Letra e música

Luiza Cavalcanti

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Capítulo 9: e o tempo passa

 

E a vida foi seguindo, não sei se por caminhos por mim escolhidos ou simples questão de destino. A minha relação que pensava durar apenas dias, já ia para seis meses e mesmo pouco falando de mim, não por falta de curiosidade dela, o que eu achava ser apenas sexo, começou a ficar sério, pois passou de minha parte e principalmente dela, a ser uma relação de confiança. Até na faculdade todos já percebiam e aquilo que poderia me preocupar em outros tempos, a opinião alheia, passou a ser para mim algo de uma inutilidade fundamental para minha vida. Muitos de minha turma se afastaram, como se uma relação homossexual fosse doença e contagiasse. Acho que mais por ignorância, pois está impregnado na cabeça da sociedade que ser homossexual é ser promíscuo. Pois saibam, isso independe da opção sexual; e durante minha relação com Bianca, fui fiel e tenho certeza da recíproca em relação a ela. Além do que começou a rolar pela faculdade o papo que Bianca me sustentava e isso foi o pior, porque não me aproximei de Bianca por sua situação financeira.  Só concordava em freqüentar lugares que ambas pudessem dividir tudo, apesar de seus protestos.  Apenas Edu e Carol ainda continuaram meus amigos, lembro-me de eles terem chegado meio que sem jeito, um dia em que eu me sentei e alguns colegas se levantaram para se sentar em outro lugar.

_É verdade que você está de caso com a filha do doutor Albuquerque? Perguntou de supetão Eduardo.
_Acho que caso não é a palavra certa Eduardo e sim namoro. Isso te incomoda? Falei com toda a tranqüilidade possível.
_Claro que ele vai falar que não, não é Edu? Respondeu por ele Carolina. Acho que o máximo que ele pode sentir é inveja, pois Bianca é mesmo muito gata; completou gargalhando.
_Pois é agora tem duas gatas fora do alcance do conquistador aqui, completou Edu já entrando na brincadeira e o assunto morreu por aí. Depois de algum tempo, quando Edu e Carol realmente engataram um namoro, passamos a sair os dois casais e ele ficava todo prosa, pois estava rodeado de gatas, como dizia e todos pensavam que todas estavam aos seus pés, dizia rindo muito.

Mas com João não foi tão fácil. Fiquei quase aquele ano inteiro sem vê-lo, até que já era setembro e perto do meu aniversário fiquei surpresa ao voltar da faculdade e dar de cara com ele no portão da pensão. Estava meio que sem graça, muito formal e com um pacote na mão.

_Vim apenas para lhe entregar isso; disse e me entregou o pacote. Era do padre Antônio.
_Era por quê? Já perguntei como que adivinhando.
_Ele faleceu faz três dias, dormindo. Mandou chamar meu pai e antes tinha se lembrado de seu aniversário e lhe mandou um presente. Bem já vou indo, falou enquanto ia saindo.
_João espera, falei segurando seu ombro. Fomos criados juntos e você foi o irmão que nunca tive e agora estamos assim, distantes e eu me preocupo com você.
_Se preocupa nada, disse com amargura. Você sabe o que me faria feliz, mas prefere uma vida de promiscuidade ao lado daquela profana. Você acha que eu não sei o que dizem de vocês na faculdade e que não me machuca saber que agora você virou gigolô daquela menina rica? Tenho colegas que estudam lá e ao saberem que nos conhecíamos não perderam tempo em fazer os mais diversos tipos de comentários maldosos. Mas quem sabe não foi isso que você sempre quis, dinheiro e posição social e tentou o golpe com Júlia, mas parece que seu Augusto foi mais rápido não é? Terminou de falar como se tudo aquilo estivesse preso há anos dentro de seu coração.

Foi com toda a força daqueles anos de humilhação de minha infância que saiu o tapa que marcou o rosto de João, o fazendo me olhar com surpresa e rancor.

_Se é realmente isso que você pensa sobre mim, me admira muito que um dia tenha feito para uma pessoa tão sem caráter uma proposta de casamento, respondi quase com fúria. Acreditando você ou não, sempre vou querer ver sua felicidade e creia-me ela não está ao meu lado. Vá João, e quem sabe um dia você possa aceitar novamente minha amizade, pois foi isso que sempre existiu entre nós. Ele pareceu querer dizer algo, mas deve ter achado que aquele não era o momento e se foi.

Depois que João partiu, uma dor apertou meu peito ao me lembrar de padre Antônio e de tudo que eu lhe devia como ser humano desde que ele me tirou com vida de dentro daquela caixa de papelão para ser alguém. Derramei umas poucas lágrimas pelo bom padre tendo por consolo a certeza que ele estava perto de Deus como um dos seus mais valiosos filhos. Tia Chica me vendo entrar perguntou se eu estava bem porque estava muito pálida, mas disse a ela que eram apenas más noticias de minha terra natal. Subi correndo e me tranquei no quarto quando me lembrei do embrulho que tinha nas mãos. Ao abri-lo, voltei aos tempos de minha infância porque se tratava da velha bíblia do padre Antônio, que desde criança eu achava linda, porque era de uma edição especial vinda da Itália, onde além das palavras divinas, suas páginas possuíam também em cada passagem importante, desenhos em alto relevo e de grande beleza para dar mais destaque. Provavelmente era obra de um grande e talentoso artista daquele país o que a fazia ainda mais importante para o padre. Ele nunca deixou que ninguém a tocasse e era muito antiga e tinha sido de sua família por gerações. Aquilo me fez sentir que de alguma forma para padre Antônio eu fui a filha que o céu mandou para ele.

Chegou o dia de meu aniversário e sinceramente eu não queria que ninguém soubesse, até porque aquilo me lembrava que também eram os dezenove anos de Júlia, mas não sei como Tia Chica descobriu, pois ao acordar e descer para o café da manhã, já tinha um bolo com velas e tudo a minha espera.

Tia Chica, eu nunca fui capaz de retribuir tudo de bom feito por ela em relação a mim. Ao sair da faculdade aquela tarde, Bianca me esperava do lado de fora e sem me importar com os outros alunos que olhavam descaradamente, segurei seu rosto e lhe dei um beijo que quase fez ocorrer na porta da faculdade um acidente automobilístico devido aos muitos olhares de cobiça.

_ O aniversário é seu e o presente quem ganha sou eu? Disse sem se importar com a opinião alheia, isso nós sempre tivemos em comum.
_Quem lhe contou? Humm... Deixa-me adivinhar, certa senhorinha muito falante que tem uma pensão num bairro tranqüilo da cidade? Disse sorrindo e a agarrando com mais força.
_Sim e já avisei a ela que tinha preparado uma festa e que você só volta amanhã, nem se preocupe em avisar. Hoje eu sou sua para atender a todos os seus desejos, mas não se acostume com toda essa mordomia viu? Falou aceitando o abraço.
_E quem disse que a senhorita pode com meus desejos? Perguntei com ar de superioridade.
_Mas posso tentar não é? Quem sabe eu não acerto, disse sorrindo.

