Legado de Nix
Legado da Noite

Lara Lunna

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Capítulo 8: Operação Madrugada Vermelha

 

Vick sentia vontade de abandonar tudo ali mesmo. Seu emprego, sua carreira e a cidade. Sentia o espírito alquebrado ao constatar que ao fim das contas estava só e aos poucos entrando em um beco sem saída. Precisava desesperadamente confiar em alguém. Mas quem?

______Sei quem mandou eliminar a equipe “Nêmesis”!

A afirmação da Delegada L. Souza e Silva, fez Vick se reanimar. Seu desejo de acabar com tudo aquilo, custando o que custasse, a fez ficar alerta. Não dava para disfarçar seu interesse.

______O nome do indivíduo é Raul “Dourado” Leite. É conhecido pela alcunha “Dourado”, pois tem a boca cheia de dentes de ouro.É um novo chefe que controla a “favela Grota do Adeus”. Organizou uma facção: os Vira-pó. Aos poucos foram se organizando e agora chegaram ao ponto de desafiar a polícia.
______Mas... a favela Grota do Adeus era controlada pelo “Tadeu Tristonho”...
_____O Tadeu foi eliminado pelo Raul.
_____Mas o que tenho eu com isso?
_____Raul Dourado acredita que você é culpada da morte do seu irmão caçula.
_____Como?
_____Lembra do caso do “boy da rua três”?
_____Um rapaz de 19 anos que peguei arrombando a casa de uma senhora idosa? O Mateusinho?
_____Sim!
_____Mas ele se enforcou na cela. Não tive culpa alguma nisso. Apenas o prendi porque estava violento devido ao delírio da droga.
_____O Raul acha que foi você quem mandou os outros presos enforcarem o irmão...
_____Um absurdo! Porque eu faria isso? Já havia feito meu trabalho.

Vick ainda não acreditava que tanta morte fora provocada por uma vingança pessoal de um novo chefe do crime organizado. Refletiu, rememorou os fatos, comparou e percebeu que havia sim um nexo, algo plausível naquela estória.

_____Como a senhora descobriu isso?
_____Antes de tomar posse, investiguei por meses o caso da “Nêmesis”. Precisava tomar “pé” da situação e saber onde estava me metendo e com quem.
_____Então sabia de tudo desde o princípio? E porque me pediu o relatório?
_____Como já disse! Preciso saber com quem estou tratando e as perguntas que formulei a você ainda me interessam saber. Vou ler seu relatório esta noite. Amanhã conversamos. Venha! O Helicóptero que vai nos tirar daqui em segurança está nos esperando no terraço.

 

 

O TRUQUE

 

Victória fechou-se em seu abrigo na serra. Recebera ordens para não aparecer na Delegacia até que a delegada a autorizasse. Estava muito preocupada. Dera à chefe o relatório meticuloso que elaborara sobre o “Serial Killer” e não sobre a “equipe Nêmesis”. Tencionara ganhar tempo para se desembaraçar da marcação cerrada sobre si. Um truque que geralmente dava certo, pois como sempre aconteciam tantas coisas insólitas e súbitas na sua vida, ao fim, o que antes era tido como importante, acabava sendo deixado em segundo plano. Mesmo assim, estava insegura. Temia a ira da Delegada quando esta percebesse que fora ludibriada. A L. Souza e Silva, a assustou, pois demonstrara uma inteligência e astúcia acima do comum e Vick constatou que “vacilara” no seu estratagema porque estava acostumada com chefes indolentes e irresponsáveis, que na maioria das vezes não liam sequer o primeiro parágrafo do que escrevia. Tanto que sempre conseguia se desembaraçar deles sem muitas cobranças ou perguntas.

Caminhou descalça pela casa, tentando se desligar do trabalho e de seus problemas. O celular tocou. Atendeu sabendo se tratar de Liz.

_____Vick! Onde você está?
_____Estou no paraíso!
_____Como?
_____Morri em combate e uma “Valquíria” me transportou em seu cavalo branco para o “Valhalla”...
_____Não brinque! Estou assustada! O ataque a bomba de ontem foi audacioso demais. Estão demonstrando que não temem a polícia ou qualquer outra forma de lei...
_____É... infelizmente não há dúvidas que há policiais envolvidos...

Silêncio entre as duas.

Quando voltou a falar, Lizandra parecia outra mulher.

_____Di! Você desconfia de algum colega seu? Alguém que poderia ter interesse direto em te prejudicar?
_____Não! No momento não!
_____Precisa descobrir! ... Di... eu estou com medo! Quero te ver...
_____Eu ligo para você depois! Agora tenho que cuidar de algumas coisas...
_____Di! Prometa-me que não deixará que eles te peguem!

Victória engoliu em seco. Percebeu a angústia na voz de Liz.

_____Eu prometo que vou me cuidar. Ouviu o respirar ansioso da outra pelo celular. Quando esta falou, estava com a voz trêmula. Tinha dificuldades em articular palavra.
_____Sei que sou insegura e está sendo difícil para mim ter um envolvimento secreto com uma mulher... mas acredite! Há dias que sinto vontade de gritar para quem quiser ouvir que te amo e que você é a mulher da minha vida! – confessou-se.

A policial emocionou-se, mas ao mesmo tempo sentia uma espécie de revolta no peito.

