Miragem

Lara Lunna

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O “PIANO DE CAUDA"

Na Delegacia, um alarme interior deixou Victória em alerta. Algo estranho estava acontecendo ou havia acontecido. O olhar que os colegas lhe deferiam pelos corredores era algo foram do padrão comum. Havia expressões de:

_____Olha ela aí...

Ou mesmo rostos com enormes interrogações flutuando diante do nariz. Na carantonha de Ro"bestão", havia algo assim que poderia ser claramente interpretado como:
_____Eh, eh, eh... "Vivi ta ferrada".

Araújo apareceu de dentro de um gabinete e puxou Vick pelo braço.

_____Entra aqui. Precisamos conversar.

Vick sentou-se na primeira cadeira que viu e ficou esperando.

_____O que aconteceu entre você e a Doutora Lizandra?

Victória quase caiu de costas diante daquela pergunta tão direta e invasiva.

_____Já sabe que a médica fez um relatório sobre seu comportamento "socialmente agressivo e desajustado" e sugeriu até que você seja submetida a uma junta médica para diagnóstico e tratamento do seu problema?

A notícia atropelou Victória como um "trem bala". Ela jamais pensaria que Lizandra realmente teria a capacidade de tentar algo contra si.

_____E o chefe? O que achou? - gaguejou, Vick.
_____O chefe acatou a sugestão da médica e já está providenciando para que você seja afastada temporariamente do seu cargo e entregue sua arma e sua insígnia de policial.
_____Isso é um fuzilamento... Uma execução sumária sem julgamento... Acaso ele me chamou para que eu contasse minha versão da estória?

A raiva invadiu Vick que tremia toda de indignação. Não aceitava ser apunhalada pelas costas por Lizandra.

_____Duarte foi a testemunha que ela citou e ele corroborou tudo que a doutora disse. Falou que você andou tentando agredi-lo e outras atitudes antissociais.
_____Que atitude? Vick perguntou, temendo que Araújo lhe dissesse que a "tal atitude em pauta" acontecera na homenagem na mansão do Governador.
_____A briga em frente ao IML... na noite que você e sua equipe foram prender o "Bate-estacas"...
_____Mas só isso?
_____Bom... a verdade é que o chefe acatou a sugestão do relatório dela. Penso que vão tentar te afastar temporariamente da atividade policial...
_____Isso é um absurdo... Eu sou normal e as neuras que tenho, são comuns a uma repartição policial...
_____Bom... De verdade? Acho que o Teixeirão e a doutora Lizandra estão com marcação contra você.
_____Isso não pode ficar assim.
_____Calma, Vick. Muita calma. Precisamos descobrir o que tem levado o chefe a estar te "marcando" tão implacavelmente. Pode contar comigo. Vou tomar algumas informações e investigar.

Victória o abraçou.

_____Poxa, André, você é mesmo o melhor amigo que uma policial poderia ter. Aliás, pensou naquilo que te contei no hospital?
_____Pensei, mas nada faz o menor sentido... Pensei até que era o efeito da anestesia ou do analgésico que te aplicaram.
_____Mas...

Alguém bateu na porta. O investigador Salles entrou.

_____O chefe soube que você está na delegacia, Di Angelis, e quer que vá ao gabinete.

Araújo olhou Vick com expressão tranquilizadora.

____Vai, colega. Enquanto isso vou tratando "daquele" assunto. Vai dar tudo certo. Eu te garanto.

A conversa no gabinete foi rápida e previsível. Vick foi informada do relatório e da decisão da chefia a seu respeito. Depois saiu da sala e entregou sua arma e insígnia para um agente do Setor de Pessoal, assinando um memorando onde se comprometia a comparecer à Junta Médica em data marcada para dali a duas semanas. Até lá, não poderia exercer qualquer atividade policial.

Caminhou pelo corredor entre as salas de seu andar, com a cabeça baixa. Repentinamente foi tomada de súbita vontade de vomitar e correu para os toaletes. Lá, perdeu ralo abaixo, todo seu café da manhã e quando lavava o rosto e as mãos, percebeu pelo espelho que a Doutora Lizandra acabara de entrar no local. A médica pareceu surpresa em encontrá-la por ali.

______Você está pálida, Di Angelis.

Vick quase teve uma convulsão ao perceber que a médica ainda se atrevia a lhe dirigir a palavra. A voz lhe escapou pela garganta como um rugido furioso.

______Eu te odeio...

Depois disso, saiu rapidamente do toalete, temendo perder o controle e acabar complicando ainda mais sua situação. No subsolo da Delegacia, tentava dar partida na motocicleta, enquanto suas mãos tremiam. Sua cabeça estava anuviada e não sabia nem ao menos para onde iria, pois sua vontade era apenas de sair daquele lugar. Araújo apareceu por entre os veículos estacionados.

______Espere, Vick...! Aonde vai? Heloisa me fez prometer que você almoçaria lá em casa. O Pedro vai ter um chilique se eu chegar sem você.

Victória aceitou o convite a contragosto. Perdera a fome e sentia vontade de se isolar em seu novo refúgio: "o ninho da mata".

Já na casa do Araújo, Pingo não se cabia de contente com a chegada de Vick.

______Veja! O brinquedo que você me deu é diferente dos outros. Ele me conta coisas super estranhas... ele sabe tudo. Parece gente...
_____Ah! - Exclamou a policial, que tentava fazer descer a comida da boca para o estômago na marra. Mais tarde, na varanda, Araújo abriu o jogo.
______Descobri que o chefe está enciumado. Ele não gostou nada de sua fama repentina e ainda mais, os repórteres não o procuram mais para gravar entrevistas. Apenas ligam para saber quando e onde encontrar a "Asa Negra".
______Ah!
______Quanto à Doutora Lisandra. Bom... Penso que você deve saber o motivo de tanta animosidade da parte dela.
______Sei mais ou menos. - desconversou Vick.
______Mas, sejamos práticos. Quando a junta médica te avaliar, perceberá que você está bem e apta para o trabalho e tudo voltará à rotina normal.
______Sim... mas não poderei voltar ao grupo Nêmesis...
______Infelizmente, isso realmente está fora de questão. Em um ponto o chefe tem razão: Você ficou muito conhecida na cidade.

