isso não é nada. Espere até ver lá dentro.
A reação dela ao se deparar com os 127 metros de comprimento, 48 metros de largura e 35 metros de altura não foi nada comparada a que teve quando viu a aura etérea criada pelo colorido dos grandes vitrais das rosáceas e janelas. Deixou escapar quase como se falasse para si mesma:
- Nunca me senti tão pequena...
Segurei a mão dela carinhosamente. Allison sorriu, e pediu:
- Podemos sentar aqui um momento?
Concordei. Sentamos em um dos bancos da nave. Allison olhando fixamente, quase hipnotizada pela rosácea no alto, atrás do altar na nossa frente...
Estranha e inacreditavelmente, me vi fazendo algo que eu nunca tinha feito com ninguém:
- A primeira vez que entrei aqui eu tinha cinco anos. Meu pai disse que fiquei quase duas horas sentada, olhando para cima, exatamente como você está fazendo...
Allison me olhou profundamente, sorriu, apertou minha mão na dela, e disse simplesmente:
- Eu amo você.
Acrescentando mais um na minha lista de momentos perfeitos...

Chegamos no Galeão de madrugada. Pegamos um táxi até a minha casa. Eu estava... exausta.
Deixei que Allison coordenasse o porteiro e Paz no carregamento de nossas malas, enquanto tomava uma chuveirada rápida, e me atirava na cama, nua como eu gostava.
Allison entrou no quarto escuro tentando não fazer barulho. Sem abrir os olhos, a chamei:
- Vem logo... Quero dormir abraçada com a minha namorada.
Em questão de segundos ela já estava despida ao meu lado. Me aconcheguei no corpo de Allison com um suspiro de prazer. Colei meus lábios nos dela num beijo apaixonado antes de dizer:
- Adoro dormir com você...
Adormeci quase que imediatamente, com o ombro dela me servindo deliciosamente de travesseiro...
Acordei com beijos... Abri os olhos e Allison estava na minha frente, com um sorriso lindo e estranhamente... fora da cama e vestida. Reclamei:
- Ainda é cedo... Volta para a cama, amor... Vem...
Ela me beijou novamente, antes de dizer:
- Preciso passar em casa antes de ir pra revista. Faz séculos que não vou lá... O Léo já deve estar pensando que me mudei, ou sei lá o que...
Me pendurei no pescoço de Allison. Sussurrei no ouvido dela:
- Deixe ele pensar o que quiser. Não quero ficar sem você...
Mais um beijo, e ela se soltou, respondendo:
- Não, amor, sério... Preciso mesmo ir. Nos vemos na revista.
Concordei com um suspiro desanimado. Nem assim Allison cedeu. Se despediu com um beijo longo, apaixonado, mas que me deixou com uma sensação de algo que eu não conseguia compreender... Tentei afastar o estranho pressentimento sem êxito. Continuei com um pulsar sufocante no peito.
Quando cheguei na "Gente Chique", Allison estava em minha sala.  Parecendo muito tensa.
- Que aconteceu?
Foi a primeira coisa que perguntei. Ela me olhou, um misto de angústia e medo... Antes de responder:
- Preciso conversar com você.
Passei meus braços ao redor do pescoço dela, tentando afastar a distância que parecia haver entre nós – tão palpável que eu quase poderia tocá-la - dizendo:
- Alguém morreu?
Allison nem sorriu. Me fitou profundamente. Preocupação e... o que mais? Eu não sabia responder. Abriu a boca para falar e então... o barulho da porta se abrindo atrás de nós... Nos afastamos rapidamente... Meu pai entrou na sala sorrindo e dizendo:
- E então? Como foi a viagem?
Junto com um olhar de censura, falei:
- Você não sabe bater?
Meu pai riu. E se sentou na minha cadeira. Ele estava um tanto quanto... diferente... Allison parecia ainda mais tensa com a presença dele... Comecei a me perguntar o que estava acontecendo. A resposta veio mais rápido do que eu pensei:
- Você se esquece, Pamela, que essa sala, assim como a revista, é minha. E que eu faço dela o que eu bem entender. Tenho sido benevolente com as suas tiranias, mas... agora chega.
Realmente, eu não estava entendendo:
- Como assim? O que você quer dizer?
Ele me olhou diretamente nos olhos ao responder:
- Que a partir de hoje, o poder de mandar e desmandar na "Gente Chique" não é mais seu. A Allison vai assumir a direção da revista, Pamela.
A única coisa que eu consegui dizer foi:
- O que? Você está me demitindo? É isso?
Aquilo não podia estar acontecendo. Era... um pesadelo... A qualquer momento eu iria acordar... Ele continuou dizendo:
- Claro que não. Você mantém seu cargo. Quero que as duas trabalhem juntas. Ela vai implantar idéias novas, e você vai ajudar. Espero que cheguem sempre a um consenso, mas... já deixo claro que em caso de divergência entre vocês, a decisão de Allison é a que vale.
Meu pai se levantou, triunfante. Sustentei o olhar que me lançou com firmeza. Afinal de contas, não ia dar a ele o gostinho de me ver desmoronar.
Allison tentou falar:
- Sr. Álvaro, eu tentei falar com o senhor a manhã inteira, porque...