_____Não posso te dar um filho! – interrompeu, amargamente.

A médica ficou silenciosa por um breve momento. Depois sussurrou:

_____Precisamos conversar sobre isso pessoalmente. Você vai me ouvir... quem sabe me entender!
____Outro dia! Eu te ligo e combinamos um local. Agora tenho que atender à porta porque chegou alguém.
Tentava despistar Liz, até poder digerir melhor tudo o que ela lhe dissera. Sentia-se magoada demais.

Não houve tempo de abrir a porta que dava acesso à sala do chalé, pois esta foi aberta pelo caseiro que conduziu até o centro da sala, nada menos do que a própria Delegada titular.

Vick, que vinha descendo a escadaria, quase despencou degrau abaixo e acabou desligando o celular bruscamente, sem se despedir.

____Patroa! Esta senhora disse que é sua chefe e até mostrou o “emblema” dela. Disse também que tinha assunto urgente pra tratar.

Passado o choque inicial, Vick tratou de dispensar o empregado.

____Tudo bem! Pode nos deixar a sós!

O caseiro percebeu a mensagem. A patroa não queria ser interrompida. Saiu rapidamente para continuar tratando de seus afazeres. A Delegada mal esperou o homem se retirar e ergueu ameaçadoramente o pesado envelope pardo que continha o “Relatório” de Vick.

____O que significa isso?

Vick não se deixou intimidar.

____Bom! Pelo jeito, me enganei na entrega do relatório certo. O da “Nêmesis” deve estar na minha gaveta lá na delegacia.

O rosto muito branco da Delegada enrubesceu. Percebera o engodo.

____Está tentando ganhar tempo!
____Talvez!
____Então sente-se e me explique tudo sobre este assassino serial!

O queixo de Vick quase caiu. A chefe lhe mandara “sentar-se” em sua própria casa e além de tudo, ao invés da explosão de ira esperada, inquire sobre o matador serial?

____Vamos, Di Angelis! Não temos o dia todo!

Victória sentou-se.

____O que deseja saber?
____Quando ele matará novamente?
____No próximo Sabath...
____E porque faz isso?
____Pelo mesmo motivo que seriais killers matam. Precisam aplacar uma espécie de sede e matam de forma como a realizar um ritual. Na mente anormal deles, existe sempre um motivo que justifique seus atos.
____Desde quando este assassino atua?
____Pelos recortes aqui, ele já atua há um bom tempo... talvez 3 anos. Só não foi detectado, pois escolhe suas vítimas entre jovens que usam a cocaína e lhes provoca um ataque cardíaco que acaba sendo diagnosticado como “overdose”.

A Delegada sentou-se finalmente e fixou seus olhos atentos em Vick.

____Porque o chama de “O Legado de Nix”?
____Bem! Em alguns corpos, havia tatuagens, estas permanentes onde certo símbolo se repetia. O cálice e as estrelas. A moça que me entregou boa parte do Dossiê descobriu que este é o símbolo da Deusa Mitológica que representa a noite. “Nix” gerou vários filhos. Os primeiros com seu esposo, Érebos, e dessa união nasceram Éter e Hemera, as primeiras entidades luminosas de um mundo até então totalmente escuro. Depois da breve união com Érebo, Nix desdobrou-se espontaneamente e gerou outras divindades. As mais importantes foram as Hespérides, as Meras e os gêmeos, Hipnos e Tânatus. Destes gêmeos, um representa o sono e o outro, a morte.
____Então o Legado de Nix é Tânatus?
____Sim! O matador decerto acredita que é o próprio filho da Noite e que pode dispor da vida das pessoas. Por isso que em alguns casos deixou o símbolo de Nix.

Era visível o interesse da Delegada e a cada passo e explicação, seus olhos brilhavam.

____O serial killer arquiteta um ritual em sua mente. O Legado de Nix mata “semeando” e deixa pistas sutis, pois no fundo quer que a humanidade descubra sua façanha. Acreditam serem predestinados a uma missão. Possuem inteligência e meticulosidade fora da média e podem ser vistos na rua sem levantar suspeitas, pois na maioria são pessoas de boa aparência e socialmente bem articulados.
____E quanto ao biótipo?
____Em noventa por cento dos casos ou mais, o matador é do sexo masculino e suas vítimas preferenciais: as mulheres. A média é de brancos, entre vinte e um a trinta e cinco anos e começam a agir de noite para o dia sem motivo aparente. É como se aquele vizinho que conhecemos há mais de dez anos, dormisse um dia um cidadão comum e no outro começasse a cozinhar criancinhas em um caldeirão.
_____Isso é assustador! Esse criminoso precisa ser detido! - indignou-se a Delegada. Precisamos botá-lo atrás das grades antes que volte a matar!

Vick animou-se com o plural utilizado pela chefe que aparentava estar muito impressionada com seu dossiê.

_____Mas antes temos que nos livrar dos assassinos da Nêmesis”... mesmo porque se não o fizermos eles é que irão se livrar de nós e o tempo está se esgotando...
_____Tem algum plano em mente? – perguntou Victória.
_____Sim e preciso poder contar com você, mas antes quero que prometa não fazer nada sem minhas ordens...
_____Bom! Posso tentar.
_____Então aproxime-se e veja!

A L. Souza retirou de uma pasta um esboço de um mapa. Nele estavam desenhados a favela “Grota do Adeus”.