Vick desanimou-se e Araújo procurou consolá-la.

______Veja por outro lado. Existe uma centena de coisas que pode fazer e muito mais interessante. Além do mais, agora você tem o "ninho da mata" e uma bela motocicleta nova. Fico contente que tenha reatado relações com seu pai.
 
O colega conhecia toda a estória do conflito entre Vick e Antonio Di Angelis, logo após a morte da mãe desta. Vick permaneceu calada ouvindo Araújo e o colega, que a conhecia muito bem, verificou que desta vez, todos os argumentos que colocava na mesa não estava fazendo o menor efeito para acalmá-la.

O rosto da policial, ao passar dos minutos, tornava-se cada vez mais impenetrável e a forma nervosa de apertar e torcer os próprios dedos ou o ricto nervoso no canto dos lábios denunciavam que ela estava em vias de perder o controle sobre sua fúria. O policial decidiu então que deveria agir de forma direta e severa.
 
______Está decidido! Você vai ficar aqui com a Heloisa e o Pedro até que se acalme.
______Não pode me prender aqui, Araújo!
______Não, mas posso lhe pedir isso como um amigo e quase irmão. Não quero que saia ou se afaste da casa. Ligue para a sua amiga, a Adriana e diga que vai ficar aqui pelo menos uns 3 dias. Sei que ela tratará bem de Sir Lancelot na sua ausência.

Victória decidiu acatar a imposição de Araújo. Ele sempre lhe aconselhara com sabedoria em momentos em que ela não sabia como agir. Confiava nele e percebeu que era melhor se recolher em algum campo neutro até que sua fúria esfriasse um pouco e assim, poderia perceber com maior clareza, como agir diante dos fatos novos em sua vida.

Os três dias que passou na casa do Araújo surtiu o resultado esperado. A fúria passou, dando lugar a raiva costumeira e Vick sentiu-se bem mais apta a retomar o controle de sua vida. Seu telefone celular estava estranhamente silencioso. Lembrou-se que desde a festa na cada do Governador, Miragem não a importunara mais.

______O que teria acontecido? Sentiu um misto de alívio e curiosidade que logo se dissipou. A companhia risonha de Pingo e os cuidados quase maternais de Heloisa com ela a deixavam com o espírito mais leve e calmo.

E foi assim, que na manhã do terceiro dia de ausência, resolveu ir ver Adriana.

Era uma bela manhã de sábado e Vick sabia que Adriana aproveitava os sábados para dormir até mais tarde. Sentia muita saudade de sua pequena e bela mestiça.

Refletiu, enquanto pilotava a motocicleta, de como Adriana havia conquistado um espaço especial em sua vida a ponto de considerar que deveria formalizar o namoro.

Parou em uma floricultura e comprou um vaso de "Brinco de Princesa". Sabia que Adriana as apreciava e rabiscou rapidamente no cartão:

______Aceita ser minha namorada?

Equilibrou o vaso como pôde, entre as pernas, sobre o tanque da moto até que chegou ao seu destino. Ajeitou o cabelo revolto no espelho do elevador e abriu silenciosamente a porta do apê com a chave extra que a terapeuta havia lhe dado. Não queria fazer barulho e acordá-la. Queria fazer uma surpresa. Depositou o vaso sobre a mesa na sala e antes que se dirigisse ao quarto, ouviu um barulho semelhante à água fervendo, vindo da copa. Depois o plec-plec de utensílios e o bater da porta da geladeira, denunciaram para Vick que Adriana já estava acordada e providenciando o café da manhã.

Entrou na cozinha apressada, com o coração palpitando de saudades e vontade de tomar aquele corpo macio nos braços e o carregar no colo até a cama. Encontrou um homem vestido só de camisa que lhe cobria até a metade das coxas e nos pés, apenas lhe cobrindo metade, as pantufas de Adriana. O rapaz voltou-se para Vick, com um sorriso tímido, mas simpático.

______Ah! Você deve ser a amiga de Adri... Desculpe a minha roupa, mas ontem não vim preparado para pernoitar e hoje de manhã, estamos com uma fome voraz...
______"amiga de Adri", "pernoitar", "Estamos com uma fome voraz" - essas palavras ecoavam dentro do cérebro de Vick, quase a deixando louca de tanta raiva e ciúme. Mas controlou-se. A situação para ela era tão absurda quanto imprevisível que foi tomada por uma catatonia emocional e física, fazendo-a jazer inerte, sem ação. Sir Lancelot apareceu faceiro, esfregando-se em suas pernas como se lhe desse "bom dia". Atrás de si, a voz de Adriana fez com que seu coração disparasse.
______Ah! Tiago, esta é a Vick, a amiga que lhe falei. Agora se me dá licença eu preciso conversar com ela.

A moça apanhou a policial pelo pulso e a conduziu sem resistência até o quarto. Já lá dentro, Adriana lhe disse que ela e Tiago haviam "dormido" juntos naquela noite e ela aceitara o pedido de namoro do moço.

______Como pôde fazer isso comigo, Dri? - Vick, finalmente conseguiu balbuciar.

Adriana, que visivelmente também estava tomada de intensa emoção, levantou-se silenciosa e do criado-mudo da cama, retirou uma calcinha. A calcinha de Lizandra.

________Isso é seu. Aliás, sei que esta calcinha não é sua. Você não usa este tipo de peça íntima. Encontrei-a na bolsa que lhe emprestei para a festa. Estou cansada de esperar que você me ame de verdade, Di! Estou cansada de esperar que essa sua personalidade impulsiva e infantil amadureça. Não consegue ver uma bela mulher e já sai à captura. Agora sei por que você desapareceu tanto tempo lá na festa. Estava com outra mulher. Mas eu não posso cobrar fidelidade de você, não é mesmo? Eu fui sua terapeuta e sei melhor do que ninguém que você ainda é incapaz de amar alguém além dos limites da sua paixão. Eu errei. Nunca devia ter criado em mim a expectativa de que conosco seria diferente. Ao menos, com o Tiago, poderei me sentir amada e única. Ele sempre me quis e eu nunca lhe havia dado uma chance.

