Invadindo Sentidos

por Artêmis Lesbos (F.P.Z.)

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Capítulo 47

 

        Quando saíram do quarto de Giovanna e Carolina, Diego e Amélia chamaram o senhor Niko e a senhora Pepa. Informaram que Beatriz havia acordado, mas não se lembrava de nada. Não reconhecia as pessoas e pediu para eles terem cuidado ao dizer algo a ela. Senhor Niko e a senhora Pepa, informaram aos outros empregados da casa o que tinha acontecido e pediram para todos serem discretos ao tratarem com a dona da casa.

        Assim que saiu do quarto, Giovanna começou a caminhar pelos corredores da casa, olhando tudo à sua volta. Não reconhecia absolutamente nada daquele local e nem ao menos sabia onde estava. Encontrou com uma moça no caminho, que veio ao seu encontro e se jogou em seus braços, enlaçando seu pescoço e a beijando nos lábios.

        - Meu amor! Que bom que está bem! Pensei que não acordaria mais!


        Giovanna empurrou a moça e se soltou dos braços dela.

        - Quem é você? Está maluca me beijando? Não sabe que minha mulher está aqui?
        - Não se lembra de mim? Sou eu, Indra! Nós nos amamos, somos namoradas há dez anos, desde que eu tinha treze e você vinte e dois, não se lembra? Beatriz sou eu! – Indra fingia estar magoada com o esquecimento da mulher.
        - Não me lembro de você! Não sou Beatriz, sou Giovanna! Não posso ser sua namorada, minha mulher está naquele quarto! – Giovanna apontava para o quarto que havia saído e estava em desespero, ela tinha uma amante e não sabia, e pior, ela estava na mesma casa que sua mulher. Isso não estava certo. Não sentia nada pela mulher que a beijou, não sabia o que fazer.
        - Beatriz, não diga isso! Sempre nos amamos, você não se lembra que fomos o primeiro amor uma da outra, você foi a única pessoa até hoje, que tocou em meu corpo? – Indra fingia que chorava, queria destruir a relação de Beatriz com Carolina, para ter Beatriz só para si. Giovanna estava paralisada no meio do corredor.

        Diego que subia as escadas e percebeu a maldade da moça a segurou pelo braço e a levou para um dos quartos. Giovanna foi atrás seguindo os dois.

        - Indra, para com isso! Você está louca? Não ouviu o que eu disse sobre não falar nada para a Beatriz, muito menos mentiras, como estas? – Diego apertava o braço da moça que começou a gritar olhando para Giovanna.
        - Meu amor, não acredite neles, eles querem te enganar, querem que você acredite ser uma pessoa que não é! Eu sou a sua verdadeira mulher! Estamos juntas há dez anos! Eu a amo! Beatriz me escute! Eles querem te usar! Você não tem outra mulher, eu sou a sua única mulher! – Indra chorava e tentava se soltar do aperto que Diego dava em seu braço.

        Carolina despertou ouvindo uma discussão no corredor, viu Diego arrastando uma das funcionárias da casa para um quarto e Giovanna seguindo os dois. Ao se aproximar do quarto que estava com a porta entreaberta, ouviu tudo o que a mulher gritava.

        Carolina abriu completamente a porta e Indra fez uma expressão de medo. Carolina atravessou o quarto, reuniu todo o seu ódio pelas frases que ela disse e desferiu um soco no rosto da mulher. Que virou o rosto violentamente com o impacto e se calou imediatamente. Agora ela choraria com razão de fazê-lo.

        - Sua mentirosa! Porque está fazendo isso?
– Carolina segurava no outro braço da mulher e a sacudia.

        Giovanna que estava encostada na parede do quarto, com os olhos muito abertos e a expressão de pânico, olhando toda aquela cena e para Carolina e Diego. Saiu correndo e desceu o mais rápido que pode as escadas que davam para uma imensa sala. Sentia que estava sendo enganada por alguém e que corria perigo. Tinha acreditado em tudo que Carolina e Diego contaram, mas agora não sabia mais em quem confiar, eles a chamaram de Beatriz também. Estava se sentindo perdida, enganada.

