Encontro marcado

Karina Dias

 

 

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        Bronca, bronca, bronca do meu pai... A semana inteira, viu? E pra piorar o meu cárcere, minha mãe chagava do trabalho e ia direto ver se eu estava no quarto. Ai de mim se não estivesse. Levei uma surra de cinto por ter ido à padaria sem avisar. Isso já está ficando insustentável. Levantei da cama, peguei uma folha de oficio e rabisquei uma série de soluções para o meu problema. Vamos ver o que posso fazer por mim...  Fugir de casa? Eu não teria como me sustentar, não agora. Risquei... Gritar bem alto até que os vizinhos ouvissem e achassem que os meus pais estavam cometendo um ato de barbárie comigo? Muito dramático. Não ia funcionar, sempre fui uma criança levada demais, aqueles idiotas dos meus vizinhos viviam dizendo que o que me faltava era uma boa surra. Eles iriam vibrar com a possibilidade dos seus desejos se realizarem. Uma ova que eu ia deixá-los provar esse gostinho. Estava ficando sem opções e imaginação. Também estava de castigo por tempo indeterminado, ou melhor, determinado sim, meus pais queriam que eu jogasse a toalha e parasse de afrontá-los diante da sociedade. Que pensamento mais brega! Desde quando afrontamos alguém fingindo ser o que não somos? Pensei por uns instantes. Suicídio? “Saio da vida para entrar na história”. Foi assim mesmo que o espertinho do Getúlio Vargas disse? Humm... Eles iam chorar, mas daí eu teria morrido e nunca mais beijaria outra garota na vida, não é? Esqueçam o suicídio, não vale à pena, e dependendo do método adotado, pode doer muito.
                               
        O silêncio! Sempre o silêncio nos impedindo de dialogar sobre os assuntos que são desagradáveis para os meus pais. A comida já estava fria de tanto que eu mexia o talher pra lá e pra cá. Até tentei fazer desenhos no prato, com o alimento. Suspirei. Apoiei os dois cotovelos na mesa. Eles me olharam como quem me pede para que permaneça em silêncio.

-  Sou gay, pai! – disse interrompendo o jantar. Ele não ergueu sequer a cabeça para olhar na minha direção.
-  Isso é só uma crise de adolescente, filha. – respondeu minha mãe que estava sentada ao meu lado.
-  Caraca! Quando é que vocês vão parar de se enganar?
-  Queremos que se cure disso, está bem? Ninguém pode ser feliz vivendo uma vida clandestina como essa. – irritado, meu pai levantou-se da mesa, jogou o guardanapo em cima do prato – Perdi o apetite.
“Grosseirão, estúpido...”
– Não quero afrontar vocês, só não sinto por um carinha o mesmo que sinto por uma garota. É ruim entender isso?
-  Não fale uma coisa dessas com o seu pai! – repreendeu-me minha mãe.
-  É proibido falar agora? Já não posso mais sair de casa, vocês confiscaram meu celular, o telefone de casa só atendo depois da identificação do sujeito, ou seja, não posso atender nem as minhas amigas. – levantei-me também – É assim que vocês me amam? Querem uma filha fantoche que diga amém para tudo o que vocês falam, sem que eu ao menos concorde? Tenho personalidade, sabiam? Não sou a extensão programada de vocês dois. Quero minha vida de volta! Poder ir e vir...
-  Vai pro quarto Beatriz! – ouvi aquela voz ríspida vinda da sala – Antes que eu perca a paciência com você menina!
-  Vai me bater de novo? Como fez ontem? – alterei o meu tom de voz. Minha mãe levantou e começou a me empurrar na direção do quarto. Meu pai já estava de volta à cozinha.
-  Não vou facilitar a sua vida, menina! – apontou o dedo na minha cara, depois bateu forte com a mão na mesa, tanto que a sopa que estava nos nossos pratos derramou na toalha branca – Não vai desfilar por aí com essas suas amiguinhas desregradas! Se elas não têm um pai zeloso, saiba que você pelo menos tem!
-  Acho que o senhor errou a palavra, não seria... Ditador, ao invés de zeloso?
-  Já... para... – trincou os dentes. Louco para meter as mãos nas minhas fuças de novo – ... o quarto. A.g.o.r.a!