Vick ouvia a tudo, cabisbaixa. Sabia que Adriana estava certa. Não tinha domínio sobre seu espírito conquistador, porém, pensara que poderiam ficar juntas até quando sua paixão exaurisse. Não pensou que Adriana estivesse nutrindo a esperança de um dia conseguir conquistá-la para si.

Os lençóis em desalinho na cama denunciavam que ali fora palco de uma longa e intensa noite de amor. Saiu do quarto sem dizer palavra e apanhou Sir Lancelot no colo. Sobre a mesa da sala, ficaram as flores e as chaves do apartamento.

Tomou o rumo do seu refúgio no "Ninho da Mata" sem ao menos olhar para trás e procurando não pensar em mais nada. Seu coração chorava, mas ela reteve as lágrimas em seus olhos. No "Ninho" estaria a salvo de tudo e de todos. Lá era o santuário de sua alma angustiada. Lá reencontraria a paz.

PENDENDO ENTRE A LUZ E ESCURIDÃO, SEUS PÉS ROMPERÃO O FOGO E VENCERÃO O ABISMO. SEU CORAÇÃO GEMERÁ SILENCIOSO. ABAIXO A ESCURIDÃO. ACIMA A LUA. EM FRENTE, MUITO ALÉM, MAIS AO FUNDO... A LUZ.

Uma forte tempestade varria a serra. Victória temeu se afogar, entre os raios e os trovões, mas estava embriagada e corria nua sob o temporal. Antes, bebera todo o vinho que encontrara na pequena cristaleira. Pisava nas poças d’água, nas folhas e na pedra lisa, com os pés descalços, correndo em busca do nada, da paz, de si mesma.

Repentinamente, um estrondo e um clarão simultâneos, a fez estacar por momentos, em sua corrida insana.

______Yansã, Yansã! Gritou! com os braços para o alto, enquanto seus lábios bebiam as gotas poderosas que quase a afogavam e lhe feriam o rosto.

A mata jazia silenciosa. Apenas o uivar do vento e o crepitar dos galhos e troncos que se vergavam. No céu plúmbeo, nada. Sob seus pés o nada. Voltou à cabana. Não sabia como encontrara o caminho de volta. Talvez pela aléia de pinheiros que murmuravam e se lamentavam na escuridão, enquanto represavam o vento. Deitou-se ao lado da lareira sobre o tapete de peles, perturbada com as imagens, em sua mente, de um homem beijando e fazendo amor com Adriana.

______Porque você fez isso, Dri? Por quê? - sussurrou enquanto lentamente mergulhava nas profundezas do sono.

Sonhou com o Araújo lhe sorrindo e estendendo a mão. Logo após, o dia se fez noite e a figura do amigo desapareceu. Uma voz no clarão do luar. Sua mãe cantava um acalanto enquanto lhe acariciava os cabelos e lhe garantia que o "bicho da escuridão" nunca mais voltaria. O sol infiltrou-se pela densa escuridão. Sol de outono com sua luz fria. Na pequena vereda que conduzia até a estreita nascente d'água, folhas secas multicolores. A certo momento, uma aparição lhe cruza o caminho. Reconheceu Ariane Mac Karll, linda como uma ninfa da floresta.
 
_______A lua se porá sobre Nêmesis! - apontou a ninfa, para algum ponto na copa densa das árvores.

Ali, nada havia. Apenas um pequeno retalho do céu azul. Aos poucos o azul se tornou em luz amarela dourada, fazendo Vick despertar de seu sono profundo, enquanto um raio de sol, que escapava pela fresta da janela, lhe brincava, peralta, pelo rosto. Saltou e correu até o quarto. Vestiu-se. O sonho a deixara intensamente perturbada. Desceu as escadarias e tomou o rumo do pomar. Logo encontrou o caseiro, que se mostrava atarefado, entalando algumas mudas de árvores frutíferas que se quebrara ao furor da tempestade da noite anterior.

_______Ah, patroa! Tive que socorrer as mudas. Esta noite muda a lua e não é bom para a saúde da planta virar a nova com o caule rompido...
______Nova?
______Lua nova... - completou Luis Carlos, o caseiro.
______Mon Dieu... espero chegar a tempo! - lamentou-se Vick, enquanto recomendava ao homem surpreso pelo ar de pavor da patroa, que cuidasse de Sir Lancelot até sua volta.
______E quem é esse senhor?
______É meu gato...
______Aah! O gato! - repetiu o caseiro, cofiando a barba por fazer, enquanto Vick já manobrava a motocicleta para fora da propriedade.
______Cada nome esquisito esse povo da cidade dá pros animal... - comentou com a mulher.

Na Delegacia, Vick descobriu que Araújo e outros policiais estavam "a campo", levantando alguns dados sobre uma missão.
 
______Não me pergunte sobre que missão é, pois se trata da Nêmesis. Parece que há algo "quente" e novo no ar. Mas sabe como é colega. É sigiloso.

O detetive Barros se desculpava como podia. Victória irrompeu na antessala do gabinete do Delegado titular.

______Preciso falar com o chefe urgente! É caso de vida ou morte...
______Vai ter que aguardar Dona Di Angelis. Ele está em um telefonema importante. - informou a secretária do gabinete.
______Não há tempo! - retrucou Vick, enquanto invadia o gabinete do chefe.
______Di Angelis! O que está fazendo aqui! - esbravejou o Delegado.

Victória despejou de uma vez, ao Teixeirão, tudo que sabia a respeito da denúncia "cilada" e sobre Miragem. Ocultou prudentemente que já descobrira a real identidade da aparição misteriosa.

______E Miragem me revelou sobre a informação falsa de um roubo no depósito de produtos químicos da Empresa QUÍMICA do BRASIL, da rua Alencar Barcelos, 768.

A policial admirou-se de boa sua memória que não lhe deixara na mão naquele momento. O queixo do chefe pareceu desencaixar dos eixos.

______Você sabe o que está dizendo? Como soube sobre a missão da Nêmesis? Como foi que vazou? O Araújo lhe contou?
______O senhor não entendeu... Então é verdade? Ouve a denúncia? É de informante confiável?
______Claro que é! - Teixeirão esmurrou a mesa. _______É um informante de mais de oito anos de bons serviços prestados ao Departamento...
______Ele pode estar sendo usado! Ou mesmo sofrendo chantagem.

O Delegado digitou o número de um ramal.