        Olhou para os lados e achou uma porta de saída, correu o mais rápido que podia. Não sabia o que estava acontecendo, mas sentia que precisava sair daquele local urgentemente.

        Diego e Carolina largaram os braços da moça e correram atrás de Giovanna, Diego corria na frente e Carolina o seguia um pouco atrás.

        Indra ficou parada com a expressão séria e passando a mão no rosto dolorido pelo soco.

        Giovanna começou a correr em direção ao penhasco que tinha na parte esquerda da casa e que ela não se lembrava que existia ali. Corria e olhava Diego a seguindo e corria mais, olhava para trás e corria mais ainda. Não sabia para onde estava indo. Diego aumentou o ritmo e saltou sobre Giovanna, a derrubando e a jogou contra algumas pedras, eles pararam a poucos metros da beirada do penhasco, mas se livraram da queda fatal.
Diego ficou ajoelhado ao lado de Giovanna, após alguns segundos ela se sentou e colocou a mão na cabeça e sentiu algo quente descendo de seu curativo. Olhou para a mão e viu o sangue, depois piscou algumas vezes, balançou a cabeça e viu Carolina chegando. Conseguiu dizer uma única palavra.

        - Carolina? – E perdeu novamente os sentidos.

        Diego a apoiou para não bater novamente a cabeça e a suspendeu no ar. Carolina e Diego levaram-na para a casa. Todos os funcionários da casa que viram a cena dos três correndo não compreendiam nada. Sabiam apenas que Beatriz havia se machucado e estava desmaiada.

        Diego colocou Giovanna no sofá da sala e Pepa veio ao encontro dos dois com panos limpos. Carolina pediu para Hermes pegar sua valise na suíte principal, o rapaz subiu, entregou a valise e desapareceu em direção a cozinha juntamente com seu pai.

        Carolina retirou o curativo e percebeu que haviam rompido três pontos, preparou novamente os materiais e realizou a sutura. Limpou novamente o local e fez um novo curativo.

        Após algum tempo que terminou o curativo, ela viu Giovanna abrindo os olhos, ainda lentamente.

        - Carol? – Giovanna disse ainda um pouco zonza.

        Carolina sorriu, pois adorava aquele tom de voz tenro e a forma como Giovanna a chamava.

        - Oi amor, estou aqui!
– Carolina acariciava o rosto de Giovanna.
        - Diego? O que aconteceu? – Giovanna sentou no sofá e sentiu uma pontada forte na cabeça. Fez uma expressão de dor e levou a mão ao local. Sentiu um curativo e viu os panos e o sofá sujos de sangue. Olhou para o lado e estranhou o local onde estava.

        Abriu os olhos em desespero e sem entender nada.

        - Como vim parar na Grécia? Não estávamos no Rio de Janeiro?


        Carolina soltou um suspiro de alívio, fechou os olhos e abraçou Giovanna, que a olhava sem entender nada e olhava para Diego que sorria.

        - Que bom que você  está de volta Fênix! – Disse Diego aliviado por ter sua amiga de volta.

        Giovanna apertou Carolina nos braços, acariciando suas as costas e beijando sua testa.

        Carolina permanecia nos braços de Giovanna com os olhos fechados e feliz por ter a sua amada de volta.
Os funcionários foram dissipando, ficando apenas, Diego e Carolina com Giovanna sentada no sofá.

        Assim que todos saíram, Giovanna levantou o rosto de Carolina e deu um beijo em seus lábios. Ela ficou olhando Carolina e sorrindo, acariciando seu rosto.

        Depois ela falou. – Gente, agora vocês podem me explicar tudo o que aconteceu?

        Carolina estava ansiosa, se soltou dos braços de Giovanna, ficou em pé andando de um lado para o outro, gesticulando e tentou explicar tudo o que tinha ocorrido.

        - Aconteceu amor, que você caiu no meu quarto e bateu a cabeça, tiramos você  do Rio de Janeiro e te trouxemos para cá, você acordou e não se lembrava de nada. Aí a sua empregadinha muito safada, a Indra, disse para você, que vocês eram amantes há dez anos. Eu dei um soco nela e você saiu correndo e o Diego te pegou a tempo, senão você cairia em um penhasco... Ufa! – Suspirou Carolina e puxou o ar que havia perdido pela fala ao terminar de desabafar tudo o que tinha acontecido. Sentou-se novamente ao lado de Giovanna.