Meu pai colocou a mão no ombro de Allison, e a olhou de um jeito que deixou claro para mim que o que ele tinha acabado de falar não era novidade para ela... Mas como? Quando? Minha mente trabalhava febrilmente... Antes da viagem, eles... Em Paris, ela sabia... Ela sabia, mas não tinha me falado nada...
 - Não vou deixar você voltar atrás, Allison.
Voltar atrás? Então não só ela sabia como... Já tinha aceitado...
Allison protestou:
- O senhor não entende... Eu não...
Mas meu pai a interrompeu:
- Confie em mim. Sei o que estou fazendo. Isso é o melhor para a revista, e o melhor para vocês.
E depois se retirou, dizendo:
- Vou deixar as duas a sós.
Minha confiança em Allison era tanta, que perguntei, não conseguindo  acreditar nas palavras que tinha acabado de ouvir:
- Allison... Me diz que isso não é verdade... Que você não sabia... Que...
Eu nem conseguia dizer. Ela abaixou a cabeça antes de responder:
- Não é o que você está pensando, Pam... Calma... escuta o que eu vou te dizer...
Não a deixei completar. Nem que ela visse a decepção tão absolutamente profunda, um abismo me puxando de forma inevitável... Felizmente, a raiva veio, camuflando um pouco o sofrimento. Um sofrimento que eu nem imaginava que poderia existir. Ao mesmo tempo paralisando e causando arrepios... Um vácuo que subia do estômago e me ardia os olhos ao descobrir que... Traída, da pior forma possível. Pela única pessoa que eu... Não conseguia acreditar, aceitar, muito menos compreender...
Virei de costas. Não suportando olhar para ela ao dizer:
- Engraçado. Sempre esperei o pior de todas as pessoas. Menos de você.
Ela se aproximou, tocou meu ombro suavemente. Reagi brusca e rapidamente, rejeitando e interrompendo o contato ao me virar para ela tremendo. Desejando que ela também queimasse no inferno que eu estava vivendo naquele momento:
- Parabéns. Você conseguiu me enganar completamente. Como eu pude acreditar que...
Um riso amargo escapou dos meus lábios. Ao me lembrar de tudo o que eu tinha dito, sentido, me permitido... O quanto eu tinha sido imbecil em esquecer que para ser atingida bastava abaixar a guarda um milímetro...
A rasteira dela tinha me derrubado. Mas uma coisa era certa: eu não ia ficar caída.
Ela estendeu a mão na minha direção, se fingindo de preocupada, mas com um gesto impedi que encostasse em mim. Antes de continuar:
- E no final você não passa de uma vagabundinha ambiciosa querendo subir na vida...
- Pam, me escuta... eu...
Incrível como aquela menina conseguia ser convincente. O jeito que me olhou... Quase conseguiu... Não. Nunca deixaria que acontecesse novamente. Congelaria as lágrimas que sufocavam dentro do peito, fazendo com que meu coração se tornasse gelo. Eu era forte o bastante para fazê-lo.
Minha voz soou seca, absolutamente fria quando a cortei:
- Não adianta. Nada vai me fazer pensar diferente.
Ela prosseguiu numa atuação excepcional de desespero:
- Não! Pam, eu posso explicar, se me ouvir você vai entender...
A olhei com profundo desprezo. O mesmo com que falei:
- Você já conseguiu o que queria, essa encenação toda é para quê? Não quero mais te ouvir. Aliás, não quero sequer olhar para você.
Avancei em direção à minha bolsa. Ela me interceptou, me puxando pelo braço, as mãos envolvendo minha cintura, me trazendo para junto dela, o simples contato fazendo com que eu estremecesse.
Precisava fazer com que minha mente fosse mais rápida do que os sentimentos que ameaçavam aflorar e fazer com que eu me rendesse... Coloquei as mãos nos ombros dela, a empurrando com tanta força que quase caí. Ela impediu, me amparando nos braços, me apertando contra o corpo dela, a boca sussurrando próxima a meu ouvido:
- Je t'aime.
Arrepiei inteira, mas... não como das outras vezes. Talvez a certeza de ser a última vez que nos tocávamos ou então... a profunda dor que se sente quando não se acredita mais em alguém... 
Allison me olhou intensamente. Milhares de recordações, sensações de momentos que havíamos passado juntas me envolvendo...
Ela começou a aproximar os lábios lentamente, e os meus se entreabriram, num desejo incoerente...
E então... Ali soltou um gemido abafado quando minha mão direita a acertou em cheio. Numa bofetada tão forte que a fez perder o equilíbrio e deixou  meus dedos marcados no rosto dela em vermelho.
Me afastei, peguei a bolsa, caminhei até a porta. Ela apenas me olhava, com a mão no rosto, no local em que a estapeei, sem nada dizer. Quem quebrou o silêncio fui eu. Antes de sair da sala, tinha uma última coisa a esclarecer:
- Nunca mais me toque. No que me diz respeito, o que houve entre nós simplesmente não existiu. Você acaba de ganhar a pior de todas as inimigas, Ali. E pode ter certeza: não vai sobrar nada quando eu acabar com você.