Tratado das meias verdades... Ou como todas as coisas são.

Hanna-K

 

 

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CAPÍTULO 8

 

Fernanda não poderia admitir para ninguém – muito menos para si mesma - que há uma semana estava furtivamente seguindo Camila na saída de seu trabalho. Queria desesperadamente saber tudo o que podia sobre ela, descobrir os seus segredos, as coisas que jamais ousaria perguntar – por medo, vergonha, orgulho. Mas, naquele final de tarde, seguindo-a até um restaurante bem freqüentado da zona sul, finalmente viu algo que não esperava: Camila estava se encontrando com alguém. A mulher, de aspecto decidido, cabelos curtos, levemente revoltos, sorriu ao vê-la caminhar em sua direção. Tocou seu corpo, beijou seu rosto de maneira íntima.

Camila e a mulher sentaram uma ao lado da outra. Intimidade. Pediram algo para beber e conversaram entre sorrisos e olhares. Isso doeu mais ainda em Fernanda. As suas mãos esfriaram, o coração bateu descompassado dentro do peito. Por que infligia isso a si mesma? O que esperava? Que Camila permanecesse sozinha durante todos esses anos?

Era uma dor quase física que sentia, mas gostaria de não sentir nada, absolutamente nada. Se ao menos, nesse instante, pudesse cirurgicamente extrair seus nervos, dar um sentido ao vazio... E agora não parecia tão fácil como antes repetir, de forma racional, que não poderia mais estar apaixonada por Camila depois de tantos anos de inquietação. Não depois de beijar tantas bocas e roçar seu corpo em corpos que perdeu a conta. Como seria possível? Aquilo que guardava dentro de si não era uma mera lembrança, uma dessas que fazem chorar e sorrir, mas que não tem nenhum sentido fazê-las emergir do passado?

Tudo o que fez desde que perdeu Camila foi viver uma espécie de “liberdade absoluta” e nada disso a aliviou, só resultou em dor, angústia e solidão. Teve tudo que quis e ao mesmo tempo nada. Como agora manter-se insensível ao ver Camila trocando carícias com outra mulher, como não sentir a estocada do ciúme, uma dor irrompendo-se nela toda?

“Você lembra, Camila, de como era tocar sua boca com o dedo úmido e contornar seus olhos com beijos lentos? Agora vejo que esqueceu de como foi a nossa primeira vez. Esqueceu, não foi? Fiz com que sua boca se entreabrisse com a língua ávida e fechei os olhos. Apenas a doce penumbra e o seu sabor. Fiz tudo devagar para pode aproveitar melhor. O desejo que brotou desenhado em meu rosto iluminou o seu, Camila. Nunca pude esquecer o que havia debaixo de nossas peles, pulsando alto. Até me fazer gritar seu nome. Nunca procurei compreender o que sentia e porque sentia apenas por você. E quando me olhava bem de perto, dentro de meus olhos, e sorria, eu a abraçava, nua, e a aquecia. Respirava o seu ar, em sua boca, e debilmente mordiscava seus lábios. Você era minha, só minha. Sentia seu corpo tremer e por dentro algo explodia também. Eu te amo, ainda, Camila”.

- Camila...

O ciúme, fosso profundo, sombrio e úmido. Fernanda sentia ímpetos de ir lá e falar alto, dizer coisas que a sufocavam, arrastar Camila pela mão e revelar que ainda sentia-se sua, como sempre foi. Mas sabia que não teria forças. Limitaria-se a fechar os olhos e partir rapidamente dali, meio trôpega. Precisava dar um jeito em sua dor e seria à sua maneira.

Uma voz em sua consciência, talvez, dissesse: “Não se culpe por nada. Apenas vá embora”. E ela foi. Rápido, com os corações aos pulos, a pele em chamas.

Agora, estava parada com os olhos presos no canto iluminado da sala de seu apartamento. A luz do abajur, filtrada pela mesinha de acrílico alaranjado, refletia-se no copo que pendia na mão. De vez em quando erguia os olhos para observar as horas ou ir até janela de onde podia ver uma cidade pulsando em cores.

O som da música se tornava cada vez mais abafado por sua respiração. Mas sabia de cor a letra de Tom e Chico:

“Se nós, nas travessuras das noites eternas/ já confundimos tanto as nossas pernas/ diz com que pernas eu devo seguir” ...

As verdades que não queria aceitar. Fernanda sabia de cor o processo de perder-se no pensamento e mergulhar na memória. Sem querer, ia ficar com o olhar perdido e pensar em Camila. Talvez, em como era antes preenchida por ruídos de gozo e risadas de variados tons. Precisava, como sempre, se fartar de silêncio, enquanto se afogava na languidez dos corpos consumidos de êxtase. Precisava de alguém urgentemente para anestesiar-se, mas não tinha ânimo.

Por que não poderia ser feliz com Camila? Por que ela tinha se esquecido dela, tornado-se tão fria?

Por que não poderia mais experimentar o arrepio provocado por aquelas  mãos inquietas e macias que, sem pedir licença, transitavam entre seus meridianos, acendendo “outra vez aquela chama”?

Fernanda pousou o copo na mesinha e encheu os olhos de imagens antigas. O sorriso de Camila grudado ao seu, enquanto falava bobagens de amor com a voz dengosa de menina e com a respiração entrecortada.

“Camila, lembra-se de como pintava seus lábios com saliva enquanto sua língua descobria outras trilhas?”

Por que com ela o ritual repetido ainda adquiria novos significados e era sempre diferente? Camila, deitada sobre seu corpo, pediria: “vem!” E Fernanda, sem obedecer, com sua mão sorrateira e a língua sedutora, se meteria entre seus devaneios. Continuaria devagar apenas para ter aonde ir depois de repetir tudo outra vez. No som do quarto, o mesmo CD teria tocado repetidas vezes e a mesma música não se cansaria de embalar o ato de amor, misturando refrões aos sussurros molhados pelo desejo.

- Eu quero você, Fernanda.

E ela, deitada entre suas pernas, sôfrega, recitaria poemas de Rimbaud. O gozo não teria começo, meio e fim. Lá fora, a lua cheia intumesce em seu brilho. Lá dentro, a menina, executando uma dança alucinada, alçava vôo.

- Faça-me sua, agora! – sussurrava ofegante.

Não precisava pedir. E elas, esquecidas do tempo, passariam a noite se amando e depois, suspirando satisfeitas, enroscariam seus corpos acreditando que lá fora ainda seria noite. Mas só por um momento, o sol se esconderia e o dia demoraria a começar para as duas.

 

............................

 

Memórias. Para que alimentá-las? Animais vorazes, consumiam sua alma.

Fernanda tomou mais um gole de sua bebida. Olhos fixos no vazio. Ouviu o ruído insistente da campainha. Foi tropeçando até alcançar a porta. Carolina. Por que ela nunca ligava avisando que vinha? Ah, elas não tinham mais regras a seguir. Carolina não esperou ser convidada. Foi entrando. E então, beijando o rosto de Fernanda, dirigiu-lhe um olhar inquiridor.

- Que cara é essa? Humm. Andou bebendo?

Fernanda ficou com o rosto impassível por uns segundos antes de responder... Então disse de uma vez:
- Não te contei ainda. Eu vi Camila...Eu a tenho visto a semana inteira.