        Diego ficou com a boca aberta ao ouvir o desabafo rápido de Carolina e achou graça da forma como Giovanna parecia perdida.

        Giovanna estava com a expressão de quem não havia entendido absolutamente nada, mas preferiu não dizer isso à Carolina, pois ela estava nervosa e não queria que ela repetisse tudo aquilo.

        - Tá, péra ae, vamos voltar ao começo. Como saímos do apartamento da Carolina?
– No momento que Carolina ia falar Diego a interrompeu. – Deixa que eu explico!
        - Eu liguei para a Amélia e pedi para ela ligar para o seu piloto pedindo com urgência um vôo, depois arrumamos as malas. Assim que Amélia confirmou que o avião tinha chegado, eu liguei para a polícia e disse que era um morador de Ipanema e tinha percebido movimentações suspeitas em dois carros e tinha visto armas. Descemos e assim que a polícia chegou e cercou os carros dos capangas do Roberto nós saímos do prédio e embarcamos no vôo para cá. – Diego falava calmamente, para Giovanna compreender.
        - Hummmm... Perfeito Tigre! Ta aprendendo, hein? – Giovanna ria e Diego apertou os olhos fingindo estar bravo pela brincadeira. – Logo, logo você fica craque nesse negócio, maninho! – Terminou de provocar o amigo. Diego deu um soco de leve no ombro de Giovanna que fingiu sentir dor e deitou a cabeça no ombro de Carolina. Que a abraçou.

        Ela levantou a cabeça e se lembrou das provas contra Roberto.

        - Mas, agora falando sério, cadê o relógio?
– Ela perguntou e olhou para eles. Diego coçou a cabeça e disse. – Está no Rio de Janeiro!
        - Putz!!! – Giovanna apertou os olhos. – Que droga! Será que invadiram o apartamento de Carolina?
        - Ai, tomara que não! Me dá um pavor imaginar alguém invadindo meu apartamento! – Carolina fazia uma expressão triste.
        - Bom, vamos ter que voltar lá para saber! – Concluiu Diego.
        - Mas só depois que Giovanna se recuperar um pouco! – Pediu Carolina.
        - Tudo bem! Vamos esperar uns dias! Aqui estamos seguros. – Disse Giovanna.

        Ficaram mais alguns minutos no sofá, Amélia se juntou a eles. Falaram sobre o machucado na cabeça dela, a amnésia, e tudo o que tinha ocorrido desde que chegaram à ilha. Giovanna ficou sabendo que Carolina cuidou dela o tempo todo e a abraçou e beijou mais vezes. Estava feliz por tê-la junto a si.

        Nesse momento ouviram-se choros de criança e Carolina se lembrou das filhas que estavam sozinhas no quarto. Giovanna também não havia se lembrado de perguntar pelas filhas. Carolina levantou, sendo seguida por Giovanna que a acompanhou até a suíte, queria muito poder ver as filhas, se lembrava dos poucos minutos que viu as bebezinhas em Ipanema, mas quando chegaram ao local, ficaram aterrorizadas.

 

 

Capítulo 48

 

        Carolina e Giovanna ao chegarem à suíte, perceberam que só uma das filhas estava na cama. Carolina pegou rapidamente a menina que estava chorando e disse já com lágrimas descendo pela face.

        - Gio, levaram a Giane
.

        Giovanna correu e desceu o mais rápido que pode as escadarias que davam para a sala e achou Amélia e Diego no jardim da frente da casa com os filhos.

        - Amélia, você viu a Giane?
– Giovanna dizia isso ofegante.

        Amélia se assustou.

        - Não Gio, eu achei que elas estavam no seu quarto!


        Giovanna sabia que as únicas pessoas que poderiam cuidar de suas filhas tirando ela e Carolina, seria Diego e Amélia.

        - Deus! Raptaram minha filha!


        Carolina que descia a escada apressada encontrou com Giovanna correndo sentido à cozinha e Diego atrás. Giovanna a parou.

        - Amor, fica com a Amélia. Eu e Diego vamos procurar a Giane!