        Tudo bem, eu era voto vencido. Apanhar de graça não ia resolver o meu problema de solidão. Resmunguei, reivindiquei, mas fui pro quarto. Deitei na cama, antes abri a minha gaveta para ver se meus cd`s não haviam sido confiscados. Sim! Em tempos de ditadura as músicas podem ser perigosas, mas estavam todas lá: Aninha, Isabellinha, Cassínha, Zelinha... Fechei os olhos ouvindo “Eu gosto é de mulher”.
 
            ...Três dias depois, indignada por ter que viver na prisão desumana que meus pais passaram a me submeter, me pego pensando em uma brilhante idéia. Acho que juntou a fome com a vontade de comer. Desde que estive na clínica de doidos, não conseguia mais parar de pensar na mulher de jaleco branco. Parecia uma sarna, me coçando o tempo inteiro. Isso não era normal. Até sonhar com a gostosa, digo, A mulher, eu havia sonhado. Sonhos perturbadores, sabe? Vamos analisar os prós e contras caso eu aceite fazer umas visitas à clínica de malucos. Prós: sentir aquele cheirinho suave do perfume dela, descobrir se por baixo daquele jaleco tem umas belas pernas, daria tempo pra isso. Desejar beijar aqueles lábios em tempo real, mergulhar naqueles olhos verdes como quem mergulha em uma piscina, ou seja: de cabeça. Os contras... Bom... Bem... Esses eu posso ver depois, por enquanto, vamos evitar a fadiga. Não adianta me trancarem em casa, não é? Eu não queria voltar na psicóloga, vocês sabem disso, mas, não adianta brigar com o destino. Resolvi dar uma chance à psicóloga, ou uma chance pra mim, depende do ponto de vista.

 

 

*******

 

 

         Lá estava eu novamente. Dentro do consultório, sendo observada pela mulher que havia se perpetuado em meus pensamentos nesses últimos dias. Respirei fundo... Nervosa pela primeira vez diante de uma mulher. Sim! Sempre fui ousada, mas diante de Silvia, eu não conseguia ser nada mais, nada menos do que uma adolescente apaixonada? Sim, e também cheia de sonhos bobos. Ela exercia sobre mim, um fascínio que eu, sinceramente, não esperava que um dia pudesse sentir tão ardente na minha pele. Chegava a doer no meu corpo.
- Sente-se Bia – apontou o divã -  Posso te chamar de Bia?

“Pode me chamar de meu amor também”
– Lembra de mim? – disse desconfiada, logo me sentei no local indicado.
-  Sim, você foi a primeira paciente a me deixar falando com as paredes – sorriu suavemente, deixando transparecer duas discretas covinhas no cantinho dos lábios. Eu notava cada gesto dela, analisava a mulher da cabeça aos pés. Jurei pra mim mesma que aproveitaria cada segundinho ao lado daquele monumento.
-  Paciente? Não estou doente. – disse afrontada.
-  É só o modo de dizer, querida. – cruzou as pernas à minha frente. Acompanhei-a com o olhar. Engoli em seco quando vi os seus joelhos por baixo da saia do terninho rosa bebê que ela usava. Sobre ele o jaleco branco. – Tenho muitos pacientes que fazem terapia para reduzir o estresse.
-  Pode me chamar de Bia – respondi tardiamente a sua pergunta.
- Que bom. – silêncio. - Sei que está sendo obrigada a vir aqui, por isso gostaria de fazer uma proposta.
- Que proposta? – fitei-a desconfiada, a última vez que me fizeram uma proposta minha mãe me pegou aos beijos com Júlia no quarto. A Proposta foi ensiná-la Biologia em troca de uns beijinhos inocentes na boca.  
- Sete sessões. Depois disso, se você não se sentir a vontade, não precisa mais vir – falou a psicóloga séria, olhando-me como se eu fosse alguém que ela se importasse. Nem meus pais se importavam comigo, por que ela iria se importar? Ah, sim! Eu estou pagando pelas consultas. Será que é isso?
            Olhei-a por alguns segundos antes de concordar com aquele que parecia ser um desafio.
- Feito! – disse e recebi de volta um sorriso que me fez ter certeza de que valeria a pena freqüentar aquele consultório mais vezes.
-  Acho que começamos a nos entender. Não sou sua inimiga, Bia.


