O tempo passa e o passado se faz presente

Nick

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50. Tristeza

 

Cerca de seis dias antes da data prevista para nosso menino nascer, recebi uma ligação do reitor da universidade que fiz minha graduação em Salvador, ele disse que queria conversar comigo no dia seguinte, mas não adiantou o assunto. Eu não queria deixar a Clara sozinha, liguei para a minha mãe, ela aceitou prontamente a função.

No horário e local marcados, encontrei com o meu ex reitor, conversamos muito sobre a época que estudei lá, minhas notas, a ONG e ele propôs que eu fizesse parte do seu grupo de mestres:

___Muito obrigada pelo convite, realmente me sinto honrada, mas vou fugir dos meus objetivos, nunca quis lecionar.
___Você tem certeza que nem quer um tempo para pensar, Eduarda?
___Tenho. Não quero tempo para pensar porque essa é a minha resposta definitiva.
___Então aceitaria ministrar algumas palestras sobre expansão marítima portuguesa e sua influência no Brasil para os graduandos e pós graduandos em história?
___Isso sim eu aceito – sorri.

Começamos a acertar algumas coisas como possíveis dias que seriam as palestras, valores que eu receberia entre várias outras coisas quando meu celular tocou e antes mesmo de verificar, me desculpei:

___Desculpe-me, não costumo deixar meu celular ligado quando estou em reunião, mas tenho um assunto importante a resolver – disse isso já atendendo a ligação – Oi mãe, aconteceu alguma coisa? – meu coração foi à boca assim que vi o número do celular de minha mãe.
___Filha, a Clara está sentindo muitas dores.
___Deixa eu falar com ela, mãe.
___Oi amor – disse num fio de voz.
___Amor, o que você tem? – estava muito preocupada.
___Estou sentindo muita dor, amor. Acho que já são as contrações porque sempre que volta fica mais forte.
___Tem quanto tempo que está com essas dores?
___Começou uns quinze minutos depois que você saiu.
___Ta, passa o celular para minha mãe de novo, fica tranqüila que vou resolver isso. Beijos amor.
___Queria que você estivesse aqui também
___Daqui a alguns minutos estarei com você, não precisa se preocupar.
___Tudo bem, vou esperar, beijos.
___Oi filha!
___Mãe, no quarto do João, em cima da poltrona tem duas bolsas que tem várias coisas dele e na outra tem da Clara, pega as duas, chama um táxi que daqui a pouco te ligo porque vou ligar para a Rafa para saber em qual hospital ela está agora.
___Certo, farei isso.
___Te ligo já, beijo.

Encerrei a ligação, procurei o número da minha amiga no aparelho celular, disquei, ela demorou um pouco a atender.

___Fala pessoa chata.
___Amiga, parece que o João quer nascer alguns dias antes do previsto. A Clara está sentindo dores que parecem ser contrações – disparei.
___Calma! Deixa eu falar com ela.
___Eu não estou em casa, minha mãe que me ligou agora e eu falei com ela.

Minha amiga pediu para que a Clara fosse para o hospital em que ela estava naquele momento; liguei para minha mãe, o táxi já estava chegando e me esperavam para avisar aonde iriam:

___Dr. Fernando, desculpe-me, mas tenho que ir agora. O filho que minha esposa está esperando está nascendo.
___Tudo bem, Eduarda. Parabéns e te ligo na próxima semana para nos reunirmos novamente para que possamos acertar os detalhes que ainda faltam – disse com cara de poucos amigos.
___Ok, estarei à espera – Disse isso já com a porta da sala aberta.

Fui direto para o hospital, mas para meu desespero peguei um congestionamento que deixou o trânsito mais lento do que o normal. Consegui chagar quase uma hora depois que falei com a Rafa, peguei meu celular e liguei para ela:

___Rafa, acabei de chegar ao hospital, o trânsito de Salvador está uma bosta, minha mãe já chegou com a Clara?
___Já sim, Duda. Estamos indo para a sala de parto, se você correr um pouco consegue nos alcançar. Deixei o celular ligado só porque sabia que você estava chegando.
___Me dá cinco minutos.

Na recepção procurei informações sobre a sala de partos, corri o máximo que pude e consegui encontrá-las:

___Amor – a voz da Clara estava falha, seus olhos semi cerrados.

Segurei sua mão:

___Rafa, porque ela está assim?
___O João está muito grande para ser um parto normal, a Clara estava sentindo muitas dores e tivemos que sedá-la – fez uma pausa como se estivesse me analisando – você está muito agoniada, não vai entrar conosco.

Resolvi não insistir, pois sabia que poderia acabar atrapalhando. A minha esposa apertou um pouco minha mão, beijei-lhe a testa:

___Não demora, ta amor. Vou ficar aqui fora te esperando – ela sorriu e balançou a cabeça quase que imperceptivelmente – te amo – depositei um suave beijo em seus lábios. Levaram minha Clara para a sala de parto.

Alguns minutos depois, senti meu celular vibrar em meu bolso, atendi sem ver quem era:

___Alô.
___Viadinho, o que você tem?
___Continua com a mesma mania de sentir quando não estou bem? – tentei brincar.
___Você sabe que isso nunca vai parar, né?
___O João está nascendo.
___Jura? Então é por isso que está tão angustiada, coração apertadinho? Caralho, você vai ser pai, ops, mãe... Ahh sei lá.

Riu as gargalhadas, eu estava nervosa, mas acompanhei e quando conseguimos nos acalmar ela me perguntou o nome do hospital que estávamos:

___Sei que você está precisando da grandona aqui, chego em alguns minutos, beijo.

Encerremos a ligação, minha mãe estava super tranqüila:

___Mãe, vou descer para comprar alguma coisa para comer, já volto. Qualquer coisa liga no meu celular.
___Pode deixar.

Por mais que o médico que nos acompanhou em Lisboa e a Rafa dissessem para ficarmos tranqüilas, que o João e a Clara estavam ótimos e que tudo ia correr muito bem, eu estava angustiada. Sabem meu sexto sentido que já me avisou sobre encrencas que possivelmente eu estaria passando? Pois é, ele estava trabalhando mais uma vez. Fiquei perambulando nas proximidades do hospital, a Dani me ligou quando chegou e ficou me fazendo companhia, conversamos um pouco, ela tentava me distrair a todo custo.

___Caralho, você pode ficar calma?

Estávamos em uma pracinha nas redondezas do hospital, sentadas em um banquinho, minhas pernas esticadas para frente, mas eu balançava insistente e inconscientemente. Parei o que estava fazendo:

___Velho, estou nervosa.
___Eu sei, mas vai adiantar alguma coisa?
___Não – respirei fundo – vamos voltar no hospital, quero saber se já têm alguma notícia.

Assim que chegamos, encontramos minha mãe que ficou conversando com a Dani e eu fui ver se conseguia alguma notícia, mas sem sucesso. Fui pegar um café – coisa que eu odeio, mas naquele momento eu achava que precisava para ver se me acalmava. Quando eu estava retornando com aquele copo super quente em minha mão, vi que a Rafa falava com as duas, me aproximei lentamente, olharam para mim, fiquei desconfiada.

___Duda, senta aí.
___O que aconteceu?
___Você pode sentar?
___Não.

Ela respirou fundo, sua fisionomia denunciava que alguma coisa ruim aconteceu. Completei:

___Cadê a Clara?
___Está no quarto descansando.
___E o João?
___Desculpa amiga, eu fiz de tudo, o parto foi muito complicado, a Clara perdeu muito sangue. O João não conseguia respirar sozinho, enquanto fazíamos os procedimentos necessários para ajudá-lo na respiração, ele teve uma parada, tentamos reanimá-lo, mas ele não resistiu.

No mesmo momento eu tive que procurar um lugar para sentar, a Rafa continuou falando várias coisas, mas eu não escutava, olhei para as três que estavam em minha frente, todas com as fisionomias de preocupação:

___A Clara já sabe? – perguntei num fio de voz.
___Já. Ela acordou quando tentávamos reanimar o João, viu toda a correria, ficou muito agitada e por isso que tivemos que sedá-la novamente, senão abriria os pontos. Mas ela viu tudo.
___Eu quero ver a minha mulher – disse já me levantando, entreguei o café que nem toquei para a Dani.
___Duda, ela está dormindo, não pode receber visitas agora – Rafa tentou me conter.