Carolina colocou a bolsa e os livros sobre a mesa. Ar de surpresa. Um frio percorrendo a espinha. Não, de novo, não.

- A sua Camila?
- Ela mesma.

Carolina respirou fundo e tentou elaborar a pergunta em um tom casual:
- Hummm. E aí?
- Aí que estou me sentindo esquisita. Sabe como é?

“Eu descobri que ainda a amo. Não é terrível sentir-se assim depois de tantos anos, Carolina?”

- Não, sei não. Como é?
- Meio mexida.
- Mexida...
- É, sei lá, confusa.

A outra deu um sorrisinho. Por dentro, a dor irrompia, trazendo de volta seu segredo.

- Olha, Fernanda – Carolina sentou-se perto dela e lançou um olhar repleto de cumplicidade: - não sei o que você ainda sente por essa garota, mas já faz tanto tempo. Você não é mais uma adolescente. Tem que aprender a lidar com isso.
- É...mas tem mais uma coisa...
- O quê?
- Ela trabalha na empresa em que fui vender um grande pacote de T.I. Que ironia! Ela me desconcertou toda. Me deixou imprestável, sem argumentos. Fiquei que nem uma idiota. E ela me provocando. Depois, nem quis falar comigo.

Carolina sentiu os músculos relaxarem e suspirou aliviada. Aquele amor de Fernanda por Camila a incomodava profundamente, ainda mais agora quando se separava de Andréia.

- Ok, você achava mesmo que depois do que aconteceu ela pularia nos seus braços? É uma reação natural. Eu ficaria espantada se ela agisse diferente...
- Arrr.
- Não fique irritada, foi só uma observação.
- Acontece que ela me odeia, entende?
- Entendi.
- E ela tem outra!

Carolina suspirou aliviada. Menos mal.

- Isso não deveria estar acontecendo. Não era para ser assim! – resmunga Fernanda com uma expressão atormentada.
- Ah, não? Foi você mesma quem descartou a menina, deu o maior chega pra lá nela. A coitada ficava correndo atrás, enquanto você a escorraçava. Fiquei até com pena dela. E aquele beijo cinematográfico que você deu naquela loira na frente dela? Não sei por que agora você está se lamentando. Ninguém ficaria feliz com um fora desses.
- Que droga! Não era para encontrá-la!

A outra deu um sorrisinho.

- Isso atrapalha sua vida mansa, não é? Confrontar-se assim com o passado dói...
- Você não está me ajudando, Carolina...Não sei por quê você fica me julgando. Você sabe bem o que aconteceu.
- É, mas você foi covarde. Admita.

Fernanda sabia que ela tinha razão. Foi pura covardia.

- É, fui covarde – disse, com a voz pastosa - E quer saber, vou encher a cara para esquecer esse assunto de uma vez!
- Hahaha. Fernanda, como você é imatura.
- Eu? Eu, Carol? - Fernanda ia levantando-se, mas foi impedida pelo gesto de Carolina, interceptando-a:
- Vem, cá. Vamos conversar.
- Você não é bem a pessoa com quem quero conversar agora.
- Tá, mas sou eu quem está à mão – sorriu, tentando animá-la - Vamos lá, desabafe.
- Você só sabe me julgar... – disse num tom magoado.
- Não é isso. Mas é que se eu estivesse na sua situação naquela época, teria enfrentado, teria mandado tudo às favas.
- Teria?
- U-rum - ela confirmou balançando a cabeça.
- Mas eu tive medo...- comentou desalentada, sentando-se com as mãos cobrindo o rosto - Agora é tarde para lamentar.
- Tarde para quem?

Fernanda exaspera-se:
- Para mim, para ela. Ela me odeia, não entende?!
- Isso não quer dizer nada, né, Fernanda...
- Só se for para você. Pra mim, significa muita coisa.
- Tá. Mas se você não tivesse encontrado com ela agora, você não estaria nesse estado. Pelo contrário, a sua vida seguiria o curso de sempre, com seus casinhos à toa, vivendo um dia de cada vez... – a voz de Carolina estava impassível, mas seu olhar, colado no rosto de Fernanda, tentava analisar a extensão daquela dor estampada - Você nunca foi atrás dela, amiga, nem a procurou para esclarecer as coisas.
- É, eu sei...
- Ela tem toda razão de estar magoada com você...
- É. Quando penso nisso me sinto péssima.
- Bem...sempre achei que você errou em ter se afastado sem discutir a questão adequadamente.
- Se eu não tivesse feito isso, as coisas teriam ficado piores pro meu lado.
- Você ia ter que cuidar da menina. Quem sabe, até levá-la para o colégio, pagar merenda, comprar vestidinhos...
- Não fica zombando – reagiu, irritada.
- Ok, vamos para o lado prático.
- Não tem um lado prático.
- Ué, você não vai fazer nada a respeito?
- Não tenho nada a fazer. Ela me odeia, já te disse!
- Ela não te odeia.
- Você não viu como ela me tratou.
- Ela só está magoada pela maneira como você a descartou. Quem não ficaria? Mas se ela te tratou mal agora é porque ainda sente algo por você...
- Você está surda ou maluca? Ela-me-o-d-e-i-a!
- Rá-rá-rá. Claro que entendi esta parte, sua boba. Mas o que isso tem a ver com a situação entre vocês?
- Deus, dai-me paciência!

Estava sendo difícil ficar calma e explicar a Carolina o que se passava por dentro dela. Como revelar que seis anos depois ainda sentia por Camila o que havia irrompido desde o primeiro dia? Que sua alma estava aos pedaços, arranhada pelo ciúme e pela impotência, que nada parecia fazer sentido e que tudo o que queria fazer era sentar e chorar de pena e desespero?

E tudo o que conseguiu fazer foi beber um pouco mais e calar-se.

- Ahhh...tudo bem, você não vê as coisas sob o meu ângulo. Não estou dizendo para seqüestrá-la, Fernanda. Estou dizendo para você conversar com ela e esclarecer o que houve.
- Não dá, Carol. Não dá. Essa situação é muito complicada.
- Você é quem complica...

Carolina animou-se de repente e convocou:
- Vamos espantar essa tristeza. Quer comer alguma coisa?
- Comer?

Não, não estava com vontade de almoçar, jantar ou qualquer outra coisa, mas lá estava Carolina, em pé, de braços cruzados, intimando-a. Fernanda sabia que ela não iria desistir. Era a criatura mais insistente que conhecia.

- O que tem em casa não serve?
- Ah, não...pão integral, não, amiga. Chega. Vamos comer algo de verdade.
- O que você quer, Carolina? Estou bêbada. Enjoada.
- Eu vim para conversar... estou ansiosa, sabe, meu casamento. Mas...deixa pra lá. Vem cá. – disse, sentando-se ao seu lado e a abraçando – Você está precisando mais de conforto do que eu agora.

Carolina a abraçou forte e deixou sua cabeça pender sobre seu ombro. Ficou passando a mão em seus cabelos. Era bom sentir aquele calor transbordando misturado ao seu hálito doce. “Fernanda...”, pensou, fechando os olhos: “Quando é que vai deixar de sofrer por essa menina?”.

Enquanto isso, a música ecoava pela sala do apartamento, remexendo com antigas feridas:
“Já confundimos tanto as nossas pernas/ Diz com que pernas eu devo seguir (...)”.

 

...........................