_____Ao contrário dos morros, o Império do Raul Dourado é uma grande grota cercada por paredes rochosas íngremes, onde se situa a favela. Todos sabem que ele é o segundo homem deste Estado na frente do narcotráfico, contrabando de armas e crime organizado. O primeiro homem é o João “Proverbial”, apelido dado porque sempre cita um provérbio quando defende suas ideias, por mais absurdas que sejam. A verdade é que o Raul quer ser o primeiro e João é o empecilho. Existe um plano arquitetado por Raul para invadir o morro “ Fura-couro” e liquidar com o rival. Antes, porém ele encomendou à peso de muito “Pó” , um verdadeiro arsenal de armas pesadas e modernas. Vai equipar seus homens para derrubar o João. O carregamento chega amanhã à noite na “Grota do Adeus”.
_____Então atacamos?

A Delegada olhou Vick com incredulidade.

_____Está lendo muita revista de super-herói, policial? Na vida real as coisas ocorrem de outra forma e muitas vezes diversa à nossa vontade. Não temos homens nem armas que possam hoje, invadir com sucesso a “Grota do Adeus”. Raul receberá as armas e atacará João. Uma breve pausa em seu plano de vingança contra nós. Depois voltará sua atenção e poder redobrado para o Distrito Policial. Quando tiver êxito, mostrará ao município quem é que dá as cartas na região e precisamos detê-lo. Matar a serpente no ninho.
_____E como faremos isso?
_____Os criminosos são pessoas sem quaisquer escrúpulos. Esse é nosso trunfo. Eles não possuem em quem confiar além da força do seu dinheiro sujo. A traição e falsidade é moeda corrente e basta “inserir” uma informação de que “um” quer “liquidar” o outro à traição e este vai cuidar de fazer o serviço antes. Portanto já tratei de fazer chegar até João, a informação verdadeira sobre os planos de Raul, inclusive data e provas do carregamento de armas. O que você faria se fosse João?
_____Eu verificaria se tinha algo de verdade na informação e me anteciparia ao meu inimigo! Daria o troco e no efeito surpresa!
_____Certo! Então algo me diz que vai haver uma guerra na “Grota do Adeus” amanhã!
_____Sim! Brilhante isso! Mas... o Raul pode vencer e permaneceremos em risco do mesmo jeito!
_____Já pensei nisso. E é aí que entramos. Veja... essas são as únicas entradas e saídas da Grota. Estaremos lá sim e esperaremos a guerra se iniciar. Quem vencer... mesmo assim, estará muito enfraquecido, com muitos homens mortos e feridos. Aí entramos no ninho da serpente e passaremos tudo no “pente fino” sem dar tempo de que se reorganizem ou descansem. Vê esse rádio transmissor? Através dele, um grupo de policiais escolhidos a dedo já estão aguardando minhas ordens. Consegui o apoio do alto comando da polícia. É o nome da instituição e a segurança das pessoas comuns nas ruas que está em risco. Se vencermos, mostraremos para a sociedade que o crime está sob controle e para os criminosos daremos uma lição de que não poderão desafiar a polícia.
_____E se falharmos?
_____Se falharmos: Xeque mate!

Vick sentiu-se arrepiar. Percebeu que se os planos da Delegada não surtissem o efeito esperado, teria que fugir da cidade, estado ou mesmo do país.

Sabia que o desejo de vingança do criminoso não se aplacaria até que fosse consumado com seu sangue. Imaginou-se viajando clandestina, com Sir Lancelot no colo, para uma cidade além do deserto do Saara. Ou seria melhor Timbuktu?

_____Posso contar contigo? - indagou a Delegada.
_____Pode... aliás... é um plano muito inteligente. Brilhante mesmo!

A Delegada preparou-se para se retirar e estendeu-lhe o rádio transmissor.

_____Tome! Fique com este! Preciso ter meios de me comunicar contigo a qualquer hora e lugar. Não se separe dele.
_____Ok!
_____Ah! Preciso ir e terminar os últimos preparativos para a “Missão Madrugada Vermelha”, portanto preciso que me faça um favor particular.
_____Sim?
_____Aqui está o endereço. Quero que intercepte minha filha na escola e a mantenha ao seu lado até que eu entre em contato novamente. Recebi informação a pouco que pretendem sequestrá-la na porta do colégio.

O pedaço de papel tinha o endereço do local e a foto de uma garota esguia de longos cabelos negros muito lisos.

_____Ela sai daqui a 4 horas. Acha que consegue chegar a tempo?
_____Com folga! Minha moto é muito potente!
_____Ok! Então mais tarde entrarei em contato.

Saiu sem se despedir e bateu a porta.

Vick correu escada acima para apanhar sua jaqueta de couro e a mochila. Estava excitada com o fato de ter sido inserida nos planos da Delegada e ainda gozar de sua confiança o suficiente para que esta lhe confiasse a guarda de sua filha adolescente.

Olhou novamente a foto.

______Me parece tão suave e frágil. Diferente da mãe que é a fortaleza fria e calculista. Decerto puxou ao pai. Vai ser mais fácil do que andar pra frente.

Acelerou a moto, sentindo a adrenalina correr em suas veias

 

 

Capítulo 9: A Tua Vaidade te Condena

 

Adiantou-se, entrou no colégio - um bom e tradicional colégio por sinal - e retirou Julia Souza e Silva ainda no meio do período. Mostrou seu emblema para a professora e escoltou a garota até a calçada sem problemas com a coordenação.

Não queria correr o risco de ser surpreendida por um bando de homens armados. O problema surgiu quando ofereceu um capacete sobressalente para a garota montar na garupa de sua moto.

