Dez coisas que eu odeio em você

by Diedra Roiz e Karina Dias

 

 

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Capítulo 47:

***Allison***

 

Havia acabado. Sim! A minha paciência se esvaiu completamente depois dos últimos acontecimentos. Eu precisava traçar um perfil mais firme diante de Pamela.  Não dá pra ser capacho a vida inteira. Amar alguém não significa anular-se inteiramente em benefício daquela pessoa. Se eu precisasse me matar de trabalhar, eu o faria. Era questão de honra dar uma guinada na minha história. Um giro de trezentos e sessenta graus se fazia necessário naquele momento, sabe?
Pamela saiu da sala bufando, parecia um dragão cuspindo fogo. Eu? Estava arrasada por dentro, mas exibindo uma casca digna de aplausos pela pessoa fria, calculista e desumana que era aquela mulher. Eu estava só, essa foi a constatação depois que Pamela bateu a porta atrás de si. Debrucei na mesa e deixei que as lágrimas escorressem dos meus olhos. Arlete bateu na porta e entrou na sala com sua agenda nas mãos.
-   Senhora Allison – disse, ao perceber o meu estado de tristeza, com o tom de voz calma, quase doce – Tem um instante pra mim?
Levantei a cabeça imediatamente. Enxuguei as lágrimas e pedi que ela se sentasse na cadeira à minha frente.
-  Bom... Desculpe estar incomodando, sei que a sua manhã, depois desse encontro com a dona Pamela não deve estar das melhores, mas eu gostaria muito de lhe agradecer.
-  Que isso, Arlete!  - segurei nas mãos dela que estavam sobre a mesa – Fico feliz por ter podido ajudar a sua filha.
-   Eu já não sabia mais como fazer para custear o tratamento dela. – estava emocionada – Foi Deus quem colocou a senhora na presidência da revista. Há alguns meses, eu havia comentado com a dona Pamela que precisava de um adiantamento para o tratamento da minha filha e ela não ouviu uma palavra sequer. Me ignorou completamente.
-   Ao menos  isso me faz acreditar que não foi uma péssima idéia assumir a presidência da Gente Chique.
-   Se me permite...
-  Hei! Sem formalidade, viu?
-   Desculpe, é que ultimamente a senhora está tão mais...  Madura aqui dentro... Pensei que...
-   Continuo sendo a mesma Allison – sorri pra ela – Só adotei uma postura mais séria diante de vocês porque percebi  que as pessoas estavam confundindo amizade com liberdade. A Pamela pode ser tudo, mas ela sabe exatamente que dentro de uma empresa como essa, não podemos dar tanta liberdade aos funcionários. Esse não é o seu caso, Arlete. Você sempre foi um exemplo de profissional. – ela baixou a cabeça, provavelmente encabulada com o elogio – A dona Pamela sabe o que diz. Custei  a admitir.
-  Bom...  Eu já vou indo... Só vim mesmo agradecê-la – levantou-se – Não se esqueça que sua aula extra está marcada para hoje a noite.
-  É mesmo! Que cabeça a minha, já havia esquecido, sabia? – fiz um gesto de cabeça e ela saiu da sala.

 

****

 

Apaguei... Não sei como, mas quando me dei conta eu estava debruçada na minha mesa e babando. Arg! Que nojo! Meu corpo estava completamente dolorido, nem me lembro qual foi a última vez que dormi mais de quatro horas por noite. O trabalho só crescia e a minha única solução era ficar até mais tarde na revista, e ainda levar trabalho pra casa, conclusão: passava as madrugadas mergulhada nos contratos, gráficos, atualizações... da revista. Burocracias que exigiam a minha maior atenção, e eu era a única que podia naquele momento despachar toda a burocracia da Gente Chique, já que Pamela acumulava na sua mesa trabalhos incompletos propositalmente para  puxar o meu tapete. Acordei tensa... Procurei as pilhas de papéis que estavam  na minha mesa e não encontrei. Olhei para a mesa de Pam... Vazia. Claro! A poderosa precisava dormir até o meio dia para não estragar a sua beleza. Interfonei para Arlete.
-   Pois não senhora Allison.
-  Arlete, onde estão os papéis que estavam há alguns minutos na minha mesa e que eu tinha que despachar ainda hoje?
-   A dona Pamela me entregou todos há algumas horas. – uma breve pausa – Já foram devidamente encaminhados às áreas destinadas.
-  A Pa...mela? – perguntei quase anestesiada pela notícia. Aqueles papéis eram todo o trabalho que ela não havia feito desde que eu assumi a presidência. Estavam acumulados porque eu não compreendia a maioria das pautas em questão. Precisava fazer uma pesquisa detalhada para depois despachar. Coisa que Pamela sabia fazer de olhos fechados.
-   Desculpe dona Allison, pensei que você tivesse conferido.
-  Você conferiu, Arlete? – perguntei com um leve tom de desconfiança, afinal de contas, por que Pamela faria isso?
-   Estava tudo correto, dona Allison. – disse firme, suspirei aliviada com a informação.
-  Então... Está bem.  Quando o Senhor Álvaro chegar, peça para que me encontre na sala de reuniões.
-  Farei isso... E, senhora... – disse insegura antes de desligar.
-  Sim.
-   Precisava falar sobre um assunto muito importante.
-  Aconteceu alguma coisa com a pequenininha?
-  Não! Ela está ótima, graças a Deus... – a voz ficou mais pausada – Questões do trabalho.
-  Pode ser depois da reunião, Arlete?
-  Sim... Claro!
-  Então, depois nos falamos.
Desliguei o telefone completamente absorvida nas palavras de Arlete. Por que Pamela fez o meu trabalho? Todo esse tempo ela havia deixado bem claro que faria qualquer coisa para me prejudicar. Estranho... Sorri pelo cantinho da boca. Será que a poderosa estava ficando mais maleável? Não! Depois da briga que tivemos devido à contratação de Leandra, isso estava me cheirando a golpe!

 

*****

 

Encontrei  com o Sr. Álvaro na sala de reuniões. Ele estava orgulhoso lendo uma nota que havia saído no jornal falando a respeito da nova estrutura da Gente Chique. Dizia a crítica: " Novo conceito de moda: preocupar-se com situações nada fúteis também é chique. Na edição dessa semana da revista Gente Chique, estava em destaque um alerta sobre o Brasil que o próprio Brasil desconhece. Em meio as preocupações com os penteados da moda e as tendências do verão, encontramos um depoimento numa página solta destinada ao público chique-intelectual que decidirá se perde tempo com o cabelo, ou se depois de ler a reportagem irá desmarcar ao menos um dia o horário no cabeleireiro para discutir, no mínimo, a respeito do seguinte:

 

