Por Louise

Lara Lunna

 

 

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O SEGREDO DE LOUISE


Quando a Delegada abraçou fortemente Victória, esta sentiu um abalo sísmico sob seus pés, mas aguentou-se em pé galhardamente. Nem em suas mais alucinadas fantasias sobre o momento que poderia reencontrar Louise, Victória fantasiou que ela viria pilotando um helicóptero e depois a abraçaria ardorosamente diante de muitos pares de olhos surpresos.

O abraço prolongava-se por longos minutos e atordoada, Di Angelis avistou alguns rostos próximos e suas expressões. Ana Beatriz aparentava estar a ponto de sofrer um colapso e o rosto de Antonio, apesar de sereno, exibia uma espécie de resignação ou desilusão contida.

Mestre Takahishi apenas emitia risinhos curtos enquanto suas mãos continuavam a dobrar um origami.

Quando o abraço se desfez, Louise retirou da mochila uma espécie de arca de madeira, esculpida finamente e a entregou nas mãos da aniversariante.

-O meu presente para você. Quero que abra a arca quando estiver sozinha e disponha de tempo para ler e refletir. Guarde-a em lugar seguro.
-Jour, Jour... - era só o que Victória conseguia dizer.
-Preciso ir embora, mas antes quero que me prometa que guardará segredo de tudo o que ler.
-Eu prometo!
-Aí guardo minha vida, Victória, e agora toda minha esperança!

Ela voltou-se em um gesto brusco para se afastar, mas Di Angelis reuniu forças para detê-la.

-Porque não me escreveu? Ou ao menos ligou?
-Eu escrevi da Europa. Três cartas na verdade, mas elas foram interceptadas e eu não soube a tempo. (ela encobriu o que Victória intuiu: Julia destruiu as correspondências da mãe) Depois, estou com alguns assuntos pendentes no Brasil que não posso protelar, além de que, Roulien está sofrendo de Leucemia!

Os olhos delas agora irradiavam dor contida.

-Roulien? Quem é Roulien? - inquiriu Di Angelis sentindo o ciúme e a raiva aflorarem intensos.
-Roulien é o rapaz das fotografias, que você e Antonio pensam que é meu amante. Ele tem 20 anos, possui a idade mental de um garoto de dez e... é meu filho.

 

 

"Amara Est Veritas."
A verdade é Amarga

 

-Seu filho? - Victória balbuciou atônita... Um filho com vinte anos?

Ela lambeu os lábios ansiosa pensando que havia algo ali a ser decodificado e dependendo de uma reação incauta, poderia colocar aquele pássaro raro e arisco em fuga. Borbulhava em si uma gama de sentimentos conflitantes.

'Ela está sofrendo pelo filho'; 'Julia interceptou as cartas, mas Louise não é ingênua para permitir ser ludibriada pela filha todo este tempo'; 'não se esforçou o suficiente para estar por perto'; 'por que ocultou de todos o filho excepcional?'; 'por que agora está me revelando isso?'.

-Aproxime-se, a carne está no ponto e nossa equipe entusiasmada com a sua visita surpresa! - Edgar convidou, colocando suavemente seu braço roliço e peludo sobre os ombros dela.

Di Angelis desejou morder a carne adiposa do bom Edgar Meirelles, mas refletiu que podia ser uma boa alternativa engendrar a "Jour" entre os convivas de forma a retê-la no local um pouco mais.

'O Helicóptero. Uma viagem solitária e rápida. Da cidade para o sítio é preciso 40 minutos de carro, o que seria correto afirmar que ela não desejou dispor deste tempo, logo... ela chegou de viagem há pouco'.
 
Olhou para as mãos que fechavam com força a pequena arca. Louise foi categórica ao lhe pedir todo cuidado com o "presente" que lhe entregava.

Avistou a Delegada conversar rapidamente com cada membro da equipe Neblina, antes de acompanhar Edgar para o interior da casa principal.

-É melhor a gente ir "guardando a viola no saco" porque o anfitrião se fechou em uma reunião de urgência com a Bittencourt! - anunciou Edgar, sorrindo suavemente para Victória.

Ana Beatriz acercou-se de Leandro.

-E você Leandro nem nos avisou da visita surpresa de sua irmã!
-Eu não sabia. Ontem conversei com ela pelo celular e Louise ainda estava para embarcar no voo Londres / São Paulo. Ela não me avisou que quando chegasse viria direto para cá... - o rapaz respondeu com uma careta de aborrecimento. Já não lhe bastava ficar à margem das atividades da irmã e ainda receber cobranças. A semana anterior fora agitada na administração da empresa. Louise por intermédio de seus advogados demitira todo o alto escalão de administradores, diretores e alguns funcionários além de mover uma auditoria no grupo. Manteve apenas Leandro e um velho amigo da família, o Euclides Farias. Sabia-se que ela retornaria breve ao Brasil para reestruturar a direção da empresa, nomear e contratar novos diretores.
-Ela vai voltar à ativa no Oitavo Distrito? - Beatriz continuou o interrogatório.
-Não! Ela vai se aposentar. - ele respondeu ríspido.
-Aposentar?

A exclamação de Beatriz ecoou na voz dos policiais próximos, incluindo Victória.

-É isso. Vai assumir a direção do Grupo Soleil pessoalmente.
-Uma atitude inteligente se considerarmos que "a traição" no caso do sequestro, veio da parte de "ratos" que se encontravam alojados dentro da estrutura da empresa. - concluiu Agnaldo.

Iniciaram a discutir o assunto, enquanto Victória se colocava a um canto, pensando se esperava o término da conversa particular do Edgar com Louise ou tomava uma atitude invasiva.

O ruído do motor do helicóptero decidiu o impasse. Louise já estava alçando voo novamente para destino desconhecido. Distraídos em confabular sobre os últimos eventos, o grupo remanescente não percebeu quando a Delegada tornou a descer a escada de pedra semioculta pela vegetação circundante até o aparelho.

-Vamos embora? - convidou Ivy Mayakovich, interrompendo a reflexão da policial. - Pode me dar uma carona?

Victória titubeou por um momento. A última coisa que desejava naquele instante era ter companhia. Seu plano não era de ir para a cidade e sim procurar seu refúgio na serra e para tanto queria estar sozinha.