Fui em direção a ela.

___Rafaela, qual a parte do “Eu quero ver a minha mulher” você não entendeu? Eu vou vê-la você querendo ou não. Quero estar ao seu lado quando ela acordar.

Minha amiga olhou para a Dani e para a minha mãe, balançou a cabeça num gesto afirmativo:

___Tudo bem, me acompanhe.

Passamos pelo corredor gelado que levava até o quarto que a minha Clara estava, Rafa abriu a porta, minha esposa estava lá, dormindo tranqüilamente:

___Fique a vontade – sussurrou minha amiga e saiu fechando a porta.

Caminhei até a cama, beijei a testa da Clara e sentei ao seu lado, na altura da sua cintura. Acariciei eu rosto, fiz todo o contorno, sabia do quanto que ela estava sofrendo com a perda do nosso filho. Ali eu decidi que por mais que eu estivesse sofrendo também, não ia deixar transparecer para a minha esposa, precisava ajudá-la a passar por isso e não ia conseguir se ela me visse sofrendo tanto, chorando tanto. Perdi a noção do tempo que fiquei ali lembrando de tudo o que preparamos, tudo o que planejamos para nosso filho, o sorriso da Clara quando eu concordei com a gravidez. Curtimos tudo ao máximo, eu não reclamava nem quando ela tinha aqueles desejos loucos – eu ia e voltava com a cara mais feliz do mundo – quando ela saia correndo para o banheiro quando enjoava – eu ia atrás para ajudá-la com os cabelos, lavar seu rosto, a deitar na cama para se recuperar do baque... Sorri com essas lembranças.

Percebi que a Clara começava a se movimentar um pouco na cama, abriu os olhos, sorri para ela:

___Oi – depositei um suave beijo nos lábios.
___Desculpa – disse num fio de voz.
___Pelo o que? – me fiz de desentendida.
___Nosso filho...

Não deixei que ela terminasse, coloquei meu dedo em seus lábios:

___Você não teve culpa de nada, mas depois conversamos sobre isso, descansa agora.

Depositei mais um suave beijo em seus lábios, meus olhos começaram a lacrimejar... A Clara levantou a mão direita e enxugou o caminho que a lágrima solitária fazia, sorriu timidamente:

___Promete que vamos tentar de novo daqui a alguns meses? – ela não desviava o olhar.
___Claro amor, quando você quiser – sorri.

Ficamos alguns minutos naquele contato, não falávamos nada, nossa dor era dita através do nosso olhar:

___Du, pega um pouco de água para mim?

Me afastei um pouco dela, peguei sua água, a ajudei a levantar um pouco por causa dos pontos, ela bebeu e me entregou o copo:

___Me diz como foi lá com o reitor, amor.
___Ele queria que eu integrasse o grupo de mestres da Faculdade lecionando sobre as expansões marítimas portuguesas na época do descobrimento. Tudo bem que é um assunto que eu adoro, estudei muito, mas eu disse a ele que estaria saindo do meu propósito; aí ele propôs que eu ministrasse umas palestras num congresso que a faculdade vai organizar para graduando e pós graduandos na área, aceitei, mas não conversamos mais detalhes porque minha mãe me ligou e eu vim correndo para cá. Ele ficou de me ligar na próxima semana.
___Desculpa por ter atrapalhado.
___Você não atrapalhou nada, amor. Vocês são mais importantes para mim do que qualquer outra coisa ou pessoa.
___É, mas ele não está aqui conosco.
___Hei – sentei novamente ao seu lado e segurei sua mão – deixa disso, amor. Ele não está aqui, mas você está e isso é o que importa. Apesar de não termos conhecido nosso filho, nós já o amávamos, mas por circunstâncias da vida, ele não conseguiu sobreviver, mas nós não vamos desistir de aumentar nossa família – fiz um carinho em seu rosto.

Continuamos conversando mais algumas coisas até que apareceu uma enfermeira e aplicou uma medicação no soro da Clara, pouco depois minha esposa dormia serenamente, minha mãe entrou no quarto:

___Como ela está, filha?
___Está bem, mas sentindo-se culpada pelo que aconteceu.
___Mas, a culpa não foi dela.
___Eu sei e estou tentando convencê-la disso – disse com os olhos cheios de lágrimas novamente – fica um pouco com ela, mãe? Preciso de um pouco de ar.
___Claro, Duda! Pode ir tranqüila.

Saí do quarto calma e lentamente:

___Aonde você vai, Duda?

Olhei para trás e vi a Rafa junto com a Dani indo em minha direção:

___Vou dar uma volta.
___Você não está bem para dar uma volta – Rafa pronunciou-se
___Eu estou ótima.

Não conseguia mais segurar as lágrimas, sentei na primeira cadeira que vi pela frente e desabei, desandei a chorar, tentava, mas não controlava as lágrimas, minhas amigas deixaram que eu colocasse toda a minha angústia para fora... Depois de muito tempo, passei a mão no rosto e levantei indo em direção ao banheiro, as duas pareciam minhas seguranças. Lavei meu rosto e desci até a lanchonete, comprei água, bebi todo o conteúdo da garrafa de uma só vez e fui em direção à saída sem pronunciar nenhuma palavra:

___Aonde você vai, Duda?

Virei, respirei fundo:

___Vou em casa tomar um banho e volto para passar a noite com a Clara.
___Não há necessidade...

Não deixei minha amiga completar:

___Eu venho passar a noite com minha mulher – a fuzilei com os olhos.

Ninguém disse mais nada, saí e quando entrei no carro, desandei a chorar novamente, depois de alguns minutos ouvi leves batidas no vidro do carro, olhei e era a Dani, destravei, ela entrou:

___Vem pra cá, eu te levo em casa.

Não tentei relutar, sai do carro e fui para o banco do carona, sentei, liguei o som, voltei a chorar e lembrar desde o momento que recebemos o resultado positivo da gravidez da Clara até aquela manhã que eu a deixei em casa. Quando dei por mim estávamos na garagem de casa, assim que entramos, fui para o quarto, mas quando passei pelo que seria o do João, parei na porta e fiquei olhando para dentro dele, suspirei:

___Vai tomar seu banho, irmãzinha – Dani disse suavemente.

Depois de quase uma hora debaixo do chuveiro chorando, saí um pouco melhor e já arrumada para ir para o hospital. Encontrei a Dani na cozinha:

___Encontrei algumas coisas na geladeira e esquentei para a gente porque estou morrendo de fome – sorriu.

Não consegui não sorrir da tentativa da Dani em me fazer me sentir um pouco melhor, não resisti e a abracei... Ficamos vários minutos naquele contato, me afastei dando um estalado beijo em seu rosto:

___Te amo, grandona.

 

 

51. Distância dentro de casa

 

Eu estava preparando um jantar surpresa para a Clara, eu tinha ido a Portugal para participar de mais um congresso, fiquei cerca de dez dias fora de nossa casa, estava louca de saudades da minha esposa... Deixei tudo pronto, tomei meu banho e fiquei na sala respondendo uns e-mails pelo lap top... Ela chegou por volta das 22h:

___Oi Duda, não avisou que estava chegando hoje...
___Queria fazer surpresa, estava com saudades, amor – fui a seu encontro para beijá-la, mas ela virou o rosto.
___Não Duda, pára com isso – se afastou de mim – estou exausta.
___Claro que você está exausta, sai de casa às 7h e retorna às 22h.
___O que você está querendo dizer com isso?
___Eu não quero dizer nada, eu já disse. Não há necessidade de trabalhar tanto, Clara. Você é a primeira a chegar naquela empresa e a última a sair. Nem seus sócios fazem isso.
___Eu preciso ocupar a minha mente.
___Pra que toda essa dedicação? Para tentar esquecer que perdemos um filho?
___Não, nós não perdemos um filho, mas sim, eu perdi um filho.

Olhei para ela incrédula, já havia desligado o PC e estava em pé na sala, totalmente inquieta, mas uma vez estávamos discutindo pela perda do nosso filho que agora ela estava com essa novidade de filho só dela.