PRÓXIMA GUERRA

Segue abaixo o relato de uma pessoa conhecida e séria, que passou recentemente em um concurso público federal e foi trabalhar em Roraima. Trata- se de um Brasil que a gente não conhece.
As duas semanas em Manaus foram interessantes para conhecer um Brasil um pouco diferente, mas chegando a Boa Vista (RR) não pude resistir a fazer um relato das coisas que tenho visto e escutado por aqui.
Conversei com algumas pessoas nesses três dias, desde engenheiros até pessoas com um mínimo de instrução.
Para começar o mais difícil de encontrar por aqui é roraimense, pra falar a verdade, acho que a proporção é de um roraimense para cada dez pessoas é bem razoável, tem gaúcho, carioca, cearense, amazonense, piauiense, maranhense e por aí vai. Portanto, falta uma identidade com a terra. Aqui não existe muitos meios de sobrevivência, ou a pessoa é funcionária pública, e aqui quase todo mundo é, pois em Boa Vista se concentram todos os órgãos federais e estaduais de Roraima, além da prefeitura é claro. Se não for funcionário público, a pessoa trabalha no comércio local ou recebe ajuda de programas do Governo.
Não existe indústria de qualquer tipo. Pouco mais de 70% do Território roraimense é demarcado como reserva indígena, portanto restam apenas 30%, descontando- se os rios e as terras improdutivas que são muitas, para se
cultivar a terra ou para a localização das próprias cidades.
Na única rodovia que existe em direção ao Brasil (liga Boa Vista a Manaus, cerca de 800 km ) existe um trecho de aproximadamente 200 km reserva indígena Waimiri Atroari) por onde você só passa entre 6:00 da manhã e 6:00 da tarde, nas outras 12 horas a rodovia é fechada pelos índios (com autorização da FUNAI e dos americanos) para que os mesmos não sejam incomodados.
Detalhe: Você não passa se for brasileiro, o acesso é livre aos americanos, europeus e japoneses. Desses 70% de território indígena, diria que em 90% dele ninguém entra sem uma grande burocracia e autorização da FUNAI.
Detalhe: Americanos entram na hora que quiserem, se você não tem uma autorização da FUNAI mas tem dos americanos então você pode entrar. A maioria dos índios fala a língua nativa além do inglês ou francês, mas a maioria não sabe falar português. Dizem que é comum na entrada de algumas reservas encontrarem- se hasteadas bandeiras americanas ou inglesas. É comum se encontrar por aqui americano tipo nerds com cara de quem não quer nada, que veio caçar borboleta e joaninha e catalogá-las, mas no final das contas pasme, se você quiser montar um empresa para exportar plantas e frutas típicas como cupuaçu, açaí camu-camu etc., medicinais, ou componentes naturais para fabricação de remédios, pode se preparar para pagar 'royalties' para empresas japonesas e americanas que já patentearam a maioria dos produtos típicos da Amazônia...
Por três vezes repeti a seguinte frase após ouvir tais relatos: E os americanos vão acabar tomando a Amazônia e em todas elas ouvi a mesma resposta em palavras diferentes. Vou reproduzir a resposta de uma senhora simples que vendia suco e água na rodovia próximo de Mucajaí:
'Irão não minha filha, tu não sabe, mas tudo aqui já é deles, eles comandam tudo, você não entra em lugar nenhum porque eles não deixam. Quando acabar essa guerra aí eles virão pra cá, e vão fazer o que fizeram no Iraque quando determinaram uma faixa para os curdos onde iraquiano não entra, aqui vai ser a mesma coisa'.
A dona é bem informada não? O pior é que segundo a ONU o conceito de nação é um conceito de soberania e as áreas demarcadas têm o nome de nação indígena. O que pode levar os americanos a alegarem que estarão libertando os povos indígenas.
Fiquei sabendo que os americanos já estão construindo uma grande base militar na Colômbia, bem próximo da fronteira com o Brasil numa parceria com o governo colombiano com o pseudo-objetivo de combater o narcotráfico. Por falar em narcotráfico, aqui é rota de distribuição, pois essa mãe chamada Brasil mantém suas fronteiras abertas e aqui tem estrada para as Guianas e Venezuela. Nenhuma bagagem de estrangeiro é fiscalizada, principalmente se for americano, europeu ou japonês, (isso pode causar um incidente diplomático). .. Dizem que tem muito colombiano traficante virando venezuelano, pois na Venezuela é muito fácil comprar a cidadania venezuelana por cerca de 200 dólares.
Pergunto inocentemente às pessoas: por que os americanos querem tanto proteger os índios? A resposta é absolutamente a mesma, porque as terras indígenas além das riquezas animais e vegetais, da abundância de água, são extremamente ricas em ouro (encontram-se pepitas que chegam a ser pesadas em quilos), diamante, outras pedras preciosas, minério e nas reservas norte de Roraima e Amazonas, ricas em PETRÓLEO.
Parece que as pessoas contam essas coisas como que num grito de socorro a alguém que é do sul, como se eu pudesse dizer isso ao presidente ou a alguma autoridade do sul que vá fazer alguma coisa. É pessoal, saio daqui com a quase certeza de que em breve o Brasil irá diminuir de tamanho.
Um grande abraço a todos. Será que podemos fazer alguma coisa?Acho que sim."

 

-  Ótima essa idéia de colocar um pouco de conteúdo dentro da revista, Ali!
-   Foi um investimento barato, Sr Álvaro. O intuito é atrair um público novo de leitores. Imagina que as mulheres compram as revistas de moda para saberem das tendências mundiais. – sentei-me na cadeira – Nosso público alvo são as mulheres, e não vai deixar de ser, mas seguindo o raciocínio de que algumas mulheres não se preocupam apenas com a beleza estética e tem o fator "marido" também, com esse novo contexto, iremos atingir uma nova classe de leitores. Aqueles que buscam agregar conhecimento com moda. Manteremos os leitores atuais, e os próprios críticos dos jornais, os mesmos que nos chamavam de fúteis, irão trazer até nós um novo leque de leitores. Como esse daí que já sentou o pau várias vezes na revista.
Nós rimos...
-  Genial. – fechou o jornal -  As matérias pararam de ser usurpadas, não é?
-  Estranho, Sr. Álvaro. – fitei-o pensativa - Desde que eu assumi nunca mais tivemos as nossas idéias roubadas. Não dá pra entender.
-  É simples, Ali. Quem quer que fosse... Estava sabotando a Pamela, não você!
Fiquei pensativa... Ele tinha razão. O usurpador, ou usurpadora queria puxar o tapete da poderosa, não o meu. Agora seria ainda mais difícil descobrir quem era o traidor.
-  Ela está melhor.
-  O quê? – disse saindo do meu torpor.
-  Minha filha tem exibido no olhar algo que ainda não sei o que é. – disse otimista.
-   Ela trabalhou hoje, sabia?
-   Estamos evoluindo, Ali.
-  Acho que sim... – pensei por uns instantes, depois balancei a cabeça negativamente - Só não quero que ela perca aquela pose aristocrática. É a graça dessa mulher!
Voltamos a sorrir juntos... Altas gargalhadas na sala de reuniões.
-  Não se preocupe com isso Allison. Ela é como a mãe. Terá sempre a pose de uma rainha da Inglaterra!

 

****

 

Os dias foram passando.... Pamela e eu nos falávamos pouco. Na verdade, apenas o necessário. Ela não passava tantas horas ao telefone, pra ser sincera, acho que a poderosa e o Bambi haviam rompido de vez. A mulher só pensava em trabalhar. Ficava verificando os relatórios comigo até tarde. O telefone não mais tocava e nem o baitolinha vinha buscá-la depois do expediente ou para o almoço. Pelo que soube, Léo o via com mais freqüência do que ela. Eles estavam mesmo tendo um caso, meu amigo confirmou esses dias. Leandra também andava se encontrando às escondidas com Penélope. Nós fazíamos vista grossa para isso. Não sei se Pamela ainda achava que nós duas éramos namoradas, mas também, como nossos diálogos eram restritos às coisas da revista, ficava difícil desfazer aquele mal entendido. Não é?
A revista estava no topo máximo. O dinheiro não parava de entrar, engordando as contas da Gente Chique. Nossas edições estavam mais extensas, a moda dividia espaço com os acontecimentos que envolviam o país e o mundo. Eu havia conseguido de alguma forma ganhar a confiança de Pamela. Ela me pedia opiniões sobre tudo, na verdade, era uma troca. Eu não assinava nada sem a presença e a aprovação dela, e ela sempre me consultava antes de pôr em pauta qualquer divulgação. Descartávamos juntas tudo o que, na nossa concepção, não ajudaria no progresso do novo produto que tínhamos nas mãos.
O trabalho e o estudo constante estavam ocupando boa parte do meu tempo, pra ser sincera, se eu pudesse passaria 24h dentro da revista, porque o melhor e mais prazeroso do meu dia era estar perto de Pamela. Sentindo o cheiro dela, ouvindo-a falar sobre os projetos. Olhá-la descaradamente enquanto a mulher estava concentrava na mesa ao lado, pondo em dia e com tremenda eficiência tudo o que lhe era solicitado. À noite, quando eu chegava em casa, tudo era sinônimo de tristeza, eu dormia rápido para acordar logo, sabe? Assim eu chegaria à empresa e daria de cara com a poderosa com as  mãos na massa. Ah! Pamela voltou a cumprir também o seu horário.
Arlete interrompeu os meus pensamentos...
-  Desculpe entrar sem bater dona Allison.
-  Imagina, Arlete! – tentei sorrir, mas eu estava impregnada de saudades de Pamela, que havia saído para resolver questões burocráticas e ainda  não havia voltado – Foi bom ter me desligado dos pensamentos. Tenho muitos papéis para assinar, e quando penso em Pam... – calei-me.
-  Entendo... – estava constrangida – Dona Allison... Lembra daquela conversa que há semanas atrás eu disse que queria ter contigo?
-  Sim... Os dias ficaram corridos e nós nem entramos em detalhes a respeito, não é?
-   Bom... Podemos tê-la agora? Não agüento mais guardar isso comigo.
Olhei o relógio...
-  Claro que podemos – fixei o olhar preocupada – Aconteceu alguma coisa?
-  Sim... – disse já com lágrimas nos olhos – Eu fiz uma coisa horrível!
-  Como assim... O quê... o quê você fez?
-  Não agüento mais conviver com essa culpa... – chorou mais... Sai da minha cadeira e amparei-a nos meus braços.
-  O que está acontecendo, Arlete?
-  Fui eu... Eu quem vendi as capas para a concorrência! – disse sem rodeios.
-  Hum? – fitei-a como se eu não tivesse ouvido direito. A ficha foi caindo aos poucos, sabe?  Soltei-a. Dei a volta na mesa indo de volta a minha cadeira... Como assim, ela vendeu? Arlete era uma funcionária acima de qualquer suspeita. Nós confiávamos nela... Como foi decepcionante ouvir dos lábios daquela mulher que eu tanto estimava a confissão da traição. Lembrei-me imediatamente de Pamela. Do momento que ela foi comunicada sobre a troca de cargos. Deixei meu corpo cair lentamente sobre a minha cadeira... Coloquei a mão na face como se não acreditasse no que tinha ouvido... Balancei a cabeça numa negação dolorida tentando olhar para frente e encarar alguém que nos apunhalou pelas costas.
-   Por quê? – fixei o olhar. Arlete sentou-se na cadeira de frente pra minha. Apesar da dificuldade que era compreender uma atitude como aquela, a todo o momento meu lado racional me dizia que eu precisava ouvir as razões daquela mulher. Pamela não deu ouvido às minhas razões e a nossa guerra fria se estendeu por todos esses meses fazendo o nosso coração sangrar pela angústia de um amor que não podíamos viver.
-   Quando eu entrei nessa sala e ... E falei para dona Pamela sobre o problema da minha filha... – uma breve pausa para enxugar as lágrimas – Ela sequer desligou o telefone Allison! Sequer olhou para a minha cara... Eu estava desesperada... Minha filha estava morrendo... Eu... Eu... Não tive saída... Juntou o desespero e a raiva que eu sentia daquela mulher cruel e fria que jamais se importou com qualquer um de nós... – entreguei a ela um lenço de papel – Obrigada. Bom... – Arlete tomou fôlego – Movida pela raiva eu procurei a diretora de redação da revista concorrente. A mulher era inescrupulosa e aceitou a proposta na hora. Pagou uma bela quantia pelas cópias das capas... Eu consegui pagar parte do tratamento com o que recebi, e fiquei de levar outras capas, mas...
-   Mas... – ao percebê-la hesitante, fiz um gesto para que ela continuasse o relato.
-   Você assumiu a presidência Allison... E... Eu não consegui mais ser desonesta com a revista. Estou muito arrependida, acredita em mim... Você foi um anjo me dando o restante que faltava para o pagamento do tratamento da minha filha.
-   Olha, Arlete... O que você fez... É crime! – passei a mão na face... Esfreguei os olhos... -  Tenho que falar sobre isso com a Pamela.
-  Não, Allison! – disse quase num grito. Sua face aterrorizada me dava pena – Ela vai me despedir! Preciso do emprego... Tenho uma criança para criar!
-  Não... Não... Sei o que dizer... Acredito no seu arrependimento, mas... Arrependimento não basta, entende? Você nos apunhalou pelas costas, Arlete! Como poderemos confiar em você novamente, me diz? – parei de falar por uns segundos... Ela baixou os olhos. Eu estava sentindo exatamente o mesmo que Pamela quando  roubei o seu cargo. É um misto de desconfiança, frustração e mágoa. Toda a admiração que eu nutria por Arlete fora comprometida naquele instante. – Preciso ficar sozinha.
-  Não conte para a dona Pamela, por favor... – levantou-se ainda chorosa – Preciso do emprego, Allison... Estou arrependida, e é um arrependimento sincero... Se eu pudesse voltar atrás... Jamais faria o que fiz novamente. Consegue me entender? – disse quase desesperada.  
-  Eu sei como se sente. – disse também com lágrimas nos olhos.
 