-Vou para outro rumo!

Leandro aproximou-se sorrindo timidamente.

-Se necessita de uma carona, pode descer comigo! - ele ofereceu para a loira.

Ivy lançou seu olhar felino em Victória mais uma vez.

-Talvez eu esteja me cansando de estar disponível para você! - falou com raiva em voz baixa de forma que somente Victória a ouvisse.

Di Angelis sorriu amargamente.

-Não se cansará! Você, como eu, aprecia um jogo difícil. Conquistas fáceis nos entediam.
-Entendi! Eu estou sendo fácil. Acho melhor dificultar o jogo!
-Nem tente! Para nós o jogo acabou.
-Talvez não tenha acabado só para nós. - Ela retrucou.

A ucraniana voltou-se para Leandro e sorriu, aceitando a carona. O rapaz esperava atordoado, pois acabara ouvindo pequenos trechos da conversa, sem entender o que acontecia de errado entre as duas ou qual motivo para o desentendimento.

No ninho da serra, Victória colocou o baú de madeira esculpida sobre a mesa e fitou-o sem coragem.

-Ela disse que guardou aqui, sua vida e esperança!

Abriu a arca e encontrou vários papéis dobrados. O que estava acima tinha aspecto novo e possuía em relevo seco, as iniciais de Louise.

Desdobrou o papel com as mãos trêmulas e iniciou a leitura. Deitara-se na ampla cama do quarto principal e a noite há muito já descera. As letras traçadas em caneta tinteiro tinham a elegância e mobilidade como se tivessem sido marcadas a golpes ligeiros do florete.

"A verdade é amarga..." - Eram as primeiras palavras.

Da leitura, assimilada com sofreguidão, as frases, orações saltavam, diluíam ou destacavam-se como preenchidas de néon. O marco zero: A morte trágica da mãe. Ela descrevia o evento com frieza técnica de um criminalista avaliando um evento indesejável na sociedade. A motivação do latrocínio: as jóias. O homicídio da rica empresária e tentativa contra a filha: motivo torpe acentuado pela ingestão de drogas. Depois o casamento forçado com Alberto Villa Nova, sócio do pai.

O poderoso empresário trinta e dois anos mais velho que Louise, molestava sexualmente a jovem esposa. As orgias privativas na grande propriedade que residiam em Nice, eram famosas na época e ele a forçou a participar de práticas degradantes e vis. Controlava-a sob a ameaça de que arruinaria totalmente seu pai, o que era verdade, pois este afundara-se em dívidas, negócios arriscados e o esposo de Louise lhe emprestara uma pequena fortuna a juros exorbitantes.

"Um objeto imundo" - foi a designação que ela se deu, quando ainda mal completara 17 anos. Vinte dias depois de seu décimo sétimo aniversário, ela o matou. Na noite do crime, insurgira-se contra seu algoz que após espancá-la brutalmente, arrastou-a pelos longos cabelos pela propriedade até o pequeno cemitério da família, trancando-a dentro da cripta fria e escura onde estavam os corpos de três gerações dos "Villa Nova". Ela não só escapou do local como, com um punhal na garganta de Alberto, forçou-o a se enforcar na viga mestra da estrutura do celeiro. Ela o empurrou de sobre a cerca de madeira e ficou contemplando sua agonia lenta, pois o laço não foi capaz de destroncar-lhe o pescoço no tranco inicial.

"Ele não reagiu à ameaça do punhal, pois acreditou que não teria coragem de levar a cabo meu intento, ou mesmo, estava apenas tentando intimidá-lo. Não posso esquecer a expressão de surpresa e medo quando o empurrei e o corpo dele oscilou preso à estrutura"...

O "suicídio" do poderoso senhor de Villa Nova foi amplamente noticiado, mas enfim esquecido. As autoridades locais não se esforçaram o bastante no caso. O devasso magnata já havia molestado algumas mulheres na região e granjeado inimizade entre os policiais a quem manipulava e ameaçava. Na verdade, apenas uma pessoa sabia com certeza que não se tratava de suicídio: Tereza, a criada que a acompanhara desde quando ainda era menina.

"Mulheres quando matam, costumam envenenar. No caso daquele miserável, na época acreditei que a forca era o castigo apropriado" - anotou.

Viúva, herdou a fortuna de Alberto e iniciou a reconstruir as empresas da família paterna e materna. Louise não escreveu sequer uma linha sobre o destino do pai.

Roulien nasceu fruto de um de seus inúmeros casos amorosos, pouco antes que se casasse com o pai de Júlia e voltasse ao Brasil.
 
A gravidez fora difícil e quando ela soube do diagnóstico de que complicações no parto acarretaram lesões cerebrais severas no bebê, ela o deixou em uma instituição especializada na Europa.

"Não conseguia amar aquela criatura imperfeita, fruto de um amante ao qual nem ao menos conhecia o nome. Não poderia amar ninguém. Antonio Di Angelis, a paixão da adolescência fora a única referência ao amor que ainda era válida e não causava asco".

O telefone tocou e Victória quase despeja o conteúdo da caixa no chão.

-Alô? - interpelou com o coração pulsando forte.
-Victória, é Adrianna. Eu e Liz estamos preocupadas porque você está sozinha na casa da serra.
-Está tudo bem aqui, Dri.
-Se precisar de alguma coisa, tem nosso celular. Pode avisar se decidir sair do "ninho"?
-Sim, se decidir passar o fim de semana em qualquer outro lugar, ligo avisando, Certo?. - concordou Di Angelis.

Compreendia a genuína preocupação delas, afinal, agora que estava afastada da corporação, estava livre e com tempo de sobra para se "maquinar e se meter em mais encrencas" e aquelas duas amigas tão importantes na sua vida, se preocupavam com seu bem estar. Certamente elas farejaram algo no ar.

-Mais uma coisa, Dian, lembre-se daquela nossa longa conversa. Você não pode consertar o sistema, o planeta e não é imortal. Além do mais, a sorte pode virar e uma segunda chance só é oferecida para que reflitamos e aprendamos com ela.
-Não se preocupe, Dri, minhas costelas doem só em abrir a geladeira. Estarei fora da parada por alguns dias e até lá, fazendo uma auditoria na minha vida.