______Não uso isso aí... vai amassar meu cabelo.

A adolescente em nada se parecia com a Delegada, exceto pelos cabelos negros e olhos azuis. Suas feições eram finas e demonstravam fragilidade, mas na verdade revelou-se de um temperamento azedo e implicante.

______Você é quem sabe! Se não subir agora e colocar esse capacete, um certo bando de homens muito fedidos e peludos virão para te buscar.

A garota colocou o capacete e subiu na moto resmungando. Na rua, aconchegou-se à Victória e pediu:

_____Para em uma lanchonete que estou com fome!

Vick dirigiu-se até uma espécie de lanchonete em um bairro pacato ha uns 8 km do centro da cidade.  Sentaram-se em uma mesa onde uma parede as ocultava da rua e ainda quebrava o vento frio da tarde. A garota pediu um sanduíche do tamanho de um coco da Bahia. Vick lembrou-se de sua adolescência e de seu estômago de avestruz, insaciável.

Sentou-se como de costume com as costas sempre voltadas para a parede onde ninguém poderia surpreendê-la e defronte para a entrada do estabelecimento. Seus óculos escuros, tipo espelhado, ela os colocou na mesa. Por ali veria quem se aproximasse pelo canto esquerdo. O canto direito era fechado por outra parede. Pediu um guaraná.

_____Ah! E eu quero uma cerveja! – encomendou Júlia para a garçonete.
_____Nada de cerveja, mocinha! – barrou Vick.
_____Ruuunffff! Vocês criadinhos de mamãe sempre com essa mania de ficar nos policiando. Das outras vezes pelo menos, ela mandava uns gatinhos lá do DP para me cuidar. Agora estamos decadente. Vou reclamar para ela!

Vick pensava em Lizandra e procurava ignorar o papinho “non sense” daquela criatura inacabada. Pensou duas vezes em ligar para Liz. Na última vez que conversaram não lhe havia dado muita atenção diante da situação apertada em que estava se metendo.

_____E vou dizer mais! Eu uso drogas sim! Fumo um baseado e ainda bebo pra caramba! Esse papo de que maconha vicia e faz mal, é coisa de “véio coróca”...

Victória não acreditou no que a garota estava afirmando. Pegara o assunto pela metade, pois não estivera prestando lá muita atenção.

_____O quê?
_____Isso aí que você ouviu! E não precisa fazer essa cara de “Tira escandalizada”. Dona Louise desconfia, mas não tem certeza... e não adianta contar para ela... eu desminto tudo!
_____Dona Louise?
_____Sim! A “poderosa-valente-incorruptível-valorosa-Delegada”, sua chefe...

A policial teve vontade de dar uns sopapos naquela pirralha, mas se conteve. Não ia entrar no jogo dela.

Um homem vestindo jaqueta jeans entrou no lugar e procurou o freezer horizontal e retirou dali quatro sorvetes de palito. Seu modo de andar, gingado, chamou a atenção de Vick. Foi até o balcão e retirou uma cédula de 50 reais do bolso para pagar a despesa.

_____Não tem trocado moço? – perguntou a jovem balconista.
_____Não, princesa! Tô sem troco!
_____Tá bom... vai levar só os picolés?
_____Só!

A moça abriu o caixa e contou cédula a cédula do troco e entregou ao cliente. Depois guardou a de 50 reais.

Vick levantou-se enquanto o rapaz embolsava o troco. Júlia abriu a boca para falar algo, mas a policial lhe lançou um olhar furioso e ameaçou baixinho.

_____Fica sentada. Não se mova. Se sair um milímetro do lugar eu lhe torço esse pescoço fino!

A cara que a garota fez, mostrou que a ameaça produzira efeito. Vick avançou sobre o rapaz e apalpou-lhe rapidamente a cintura. Estava desarmado.

_____O que é isso, gata? – perguntou o homem, sorrindo...
_____Encosta na parede e não se mova. É a polícia...
_____Ta maluca? Eu to limpo!...
_____É o que veremos! Algemou o rapaz com os punhos para trás, enquanto o revistava.
_____Vou te processar! Moça!

A balconista e outras pessoas se aproximaram.

_____Pegue a nota de 50 que ele te entregou! – pediu Vick.

A garota apanhou a cédula. O dono do local chegou apressado.

_____O senhor sabe distinguir uma nota falsa de uma verdadeira? – perguntou Vick para o recém-chegado.
_____Ah! Sei sim... já me deparei com algumas de excelente qualidade mas se olhar com cuidado dá pra ver...
_____Avalie esta!

O homem olhou contra a luz, tateou e por fim constatou:

_____É falsa... mas muito bem feita...

Vick neste instante encontrou dentro da meia do indivíduo que deteve mais cédulas de 50 reais falsificadas.

_____O senhor está sendo detido por tentar introduzir moeda falsa em circulação. Letícia aproximou-se admirada.
_____Como desconfiou?
_____Em um dia frio... comprando sorvetes... agasalhado... e ainda pagando despesa de cinco reais com uma cédula de cinquenta?
_____E o que há de errado nisso?
_____Errado? Nada. Suspeito sim! Quem tem uma cédula falsa... quer transforma-la em cédulas autênticas e por isso sempre procuram receber o máximo possível de troco. Daí é só sair e gastar à vontade sem medo de ser pego. Ele deve ter esperado que o dono do estabelecimento, muito mais experiente saísse e deixasse o caixa com a jovem balconista.

Júlia abriu a boca...