___Eu o amei como se fosse meu também – disse num fio de voz.
___Mas, quando ele morreu, não agiu como se realmente o tivesse amado.
___O que você queria de mim, Clara? Que eu entrasse em depressão, que eu deixasse de fazer minhas coisas, que deixasse de me preocupar com a gente? Que deixasse de trabalhar? Tudo isso para chorar a perda do SEU filho? – aumentei ainda mais o tom de voz para pronunciar a ultima parte da ultima frase.
___Pelo menos demonstrasse o que estava sentindo.
___O fato de não chorar, de não me entregar ao desprezo, não significa que eu não estava sofrendo. Eu só não queria passar isso para você porque sabia o quanto que isso estava doendo dentro de você.
___Precisava mandar desarrumar o quarto dele?
___Me diz para quê que eu ia deixar um quarto de uma pessoa que não está entre a gente? Clara, você ia sofrer ainda mais com essas lembranças. Eu queria diminuir o seu sofrimento. Ou você acha que retirar tudo daquele quarto foi fácil para mim?
___Eu não acho nada, a única coisa que tenho certeza é que isso ainda dói muito. Queria que você estivesse comigo.
___Mais, Clara? Me diz quantos convites de congressos eu recusei? Quantos convites de novas pesquisas eu recusei? Quantas palestras aqui em Salvador mesmo você me viu e ouviu recusar? Me diz, quantas? Inúmeras, não foi? Sabe por quê? Porque eu queria estar ao seu lado todo esse tempo, mas pelo visto não valeu a pena.
___Você recusou porque quis.
___Você não me pediu para recusar, mas se tivesse feito, eu concordaria mesmo assim.
___Como eu fiz com a minha mãe?

Mais uma vez não acreditava no rumo da conversa.

___O que aquela imbecil tem haver com isso?
___Nada.
___Olha, sabe de uma coisa? Para mim chega, Clara. Tem sete meses que o SEU filho morreu, tem sete meses que você passou a se dedicar totalmente ao seu trabalho, tem sete meses que você mal me beija, alias, de um tempo para cá, nem isso. Quando tento te abraçar na hora de dormir, você se afasta, tem sete meses que você está me desprezando, tem sete meses que você jogou nosso casamento para o ar – ela ficou quieta, lágrimas caiam dos seus olhos, a segurei pelos braços, a sacudi levemente pelos ombros – acorda, Clara. Desse jeito, por maior que seja o amor que sinto por você, nosso casamento não vai durar mais nada e não estou só falando de sexo, estou falando da sua falta de atenção, sua falta de carinho... Acabei de voltar de uma viagem de trabalho, passei dez dias fora, em um outro país e você nem perguntou como foi, se eu estou bem, você não me ligou um dia sequer, era sempre eu que ligava – mais lágrimas caíram do seu rosto, soltei seus braços, procurei minhas chaves.
___Aonde você vai?
___Acho que está um pouco tarde para você perguntar isso, não?

Ia pegar as chaves do carro, mas desisti e peguei as da moto; peguei o capacete, meu mp5 e bati a porta com força, tirei a placa da moto – eu tinha como conseguir depois um novo lacre – coloquei os fones no ouvido no máximo volume, o capacete e arranquei usando toda a potência do motor – eu havia comprado uma nova moto assim que retornamos ao Brasil.

Uma forte chuva começou a cair na cidade, mas eu não conseguia parar em lugar nenhum, eu não queria parar... Fiquei horas rodando por Salvador, meu celular vibrava insistentemente em meu bolso, retirei e joguei na primeira lata de lixo que encontrei pela frente. Quando dei por mim, o dia estava clareando, mas a chuva insistia em cair, muito mais fraca. Parei no primeiro posto de combustível que vi e entrei na loja de conveniência, a mulher do caixa olhou assustada para mim, fingi que nem vi, peguei uma garrafinha com água, paguei e saí.

Só voltei para casa no final da tarde, entrei ainda com as roupas muito molhadas, pois a chuva não havia parado, a Clara estava falando com alguém no telefone, nem prestei atenção na conversa, fui direto para o quarto, peguei minha toalha, uma calcinha e uma camiseta e fui para o quarto de hóspedes, tomei um banho quente e demorado... Assim que terminei fui na cozinha para comer alguma coisa, a Clara estava lá já com alguma coisa no prato e me entregou:

___Obrigada – sentei a mesa.
___Podemos conversar? – ela perguntou suavemente.

Levantei meu olhar, sustentei o seu por alguns segundos:

___Só depois que eu acordar – me limitei a dizer.

Terminei de comer, a Clara continuava ali na cozinha, eu sentia que ela queria falar alguma coisa, mas eu não estava em um bom estado para ter qualquer tipo de conversa. Levantei, lavei meu prato e fui para o quarto de hóspedes, deitei, mas não consegui dormir apesar do enorme cansaço. Fui para o nosso quarto, ela estava lendo alguma coisa que eu não consegui ler o título por causa do sono. Deitei e apaguei.

Acordei no outro dia às 13h louca de fome, tomei meu banho e fui direto para a cozinha, percebi que estava sozinha em casa. A Clara deixou um bilhete informando que tinha ido resolver umas coisas e que voltaria no início da tarde, ou seja, a qualquer momento. Comi e deitei no sofá, acabei cochilando de novo e senti os lábios da Clara sobre os meus numa suave carícia, abri os olhos, ela sorriu e se afastou:

___Conversamos agora? – sentou-se no mesmo sofá que eu, mas de frente para mim.
___Sou toda ouvidos, o que me incomoda eu já lhe disse na quinta-feira.
___Primeiro quero lhe agradecer por abrir meus olhos e ver que eu estava acabando com o nosso casamento, coisa que eu não quero nunca, se não fosse por você, eu estaria naquela vida medíocre de antes: trabalhava em uma coisa que gostava, mas não estava feliz. Viajava muito, mas não tinha ânimo para voltar para casa, nunca fiquei com ninguém por tanto tempo, nunca ninguém teve tanta paciência comigo, nunca ninguém me amou tanto a ponto de se tornar uma pessoa romântica, mudar seus hábitos para me agradar, nunca ninguém prestou tanta atenção em mim, nas minhas manias, no que gosto, no que não gosto. Nunca ninguém fez tudo o que pedi na cama sem algum receio... Na realidade, eu nunca amei ninguém até você aparecer em minha vida, Eduarda. Passei a amar mais meus irmãos, meu pai, soube distinguir o que é amigo e conhecido. Passei a dar mais valor às coisas que conquistei, não em termos materiais, e sim sentimentais – suspirou, me olhou durante alguns segundos – me dá uma nova chance, amor. Sei que errei esses sete meses, não deveria descontar a minha raiva, a minha tristeza em cima de você, logo você que fez de tudo para me agradar, que fez de tudo para arrancar um sorriso de mim. Eu sei que você amou muito o NOSSO filho, desde o dia que decidimos tê-lo, antes mesmo de fazermos a inseminação.
___E a Regina?
___Não sei, para mim ela não existe mais. Sei que não deveria ter passado isso na sua cara, se eu quisesse poderia muito bem ficar com ela e não com você, mas ela me abandonou junto com meus irmãos, tentou matar meu sogro e ameaçou a mulher que eu amo.

Levantei do sofá. Não vou negar que tudo o que a Clara me disse me balançou, mas o que escutei dela na quinta-feira doeu e doeu muito, principalmente quando ela se referiu ao nosso filho como somente dela, mas como por mais chateada que eu esteja, não consigo guardar mágoa, principalmente da Clara, eu precisava de um tempo para absorver todas aquelas informações. Fui ao quarto e vesti um short:

___Aonde você vai?
___Não demoro, só vou dar uma volta.

Não peguei as chaves da moto e nem do carro, fui a praia, sentei na areia e fiquei pensando em tudo o que escutei da Clara desde a quinta-feira que foram coisas horríveis até aquele dia que ela se mostrava totalmente arrependida de tudo o que fez... Vi o sol de por, lembrei da primeira vez que vimos o por do sol juntas no Solar do Unhão, sorri com essa lembrança e quando o céu já estava totalmente escuro, resolvi ir para casa, para minha casa, para a mulher que eu amo.