Desligaram e Victória levantou-se e foi mexer um achocolatado no leite para amainar a fome e poder voltar à "caixa de Pandora".

Lá havia fotos da "Jour" na academia de Polícia Civil; fotos com a pequena Julia no colo. Em todas elas, no rosto da bela mulher de grandes olhos claros, não havia vestígio da "assassina de Nice" ou mesmo da mulher amadurecida na tortura, humilhação e degradação física e psicológica. Entretanto, não havia sorrisos, nem o leve insinuar de um deles.

"O amor é um sentimento vazio, mentiroso. Química volátil"...

A frase marcava a descrição do segundo casamento com um homem doce e carinhoso, mas com a personalidade fraca, além de possuir um quadro familiar de doenças mentais importante. O pai e um irmão, esquizofrênicos, estavam internados há mais de uma década no sanatório de Indaiatuba, interior de São Paulo.

No período entre o casamento e o enlouquecimento do segundo marido, Louise tivera dois amantes. Não conseguia ser fiel e alcançar a saciedade sexual em qualquer relacionamento. Um destes homens era o pai de Júlia.

"Sexo, uma necessidade orgânica necessária e execrável. Uma troca de fluídos e estímulos físicos como os das bestas. Prática na qual me viciei, que me preenche e esvazia. Ilumina tênue, pouco antes de cegar".
 
"Eu necessito da descarga química que o sexo libera".

Mais abaixo, dentro da caixa, Victória encontrou recortes amarelecidos de jornal, relatando uma série de crimes praticados por um grupo de extermínio, os conhecidos como "mão branca".

As mortes eram feitas com arma branca, ou melhor, os indivíduos eram literalmente degolados.

Di Angelis contou cada caso e somente ali contabilizou 15 homens assassinados. Verificou as datas: cerca de 2 mortos a cada 6 meses.

Retirou os recortes, fechou a pequena arca e a trancou no cofre. Pesquisando na internet, conseguiu o perfil de pelo menos 7 dos degolados. Todos tratavam-se de assassinos sexuais com longa ficha criminal, isto é, eles molestavam sexualmente a vítima antes de matá-las com requintes de sadismo. No jargão policial, as alcunhas dadas a eles "Broca, Açougueiro, Abutre, Vampiro", denotavam a especialidade de cada um daqueles degenerados.
 
Victória recorda-se de quando entrou na corporação e que havia fortes boatos de que a corregedoria estava fechando o cerco contra o "mão branca" que agia na capital. A verdade é que não conseguiram identificar, localizar e prender o degolador ou seu grupo, se é que trabalhava com algum. O caso foi parar no museu do Estado. Acreditavam que talvez o matador tivesse perecido nas mãos de algum alvo seu ou mesmo, desaparecido por causas naturais, pois segundo especialistas sobre a mentalidade de matadores, eles NUNCA cessam sua prática até que sejam impedidos de um modo ou outro. No caso dos Matadores Seriais, só encerram sua carreira macabra quando presos pela polícia ou mortos. "Compulsão".

A palavra inscrita em um site da Sociedade Psiquiátrica Brasileira surgiu na memória da policial.

Moveu-se da escrivaninha atordoada e voltou a sentar na cama, onde do meio dos recortes de jornal, uma tira de papel com a caligrafia fina conhecida apregoava:

"A luz desaparecendo do olhos daqueles que em vida, só se moveram pelas sombras. O estertor da morte, o fluído vital escorrendo pelas jugulares. A sensação absoluta".

-Não é possível, não é possível! - gemeu Victória, recolhendo os recortes e os trancando no cofre junto com a arca de madeira. Preparou uma boa dose de conhaque para si e deitou-se. A bebida a aliviaria por algumas horas da dor física e angústia psicológica. -Ela disse esperança? Não encontrei ali nada além da gênese de uma matadora serial fria e calculista.

O que mais a amofinava era a semelhança da frase escrita por Louise com a do famoso Serial Killer americano, Ted Bundy.

-E ela me deu a "caixa de Pandora" de presente de aniversário. - refletiu atordoada pouco antes de adormecer ainda vestida de calça jeans, tênis e camiseta.

A manhã radiosa infiltrou-se pela janela, mas Victória pouco fez além de retirar a roupa e se meter debaixo dos edredons só com as peças íntimas. Sentia-se profundamente deprimida e sem ânimo para qualquer atividade. Ela podia entender e amar uma adolescente torturada e desesperada que enforcara o marido molestador, mas... não conseguiria tolerar uma criminosa serial que não ocultava seu prazer supremo com a morte causada pelas suas mãos. Tornou a adormecer e perdeu a noção do tempo, lutando contra lembranças ruins e pedaços de doces recordações. No cair da tarde sentia-se febril e sem apetite. Pensou em Sir Lancelot, o velho e bom companheiro, entregue novamente aos cuidados de Adrianna e Liz.

O celular tocou outra vez. Já fora desperta de sua madorna várias vezes com o chamado dos caseiros, perguntando se podiam "colocar a mesa do café da manhã, do almoço ou da janta".

Naquele dia, já rejeitara novamente o desjejum e o almoço.

-Oi!- disse a título de cumprimento sem olhar no display.
-Dia?

A voz rouca de Louise despejou um tonel de adrenalina no corpo alquebrado da policial, mas ela não encontrava palavras para dizer no momento.

-Abriu a arca e... leu?

A voz dela denotava ansiedade contida.

-Sim... eu... li...
-E então? - neste momento a voz dela ficou fraca, falhando.
-Depois da deliciosa leitura, estaria me sentindo melhor se tivesse levado uma facada entre os olhos!
-Não seja infantil, Victória, estamos tratando de um assunto sério!
-Pode ser uma tirada infantil, mas... foi a melhor resposta que encontrei para não ser rude com você!
-E como poderia ser rude?
-Dizendo na melhor das hipóteses que você é uma doente necessitando de tratamento psicológico imediato e intensivo, ou na pior, uma assassina degenerada e sádica em vias de perder o controle. Não entendo como a palavra "esperança" se encaixaria nesta sujeira toda. Não bastava apenas ser uma compulsiva sexual?
-Não entende o que sinto?
-Você não sente e eu te odeio por me ter envolvido em uma ilusão absurda sobre você, a integridade de seu caráter. Eu a admirei antes de a querer para mim. Persegui uma "alma do inferno", ululante, sedutora. Toda ilusão que construí de querer estar ao seu lado, caiu por terra, pois seria o mesmo de me submeter à degradação do corpo e da alma. Você é a escória e representa agora tudo que abomino!