        - Não Gio, quero ir com vocês! - Pedia Carolina em pânico.
        - Carol, por favor, você precisa cuidar da Giulia agora! Fica com a Amélia qualquer notícia, chamamos você! – Giovanna nem esperou a resposta de Carolina, virou e retornou a corrida sentido à cozinha da casa.

        Ao chegar à cozinha, Giovanna viu Pepa, Niko e Hermes, os três em pé conversando algo, viraram e ficaram muito assustados com a presença dela ali. Hermes tinha reparado na hora que buscou a valise de Carolina que havia sumido uma menina, avisou ao pai e a mãe e eles sabiam que deveria ser Indra que tinha pego a criança, após saberem da briga no andar de cima da casa.

        - Niko, onde está sua filha? Ela pegou uma das minhas filhas!
– Giovanna acusava Indra, após Diego dizer que Indra havia ficado no andar superior, quando eles correram para segurá-la.

        Pepa tomou as dores da filha.

        - Como você pode saber que foi ela? À meia hora atrás nem sabia quem era!


        Diego ouvindo isso partiu para cima de Pepa e a segurou pela blusa, suspendendo-a do chão e a encostou no armário da cozinha, ignorando a presença do marido e do filho da senhora no local.

        - Escuta aqui minha senhora, nunca bati em uma mulher, mas a senhora será a primeira se não me disser onde a louca da sua filha levou a minha sobrinha!
– Senhor Niko e Hermes tentavam puxar as roupas de Pepa, mas a força do loiro era tanta que nada o fazia soltar a senhora.

        Pepa começou a chorar e implorar para ele não fazer nada.

        - Por favor, não me machuque, a minha filha tem depressão! Sempre quis ficar perto de Beatriz, sempre gostou dela! Acho que ela não fará mal à filha dela. Não sei aonde ela foi!
– Pepa chorava descontrolada.
        - Ahhh, você acha que ela não fará mal à minha filha!? Por favor Pepa! Você sempre soube que Indra era instável, você mesma me pediu para ajudá-la com psicólogos anos atrás! Se eu encontrar a sua filha e ela tiver machucado a minha filha, pode ter certeza que ela estará morta quando a vir novamente! – Giovanna gritava com a mulher e mantinha aquele olhar duro que Diego odiava, mas naquela circunstância ele também mataria a garota se a visse.

        Giovanna chamou um dos funcionários da casa e pediu para reunir todos os outros empregados, para uma busca pelas terras. Dividiu as equipes para fazerem buscas no cais da propriedade, nas lanchas e barcos, nas plantações de oliveiras, nas matas próximas, nas dependências da fábrica de azeite e em todos os cômodos da casa.

        Após quarenta minutos um dos funcionários, Esdras, viu Indra em uma caverna na beira do paredão rochoso junto ao mar. Era próximo às escadarias que davam para a praia particular da propriedade. O rapaz subiu rapidamente as escadarias e assim que chegou ao topo, começou a gritar que tinha avistado Indra na caverna da encosta. Carolina, Amélia e Pepa que estavam no jardim da casa, foram as primeiras a ouvir o que o rapaz dizia.

        Carolina rapidamente colocou Giulia no colo de Amélia.

        - Cuida dela pra mim Amélia, por favor, não deixe ninguém tocar na minha filha! – Carolina estava aflita, correu em sentido a escadaria com Esdras e Pepa. Amélia ficou com a bebê no colo e sem saber o que fazer, viu um rapaz passando, o chamou e pediu para procurar Beatriz e a informar que Indra foi avistada na caverna da encosta.

        Giovanna e Diego vasculhavam as plantações de oliveiras, quando chegou a notícia que Indra havia sido vista na caverna da encosta. Giovanna correu sendo seguida por Diego, ela saiu da plantação e tomou uma trilha aberta na mata próxima ao penhasco. Desceu as pedras rapidamente, Diego e mais dois homens a seguiam. Assim que avistou uma entrada lateral da caverna que tinha acesso pela mata começou a se mover lentamente buscando o local certo para pisar, não queria fazer barulho. Precisava surpreender Indra, não poderia assustá-la, sabia que a caverna era pequena e dava para um paredão de pedra que saía no mar, o local era muito perigoso para negociar com uma pessoa insana.