Tava difícil de digerir aquela confissão, viu? Saí da sala por alguns minutos... Quando retornei, Pamela estava sentada na cadeira dela, ao lado da minha mesa. Linda! Ela usava óculos de grau para ajudar na leitura das letras miúdas dos documentos. Pamela ficava um charme com aqueles óculos. Deixava-a com um ar de intelectual que despertava comichões pelo meu corpo. Estranho isso, não é? Mas imaginem aquela mulher linda com aquele ar de superioridade, te olhando por baixo dos óculos como se você não fosse nada mais, nada menos do que um reles mortal! Hum... Isso me enlouquece! Ela estava completamente absorvida no seu trabalho. Meu coração dava pulos ao vê-la. Olhando-a naquele momento, eu sentia florescer dentro de mim as mais belas recordações de saudade que um ser humano pode verter por outro. Chegava a doer na minha alma.
- Vamos almoçar? – disse num impulso, encorajada pela certeza de que eu precisava daquela mulher assim como preciso do ar para respirar.
- Vou assim que terminar. – disse sem desviar os olhos dos papéis que estava lendo. Quanta competência, ninguém chega aonde Pamela chegou sem ela, só porque é filhinha do dono da revista. Pamela fazia por merecer cada destaque atribuído ao nome dela dentro da empresa.
- Acho que você não entendeu, Pam. Estou te convidando para almoçar.- sorri ao final da frase. Ela desviou a atenção do que estava fazendo... Me olhou por baixo dos óculos como se eu não fosse nada mais, nada menos do que um reles mortal! Hum... Isso me enlouquece! Acho que já disse isso. Desconsiderem por favor.
- Com você? – disse surpresa. Quase beijei os lábios dela naquele momento. Esse pensamento malicioso me fez sorrir.
-  Claro – disse encarando-a, praticamente suplicando para que ela dissesse sim.
- Por que não? – disse sensual, levantando-se e apanhando a bolsa que estava pendurada no encosto da sua cadeira. Retirou os óculos da face e deixou-os sobre a mesa, então, aproximou-se de mim, e eu quase perdi o controle de vez da situação. Pamela não hesitou ao aceitar o meu convite. Se vocês pudessem me ver naquele instante, com certeza leriam na minha testa: sou a bobinha da corte dela. - Para onde vamos? – perguntou com aquele tom de voz sedutor que só ela, exclusivamente Pamela possuía. Encarei-a profundamente, quase suplicando por apenas um roçar de lábios. Já me daria por satisfeita se ela ao menos encostasse aqueles lindos lábios rosadinhos e apetitosos nos meus.
- Sei que você adora lugares sofisticados, mas... Queria te mostrar como é bom comer comida caseira, sabe? – sorri da cara de surpresa que ela fez e completei: - Não é o que você está pensando. Calma. Vou te levar na casa dos meus pais. – já conheço a pecinha! – Aceita?
Pamela topou enfrentar a aventura de cortar a cidade, encarando uma hora e dez dentro do carro para almoçar na casa dos meus pais. Foi divertido ouvi-la dizer enquanto olhava a paisagem:
-  Esse lugar não chega nunca?
-  Calma, apressadinha! – sorri enquanto dobrava a esquina – Acho que você nunca colocou os pés em Campo Grande, não é?
-   Tem no mapa?
-  Tá brincando? É um dos maiores bairros da zona oeste!
-  Zona oeste, Allison? – disse com descaso.
-  Sim, senhora frescura absoluta! – soltei uma gargalhada – Você topou almoçar comigo, e eu disse que era na casa dos meus pais. São pessoas simples, tá legal? Vê se não dá mancada!
-  Como assim dar mancada? – inclinou o corpo para fitar-me de frente.
Desviei o olhar da estrada por alguns instantes....
-  Você é linda, sabia? – não resisti... Percebi que ao final da minha frase Pamela emudeceu. Fomos o resto do trajeto em silêncio. Fiquei me perguntando se ela havia ficado aborrecida com o meu elogio. De hora em hora olhei de rabo de olho pra Pamela, mas ela olhava através da janela sem expressar nenhuma reação. Não dava pra saber se a poderosa estava descontente ou não com a minha companhia. Isso me deixou insegura. Será que ela já havia se arrependido por ter aceitado o convite? Antes que eu pudesse questioná-la... Paramos de frente para uma casa simples de dois andares. Um grande portão de madeira na frente. Muros altos. Num bairro com aparência de cidadezinha de interior que tinha uma praça bem arborizada, com brinquedos de madeira onde as crianças ficavam à vontade.
-  Se não quiser entrar eu entenderei – disse notando que ela reparava em cada detalhe do local.
-  Não... Está tudo bem. – tirou os óculos escuros da face. Abriu a porta do carro e desceu. Fiz o mesmo. Toquei a campainha de casa ao mesmo tempo em que uma bola fugitiva do campinho de futebol bateu no portão. Sorri para o garotinho que veio correndo buscá-la. Chutei para ele.
-   Valeu, tia! – disse o moleque.
Pamela olhou pra minha cara...
-  Crianças... – dei de ombros no mesmo instante em que o portão se abriu e a minha mãezinha arregalou os olhos e exibiu aquele sorriso cheio de alegria que era sua marca registrada. As mães não têm jeito. Sempre nos fazendo passar vergonha.
-  Alizinha, minha filha! – abraçou-me demoradamente – Que saudade querida!
-  Vim almoçar! – apertei-a um pouco mais – Não me chame de Alizinha – sussurrei no ouvido dela.
-  Que felicidade te ver minha menininha! – apertou minhas bochechas para me matar de vergonha. Pior do que ser chamada por aqueles apelidinhos de criança é ser apertada nas bochechas. Concordam? Quem nunca passou por isso, não é mesmo?
-   Trouxe uma amiga, mãe! Pamela, essa é a dona Regina, minha mãe... – disse tímida. Mamãe caminhou em direção a Pamela e a abraçou demoradamente. Distribuiu beijos e apertões que me fizeram rir, devido ao constrangimento notório da poderosa. Acho que a poderosa não está acostumada com calor humano.
-  É um prazer conhecê-la minha querida! Vamos! Entrem... Acabei de fazer o almoço, vocês chegaram na hora certa! Seu pai está na sala vendo tevê, Alizinha. Hoje mesmo ele falou em você, no quanto só pensa em trabalhar e esqueceu os nossos almoços de domingo. – dona Regina foi falando... Falando... Enquanto puxava-nos pelas mãos para dentro de casa.
Logo que entramos na sala. Assim que meu pai me viu, ele deu um salto do sofá e veio correndo abraçar-me.
-  Filha, quanto tempo! – apertei o Sr. José até quase ficarmos sem ar.
-  Que saudade pai!
-  Quem é essa loira exuberante, hein? – disse notando rapidamente a presença de Pamela atrás de mim. Papai sempre me matando de vergonha...
-  Pamela, esse é o meu pai... Pai, essa é minha... 
-  Colega de trabalho – disse ela e estendeu a mão. Ele segurou a mão que Pam havia estendido, mas logo a puxou para um abraço desconcertante. Mais uma vez tive que controlar a minha vontade de rir.
-  Mas que moça bonita e cheirosa, filha! – deu beijos no rosto de Pamela.  – Essa moça parece que saiu de uma capa de revista!
-  Menos pai! – cutuquei-o.
-  Vieram almoçar, não é? – abriu uma portinha de vidro na estante – Tenho um vinho delicioso aqui. Guardado a sete chaves para uma ocasião especial. Acho que hoje é uma ocasião especial. Minha filhotinha de volta a sua casa, e em tão bela companhia – disse animado.
Olhei o vinho referido. Deus do céu! Pamela vai comer o meu fígado. Era simplesmente  uma daquelas garrafas promocionais que a gente compra no supermercado. Aposto que não custou mais do que cinco reais.
-  Ela prefere refrigerante. – disse evitando o constrangimento de Pamela.
-  Mas que pena! O vinho é tão bom! – concluiu decepcionado. -  Vou inspecionar o almoço meninas. Fiquem a vontade – disse e foi de encontro a minha mãe que já havia se bandeado para a cozinha.
-  Seu pai... Seu pai...
-   É negro! – completei a frase dela. – Sim!
-  Mas... Você é... Branca... – fitou-me assustada.
-   Esse homem é mais que um pai pra mim, Pam. – disse séria, e decepcionada com a surpresa dela - O meu "pai"... Branco – desdenhei ao falar da cor do homem que me pôs no mundo – Me abandonou quando eu ainda era um bebê... Minha mãe me criou sozinha por longos anos, sabia? Mas o meu pai "negro" felizmente apareceu na vida dela, e além de fazer a minha mãe muito feliz, foi ele quem acordou de madrugada para me levar ao médico... Que segurava a minha mão até que eu dormisse porque sabia o quanto eu temia o escuro... Era pra ele que eu fazia os trabalhinhos na escola pra entregar no dia dos pais. Esse homem "negro", esteve presente em todas as minhas reuniões escolares... Me deu o anel de formatura. Chorou quando eu me formei... Me abençoou quando eu decidi sair de casa e morar sozinha...  – ela ficou quieta me ouvindo – Ele é muito mais meu pai do que qualquer outro. Eu teria orgulho de ter a cor e o sangue dele correndo pelas minhas veias, mas infelizmente não podemos escolher os nossos pais biológicos. Ainda bem que o amor não está ligado a padrões de estética, classe social... – fitei-a ao falar a última frase – Pra amar, basta querer ser feliz.
-   Meninas! O almoço está na mesa! – gritou meu pai da porta da cozinha. Movimentei a cabeça informamos que estávamos indo.
-  Ainda tá em tempo de desistir, Pam – fitei-a nos olhos – Se não quiser se sentar a mesa com um negro... Entenderei – firmei o olhar.
-   O cheiro da comida está muito bom. – disse encarando-me com aqueles olhos azuis que me faziam perder a alma pra ela. Fiz um gesto pedindo que ela passasse na frente. Pamela passou. Sorri pelas costas dela. Quando que essa mulher me acompanharia até a casa dos meus pais, se sentaria à mesa com eles, e ainda elogiaria o cheiro da comida da minha mãe?
Sorri assim que nos sentamos à mesa. Minha mãe havia tentado, coitada, colocar os talheres nas posições corretas, mas infelizmente, lá em casa não seguíamos etiqueta alguma, e mais uma vez, eu fiquei tentando adivinhar qual seria a reação de Pamela. Foi engraçado vê-la tentando se adequar a simplicidade dos talheres, da comida... Eu fiquei perdida quando ela me levou naqueles restaurantes chiques, não é? Acho que ela também se sentiu daquela forma assim que sentou conosco, mas diferente de mim, Pamela tirou de letra  a árdua tarefa de destrinchar um pedaço de frango frito com os talheres. Meu pai disse três vezes:
-  Pode usar as mãos, filha. Assim você não consegue comer.
-  Ah... – sorriu completamente sem graça.
           