_____Você é inteligente! Quase como “Dona Louise”... mas como a “chefe” não tem ninguém que se compare... ela é a melhor...

Vick ligou para a Delegacia e pediu para que providenciassem a busca do sujeito que acabara de prender. Estava atenta ao rádio transmissor. A Louise Souza e Silva poderia contatar a qualquer momento. Não via a hora de se livrar daquela “pentelha” de olhos azuis.

_____Diz aí pra mandarem um carro bom e macio... não vou mais andar de moto... estou congelando...
_____Fica quietinha, sim? É primavera! Sorria... só faz frio um pouquinho à noite... nada que justifique esse chilique infantil...

Júlia cruzou os braços e armou o “bico”. Em minutos uma viatura parou em frente ao local. Victória sentiu-se gelar ao ver quem viera até ali. Os seus olhos cruzaram-se com os de Henrique Duarte. Nos dele havia uma frieza que parecia ocultar o mais puro ódio borbulhante.

_____Ah! Nossa heroína justiceira apanhou um falsário, é? Parabéns!

Duarte mostrou os dentes. Seu riso parecia o esgar de uma fera pronta a dar o bote. Vick não respondeu. Duarte apanhou o rapaz algemado pela gola e o lançou dentro do camburão como se fosse uma pluma. Era um homem alto e muito forte, além de muito bonito. Vick tentava disfarçar seu ciúme.

_____Opa! Olha quem ta aí... a “cria” da chefa ? Virou babá de aborrescente? A famosa “Asa Negra” está decadente mesmo!

Júlia que antes tinha se animado toda com o aparecimento do policial bonitão, agora fechou mais a cara. Vick preparou-se para pagar a conta e já ia saindo, levando a garota pelo pulso, quando ouviu Duarte falando alto ao celular.

_____Lizandra! Daqui a 15 minutos passo para te pegar!...não interessa!... eu quero ir agora. Sai daí, dá uma desculpa qualquer!... Quero começar a “transa” cedinho hoje... estou com o maior gás. Não. Eu não aceito não como resposta! ... Quem dá as cartas sou eu, lembra? Fique pronta! Já estou a caminho. Tomo um banho na sua casa!

Vick quase teve um ataque epilético. Ficou petrificada na calçada sem acreditar no que acabara de ouvir. Só podia ser blefe do Duarte, pensou.

O colega entrou na viatura e saiu cantando os pneus, com um sorriso maldoso.

_____O que foi, ô? Ta branca que nem um papel. – Julia olhava-a, subitamente interessada. ____Quero ir para minha casa. – exigiu.

Victória fez sinal para ela se calar e discou o número do celular de Lizandra.

_____Liz... o Duarte estava aqui e fez que te ligou... disse que vocês vão ficar juntos essa noite... é verdade?
_____Vick... procure entender... eu preciso conversar com você... mas agora não posso...
_____Diz que é mentira! Liz. – Vick gritou, desesperada. O silêncio de Lizandra foi mais eloquente do que uma dúzia de palavras. Desligou.

Não conseguiu conter as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Júlia a olhava assustada. O rádio transmissor emitiu vários bips. Vick procurou se recompor.

_____Está com Júlia? – a voz fria e cortante da Delegada restaurou-lhe um pouco da atenção.
_____Sim! Ela está comigo...
_____Então leve-a para sua chácara. Estará segura lá. Torno a contatar mais tarde.

Vick não contestou a ordem da chefa, mesmo detestando levar aquela “moleca” revoltada para seu ninho secreto de paz.

_____Vamos! - chamou a garota que obedeceu silenciosa pois percebeu que era mais prudente não contrariar a policial.

 

 

CILADA

 

Ainda estavam no perímetro urbano e a tarde caía, quando Vick percebeu que um carro as seguia. Acelerou a motocicleta, mas o carro era potente e já estava encostando, ameaçando abalroá-las. Subiu no canteiro e passou a pilotar pela calçada enquanto Júlia dava gritinhos animados, adorando a aventura.

_____Cala essa boca e se segura! – mandou enraivecida.

Por fim pensou que conseguira se livrar do veículo suspeito quando outro as apanha de cheio pela traseira. O impacto fez com que a moto empinasse e a roda dianteira girasse livre no ar enquanto o motor roncava agoniado. Vick tentou controlar o veículo, mas assustou-se ao perceber que Letícia havia caído há metros atrás.

Parou a motocicleta e tentou correr até onde estava a moça. Viu horrorizada o primeiro carro que as perseguira, parar e braços fortes içarem a moça como uma boneca para o interior do veículo que saiu fugindo em disparada. Pensou em voltar e apanhar a motocicleta, mas o segundo carro a cercou, acompanhado por mais duas motos. As portas se abriram e ela foi arrastada para seu interior e imobilizada no banco de trás. Percebeu que no carro havia três homens. Dois no banco da frente e um, muito forte no branco de trás, que a mantinha deitada no soalho, prendendo sua cabeça com uma mão, enquanto outra lhe revistava o corpo em busca de sua arma. Encontrou a pistola glock oculta na cintura da policial. Retirou a arma e riu...

_____Uma boa arma... coisa de primeira... vou ficar com ela. Não vai mais te servir nesta vida!

Um dos homens do banco da frente falava ao celular.

_____Nós pegamos as duas pombinhas, chefe! O informante tava certo! O que faremos agora? ...Ah! O senhor quer tratar dela pessoalmente? Ta... deixa que “a gente tamos” levando ela aí...