Quando cheguei em casa, a Clara estava no telefone como no dia anterior quando cheguei, nem tentei adivinhar quem era. Puxei a minha mulher pela cintura e a beijei apaixonadamente, tomei o aparelho da mão dela – sem afastar nossas bocas – encerei a ligação e joguei o aparelho em algum lugar que não me dei o trabalho de olhar. Continuamos com os beijos, minha saudade daquela boca, daquele corpo era tamanha que acabei rasgando suas roupas na tentativa de tirá-las – ela estava com uma camisetinha de botão e um short de malha fria – ela sorria divertida com meu desespero, mas fazia o mesmo com as minhas roupas... Vi que o quarto estava um pouco longe da gente, encostei-a na parede, ela passou uma das pernas ao redor da minha cintura, penetrei-a com dois de meus dedos, ela soltou um gemido delicioso, o que estava louca de saudade de escutar... O que me deu um estimulo a mais para aumentar o ritmo do vai e vem... Senti o corpo da Clara começar a estremecer, ela cravou as unhas em minhas costas, mordeu meu ombro, senti os seus músculos se tencionarem e relaxarem logo depois... Retirei meus dedos de dentro dela, escutei mais gemidos, peguei sua outra perna e levantei para que ela transpassasse minha cintura, levei-a até o nosso quarto, ficamos trocando carinhos até recuperarmos o fôlego para reiniciamos nossa maratona de prazer. Foi a noite inteira assim... Minha esposa estava insaciável como sempre, a saudade que tínhamos uma da outra fazia com que a gente não quisesse parar.

O dia já estava claro, mas o sol não penetrava as cortinas do nosso quarto, tínhamos noção do tempo através do meu relógio de pulso: 8:14h. A Clara estava com a cabeça apoiada em minha barriga:

___Amor?
___Humm – resmunguei.
___O que você acha de passarmos 10 dias em Fernando de Noronha e sem avisar a ninguém?
___Adorei a parte do “sem avisar a ninguém” – ri – mas, esses dez dias serão só nossos mesmo? Não tem nenhum evento por lá?
___Só nós duas – levantou e se aninhou em meu corpo com o nariz enterrado em meu pescoço – na quinta-feira nós fizemos seis anos que nos conhecemos e eu estraguei tudo, tenho que recompensar – disse voltando a me beijar e reiniciamos nossas carícias e terminamos em mais alguns gozos.

 

 

52. Enfim, o fim.

 

___Du...da

Ouvi uma vozinha de criança que estava aprendendo a falar, virei e vi o Gui segurando a mão da Clara e tentando vir em minha direção, dei meu sorriso mais largo, mais satisfeito... Ajoelhei-me para tentar ficar na sua altura, abri meus braços e ele tentava andar até a mim, a distância era bem curtinha... Ele, inteligente como era, olhou para a Clara, sorriu, ela sorriu de volta, soltou sua mão e eu estiquei a minha.

___Só vou aceitar o abraço se você vir até a mim – sorri.

O Gui foi andando lentamente, primeiro segurando-se ao sofá. Era perceptível a sua força de vontade de ir ao meu encontro... Quando faltavam uns três passos, ele resolveu correr e ameaçou cair, mas o segurei antes disso abraçando-o e beijando-lhe a face, ele apertava ainda mais o abraço quanto mais tempo ficávamos daquela forma:

___Estava com saudade desse abraço gostoso.

O Gui afastou-se um pouco de mim, fez um carinho em meu cabelo e sorriu lindamente com seus dentes pequenininhos, suas covinhas, seus olhos castanhos que fechavam sempre que sorria... Era lindo, muito lindo. Beijei sua testa, carreguei e fui falar com a Sophia que estava ao lado da Clara esperando seu abraço também com o sorriso lindo:

___Não vou ganhar seu abraço?

Abaixei para que ela pudesse me abraçar tão apertado e tão saudoso quanto o Gui, lágrimas desceram dos meus olhos, pois só naquele momento que minha ficha caiu, coloquei os dois sentados no sofá:

___Sei que os dois sentiram minha falta, mas tenho uma proposta a lhes fazer. – sorri. Os olhinhos dos dois brilhavam, pois sabiam que minhas propostas eram pra lá de tentadoras. – Hoje vou sair com a mãe de vocês, mas prometo que amanhã nós quatro vamos à farra com direito a pipoca, chocolate, sorvete, batata frita e mais o que vocês quiserem mesmo que ela – apontei para a Clara – não deixe. O que acham?
___Êbaaaaa

Escutei a Sophia gritar e pular de alegria, foi correndo me abraçar a beijar ajudando o Gui a levantar-se do sofá para poder fazer o mesmo:

___Mas, primeiro quero saber se vocês cuidaram da mãe de vocês direitinho como combinamos.
___Claro que cuidamos, né Duda? Ou você acha que eu ia deixar nossa mãe tristinha porque você ficou longe tanto tempo por causa do seu trabalho?

Sorri e procurei a Clara com os olhos, ela sorria lindamente e balançou os ombros como se dissesse que ela não tinha nada a ver com aquilo:

___Bons meninos, agora vamos para o banho porque daqui a pouco a avó de vocês está chegando para passar a noite aqui. Quero que cuidem dela também, estamos combinados?
___Vamos cuidar dela direitinho, né Gui?

Ele balançou a cabeça em sentido afirmativo sorrindo largo e abertamente... A campainha tocou, a Sophia foi abrir a porta e escutamos um sonoro:

___Vóóóóó

Minutos depois vi minha mãe entrar na nossa sala, nos falamos e ela foi levar os meninos para tomar banho:

___Será que agora posso falar com a minha mulher?

Sorri e fui em direção a minha esposa:

___Você sabe que se eu não falar com eles primeiro, ficam emburrados a noite inteira, né?

Beijei a Clara apaixonadamente e ficamos nos curtindo por alguns minutos... Trocando beijos, carinhos, sentindo nossas peles, nossos cheiros até que percebemos que os meninos barulhentos ficaram em silêncio, fomos ver o que tinha acontecido e simplesmente já estavam dormindo: o Gui abraçava a Sophia. Minha mãe estava terminando de cobri-los com o lençol, entrei, beijei os dois e juntos soltaram um pequeno suspiro, sorri e saí do quarto deixando somente a luz do abajur acesa, mas ainda fiquei na soleira da porta do quarto observando-os. A Clara me abraçou por trás e apoiou o queixo em meu ombro:

___Estavam ansiosos por sua chegada – beijou meu ombro – e eu também estava louca de saudades já.

Sorri e virei em direção a minha esposa, beijei suavemente seus lábios:

___Desde quando o Gui começou a falar?
___Desde hoje pela manhã quando acordou e lembrou que você chegaria agora a noite, qualquer barulho que vinha da rua era um “Du...da?”... Você precisava ver a carinha de decepção que ele fazia sempre que percebia que não era você.
___E como anda o tratamento dele?
___Ele está saindo-se muito bem, tem gente que nem percebe a síndrome... Ele está cada vez mais inteligente, cada vez mais esperto e parecido com você.

Acho que devo algumas explicações a vocês, não é verdade? Depois que perdemos o João, eu e a Clara resolvemos nos curtir mais um pouco, solidificar ainda mais nosso casamento e isso durou quase um ano quando decidimos novamente ter um bebê, nove meses se passaram e nasceu a Sophia: uma menininha linda, morena, olhar intimidador... Não sei até hoje como ela conseguiu: isso desde quando nasceu... Muitas características são da mãe, mas tem os cabelos cacheados, adora carros, motos, não pode ver uma moto que fica toda agitada... Fica super concentrada quando eu falo das minhas viagens, das minhas palestras; é uma menina super bem humorada e sapeca, deixa tanto a Clara quanto a babá doidinhas e se diverte quando percebe que tira qualquer uma das duas do sério e corre para que eu a proteja quando percebe que não tem mais jeito. Quando nossa menina estava prestes a completar dois anos, conhecemos uma senhora em Salvador mesmo; ela criava o neto, pois sua filha havia falecido na hora do nascimento dele e ela não tinha condições para criá-lo e nem de custear seus medicamentos e tratamento da síndrome; isso mesmo, ele tem a síndrome de Down e assim que me viu, abriu os braçinhos querendo que eu o abraçasse, carregasse e brincasse com ele. Foi amor a primeira vista, pouco tempo depois demos entrada na papelada para a adoção do Gui e logo em seguida a dona Fátima faleceu.