Só tenho a dizer que suas tentativas tiveram êxito, pois aquele sim é o primeiro aniversário que me recordo em que estava totalmente feliz. Deixei-me sim ser paparicada sem me importar se os outros me chamariam de gigolô como João. Com Bianca aprendi a não ter vergonha de falar de meus desejos, sejam em cima de uma cama ou não. Ela era totalmente aberta a novas experiências e sempre me proporcionou muito prazer, não só sexual, mas por simplesmente estar ao seu lado, porque sempre soube me ouvir e tinha uma conversa interessante, aliás, ela era toda um interesse constante para mim. Ao seu lado não existia a monotonia. Aquela noite, ela não só me deixou embriagada de êxtase e prazer, pois me degustou de todas as formas e jeitos, como me ensinou também novas formas e posições prazerosas para ambas. Sexo com ela sempre era uma descoberta nova para proporcionar mais e mais prazer.

No final do ano chegou enfim sua formatura e tive mais um prazer, o de conhecer o tão famoso doutor Jaime, seu pai, que diferente do que muitos deveriam achar, sempre apoiou as escolhas da filha e na sua colação, ao ser apresentada a ele, simplesmente me abraçou com um forte aperto e com o mesmo sorriso da filha nos lábios.

_Até que enfim tenho a honra de conhecer quem tem feito os olhos da minha filha tão brilhantes esses últimos meses, disse e notei que o rosto de Bianca ficou vermelho, num raro momento de timidez em todo o tempo de uma vida em comum.
_O prazer é meu de conhecer tão renomado profissional e tão amado pai. Bianca fala do senhor como a oitava maravilha do mundo, comentei sorrindo também.
_Talvez porque ela tenha sido é muito mimada, criada sem mãe, eu sempre a deixei livre para fazer tudo que queria. E pelo jeito, ela sempre acerta nas escolhas, continuou falando enquanto segurava minhas mãos.
_Vamos parar com essa conversa melosa toda e nos preparar para comemorar doutor Jaime, disse abraçando o pai. Agora o senhor pode dizer a todos que há mais um Albuquerque no mundo da medicina para revolucionar e tirar o pó desses métodos arcaicos usados por aí.
_Vou dizer sim filha, disse doutor Jaime com algumas lágrimas nos olhos e com muito orgulho vou dizer que nunca conheci médica melhor. Benditas serão as crianças que passarem por suas mãos, pois elas terão muitas chances de se curarem.

No dia seguinte, no baile de formatura, fiz questão de pela primeira vez, colocar um vestido de festa (alugado, claro) mais de muito bom gosto; segundo Tia Chica parecia até artista de novela e exagero à parte, reconheço que ele caiu como uma luva sobre meu corpo. Era de um vermelho quase vinho, com umas rendas e bordados que lhe davam um ar sofisticado, além, claro, de um decote bem generoso sem ser vulgar.

Bianca também foi feliz na escolha, pois seu vestido de tom verde era belíssimo e correu pela faculdade o boato que era exclusivo e feito por um estilista famoso, mas ao me pegar naquela noite para irmos juntas numa limusine com motorista e tudo (fato esse que quase parou o bairro inteiro), senti que ela quase parou de respirar e só sussurrou no meu ouvido ao entrarmos no carro:
_Isso tudo é para mim? Porque se não for, mando matar a pessoa que tem essa sorte; dizia enquanto mordiscava levemente minha orelha.
_Eu sempre pensei que médicos salvavam vidas e não as tiravam, comentei já colocando as mãos entre suas pernas.
_Com certeza, mas pode haver outros interesses em jogo e não somos perfeitos, disse já gemendo no meu ouvido.

Não sei se por acaso do destino, a limusine demorou um pouquinho para chegar e aproveitando o fato de estarmos totalmente sozinhas e protegidas de olhares curiosos naquele carro enorme, deixei vir à tona todo o desejo liberado ante sua visão dentro daquela roupa tentadora e ali mesmo a penetrei, enquanto Bianca apertava mais e mais as pernas sobre meus dedos que entravam e saíam de uma forma delicada, mas persistente, de dentro de seu sexo, enquanto eu engolia sua língua num beijo mais que depravado. Mas logo o carro parou, e ela já tinha gozado em meus dedos que lambi deliciada, como dizendo que aquilo foi apenas o aperitivo do prato principal que ainda estava por vir. Permiti-me liberar meu lado divertido e não me importei ao ser apresentada entre olhares e murmúrios disfarçados a tão nobres doutores pelo pai de Bianca como sua namorada. Se ela não se envergonhava, não seria eu que iria sentir tal sentimento em relação à tão bela mulher. Nós duas nos divertimos bastante, dançamos mais ainda e não causou tanto escândalo nossa situação, pois não éramos ali o único casal homossexual da festa; mas nos obrigamos a lembrar que não era um lugar gls, e evitamos nos tocar com mais ênfase até em respeito ao doutor Jaime, que não se importava de jeito nenhum, mas na sua frente eu não sei por que, me inibia os gestos de maior demonstração de carinho com Bianca. Mas isso não impediu de já quase no fim da festa, Bianca me arrastar para o banheiro feminino, trancar a porta e com o olhar mais sacana do mundo dizer simplesmente:

_Revanche e ali mesmo foi me empurrando, me fazendo sentar sobre a pia e com mãos habilidosas foi afastando minha calcinha e sem pudores começou a sugar meu sexo molhado com uma vontade que esperou para ser saciada durante toda a noite. Gozei rápido e gostoso em sua boca, por ela e para ela. Depois, já quase amanhecendo, fomos para um motel porque segundo ela, hoje era dia de eu satisfazer seus desejos, o que proporcionei com muito prazer até quase o fim da manhã, quando mais uma vez dormimos abraçadas.

No primeiro mês de formada, Bianca teve muito trabalho para montar a clinica na casa que ganhara de seu pai como presente. Em principio, ela tinha combinado com alguns amigos doutores de montá-la, mas ficou a cargo de seu bom gosto, já que os outros eram homens, a decoração do local. Cada um era especialista em uma área, e para jovens iniciantes, o local era bem localizado e grande o suficiente para um bom atendimento. Para isso, ela teve que se ausentar por um mês numa viagem que fez para os Estados Unidos, atrás de equipamentos mais modernos e admito ter sentindo demais sua falta. Foi um período também de mudanças para mim, pois através de dona Matilde conheci seu Alberto, um primo dela que era editor de um jornal de grande circulação na época e para inveja de muitos, consegui um estágio remunerado que pagava melhor além de me proporcionar toda a experiência necessária para me tornar a jornalista respeitada que viria a acontecer mais tarde.