______Manda o Otavio e o Albuquerque até aqui. Depois virou-se para a policial e a mandou sentar-se.
______Acalme-se Di Angelis. Já estou tomando providências para que tudo corra na mais absoluta segurança.

Vick tentou relaxar. Afinal o chefe estava finalmente lhe dando ouvidos e logo averiguariam a informação que acabara de passar e descobririam que realmente a denúncia do carregamento clandestino nada mais era do que uma cilada para a equipe de policiais. Estava arriscando o pescoço, apostando que Miragem novamente não lhe falharia com sua informação. A missão da Nêmesis seria naquela noite.

Os dois musculosos policiais do Setor de Operações entraram porta adentro.

_______Conduzam de um modo ou de outro, a Di Angelis até o hospital mais próximo e providenciem para que fique sob observação de uma equipe de médicos e que seja sedada. Ela está tendo uma crise de histeria ou coisa parecida.

O que o chefe dizia, era tão absurdo e "non sense" que pegou Vick despreparada. Não resistiu. Caminhou conduzida pelos colegas até a viatura que a levaria ao nosocômio. Chegando lá, a trancafiaram em uma sala, enquanto passos apressados pelo corredor, indicava que as enfermeiras estavam procurando pelo médico psiquiatra de plantão.

Vick avaliou a janela. Era vitrô. Não havia como passar e ainda estava gradeada. Testou a fechadura. Um tipo conhecido de sistema de travas. Retirou da orelha seu brinco, que nada mais era do que pequenas gazuas.

______Idiotas... Esqueceram do meu brinco! - praguejou, enquanto manipulava habilmente as pequenas chapas de metal na fechadura.

Um clique peculiar indicou que alcançara o seu intento. Esgueirou-se atentamente pelo corredor.

Alguém se aproximou. Ocultou-se debaixo de uma maca onde o lençol branco tocava o chão encerado. Ganhou a rua e procurou um orelhão.

______Catsu! Estou sem dinheiro, sem cartão... sem ficha...

Catatau, um rapaz magro, conhecido como "mão de mico" passou assoviando pela calçada.

______Parado aí, Catatau ! - mandou Vick.

O adolescente que tinha o apelido por "surrupiar" a carteira das pessoas com habilidade estacou assustado.

_______Peraí, Dona Poliça... eu to limpo... não "livrei" ninguém de "bofunfa" hoje...
_______Bom... hoje sou eu que quero algumas moedas. Passa aí o suficiente pra comprar um cartão telefônico.
_______Vixe! A coisa ta feia mesmo pra poliça? Ta me assaltando? O que a "Asa Negra" quer com um cartão telefônico?
_______Enfiar em algum orifício alheio...

Catatau percebeu que devia agir com prudência.

_______Mas se quer fazer ligação, é só discar naquele fone ali... A molecada enche ele d’água até que ele fica lá, doidão, dando ligação de graça à torto e direito.
_______Valeu!

O BAR DA FIA

Vick conseguiu finalmente localizar o Araújo através do celular do policial. Explicou sua situação e que não podia ser "interceptada" pelo Teixeirão. Combinaram de se encontrar, em segredo, no fim da tarde no Bar da Fia, uma antiga conhecida.

O local era abafado, mal frequentado, mas tinha o melhor chope e pastel da região. Ali, em uma saleta mais ao fundo, Vick e o colega costumavam se encontrar para tomar algumas cervejas e conversar.

A Fia, uma senhora corpulenta, movia-se lentamente entre as mesas, conversando com os clientes.

Vick, quando percebeu que finalmente estavam a sós, abriu a conversa. Contou tudo que lhe ocorrera na delegacia e sua fuga do hospital. Araújo tinha a testa enrugada de preocupação.

_______Temos que impedir que a equipe da Nêmesis vá até a rua Alencar Barcelos.
_______Tarde demais... eles já estão "campanando" o local há pelo menos 30 minutos. Vão esperar até que o carregamento clandestino apareça, nem que para isso seja preciso esperar a noite inteira.
_______Então temos que impedi-los. Ligue do seu celular. Fale com o Maurício...

Araújo baixou os olhos e meneou a cabeça como se estivesse tomando uma decisão difícil e de crucial importância.

______Tudo bem! - Disse enfim, em meio a um suspiro, parecendo envelhecido e desgostoso. ______Tudo bem, Vick. Façamos diferente. Antes porém, tome mais um chope. Está muito nervosa. Precisa relaxar.
 
A Fia apareceu e Araújo pediu mais uma rodada de chope. Depois, cruzou o braço sobre a mesa e pareceu descontrair.

______Então abriu a porta no hospital em duas tentativas? Está ficando fina na arte...
______Bom... Digamos que tenho as ferramentas certas...
______Mas abriria uma algema com um grampo?
______Ora! Isso é fácil... basta alguns minutos.
______Prove! Vou dificultar... Topa o desafio?

Desafio era a palavra mágica para Vick. Sempre gostava de uma boa disputa e o passatempo predileto entre os parceiros era desafiarem-se mutuamente.

_____Vamos lá, espertinho! Prenda-me e conte os minutos no relógio.
_____Vou dificultar sua vida! - riu o Araújo. _____Antes beba mais um gole do chope ou ele esquenta.
_____Tudo bem!

Araújo sacou sua algema da cintura e passou um bracelete no pulso esquerdo de Vick.

_____Vire-se contra aquele cano de ferro do suporte do balcão. Isso. Agora tente soltar-se.

Vick fora algemada com os braços para trás, sendo a corrente passada em torno do cano.

_____Dê-me o grampo! Pediu ao parceiro.
_____Fornecer o grampo não está no acordo... - retrucou Araújo que levantou-se e largou sobre a mesa o dinheiro da despesa.
_____Quer dificultar é? - Vick sorriu nervosa. _____Vou encontrar um jeito de apanhar minhas gazuas... Araújo lhe deu as costas e saiu da saleta.
_____Ei, André... Aonde vai?
_____Cuidar da minha obrigação. Depois volto pra te liberar...

Victória percebeu tarde demais que o colega a estava deixando presa ali, deliberadamente.

_____Não pode fazer isso comigo!
_____Não tenho escolha! - disse Araújo enquanto ganhava a rua.

A enorme senhora apareceu para apanhar o dinheiro sobre a mesa. A policial pensou ter a oportunidade de que precisava.