Louise desligou e Victória sentou-se na cama, refletindo como pôde ter dito tudo aquilo em um fôlego só. Gemeu ante a dor de cabeça que a atacou enquanto seu estômago parecia se contorcer em espasmos intensos. Não tivera sequer tempo para refletir sobre o que dizer caso Louise a abordasse. Ela se antecipou. Maior do que a dor física era o desespero e amargura acarretada pelo seu coração duramente ferido. Amaldiçoou todo o amor que havia dentro de si em relação à Bittencourt, pois naquele exato momento ele lhe irradiava no peito como o faria um câncer. Bebeu um remédio para dor e tornou-se a deitar. Agora entendia o raciocínio dos ébrios: Se o problema avança como uma locomotiva para o atropelar, beba um trago e feche os olhos. O que não podes avistar à frente, não pode atingi-lo. Filosofia da cachaça. Ou seria filosofia do Avestruz? Acordou ouvindo passos subindo a escadaria de madeira. Estendeu a mão e apanhou a pistola na mesa da cabeceira. Os caseiros não a incomodariam em hipótese alguma além de uma situação de emergência. Só poderia ser Louise, chegando a furto como gostava de fazer.

Adrianna apontou na porta, carregando uma grande bandeja de frutas e outros alimentos.

-Terceira manhã sem sair do quarto e se alimentar. Declaro encerrada essa sua clausura e jejum.
-Veio sozinha?
-Sim. Até pensei em trazer Nick, mas... não sabia com quê iria me confrontar! Vamos coma e conte o que a está torturando. Está com um aspecto horrível.

Victória esticou o pescoço e se avistou no espelho da penteadeira antiga da mãe.

-Ótimo! - exclamou ao ver a imagem da mulher pálida, com os cabelos em desalinho e olheiras escuras moldurando os olhos febris. - Não se preocupe doutora, os monges no Tibet jejuam enquanto refletem sobre os rumos da humanidade, ou mesmo sobre a beleza do cricrilar dos grilos que saltitam nos nenúfares ao cair da tarde.
-Afaste o humor zombeteiro por alguns minutos e coma! - mandou Adrianna com certa rispidez.

A expressão nos olhos orientais dela denunciaram que não estava para brincadeiras. Victória iniciou a lambiscar o alimento e a cada ingestão, sentia uma pontada cruel no estômago, mas insistiu. A inanição lhe deixara os pensamentos embotados e confusa na percepção de tempo e espaço. Terminou de ingerir com dificuldade o prato que lhe fora preparado.

-Agora, conte o que a está amofinando? Algum hecatombe iminente? Outra entidade sobrenatural na linha do "Devorador de Almas", "Miragem" ou o "velho Duende dos Potes de Ouro" que prevê o futuro?
-Não!
-Você sabe Dian, que eu achei compreensível que não tivesse revelado ao longo de nossa amizade e em nossas sessões de terapia sobre estes entes insólitos. Sei que sempre quis me proteger e quanto mais conhecimento, mais vulnerável se torna.
-Não consegui evitar que seu marido fosse assassinado pelo emissário do "Devorador de Almas"!
-Uma fatalidade que não havia como evitar, mas esta sua característica de guardar para si somente segredos medonhos, pode ser perigoso!
-Meus segredos agora, você os conhece todos. Está cuidando de um deles e um dos mais perigosos.
-Arianne necessita de cuidados especiais, mas como algumas personalidades "especiais”, é preciso direcioná-las para um NORTE. Nas mãos certas, o fogo aquece, a água mitiga a sede. Sem controle, queimam casas ou afogam. Algumas pessoas, tais como estes elementos da natureza, podem matar ou salvar. Miragem salvou a vida de Louise.
-E a minha em mais de uma circunstância!
-Mas, enforcou uma série de homens a quem sua mente diferente julgou dignos da punição extrema.
-Aonde quer chegar com isso?
-Louise!
- O que sabe sobre Louise?
-O que saberia uma terapeuta que a atende há pelo menos dois anos.

Victória compreendeu que Adrianna sabia muito a respeito da Bittencourt e sentiu um certo alívio.

-Vi quando ela lhe deu uma arca como presente de aniversário.
-Sim.
-E dentro desta arca ela lhe revelou algumas facetas peculiares de sua personalidade?

A policial enrubesceu. Adrianna parecia saber além do que intuíra a princípio.

-Ela revelou sua "compulsão" assassina. É uma matadora serial ardilosa e cruel!
-Eu a aconselhei a se abrir para você, Victória. Não poderiam tentar iniciar uma relação com tantos mistérios e segredos guardados.
-Iniciar uma relação?
-Sim, foi isso que ela me contou. Ela a quer para si, Dian. Quer torná-la sua companheira, mas precisa que você a compreenda, aceite e perdoe.
-É uma matadora serial e não vai conseguir conter sua compulsão assassina.

A terapeuta retirou a bandeja do colo de Victória e acomodou-se na cama ao seu lado. Acariciou as mechas negras que insistiam em ocultar meia face do rosto bonito da amiga e sussurrou-lhe.

- Posso lhe contar algumas coisas agora, pois o conteúdo da arca, pela sua reação era justamente o que eu imaginava. Louise não pode ser considerada uma matadora serial, o que muda muito o prognóstico de um tratamento com sucesso. Os homicídios que cometeu foram feitos pelo desejo de vingança. A cada estuprador homicida que liquidava, julgava estar fazendo justiça às famílias que perderam um filho de forma tão cruel e degradante. Assassinos seriais só possuem um objetivo: o prazer gerado com o sofrimento de suas vítimas. Louise degolou aqueles homens com um único e eficiente golpe de punhal. O suficiente para que sangrassem até morrer. Andrei Chikatilo, serial killer russo conhecido como "A Besta Louca", costumava esfaquear mais de 40 vezes suas vítimas indefesas, a maioria crianças, em especial meninas.