O Gui já estava conosco havia um ano e super feliz. O tratamento dele o ajudava a se desenvolver num ritmo um pouco parecido das crianças que julgamos ser normais, mas nosso filho era tão inteligente quanto a Sophia e isso era muito engraçado porque um gostava de proteger e ajudar o outro. A nossa filha ama o Gui e o defende de qualquer pessoa que tente fazer qualquer coisa contra ele, uma vez questionamos isso a ela:

___Ninguém além de mim pode magoar o meu irmão.

Foi uma resposta rápida e com um enorme sorriso sapeca que ela tinha nos lábios:

___Isso ela puxou a você – foi o que a Clara me disse no ouvido quando escutamos a resposta da nossa Sophia.

Sempre fizemos questão de deixar bem claro para os dois que eram irmãos e que era para um sempre cuidar do outro e que não podiam brigar em hipótese alguma. Se tivessem discordando de qualquer coisa, era só falar comigo ou com a Clara para resolvermos os quatro juntos.

O Gui ainda começava a falar, mas tinha atitudes de que entendia tudo o que explicávamos com ele. Sempre sorria abertamente e balançava a cabeça como se estivesse concordando e não repetia mais o erro ou fazia aquilo que pedíamos, tínhamos realmente dois filhos de ouro: a Sophia com quase quatro anos e o Gui com dois anos recém completados. Estava começando a dar os primeiros passos também, mas quando o fazia era com uma enorme segurança e isso crescia ainda mais quando era eu que o esperava do outro lado com os braços abertos para poder abraçá-lo e naquela noite que cheguei de viagem não foi diferente.

Eu já estava fora de casa há mais de quinze dias, estava louca de saudades dos meus filhos e da minha esposa, principalmente porque quando eu viajei, ela tinha acabado de retornar de uma viagem também de quase dez dias, nem conseguimos matar a saudade. Nosso contado naquele mês resumiu-se em ligações, msn e sms, coisa que estava me deixando irritada.

Eu estava no quarto, sentada na beira da cama, esperando a minha esposa terminar de se arrumar para podermos sair:

___Amor, o que você acha de passarmos alguns dias em Portugal? Matamos a saudade do pessoal que deixamos lá e é bom que nós tiramos férias já que não conseguimos esse ano ainda, nos curtimos um pouco e aos nossos filhos também.

Ela parou de pentear o cabelo, me olhou através do espelho e sorriu lindamente:

___Achei que você nunca iria propor isso.

Levantei e a abracei por trás, beijei seu pescoço arrancando-lhe vários arrepios:

___Vamos?
___Agora, porque se a gente demorar mais um pouco, juro que não saímos daqui. Você com toda essa provocação em meu pescoço – suspirou.
___Quando a gente voltar tem muito mais, mais de trinta dias de saudade.
___Sabe uma das coisas que mais gosto do nosso casamento?
___O que? – passei o nariz em sua nuca.
___Tantos anos juntas, casadas, nos vemos quase todos os dias, só não são todos os dias por causa do nosso trabalho, temos dois cansativos e lindos filhos, mas nossa amizade, nossa cumplicidade, nosso companheirismos e nosso tesão não mudaram em nada.
___Você acredita em vidas passadas?
___Alma gêmea?
___Não, não acredito que isso exista. Não existem almas gêmeas no sentido que normalmente se dá a esse termo. Não há um homem criado especialmente para uma mulher, uma mulher para um homem, homem para homem ou mulher para mulher. Essa idéia, usada para justificar paixões transitórias, é puramente humana e nada tem a ver com as informações dadas pelos espíritos superiores que revelaram a Doutrina Espírita. O objetivo de todos os espíritos é atingir a perfeição e nesse estado todos se reconhecerão como verdadeiros irmãos. Mas, acredito sim em vidas passadas e você sabe disso, acredito que a gente tenha se encontrado em outra, aliás, outras vidas e a gente vem vivendo nosso amor todos esses séculos, acredito em promessas feitas de forma sincera e cumpridas até os dias de hoje.
___Que tipo de promessa você está se referindo?

A Clara nunca soube da história de Aurélia. A fiz ficar de frente para mim, segurei sua cintura com ambas as mãos, beijei seus lábios de forma suave, olhei em seus olhos profundamente:

___Acredito que nós já nos encontramos há varias vidas passadas, nos apaixonamos de uma forma que nada e nem ninguém conseguiu nos separar e isso se tornou amor, prometemos de coração aberto que sempre estaremos juntas.

A Clara passou os braços ao redor do meu pescoço, sorriu de uma forma mais linda ainda, uma forma que eu nunca havia visto antes, eu me apaixonei novamente pela minha esposa:

___Eu te amo, Eduarda! Eu te amo mais do que ontem – a interrompi.
___E menos do que amanhã – ri – amor, isso é plágio.
___Ai amor, só disse a verdade.
___Não tem problema, continuo te amando mesmo você plagiando as autoras alheias – levei um leve tapa em meu ombro – ai amor, vou te denunciar na delegacia das mulheres, viu?

Percebi que a Clara ia responder alguma coisa, mas não deixei roubando-lhe um beijo carinhoso, explorador e desejado:

___Amor, temos que ir, as meninas estão nos esperando – disse dando leves beijos nos lábios da Clara.
___O que você está aprontando hein, dona Eduarda? E o que as meninas têm haver com essa nossa saída?
___Surpresa, vamos.

A puxei para sairmos do quarto, passamos por minha mãe, beijei seu rosto:

___Mãe, nós não temos hora para voltar, qualquer coisa você liga para o meu celular ou o da Clara, ta?
___Divirtam-se, faz tempo que não fazem isso – sorriu cúmplice para a Clara.
___Perdi alguma coisa?

A minha esposa segurou minha mão depois de despedir-se de minha mãe também e me puxou até a garagem da nossa casa:

___Se eu não tenho uma mãe, tenho que tornar a minha sogra uma, né?

Sorri, abri a porta do carro para que a Clara entrasse e se acomodasse do banco, fechei, dei a volta e entrei também:

___Isso quer dizer então que você anda trocando confidências com a minha mãe?

Ela riu gostosamente enquanto eu ligava o carro:

___Não fique com ciúmes dela, amor. Eu estava falando da saudade que estava de você, dos seus beijos, dos seus toques, do seu carinho, de fazer amor contigo, das nossas conversas até altas horas depois de fazermos amor, de dormir abraçada a você ou simplesmente quando você me abraçava em forma de concha, da forma que você lida com nossos filhos... Estava um pouco chorosa nesse dia.
___E o que ela disse?
___Não disse nada, colocou minha cabeça em seu colo e ficou me fazendo cafuné até que eu consegui dormir, aliás, disse uma coisa: que era para eu ter um pouco mais de paciência e que você estaria voltando amanhã, no caso hoje.

Parei em um sinal vermelho, apoiei meu cotovelo na porta do carro e a cabeça em minha mão, olhei para a Clara, fiquei admirando sua beleza e percebi que enfim eu estava feliz:

___O que foi, amor?
___Enfim eu tenho a família que eu sempre sonhei

O sinal abriu e segui em frente, a Clara pousou a mão esquerda em minha perna, apertou levemente, olhei para ela de relance, vi que estava sorrindo:

___Até que enfim vocês chegaram

Era a Dani já reclamando pela demora. Eu, ela e a Bruna havíamos combinado de fazer uma surpresa para nossa respectivas esposas, pois aquela era uma data muito especial para nós seis. Alugamos uma escuna para ficarmos mais a vontade, encomendamos o jantar, as bebidas, serviço de garçom e levamos um equipamento som que a Dani tem em casa, preparamos tudo para que as três mulheres gostassem.

___Ainda não começou a beber, né Dani?
___Ahh, vocês estavam demorando, resolvi beber só um pouquinho – chegou perto do meu ouvido – to nervosa, porra!
___Xiii, é a idade – ri as gargalhadas.
___Podemos saber o que tanto vocês conversam ao pé do ouvido? – a Cris pronunciou-se.
___Hei Cris, calma, sou amiga, aliás, irmã da sua mulher. Estou muito satisfeita com a minha Clara, ta?

Nós seis caímos na gargalhada, subi e ajudei a Clara a fazer o mesmo, a noite prometia ser muito agradável. Eu realmente estava muito feliz, estava entre minhas melhores amigas juntamente com a mulher que amo, minha mãe estava em casa cuidando dos meus filhos lindos, profissionalmente eu também estava muito bem, muito feliz, satisfeita com minhas escolhas. A ONG estava com muita credibilidade e tomando proporções internacionais, recebendo prêmios por conta dos projetos sócio-culturais.