_____Fia! me alcança o brinco... pega aqui na minha orelha...
_____Desculpe, Vick.... mas o Araújo foi claro! Você não sai daí até ele voltar...
_____Me solta ou arranco esta barra de ferro...
_____Lamento mesmo, mas logo vai adormecer e se acalmar.
_____Adormecer?

Fia lhe indicou o copo semivazio de chope e Vick entendeu que além de presa caíra no "Boa noite Cinderela". Haviam posto um sedativo em sua bebida.

_____Traição! - articulou, já com a língua pesada e a vista embaralhando-se. _____Você não entende, Fia, eles vão morrer... todos eles... Não ouvia mais nada pelo bar, além do barulho costumeiro de clientes, em outros ambientes, bebendo e conversando e os passos cansados de Antonia Castro, a "Fia", que os servia.

Vick contraiu o estômago e passou a tocar o palato com a ponta da língua, provocando assim uma crise de vômito.

______Nunca pensei que essa minha facilidade em "vomitar" fosse me servir para alguma coisa. - raciocinou.

Em três tentativas conseguiu se livrar de todo o chope ingerido. Mas ainda sentia-se sonolenta e com o corpo entorpecido pelo efeito da substância que já havia sido absorvida em seu estômago.
Esfregou o lóbulo da orelha no ombro. Uma das pequenas gazuas se soltou. Vick tentou fazer com que escorregasse por sua costa e lhe caísse nas mãos presas. Caiu ao chão. Outra tentativa e perdeu mais quatro gazuas.

_______Ainda tenho a orelha esquerda! - raciocinou.

Em dado momento, conseguiu aparar uma. Sua musculatura já estava em cãibras pela posição desconfortável. Com o indicador e o médio de uma mão, passou a tentar abrir o bracelete que prendia o pulso da outra. Um clique e enfim o pulso da mão direita se livrou. Sabia que não tinha tempo para tentar se livrar totalmente das algemas, mas com uma parte solta, já podia sair.

Cambaleou até a porta de saída dos fundos do Bar. Na rua envolta pela noite recém-chegada, as pessoas mudavam de calçada ao vê-la passar. Imaginou seu estado: a camisa branca ensebada e molhada de chope e a calça jeans com manchas de ferrugem e graxa, pois tivera que saltar dois portões velhos, para se livrar do Bar da Fia. E havia ainda, a algema que tilintava em seu pulso esquerdo. As pessoas se assustavam. Um motociclista que estacionara por perto, arregalou os olhos e saiu correndo, abandonando a moto e a chave na ignição. Algo na mente nublada de Vick assinalou que ela já havia preso um sujeito com aquele aspecto antes.
 
_______Ah! o rapaz que uns meses atrás, batia na namorada, lá no bar do Jaó. - lembrou-se._____Odeio homem que bate em mulher. Acabei dando tanta coronhada nas costas dele que ele deve estar se lembrando até hoje.

Montou na moto abandonada e saiu rua afora. Estava com o equilíbrio alterado como se tivesse tomado um barril de vinho, mas conseguiu se locomover a custo pelas ruas.

Encontrou a Alencar Barcelos, envolta na escuridão e silêncio. Percebeu que o enorme portão de ferro estava entreaberto. Esgueirou-se para dentro, pensando que tudo que não precisava lhe acontecer naquele momento, era aparecer algum monstruoso casal de cães rottweiller. Na grande área destinada ao depósito da QB, havia três enormes galpões, como hangares. Conseguiu entrar em um. Estava escuro e parecia deserto. Em dado momento, ouviu várias rajadas de metralhadoras e gritos de dor e pavor.

Depois, barulho de homens correndo, e enquanto tentava encontrar a saída do galpão na escuridão, ouviu uma enorme e forte explosão. Seus ouvidos ficaram momentaneamente surdos e o clarão arrancou parte da lateral do galpão onde estava e ela pode ver que o galpão ao lado ardia em chamas e estava completamente ao chão. A estrutura do recinto onde estava passou a tremer e o teto começou a desabar. Em pouco tempo, quilos e quilos de escombros da parede e da estrutura, lhe desabaram sobre o corpo. Quando tudo silenciou, estava soterrada e presa, sentindo dificuldade em respirar. Desta vez não conseguiu se livrar da inconsciência.

O RESGATE

O grito do bombeiro que movia os escombros a despertou.
 
______Encontrei um corpo...

Logo, mãos frenéticas passaram a trabalhar rapidamente para retirar o entulho que prendia Vick. Ela ouviu vozes conhecidas suas, determinando urgência. O bombeiro que lhe avistara a mão direita, gritou novamente:

_______Eu vi se mover. É uma mulher e ainda respira...
_______Tomem cuidado ou vão acabar matando-a com o peso dos escombros...
_______Uma enorme viga a protegeu! - concluiu outra voz.

Victória não conseguiu mensurar quantas horas fora preciso para seu resgate, mas quando finalmente várias mãos fortes a alcançaram e içaram para fora do monturo, já era dia. Uma manhã luminosa e ela chorou silenciosamente, pois sentira-se sepultada em vida e agora estava sendo içada para a luz. Colocaram-na cuidadosamente no chão, enquanto uma equipe de pessoas vestida em uniformes brancos se aproximava e a examinava. Ali, ao redor, outras pessoas foram fechando um círculo.
 
Vick reconheceu a voz do Robertão que "chorava aos urros" enquanto o investigador Brás o mandava calar-se.

_______A Vivi está morta, doutora? ... - choramingou o Robertão.

Victória sentiu uma mão macia e habilidosa a tocava e examinava.

_______Não! Mas está em estado de choque e suspeito de hemorragia interna. Precisamos agasalhá-la e levá-la o mais rápido possível para o hospital.

A voz de Lizandra soava firme e decidida. Uma ambulância entrou no local e Vick foi içada para dentro do veículo. Ao ser carregada, ela pode ver ainda alguns rostos conhecidos. Era uma equipe de colegas da delegacia. Da equipe Nêmesis não encontrou nenhum. O rosto angustiado do Teixeira, que ali também se encontrava, lhe insinuou o pior: alguma tragédia havia acontecido com o Araújo e sua equipe. Seu coração disparou e ouviu a voz da médica determinando:

____Ela está muita agitada... Sua pressão se altera rápido demais. Precisamos estabilizá-la ou a perderemos. Passem-me uma ampola de...