Desta vez eu ri, e ela viu, tanto que ergueu uma das sobrancelhas e me fitou furiosa. Em todo esse tempo de convivência, percebi que Pamela detesta que riam dela. Mas isso não quer dizer que eu deixaria de rir, não é?
-   Não quer refrigerante, querida? – perguntou minha mãe a ela.
-   Não, obrigada – respondeu – Dá celulite.
-  Mas você está em forma, menina! – sorriu meu pai – Há muito tempo que eu não via umas pernas tão bonitas!
-  Menos pai!
 
O almoço transcorreu animado. Meu pai não se cansava em elogiar a beleza e o cheirinho de perfume francês de Pamela. Ela até sorriu em determinados momentos.  Já estava ficando tarde...
-  Por que vocês não dormem aqui? – disparou minha mãe – O seu quartinho continua no mesmo lugar, Alizinha! – não adiantava mesmo pedir para minha mãe não me chamar daquele jeito. Parecia criança teimosa que a gente fala, entra num ouvido e sai pelo outro.
Olhei pra Pamela... Depois fitei a janela. A noite já havia caído. Olhei o relógio.
-   As horas voaram... – disse ansiando para que ela quisesse ficar, embora soubesse que essa possibilidade seria totalmente infundada – Tá a fim de encarar a estrada? – perguntei insegura. Se voltássemos para casa, certamente não dormiríamos juntas. E eu queria tanto provar os beijos dela essa noite.
-   Estou morrendo de sono – disse encarando-me com aqueles olhos azuis que me tiravam o chão.
-  Você... Você... Quer...
-  Claro que ela quer, filha! – se antecipou meu pai – Vou lavar a louça para sua mãe e ela vai apanhar toalhas limpas pra vocês e acomodá-las direitinho no seu quarto.
Não dissemos mais nenhuma palavra. Aqueles dois pareciam que tinham lido na minha testa que tudo o que eu queria era passar a noite com Pamela.
Na casa só havia um banheiro... Esperei Pamela tomar o banho dela. No meu armário antigo havia algumas roupas que eu deixava ali, caso fosse visitá-los. Emprestei um shortinho e uma blusinha de malha para Pamela vestir. Ficou curtíssimo nela. Não sei como consegui me controlar diante daquela visão dos deuses. Caminhei de costas para a porta, sem desgrudar os meus olhos de onde ela estava. Seus cabelos molhados... Sua pele fresca com cheiro de sabonete. Suas pernas lisinhas e bem torneadas à mostra. O bico dos seus seios fazendo volume na blusa fina de malha. Bati às costas na porta. Ela riu maliciosamente, depois sentou-se na pequena cama de solteiro que havia no quarto. Minha mãe havia forrado um colchonete ao lado da cama para que eu me deitasse. Que ingenuidade da minha mãe, não é?
Deixei a água do chuveiro cair pela minha pele enquanto minha cabeça mergulhava nos meus pensamentos que se misturavam entre o desejo e a vontade de que não fosse apenas mais uma transa. Eu sabia que seria impossível dormir ao lado de Pamela e não acontecer nada entre nós. Ela gostava de sexo tanto quanto eu, e mesmo que Pamela ainda nutrisse sentimentos de mágoa por mim, era inegável o desejo que transbordava da nossa pele.
Entrei no quarto silenciosamente. Estava calor. As janelas estavam abertas, o ventilador ligado girando para os dois lados e Pamela deitada de bruços na cama me fez tremer da cabeça aos pés. Ela era sedutoramente linda. Parei ao lado da cama. Pisoteei o colchão que estava no caminho. Ela havia dispensado o lençol e seu corpo estava completamente despido. Meus olhos deslizaram pela sua pele enquanto minhas mãos ameaçavam tocar naquele corpo que se oferecia para mim. Ela estava nitidamente me provocando... Seus olhos fechados, sua perna direita levemente erguida deixando as suas nádegas semi-abertas. Não resisti... Toquei o seu ombro com a ponta dos dedos...  Pamela abriu os olhos e me sorriu com o olhar... Engoli em seco... A mulher inclinou o corpo de lado... Seus cabelos dourados caíram pelos seus ombros... Seus seios à mostra... Rijos... Salientes me chamavam para degustá-los.
-   Faz calor aqui – sussurrou antes de sentar-se na cama com as coxas afastadas deixando visível o seu sexo. Enlouqueci ao vê-la naquela posição. Não disse nada... As palavras eram tão desnecessárias diante da nítida certeza de queríamos uma a outra. Inclinei meu corpo em busca dos lábios dela. Pamela ergueu a cabeça e segurou meu pescoço com as mãos... Arranhou a minha pele... Passou os dedos na minha nuca... O seu carinho me acendeu. Acariciei seus lábios com os meus, depois sorvi a sua boca como quem volta do deserto e sente sede... Muita sede... Pamela levantou-se escorregando o seu corpo no meu... Nossas peles queimavam uma na outra. Senti suas mãos deslizando por baixo da minha blusa... Ela tocou os meus seios... Apertou os bicos... Gemi involuntariamente com aquele contato.
-  Tira – sussurrou com os seus lábios presos nos meus. Logo que ergui os braços ela suspendeu minha camiseta deixando os meus seios também à mostra em um atrito suave, sensual e delicioso com os dela. Gememos uma pra outra... Meu short foi arrancado em seguida e ela deitou-se na cama... Deitei-me sobre ela. Meu corpo pesando sobre o seu numa entrega sempre perfeita e única, pois nenhuma outra mulher me teve como Pamela me tem. Ela abriu as pernas acomodando-me no meio delas. Nossos sexos úmidos de excitação se encontraram... Senti suas mãos apertarem as minhas nádegas, implorando por um contato maior enquanto a mulher movimentava-se deliciosamente embaixo de mim. O quarto dos meus pais ficava ao lado, foi ela quem me pediu silêncio quando eu gemi mais alto ao sentir o seu sexo roçar no meu daquele jeito único que ela fazia. O calor aumentou... Nossa pele molhada de suor denunciava o esforço em busca do prazer. Interrompíamos os beijos para que nossos olhos se encontrassem, nos encarávamos... Medindo as expressões enlouquecidas do prazer uma da outra. Era mágico o desejo que se projetava nos nossos olhos vermelhos de tesão... Desejo... Aumentei o ritmo sobre ela... Senti através dos seus sussurros emitidos e do seu olhar frenético que ela estava prestes a derramar o seu líquido. Fui escorregando para baixo enquanto ela se debatia reclamando por eu ter parado o contato.  Suas unhas descontroladas arranhavam as minhas costas enquanto eu descia em direção ao seu sexo.  Estávamos ofegantes...  Afastei as pernas trêmulas de Pamela. Senti a sua excitação com a ponta dos dedos... Gemi ao deslizá-los por um sexo que pulsava e encharcava-os.
-  Me come, Ali – disse ofegante. Engalfinhando os dedos pelos meus cabelos e tentando impulsionar a minha cabeça para o meio das suas pernas – Me chupa inteira.
