Fúria silenciosa

Branwen

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CAPÍTULO 3

 

        Verônica sabia da dificuldade das mães em contar sua história com seus filhos por perto. Havia aprendido isso nos tempos em que estagiava na Defensoria Pública.

        Quando montou seu primeiro escritório, ainda que modesto, tratou logo de providenciar um cantinho, fora de sua sala, para que as crianças pudessem brincar e, assim, deixar seus pais mais à vontade.

        Ao transferir o escritório para este edifício, frente ao espaço mais amplo que tinha a seu dispor, reservou, logo de cara, uma de suas salas para criar um local para as crianças, que carinhosamente chamava de “Cantinho da Alegria”.

        Pela primeira vez, a saída estratégica de Ana com a criança, que sempre tirava o peso do primeiro encontro com seus clientes, intensificou-o.

        Verônica não sabia explicar o que sentia. Aqueles olhos azuis, a prendiam, intrigavam-na. Sentia neles um misto de tristeza, mas ainda que tomados por esta, tinham em seu fundo, um brilho que a encantava.

        O subterfúgio de oferecer água, chá ou café, para deixar seus clientes à vontade, pela primeira vez foi seu esconderijo.

        - Por favor, gostaria de tomar alguma coisa? Chá, café, água?

        A voz tímida já conhecida limitou-se a responder:

        - Chá, por favor.

        Somente após servir o chá é que Verônica percebeu que nem havia se apresentado. Apesar de todo o cuidado e atenção que dispensava a seus clientes, sempre fazia questão de se apresentar usando seu nome por completo. Entendia que ao fazer assim, conseguia, desde o início, demarcar muito bem o seu terreno, o que fazia com maestria. Contudo, desta vez, algo saiu de seu controle.

        - Acredito que já está na hora de nos apresentarmos. Verônica.
        - Desculpe. Mariana.

        Verônica, então, apontou a cadeira em frente a sua mesa e convidou Mariana para se sentar.

        Sentia-se como da primeira vez que havia feito um atendimento, ainda como estagiária. Inexplicavelmente, não conseguia encontrar a melhor forma para iniciarem a conversa.

        A voz suave e tímida de Mariana quebrou mais uma vez o silêncio que insistia em pairar sobre elas.

        - Eu não sei bem como começar, porque eu mesma não sei o que fazer. Então, eu vou contar tudo, desde o começo.

        Verônica apenas conseguiu fazer um leve aceno positivo com a cabeça.

        Mariana então contou como começou seu relacionamento com Luciano, a gravidez inesperada, o casamento, o nascimento de Murilo, a mudança abrupta de comportamento do seu marido e a pressão psicológica a que estava sendo submetida desde então.

        Verônica acompanhava tudo atentamente, sem interrupções, queria deixar Mariana à vontade para lhe contar o que desejasse.

        Apesar da voz suave e tímida, havia firmeza, segurança nas palavras proferidas. Isso acabou fazendo com que Verônica se perdesse em sua diligência de sempre interromper, mesmo que de forma sutil, o relato de seus clientes, para que não se estendessem demais com detalhes não pertinentes às questões jurídicas.

        Deixou Mariana falar o quanto quisesse e, somente após a mesma terminar de contar toda a sua história, manifestou-se.

        - Mariana, sua situação envolve um tipo de violência silenciosa, sorrateira e muitas vezes invisível: a violência psicológica. É um tipo difícil de lidar, pois geralmente não deixa vestígios perceptíveis para as pessoas que cercam o casal. Não raro, o agressor é astuto o suficiente para não se deixar perceber. Quando em público, procura sempre transparecer seu lado doce e dedicado para com sua família.

        Continuou explicando as nuanças desse tipo de comportamento, as dificuldades geralmente encontradas de se obter provas e do desgaste emocional que este tipo de litígio poderia trazer a ela.

        Os olhos de Mariana revelavam, a cada explicação do cenário que teria que enfrentar, uma mistura de desespero e impotência.

        Por fim, Verônica explicou-lhe sobre sua situação financeira. Apesar do controle exercido pelo marido, suas posses impediam-na de obter o amparo da justiça gratuita.

        Estas últimas palavras atingiram Mariana como se fossem um balde de água fria. Seus olhos azuis imediatamente escureceram, fazendo esvair de vez aquele brilho.

        A reação de Mariana pegou Verônica totalmente desprevenida. Já havia passado por essa situação antes e, em todas elas, como não se encaixavam dentro dos pré-requisitos necessários para que gozassem do direito à justiça gratuita, não havia dado andamento aos casos.

        Perdida em seus pensamentos, quando Verônica se deu conta, Mariana já havia se levantado e dirigia-se até a porta. O olhar que ela lhe lançou, ao agradecer-lhe verdadeiramente pela atenção dada, fez a advogada quebrar seu primeiro paradigma.

        - Mariana, espere.

        A moça, então, retirou a mão da maçaneta e voltou seu corpo para a direção de Verônica.

        - Realmente eu não teria como lhe atender através da justiça gratuita, mas posso lhe atender como advogada particular.

        Sem dar tempo a Mariana de se manifestar, Verônica chama sua secretária para vir até a sala.

        - Ana, por favor, agende uma próxima reunião com Mariana fora de meus atendimentos às quartas-feiras.

        Com uma delicadeza na voz, que ela mesma desconhecia, Verônica pediu à Mariana para acompanhar Ana para agendarem tal data.

        - Muito obrigada ...
        - Não me agradeça ainda Mariana, teremos uma batalha enorme pela frente. Apenas estamos dando o primeiro passo.

        Mariana retribuiu com um sorriso, desaparecendo logo em seguida pela porta, deixando Verônica parada no meio de seu escritório ainda sem saber o porquê de ter aceitado aquele caso.

 

 

Continua...