Quando Bianca voltou, eu já tinha começado no meu novo emprego. Seu Alberto me ensinou bastante sobre o que é ser realmente uma boa jornalista. Deve-se sempre em primeiro lugar ter por compromisso a verdade, doa a quem doer. Bianca tinha me avisado que só chegaria à noite e por isso, fui pega totalmente de surpresa ao me deparar com ela parada, encostada na porta do carro aquela tarde ao sair de meu novo emprego. Não nos contivemos e sem nos importarmos muito, nos jogamos uma nos braços da outra, pois naquele instante percebi o quanto ela já era uma parte importante na minha vida.

_Tenho que ficar longe mais tempo só pelo prazer de ver em seu olhar essa alegria em me encontrar novamente, disse se soltando com dificuldade dos meus braços.
_E você está me saindo uma grande mentirosa, falei enquanto segurava carinhosamente suas mãos. Disse que o vôo chegaria só à noite.
_E perder a oportunidade de surpreender você, jamais; falou sorrindo depositando um leve beijo em meus lábios, mesmo sabendo que nossa vontade era outra.
_Você não precisa de muito para me surpreender, falei a abraçando novamente. Senti saudades e só espero que tenha dado tudo certo.
_Com certeza. Na semana que vem espero já ter tudo montado e começar no batente. Tenho que falar alguns assuntos pendentes com os meninos, mas acho que temos algo mais urgente para resolver, não?
_Eu achei que você não fosse perceber, disse sorrindo e entrando no carro.

Naquela noite, enquanto fazíamos amor, senti que algo dentro de mim mudava. Realmente a distância me levou a perceber o quanto Bianca era importante não só como namorada, mas como pessoa fundamental na vida que eu queria construir. Senti medo após mais uma noite intensa de sexo, quando ela segurando meu rosto exausto de prazer me disse simplesmente:
_Te amo e posso passar a vida inteira esperando você me mostrar que me ama também.

Eu não podia mentir para Bianca e ela notou que eu não estava preparada para dizer as mesmas palavras.
_Não tem importância, o tempo vai fazer você apreender a me amar também.

O tempo. Se soubesse o que ele nos reservaria, talvez conseguisse dizer a Bianca que a amava sim, mas não era o amor que ela esperava de mim, mas acredito tê-la feito feliz dentro dessa bolha de vidro que foi nosso relacionamento, que nos protegeu do mundo lá fora. Eu era muito jovem para perceber que talvez algumas de minhas atitudes a tenham magoado.

E como ela previa, foram anos de muito trabalho. No fim do ano que eu completei meus vinte e um anos, me formei e contra todas as previsões, fui a primeira da classe. Na colação, ao fazer o juramento senti que era de minha responsabilidade também a vida das pessoas que eu via na platéia e se orgulhavam de mim. Eram poucas, mas todas tinham um lugar especial em meu coração. Tia Chica, dona Matilde, Seu Alberto, doutor Jaime e Bianca e para minha alegria João que eu não via há muito tempo, que me apresentou sua namorada Mariana e como foi dito e depois percebido por suas palavras que ele a amava de verdade. Dei-lhe um forte abraço, com um alívio dentro do peito naquela noite. Eduardo e Carol ainda tentaram me convencer a participar do baile de formatura, mas eu não quis, era questão de orgulho mesmo, pois durante todos aqueles anos, a maioria ali tinha me virado as costas. E para falar a verdade, Bianca tinha outros planos bem mais interessantes e por que não confessar, estimulantes.

Uma semana depois, para minha tristeza e de Tia Chica, tomei a decisão de dar mais um passo na minha relação com Bianca e aceitar seu convite para irmos morar juntas.

_Sei que vocês são amigas e se dão bem e se você está feliz, estou feliz também; disse com lágrimas nos olhos. Só não se esqueça de visitar essa velha aqui, disse me abraçando.
_Como se isso fosse possível, esquecer da senhora, falei beijando longamente seu rosto e quando o táxi chegou aquela tarde e coloquei as malas atrás e a abracei, não sabia que seria a última vez. Uma semana depois, Tia Chica morreria atropelada e quase teria sido enterrada como indigente se um dos amigos de Bianca não a reconhecesse da colação da amiga e tendo visto ela ao meu lado na ocasião, me comunicou o fato. Sofri muito e com ajuda de Bianca nós proporcionamos a tão nobre dama, um enterro digno por tudo que ela representou para todos que tiveram a honra de conhecê-la. Antigos e atuais moradores apareceram de todos os cantos e de suas bocas só saiam palavras de elogio para quem de uma forma ou outra os ajudou na vida. Tia Chica tinha feito um testamento e imagine só, deixou seu único bem para mim, uma desconhecida, mas que segundo suas palavras, era a filha que nunca teve. Eu que tinha sido jogada fora, tinha conseguido o que muitos nem sonham ter; famílias que me amaram de verdade. Primeiro padre Antônio, depois meus pais Tião e Maria, Tia Chica e por fim, Bianca. Fiz mais tarde, já com uma situação financeira melhor uma boa reforma e hoje o local serve de casa de repouso para idosos sem família e mesmo os anos longe, não afastaram a obrigação que eu tinha com aqueles velhinhos e sempre enviei não só meu, mas dinheiro de amigos nobres de várias partes do mundo para o local, que ficou aos cuidados da pastoral de idosos da igreja do bairro.

 

 

Capitulo 10: Vida de casada

 

Quando tinha resolvido dividir não só uma casa, mas a vida com Bianca sabia das dificuldades. Primeiro em me adaptar a um apartamento tão grande, que apesar dos esforços de Bianca, eu não conseguia chamar de lar. Era tudo diferente do que um dia eu tinha conhecido e apesar de já freqüentar aquele lugar há alguns anos, eu me sentia sempre como um objeto que não combinasse e destoasse do resto da mobília. Bianca deve ter percebido, mas estava também muito envolvida no seu trabalho e talvez achasse que com o tempo eu parasse de me sentir como bicho do mato, como ela mesma dizia.

Foram momentos angustiantes e talvez por isso tenha começado a buscar no passado a fuga, nas minhas lembranças de cidade do interior a paz para me adaptar a um mundo cheio de regras e situações que eu não estava acostumada e que tive que aceitar para não renunciar a Bianca, algo fora de cogitação para mim. Fiz um enorme esforço para aprender como me vestir adequadamente, a comer corretamente, até a andar de uma forma mais elegante. Bianca me disse que isso não era importante para ela e acredito nisso realmente, mas queria que a dita sociedade me respeitasse e não queria de forma nenhuma que Bianca se sentisse mal ao me levar a algum lugar mais sofisticado. Nessa época, eu já assinava algumas reportagens para o jornal e tive que engolir meu orgulho em mais uma discussão com Bianca.