As palavras sussurradas e trêmulas entravam nos meus ouvidos como um afrodisíaco... Afastei suas coxas e mergulhei dentro dela com a minha língua faminta pelo prazer que o gosto dela me proporcionava. Sorvi o seu líquido enquanto meus dedos a invadiram da forma como ela pediu... Aumentei o contato conforme Pamela gemia... Sussurrava e ordenava... Senti o seu corpo tensionado... Suas mãos desesperadas puxavam os meus cabelos cada vez mais forte... Ela gozou... Gritou, um grito abafado pelo receio de sermos ouvidas pelos meus pais... Continuei sugando-a... Matando a sede que eu sentia do gosto dela... Pamela me puxou pelos ombros... Escalei seu corpo de volta... Fixei meus olhos nos seus... Ela entrelaçou a minha cintura com as duas pernas e me puxou pelo pescoço, grudando os nossos lábios... Roçando os nossos seios um no outro. No minuto seguinte me empurrou para o chão... Cai de costas no colchão macio que estava ao lado da cama... A mulher sentou-se na altura do meu sexo e enquanto mexia nos seus cabelos, jogando-os para trás e me excitando com a visão dos seus seios que se movimentavam à medida que ela rebolava em cima de mim... Gemi... Virei os olhos... Meu sexo pedia cada vez mais... Ela sorria do meu desespero... Movimentava o quadril  mais rápido...
-   Pede, Allison – dizia como se meu nome fosse um pedaço de chocolate derretendo na sua boca.
-   Pára de me torturar Pamela... Me faz gozar pra você...
-  Ainda não ouvi... – sussurrou com um sorriso maroto nos lábios.
-  Me fode logo, porra!
- Assim tá muito melhor.... – disse e desceu lentamente pelo meu corpo... Tentei fazê-la ir mais rápido de encontro ao meu sexo, mas a mulher queria me maltratar... Beijava a minha coxa... Mordia... Passava a língua depressa pelo meu sexo... Me instigava... Colocava os dedos rapidamente dentro de mim, depois tirava e os lambia na minha frente... Degustando sem pressa o meu líquido...
Fiquei impaciente... Dei um salto sobre ela... Pamela ficou assustada com a forma rápida e intensa que meu corpo grudou no dela. Sentei-me... Agarrei-a pela cintura e a fiz sentar-se no meu colo... Suas pernas laçadas na minha cintura. Comecei a morder o seu pescoço... Subi a boca para os seus lábios... Nossas trocas iam além de carícias, trocávamos também sussurros... Gemidos... Suor... Nossos líquidos se misturavam na medida em que intensificávamos o contato dos nossos sexos. Passei a língua pelos seios dela... Pamela inclinou a cabeça para trás... Aprovando o percurso dos meus lábios... Chupei os bicos rosados... Lambi em movimentos circulares...
-  Você me enlouquece, Ali... – sussurrou antes de explodir num gozo profundo, com um desejo tão intenso que fazia cada pedacinho de nós duas tremer numa entrega fantástica e deliciosa... Gozamos juntas... Intensamente... Demoradamente.... A respiração entrecortada... A pele escorregando uma na outra... Um minuto de silêncio para nos recompor foi interrompido quando a mulher ensandecida me empurrou... Bati com as costas no colchão e senti o meu sexo ser tomado inteiro pelos lábios, língua e dedos dela...
-  Ainda te quero inteira, Allison – sussurrou antes de me penetrar mais fundo... Senti o mundo girar como se eu estivesse numa roda gigante... Gozei pra ela... Intensamente... Nos amamos por mais algumas horas até a exaustão nos fazer ficarmos abraçadas... Ela estava sentada no meu colo, de frente pra mim, com as pernas laçadas na minha cintura... A escuridão da noite era amenizada pelo feixe de luz que vinha do poste da rua, dando assim para ver aqueles lindos olhos azuis me encarando enquanto nossas bocas bailavam uma na outra. Nossos beijos eram demorados... O cheiro de sexo que estava impregnado nos nossos corpos... Lençóis e travesseiros nos incitava ao amor...  Assim que o beijo terminou... Segurei delicadamente a face de Pamela com as duas mãos... Suspirei, percebi que ela também suspirou. Minhas palavras foram saindo quase num sussurro... Administradas pelo carinho que aquele momento nos arremetia.
-  Eu te amo, Pam – disse sem conseguir desviar meus olhos dos dela. Ela encarava os meus... Não era frieza, nem amor... Não sei o que os olhos dela me diziam... Só sei que aquele, era, de fato o meu momento. Eu precisava dizer a ela tudo o que meu coração me impulsionava. Não era  momentos de mentiras... Nem omissão... -  Sempre te amei... Desde o primeiro dia em que te vi com as mãos presas nas grades daquela boate, chorando por um cara que não merecia o seu amor... Nem o seu respeito.
Pensei que ela negaria que estivesse chorando, mas não... Pamela não emitiu nenhum som. Continuou ouvindo as minhas palavras...
-   Você nunca saiu da minha cabeça... Sempre te procurei nos meus sonhos... Morri de prazer nos seus braços quando você me quis pela primeira vez e morro até hoje... Porque não existe nenhuma outra mulher que me dê o prazer que você me proporciona. É por você que o meu coração bate... E é por te amar demasiadamente que eu te trouxe aqui, para a simplicidade do meu mundo... Você tem o melhor de mim, Pam... – fiz uma pausa para esperar as lágrimas escorrerem dos meus olhos – Você me conhece como nunca ninguém conheceu. Jamais duvide disso. Seu coração sabe que é verdade, embora os meus atos tenham feito você duvidar disso um dia – ela continuou quieta... Inexpressiva, e por mais que essa falta de expressão me deixasse triste, eu não consegui parar de falar – Sei que você quer apenas sexo comigo, mas eu, pelo menos queria poder fazer parte da sua vida... Não tenho nada pra te oferecer, mas consegui vencer os meus medos e te mostrar quem eu sou... Como eu sou, e por mais que você me ache uma interesseira... Usurpadora... Como você mesma diz, eu sei que não sou nada disso, e tudo o que eu fiz, foi movida pela esperança de te fazer pensar um pouco mais nas pessoas... Em mim... Porque só assim, eu conseguiria te trazer para o meu mundo. Como agora... – olhei ao nosso redor – Senhora Pamela, em outros tempos você jamais estaria aqui comigo. – segurei seu rosto novamente com as minhas mãos... – Eu nunca tive outra mulher depois de você... – ela entreabriu a boca para pronunciar algo, mas impedi que ela falasse e completei – A Leandra nunca foi minha namorada. Eu queria te colocar ciúmes, só isso... – disse e ela continuou calada. A abracei bem forte... Chorei sozinha, sufocada pela dor do silêncio dela.
Na manhã seguinte... Acordamos cedo... Recusamos o café da manhã oferecido pelos meus pais, na verdade, queríamos ir pra casa o mais rápido possível. Desde o monólogo na noite anterior, eu sentia Pamela distante, como se não quisesse dizer nada para não me dar esperanças falsas. Entendo o lado dela, mas sei que foi necessário dizer a ela, com verdade, tudo o que eu sentia.
Estacionei de frente para o prédio de Pamela. Ficamos alguns minutos nos olhando em silêncio... Até que ela quebrou o mesmo.
-   Tenho que descer, Ali.
-  Tudo bem – disse fitando-a como um cão sem dono.
-  Tchau – suspirou.
-  Hei! – segurei seu braço antes que ela descesse. Pamela recuou. Fixei meus olhos nos lábios dela, a mulher entendeu perfeitamente o que eu queria. Fechou os olhos e depositou um beijo suave e demorado nos meus... Mas fomos interrompidas bruscamente pelo barulho de alguém caindo ou se jogando na frente do carro. Quando olhamos na direção do sujeito, vimos um cara com uma câmera fotográfica nas mãos tirando várias fotografias.
-  Mas que merde! – disse Pamela furiosa – Esse desgraçado nos fotografou!
Balancei a cabeça negativamente enquanto o homem corria em direção à rua da praia de Copacabana.
-   Lamento... – sussurrei decepcionada com o pavor que vi nos olhos dela.