“Vamos ver”.

            Essa seria a nossa primeira sessão. Silvia perguntou se eu gostaria de falar sobre mim. Falar sobre mim? Então é assim que começa, e quando será que vêm as sessões de choques?

- Eu sou Gay! – disse de imediato enquanto ela apanhava um caderno de anotações nas mãos. Silvia ergueu lentamente o olhar, não sei quanto tempo o verde dos olhos dela ficaram mergulhados nos negros dos meus. Acho que a assustei. Será que fui sincera demais? Eu deveria ter esperado ela perguntar qual era o meu problema? Não sei porque, mas eu queria ver a reação dela quando soubesse o que uma garota acima de qualquer suspeita quanto a sua sexualidade estava fazendo ali.
- Quer falar a respeito? – perguntou com naturalidade.
- Minha mãe acha que é uma doença eu gostar de mulheres – fitei seus olhos como se a provocasse – Você também acha? – perguntei irônica.
- Não quero te julgar Bia, quero te entender.

        Fiquei quieta por alguns minutos enquanto ela escrevia no seu bloco. Depois Silvia fez perguntas sobre os meus primeiros sinais de interesse pelo sexo feminino. Achei engraçado, porque antes dela nunca comentei com ninguém a respeito das sensações que se manifestavam em mim desde que eu era criança. Confesso que ao contrário do que imaginei, senti-me à vontade e contei passo a passo até chegar no beijo de Júlia, aquele que foi o responsável por eu estar ali.

-  Não consigo olhar para um menino e sentir vontade de beijá-lo, mas sinto coisas bem estranhas quando olho para uma mulher bonita – firmei o olhar. Eu iria completar com: “bonita como você”, mas dei uma freada no meu impulso.
-  Teve algum namorado?
-  Vários. Mas nunca passei do beijo na boca com eles. – balancei a cabeça negativamente, sorri – Detesto o gosto do beijo dos meninos.
-  Alguma desilusão com um menino?
-  Por que sempre acham que viramos lésbicas porque tivemos uma decepção com os garotos?
-  Estou apenas perguntando, não afirmando. Desculpa se a ofendi.
- Não, não tive. Meu último namorado que entrou em depressão quando eu disse a ele que queria terminar o namoro porque estava apaixonada por uma garota. Nunca aceitam bem essas coisas, sabe?
-  Não deve ter sido fácil pra ele – respondeu mantendo a seriedade.
- Já sentiu atração por mulheres? – perguntei num impulso. Silvia, que estava de cabeça baixa fazendo anotação em uma prancheta, ergueu o olhar sobre mim. Foi uma evidente provocação e eu tentei visualizar algum assombro na sua reação quanto a minha pergunta, mas ela manteve-se calma, com o semblante sereno.
- Não – disse naturalmente, logo abaixou os olhos na direção das suas anotações.
- Então não pode me entender – desta vez ela deixou de lado as anotações e fixou o olhar na minha direção. Mas antes que eu pudesse me aprofundar no meu questionamento, Silvia olhou o relógio de pulso se atentando para o nosso tempo encerrado. Senti que a minha segunda-feira também havia sido encerrada, junto com aquela consulta.