A adrenalina jorrava intensamente no sangue de Vick. Seu cérebro e metabolismo aceleraram e ela agiu instintivamente. Sacou o revólver calibre 38, cinco tiros que sempre trazia preso ao tornozelo. Aprendera a andar com a pistola e o revólver. Era um truque que o Araújo lhe ensinara e que um dia disse que poderia salvar-lhe a vida. Na verdade, serviria para que se a pistola “negasse” fogo, não ficasse na mão.

Agora a servia de outra maneira. Um tiro de baixo para cima atingiu a base do crânio do homem que a imobilizava. Outro tiro na nuca do homem ao lado do carona. Outro na altura do coração do motorista e o carro começou a deslizar sem controle. Bateu em um poste e Vick pulou pela janela quebrada e fugiu na noite sem perceber onde estava ou para onde ia. Correu até perder o fôlego.

Não sabia quanto tempo se passara até então. Só aí percebeu que estava em uma espécie de bairro pobre, não muito distante da Favela “Grota do Adeus”.

Sentou-se no meio-fio. Estava exausta, tanto fisicamente quanto emocionalmente. O reboar dos tiros ainda a mantinham semissurda, quando ouviu as sirenes e não soube identificar se eram de ambulância, dos bombeiros ou da própria polícia.

Uma viatura parou à sua frente. Levantou-se arisca.

_____Calma... entre aí! A voz da Delegada fez seu coração quase em colapso, desacelerar um pouco. _____Entre!

Dentro do carro, um policial dirigia e as duas se mantiveram sentadas no banco traseiro.

_____Conte-me tudo o que aconteceu! Encontramos os três homens que você matou! Vai precisar de um advogado. Sempre há um juiz que pode achar que um tiro na nuca e outro nas costas desclassifica a “legítima defesa”... mas não se preocupe, isso nós resolveremos. Conheço um bom amigo que é um grande e experiente advogado. Ele vai tratar de tudo.

Vick tremia. Nunca em sua carreira matara alguém. Pelo menos diretamente. Nem nos tiroteios chegara a ferir mortalmente um bandido.

_____Tenha calma. É sempre um trauma matar alguém, mas você sabe que fez para se defender.

A voz da delegada agora soava grave e compassadamente, produzindo o efeito desejado e Victória conseguiu relaxar um pouco, pelo menos para contar todo o ocorrido até então.

_____Eles estão com Júlia e alguém que nos viu, nos entregou...

O rosto da L. Souza e Silva endureceu-se em um esgar de ira, como o de uma leoa a quem lhe havia roubado a cria. Respirou profundamente, como se para voltar à calma e perguntou.

_____Desconfia de alguém da polícia? Alguém as viu na rua?

Uma série de imagens desfilou no cérebro da policial. Lembrou-se finalmente do que lhe fizera soar o alarme quando observou a garagem da delegacia.

O carro esporte de Henrique Duarte, apesar de o colega estar de plantão naquele dia, não estava em sua vaga costumeira. Aliás. Não estava naquele piso, nem no outro e ela sabia que o moço não se separava do carro. Entendeu que fora ele quem montara as bombas e não quis danificar seu adorado veículo com os estilhaços do artefato. A vaidade dele o condenou. Não havia mais dúvidas. Tudo se encaixava com perfeição e ela relatou sua suspeita para a chefe.

_____Foi ele quem nos viu na lanchonete. Certamente avisou ao bando do Raul. Ouvi quando disseram que “o informante” estava certo. Eles iam me levar até o chefe e este certamente acabaria comigo.

A delegada ouvia a tudo, atentamente. A certo ponto, o carro parou e elas saíram e trocaram de carro. Agora estavam só as duas e Louise dirigia. Rodaram por duas horas até que entraram em uma espécie de condomínio fechado em uma pequena cidade das redondezas. Era uma chácara de bom tamanho, muito bonita e requintada. A delegada foi em frente, chamando pelos cachorros e os prendendo no canil. Entraram na casa. Uma estrutura de tijolo, estilo inglês.

_____Estaremos a sós e seguras aqui até o momento de agir – Disse a chefe enquanto servia para Vick um delicioso conhaque grego, o Metaxa. _____Beba! Vai reanimá-la e lhe fará bem para os nervos. Sua pele está fria. Mais um pouco você entrava em choque! Vou providenciar roupas limpas e uma toalha para seu banho.

Saiu.

Vick desabou no macio divã. Havia lareiras e é claro, o ambiente, portanto se tornava muito acolhedor, quase um útero materno. Para utilizar o termo mais correto.

Louise apagou as luzes e acendeu velas.

_____Ajuda a relaxar.

Mesmo sendo “fraca” para bebidas, a policial apreciou muito o conhaque. Tanto que serviu-se mais algumas vezes. Começou a sentir um calor crescente, irradiando do seu umbigo para todo o corpo. A garganta secou e ela decidiu parar de beber aquele líquido ambarino.

Quando Louise voltou, encontrou Vick olhando atentamente uma série de retratos dispostos acima da lareira.

_____É sua filha?
_____Sim! Em várias fases de sua vida. Aqui ela tinha começado a engatinhar. Esta é quando andou pela primeira vez. Este é quando fez o catecismo...
_____E este é seu marido?
_____Sim!

A resposta seca estancou o desejo de perguntar de Vick.

Momentaneamente instalou-se um silêncio sepulcral entre as duas.