_O que é meu é seu também, me disse querendo por fim a mais uma conversa sobre o lado financeiro de nossa relação. Se vamos partilhar uma vida, não me faça sentir culpada por ter mais dinheiro que você. Com quem você quer que eu compartilhe, quer que eu arrume outra pessoa para poder gastar com ela? Estava exaltada e foi uma das poucas vezes que a vi se irritar na nossa vida em comum.
_Não, só não quero que todos pensem que estou com você por causa disso.
_O que me importa é o que nós sentimos e fazemos. Os outros são os outros, pare com esse maldito complexo de menina pobre do interior. Você cresceu e tem qualidades suficientes para atrair todos a sua volta. Suspirou enquanto segurou meu rosto entre suas mãos. Eu te amo e quero que todos saibam. E para mim, sinto que nossa relação não é uma mentira ou você acha que eu não perceberia? Estive a vida toda rodeada de interesseiros e os reconheço de longe e acho que você tem que se preocupar apenas com minha opinião, certo? Disse me beijando com uma gula para demonstrar que me queria sem se importar com tudo que pudesse nos fazer tão diferentes aparentemente. Transamos ali mesmo no tapete da sala, ela me cavalgava como a se fosse a última vez que faríamos amor, enquanto eu lambia com todo o tesão que estava sentindo seus seios perfeitos. Foi o fim da minha época de sou pobre e daí, para me tornar sim a dama que todos esperavam que eu me fosse ao lado de Bianca. Engraçado que quanto mais eu crescia culturalmente, onde além do inglês que eu já sabia, procurei aprender também espanhol e francês; línguas essas as quais Bianca também falava fluentemente e tinha métodos mais agradáveis de ensino que o professor na sala de aula; mais saudade sentia da vida simples. Era como se eu fosse duas pessoas vivendo uma só vida, mas agora não tinha como voltar atrás. Nunca mais seria aquela menina do interior e para extravasar isso foi que aos 22 anos escrevi meu primeiro livro, falando justamente dos “causos do interior”. E eu ao que parece não era a única saudosista porque o livro foi um sucesso instantâneo que já está nem sei em qual edição. Muitos na época me paravam para falar que as coisas escritas ali os faziam recordar de seus pais, avós ou a estória deles quando de sua infância e que muitos daqueles valores pregados ali tinham se perdido na dura realidade da cidade grande. Eu me senti bem em saber que minhas palavras de algum modo tinham agido sobre aquelas pessoas. O dediquei a padre Antônio, que tinha vivido uma vida simples aos olhos de muitos, mas tinha me ensinado tudo que é realmente importante: amar ao próximo como a si mesmo; e de onde estiver, espero que tenha orgulho de mim.

Bianca também leu e deve ter entendido que eu não estava exatamente feliz e numa noite em que chegou naquele enorme apartamento, simplesmente me comunicou que queria agora comprar uma casa para nós que realmente parecesse um lar. Eu não sabia o que dizer e então deixei que os atos falassem e a peguei num forte abraço a suspendendo e a girando pelo ar e a chamando de minha pequena, que ela odiava, mas ali adorou ouvir da minha boca.

Muitas das peças do apartamento tivemos que deixar na mansão da família de Bianca. A maioria nem era mesmo do seu gosto, me disse ela mais tarde e apesar de serem valiosas porque faziam parte da herança de gerações da família Albuquerque, a nossa casa apesar de confortável não tinha espaço para tanto.

A partir do momento que entramos em nossa casa, que tínhamos pensando e posto em prática juntas, desde a cor nas paredes ao tamanho das maçanetas das portas, sentíamos que começava ali um novo momento de nossa relação. Eu estava feliz de verdade, até porque, hoje, refletindo, percebi que a minha felicidade naquele momento tenha sido um pouco egoísta. Hoje sei que Bianca teve que abrir mão talvez de muitas coisas para ficar comigo. Nunca vou saber se também fiz o suficiente para sua felicidade. Minha vida profissional também teve uma mudança radical. Com o sucesso de vendas de meu livro, no jornal seu Alberto começou a me mandar mais para as ruas, pois segundo ele, eu tinha um dom para falar com as pessoas. Conheci estórias da cidade grande que ninguém queria ouvir. Seus problemas e injustiças e passei então a ser a voz dos excluídos, apelido esse que pegou e virou nome de minha coluna e alguns anos mais tarde, de um livro que contava as estórias dessa gente que não tinha voz diante de um mundo cada vez mais feito de aparências. Ganhei prêmios de crítica e público, mas alguns inimigos também que freqüentavam a mesma sociedade que agora eu fazia parte por ser a companheira de Bianca. Mas o bom, segundo meu editor e amigo é que não deixei essa dita sociedade e seus hábitos de alguma forma até meio injusta, afetar meu julgamento sobre o certo e errado. De manhã conhecia as mazelas de uma sociedade corrupta e injusta, e muitas noites tinha que sorrir para muitas das pessoas que eram responsáveis por isso.

No final do ano de 2002, nossas vidas não podiam estar em melhor curso. Bianca se sentia bem com o seu trabalho, diante de tantos desafios, sua clínica era reconhecida já nacionalmente para tratamento de doenças infantis. Muitas vezes não se pode vencer a morte, me dizia, mas mesmo sabendo disso, não tornava as perdas de vidas menos dolorosas. Ela tinha convencido os seus sócios, com aquele seu jeitinho de quero e posso, a ter uma ala para atendimento gratuito para crianças de mais baixa renda e admirei ainda mais aquela espetacular mulher, que apesar de sempre ter tido tudo, tinha essa visão de que muitos não tiveram a mesma sorte.

Bianca tinha conseguido uma semana de folga e decidimos passá-la longe daquele tumulto de festas que pipocavam pela cidade. Um dia antes de nossa viagem, dia 23 de dezembro, promovemos em nossa casa um jantar para nossos amigos íntimos, dentro os quais apareceram João e agora sua noiva Mariana. Ele também estava indo bem como clinico geral, mas tinha tomado uma decisão e veio me comunicar.

_Estou indo embora, me disse. Isso aqui não é para mim não. Você sabe que serei sempre aquele matuto que saiu lá de nossa cidadezinha. Ela está me esperando, meu pai também. Sei que serei mais útil lá que aqui.
_ Tem certeza João? Indaguei. Você pode depois se arrepender. E Mariana está sabendo disso?
_Tanto já sabe que concorda me disse muito feliz. Aquela cidade precisa de gente como nós. Não se anima também?
_Nunca fui muito feliz lá, confessei. E jamais pediria isso a Bianca, que já cedeu muito em nosso relacionamento João. Mas desejo toda a felicidade do mundo para vocês. Quem sabe você não está certo e aquela cidade precise realmente de sangue novo para progredir?