"Mulheres. Sempre na ponta da cadeia alimentar. Quando não é o marido ou parceiro ciumento que as molesta ou mata, é qualquer degenerado solto nas ruas" - refletiu Vick.

-Mas ainda há algo que me aterroriza mais: Louise se delicia com o sofrimento de suas vítimas!
-Ela está há anos em tratamento psiquiátrico em razão deste prazer sádico e algumas compulsões. Devo dizer hoje que consegue manter seus demônios presos nos calabouços interiores e você tem uma parcela de participação nisso.
-Como?
-Você a fez descobrir um sentimento superior, generoso e bom e esse sentimento a impulsiona a desejar ser alguém digna do seu querer!

Victória lambeu os lábios que acabara de morder e sua expressão desorientada instigou Adrianna.

-Não havia nada na caixa que lhe revelasse sobre este sentimento novo para ela? - inquiriu.
-Eu não terminei de ler o que havia na caixa. Não consegui passar da fase dos degolamentos.
-Nesse caso, é preciso que leia o que há na caixa, e rápido. Pelo que conheço de Louise, sei que neste momento ela deve estar se sentindo torturada na expectativa de sua reação.
-Já conversamos... e eu simplesmente a chamei de "monstro degenerado"...

 

 

Fructu, non foliis, arborem aestima.
Há de se estimar a árvore pelo fruto, não pelas folhas.

 

Neste momento, Adrianna fechou os olhos e levou a mão alva à fronte.

-Criança, eu tentei evitar que agisse precipitadamente, mas não cheguei a tempo.

A voz dela soava baixa como se temesse despertar Cronnos, aquele que se fartou da carne dos próprios filhos.

-Se o prognóstico de melhora de Louise é como você descreveu, não há motivo para temor . - Victória argumentou, avaliando demoradamente os longos dedos das próprias mãos. Depois, levantou-se, cofiou os cabelos densos para depois enterrar as mãos nos bolsos.
-Você disse... um sentimento? - inquiriu tímida.

Adrianna pousou as mãos em seu colo e fixou o olhar penetrante no rosto de Vick.

-Eu falei em sentimento porque imaginei que você tinha lido todo o conteúdo da caixa.
-Sabe o que tem lá?
-Não, mas presumi. Diante do seu desconhecimento, acredito que já avancei o limite do "segredo profissional".

Levantou-se desolada, alisando a roupa com as mãos.

-Não vá ainda! - pediu Di Angelis. - Eu estou confusa...
-Eu pensei que você a amava!
-Mas eu a amei! Digo, eu já não sei mais o que sinto. Penso nela e uma revolta louca me domina. Tenho ânsia de socar aquele rosto bonito, humilhá-la ou mesmo, se soubesse que a atingiria, desprezá-la. Só eu sei o quanto agora quero tirar este sentimento do meu peito.

Neste momento, Victória falava alto, gesticulava e puxava o decote da sua camisa como se quisesse rasgá-la.

-A árvore... você lhe conhece a verdadeira índole pelos frutos, não pelas folhas...

A terapeuta disse antes de sair, beijando a testa da policial agitada.

-Não vá ainda! Conte-me quem é Louise Bittencourt...
-Descubra por si, se quiser e se ainda puder...

Ela saiu e com o bater da porta atrás de si, o negror da tristeza abraçou Victória.

Voltou o rosto para cima e avistou os aeromodelos que montara, flutuando como móbiles presos por fios invisíveis no forro alto que acompanhava a inclinação do telhado. Refletiu por alguns minutos densos, respirou fundo e abriu o cofre. Debaixo do monte execrável de notícias dos crimes do degolador "mão branca", papéis linho timbrados e finamente escritos.

"Todas as manhãs naquela sala, o seu sorriso fazendo meu coração bater forte e esperançoso."

-Aqueles momentos no gabinete, ela me chamava e mandava sentar defronte à sua mesa!

"Eu encontrava desculpas para chamá-la ali, mesmo que o argumento fosse uma repreensão ou o ditar de ordens, escondendo o que aos poucos passava a sentir atrás desta máscara fria que se tornou minha face".

"A negritude interior que me consumia desanuviava ao vê-la passar, falar e menear seus cabelos ou sorrir".

"Eu a observo!".

"Seu senso de dignidade e abnegação, conduziu-me à reflexão de que, pessoas podem ser importantes. Importantes além do desejo, do instinto".

"Eu a admiro!".

"Seu querer pelo meu corpo de mulher instigou-me a bater-me para ferir ou limitar. Não permitiria que uma menina me subjugasse a vontade."

"Eu a ameacei, torturei, mas você perdoou. Nunca poderia entendê-la."

"Meu instinto, minha natureza. Você os venceu".

"Antes de ti, acreditei que o que ainda havia de humano e decente em mim, perecera nos fluidos corpóreos derramados no meu ventre, ou mesmo quando o sêmen "dele" verteu enquanto sucumbia ao nó da forca".

Eu preferia dizer-te tanto, nada a meu respeito, mas é inútil urdir circunstâncias sem aqueles que as protagonizaram. Pelo prisma que você desnudava a realidade e a escória, percebi o quanto eu me corrompera, fazendo a minha justiça particular àqueles miseráveis que clamavam por suas mães antes que eu os degolasse. Agora, quando lhe escrevo, minhas palavras parecem efêmeras, sem a cor e o sentido que traduzissem o que me invade. Sem poder revelar a importância vibrante do que poderia me significar você! Quando fecho os olhos, já não existe a parede cinza que se estreita contra mim, que me sepulta viva. Agora há um horizonte, mesmo que este se distancie por mais que eu caminhe até a próxima colina, até aquele arvoredo onde você estaria repousando adormecida à minha espera. Você é jóia imaculada, rara e cobiçada pelos que necessitam de sua luz, como eu. Entretanto, egoísta, quero beber-te. Apenas eu e você. Os mortos podem jazer entre os mortos. Estou viva e ainda posso verter-te, tocar, protegê-la nos meus braços e abrigar-te na minha fortaleza. Eu só preciso Victória que você me mostre o caminho. Eu necessito ser digna de você, poder sonhar contigo estas pequenas bobagens de menina que a fazem sorrir. Talvez poderíamos agora, vagar na madrugada, livres, os pés imersos na lama ou sobre a grama orvalhada. Talvez a chuva branda viria no crepúsculo e você me vestiria com seus longos cabelos negros. Queria poder esquecê-la todo dia, para que da manhã ao fim da tarde, cada detalhe seu que eu avistasse, viesse intenso ou brando, seu e agora meu.