Resolvemos jantar logo, já que todas já havíamos começado a beber... Algum tempo depois, todas nós já estávamos alteradas pela bebida:

___Vamos? – a Bruna pronunciou-se olhando para mim e para a Dani.

Levantamos juntas:

___Irmãzinha, por favor – Dani pronunciou-se no microfone me chamando

Decidimos as três tocarmos a música que mais marcou em cada um dos três relacionamentos. Primeiro veio a Bruna cantando “Diga que me ama” da Vânia Abreu, eu a Dani sempre no violão:

“Diga que me ama/ Seja minha guia/ Nossa travessia/ Nunca chega ao fim/ Guarde seu veneno/ Baixe suas armas/ Dê o seu sorriso só pra mim/ Vem fazer a festa/ No pátio lá de casa/ Diga que eu não presto/ Mas diga mesmo assim/ Me jogue na parede/ Me leve na garupa/ Que eu não tenho culpa de ser assim/ Diga que me ama/ Seja minha guia/ Nossa travessia/ Nunca chega ao fim/ Guarde seu veneno/ Baixe suas armas/ Dê o seu sorriso só pra mim/ Abra suas asas/ Deixe que eu te atenda/ A sua vontade/ É uma ordem para mim/ Vou fazer a cama/ Vou te dar amores/ Sem pisar nas flores do seu jardim”.

As nossas esposas eram só sorrisos, logo depois a Dani tocou comigo e cantou sozinha “Do outro lado” da Aline Muniz:

“Eu quis fazer, amor/ uma canção de amor/ pra ouvir você cantar/ cheia de rimas/ mas, só me veio que o povo corre atrás de dinheiro/ e um prato cheio faz um sorriso pra um dia inteiro/ e quando eu ando depressa/ pra poder te encontrar/ tem muita mão que me atrasa/ pra saber o que eu posso dar/ pra todo fim tem um meio/ tem muito jeito de amar/ tem dor que foge do peito/ pra ir morar n'outro lugar/ e quando você me abraça/ esqueço da vida dura/ que a gente não teve que passar/ do outro lado da rua”.

A Cris se desmanchava em lágrimas, olhei fixamente para minha Clara:

“Olhe nos meus olhos/ E diga o que você/ Vê quando eles vêem/ Que você me vê/ Olho nos seus olhos/ E o que eu posso ler/ Que eles ficam melhores/ Quando eles me lêem/ Eu leio as suas cartas/ Eu vejo a letra/ Meu Deus que homem forte/ Que me contempla/ Sou sua, mas não posso ser/ Sou seu, mas ninguém pode saber/ Amor, eu te proíbo/ De não me querer/ Olho nos seus olhos/ E sinto que você/ Faz eles brilharem/ Como astro rei/ Olhe nos meus olhos/ E o que você vai ver/ Seu rosto iluminado/ A lua de um além/ Eu leio as suas asas/ Borboletas/ Meu Deus que linda imagem/ Me atormenta/ Sou seu, mas eu não posso ser/ Sou sua, mas ninguém pode saber/ Amor eu te proíbo/ De não me querer”.

A Clara não chorou, mas era perceptível a sua emoção, sorria de uma forma linda, mais linda do que eu estava acostumada. Cada dia que passava eu achava que seu sorriso ficava ainda mais bonito e eu me apaixonava ainda mais por ele. Não consegui e nem queria resisti aquele olhar, aquele mar negro que eu sempre me perdia e beijei minha Clara demorada e apaixonadamente. Quando terminamos, passei meu braço esquerdo por trás da sua cadeira e ela apoiou a cabeça em meu ombro... A conversa fluía normalmente:

___Duda, minha cunhada favorita – sorriu – sua vez.

Ia levantar, mas resolvi falar o que queria sentada mesmo, só me afastei um pouco para ficar de frente para todas... Até havia tentado ensaiar alguma coisa, mas preferi discursar – imposição das outras duas – o que vinha em mente naquele momento:

___Rafa, quem diria que naquele dia que você me ligou me cobrando para nos encontrarmos, matarmos um pouco a saudade que tínhamos uma da outra, assistir o por do sol no Humaitá, tomar o sorvete da sorveteria da Ribeira, iríamos encontrar as mulheres das nossas vidas, hein? – desviei o olhar e encontrei o brilho negro da minha esposa – duas amigas se divertindo acabam encontrando duas irmãs indo pela primeira vez à cidade baixa e logo nesse dia nos conhecemos e alguns dias depois, conheço minha irmã e um ano depois ela se casa com a Cris e nesse dia eu estava com ela – disse em tom de brincadeira. Bom, há exatos dez anos eu conheci a mulher que conseguiu suportar minhas chatices, minhas manias, me ajudou a ser menos cabeça dura, me ajudou a em entrosar com meus pais e o melhor de tudo, me deu minha própria família do jeito que sempre sonhei. Sempre me apoiou, sempre esteve ao meu lado para o desse e viesse, largou tudo aqui no Brasil para alimentar um sonho que era meu, para ver o meu crescimento profissional e, conseqüentemente, o pessoal e depois de tantos desentendimentos que agora os vejo como tolos, mas que nos ajudou no nosso relacionamento, estamos aqui, comemorando dez anos que nos conhecemos, dez anos que estamos juntas, ah, claro que não posso esquecer que são dez anos de muito sexo e da melhor qualidade – todas riram e minha esposa ficou da cor de formiga, um charme a mais. Depois paro para pensar, minha melhor amiga é minha irmã e minha cunhada ao mesmo tempo, também está super feliz com sua família, enfim ela foi convencida pela minha cunhada que é bom ter uma criança em casa – sorri com a lembrança dos meus filhos. Grandona, êta que essa daí foi usada muito por mim quando eu e a Clara discutíamos e ela sempre tentando apaziguar a situação, há nove anos resolveu casar-se com a Cris. Olhe, abra seu olho porque seu filho está de olho da Sophia, viu? E se ele puxou a você, não o quero na minha família.

Todas nós rimos as gargalhadas e nesse momento os garçons entraram com três buquês de rosas cor de rosa entregando as nossas mulheres, começamos a olhar fotos nossas desses dez anos que nos conhecemos, foi uma noite perfeita, muito divertida mesmo.

Mais uma vez, eu, a Bruna e a Dani nos olhamos, sorrimos e tiramos do bolso os anéis que compramos para presentearmos nossas esposas e as carinhas delas foram lindas:

___Você continua a minha caixinha de surpresas favorita.

A Clara sussurrou em meu ouvido, virei meu rosto e ganhei um beijo delicioso, ela tentava parar, mas eu segurava e prolongava, sorria e continuava com a brincadeira.

Resolvemos ir embora por volta das 2h da madrugada e percebi pelo olhar da minha mulher que aquela noite não terminaria tão cedo, sorri com essa constatação.

___O que vocês vão fazer amanhã? – a Cris perguntou a gente.
___Amanhã é dia para meus filhos, fizemos um acordo dizendo que se eles nos deixassem sair hoje, já que eu tinha acabado de chegar de viagem, eu os levaria a farra amanhã: vou levá-los a praia pela manhã, vamos almoçar o que eles escolherem e depois vamos a Ribeira – sorri – tomar o velho sorvete.
___Podemos nos encontrar na Ribeira com as crianças, né? – a Rafa opinou.
___Eu acho uma ótima idéia, a pirralhada vai adorar esse encontro – concordei.
___Então está fechado, amanhã no final da tarde nos encontramos na Ribeira – a Dani deu o veredicto.

Despedimo-nos e fomos em direção ao carro novamente, abri a porta para a Clara se acomodar, dei a volta e quando entrei, bateu uma enorme alegria, liguei o som do carro e estava tocando “Gatas extraordinárias” da Cássia Eller:

”O amor me pegou e eu não descanso enquanto eu não pegar aquela criatura/ saio na noite a procura/ no batidão do meu coração, na pista escura/ se pego: ui, me entrego e fui/ será que ela quererá, será que ela quer, será que meu sonho influi/ será que meu plano é bom/ será que é no tom/ será que ela se conclui/ e as gatas extraordinárias que andam nos meios onde ela flui/ será que ela evolui, será que ela evolui/ e se ela evoluí, será que isso me inclui/ tenho que pegar, tenho que pegar, tenho que pegar, essa criatura/ tenho que pegar, tenho que pegar, tenho que pegar...”