O final da noite foi só de felicitações para o casal que se casaria até o meio do mês de Janeiro para depois partir. Mariana que era professora do Estado, já tinha providenciado toda a transferência e sendo também criada numa cidade do interior, estava mais que contente.

Depois que todos saíram, fomos dormir exaustas porque no dia seguinte partiríamos cedo para passar o natal na cidade de Nova York. Era minha primeira viagem internacional e vocês podem imaginar toda minha excitação.

Na manhã seguinte enquanto Bianca ainda estava no banho, eu tomava meu café com leite e via o noticiário na TV quando uma notícia me chamou atenção. Anunciavam com muito pesar o falecimento do ilustre Augusto Franco Vasquez numa queda de cavalo em uma exposição eqüina em uma cidade perto da nossa. Pensei em como o destino era engraçado, o levando da mesma forma que o filho. O noticiário falava na hora e local do velório e transmitia seus sentimentos pela perda de uma figura conhecida na sociedade brasileira, que havia vindo de fora e ganhado fortuna com muito trabalho e suor. Imaginei a ironia da nota, já que o mesmo nunca trabalhou na vida a não ser que a exploração dos mais fracos fosse reconhecimento de trabalho. A notícia também falava que sua filha, a agora conhecida mundialmente pianista Júlia Franco Vasquez não viria porque estava em turnê fora do país.

Júlia, quantos anos eu não pronunciava aquele nome, mas não existiu um dia que sua lembrança não se fizesse presente. Claro que com o meu crescimento cultural, não era difícil ouvir ou admirar no mundo da alta sociedade Júlia e sua obra. Ela nunca mais tinha retornado ao Brasil, mas fazia um sucesso extraordinário no círculo restrito da música instrumental em todo o mundo, como muito não se via e claro que isso aqui no Brasil era notícia, num país que não havia a tradição desse tipo de música tocar em rádios, por exemplo.  Bianca chegou a me dar de presente em VHS, uma apresentação de Júlia em Milão no mais famoso teatro de lá; achando que estaria me agradando e enquanto ela toda animada programava o vídeo cassete, eu me preparava para rever Júlia como se ela estivesse ali naquele momento. Óbvio que eu já havia visto muitas fotos suas e do marido nessas revistas de fofoca e sabia que ela continuava linda como sempre, só que agora, como eu mesma, uma mulher no ápice de suas formas. Vê-la tocando com toda aquela orquestra que parecia estar aos seus pés, me deu uma agonia que pensei estar esquecida. Ela estava mais que linda, pois parecia uma deusa e todos ali, desde músicos e platéia lhe rendiam culto. Bianca nunca soube e pensou que a fita que chegou a lhe proporcionar lágrimas emocionadas, tinha ficado para trás quando nos mudamos, mas a verdade é que assim que pude, digo até com muito esforço, pois pode parecer bobagem, mas parecia um pedaçinho de Júlia ali comigo, joguei fora, tentando em vão com aquele gesto arrancá-la de mim. Fiquei pensando em como ela reagiria à notícia da morte do pai. Será que existiria de sua parte ressentimento quanto à obrigação de se casar? Com certeza não, pois em todas as fotos e entrevistas que ela e o marido apareciam juntos, eram apenas sorrisos de felicidade.

_Que boba eu sou, pensei alto. Não poderia alimentar esperanças que ela também, em algum instante tenha sofrido um pouco que seja por mim. Minha vida agora era Bianca, que nunca mereceria nem um tipo de pensamento sobre o que eu sentisse ainda por outra pessoa. Ainda estava ali parada quando nem percebi que Bianca se aproximou e veio a se sentar em meu colo.
 _Porque essa ruga de preocupação que vejo em seu rosto? Não vai me dizer que ainda é medo de entrar em um avião? Perguntou fazendo piada sobre o meu pavor real das alturas, pavor esse, que apesar de todas as viagens feitas, ainda persiste.
_Também, procurei sorrir. Mas os meus medicamentos já estão todos prontos para assim que me sentar na poltrona, possa tomá-los e dormir toda a viagem.
_E perder a incrível sensação de estar sobre as nuvens? Perguntou agora rindo mais.
_Sensação dispensável, prefiro outras mais táteis, falei enquanto beijava com vontade sua boca, com minhas mãos já procurando abrir com ansiedade seu roupão.
_ Adoraria amor, disse com um ligeiro gemido, mas precisamos estar no máximo meia hora antes no aeroporto, então devemos nos apressar se não quisermos perder o vôo. E contra a vontade, fui terminar de fechar as malas enquanto Bianca se despedia do pai pelo telefone.

 

 

Capítulo 11: Surpresas de viagem

 

Sinto dizer não poder dividir minhas sensações sobre minha primeira viagem internacional até descer do avião, pois realmente assim que me sentei dentro daquela máquina enorme, o pavor veio a tomar conta de minha racionalidade e imediatamente me entupi de calmantes, vindo a acordar com Bianca me cutucando quando o avião já pousava. E então vi pela primeira vez aquela cidade e foi paixão à primeira vista por suas luzes, sua euforia e por até não dizer, seu caos.

Bianca tinha realmente bom gosto e feito reservas num hotel chique, mas sem ser ostensivamente luxuoso, pois sabia que me sentiria mal com isso, apesar de na atualidade, já poder pagar do meu próprio bolso algumas regalias. Assim que nos registramos, buscamos informações sobre como alugar um carro, pois não queríamos ficar a mercê de táxis ou do serviço de transporte do hotel. A cidade estava toda iluminada naquela véspera de natal e ao ver pela janela todas aquelas pessoas apressadas com seus pacotes, me lembrei de meus pais e de natais passados, que poderiam não ter tanto consumismo, mas tinha o sentido maior de família e minha família agora era Bianca, e realmente estava feliz em poder compartilhar com ela aquele momento especial. Era inverno e eu tinha esperança de poder conhecer a tão famosa neve. Bianca me abraçou por trás:
_Está feliz?
_Muito e você é responsável por isso. Disse a beijando levemente. Nunca vou ser capaz de retribuir tudo que você me deu de bom.
_Bem, quem sabe podemos conversar e achar um jeito de você me pagar de uma forma agradável para ambas, disse maliciosamente já me jogando sobre aquela enorme cama.
_Será um acordo vantajoso tenho certeza, com minhas mãos já abrindo com ansiedade suas roupas.

Mordia os bicos de seus seios enquanto com uma das mãos afastava com pressa sua calcinha e a tocava com força já sentindo seu sexo molhado. Bianca também abria minhas calças e procurou tocar meu sexo com vontade, e ficamos ali, gemendo no ouvido uma da outra, enquanto o orgasmo veio rápido.