 

 

Capítulo 48:

***Pamela***

 

Tentei digerir as palavras com as quais Allison me bombardeava:
- Eu te amo, Pam.  Sempre te amei... Desde o primeiro dia em que te vi com as mãos presas nas grades daquela boate, chorando...
Engraçado como aquilo parecia importante para ela. O fato de ter me visto chorando. Quase como se fosse por causa disso que ela tivesse se interessado. Devia ter sido uma decepção e tanto me encontrar novamente e perceber que eu era bem diferente da imagem desprotegida e frágil que ela tinha adorado. Talvez por isso quisesse tanto me mudar...           
Fiquei absolutamente quieta, e ela continuou falando sem parar:
-   Você nunca saiu da minha cabeça... Sempre te procurei nos meus sonhos.... É por você que o meu coração bate... Você tem o melhor de mim, Pam... Você me conhece como nunca ninguém conheceu. Seu coração sabe que é verdade, embora os meus atos tenham feito você duvidar disso um dia.  Por mais que você me ache uma interesseira... Usurpadora... Não sou nada disso... 
Mon dieu! A mulher não ia mais se calar?
Confesso que aquilo que para as pessoas normais – que prefiro pensar como medíocres, afinal de contas, quem quer ser igual a todo mundo? Pessoas especiais naturalmente se destacam – parecia uma linda e emocionante declaração de amor, quase um conto de fadas, para mim não passava de um meloso e angustiante blá-blá-blá. Palavras... Para quê? Muito mais prático e melhor acreditar em atos. E os de Allison, desde o começo, sempre me deixaram confusa.
De repente, a frase bombástica:
- Eu nunca tive outra mulher depois de você...
Tentei protestar, afinal era ridículo ela me dizer que nunca tinha transado com a namorada... Mas Ali me interrompeu – apenas para - merde! - falar ainda mais:
- A Leandra nunca foi minha namorada. Eu queria te colocar ciúmes, só isso...
Aquilo fez com que eu parasse, perplexa. Novamente, as coincidências... Que não existem... Ela também estava fingindo... Também tinha inventado um namoro de mentira só para me atingir. E como tinha conseguido!
Segurei minha vontade de rir, porque Allison me abraçou fortemente, parecendo desesperada. Eu não estava entendendo nada. A não ser que ela não me daria a oportunidade de também contar a verdade sobre eu e Alan.

No dia seguinte de manhã, acordei com uma única certeza: eu estava louca!
Definitivamente louca. Total e completamente louca.
Tinha aceitado passar a noite naquele fim de mundo, numa casa que sequer era de classe média, vestida - por pouco tempo, mas tinha usado - com uma... será que eu poderia chamar aquilo de roupa?...  puída e desbotada de malha.
Além disso, tinha sido obrigada a aturar um discurso panfletário anti-racista, porque... Ali saiu se defendendo sem nem me deixar falar. Como se eu fosse preconceituosa! Absurdo! Gays, negros... Minorias? Inacreditável! Minoria na verdade somos nós, seres superiores e privilegiados... O resto, a massa de manobra, o gado, é tudo igual...
Depois aquele almoço, com uma conversa tão prolixa que acabou virando jantar... Sim, quando conseguimos levantar da mesa já era noite! Pelo visto, Allison tinha a quem puxar. Era de família aquela mania infame de falar sem parar. Fiquei tão atordoada que até aceitei dormir lá!
Sem saber o que tinha sido pior: os copos de requeijão, os pratos de vidro arranhado ou o frango... frito! Fritura para mim era algo inaceitável! Fiquei empurrando aquilo no prato de um lado para o outro, tentando disfarçar. Conseguindo apenas que o pai de Ali tentasse me ajudar, todo simpático:
 -  Pode usar as mãos, filha. Assim você não consegue comer.
Olhei para ele completamente sem graça. Primeiro porque todo mundo sabe que aves podem ser comidas com as mãos, não é falta de etiqueta. Segundo porque a coisa em questão não era não saber como comer um frango com garfo e faca – quem não sabe? - e sim ingerir o mínimo possível, torcendo para que o meu estômago não reclamasse. Mon dieu! Que situação!
Para completar, despertei numa caminha de solteiro absolutamente dura e desconfortável – chegava a estar com as costas doendo - agarrada com a minha ex assistente e agora partner – por quem estava... arg... apaixonada! - depois de uma noite de sexo sussurrado - éramos o que? Adolescentes? - em silêncio para que os... pais!... dela não escutassem – e ainda assim, eu estava... feliz! Inacreditável!
Um caso perdido de insanidade.
Recusamos o café da manhã, Allison estava estranha, distante, quase não me olhava. Parecia estar querendo ir pra casa o mais rápido possível.
Estaria arrependida do monólogo da noite anterior?
O que ela queria? O que esperava? Que eu lesse pensamentos?
Quando Ali estacionou na frente do meu prédio, eu estava irritada. Olhei para ela, que não disse nada. Como se tivesse gasto todas as palavras com o...  o desabafo-desastre da véspera.
Quebrei o silêncio desagradável dizendo:
-   Tenho que descer, Ali.
Ela me olhou, como se faltasse algo... Mas só respondeu:
-  Tudo bem.
Como se quisesse que eu adivinhasse. Suspirei:
-  Tchau.
Ela segurou meu braço, me impedindo de sair do carro. Fixei os olhos nela, esperando que finalmente ela fosse me explicar, mas ao invés disso, os olhos castanhos estavam presos em meus lábios.
Tudo bem, aquilo eu compreendia muito bem. Os sinais eram óbvios, claros, totalmente inteligíveis e em total acordo com os meus.    
Fechei os olhos, e a beijei. Com toda a minha paixão, carinho e amor. 
Mas um barulho já muito meu conhecido nos interrompeu.
"Maldito Paparazzi!" pensei.
-  Merde! Esse desgraçado nos fotografou! – falei.
Já estava acostumada, mas Ali não.  Na verdade, ela odiava aquele tipo de coisa. Meu estilo de vida fresco – como ela chamava. Glamouroso – como eu preferia pensar.
Não dava três dias para aquela foto estar estampada em algum lugar. Publicada por quem pagasse mais.
- Lamento... – Allison sussurrou, com uma expressão que não consegui decifrar.
Deixei escapar um suspiro de impaciência:
- Lamentar não resolve nada. Coloque insulfilm nesse carro, Ali.
Para compensar meu tom de voz quase doce, como sempre que eu falava com Allison, saí batendo a porta, numa patética tentativa de demonstrar raiva.