Louise como sempre, rompeu o embaraço e mandou:

_____Suba a escada e encontrará um banheiro. Fique somente o tempo que for necessário. Depois desça e estarei te esperando.

Vick obedeceu à Delegada como uma menina crescida. Não estava preocupada no momento com o modo autoritário de Louise. Não conseguia se preocupar com muita coisa além da lembrança incessante de que Liz poderia estar naquele momento, servindo com seu corpo àquele traidor e mau caráter do Henrique Duarte. No piso superior encontrou uma banheira com água morna. Uma espécie de “ofurô” delicioso. Entrou e sentiu seus músculos relaxando aos poucos, como cordas de arco tensas depois da batalha. Saiu e se enxugou. Depois vestiu a camiseta e a calça de malha que recebera e desceu. Na sala, encontrou Louise com os cabelos soltos e no corpo um diáfano vestido de algodão com corte reto que lhe alcançava até os tornozelos nus. Havia também tomado um banho e sua pele estava brilhante e perfumada. Bebia o conhaque, distraidamente, sentada em uma almofada ao chão, enquanto consultava sua agenda.

Pela primeira vez, Victória sentiu que trabalhava para uma mulher “de verdade” e não para um coronel de saias, como sempre lhe parecera. Porém procurou manter a prudência e não baixar a guarda.

Os cabelos negros de Louise não eram muito longos como parecera na primeira vez que a vira. Tinha corte estilo chanell, fios retos e lisos, três dedos abaixo do queixo. Havia ainda uma franja e todo o conjunto lhe emprestava um certo ar “francês”. Os braços alvos e lisos denunciavam uma musculatura firme e bem definida, porém alongada, tal como o das bailarinas. Sim... ela poderia se passar por uma bailaria ou “Etoìle” do Teatro Municipal de Paris. A fantasia se dissipou, quando a “Anna Pavlova” sacou de algum canto oculto da sala, o mapa da Favela “Grota do Adeus” e de seu transmissor passou a ditar ordens aos quatro ventos. Enquanto falava ao aparelho, riscava e fazia esboços no papel. Vick tentava acompanhar a linha do raciocínio poderoso da chefe, mas sentia-se no momento como um calhambeque seguindo uma Ferrari. Desligou o aparelho e saiu da sala rapidamente. Voltou com uma bandeja onde havia dois pratos com um ravióli fumegante.

_____Não se impressione! Eu mandei trazer de uma cantina italiana! – cortou a Delegada ao ver os olhos de Vick se expandirem. ____Coma! Ajuda a se situar no mundo dos viventes. Está muito pálida ainda.

Victória não se fez de rogada. Serviu-se do seu prato e continuou a bebericar o conhaque. O trauma que sofrera lhe fazia as mãos tremerem e ela tentava disfarçar sua situação precária e não compreendia como Louise se alimentava impassivelmente, sabendo que sua filha única estava em poder de sequestradores cruéis.

_____Nós vamos conseguir livrá-la do Raul. - Vick afirmou timidamente, perscrutando o rosto da Delegada em busca de um leve sinal que lhe denunciasse o sofrimento.
_____Não quero falar sobre isso agora. Coma e deixe os delírios para quando se deitar.

Vick terminou seu prato. Sentia-se muito melhor e a imagem de Lizandra, talvez pelo efeito da bebida, talvez pela sua intensa tristeza, lhe desfilava agora em sua mente. Podia vê-la sendo “tomada” pelo Duarte. Corou e Louise percebeu sua perturbação. Olhou-a como se curiosa e esboçou um gesto que foi interrompido pelo toque do celular de Vick.

A policial nem se lembrava que ainda tinha um celular, mas este ficara muito bem encaixado em seu cinto e agora estava disposto junto com sua roupa suja e rota que usara. Levantou-se e o atendeu.

_____Vick... é Liz... onde você está?

Desligou. Não dispunha de estrutura emocional no momento para conversar com Liz. Louise enrugou a testa e tomou o aparelho das mãos da policial.

_____Nada de celular aqui! Regra número 1.

Vick obedeceu e voltou a sentar-se no chão sobre o tapete, em torno da pequena mesa de centro onde se servira e fitou seus olhos inquisitivos em Louise. Sentia que cada gesto seu ou mesmo movimento estava sendo criteriosamente observado e analisado.

_____Seu pai, Antonio di Angelis, é um empresário inteligente e agressivo...

O comentário da Delegada pegou Victória de surpresa. Não esperava que Louise conhecesse tanto de sua vida familiar.

_____Dizem que ele é uma dos melhores executivos de sua geração! – respondeu Vick, tentando manter o tom informal da conversa.

Uma música suave invadiu o ambiente. As melodias apaixonadas de uma obra de Chopin...

Louise sentou-se em uma confortável poltrona de espaldar alto e fechou os olhos, visivelmente inebriada pela música. Vick, mesmo contrariada, teve que admitir que à sua frente havia uma mulher que sabia ser sensual e sedutora. Ali, até seus gestos, antes tão rígidos e tensos, eram harmônicos e graciosamente femininos.

_____Aurora era o nome da mulher que inspirou essa obra! Comentou por fim, a policial, a quem a obra do músico austríaco atingiu em cheio o coração apaixonado e triste.

Louise abriu os olhos e completou:

_____Aurore De Dudevant...

Levantou-se e aproximou-se de onde Vick estava sentada, tocando-lhe suavemente a face ao perceber as lágrimas represadas em seus olhos.