_Espera aí, disse enquanto saiu ajeitando as roupas. Voltando uns 5 minutos depois, com uma garrafa de champanhe nas mãos e um sorriso que despertou em mim todas as mais maliciosas intenções.
_Feliz Natal, disse me oferecendo uma taça com o liquido já borbulhante. Queria muito uma ocasião como essa para fazer algo novo para mim.
_Quais técnicas sexuais a senhorita quer testar agora com essa sua cobaia muito satisfeita? Disse pensando se tratar de mais um de nossos saborosos jogos que levavam ambas a exaustão do prazer.
_Nada disso que você está pensando sua tarada, disse gargalhando. Apesar de que podemos continuar mais tarde, mas agora quero te dar seu presente e espero que seja meu também.
_Huum, Bianca e suas surpresas, isso realmente é uma combinação excitante.

Enquanto eu falava, ela tirou do bolso de sua blusa uma pequena caixa e ao abrir, não contive meu olhar surpreso.

_Case comigo, me disse mostrando as duas alianças ricamente feitas em ouro branco e trabalhadas com pequenos brilhantes entrelaçados de uma forma única. Pensei em muitas formas de fazer isso, mas acredito que a mais simples deve ter melhores resultados. Esse seu olhar surpreso é de reprovação ou você realmente nunca tinha pensado nisso? Dividir uma vida comigo não deve ser tão temeroso assim.
_Não é isso, disse me levantando com expressão séria. Nunca pensei que você achasse que o que temos já não fosse um casamento, pois acredito já dividir uma vida com você.
_Então porque não oficializar? Quero que você não seja mais conhecida como minha namorada, mas minha mulher de fato, com direitos que as pessoas aceitem e acima de tudo respeitem. Não quero mais ter que ir a festas e não ver que todos se acham no direito de te cantar ou a mim como se nossa relação fosse uma brincadeira que a qualquer momento uma de nós duas fosse se cansar e disser adeus.
_ Não me importa mais a opinião dos outros, mas somente a sua. Você realmente precisa disso? Devo não ter te dado segurança suficiente em nossa relação, pois você acha que tem que me prender através de um papel para sentir que estou realmente com você.
_Não meu amor, me falou com lágrimas já brotando de seus olhos. Não é falta de segurança, mas um sinal que te amo mais que tudo. Eu sei que um simples contrato de união civil não te prenderia a mim, mas quero mais que isso. Eu quero marcar com essas alianças o fato que confio em você e em nossa relação sim e chegou a hora de todos saberem. Quero te dar direitos, não deveres, pois você me fez feliz nesses últimos anos como nunca sonhei ser, e enquanto falava me abraçou com força. Não quero que se sinta obrigada a nada, foi bobagem esqueça, falou fechando a caixa com as alianças.
_Acho que é você que não entendeu, disse segurando suas mãos e a caixa entre as minhas. Só queria que você se sentisse segura e conversasse comigo sobre essa sua vontade e de como você estava se sentindo. Já estamos casadas, caso a senhorita não tenha percebido. Nossa relação é a coisa mais concreta que eu tenho na vida e se te fará feliz que eu ande com uma aliança caríssima como símbolo dessa certeza, eu não vou me importar em assinar quantos papéis forem necessários.

Ela não segurou mais as lágrimas e me beijou e falou baixinho em meu ouvido um eu te amo muito, enquanto nos abraçávamos naquele quarto de hotel. Na manhã seguinte, dia de natal, como Bianca já havia planejado tudo, estávamos as duas na prefeitura da cidade de Nova York para oficializarmos nossa união e diferente do que muitos pensam, foi como disse a Bianca: assinaria quantos papéis só para ver o brilho que eu vi aquele dia em seu olhar e para coroar, assim que saímos do prédio, começou a nevar e eu como menina outra vez, fiquei de boca aberta para ver se a neve tinha sabor e descobri que ela tinha o sabor de meus sonhos realizados. Depois fomos para um típico restaurante brasileiro bem famoso por lá, pois queríamos nesse dia especial, nos sentir o mais perto de casa possível.

_Vamos ao Central Park, convidou Bianca. Quero que você conheça como é lindo, principalmente nessa época que está todo enfeitado para as festas. E olhe, vai ter um espetáculo com músicas natalinas, falou enquanto lia o jornal e eu pagava a conta.

Saímos de lá de mãos dadas e com sorrisos nos rostos. Realmente era lindo o mais famoso parque daquela cidade cosmopolita. E nos sentamos ali, abraçadas, junto com milhares de outras pessoas só pelo prazer de estarem juntas em tão especial data. As vozes de um coral infantil começaram a entoar velhas músicas natalinas, mas que emocionam ainda hoje. Após meia hora de espetáculo, para surpresa da platéia, o apresentador começou a falar de sua emoção de estar ali naquele momento quando da apresentação da maior revelação da música instrumental; que apesar do drama pessoal que estava vivendo na atualidade, tinha aceitado tocar e presentear a todos com sua arte. Sabem aqueles momentos da vida que é como apenas seu corpo estivesse presente, mas sua alma, essa teria sido transportada para outra dimensão, onde tudo em volta sumisse e só ficasse você no mundo; foi assim que me senti ao ver Júlia subir no palco e sobre muitos aplausos emocionados sentar-se no piano e começar a tocar. Não consigo saber até hoje qual era a música, não importa. Todo o meu ser estava apenas voltado para a sua presença ali tão próxima depois de tantos anos. Só comecei a voltar à realidade já pela terceira música, ainda assim por causa de Bianca que estava entusiasmada com o espetáculo e não conseguia ficar quieta.

_Não é espetacular, que numa data tão significativa para nós, tenhamos esse privilégio? Bianca dizia toda feliz. É como se viesse a coroar toda nossa felicidade não acha?

Eu só conseguia pronunciar monossílabas como respostas e Bianca deve ter pensado que era emoção. O que não deixou de ser verdade, mas creio que Bianca nunca desconfiou dos motivos. E se passou quase uma hora de verdadeira tortura para mim, que terminou com o pesar de toda a multidão com o anúncio que seria a última música do espetáculo e seria acompanhada pelo coral de crianças e não fugindo da tradição, se encerrou com o “noite feliz” mais bonito que eu já ouvi em outra língua, pois apesar de todo o meu conhecimento de outras culturas, ouso dizer que a língua portuguesa tanto falada como cantada é linda. Ao terminar de tocar sobre aplausos de toda uma multidão de pé, Júlia se levantou e com um inglês perfeito agradeceu a presença de todos naquele dia e esperava que nosso espírito natalino fosse uma constante para ajudar na formação das crianças como aquelas presentes ali, que viviam em um abrigo, mas tinham a oportunidade com a ajuda e colaboração de muitos terem um futuro. Continuou dizendo que estava sim abalada, mas que o futuro para ela se mostrava cheio de esperanças, dizendo isso alisou a sua barriga e só aí parece que todos notaram o que já estava bem visível.