        Carolina desceu as escadarias correndo e era seguida por Pepa e Esdras. Quando chegou à praia, viu o vestido verde de Indra no alto de algumas pedras. Carolina fez sinal de silêncio com a mão, encostando-a nos lábios e começou a subir as pedras junto com Esdras que a guiava. Pepa ficou na praia. Carolina subia junto com Esdras o mais abaixado que podiam, não queriam que Indra os visse. Assim que Carolina se aproximou alguns metros de Indra, ouviu um grito.

        - Filha cuidado!!! – Pepa gritou da praia.

        Carolina fechou a expressão com raiva, apertando os próprios lábios para não gritar com a mulher. Sabia que teria que ter calma para conseguir retirar Giane de Indra.

        Logo que Indra viu Carolina se aproximando, levantou e foi para a beirada da encosta, à  alguns metros do fim desta. E gritou aterrorizada.

        - Sai daqui sua vagabunda! Você não vai tocar nunca mais em mim e na sua filha. Se você se aproximar eu jogo a criança no mar.
– Carolina parou imediatamente a subida e fez sinal para Esdras parar também.
        - Olha para a criança Indra, ela não é minha filha, é filha de Beatriz! Se você machucar a criança, nunca mais terá chances com Beatriz. Ela matará você! –
Carolina mentia e tremia de pavor de Indra machucar sua filha.

        Indra olhou para a criança e realmente não se parecia em nada com a mulher ali na sua frente, se parecia muito com sua patroa.

        - Eu não acredito em você, sua mentirosa, a criança é sua filha sim! Vi você chegando com as duas! Eu vou tirar algo que você ama. Assim você aprenderá a não tocar em quem não conhece!

       
Quando conseguiu ultrapassar a entrada da caverna, Giovanna ouviu os gritos de Indra e Carolina. Seu coração disparou. Indra estava disposta a se vingar de Carolina. Fez sinal de silêncio para Diego e sinal de espera com as mãos, para os outros dois homens que estavam com eles. Ela e Diego caminharam abaixados alguns metros e se esconderam atrás de algumas pedras na parede da caverna. De onde estava Giovanna podia ver perfeitamente Carolina e Indra.

        Carolina tentava se aproximar de Indra, conversava calmamente com ela e mudava os passos lentamente.

        - Veja o rosto da criança, se quiser abra o olhinho dela e você vai ver que são idênticos aos de Beatriz. Como eu poderia ter uma criança com tamanha semelhança à ela?
– Indra inclinou a cabeça e olhou o rosto da criança que dormia em seus braços, depois abriu um dos olhos e viu que realmente eram azuis, como os de Beatriz.

        Aquela mulher na sua frente com cabelos e olhos castanhos não poderia ter tido uma criança tão idêntica à Beatriz. Ficou confusa.

        Assim que ouviu a última frase de Carolina, viu que ela estava muito próxima à Indra.  Imaginou que Carolina tentaria puxar a bebê e poderia fazer Indra lutar com ela e machucar a criança, Giovanna resolveu interferir. Saiu calmamente de trás da pedra que a escondia e que a deixava a alguns passos das duas mulheres.

        Ao vê-la, Indra deu mais um passo em sentido a beirada da encosta e levantou os braços com Giane em suas mãos, deixando-a sobre o mar. Qualquer movimento, a criança cairia, o coração de Giovanna estava muito acelerado.

        Giovanna resolveu continuar enganando Indra para ela devolver a criança ilesa.

        - Indra, minha querida! Não faça isso! Esta criança é mesmo minha filha. Carolina não está mentindo. Veja!
– Ao dizer isso, Giovanna levantou a blusa e expôs o abdômen definido e mostrou as cicatrizes, na parte superior do umbigo e na parte baixa deste. Giovanna passou os dedos nas cicatrizes na parte de baixo. – Viu? Estas são as cicatrizes da cirurgia cesariana, quando tive minhas filhas. Me dê a criança, para ficarmos bem!  

        Indra sorriu.