 

Mais tarde. O café esfriava em cima da mesa. O copo de bebida, pela metade. Fernanda estava com seu semblante arranhado por uma pequena ruga entre os olhos. Uma idéia qualquer na cabeça, brincando como uma bolinha de pimball. Bate e volta, sem direção certa.

Se fosse possível resumir a sua vida em uma palavra, que palavra seria? Bobagem pensar isso quando queria mesmo era dormir e esquecer Ca-mi-la. Sempre ela, perturbando seu sono, seu estado de vigília.

- Por que você fica calada e com esse olhar perdido? Vamos conversar. É melhor. Deixa sair.

Fernanda virou o rosto lentamente em direção a Carolina. Não adiantava insistir. Precisava de silêncio. Estava cansada. Poderia mentir ou simplesmente fingir que não ouviu. Era tão óbvio que pensava na menina, na sua menina. Os olhos de Carolina não se desviavam dos seus.

- Vamos falar de que? – disse a contragosto, com a voz arrastada.

Carolina dá um tapinha leve no braço da outra e sorri.

- Não estou querendo te obrigar a jogar conversa fora, Fernanda. Apenas diga o que sente. Posso ouvir calada, juro. Não vou dizer uma palavra.

Não era isso. Para quê, afinal, dizer um punhado de sílabas inertes? Estava farta disso.

- Estou cansada, com sono.
- Sei... – Carolina fez um muxoxo decepcionado – Está me expulsando?
- Ah, Carolina, pára com isso. A gente se conhece há anos. Se quer ficar, fica.

Carolina suspirou melancolicamente. É, agora que não tinha mais Andréia em sua vida, não precisava mais ligar avisando. Mas tudo bem. Parecia ser melhor ficar ali do que ir para sua casa e enfrentar o quarto vazio, o silêncio aterrador.

- Fernanda...

Ela está lá, mas sua mente não. Onde estaria? Não precisava nem se esforçar para imaginar onde? Pensando em Camila.

Se não fossem amigas há tanto tempo, se chatearia por ser ignorada. Mas estava ali por livre e espontânea vontade e nem adiantava reclamar de nada. Sabia como funcionava Fernanda. Era melhor deixá-la sem pressão, sem cobrança.

Levantou-se e foi até a varanda. O perfume da noite a invadiu. Fechou os olhos e respirou fundo.

Na sala, Fernanda pensava o que teria feito Camila depois do término do namoro. Teria se casado com aquela mulher do restaurante? Teria se esquecido de sua paixão por ela? Odiado-a mais do que amou um dia? Serviu-se no bar. Bebeu mais um gole de sua bebida. Viu que Carolina estava na varanda.

“Melhor assim”.

Agora sentia uma falta intransigente do corpo de Camila. Queria ouvir novamente sua risada contagiante, sentir seus lábios nos seus, os abraços delicados e pungentes aquecendo seu corpo.

“Perdoe-me, Camila, se te fiz sofrer”, sussurrou. Agora, eram apenas murmúrios de culpa. Não, ela não perdoaria. Restava apenas a tarefa de esquecê-la. Mais uma vez.

Durante meses, após a separação, Fernanda tinha sustentado a sua dor silenciosamente, metendo-se em mil relacionamentos relâmpagos, tentando contornar o vazio que se instalara em sua alma.

Camila, Camila, Camila. Pulsa, pulsa, pulsa.

“Como dói”.

Tudo o que ela queria era esquecer, esquecer “Ca-mi-la”. Onde ela estaria naquele momento? Abraçada a sua nova mulher? O que sentiria? Teria mais ódio agora do que quando bateu a porta e se foi para sempre?

“Camila, sinto sua falta”

 

..............................

 

Fernanda abriu os olhos lentamente. Gemeu. Olhou em volta e parou os olhos no relógio digital na cabeceira da cama. 10h. Dez horas de uma manhã quente. O mais difícil de acordar após ter se excedido na bebida no dia anterior era constatar que tudo continuava do mesmo jeito. Camila, Camila, Camila. O nome da garota repercutia em sua mente. E antes mesmo de sentir o próprio corpo, nos seus sonhos tumultuados, tinha pensado nela, amado-a como antes, desesperadamente. Mas era apenas mais um de seus sonhos.

Fernanda gemeu outra vez e passou a mão pelos cabelos, enquanto sentava-se na ponta da cama. Ouviu ruídos fora do quarto. Carol já estava acordada e preparava o café da manhã. O cheiro de ovos mexidos provocou-lhe náuseas.

- Não vou tomar café! – gritou do quarto, sentindo o estômago embrulhar.

Carol abriu a porta do quarto com a cara feliz:
- O que você disse?

Fernanda fechou os olhos e disse devagar, tentando controlar a náusea:
- Eu não vou comer nada. Estou de ressaca.

Carol sorriu e comentou suavemente:
- Não precisa nem dizer. Sua cara já diz tudo.

Fernanda rosnou alguma coisa e Carol voltou a perguntar:
- Então, quer alguma coisa?
- Uma anestesia geral...

Carol sorriu.

- Pára de beber e tudo fica bem...
- Pelo contrário...preciso de mais uma dose para afugentar os meus fantasmas.
- Credo! Que mal-humor.
- Não estou falando de você, sua boba – Fernanda rolou na cama até se cobrir de novo e comentar meio a uma careta de mal-estar: é de Camila que falo. Ela é o meu fantasma.

Fernanda silenciou, mas por dentro pensava em como precisava urgentemente tirar Camila da cabeça. “Não posso agir como uma adolescente apaixonada, ter uma dor-de-cotovelo toda vez que a vir. Isso tem que acabar”.

Carol suspirou e se aproximou lentamente de Fernanda.

- Eu pensei sinceramente que você já tinha esquecido essa garota.

Fernanda lançou um olhar seco em direção a Carol e respondeu:
- Eu também.
- O que você vai fazer?
- Esquecê-la....como na primeira vez – disse, embora não fizesse a menor idéia de como tornar isso possível - Vou falar com o Gustavo. Não sei se poderei levar esse contrato com a incorporadora adiante. Vou ficar cruzando com Camila o tempo todo.
- Ah...
- Além disso... ai, que dor de cabeça! – grunhiu Fernanda, fechando os olhos – acho que a nossa proposta não vai dar em nada. A Camila vai estragar tudo. Ela está em posição de descartar a proposta. E a direção da empresa a colocou justamente para analisar isso e decidir. Acho que é perda de tempo insistir nesse contrato – comentou desanimada.

Carol olhou para Fernanda e não pôde evitar a expressão de surpresa:
- Não acredito que você está pensando em desistir antes de tentar.

Fernanda silenciou enquanto Carol olhava para ela, graduando as expressões do rosto, da surpresa para a incredulidade.

- Fernanda, você está desistindo apenas porque não quer mais cruzar com essa garota? Eu não estou acreditando nisso.

Fernanda levantou-se da cama e ficou de pé, olhando uma Carolina atônita:
- Você não sabe que inferno eu passei para esquecer a Camila...e, ah, “suprise”! Eu não esqueci... que merda! Voltei à estaca zero. Tenho que esquecê-la, entende? Se ficar vendo essa garota todos os dias, vou enlouquecer, Carol, eu vou enlouquecer!
- Tá, tá, não precisa ficar nervosa. Senta aqui.
- Olha, não vou conversar com você agora. Estou prestes a botar os bofes pra fora. Me dá licença...