_Ela está grávida, disse quase num gemido.
_É mesmo e está muito feliz, nem parece que o pai morreu ontem, disse com certo ar de reprovação, Bianca.
_Nem todos têm a sorte de ter um pai como o doutor Jaime, Bianca; falei como se a defendendo. O seu Augusto podia ter muitos defeitos, mas acredito que amava sinceramente a filha e tenho certeza que do modo dela, era amado também.

Como se lendo nossos pensamentos, Júlia lá do palco continuou falando que sentia muito a perda do pai, mas o importante era o compromisso que ela tinha feito com aquelas crianças.

_Nunca decepcionem uma criança e sejam para elas exemplos de uma vida de amor, continuou a dizer. É esse o mundo que acredito e é nele que quero criar a criança que logo fará parte da minha vida e meu pai onde estiver saberá entender. Nesse momento uma única lágrima saiu de seus olhos azuis e o apresentador mais que depressa anunciou que Júlia estaria à disposição para alguns autógrafos em uma área reservada. Fiquei pensando se ela falava de si mesma em relação ao pai. Em qual momento ela descobriu que o pai não era um super herói?
_Vamos lá tentar comprar um cd para meu pai que é fã da moça, brincou Bianca. Só não sei se pelos dotes musicais ou pelos olhos dela, como o doutor Jaime diz, penetrantes e a porta do mistério.
_Seu pai estava inspirado não? Acho que ele está é solitário e assim que voltarmos vou lhe arrumar uma companhia feminina para ele parar de sonhar, retruquei.

Após comprarmos um cd a qual Júlia interpretava árias conhecidas de óperas nas vozes de tenores e sopranos famosos, Bianca insistiu em tentar conseguir um autógrafo. Não adiantou tentar argumentar com Bianca de meu súbito cansaço que nada a demoveu da idéia de fazer essa surpresa para o pai. Teria que ter confessado ali o meu pavor e os motivos, mas não saberia dizer quais teriam sido as conseqüências de tal ato, pois Bianca estava realmente feliz e eu não queria despertar quaisquer suspeitas sobre meus sentimentos.

_Só se você tiver alguma coisa contra a moça? Indagou Bianca. O que aconteceu, ela lhe roubou a merenda no recreio? Não, só meu coração pensei.
_Não é nada, já lhe disse que pessoas como eu não eram amigas de pessoas como Júlia, e sim trabalhávamos para elas. Mas se você quer tanto, enfrentarei com coragem essa fila enorme só para o doutor Jaime ter seu presente, disse com firmeza.
_Possivelmente deve ser esse seu velho complexo de inferioridade falando lá no fundinho de sua alma; contestou Bianca. A moça provavelmente não tem culpa de ter nascido em berço de ouro e se algum dia ela tenha te humilhado, mais um motivo para você querer ficar nessa fila e mostrar até onde chegou através de seu esforço e trabalho; completou Bianca mostrando que de sua parte estava encerrada a discussão.

E se passou a meia hora mais longa da minha vida, que se arrastava como aquela fila. E a cada minuto que me aproximava eu já visualizava seu rosto, enquanto ela sorria gentilmente ao atender a todos que ali estavam presentes, ávidos apenas por um sorriso seu. Ia tentando me preparar para o que dizer e quando esse momento chegou Bianca falou por nós.

No momento que Bianca entregou o cd, ela estava com a cabeça baixa e perguntou em inglês apenas para quem era o autografo.

_Para meu pai que é um grande fã, pediu Bianca em português e foi quando ela começou a perguntar o nome também em nossa língua pátria, que levantou a cabeça e a frase morreu em sua garganta.
_Luiza, balbuciou com olhos de surpresa.
_Como vai Júlia? Consegui dizer com a voz firme, diferente das minhas pernas que tremiam. Então ela se levantou da cadeira e agora de perto deu para ver já a barriga bem nítida, mostrando se tratar de alguns meses de gravidez. Seus olhos percorreram meu rosto e o de Bianca indo parar em nossas mãos que estavam entrelaçadas, o que fiz questão de fazer como se me fornecesse a força necessária para estar ali. Voltando novamente a olhar em meus olhos respondeu:
_Bem apesar de tudo, disse com certa amargura.
_Sinto pelo seu pai, foi notícia em todos os jornais. Tenho certeza que se pudesse estaria lá. E parabéns pela gravidez, são duas emoções tão diferentes em um mesmo momento, deve estar sendo meio que confuso; completei.
_Não tenha muitas certezas na vida Luiza, você pode sempre ter que mudar de idéia. Meu pai morreu para mim há muitos anos atrás. Quanto à chegada de meu bebê pode acreditar, é uma emoção única e mais um dos meus sonhos que se realiza. Mas falemos do presente, não vai me apresentar sua amiga? Disse enfatizando bem a palavra amiga.
_Bianca, disse a própria se adiantando e apertando sua mão; e somos bem mais que amigas. Estamos aqui em lua de mel porque nos casamos hoje. Esse espetáculo foi um presente magnífico que veio a tornar perfeito esse dia, muito obrigada. Espero que não tenha preconceito quanto à orientação sexual das pessoas.

Júlia me pareceu buscar o ar, mas não durou muito, pois logo respondeu com a voz límpida de sempre:
_Não sei o que Luiza contou a você, mas tenha certeza de que a imagem de menina esnobe, preconceituosa e mimada não serve para mim. Fico feliz que Luiza tenha encontrado a felicidade que buscava desde a infância e mesmo que ela não acredite, torço para que seja feliz.
_Luiza fala pouco sobre o passado, mas acredite que o que tenha ocorrido lá foi enterrado, não é amor? Hoje ela é uma profissional respeitada em todos os sentidos e com grande talento para num futuro próximo ser reconhecida como a grande escritora que é.

Bianca encheu a boca de elogios, enquanto me olhava com os olhos mais ternos do mundo, me fazendo sentir pior que um verme.

_Bem, chega de falar de mim porque estamos atrasando a fila, Bianca. Tentei encerrar a conversa e a sensação incômoda. Ela quer o autógrafo para o pai, o doutor Jaime, que realmente é um grande fã seu.

Júlia parece que se deu conta do cd na mão e com uma caligrafia perfeita assinou o mesmo, devolvendo para Bianca.