Eu cantava alegremente, fazendo caras e bocas e a Clara ria muito com todas elas, nós estávamos finalmente felizes.

Quando finalmente chegamos em casa a minha Clara se transformou na ninfomaníaca que me fez apaixonar logo no primeiro orgasmo há exatos dez anos e ainda na garagem, logo depois que descemos do carro, ela foi me agarrando, querendo tirar minhas roupas e eu tentando impedi-la já que minha mãe estava em casa e nossos filhos também, mas teve um momento que eu não agüentei e ela sabia muito bem me provocar: encostei-a na parede e comecei a beijá-la ardentemente passando minhas mãos pelo seu corpo arrancando gemidos dela... Levantei seu vestido pela lateral e puxei sua calcinha de lado, mas fomos empurradas pelo peso do corpo de Fred – lavrador – que estava querendo brincar. Continuei com meus dedos onde estavam, parei – momentaneamente – de beijar a minha esposa para poder empurrar aquele cachorro gordo que só fazia comer e brincar, não parava o ritmo do vai e vem dentro da Clara, mas o Fred era insistente, o empurrei de novo:

___Pára Fred!

Ele olhou para mim e ameaçou pular na gente de novo:

___Molie – chamei a nossa cadela – dá um jeito nesse gordo empata foda.

Ela só fez olhar para ele e entraram novamente na casinha do casal, voltei a minha atenção para a minha esposa, ela segurava a minha mão direita, voltei a beijá-la e aumentei o ritmo do vai e vem, a Clara segurava meu braço com força, mordeu meu ombro para abafar um pouco o gemido e estremeceu o corpo, senti seu liquido escorrer pelos meus dedos... Ela ficou abraçada a mim ainda por alguns minutos tentando recuperar o fôlego, fiquei acariciando suas costas... Ela gemeu quando retirei os dedos de dentro dela, abaixei seu vestido, beijei-lhe a boca calma e carinhosamente:

___Adoro quando algo ou alguém tenta nos atrapalhar – sorriu – você consegue resolver o que tem para resolver, acabo ficando com mais tesão ainda e consegue me fazer gozar.

Sorri, segurei sua cintura e a empurrei com o meu corpo aos beijos para o nosso quarto, nos batemos em algumas paredes tentando chegar logo no nosso destino:

___Duda? Mãe?

Paramos de nos beijar imediatamente, vimos a Sophia na porta do seu quarto:

___Aconteceu alguma coisa, meu amor? – a Clara foi ao seu encontro.
___Não, só estou com sede – sorriu cinicamente e piscou o olho para mim de uma forma que a Clara não visse. Sorri também.
___Vai tomar seu banho, amor. Deixa que eu levo a Sophia para beber a água dela.

A minha esposa deu um beijo no rosto da nossa menina e foi para o nosso quarto, peguei a Sophia pela mão e levei-a até a cozinha, coloquei-a sentada na mesa:

___Já sabe que a Clara não pode saber que eu te ponho sentada na mesa, né?
___Deixa comigo, Duda. – sorriu, seu sorriso era igual ao da mãe.

Entreguei a água:

___Agora me diz: por que você fez isso?
___Isso o que? – tentou disfarçar.
___Não se faça de desentendida – me fingi de brava.
___Porque é divertido ver a cara que vocês fazem – riu as gargalhadas.

Constatei o que a Clara já havia me dito: aquela menina estava ficando igual a mim, adorava fazer gozação da cara dos outros. Sorri.

___Tudo bem, agora vem dormir que já está tarde – peguei-a no colo – nossa, ta crescendo, hein? Quase não agüento mais carregar você.
___Ahh Duda, pára com isso! Você agüenta carregar minha mãe que eu já vi e não agüenta me carregar?

Meu Deus! Aquela menina estava dando um baile em mim, sorri.

___Vamos, deixa de conversa e vamos dormir.

Levei-a até o quarto, deitei-a na cama, a cobri e saí. Entrei no meu quarto e vi a Clara já deitada, fui tomar meu banho e quando terminei, tirei o lençol que cobria a minha esposa e comecei a beijar toda a extensão do seu corpo a partir dos pés, subi pela panturrilha, coxas, bunda – aproveitei para morder – subi pelas costas – beijava e mordia também – cheguei na nuca, senti e vi seus pêlos se arrepiarem, ela gemeu:

___Ai amor, a Sophia esfriou meu ânimo
___Não é isso o que seu corpo me diz – sorri e continuei a beijar, morder e lamber sua nuca.
___E o que ele está dizendo?
___Que você está louca de tesão ainda e ansiosa para que eu te coma todinha

Virei seu corpo para que ela ficasse de frente para mim, beijei sua boca ardentemente:

___E como você vai me comer, hein? – ela perguntou entre os beijos e apertando minhas costas.

Desci beijando seu pescoço, seu colo... Quando fui em direção aos seus seios, ela me puxou de volta:

___Eu lhe fiz uma pergunta

Beijei novamente sua boca, ela tentava, mas não conseguia resistir, encaixei minha perna direita entre as suas e comecei e esfregar minha coxa em seu sexo, olhei em seus olhos:

___Bem parecido como no dia que nos conhecemos, mas bem mais gostoso. Quero você em todas as posições possíveis, tudo o que já fizemos nesses dez anos, quero você mais entregue do que nunca – aumentei o ritmo da dança dos nossos corpos, ela ameaçou fechar os olhos – olha para mim, amor – ela obedeceu – quero que você goze várias vezes em minha perna, em minha boca, em meus dedos, em nosso brinquedo – a Clara gemia ainda mais, arranhava minhas costas – quero você de quatro para mim, quero você na beira da cama – mais gemidos nossos – quero você na poltrona, quero você no chuveiro – seu corpo começava a estremecer – quero ter arranhões em minhas costas, quero mordidas em meu pescoço, em meu ombro – ela ameaçou me morder, mas capturei seus lábios antes – mas, não agora – abafei nosso gemido com o beijo, nossos corpos estremeceram juntos, gozamos juntas, amolecemos juntas...

Mas, a Clara não nos deu muito tempo para recuperarmos e iniciou as caricias fazendo com que gozássemos várias e várias vezes juntas de todas as formas que eu pedi. Naquela noite ela disse que eu ia mandar nela o tempo inteiro, coisa que nunca havia acontecido, era ela que quase sempre pedia as coisas e eu prontamente aceitava...

Estávamos nos recuperando de mais um gozo, naquela noite, tivemos vários e sem muito espaço para recuperarmos as energias, minha mulher estava num fogo só, olhei meu relógio de pulso: 5:37h. Por todas as energias que já havíamos usado, imaginei que fosse bem mais tarde... Senti a Clara levantar, abri meus olhos e a vi indo em direção ao nosso brinquedo que já tínhamos usado já varias vezes naquela noite, sorri, fechei meus olhos novamente... Minha esposa prendeu a cinta em mim, deitou sobre meu corpo sussurrando em meu ouvido:

___Sei que estamos muito cansadas – beijou meu pescoço – você acabou de chegar de viagem, gastamos muitas energias já – beijou minha boca e voltou para minha orelha – me come de quatro de novo, amor? – deu uma leve mordida em meu pescoço provocando vários arrepios, sorri.

Busquei seus lábios de encontro aos meus, nos beijamos como se a gente não tivesse gozado ainda, como se a noite estivesse apenas começando. Nossas carícias recomeçaram e mesmo estando por baixo da Clara, enfiei um dedo em seu sexo, constatei o óbvio, super molhada, retirei o dedo:

___Levanta, gostosa.

Ela já sabia o que eu queria, levantei junto e ela já foi ficando logo de quatro, penetrei o brinquedo em seu sexo para ajudar na lubrificação – mesmo usando a camisinha é sempre bom e ela adora quando faço assim –, retirei e coloquei no lugar esperado, ela gemeu alto, esperei que a Clara se acostumasse com o objeto dentro dela, segurei sua cintura e puxei para mim vagarosamente e aumentava o ritmo guiado por seus gemidos... Após algum tempo, senti seu corpo começar a estremecer e o meu estava indo junto... A minha mulher ficou de joelhos, mas ainda de costas para mim, mordi seu pescoço, ela passou o braço por trás da cabeça prendendo a minha, continuei com as mãos em sua cintura, puxando-a ainda mais de encontro ao meu corpo, em questão de segundos nós duas gozamos juntas...