Fernanda sai correndo do quarto em direção ao banheiro. Carolina escuta os ruídos característicos e pergunta com o tom preocupado se Fernanda precisa de alguma coisa.

- Não...fica aí – respondeu Fernanda, com a voz trêmula.

Minutos depois, ela sai do banheiro, de banho tomado, e uma expressão incerta no rosto.

- Você está melhor? – perguntou Carol, acercando-se da amiga.
- Muito melhor, mas preciso me deitar. Vou ligar para o Gustavo. Não vou poder ir trabalhar hoje...
- Humm, vou preparar um chá e...
- O que eu quero, Carol, é que me dê um pouco de espaço. – Interveio Fernanda, com a voz firme.
- Hã?
- Eu não estou de bom-humor...
- Não estou pedindo que conte piadas e me faça rir, Fernanda. Mas precisa de alguém para cuidar de você e estou aqui.
- E sua vida, Carol? Que eu me lembre, você estava se desmanchando até uns dias atrás por causa da Andréia.
- Passou... você tem razão. Ela não merece uma lágrima minha – disse com um tom ressentido, enchendo os olhos de água.

Fernanda revirou os olhos e pediu mentalmente por um pouco mais de paciência. Queria ficar só. Mas a última coisa que gostaria naquele momento era consolar Carol.

Carolina limpou os olhos e perguntou prática:
- Quer um chá?

Fernanda arrepiou-se. Não, ninguém a faria tomar o famoso chá levanta-defunto de Carolina.

- Tá, se quer ficar, fica, mas não quero chá nenhum, ok?

Carolina deu-se por vencida e concordou. Fernanda voltou a se deitar e enrolou-se até o pescoço.

- Eu ligo pro Gustavo – disse Carol.

Fernanda não respondeu. Começava a cochilar de novo.

Na sala, Carolina hesitou antes de pegar no telefone. Depois discou o número do escritório lentamente.

- Ela o quê? – exasperou-se Gustavo no outro lado da linha.
- Está de ressaca – respondeu Carolina, tranqüilamente.
- Mas meu Deus do céu! A Fernanda enlouqueceu? Tem milhões de coisas pra fazer hoje...Beber durante a semana é uma atitude totalmente irresponsável.

Carolina hesita, fica um pouco em silêncio antes de contar:
- Gustavo, não sei se devo falar, mas...
- Fala!
- É que a Fernanda está querendo desistir da Incorporadora...
- Ela não faria isso!...
- ...
- Por que ela faria isso? Fernanda não me disse nada – replicou nervoso – O que você está sabendo que eu, que sou sócio dela, não sei?

Carolina silenciou uns segundos antes de responder:
- Sabe aquela garota por quem a Fernanda foi apaixonada?
- Camila. Resposta fácil...o que é que essa garota tem a ver com a nossa história?
- Gustavo, a Camila trabalha na Barreto. E pior: ela é analista de sistemas da empresa. O projeto de vocês está nas mãos dela.
- Puta merda! – exclamou Gustavo.

Carolina quase podia pressentir que Gustavo estava dando pulos de raiva e frustração no outro lado da linha. Ela ainda ouviu dois ou três palavrões antes de ele voltar ao fone e dizer esbaforido:
- E a Fernanda não me disse isso por quê? Eu sou igual corno, o último a saber? Que porcaria de empresa é essa que eu dirijo? Cadê a Fernanda? Ela tá ai? Diz pra ela falar comigo agora!
- Gustavo, você pode se acalmar?
- Ela nunca foi covarde e agora essa: mandar recado!
- A Fernanda não está em condições de falar ao telefone. Está nauseada. Já foi vomitar umas dez vezes desde que acordou.

Gustavo amenizou o tom de voz e perguntou preocupado:
- Ela está mal assim?
- Malzinha...
- Que pena, porque vai escutar mesmo assim. Vou “praí”!
- Olha, Gustavo, a Fernanda não está em condições de discutir nada hoje. É perda de tempo. Respira fundo e espera ela te contar.
- Sabe o que é pior, Carol, a gente estava precisando desse contrato para fechar a cota com os nossos parceiros internacionais. Agora, a Fernanda conseguiu acabar com tudo!
- Você sabe que não é culpa da Fernanda.
- Ela e esses rolos lésbicos.
- Não tem nada a ver você ficar falando isso, Gustavo!
- Poxa, a gente rala pesado na empresa pra acabar assim...nas mãos de uma guria magoada? Não dá pra aceitar!
- Olha, acho que pisei na bola falando essa coisa da Camila pra ti. Quando a Fernanda souber, ela vai querer comer meu fígado.
- Eu é quem vou comer o fígado dela se não resolver essa situação! – Gustavo quase gritava – Não foi ela quem deu o fora na garota, quem fez a menina pirar o cabeção? Agora desfaz: seduz, enrola, namora de novo, casa, não interessa! Eu não vou me prejudicar por causa da Fernanda.
- Ah, Gustavo, mas você está saindo um belo de um egoísta...
- O caralho, Carol! Você não sabe quanto eu dei de sangue pra Infoway pegar...e essa parceria com a Bitcompany foi suada. Não foi fácil colocar a empresa no mercado, conseguir essa carteira de clientes, manter a liderança. Não vou deixar esse casinho da Fernanda estragar tudo, não vou mesmo!

Carolina estava assustada. De repente, achou que estava falando com Gustavo, amigo de Fernanda, mas quem estava ali era Gustavo, o sócio enfurecido.

- Olha, não sei o que você vai fazer, mas só sei que não depende da Fernanda. As coisas não são tão simples assim,
- Não se mete. Ela vai ter que dar um jeito!

Disse isso e bateu o telefone. Carolina ficou com o aparelho nas mãos e colocou no gancho, com uma expressão preocupada.

“Estraguei tudo. A Fernanda vai me matar...”

Carolina ficou andando de um lado para outro na sala, e aproximou-se do quarto, onde Fernanda dormia profundamente.

 

Capítulo 9

 

Fernanda abriu os olhos novamente e levantou-se. O quarto estava escuro. Lá fora, ouviu o ruído da TV ligada na sala. Saiu cambaleando e surpreendeu Carolina abraçada a uma almofada, tomando um suco e assistindo a um filme.

- ... você não foi pra sua casa?

Carolina desligou a TV e levantou-se num pulo, assustada, derramando o suco no chão.

- O que foi, Carol?
- Eu me assustei...
- Então, você não foi trabalhar?
- Não fui trabalhar porque fiquei preocupada com você. Eu já me justifiquei com a agência. Também “adoeci”... – disse num sorriso cúmplice.
- Puxa...eu não queria atrapalhar sua vida, Carol... – lamentou.

Silêncio. Alguma coisa estava estranha. Fernanda pressentia. Carolina não a encarava.

- ...por que está com essa cara de quem aprontou? O que foi?

Carolina remexeu o corpo e ligou a TV de novo.

- Não é nada – disse sem olhá-la.

Fernanda sentou ao seu lado e ficou olhando-a de soslaio.

- Melhorou? – Carol perguntou sem desviar o olhar da tela da televisão.
- Meu estômago está dando cambalhotas, mas estou bem.
- Ah.. então não vai comer agora?
- Não, hoje não.