_Talento e muita emoção, disse me olhando novamente. Eu li seu livro sobre as situações lá de nossa pequena cidade, hoje tão distante de nossas vidas pelo que parece. Me fez sentir em casa novamente, obrigada. E gostaria que tê-lo aqui e quem sabe você o autografasse para mim, e sem que eu esperasse, pegou forte minha mão e a apertou. Desejo sorte, a soltando logo em seguida, enquanto eu ainda sentia a suavidade de sua pele sobre a minha.
_Foi um prazer e obrigada, continuou Bianca e realmente já estamos atrapalhando. Tenho a certeza que não faltará oportunidade para nos encontrarmos novamente, disse sorrindo.
_Quem sabe, o futuro está aí para nos surpreender dia após dia não é mesmo? Disse me olhando intensamente Júlia. Felicidades nessa nova etapa que estão começando hoje e se virou para atender um rapaz que estava impaciente atrás de nós.

Não sei como Bianca se encarregou de me tirar dali, mas só me dei conta de mim novamente já no quarto do hotel.

Bianca me falou de suas impressões sobre Júlia, que pareceu meio amargurada, mas dizem, continuou a falar que é necessário um pouco de tristeza para ser um grande artista.

_Tomara que o nascimento do bebê lhe traga felicidade, completou Bianca. A gente se surpreende cada dia, das pessoas que se espera sejam as mais felizes por sempre possuírem tudo, podem ainda serem incompletas. Mas o importante é que meu pai vai amar esse presente, foi falando enquanto ia em direção ao closet para guardá-lo.

Eu fiquei ali, deitada na cama, com os braços cruzados abaixo da cabeça só pensando não em amarguras, passado ou presente, apenas na certeza que sempre tive que Júlia se transformaria na mulher linda que eu tinha visto mais cedo no parque e no esforço que tive que ter para não agarrá-la e tomar posse de sua boca.  Quando Bianca voltou, eu só pensava na necessidade de aliviar aquele aperto que queria sair do meu peito e literalmente a ataquei como se naquele momento só sexo até a exaustão fosse resposta para aquela dor. Joguei-a sobre a cama com uma força exagerada o que a surpreendeu, mas gostou pelo sorriso que saiu de seus lábios. Comecei a despi-la com urgência, beijando todo seu belo corpo, e quando ela já estava nua embaixo de meu corpo, com as roupas que estavam jogadas, amarrei suas mãos na cama para que eu tivesse todo o domínio da situação e seu corpo para me satisfazer até onde eu quisesse.

_Confia em mim? Perguntei olhando agora seu olhar meio assustado, mas respondeu quase gemendo um para sempre.

Então comecei agora com uma calma quase hipnotizante, a beijar seus pés e fui subindo pelas suas pernas firmes e tentadoras, enquanto ela gemia baixinho com os olhos fechados. Subi até a sua boca e mordi levemente seus lábios, murmurando em seu ouvido palavras que eu sabia a excitava. Toquei os bicos de seus seios propositalmente devagar, para testar sua ansiedade e desejo de ser minha, ficando ali por alguns minutos me deliciando, passando a língua e os sugando com força, depois os tocando apenas com minhas mãos, dando pequenos beliscões em seus mamilos duros, a fazendo gritar meu nome e pedir mais e mais.

_Me come logo, pediu quase sem fôlego, mexendo com força os quadris em direção ao meu sexo e molhando com seu líquido a roupa que ainda cobria meu corpo.
_Com calma, bem devagar, disse enquanto meus dedos brincavam com os lábios de seu sexo, massageando-os junto com um clitóris duro.  Procurei o centro de seu prazer com meus lábios e o suguei com ânsia, me deliciando com seu gosto, com seus gemidos e logo percebi que ela gozaria, então parei ouvindo seu suspiro de impaciência, que calei com um beijo que tinha o sabor de seu gozo, enquanto tirava minha roupa com rapidez.  Comecei a penetrá-la com minha língua que queria provar todos os recantos de sua feminilidade em um entra e sai vibrante, mas dando a ela a oportunidade de fazer o mesmo, o que ela não desperdiçou chupando com toda gula meu sexo, no ponto exato que eu queria enquanto rebolava com vontade sobre sua boca deliciosa; fazendo o orgasmo chegar ao mesmo momento para ambas.  Desamarrei seus braços e nossos corpos amolecidos de prazer se abraçaram para mais uma noite de sono apaziguante.

Ficamos em Nova York até depois do ano novo porque Bianca não queria perder a virada na Times Square e lá fui eu contra a vontade lógico, pois detesto multidões como aquela, sem falar em um frio de me fazer até parar de raciocinar; mas claro, com um espírito de mais um recomeço com novas esperanças. Não ouvi mais falar de Júlia, então não saberia dizer se ela ainda estava na cidade. Viajamos de volta no dia 2 de janeiro, abastecidas de novos planos e sonhos, pois de minha parte, após aquele encontro com Júlia, tinha trancado em um lugar impenetrável aquele sentimento tolo, que agora pensava se tratar de coisa de adolescente carente. Minha realidade era Bianca e estava disposta a dar tudo de mim para que aquele presente que a vida tinha me proporcionado desse certo. O doutor Jaime não pareceu surpreso ao nos ver com duas alianças e pelo sorriso trocado com a filha, deu a entender já saber de seus planos e ao nos abraçar dando sua benção, descobri que poderia contar com ele sempre, como pai, até porque ele exigia ser tratado como tal e segundo suas palavras, tinha ganhado mais uma filha.

Em março do ano de 2003, inspirada por essas emoções escrevi meu segundo livro de contos, agora não tão saudosista, mas cheio de esperanças e alegrias, com o sugestivo título de “Viver vale a pena, descubra porque” como uma forma de dar as pessoas, como eu fui um dia, desiludidas, uma chance para serem felizes, começando a mudança de dentro para fora.  Chegamos à metade do ano dentro da euforia de mais um sucesso literário e da ampliação da clínica de Bianca, que tinha se juntado com uma ONG internacional, tomando como modelo o atendimento e métodos médicos aplicados lá para implantação de programas de ajuda para crianças com necessidades, primeiro no continente africano tão escasso de tudo, depois quem sabe o mundo, dizia uma eufórica Bianca. Aquela sua vontade de sempre se fazer útil era uma das suas muitas qualidades. O dar-se sem procurar recompensas, para alguém que sempre teve tudo como Bianca, poderia parecer aos olhos dos outros uma hipocrisia e forma de desculpas por ser quem ela era uma privilegiada num país de desigualdades, mas não, era um sentimento verdadeiro que brotava de seu coração generoso.

Mas dizem que a felicidade é enganadora, feita de momentos e quando menos se espera ela pode partir. Mas não esperava que a vida viesse machucar tanto quanto naquela noite fria de julho, onde mais uma vez aproveitávamos a água que caía do chuveiro para nos amarmos e ao tocar seu seio esquerdo como já tinha feito tantas vezes, descobri um pequeno caroço que seria o início de mais um espinho em meu coração.