A Clara caiu sobre o colchão, eu ainda de joelhos, retirei a cinta, levantei, lavei – por causa dos nossos filhos na manhã seguinte -, guardei e fui para debaixo do chuveiro:

___Amor, volta pra cama – a Clara fez dengo.
___Não amor, tô encharcada de gozo e se suor... Aproveita e vem aqui um pouquinho – sorri – prometo me comportar.

Minha esposa olhou para mim e fez como eu havia pedido, tomamos nosso banho regado a muitos beijos, carinhos e orgasmos, nós não resistimos. Assim que saímos do banheiro, me joguei na cama nua como sempre, a Clara veio logo atrás, aconchegou seu corpo ao meu e dormimos quase que instantaneamente.

 

***

 

___Mãããããee, Duuuuudaaa, acordem!

Por esse motivo que sempre que terminamos de usar nosso brinquedo tenho que lavar e guardar imediatamente... Senti dois corpos pequenos se jogando em cima de mim e da Clara, sorri ainda de olhos fechados:

___Meninos, deixem a gente dormir só mais um pouco, por favor! – a Clara tentou entrar em acordo com os dois.
___Não! Vocês prometeram levar a gente à praia, já estamos prontos – abri os olhos.
___Vocês já tomaram café?
___Não! Você disse que a gente ia escolher o que comer hoje. Eu quero batata frita.

Sentei na cama.

___Batata frita no café da manhã?
___Sim, não vai cumprir a sua palavra?
___Eu não disse que vocês poderiam escolher todo o cardápio de hoje, e sim o almoço e os lanches.
___Mas, eu não gosto de café.
___Sophia, deixa de ser chantagista – sorri – você nunca toma café no café da manhã.
___Ta bom – bufou – vem Gui, vamos tomar nossa vitamina – segurou a mão do Gui.
___Hei, aonde os dois pensam que vão sem dar o beijo de bom dia da gente? – a Clara protestou.

Eles deram o beijo da Clara e depois o meu, puxei os dois e comecei a fazer cócegas, quando não tinham mais força para tentar a defesa, parei.

___Isso é para os dois não ficarem emburrados comigo – sorrimos – agora vão tomar a vitamina que nós vamos tomar banho para irmos à praia.

Depois que os dois saíram do quarto, pulei em cima da Clara a pegando de surpresa:

___E você acha que vai escapar? Quero o meu beijo de bom dia também – sorri.

Ganhei meu beijo e sem desgrudar os lábios, puxei a Clara para o banheiro, acabamos nos amando ali mesmo... Assim que chegamos na cozinha, os dois já nos esperavam, tomei minha vitamina e a Clara o suco dela:

___Hei, os dois já escovaram os dentes? – a Clara parou no meio do caminho da garagem, não responderam, foram fazer o que faltava.

Na praia foi uma diversão só: a Sophia não parava quieta e queria que o Gui fizesse o mesmo e não deixando que eu e a Clara ficássemos paradas, toda hora pedia para fossemos com eles à água, brincássemos com os dois na areia fazendo castelos, esculturas e varias outras coisas, brincávamos de futebol também... Foi uma zoeira só:

___Meninos, vamos embora, o sol já está muito quente para vocês – a Clara estragou nossa praia.

Peguei o Gui no colo e a Sophia segurou minha mão deixando a Clara com as coisas deles. Quando chegamos em casa, só tomamos banho e trocamos de roupa e fomos com os meninos a um quiosque da Mcdonalds, porque foi a escolha da nossa menina e confirmada com o balançar de cabaça animado do Gui. Mais uma farra que fizemos lá e fomos direto para a Ribeira encontrar com as nossas amigas e a pirralhada.

Chagamos cedo e ninguém havia chegado ainda, mas nos ligaram dizendo que estavam a caminho, decidimos esperar mais um pouco para que todas as crianças se sujassem juntas e foi realmente isso o que aconteceu quando todos se reuniram: roupa, mãos, bocas... Tudo melecado de sorvete. Eu, a Dani e a Bruna sorríamos divertidas com tudo deixando nossas esposas chateadas com nosso “descaso”.

___Amor, fica tranqüila, deixa os meninos se divertirem. Em casa tomam banho.

Ela relaxou e deixou que as crianças se divertissem:

___Quero batata frita, mãe.

Foi a vez do Bruno – filho da Rafa e da Bruna – se pronunciar e todos os outros aceitaram a idéia... Depois que todos nós compramos, fomos sentar em uma praça que tinha perto, as crianças ficaram brincando por ali:

___É, gente! Quem diria nós seis reunidas no mesmo local que conheci a Clara e a Bruna e a Rafa se conheceram e hoje estamos com nossos filhos aqui, todos felizes da vida, se divertindo a valer e a gente com caras de bobas olhando – sorri olhando para a Clara e em seguida para a Sophia e o Gui.

Eu estava com os braços esticados no banquinho da praça e com as pernas cruzadas, a Clara apoiou a cabeça em meu ombro e ficou acariciando minha perna, virei para o lado e beijei sua cabeça.

O que aconteceu a seguir foi muito rápido e impressionante: como se tivesse aparecido do nada, vi uma mulher com uma aparência nada agradável – parecia uma moradora da rua – passar pela gente sem nos encarar, mas a Sophia ficou em sua frente, entregou o seu saquinho de batata frita e voltou para onde as outras crianças estavam. o Gui sorriu largamente e voltaram a brincar como se nada tivesse acontecido... A mulher olhou em nossa direção e sorriu, tive a impressão que já havia visto aquela criatura em algum lugar, mas minha memória me deixou na mão e ela seguiu seu caminho.

Fiquei algum tempo ali ainda tentando me lembrar de onde eu conhecia a mulher que a Sophia deu o seu saquinho de batata frita sem que ninguém mandasse ou a própria mulher pedisse, como se uma lâmpada tivesse sido acesa, Regina surgiu em minha frente, lembrei do seu sorriso que eu deformei sem querer... Percebi que a Clara não havia reconhecido a própria mãe, mas a nossa filha soube reconhecer a avó que tanto quis que eu e a sua mãe sofresse e ela nunca soube o real motivo que não a conheceu. Olhei para a Dani e ela sorriu de volta balançando a cabeça num sentido afirmativo.

Algum tempo depois, procurei saber sobre a Regina e descobri que ela havia sumido definitivamente depois que a Clara foi para Portugal, tentou roubar mais alguma grana da minha esposa, mas não conseguiu dela e de mais ninguém não restando nada mais do que as ruas para que ela morasse, pois até os outros filhos dela que estavam em Curitiba, viraram as costas para a mulher que os puseram no mundo... Ela quis se passar por esperta, mas foi a única que se deu mal em toda a historia.

Estávamos eu, a Clara e nossos dois filhos assistindo o por do sol no Solar do Unhão, - vários dias depois de voltarmos das nossas férias em Portugal – a minha esposa abraçada a minhas costas:

___Amor, estive pensando...
___Lá vem bomba – brinquei.
___Pára de brincadeiras e me escuta, amor.
___Sim, senhora – sorri e levei um pequeno beliscão dela na barriga.
___Por que você não escreve um livro relatando suas pesquisas em Portugal e depois que veio ao Brasil? Eu sei que você não tem tempo para falar sobre tudo nos congressos, mas no livro poderá falar como e o que quiser.

Virei em sua direção.

___É uma idéia a se pensar.
___É uma idéia para pôr em prática. Amor, você escreve e fala super bem, tem muitas pesquisas feitas e pouco tempo para expor, então você tem que escrever esse livro – ela estava conseguindo me convencer – olha, faremos o seguinte: você escreve e não precisa se preocupar com mais nada: eu mando revisar, entro em contato com editoras, organizo o lançamento e tudo o que mais precisarmos.
___Então a senhorita quer ser minha empresária?
___Quero passar mais tempo com minha mulher e ajudá-la a concretizar seus sonhos que ainda não foram possíveis.
___Proposta aceita.

Como presente, ganhei um sorriso lindo da minha esposa, beijei levemente seus lábios, virei novamente de costas para ela, minha Clara me abraçou mais uma vez e terminamos de assistir o por do sol, o Gui e a Sophia pararam de brincar e sentaram-se ao nosso lado:

___Muito obrigada pela família que você me ajudou a construir – apertou nosso abraço – te amo. - sussurrou em meu ouvido.

 

 

Fim