Fernanda lançou mais um olhar investigativo sobre Carolina.

- Você está desconfiada, Carol...diz logo: o que você andou aprontando?

Carolina piscou os olhos nervosamente e disse:
- Não...é que...bem... Você promete não ficar chateada comigo?

Fernanda aguçou os olhos em direção a Carolina.

- Você abriu a boca pro Gustavo, não foi?
- Fernanda... – disse trêmula – bem, é que....fiquei preocupada com a história da Camila e...

Fernanda irrompeu, levantando-se do sofá:
- Mas, Carol, poxa, você não tinha esse direito! Agora o Gustavo vai ficar buzinando no meu ouvido. Pensei que podia confiar em você! Mas na primeira oportunidade, contou a história toda...

Fernanda voltou a se sentar no sofá aborrecida. Carolina olhava para ela sem coragem para dizer nada.

- Você sabe que o Gustavo jamais vai me perdoar se perdermos a conta da Barreto, principalmente se o motivo for mulher...
- Fernanda...
- Olha, Carol, você não é fofoqueira...sei que agiu com a melhor das intenções, mas o Gustavo não é do tipo que entende...ele quer resultados.
- Eu sei...eu sei...só quis ajudar.
- É, mas eu ia contar a história...só que não dessa forma.
- Puxa, eu sei que falhei com você. Você confiou em mim e eu estraguei tudo.

Carolina começou a chorar. Fernanda amenizou a expressão contrariada e logo estava abraçando a amiga, consolando-a.

- Não precisa chorar, né? Não estou com raiva de você.
- Não?
- Claro que não. Somos amigas há séculos, Carol, sei que não faria nada para me prejudicar...mas, por favor, da próxima vez, pensa melhor.
- Não vou mais pisar na bola com você, Fernanda.
- Não promete... – disse Fernanda, sorrindo – Você vive fazendo trapalhadas cheias de boas intenções. Você é uma eterna bola-fora, Carol.
- Não sou não! – interrompe Carolina, fungando. – Me diz o que eu faço pra amenizar a situação?

Fernanda ficou um pouco em silêncio e disse:
- Você fala com a Camila?

Carolina sentiu um impacto no peito e, de repente, os ciúmes irromperam sem controle:
- Então, você acha que vou me rebaixar falando com sua ex-namorada?! Nem pensar!

Fernanda ficou séria e Carolina, de peito arfando, se levantou do sofá, tomada pelo nervosismo:
- Eu não vou falar com a Camila, de jeito nenhum!
- Ok, já entendi.

Fernanda suspirou. Carolina sentou-se pesadamente no sofá.

- Eu simplesmente não posso, não posso!
- Ok, ok, acalme-se. Camila é problema meu. Tem razão.

 

....................

 

“Camila é um problema meu”. Fernanda sabia, só não sabia como resolver. Agora, Gustavo também estava no seu encalço, cobrando uma solução. E tudo o que ela menos queria era ficar de novo, frente a frente com Camila. O seu olhar a consumia, a maltratava. Não estava preparada para enfrentar aquele ódio todo. Mas tinha que ir à Incorporadora. A reunião tinha sido agendada no escritório.  E era na sexta-feira. Gustavo a olhou firme e intimou-a a resolver o caso, nem que fosse na cama:
- Ela é problema seu, Fernanda, resolva!

Palavras firmes, que não aceitavam não como resposta. O pior era se sentir culpada, culpada como tinha se sentido no passado. E a sensação a deixava fragilizada, imobilizada, submissa como há seis anos. Naquela época, estava em plena ascensão na empresa em que trabalhava. Seu primeiro grande emprego. Vislumbrava grandes oportunidades de crescimento profissional. E, aos 25 anos, era tudo o que poderia almejar: chegar ao topo. Estava incrivelmente feliz.

Como saber o que aconteceria amanhã? Não poderia. Naquele dia, sem supor o que aconteceria, estava com o espírito desarmado, cantando baixinho canções antigas.

A secretária da direção a convocou urgente à sala de reuniões. Mas em vez de ter um encontro com o diretor da empresa, quem estava ali era um homem estranho, de aspecto arrogante e uma expressão hostil. Fernanda estancou, com uma expressão surpresa, sem saber se permanecia onde estava ou aproximava-se. Em pé, parado, ele lhe lançou um olhar investigativo.

- Sente-se – ordenou autoritário.

Fernanda arqueou as sobrancelhas. Ele devia ser um novo diretor a quem não foi ainda apresentada, querendo demonstrar poder, humilhar. Era bem típico. Se a voz dele era firme, seus olhos ardiam: pareciam incendiar seu rosto.

Fernanda instintivamente baixou os olhos. Não costumava ficar intimidada com ninguém, mas algo nele a deixava assim, sentindo-se como um inseto prestes a ser esmagado.

Sentou-se lentamente. Foi quando ouviu outra vez a sua voz:
- Vi sua ficha. Interessante. Você tem uma carreira bastante promissora.

O homem disse isso com um indisfarçável olhar de escárnio. Fernanda remexeu-se na cadeira e ficou tensa. O tom dele não era nada amistoso.

- Não estou entendendo... o senhor faz parte da empresa? Desculpe, mas ainda não fomos apresentados.

Ele sorriu. Um sorriso breve, sem qualquer traço de simpatia: era um esgar irônico.

- Pedi essa reunião com você por uma razão simples: temos interesses em comum.
- Temos? – Fernanda arqueou a sobrancelha esquerda.
- Não fale nada. Apenas escute – interveio o homem, com a voz firme, quase incisiva. – Você fez Administração de Empresas numa das melhores universidades do país. Eu li a sua monografia. Nada mal para uma garota de interior. Posso pressupor que você aprendeu o significado da palavra prudência, não é? Nos negócios, é mera obrigação. Prever, planejar, entender os cenários.

Fernanda escutava o homem sem saber o que pensar. Estava sendo despedida?

- Eu tenho acompanhado seu desempenho nesta empresa há algum tempo. Precisamente, há quatro meses. Este não é o seu primeiro emprego, mas, seguramente, é o seu mais importante.

Ele disse isso e olhou dentro de seus olhos.

- Eu...
- Não é o momento de você falar – ele disse secamente, interrompendo-a.
- É que...
- Você é mesmo impulsiva! – ele bateu na mesa, irritado.
- ...

Muito depois, ainda era horrível pensar naquele dia e em tudo o que aconteceu por sua causa, por sua imprudência e covardia.

Quem era aquele homem e o que desejava? Ele, ainda de pé, continuava a falar de maneira seca, mas contundente:
- Sua carreira, até este momento, é irrepreensível. Você demonstra competência, determinação, criatividade. O seu chefe falou muito bem de seu desempenho – o homem fez uma pausa e acrescentou: - Aliás, eu e Carlos Pontes fomos amigos de faculdade. Nossas empresas são parceiras há anos.

Aquela informação soava aos ouvidos de Fernanda como uma ameaça sutil. O homem continuou a falar:
- O que posso dizer a seu respeito? É a ambição que a move. Você é individualista, perigosamente seduzida pela possibilidade de crescer. Não se deixa perturbar pelos desafios que têm a frente. Ao contrário: as pressões do mercado, a deixam mais estimulada.

Ele pára e sorri com escárnio. Fernanda percebe que aquele sorriso esconde uma raiva insidiosa.