_____Conhece como foram feitas as famosas espadas dos samurais? – perguntou.
_____Não! Já li um pouco sobre elas, mas não sei muita coisa.

Louise levantou-se e subiu as escadas. Voltou com uma bela espada nas mãos.

_____Esta é uma peça rara. Comprei-a em um leilão na Inglaterra. Pertenceu a um bravo samurai que serviu ao último Xogum da Dinastia Tang. Veja a lâmina... é capaz de ferir uma rocha. Sabe por quê?
_____Não! Não faço a menor ideia!
_____Pela forma como foi forjada. O mestre ferreiro a submeteu ao fogo, para que se livrasse das impurezas e pudesse ser forjada. Submeteu-a depois a milhares de fortes marteladas, para que cada molécula fosse se comprimindo até ter a massa mais rija do que a rocha. E assim a espada foi feita: o fogo, o martelo e a água... que também era utilizada para uma espécie de choque térmico que empresta têmpera ao aço...

Victória entendeu perfeitamente a razão daquela explicação quase enciclopédica sobre a espada do samurai: Grandes homens e mulheres são forjados no fogo-sofrimento, no martelo-experiência e entre um e outro, a água-alento, molda a têmpera de seu caráter.

A policial tocou a lâmina, reverente...

_____Pegue-a!... sinta-a em suas mãos...

O toque no metal, fez uma energia deliciosa fluir para seu corpo alquebrado.

_____Você poderia estar morta, nesse momento! - interrompeu Louise! _____Eram três homens de coração duro e mau. Tinham ordens de levá-la até Raul e ele certamente iria finalmente levar a cabo sua desejada vingança.

Uma breve pausa e os olhos das duas mulheres se cruzaram e fitaram-se intensamente.

_____Mas aí está você, ilesa fisicamente, apesar do trauma emocional sofrido!

A Delegada serviu-se do conhaque e continuou:

_____Meu colega, a quem substitui no Oitavo Distrito, havia me dito sobre sua fama de ter “sete vidas”... Agora entendo o porquê. Talvez você ainda tenha muito o que realizar nesta vida... Talvez. Já vi policiais valorosos e inteligentes morrerem em situações totalmente absurdas e insólitas, como ir na esquina comprar pão e se depararem com um assalto, ou mesmo levar um corte na jugular, feito por um caco de garrafa nas mãos de um menino de seis anos...
_____É a violência urbana! – comentou Vick enquanto manuseava a espada e tentava acompanhar o raciocínio de Louise. Sabia que poderia ter morrido em inúmeras oportunidades, mas de um modo ou outro, que ela jamais poderia explicar, escapara. Quem sabe a Delegada tivesse razão. Quem sabe ela estava sendo poupada para algum “grand finale”... um grande momento.Como se lesse o pensamento da policial, Louise afirmou:
_____”O Grande Momento” de nossas vidas poderá ser amanhã... Já pensou nisso? Já pensou que esta pode ser sua última noite aqui, nessa esfera ou dimensão?
_____Nã, não! Eu prefiro nem pensar nisso! Gosto de pensar que sou mais esperta do que a Dona Morte!
_____É natural! – concluiu Louise, voltando a sentar-se na poltrona, cerrando os olhos para apreciar a música.

Vick a olhou admirada. Estava impressionada com sua coragem e a clareza como encarava a vida, o momento, o destino e até a possibilidade da morte. Queria ter toda aquela coragem em face do imponderável... mas seria exigir demais de seu coração jovem e aventureiro que por vezes até acreditava ser imortal.

O rádio transmissor da Delegada soou e ela o atendeu prontamente. Saiu da sala para o varandado, onde pudesse conversar com seus homens sem que Victória a ouvisse. Voltou para o interior da sala, muito séria e o rosto novamente endurecido.

_____ Há algumas horas, mandei que detivessem o policial Henrique Duarte para algumas averiguações, diante dos graves indícios contra ele...

Victória levantou-se de um salto, ansiosa pela notícia.

_____Ele foi pego? Onde estava?
_____Estava na casa da namorada... A Doutora Lizandra, uma das legistas que trabalham no Instituto Médico local. Você deve conhecê-la...
_____Sim! Eu a conheço! – exclamou Vick, em um gemido.
_____Henrique Duarte escapou do cerco!
_____Como?
_____Usou a namorada como refém e fugiu...

Vick cerrou os punhos, quase fora de si.

_____Eu não acredito! Não posso acreditar... Ele usou Liz como refém? Vou matá-lo...

Louise parecia não entender a razão do desespero de Victória e ficou em pé, atônita.

_____Ele a levou consigo? Para onde a teria levado?
_____Presumo que procurará refúgio, pelo menos por alguns dias ou uma noite, lá na Grota do Adeus...
_____Mon Dieu! Mon Dieu! Ele levou Liz para o inferno? Isso não pode estar acontecendo... acho que eu morri e estou vivendo um pesadelo... só pode ser isso! Se algo acontecer com Lizandra eu não vou suportar...
Louise adiantou-se e a abraçou forte, enquanto ela lhe molhava os ombros com suas lágrimas.
_____Você não entende! Eu a amava... eu a amava como nunca havia conseguido amar alguém em minha vida!

Louise nada respondeu naquele momento e esperou que ela aos poucos se acalmasse. Depois convidou:

_____Venha, criança! Vou lhe mostrar seu quarto. Dormir lhe fará bem. Amanhã será outro dia e precisará dispor de toda sua energia e juventude para a ação. Posso precisar contar com você!