A RECUPERAÇÃO

Na semana em que passou no hospital se recuperando, Vick ficou sabendo de notícias através do tímido "Patrola". Ele era o único colega que ela aceitara receber em seu quarto. Estava deprimida e magoada. Outros ali vieram visitá-la, mas ela se debateu furiosamente na cama até que por ordens do médico, eles tiveram que se retirar do quarto. Com o relato de "Patrola", pouco a pouco os detalhes sobre os últimos momentos de Araújo e sua equipe foram se delineando. Segundo reconstituição, eles haviam sido metralhados e depois o galpão onde estavam, explodido, o que reduziu os corpos a cinzas e pequenos fragmentos...

______Sei que os médicos legistas estão trabalhando para identificar um por um, mas não restou muita coisa para analisar.

Victória pensou em Heloisa e Pingo. Como estariam agora?

______O chefe Teixeira, foi afastado do cargo. Chegou um delegado novo da capital para substituí-lo enquanto ele responde ao Processo Disciplinar por sua negligência. Ele insiste em afirmar que não havia mais tempo de avisar a equipe, ou abortar a missão, depois que você invadiu o gabinete dele... Os sete homens da Nêmesis estão desaparecidos. Tem um pessoal da Polícia Internacional querendo falar com você. Quando melhorar, vão te procurar.

Na semana seguinte, houve o cerimonial do enterro das "cinzas" dos homens da Nêmesis. Vick foi conduzida em uma cadeira de rodas, pois ainda não tinha forças para se locomover.

A viúva de Araújo estava na cerimônia e a ausência de Pingo, causou estranheza. Heloísa tinha o aspecto apagado e pálido e estava sentada entre as outras viúvas. Ao ver a policial se aproximar do grupo, entendeu a interrogação nos olhos dela.

______Pedro não quis vir. Meu filho está sendo acompanhado por um psicólogo. Voltou a fazer xixi na cama e não quer se alimentar. Não derramou uma lágrima ao saber da morte do pai. Está sublimando sua dor e isso o está destruindo por dentro. Já não sei mais o que fazer. Ele fica horas e horas, conversando sozinho com aquele brinquedo eletrônico que você lhe deu.




No dia que recebeu alta do hospital, Vick pensou em sair de fininho, caminhando pelos corredores e "sumir" para seu refúgio na Serra. Mas mal o médico lhe avisou que estava livre para deixar o quarto, aparecem o Duarte e a doutora Lizandra.
 
______Viemos te buscar e dar uma carona.

A cara amarrada de Vick não pareceu intimidá-los.

______Não estou a fim de me espremer no seu minúsculo carro esporte! - resmungou a policial para Duarte.
______Sem problema! Vamos no Jipe da Doutora.

O veículo de Lizandra era um Cherokee e Vick não se lembrava de ter visto o veículo antes. Lizandra dirigia enquanto Henrique se sentou no banco de trás para amparar a colega. Victória não pode deixar de se emocionar com o cuidado e carinho que o colega lhe dispensava. Levaram-na até a entrada do "ninho da Mata". Estranhou que conhecessem o caminho, mas nada disse.

O caseiro apareceu apressado. Já havia sido avisado que a patroa chegaria. Levaram-na até a cama no andar superior, já arrumada apropriadamente com vários travesseiros reservas onde a acomodaram. Henrique Duarte soltou uma exclamação de admiração ao contemplar a beleza da paisagem de montanha que podia ser vislumbrada pela enorme janela.

______Uauuu! Quem me dera um dia ter um lugar desses só pra mim! É um paraíso. Era de sua mãe?

Vick acenou com a cabeça, positivamente.

Doutora Lizandra parecia distraída em observar cada detalhe do local. ______Não é a toa que a chamam "Ninho da Mata"... - observou enfim.
 
Sir Lancelot apareceu miando saudoso. Pulou sobre a cama e aninhou-se junto às costelas da dona.

_____Esse gato quase morre de tristeza com a ausência da patroa! - avisou a mulher do caseiro. _____Andou sumido na mata por três dias. Depois dizem que gato não gosta da gente. Só da casa...

Lizandra ajeitou melhor os travesseiros e passou instruções detalhadas aos caseiros de como cuidar de Vick. Depois, saiu do quarto, seguida pelo Duarte que se despediu timidamente.

Victória adormeceu embalada pelo barulho delicioso do cantar dos pássaros e das árvores que roçavam os galhos na estrutura da casa. Acordou ao ouvir a voz de Adriana. Esta lhe beijava as mãos e as molhava com suas lágrimas.

______Vim ver você e quero que saiba que todo dia, penso em nós e em tudo que vivenciamos juntas!!! - sussurrou-lhe ao ouvido.

Vick jazia, envolta na madorna causada pelos remédios, mas tinha plena consciência de tudo em sua volta. Só não conseguia se livrar das teias invisíveis do quase-sonho que a prendia. Não abriu os olhos. Não podia.

Adriana foi embora, deixando atrás de si a flagrância deliciosa de seu corpo. Vick sentiu frêmitos de sair correndo e alcançá-la no caminho. Mas não conseguia mover nem o pé. Estava totalmente dopada.

Dormiu, não soube quantos dias. Sabia que a esposa do caseiro sempre vinha lhe dar as refeições a colheradas, mas não conseguia manter a consciência ativa por mais de alguns minutos.

Certa manhã sentou-se na cama e bocejou. Sir Lancelot que não abandonara o quarto miou alegremente. Estava mais magro e esguio - Se é que gatos siameses conseguem ser mais esguios do que já o são - Sentia-se fraca, mas suas pernas lhe sustentaram o corpo o suficiente para que encontrasse e avisasse o caseiro que ia pra cidade.
 
O pobre homem não ousou impedi-la, pois percebeu que nada lhe demoveria a ideia.
 
______Seo Antonio Di Angelis vai ficar furioso comigo!
______Já estou bem... Luis... sou forte, me recupero rápido. Agora preciso resolver a vida na cidade. Você me dá uma carona?