- Percebo, no seu olhar, que você está confusa. Pergunta-se o que está acontecendo, quem sou eu, porque estou falando essas coisas para você. Não se preocupe. Logo, tudo estará esclarecido. Mas, entenda, o que você me responder hoje definirá o seu futuro nesta e em outras empresas do país.

Fernanda sentiu o sangue gelar. Não estava entendendo aquelas ameaças. Afinal, o que estava acontecendo? Quem era aquele homem?

Ia fazer menção de levantar-se, quando ele a impediu com um gesto.

- O que você fizer hoje, aqui, fará toda a diferença – ele disse. – Eu sei que você não vai querer me insultar, saindo desta forma, sem que eu a autorize.

Fernanda voltou a sentar-se a contragosto.

- Eu não estou entendendo o que o senhor deseja de mim – disse, olhando-o nos olhos - Estou me sentindo ameaçada com suas colocações. E nem sequer o conheço. Como pode saber tanto sobre mim?
- Eu mandei investigá-la. Tenho um dossiê detalhado a seu respeito. Sei de tudo, de sua infância miserável até os seus passos momentos atrás. Você, Fernanda, devo admitir, conseguiu superar as limitações financeiras. Entrou numa excelente universidade, formou-se entre os melhores da turma e hoje possui uma boa colocação nesta empresa, um ótimo currículo, salário invejável. Você pode almejar muito mais na sua carreira. Sei que deseja isso logo.

O homem disse isso e emendou de maneira fria:
- Pena que tenha um defeito: essa sua predileção inoportuna por mulheres.

Fernanda levantou-se abruptamente.

- O senhor não tem o direito de investigar a minha vida, de falar desta maneira!

Ele bateu na mesa, inesperadamente furioso:
- Tenho! Tenho todo o direito. E agora, sente-se!

Fernanda sentou-se, mas o olhava duramente. Estava acuada, nervosa, sem saber o que pensar. O que estava acontecendo? Como seu chefe tinha deixado aquele louco ocupar a sala de reuniões para intimidá-la daquela maneira?

- Eu pergunto, Fernanda: qual o papel dos erros, dos conflitos e das frustrações no sucesso de uma empreitada? Como eleger prioridades, quando os hormônios falam mais alto? Eu sou um homem de negócios. Sei calcular os riscos de cada uma das minhas decisões. Eu sei antecipar os lances, como num jogo de xadrez. Posso dar um cheque-mate sem que você perceba. Então, Fernanda, o que é necessário para vencer o seu oponente? Talvez, conhecê-lo a fundo, saber de suas fraquezas, estudar seus movimentos, deixá-lo pensar que ninguém sabe o que ele está fazendo. Mas eu estudei você. Sei perfeitamente como vencê-la. Como destruí-la.
- Eu sou uma ameaça para o senhor? Por quê? – ela perguntou trêmula, sentindo-se mal.
- Não me faça rir...Você não me ameaça. Você é um nada, um mero transtorno. Mas, não a estou subestimando. Eu sei do que você é capaz.
- Por que tem tanto ódio de mim? Eu não o conheço, nunca o vi! – Fernanda estava quase chorando.
- Realmente, é a primeira vez que nos vemos. Mas você, Fernanda Paes Moraes, conhece a “minha” filha - ele disse isso quase entre dentes, controlando a fúria que parecia emergir em cada sílaba.
- Você seduziu a minha filha, minha filhinha. Camila.

Ele crispou a mão sobre a mesa e olhou-a feroz.

- Essa menina que você seduziu tem família, Fernanda. E você mexeu com quem não devia.

Fernanda quis dizer algo, mas ele a impediu com um gesto autoritário.

- Não. Não fale nada. Apenas escute. Eu sei toda a sua vida. Sei de cada detalhe de sua trajetória sórdida, das mulheres que teve... quanto tempo as teve e o que fizeram juntas. Eu sei. E minha filha será apenas mais uma em sua lista. Mas não por muito tempo. Você dará um fim a esta situação, hoje mesmo. Quero que termine tudo!
- Mas...
- Não me diga nada. Não quero saber.
- Eu amo a sua filha, eu...
- Você a ama da mesma maneira como amou todas as outras que descartou? Ora, por favor! Não seja hipócrita! Chame isso de desejo, volúpia, vaidade...o que seja, menos de amor. Não diga que foi amor essa espécie de prostituição inominável que você praticou nesses últimos anos! Não me diga que foi por amor que você seduziu Camila. Ela só tem 17 anos, meu Deus! Você é doente. Merece ser presa!

Fernanda ficou em silêncio enquanto grossas lágrimas rolavam em seu rosto.

- Eu não posso deixá-la!
- Eu sei o que pretende, mas não vou permitir. Esta não é uma situação negociável. Você vai deixá-la, sim! Vai machucar o seu coração para que ela a odeie. É preciso que esse sentimento que ela pensa nutrir por você desapareça meio ao ressentimento, ao ódio feroz e enraizado. É preciso que ela a odeie para esquecer rápido esse sentimento que me confunde, que me causa horror! Não quero que ela fique com uma boa lembrança sua, que pense em você nos próximos anos com saudade, que a veja como vítima de minha intervenção. Não! Quero que ela impute culpa, que arda no ressentimento, que a veja como aquela que roubou sua inocência e maculou sua paz. Quero que ela a esqueça, que apague todos os bons momentos, que nunca mais queira ouvir seu nome. E que seja assim, pelo ódio, pelo rancor.

De alguma maneira, ele tinha o poder de deixá-la sem ação. Deixar Camila, como poderia dizer adeus a única pessoa que um dia tinha amado? Como teria forças? Queria enfiar-se num buraco escuro, em um oco silencioso para se esconder, e então, fingir que nada aconteceu.

Mas ele continuava falando.

- E nunca! Não mencione NUNCA o meu nome. Eu sei como os adolescentes pensam. Já fui um. Eu li Shakespeare, minha cara. No original. Sei bem o que um bom drama é capaz. Você fará isso, silenciosamente, sem explicar os motivos, da maneira como sempre agiu com as outras garotas. Você sabe como: de coração frio porque disso depende seu futuro nesta cidade, neste país. A sua vida está em minhas mãos. Nem pense em me enfrentar. Você não saberia como. Não teria a menor competência. Eu, ao contrário de você, não tenho limites. Tenho dinheiro, poder e muitos contatos importantes. Se não fizer o que quero, não vou parar enquanto não destruí-la. Então, pense bem. Ou deixa minha filha em paz ou você irá suplicar nunca ter nascido.

O homem levantou-se, apoiando as mãos na mesa de madeira.

- Você tem dois dias para terminar tudo.

Ele lançou um último olhar e saiu da sala. Fernanda, trêmula, começou a chorar. Não conseguia colocar ordem nas idéias. Perder Camila, perder Camila, perder Camila? Não conseguia parar de chorar.

“Meu Deus, por favor, não!”

 

CAPÍTULO 10

 

Entrar naquele prédio novamente lhe provocava uma espécie de náusea, uma dor funda e indefinida no corpo. A reunião foi agendada e como não tinha alternativas, nenhum domínio sobre as próprias decisões, foi. Pesava a situação: de um lado, Gustavo e a empresa, os contratos, a sobrevivência da sociedade; de outro, Camila e seu ódio, aquele ressentimento que não admitia diálogo.