Dois dias depois, quando voltamos do almoço, fui direto para nossa sala, enquanto Allison passava na sala do namoradinho do Alan, o tal de Leonardo.
Foi quando meu celular tocou. Era Penélope. Atendi dizendo:
- Será que você não ligou errado? Não deveria estar ligando para a estagiariazinha da salinha minúscula aqui do lado? Ou será que ela não tem celular?
Penélope retrucou sem hesitar:
- Amore, pode ir guardando a sua lingüinha afiada... Fique sabendo que liguei só para te avisar... – depois de uma pausa dramática, completou: - que saiu uma foto sua com a suburbana usurpadora...
Não a deixei completar:
- Penélope, daqui para a frente eu preferia que você a chamasse de Allison.
Depois de uma gargalhada, vários suspiros e diversos: "ai, ai"... Penélope propôs:
- Vamos fazer o seguinte: eu passo a chamar sua namoradinha de Allison, se você passar a chamar a minha de Leandra. Combinado?
Fui obrigada a concordar. E só então lembrei:
- O que você estava dizendo?
Penélope falou de uma vez só:
- Saiu uma foto sua com a Allison. As duas aos beijos, um escândalo! – ela parecia estar adorando – Uma reportagem enorme!
Eu apenas perguntei:
- Onde?
Me despedi rapidamente ao ouvir o nome da revista em questão. A nossa rival. A mesma que por duas vezes tinha nos roubado as capas.
Peguei o interfone e pedi que Arlete me trouxesse um exemplar imediatamente.
Quando Arlete saiu da sala, abri a revista. Não foi difícil encontrar a matéria, era uma página inteira, com um texto infame. Ultrajante mesmo. Falando que o "mistério" sobre a repentina nomeação de Allison à presidência da "Gente Chique" estava desvendado. Continuava maldosamente, me comparando a meu pai, e dizendo que o golpe do baú de Allison tinha sido muito mais bem dado do que o da minha mãe.
Durante alguns segundos, fiquei parada, deixando fluir todo o incômodo, mal estar e dor que ler aquilo me causou. Até eu olhar para a foto. Ironicamente, a primeira que eu via onde aparecíamos juntas. As bocas unidas num beijo profundo. A mão dela em meu rosto, enquanto as minhas se embaralhavam nos cabelos castanhos. E a partir daquele momento, o que a revista dizia não importava. Tudo o que eu via era como mesmo na foto era nítido o carinho, paixão e ternura entre nós duas. Continuei admirando a imagem com um sorriso bobo... Quando Allison entrou quase correndo na sala, com um exemplar igual na mão:
- Você já viu isso?
Ainda sorrindo, respondi:
- Sim.
Ela me olhou surpresa, com uma revolta ainda maior:
- Do que você tá rindo? Escreveram coisas horríveis sobre nós!
Levantei, dei a volta na mesa, parei na frente dela e a olhei nos olhos:
- O que escreveram é besteira, Allison. Fofocas maldosas. O que importa é a foto.
Allison me olhou sem entender. Abriu a revista, perguntando:
- O que tem a foto?
Sussurrei bem perto do ouvido dela:
- É linda. Não concorda?
Ela olhou para a foto... Toda a preocupação e irritação desapareceu do rosto dela. Dando lugar aquele sorriso safado que me fazia derreter:
- Tão linda que quero repetir...
Encostou os lábios nos meus com a voracidade de sempre. Mas por trás do desejo, naquele beijo havia... doçura. E uma cumplicidade extrema. Quando nos separamos, ela perguntou, como se ainda duvidasse:
- Pam, você não se importa mesmo?
Acariciei a nuca dela carinhosamente. Roçando os lábios nos dela suavemente, murmurei:
- Não. Na verdade, quero ser fotografada muito mais vezes desse jeito...
O beijo veio ardente, exigente, intenso. Nos entregamos inteiramente, desfrutando a realização plena de estarmos finalmente começando a nos entender.

No meio da madrugada, acordei com meu celular, que não parava de tocar. Allison se espreguiçou ao meu lado, resmungando por causa do barulho. Olhei o visor: meu pai. Atendi bastante mal humorada:
- O que foi, pai? Espero que você tenha um motivo muito importante para me ligar a essa hora!
- Pamela, onde você está?
Ele parecia apavorado. Por isso e só por isso respondi a pergunta absurda:
- No apartamento da Ali. Por quê?
Depois de um suspiro aliviado, ele exclamou:
- Ótimo! – e explicou: - Sua avó acabou de chegar no Rio, e está indo para a sua casa. Parece que ficou sabendo da reportagem sobre você e a Allison, e... bom, ela veio ao Brasil para resolver essa situação... segundo ela: "catastrophique".
Sentei na cama num pulo. Apavorada. Preferia que o diabo estivesse atrás de mim. Com certeza, seria no mínimo, mais agradável... Quase gritei:
- Haja o que houver, não diga onde eu estou!
Allison já estava ajoelhada ao meu lado, com uma expressão absolutamente preocupada:
- Pam, o que foi?
Não respondi, concentrada no que o meu pai falava:
- Filha, não tem como fugir. Mais cedo ou mais tarde...
Imediatamente o interrompi:
- Não quero saber! Não tenho nada para conversar com a minha avó, e principalmente, não quero que ela venha aqui!
O suspiro que ele deixou escapar deixou bem claro que era inevitável:
- Pamela... Você sabe que ela não vai desistir. Vai te caçar até te encontrar.
Em qualquer outra situação, eu teria rido. Parecia coisa de filme. Caçada pela poderosa chefona! Ou pior ainda: pela Rainha das Trevas! Qualquer comparação era pouca, superficial, ineficaz. Nenhuma imagem poderia retratar o verdadeiro terror que para mim aquilo significava. Ninguém era capaz de entender. A não ser o meu pai:
- Eu vou tentar te ajudar.
Depois que desliguei o celular, fiquei alguns segundos paralisada. Allison segurou minhas mãos, falando com uma voz muito doce e suave:
- Pam, o que foi? Você tá com as mãos geladas...
E eu não tinha como explicar. Tentei:
- Minha avó ficou sabendo de nós. Está no Rio, me procurando. Ela... Ai...
Escondi o rosto nas mãos. Uma angústia profunda me consumindo...
Allison acariciou os meus cabelos, me abraçou, beijou minha cabeça... E sussurrou:
- Não fica assim, amor... O que ela pode fazer? Te deserdar? Gritar? Espernear?
A idéia de Grace Beauchamp Stapleton gritando ou esperneando era ridícula. A velha era um iceberg. Nunca alterava a voz. A mantinha afiada e fria. Muito acima dos reles mortais.
Olhei Allison nos olhos, deixando que ela visse o meu profundo desespero:
- Allison, você não entende. A minha avó é... diferente.
Ela deixou escapar uma risada. E depois disse:
- Não precisa se preocupar. – me apertou nos braços – Eu te defendo.
Me beijou carinhosamente. Nos deitamos. Me aconcheguei nos braços dela com um suspiro. Nos beijamos novamente. Allison ficou acariciando meus cabelos, e acabou adormecendo. Passei a noite em claro. Sem conseguir sossego.
 