Um dia sim, outro dia novamente. Bastaria sempre te recordar outra vez...

Não poderia evitar te querer, enfim. Não poderia conter-me de invadir seu mundo, sua juventude, sua estúpida inocência e aproveitar para navegar nas promessas langorosas deste teu sorriso. Quando acreditei que a havia perdido nos subterrâneos de Hades, finalmente chorei. Choro de saudade do que poderia haver no futuro para nós. Pensar que sobrevivi a você depois de semanas vasculhando o leito daquele maldito rio foi a constatação de que não haveria força na terra ou no céu capaz de reverter o passo do destino que decompõe corpos e corrói almas.

Eu desejo agora, que você estivesse ao meu lado na cama para que eu pudesse estender o braço e tocar-te o rosto adormecido. Queria dizer tantas palavras, segurando suas mãos, olhando-a nos olhos para que você entendesse a sinceridade extrema do que me permito revelar. Eu queria tanta coisa, mas não sei exprimir este desejo e me perco nas palavras. Talvez seu perdão, ou apenas um "bom dia" pelas manhãs abrandasse a culpa e negror que me habitam agora. Antes não podia sentir culpa, remorso ou... amor. Antes não era capaz de sentir. Antes de você, Victória! Muito antes. Nada antes de você importa agora. Podemos tentar um passo então? Posso começar por suplicar seu perdão, querer ou compreensão. Podes silenciar mas não poderás me rejeitar. Para poucas coisas sou vulnerável. Seu desprezo não conta entre elas. Não me despreze, Dia! Eu a quero para mim, pode compreender?"

 

 

"Ab occasu describe diem, non solis ab ortu."
Descreve o dia ao pôr-do-sol, não ao amanhecer.

 

Sentadas na motocicleta de Victória, ela e uma garota morena jambo conversavam animadas sobre os bons tempos na faculdade de Direito. A madrugada na metrópole que nunca para inaugurou-se com o trânsito ainda rumorejando, mas com a sonoplastia estridente posta na "surdina". Neste ponto, podiam-se ouvir passos abafados no calçamento ou o risc-risc de folhas secas sendo arrastadas pela brisa. Quando os toques íntimos e suspiros excitados iniciaram, a paisagem escura pontilhada pelas luzes néon, mercúrio e sódio mesclaram-se à loucura de amantes que necessitam mitigar com urgência a dor pulsante do desejo.

Victória empurrou sua parceira contra a moto, de costas para si, percorrendo-a com os dedos do pescoço alto até o fim do decote, rompendo os botões da camisa e o fecho do meia-taça. Ao tato delineou o tecido recoberto por renda, belo de se ver, mas destinado no melhor desenlace das circunstâncias a ser retirado ainda no início do "ato".

"Certamente está sem calcinha" - Di Angelis constatou deliciada enquanto envolvia os dois gêmeos nas palmas das mãos, apertando-os simultaneamente às doces mordidas que aplicava na pele acetinada da nuca, pescoço e queixo de Sandra.

O próximo passo no embate foi abrir os botões da calça comprida dela e constatar que não havia nada abaixo do tecido além do sexo úmido e sem qualquer pêlo. Baixou-lhe as calças a meio quadril, o suficiente para estimulá-la enquanto iniciava a se mover ritmadamente contra as costas dela e finalmente penetrá-la com os dedos longos. A cada movimento ascendente, uma estocada firme. As entranhas dela pulsavam agora, enquanto a mente de Victória escapava para a visão de um corpo alvo com algumas áreas deliciosamente rosadas, entre elas, as auréolas dos seios. Cessou os movimentos e saiu do interior de Sandra. Esta recompôs suas roupas, voltando-se para a amante para beijá-la com força.

-Se eu imaginasse que seria tão bom, teria aproveitado melhor os dez semestres da faculdade!
-Naquele tempo você já estava "ligada" neste lance? - Inquiriu Victória.
-Não... mas sentia um tesão enorme quando algumas colegas contavam que tinham trocado uns beijos e amassos com você nos reservados do banheiro feminino e...
-E?
-Ficava doida e descontava no meu namorado.

Ambas riram.

Um carro passou e buzinou para um pedestre e neste momento, Sandra reverteu o jogo, encostando Victória contra a motocicleta e desabotoando-lhe as calças jeans. Gradativamente, moveu a cabeça adornada por cabelos cacheados cheirosos ao longo do corpo de Vick, descendo um palmo a cada beijo ou lambida na pele desnuda do ventre dela. Quando enveredou a língua entre os pêlos pubianos curtos, aparados no desenho de um triângulo invertido, Di Angelis moveu os quadris, baixando sua calça e calcinha até os joelhos, ajustando a cabeça da amante em seu sexo latejante.

-Assim, devagar... - incentivou-a enquanto lhe acariciava os cabelos e mantinha-lhe a cabeça firme entre as pernas.

Fechou os olhos e jogou a cabeça para trás, concentrando-se nas lambidas e sugadas ardorosas que recebia.

Sandra seguramente não possuía muita experiência em fazer oral em uma mulher, mas sempre poderia fantasiar que Louise estava ali, entre suas pernas, bebendo-a o que a excitava extraordinariamente e a conduziu ao orgasmo intenso.

Naquela semana, sete dias depois da festa de seu aniversário, saíra com pelo menos seis garotas diferentes pelas noites desvairadas, enquanto no dia, procurara freneticamente encontrar alguém ou alguma pista que a pudesse levar a conseguir conversar ao telefone ou mesmo, encontrar com Louise. Esforço em vão até aquele momento.

A antiga mansão no condomínio em que ela se abrigava e o apartamento na cidade foram vendidos, segundo informação nas portarias. Inútil tentar contato pelo celular e telefone fixo. De um momento para outro, a "Jour" simplesmente desvanecera como a névoa matutina entre o encontro ondulado das campinas.

Despediu-se de Sandra, inserindo o telefone dela no celular prometendo ligar algum outro dia quando tivesse uma oportunidade.