O PACTO

Na Delegacia, os colegas, um a um vieram abraçá-la. Robertão, pediu humildemente se poderia também abraçá-la.
 
______Tudo bem! - concordou Vick, a contragosto.
 
Betão a apertou contra si, com seus braços enormes.

_______Hummm! Já ta fedido logo pela manhã? Vai tomar um banho, ô Betão...

Os colegas que estavam por perto riram e o Betão também.

_______Viram que ela já está me tratando como antes. Está se recuperando bem...

O inspetor Braga chamou Vick.

______Tem aí o pessoal da Polícia Internacional. Ta a fim de conversar com eles?
______Na boa! - concordou a policial.

No gabinete do Chefe do Setor de Operações, alguns homens de terno preto, cumprimentaram Vick com um português carregado de sotaque. Descreveram que estavam investigando a ação de um grande criminoso e cérebro do crime que se autointitulava: MIRAGEM. Mostraram em um notebook para Vick a imagem do rosto diáfano que se misturava nas areias do deserto. Era a mesma imagem que vira quando na primeira vez que fora interceptada pela aparição.

________É a mesma pessoa que andou te contatando?
________Não... não é! - mentiu.
________Tem certeza? Estamos tratando de uma mente perigosa e perversa. Já sabemos que causou a morte de várias pessoas pelo mundo. Não mede esforços ou vidas para conseguir seu intento. O último roubo que realizou foi no Laboratório Avançado de Tecnologia Bio-tech na Suíça. Retirou de lá um poderoso micro chip. Um segredo de Estado. Não sabemos o que poderá fazer com este poderoso componente. Há cinco anos temos monitorado sua ação por vários países do mundo. Rouba alta tecnologia e pode estar também, por trás do roubo de algumas jóias valiosíssimas de museus e coleções particulares.
 
Vick naquele exato momento, não sabia ao certo porque mentia para a Polícia Internacional.

_______Bom! Quando estiver melhor, poderá escrever um relatório sobre a aparição do indivíduo que lhe contatou?
________Sim! Escreverei. Agora preciso fazer algumas visitas, se me dão licença.
________Ok!

PEQUENO CÃO

Já na rua, Victória concluiu que a razão pela qual mentira era porque não conseguia confiar em mais nada e ninguém. Perdera seu melhor amigo, não sem antes ter sido enganada por ele.

Em certo canto da rua, viu uma pequena criatura dormindo encolhida entre as lixeiras, abrigado sob papelões. Era um pequenino cão de cor alaranjada. Vick parou a moto. Observou aquela criaturinha tão pequena e abandonada. Ele levantou-se abanando o rabo e veio lhe cheirar as botas. Ela o recolheu e o agasalhou no decote de sua jaqueta de couro. O animalzinho tinha um delicioso cheiro de leite.

Ao chegar à casa do Araújo, Vick percebeu que Pingo não veio correndo lhe pular no colo. Entrou na varanda e Heloisa lhe abriu a porta. A casa estava silenciosa e triste. Na cozinha, o crepitar de uma panela de arroz, denunciava que a esposa do Araújo tentava tocar sua rotina cotidiana.
 
________Ele está no quarto! Agora, raramente sai de lá. Já o chamei para lanchar. Não quer comer.

O quarto do garoto estava escuro. Vick abriu as janelas para que a luz do dia e o ar fresco melhorasse o ambiente. Pingo estava deitado no beliche, com o rosto voltado para a parede. Victória acariciou-lhe os cabelos. Ele momentaneamente lhe voltou o rosto, com os olhos expressando uma tristeza de partir o coração.

_______Na televisão os heróis nunca morrem! Meu pai era o melhor policial da cidade...
_______Muitas vezes acontecem coisas que a gente não consegue entender...
_______Meu pai era um homem bom... um cara legal. Acho que não fui um bom menino e por isso levaram meu pai...
_______Não... não tem nada a ver com você... Pingo...
_______Quem vai cuidar de mim e da mamãe?
_______Eu vou cuidar de vocês... Eu prometo...

O menino a abraçou. O pequeno cão ganiu.

_______O que tem aí?
_______Uma criaturinha sem pai nem mãe. Eu o trouxe para você. É muito pequenininho e precisa que alguém cuide dele.

Vick depositou o cãozinho no colo de Pingo que sentou-se rapidamente na cama.

_______Que raça ele é?
_______A melhor raça! Vira-lata. Assim não vai adoecer e morrer e come o que você colocar no prato. Além do mais, é um companheiro e tanto. Olhe seus olhinhos cor de mel. São muito vivos. Me parece um cachorrinho esperto.
_______Ele não tem quem cuide dele? Não tem mãe e pai?
_______É! Como muitas criancinhas que moram no orfanato. Mas no caso dele, nem orfanato.
_______Mas então eu vou cuidar dele. Vai ser meu companheiro, meu amigo...
_______É assim que se fala, garoto!
_______Vou encontrar uma caixa de papelão pra botar ele no quarto. Não quero que sinta medo do escuro.
_______Então agora, só precisa escolher-lhe um nome.

O menino refletiu, com expressão muito séria. Por fim, concluiu.

_______Ele se chamará "Bingo". Será o Bingo do Pingo...
_______Ótimo nome. Agora temos que arranjar alguma coisa para o Bingo e o Pingo comerem.
_______Mamãe arranja pra gente!

Na mesa posta para o almoço, Heloisa observava Pingo comendo vorazmente, enquanto Bingo lambia sua vasilha de comida.
 
________Bom... preciso ir andando! Tenho algumas coisas para tratar. Despediu-se a policial.
 
Um zunido e um bip, bip continuado sobre a mesa de centro da sala, chamou a atenção de Bingo que passou a latir.
 
________Ah! É aquele Tomagochi! Ta pedindo comida... é um brinquedo muito esquisito... ele me contou coisas muito feias sobre pessoas que morrem. Eu não o quero mais. Agora tenho o Bingo que é muito melhor. Pega ele lá na mesa e aperta o botãozinho vermelho para alimentá-lo.Pode ficar para você. Não quero mais conversar com ele. Tudo bem?
________Tudo bem! - Vick sentiu estranheza quanto à rejeição súbita de Pingo ao brinquedo eletrônico. Lá fora, Heloisa segredou-lhe.
________O brinquedo disse para o Pingo que "naquele dia" o pai dele ia morrer... O Pedro ficou muito impressionado e até não conseguiu dormir de noite. No outro dia, aprontou um berreiro, não querendo deixar o pai sair para o trabalho. Eu não sei que espécie de brinquedo maldito é esse, mas devíamos ter pressentido que alguma coisa ia acontecer. Leve-o daqui. Eu só não o joguei fora porque foi presente seu...