No dia seguinte, fomos para a revista. Eu continuava morrendo de medo, mas Allison me convenceu, dizendo:
- Vamos, Pam. Deixa de bobagem. – me olhou daquele jeitinho safado, e brincou: - Qualquer coisa eu te protejo...
Ela continuava sem entender. A única forma disso mudar seria se Allison conhecesse a minha avó. Mas sinceramente, eu esperava que isso nunca acontecesse.
Assim que chegamos, avisei:
- Arlete, se a minha avó telefonar, diga que não estou no Rio de Janeiro.
Entramos na sala, fechamos a porta. Cinco minutos depois, meu pai entrou, todo esbaforido. Quase não conseguia respirar:
- Filha, eu vim só para te avisar: sua avó está vindo para cá! Melhor não estarmos aqui quando ela chegar.
E saiu quase correndo, deixando Allison absolutamente perplexa e eu... completamente apavorada:
- Vamos, Allison... Também não quero estar aqui quando a megera chegar...
Allison me olhava como quem não está entendendo nada:
- Megera? Pam... é a sua avó!
Eu não tinha tempo para explicar:
- Ali, você não entende... A Grace – ela me mataria se eu a tratasse de outra forma - não tem nada a ver com qualquer tipo de imagem que você possa ter de uma avó...
Com uma risada divertida, Ali insistiu:
- Você tá sendo irracional... Como pode ser possível que uma velhinha te deixe desse jeito?
Tarde demais. A porta se  escancarou. Para Grace e sua entrada triunfal. Com o cabelo pintado de loiro num penteado impecável, o rosto sem rugas depois de um incontável número de aplicações de botox e plásticas, casaco de pele apesar do calor, salto alto, óculos escuros e o chihuahua de estimação a tiracolo...
A visão surreal - ou do inferno – nos deixou paralisadas.
Grace avançou em minha direção, me fazendo recuar. Exatamente como quando eu era criança. A mulher gostava de torturar. Não era uma avó normal. Quando estava no Brasil, fazia questão de me "educar" com o seu jeito  fascista e sádico, repetindo:
- Você não passa de uma coitada. Tem uma vagabunda como mãe, e um idiota como pai.
Até me levar às lágrimas. Então ela sorria, e me batia com força na cara – como os franceses fazem – dizendo:
- Isso é para você aprender a não ser fraca! Chorar é para perdedores, Pamela! E eu não admito que você seja um fracasso como o seu pai!
Aos oito anos, eu já tinha aprendido. Não deixava nada nem ninguém me desarmar. Até conhecer Allison...
Grace me olhou de cima a baixo. Ignorando Allison completamente. Como se ela fosse nada. Com um risinho sarcástico, exclamou:
-  Quer dizer que você acabou virando uma pateta apaixonada exatamente como o seu pai... Será que eu não consegui te ensinar nada?
Imediatamente, Allison tentou falar:
- A senhora não tem o direito de...
Grace soltou uma gargalhada. Sem perder a pose de rainha. Não olhou para Ali, sequer lhe dirigiu a palavra. Continuou olhando fixamente para mim:
- Pamela, você enlouqueceu? Resolveu compactuar com os absurdos do seu pai?
Foi quando aconteceu a coisa mais improvável: o sr. Álvaro, meu pai, entrou como um furacão dentro da sala:
- Agora chega, Grace! – ela também não permitia que ele a chamasse de mãe – Deixe a Pamela em paz!
Se colocou entre nós. Me defendendo. Me protegendo. Fiquei boquiaberta, sem acreditar. Ele nunca a tinha confrontado. Muito menos por minha causa. Mas naquele momento, vinha movido por algo que pela primeira vez me fez entender e compreender o real significado da palavra "pai".
A reação de Grace foi idêntica à minha. Por alguns instantes, ela simplesmente o olhou, sem acreditar. Depois ordenou:
- Não se meta, Álvaro! Você é e sempre foi uma decepção total. Mas a minha neta não!
Com uma firmeza que eu nunca tinha visto, meu pai não se intimidou:
- Ao contrário de mim, a minha filha vai ser feliz, mãe. Não vou deixar que você atrapalhe.
Grace o olhou como se ele tivesse perdido a razão:
- Mon dieu, Álvaro! Ser feliz? Isso aqui é um conto de fadas, por acaso? Você quer mesmo ver a sua filha com uma sapatão e ainda por cima proletária?
Segurei a mão de Allison. A olhei nos olhos, implorando: "calma..." . Foi a única forma de a manter do meu lado, sem retrucar.
Apesar de termos perdido um pedaço, a discussão entre os dois continuava:
- Não tem como você comparar a Ingrid e a Allison. A Pamela teve muito mais sorte - ou bom gosto, quem sabe - do que eu. Escolheu uma mulher de caráter. E que a ama de verdade.
Pela primeira vez na vida, senti insegurança em minha avó. Ela chegou a gaguejar:
- C'est... c'est un... non-sens! Un… disparate! Offensif! Outrageant!
Meu pai a pegou pelo braço, dizendo:
- Pamela, renvoie toi de ta grand-mère.
Eu balbuciei um fraco:
- Au revoir...
Sem acreditar ao vê-la ser conduzida pelo braço para fora da sala. A porta bateu atrás deles. Olhei para Allison. Ela me fitava, preocupada. Só então percebi o quanto eu estava tremendo. Minhas pernas mal me sustentavam. Teria caído se Ali não me sustentasse, e me ajudasse a sentar no sofá:
- Calma, Pam... Quer água?
Sacudi a cabeça numa negação, sem conseguir falar. Só o que pude fazer foi chorar. Copiosamente. Sem parar. Soluçando sem saber exatamente como nem porque aquilo tinha começado. Como se um oceano de lágrimas estivesse represado e de repente se soltasse. Não tinha a ver com pensamentos, lembranças nem imagens. Eram mais... sentimentos... sensações de carne rasgada, feridas abertas não cicatrizadas. Chorava por tudo que eu nunca tinha chorado: minha mãe, meu pai, solidão, saudade, medo, raiva... Acima de tudo, chorava por mim mesma. Pelo sofrimento e angústia gerados pela minha incapacidade de me permitir amar e ser amada.
A voz de Allison soou bastante desesperada:
- Pam... Amor... O que foi? Me fala...
Ela parecia perdida. Sentada do meu lado sem saber o que fazer diante do meu comportamento totalmente inesperado. A puxei para mim. Me pendurei no pescoço dela, suplicando:
- Me abraça...
Impressionante como todo e qualquer tipo de dor passava quando eu estava nos braços de Allison. Como mágica. Colei minha boca na dela com a urgência de um náufrago. Minhas mãos desabotoando a blusa dela, tocando os seios, descendo, abrindo e se enfiando dentro das calças. Expressando o que  sentia por ela da única forma que eu achava razoável.
Para minha surpresa, Allison me conteve. Sussurrou ainda junto aos meus lábios:
- Pam, para.
A olhei absolutamente sem entender. Ela continuou:
- Preciso que você entenda uma coisa: eu te amo. De verdade. Quero ser muito mais do que uma amante casual.
Fiquei sem palavras. Eu entendia o que ela dizia, e queria... Só não estava preparada. Uma dualidade insolúvel ainda me fazia evitar... Duvidar que pudesse... conseguir algo mais.
A expressão dela mudou, como se pudesse ler meus pensamentos. Tristeza, decepção, mágoa... Passaram pelos olhos dela, antes de Allison falar:
- Quer saber? Pra mim chega. Tô muito cansada. Eu desisto. Ao contrário do que você pensa, não quero nem nunca quis esse cargo. É um suplício passar o dia ao seu lado, e não ser mais do que uma colega de trabalho ou uma trepada ocasional. Tô fora. Eu me demito. Ponto final.
Pegou a bolsa bufando, e caminhou em direção à porta.
Quase corri atrás de Allison. A segurei pelo braço com força, puxando-a para poder olhar dentro dos olhos dela.
Ali me encarou. Sustentou meu olhar com aquele jeitinho profundo, de igual para igual como só ela conseguia fazer.
Naquele momento, já não havia dualidade nenhuma, apenas certezas: Eu a amava! E não ia perdê-la! A queria para mim!
Meu corpo, minha voz, meu corpo inteiro tremia ao dizer:
- Posso citar dez coisas que eu odeio em você...
Ela me olhou surpresa a princípio. Depois, com um sorriso malicioso provocou:
- Tenta.
Umedeci os lábios sensualmente com a pontinha da língua, a segurei pela cintura, aproximando lentamente meu corpo até colar no dela:
- Você é... Abusada... Teimosa... Imprevisível...
Deslizei uma das mãos pelas costas dela - apertando-a mais contra mim – enquanto com a outra a segurava pela nuca. Ela suspirou sedutoramente. Continuei:
- Desobediente... Despreza todo e qualquer tipo de regra ou hierarquia... Questiona o tempo inteiro... Me desafia...
Aproximei minha boca da dela... Nossos hálitos se misturaram, absolutamente quentes. Allison fechou os olhos, como se implorasse por um beijo...
Colei meus lábios na orelha dela, e sussurrei com a voz rouca de amor e desejo:
- Provoca sensações que nunca pensei que pudessem existir... Tudo em você me enlouquece: ta douceur, ton passion, ta intelligence… Que toujour me surprennent, me fascinent, me enchantent...
Allison me olhou intensamente, e me presenteou com um sorriso magnífico. Deixando claro que dessa vez tinha compreendido cada palavra que eu tinha dito. Graças ao intensivo de francês que estava fazendo à noite, escondido.
Mordeu de leve meu lábio inferior, na promessa de um beijo... Antes de dizer com aquele jeitinho safado e maroto:
- Acho que você já disse bem mais de dez coisas...
A calei com um beijo. Minha língua invadindo faminta a boca que parecia se derreter de encontro a minha num beijo intenso, profundo, absolutamente ardente... Fomos obrigadas a interromper para respirar por um momento. Que aproveitei para dizer:
- Ainda falta uma...
Sorrimos juntas. Os olhos dela brilhavam, refletindo os meus. Meu coração pulsava bailando um ritmo pleno... Quando finalmente completei:
- Odeio como não consigo, não posso, não suporto ficar longe de você...
Nossas bocas voltaram a se encontrar. Quando o beijo terminou, sussurrei contra os lábios dela apaixonadamente:
- Eu te amo, Allison.
Ao que ela respondeu, de um jeito absolutamente perfeito:
- Também amo você.