        - Ahh...Beatriz como desejei que você me chamasse de sua querida! Eu acredito em você! Vamos ficar juntas e criarei suas filhas com você! Você não precisa mais dessa mulher!
– Ao dizer isso, Indra começou a virar o corpo para entregar a criança para Giovanna, mas o limbo que formava nas pedras devido às plantas marinhas, fez com que ela escorregasse e neste momento soltou Giane.

        Carolina se jogou em direção à Indra e conseguiu segurar a alça de seu vestido, mas não conseguiu segurar Giane. Carolina olhou rapidamente para o mar e viu a filha caindo. Entrou em pânico e no mesmo segundo em que olhava, ouviu barulho de passos e sentiu o vento que Giovanna fez ao pulá-la e se lançar ao mar.

        Quando viu Indra escorregando, Giovanna correu, mas não teve tempo para segurar a criança, sem pensar em mais nada, pulou Carolina que estava no chão em cima de Indra e se lançou pela encosta. Na queda ainda conseguiu ver Giane atingindo a água.

        Assim que chegou na água afundou alguns metros e após alguns segundos viu Giane, sendo arrastada por uma onda. Nadou o mais forte que conseguiu e alcançou a bebê. Abraçou Giane e nadou para a praia que ficava na lateral da encosta. Quando chegou na praia, segurou Giane nos braços, mas sentiu que a pequena estava mole, não se movia. A colocou na areia, desceu a cabeça e encostou em seu peito, não haviam sinais de vida. Giovanna com dois dedos juntos começou a pressionar o peito da criança e a assoprar com o ar das bochechas. Não poderia colocar muita força, poderia quebrar o externo da criança e romper os pulmões. Fez esta manobra diversas vezes, o desespero a deixava trêmula, Giane não respondia aos estímulos físicos.

        Quando viu Giovanna se lançando ao mar, Carolina levantou e ao se preparar para pular, sentiu um braço forte segurando-a pelo abdômen. Viu que era Diego, começou a se debater, tentando se soltar e gritando.

        - Me solta Diego! Me solta! Minha filha! Meu Deus, minha filha vai morrer afogada! Eu preciso pular! Me solta Diego! – O choro de Carolina era convulsivo, sentindo que não poderia se soltar, amoleceu o corpo, vencida.

        Diego a segurou com ambos os braços e a pressionou com força para ela não escapar. Ele tentou acalmá-la.

        - Carolina calma, Giovanna é mergulhadora! Ela conhece como ninguém esse mar e essa encosta, sempre a usava como trampolim para mergulhos! Você precisa se acalmar! Vou te levar para baixo! - Arrastou Carolina para descerem da caverna, deixando Indra que estava ainda deitada no chão para trás. Carolina gritava e chorava convulsivamente. Diego a pegou no colo e desceu as trilhas de pedras até chegar à praia. No momento que viu Giovanna com a criança na areia, Diego a colocou no chão e ela correu ao encontro de Giovanna.

        Carolina se jogou de joelhos ao lado de Giovanna e sem pensar em nada, praticamente empurrou Giovanna e assumiu a manobra de salvamento, ela começou a fazer a manobra que Giovanna fazia. Pressionava o tórax da criança e assoprava seu nariz e boca juntos. Foram diversas manobras, o tempo estava passando e Giane não dava sinal algum de vida.

        Diego vendo que já haviam se passado vários minutos e a criança não reagiria, resolveu intervir, não adiantava mais aquele sofrimento, segurou nos ombros de Carolina e disse calmamente.

        - Para Carolina!
– Carolina suspendeu Giane da areia e a abraçou com muita força, chorando convulsivamente e gritando sua dor.
       - Meu Deus! Minha filha! Giane, meu amor! Volta pra mamãe! Volta filha! Deus, por quê? Meu Deus!  - Carolina apertava o corpo amolecido de Giane, chorava e puxava o ar com dificuldade, estava transtornada.

        Giovanna olhou para Diego e Carolina e não acreditou que eles estavam desistindo. Ela não aceitaria isso. Arrancou a criança do colo de Carolina, a pegou e girou seu corpo, fazendo ela ficar de barriga para baixo, a apoiando com um braço e a mão. Levantou a outra mão e deu tapas nas costas da criança, em cada tapa que dava um pouco de água saía de dentro da pequena. Depois Giovanna colocou Giane novamente na areia e ao invés de assoprar o ar, com sua boca cobriu o nariz e a boca da pequena e sugou com muita força e apertou com mais força o peito da criança, cuspiu a água que saiu. Neste momento Giovanna sentiu um jato de água atingindo sua face e Giane engasgando, para logo em seguida começar a chorar muito alto.