Dirigiu a motocicleta para um pequeno hotel onde costumava se hospedar quando precisava pernoitar na capital, consultando mentalmente o rol de lugares onde pretendia fazer algumas incursões quando o dia finalmente amanhecesse.

Algumas horas de sono seriam suficientes.

Ingressou no escritório do Grupo Soleil em São Paulo, exatamente as 14:30 conforme agendado com Leandro, que a recebeu um tanto sério, vestido em terno e gravata impecáveis.

-A presidente! Eu não tenho conhecimento dos passos dela. Apenas aguardo ordens e as cumpro. - ele informou.
-Preciso encontrá-la! - insistiu Di Angelis.
-É algo urgente? Posso anotar e passar recado quando ela ligar e...
-Leandro! Não me trate como uma mera intrusa ou visitante com entrevista agendada. Você bem sabe que sou bem mais do que isso!

Ele a olhou firme nos olhos e Victória constatou que finalmente, Leandro abandonara o sistema "O que não aceito ou reluto a encarar, não está diante do meu nariz".

Agora ele demonstrava, pela rigidez do maxilar e na frieza dos belos olhos azuis, que conhecia a fundo a natureza da relação entre Victória e Louise.

-Você não é uma intrusa. É filha de um administrador recém-nomeado do Grupo e ainda é acionista com cota suficiente para ter direito de voto nas assembléias.
-Como assim? - Victória surpreendeu-se.

O rapaz cofiou o queixo bem escanhoado.

-Presente de aniversário para você da Presidente. Estou surpreso que ainda não soubesse!

Victória refletiu por um momento enfiando as mãos nos bolsos. O assunto "acionista do Grupo Soleil" a havia abordado totalmente na surpresa.

-E isso o aborrece? - Ela perguntou com voz baixa.

Já estava sendo uma barra assimilar as revelações da "caixa de Pandora", entretanto, estimava o jovem Bittencourt a ponto de se preocupar ainda com o modo que ele a considerava naquele momento.

-Não. Na verdade em certo trecho da minha vida, considerei torná-la acionista do grupo e assim vinculá-la à família, o que na verdade aconteceu agora, mas não da forma que eu pretendia. - respondeu amargo. - Entretanto, de alguma forma você agora está ligada a nós e eu deveria estar satisfeito por isso. - suspirou. - Digo mais, nós lhe devemos muito, pois com o sequestro da minha irmã, o prognóstico futuro para o grupo e minha família era nebuloso. Você reverteu um evento ruinoso inexorável.

Ele sorriu naquele momento, mas seus olhos cintilavam lacrimosos. Contemplar o querer dilacerado dele jorrando nos olhos líquidos deflagrou a reação explosiva de Victória que o esmurrou no peito másculo.

-Não ouse nunca mais nutrir qualquer sentimento por mim além da nossa amizade, Leandro! Eu não o permito. Tire isso de você, pois eu não sou mulher que se destine a ser mãe dos seus filhos, tampouco alguém para se amar. Eu enveneno o sangue, a carne, a alma das pessoas com quem me relaciono.
-Neste caso, vocês são perfeitas uma para a outra! - ele disse, emitindo outro sorriso amargo. - Se a quer, vá atrás!
- Não estou certa se ainda a quero, tampouco sei o que fazer para encontrá-la agora!

Ele deu de ombros e lhe virou as costas.

-Você é uma policial intuitiva e já deve saber que... para se encontrar o âmago de um rio, é preciso ir às nascentes!

Victória franziu a testa, concentrada. Onde ficaria o núcleo em torno de onde Louise gravitava agora? O que a moveria naquele exato momento? Negócios da empresa? Não. A empresa ela já reestruturara para funcionar novamente como um sistema complexo e eficiente. Antonio Di Angelis um dos administradores? Como não soubera antes? Até quando eles ocultariam isso dela? Recordou-se do aparecimento abrupto de Louise na comemoração de seu aniversário e a dor pungente ocultada a custo na face dela quando revelou sobre o filho e a leucemia.

- Roulien, ele está no Brasil? - inquiriu ao rapaz que ainda mantinha-se de costas para ela, contemplando o movimento na rua pelos janelões.

Ele não respondeu de imediato.

-Está há pelo menos três anos, tempo suficiente até para aprender a falar o português, mesmo enfrentando as dificuldades cognitivas que possui.
-Desde quando você soube sobre Roulien? - ela iniciou o assunto delicado.
-Se pode ser considerado um consolo, minha irmã ocultou de mim e Júlia sobre o filho rejeitado no nascimento até que o trouxesse para o Brasil, isso exatamente há três anos como já disse.

"Ela oculta e ocultou muito mais" - concluiu Di Angelis.

-Como Júlia encarou a revelação?
-Da mesma forma que sempre faz quando se depara com mais um dos segredos insondáveis da mãe. Ela age como se nada houvesse, entretanto... não aceita os "agregados"... como você e Roulien.

A lembrança da expressão intensa dos olhos de Julia trouxe à tona outro assunto mal resolvido que a incomodava. Rememorou o tempo em que sua mãe ainda era viva e no apego que tinha a ela e do ciúme. Todo filho único tem, com algumas exceções. Saiu do escritório sem de despedir com a sensação de que permanecera demasiado tempo por lá. O outro passo ela já sabia onde dar.




ÁREA VERDE DO HOSPITAL MADRE ISOLDA FRANCISCANNI.


Quando avistou aquele rapaz sentado silencioso na mureta de pedra que circundava o espelho d’água de onde várias libélulas lépidas faziam manobras radicais, ou para acasalarem ou mesmo para "molharem o traseiro" na flor d’água, Victória expirou o ar dos pulmões em um único esforço. Aproximou-se do rapaz que a seu ver, não estava nada satisfeito sentado ali, aliás, parecia muito aborrecido.

-Roulien?

O filho de Louise ergueu o queixo antes colado no peito e sorriu timidamente para a desconhecida que o chamava pelo nome.

-Você é amiga de minha mãe, veio me buscar para passear no horto? - inquiriu com os olhos negros luzindo esperançosos.
-Vim para ficar por perto, mas caso você queira brincar, poderemos montar uma "capocheta"
_Capocheta, o que é isso? - ele perguntou amuado. Conhecia que seu raciocínio era "raso demais" para assimilar algumas coisas e isto sempre o aborrecia.
-Uma espécie de pandorga, papagaio!