Victória despediu-se de Heloisa e saiu com o sinistro aparelhinho no bolso.

________Não faz sentido. Preciso averiguar isso melhor! - disse para si.

DOUTOR ERNESTO BORGES

Um palpite de sua intuição a fez procurar pelo médico que tratava a pequena Ângela Mac karll. A secretária avisou-a que o médico não atendia sem hora marcada.

Um homem muito magro e alto, aparentando setenta anos, saiu pela porta do consultório e ao ver Victória, pareceu perturbado.

______Entre, policial. Estava mesmo esperando sua visita! Convidou-a por fim.

O consultório do Doutor Ernesto tinha tudo que se esperava de um escritório de um psicanalista, incluindo fotos de Sigmund Freud e um divã antigo. Nas paredes, as prateleiras guardavam livros do teto ao chão. Um grande tratado médico tomava parte da escrivaninha e ao seu lado, uns óculos de leitura. Algo, porém no ambiente, causou estranheza à policial. Na verdade era algo que faltava.

______Sente-se, detetive Di Angelis...

Vick sentou-se na cadeira macia, enquanto analisava o que realmente faltava no local. Dr. Ernesto acendeu um charuto e a policial espirrou várias vezes.

_____Desculpe-me... sou alérgica...
_____Tudo bem! - Assentiu o médico, enquanto apagava cuidadosamente seu havana.

Vick percebeu finalmente o que faltava. Não havia qualquer aparelho eletrônico ali.

_____Se veio procurar por Ariane, te asseguro que não sei onde ela está...
_____Não está na casa do Governador?
_____Não! Voltou para a Escócia, mas lhe asseguro que também não se encontra lá. O que quer que pense que ela fez, tente entender que é um indivíduo autista. Não é uma pessoa dentro dos padrões da normalidade.

Victória achou melhor abrir o jogo com o médico contando toda sua experiência com Miragem. Ao fim, Doutor Ernesto tinha a expressão envelhecida e desgostosa.

_____Ela está fora do controle! É uma autista sábia, já ouviu falar? Um gênio da eletrônica e tecnologia. Seu cérebro é tão capaz quanto o mais poderoso Mainframe do mundo. Eu iniciei algumas experiências com a pequena Ângela. Não tratava de Ariane porque ela já era uma garota de quinze anos e não há registro de progresso com indivíduos autistas com mais de três anos de idade. Mas Ariane sempre foi diferente. Não é um caso de autismo severo como o de Ângela. Se não se observar e avaliar melhor, qualquer um tomaria Ariane por uma garota extremamente tímida. Porém, com o passar dos tempos, pude observar que ela assimilava tudo que eu ensinava à Ângela. Foi então que com a ajuda de um cientista amigo, projetei o primeiro modelo de OPPUS.
_____Oppus?
_____Sim! Oppus significa "Obra" em latim. Consiste em um cérebro eletrônico programado para interagir com o autista, explicando e orientando-os sobre qualquer circunstância natural ou cotidiana da vida. Os autistas sentem dificuldade de entender o trivial e natural do cotidiano. Ariane se interessou rapidamente por Oppus. Apegou-se a ele com obsessão. Como se não bastasse, aprimorou-o. Para tanto, ela se apoderou do maior e mais evoluído chip do mundo: o Zeus. Com Zeus, ela desenvolveu Oppus - Z...
______Mas então ela precisou de algum auxiliar. Não pôde fazer tudo isso sozinha...
______ Ela se utiliza e utilizou de "Avatares". Recruta-os pelo mundo afora, contatando-os como o fez com você, oferecendo poder e dinheiro. Não há sistema eletrônico ou mesmo computadores que Ariane não consiga violar e manipular a seu serviço. Ela se utiliza de qualquer aparelho eletrônico para monitorar, captar e se "mover" pelo mundo. Para recompensar seus "Avatares", se apoderou de quantias enormes em dinheiro de bancos e jóias. A família Mac Karll é abastada, mas seus pais e responsáveis nem sonham o que ela faz nas infindáveis horas que passa reclusa em seu quarto ou outros lugares onde montou seu laboratório.
______Então é realmente uma criminosa, como a Polícia Internacional me avisou...
______MIRAGEM é algo mais! Ela é a personificação do poder. Eu possuía algum controle sobre ela, até que aconteceu o misterioso "sumiço" de OPPUS - Z. Agora está fora de controle e não respeita qualquer obstáculo que encontre. Ela chama a isso de "deletar". Seus "avatares" pouco a pouco foram sendo "deletados"...
______Então ela os mata?
______Depende como você interpreta. Ela não aceita erros e falhas. Se um Avatar comete muitos erros, ela simplesmente lhe designa para uma missão que na verdade é quase impossível sobreviver. Se por acaso um destes "avatares" sobrevivessem, então ela o reabilita.
______E algum conseguiu escapar?
______Nunca soube de nenhum...
______E o que ela quer comigo?
______Quer transformá-la em um "Avatar Alfa". Um "alfa" é seu boneco predileto. Tem mais regalias...
______E porque me escolheu?
______Talvez pelo incidente com a pequena Ângela. Ela reconheceu em você a soma de inteligência e habilidade física...

Doutor Ernesto levantou-se e postou-se à janela, olhando muito ao longe.

______MIRAGEM não permitirá que você se livre. Cuidou pessoalmente de liquidar com o bando que a raptou. Não conhece o sofrimento nem a piedade. Por um lado é cruel. Por outro, apenas uma mulher retardada emocionalmente. Eu não consigo ter paz, pois sei que fui o causador de tudo isso. Estou nas mãos dela. Se algum dia ela decidir que não tenho mais serventia, serei "deletado"...
______Precisamos detê-la...

Doutor Ernesto sorriu amargamente.
______Ninguém pode detê-la...

 

 

Continua...