Não, definitivamente aquele não era um bom dia. Nada a comemorar, nenhum motivo para sorrir.

O corpo tremia levemente e por mais que tentasse, não conseguia parar de pensar em como as coisas poderiam ter sido diferentes. No que vacilou? As coisas seriam diferentes hoje se tivesse enfrentado a ferocidade do pai de Camila? Se não fosse a sua covardia, poderia ter ficado com Camila, tornado-a sua, para sempre? Fernanda não conseguia responder a si mesma esta questão e nem mesmo afirmar se o amor que um dia sentiu – e que parecia irromper de novo – não foi, desde o início uma mera quimera romântica.

- “Por que você sempre quer saber o que vai fazer a seguir, planejar tudo, tirar o sabor das surpresas?”

Camila tinha perguntado um dia, quando ainda se amavam sem sombra de ressentimento. Fernanda a olhou e perdeu-se naqueles olhos.

- “Talvez por não gostar de surpresas...” – respondeu devagar.
- “Mas isso torna tudo muito previsível e chato” – Camila respondeu, provocando-lhe com um meio sorriso.
- “Ainda assim. Melhor saber onde se pisa”.
- “Tudo bem, se prefere assim – respondeu encarando-a e cruzando os braços - Mas saiba que não sou uma boneca que você vai ficar apertando os botões sabendo o que acontecerá em seguida. Não vou me conformar a esse papel”.

Desafio. Fernanda gostava disso.

- “Eu sei”.
- “E isso me torna alguém menos interessante pra você”? – ela sorriu, olhando bem em seus olhos. Sorriu, desmanchou a seriedade de sua pergunta sem hesitações.
- “Pelo contrário”.
- “Era só isso que eu queria saber”.

Ah, Camila, sinto saudades de suas provocações. Mas por que perder tempo pensando sobre o futuro se todas as possibilidades são escritas de um modo insano?

Fernanda acreditava nisso agora, mas não era exatamente assim que pensava naquele momento, anos atrás. O diálogo, naquele dia, terminara com um beijo ardente. Agora, olhando fixamente para a porta da sala da analista de sistema, esperava o momento de entrar. Seu coração batia aceleradamente. A secretária atendeu ao interfone e disse para ela entrar.

- Err. Onde posso beber água?

Sede, medo, nervosismo. Tudo junto.

- A senhora pode entrar. E eu a sirvo na sala – a moça respondeu gentil.

Fernanda sentia o corpo pesar. E como se sentiria Camila, tendo que revê-la mais uma vez? Se sentiria como ela, tomada de ansiedade? Pensaria no passado e como poderia ter sido diferente? Teria ódio e asco, tentaria destruí-la impiedosamente?

- Sente-se, por favor – Camila mal a olhou e disse a frase de forma fria, impessoal. Fernanda entrou na sala e deparou-se com uma pequena equipe formada por mais dois jovens.
- Meus assistentes: Francisco Rezende e Alfredo Gomes. Esta é Fernanda Moraes – Camila apresentou, em tom formal – vamos discutir os detalhes do projeto de integração de sistemas.

Sentaram-se em volta da mesa de formato oval. Fernanda ficou de frente para Camila, que evitou seu olhar. Mantinha-se distante, quase ausente. Por acaso, aquele olhar que se incendiava e perdia-se meio às palavras era mera representação? Por acaso estava como ela, nervosa, trêmula, pensativa?

- Analisamos a sua proposta e temos muitas perguntas – ela começou dizendo.

A reunião foi tranqüila. A tensão inicial foi contornada e Fernanda conseguiu apresentar alternativas aos questionamentos apresentados pela equipe. Depois de quarenta minutos, Camila encerrou a reunião.

- Bem, a empresa tem um cronograma. Esperamos a proposta de adequação da Infoway para quinze dias. E a fase de teste da primeira etapa de instalação no máximo em dois meses. Esses prazos são satisfatórios?
- Na realidade, precisaríamos de mais tempo. Entretanto, podemos apressar a adequação e atender as necessidades da empresa – disse Fernanda, olhando Camila nos olhos. Ela ainda tinha olhos incríveis.
- Ótimo – Camila respondeu secamente, tirando os olhos dos seus. Levantou-se, silenciosa, preparando-se para sair.

Fernanda hesitou e então pediu:
- Poderíamos conversar um minuto a sós?

Camila parou e sem se voltar, falou:
- Acho que já conversamos tudo o que tínhamos para falar na reunião.

Tensão no ar. Os demais membros da equipe entreolharam-se e saíram da sala, deixando-as a sós.

- Só queria agradecer – disse com a voz baixa e doce.

Camila voltou-se para ela, esboçando um sorriso de escárnio. Como a doce Camila podia ter herdado aquele sorriso cruel do pai?

- Não precisa agradecer. Eu não misturo minha vida pessoal com negócios.

Fernanda aproximou-se dela e disse suavemente:
- Eu sei, mesmo assim, acho que devia agradecer. Afinal, você poderia...
- Atrapalhar os seus planos? – ela interrompeu com o olhar duro – Não se preocupe. Se a proposta for mesmo interessante e atender às necessidades da empresa, você não tem com o que se preocupar. Agora, se me der licença, tenho outros compromissos.
- Camila...

Ela estancou e relutou em voltar-se novamente para Fernanda. A sua respiração estava pesada.

- Não podemos continuar assim. Eu...

Camila a encarou.

- Fernanda, o que passou não tem mais nenhuma importância. E aqui na empresa, você é apenas uma prestadora de serviços. Só isso. É por este motivo que estamos falando. Se pretende retomar os assuntos pessoais, perde seu tempo – Camila cravou seus olhos na mulher parada a sua frente e disse firme: – Esqueça, não irei discutir o passado com você.

Fernanda não quis responder de imediato. Apenas esboçou um olhar repleto de culpa e saudade. Gostaria, se tivesse mais força, permanecer longe da frágil barricada de argumentos silenciosos construídos por Camila, mas não conseguia.

Fernanda suspira e sem poder conter-se, diz triste:
- Eu nunca te esqueci.

Camila estremeceu, baixou os olhos e mudou a cor do rosto. Por dentro, sentia o peito explodir. Como ela podia, depois de tanto tempo, tentar seduzi-la assim? Camila ouviu sua voz rouca irromper, irada:
- Você não tem esse direito!

“Camila, você pode avançar e bater em meu rosto. Eu deixaria. Poderia cravar as suas unhas em meu peito. Não doeria tanto quanto a sua mágoa. Pode arrancar a penugem tenra de meu corpo com os dentes, e, nesse alvoroço violento eu deixaria que fizesse marcas em minha pele. Pois, nesse ataque ensandecido, poderia jogar-me no chão e me pisotear sem pena. E mesmo assim, aceitaria essa punição como se fosse me redimir”.

Por que Camila não reagia? Inerte, apenas a encarava, com o ressentimento infiltrado na alma e nos olhos marejados de lágrimas. Vendo-a desmoronar, Fernanda arrepende-se da confissão. O que tinha feito?

- Desculpe. Eu não pretendia...

Ah, cansaço. Chega um momento em que toda luta parece inútil, total perda de tempo, e as tentativas transformam-se rapidamente em pesadelos ou numa forma qualquer de loucura.