O olhar vazio dele a fez perceber que teria que agir com Roulien como tratara o Pingo, anos atrás.

-A gente apanha uma folha de jornal, faz uma espécie de triângulo, prende duas partes dele com uma linha para formar o "estirante" e na ponta mais longa, amarramos outra linha de uns quatro palmos de comprimento. Depois, prendemos em um laço corrido tirinhas de jornal que fazem a "rabiola". Aí é só empinar e ver como sobe com qualquer brisa!
-Sobe? E sem ter "vareta japonesa"? - ele inquiriu desconfiado ao verificar o desenho que a moça de densos cabelos negros traçara no calçamento com um pedaço minúsculo de telha enquanto falava.
-Dispensa a "vareta japonesa" e a vareta feita no bambu. Quer ver?
-Claro!

Victória abriu a mochila de couro onde sempre havia uma série de tralhas que ela ali lançava e esquecia. Com o canivete suíço cortou a linha branca e o jornal matutino que comprara para depois ler, serviu para formar a "cabeça" da "capucheta". Minutos depois a pequena e leve capucheta voava oscilando conduzida pela brisa leste-oeste e Roulien que segurava a linha, sorria maravilhado.

-Minha mãe vai ficar contente ao saber o que aprendi hoje. Ela sempre fica contente quando aprendo algo novo!

Victória afastou a mecha de cabelos lisos escuros da testa do rapaz. Descobrira onde Roulien estava internado naquela semana para uma série de exames por intermédio de algumas especulações, ligações e pesquisa na internet a respeito de hospitais especializados em Leucemia em Campinas. No pátio interno do hospital avistara o moço sentado na mureta de pedra, observado à certa distância pela zelosa e fiel Tereza. A governanta vira a policial se aproximar, mas não fizera menção de impedi-la que conversasse com o rapaz. Animada com o entusiasmo de Roulien com o "brinquedo novo", Di Angelis prosseguiu.

-Agora que está alto, podemos "mandar recado para deus"...
-Como é isso?

Extraindo uma fina tira do jornal que restara, Vick amarrou-a em um laço frouxo em torno da linha em riste, torceu as pontas e mostrou ao Roulien como com algumas "fisgadas" faria o papel ir subindo suavemente.

-O que vamos pedir? - ela inquiriu.
-Ah... - ele a encarou sério, quase se esquecendo do brinquedo. - Quero pedir que meu nariz pare de sangrar.
-Seu nariz, ele sangra sempre?
-Às vezes e é muito ruim. Então choro e... - neste momento ele enrubesceu. - Um menino no corredor lá em cima disse que eu estou muito crescido para chorar e que eu tenho um "bicho ruim" dentro de mim...

Victória estacou embaraçada. Não esperava acabar em uma viela sem saída e tampouco conseguia pensar em qualquer argumento. Crianças costumam ser cruéis e o tal menino do corredor o fora especialmente.

-Quando encontrar novamente este menino, diga a ele que ninguém é grande o suficiente para deixar de chorar, mesmo um homem e que sua mãe e os médicos estão dando jeito de acabar com esse tal "bicho".
-Eu tenho medo!
-Eu também. Vivia com medo, chorava pelas manhãs, à tarde antes do almoço e quando durmo. Isso porque tinha caído da bicicleta e torcido o pé.
-Porque chorava tanto?
-Para ganhar beijos e abraços!

O rapaz riu.

-E dá certo?
-Na maioria das vezes, sim!
-E quando não dá certo?
-Me chamam de chorona!

Riram novamente e ela não disse a ele que os eventos de "chorona" ocorreram há quase vinte anos atrás. Um detalhe que não importava no momento.

Logo ele recolheu a "capucheta" e a dobrou, organizado, ajeitando-a dentro de uma mochila escolar.

-Vou guardar para mostrar para Louise!
-Sua mãe vem aqui hoje?
-Ela está aqui! - ele disse, apontando para Tereza. - Já Louise não virá. Tem algumas coisas a fazer. Ela sempre tem.

Victória surpreendeu-se de que Roulien chamasse e considerasse Tereza sua mãe e não a Louise.

-Sei fazer barcos de papel! - ele informou. - Podemos colocar na água e brincar de afundar com umas pedradas!

Estavam torpedeando os barcos... quando Tereza levanta-se e aproxima a passos lentos.

-Vamos Roulien. Hora dos exames.
-Deixa ficar mais um pouco, même!
-Poderá ficar amanhã, quando voltar para as consultas!

Roulien despediu-se de Victória e Tereza enlaçou-o no braço.

-Até mais, senhorita Di Angelis. - A velha governanta disse.
-Mas, Tereza, eu preciso conversar com você! Tenho que encontrar Louise...

Tereza parou o passo, ainda segurando Roulien pelo braço.

-Poderá encontrá-la domingo no lançamento do novo perfume, parceria da Sekhmet com um grupo grego.
-Onde será?
-Está no convite. Não o recebeu?
-Não.

Tereza mexeu na própria bolsa e retirou um folder impresso em papel cochê parafinado.

-Está tudo aí. Local, horário e detalhes do evento. Poderá entrar sem convite. Apenas identifique-se na entrada. Seu nome estará na lista de convidados. Fique com o catálogo.

Victória agradeceu e sentou-se no banco de madeira próximo para ler. Havia na capa a fotografia de um frasco em formato de ânfora de onde um líquido ambarino estava contido. Não havia rótulo no frasco e sim um tênue desenho jateado de um meio rosto feminino.

O nome da fragrância: "DIA"...

No catálogo, o desenho amplificado delineava claramente os olhos grandes ornados por densas pestanas, um nariz afilado e boca sensual. No curso em diagonal na altura da maçã do rosto, uma pinta. Sim, havia ali uma pinta e Victória entendeu que era o seu rosto o que havia sido desenhado em traços estilizados no frasco do perfume.

-Ela me homenageou com um perfume! - concluiu com amargura, lembrando agora porque o nome do grego no jornal semanas atrás não lhe parecera estranho. Ele era um magnata oriundo de quatro gerações de mestres perfumistas gregos.

 

 

Continua...