        Carolina assim que sentiu Giovanna arrancando Giane de seus braços, cobriu o próprio rosto com as mãos e chorava alucinadamente, soluçando e tremendo o corpo todo. Após alguns segundos ouviu um engasgo e um choro e descobriu o rosto. Viu Giovanna abraçada à pequena e chorando angustiada, Giovanna também soluçava e tremia e a pequena em seus braços chorava alto. Carolina abraçou Giovanna e Giane, fazendo a menina ficar entre elas e ficaram ainda alguns minutos unidas, até Diego retirar a blusa e apertar o ombro de Giovanna, oferecendo a blusa para enrolar a criança que tremia de frio e estava roxa. Carolina pegou a blusa, embrulhou Giane e a pressionou contra o peito para se aquecer.

        Todos levantaram e começaram a subir as escadarias, menos Giovanna que permanecia de joelhos e olhava fixamente para Indra que ainda estava na caverna. Quando percebeu que todos se afastaram alguns metros e não teriam como impedi-la, Giovanna levantou de forma ágil e correu, subindo as pedras que iam para a caverna.

        Indra viu a expressão de ódio no olhar de Beatriz que desconhecia e o medo a fez correr para o interior da caverna. Pepa que estava sentada na escadaria, vendo que Beatriz corria atrás de sua filha começou a gritar. Diego se virou e viu Giovanna subindo agilmente as pedras, ela conseguiria em segundos chegar à Indra. Para desespero de Pepa, agora ninguém, nem mesmo ele Diego, conseguiria segurar Beatriz. A conhecia muito bem, sabia que se perseguisse alguém seria até a morte desta pessoa. Pepa tentou subir nas pedras, mas Diego a impediu dizendo apenas.

        - Esqueça Pepa! Beatriz vai cumprir o que te prometeu, sua filha já está morta! Se você for lá, ela a matará também!

        Pepa desistiu e subiu as escadas.

        Carolina se assustou, nunca pensou que viria Giovanna matando alguém, mas não tentou impedi-la, também tinha ódio de Indra e se pudesse a mataria com as próprias mãos. Carolina abraçou fortemente Giane e começou a subir as escadarias. Ainda pode ouvir os gritos de Indra que vinham da caverna e depois um barulho de algo sendo jogado ao mar.

        No instante que Giovanna chegou à caverna, viu Indra encolhida, a segurou pelo pescoço e a suspendeu do chão e a arremessou contra a parede da caverna. Indra gritava implorando pela vida, mas Giovanna não ouvia uma única palavra, estava completamente cega de ódio. Jogou Indra de um lado para outro da caverna, fazendo ela atingir as paredes, Indra parecia uma boneca de pano sendo castigada. Giovanna a segurava e a arremessava com muita força. Indra voava de encontro às paredes, atingindo o rosto, os braços, as costas e o crânio. Após diversas vezes que fez isso, vendo que Indra já não se mexia mais e estava desfigurada, Giovanna a suspendeu sobre a cabeça, correu e a arremessou com muita força ao mar.

        Após Indra cair, Giovanna se ajoelhou e começou a chorar. Seu pior instinto havia sido despertado, ela simplesmente odiava ser como era. Olhou para as mãos e os braços e estes estavam completamente cobertos de sangue. Sentia o sangue escorrendo pela face. Levantou, se preparou e mergulhou no mar. Quando parou de afundar, ainda pode ver o corpo de Indra sendo jogado pelo mar contra as pedras da encosta. Nadou até a praia e deixou-se ficar alguns segundos na areia, deitada com a cabeça apoiada nos braços. Diego se aproximou, colocou a mão em suas costas.

        - Acabou Fênix! Vêm?! – Ajudou Giovanna a levantar e os dois caminharam em silêncio e subiram as escadarias também em silêncio. Diego não a recriminaria, ele próprio mataria alguém que ousasse machucar um de seus filhos.

 

 

Continua...