- Você me destruiu, Fernanda! Você me machucou. Não venha agora me dizer essas coisas, desculpas esfarrapadas!

Camila disse isso, sem pausas, passando a mão nos olhos para enxugar as lágrimas.

- Você é cruel. Cruel!
- Não! – Fernanda quis finalmente esclarecer os fatos, desfazer o engano, revelar a sua dor, a dor que também sentiu, mas travou os dentes. Não poderia, nunca poderia dizer o que sentiu, porque teve que interromper o namoro, maltratá-la daquela forma quando tudo o que queria era continuar amando-a – Não...eu...

Ela baixou os olhos e também chorou em silêncio.

- Você tem razão. Eu não posso mudar o passado – Fernanda disse isso e de cabeça baixa, pegou suas coisas para sair da sala.

Camila assistiu a sua saída imóvel. Mas então, quando Fernanda ia abrindo a porta, ela disse baixinho, num tom doloroso:
- Por que, Fernanda? Por que diz que não me esqueceu?

Fernanda levantou os olhos e precipitou-se dentro daquela vaga azul, maré de ondas bravias e intermitentes.
- Porque eu te amei, Camila. Por isso.

A garota tremeu e fechou os olhos.
- Mentira.

Ela disse baixinho e depois mais alto, quase descontrolada:
- Mentira!

Fernanda não podia ficar mais ali. Não podia. Num impulso de fugir dali, abriu a porta e saiu carregando a montanha de culpas e omissões que a tornavam infeliz. Camila não a impediu.

Naquele dia, em 98, quando gritou para Camila deixá-la em paz, a garota saiu batendo a porta. Hoje, sentia vontade de fazer o mesmo.

“Olha em volta de ti, alma atribulada e triste”.

Num milésimo de segundos, Fernanda refletiu sobre o ridículo de tentar se explicar se não podia contar a verdade. De que adiantaria?

Em 98, a campainha de seu apartamento tinha tocado com insistência. Por dentro, Fernanda rezava que fosse Camila, de volta, querendo convencê-la a ficarem juntas. Teria cedido. Claro que sim. Não pôde esconder a decepção ao se deparar com Carolina com seu o ar condoído.

Naquela noite sufocante, Carolina fez a primeira de uma série de perguntas desnecessárias:
- Então?... acabou?

Carolina sabia que a pergunta era mais um artifício óbvio para pedir que ela se abrisse, que contasse tudo. Não precisaria responder. Claro que tinha acabado. Bastava olhar para seu rosto, sentir a sua alma vazia, o corpo inerte. Sim, tinha acabado. Tudo. Tinha expulsado Camila de sua vida, pra sempre. E agora, não sabia mais o que fazer do resto de vida que tinha restado.

Fernanda poderia dizer mil coisas, mas preferiu um sim lacônico.

- Sim, terminou.

Fernanda tinha conseguido afastar Camila de sua vida através de palavras cruéis e seu teatro de ignomínia. Sim, tinha feito coisas das quais se arrependeria amargamente pelo resto da vida. E por quê? Por covardia.

- Você pode lutar... – argumentava Carolina, com o olhar repleto de comiseração.

Fernanda suspira profundamente. Com a voz arrastada por um cansaço que nascia de suas entranhas, conseguiu dizer:
- Não quero falar sobre isso. Agora não.

A sua dor era maior porque tinha feito promessas demais a Camila: promessas de felicidade, de uma vida eterna, repleta de amor... mas, então, seis meses depois do primeiro beijo, tudo que um dia disse, teve que desdizer. Cruelmente. O que ela faria? Talvez enfiar o resto do corpo no pântano para buscar um pouco de sossego, permanecer imperturbável enquanto o som de gritos eclodia em sua mente. Talvez.

Fernanda se contraía inteira no sofá, abraçava as próprias pernas e fechava os olhos. Humana. Demasiadamente humana, apenas isso. Ah, essa covardia moral que transforma pessoas em bonecos destinados a uma refinada indolência... sempre se auto justificando, misturando lágrimas a sorrisos, o pessimismo ao cansaço. Se tivesse sido mais cautelosa, se não fosse aquela romântica incurável... se, talvez, apenas talvez, não tivesse chorado tanto...

- Eu tive medo, Carolina. Sabe o que é isso, covardia?

Apenas isso? Ora, tarde demais, Fernanda. O mal estava enraizado, ressentido. E agora, a quem culpar senão a própria fraqueza pelo que tinha acontecido?

Um ruído. O telefone tocando e as memórias de 98 se esvaindo. Ainda bem. Fernanda estendeu a mão preguiçosamente em direção ao aparelho.

- Alô.
- Fernanda! – disse o rapaz, com uma entonação animada.
- Oi, Ricardo.
- Nossa, que voz é essa? Algum problema?
- Quer uma lista?
- (rindo) Na verdade, quero raptá-la. A inauguração do Byron é hoje. E estou sem companhia. Sabe como é essa coisa de entrar sozinho. Fica-se parecendo desesperado, à toa. E eu, querida, não sou de se jogar fora.
- Ai, não, Ricardo, vai com outra pessoa. Não estou a fim.
- Amiga, é sexta-feira, pel’amor-de-Deus!

Ricardo era a outra ponta do triângulo formado por Fernanda e Carolina. Amigos inseparáveis nos tempos da universidade. Hoje, o vértice histriônico da turma, Ricardo também sabia ser ponderado quando era preciso. Ele tinha conseguido manter os laços de intimidade com Fernanda mesmo depois de ter se ausentado por dois anos para cursar pós-graduação fora do país. Por isso, quando ouviu aquele tom de voz, sabia que Fernanda não estava bem e faria tudo para animá-la.

- E então? Vou ter que ficar insistindo...? – ele brinca, com a voz afetada.
- (suspiro) Olha, não estou com o menor pique.
- Não precisa paquerar. Você já tem mulher demais. É só me acompanhar. Sabe como é...
- Sei.
- Você sempre me ajudou a decidir...
- A verdade é que você tem vocação pra esses carinhas vazios...
- E lindos!
- É, mas depois, quem fica segurando as suas pontas quando eles aprontam?
- Você, claro – ele gargalhou – Então, viu como preciso de você em minha vida?

Fernanda acabou sorrindo e desistindo de lutar contra a insistência de Ricardo.

- Mas não vou ficar até de manhã...

Sim, ele tinha conseguido convencê-la.

Burburinho, conversas animadas, o odor de fumaça de cigarro, barulho de vozes e copos. Fernanda fez uma leve careta. Dia ruim para tentar se divertir. Ricardo entrou num passo triunfante, cumprimentando amigos e conhecidos. No pequeno palco, uma banda toca versões acústicas de clássicos da MPB.

- Olha o Plínio – comenta Ricardo elétrico, espichando o corpo para ter uma melhor visibilidade – Com quem é que ele tá?
- Nunca vi.

Fernanda estava com a cara séria, totalmente alheia aquele barulho. Não estava conseguindo se desconectar do desentendimento que teve com Camila.

- Parece ser o Patrício... mas ele está tãooo diferente.
- Como é que você sabe? O rapaz está de costas.
- Nunca me esqueço de uma bunda, querida... e aquela, bem, eu já vi antes.

Fernanda sorri e balança a cabeça. Só mesmo a afetação de Ricardo para deixá-la menos mal-humorada.

- Por que não convidou Carolina pra vir? – lembrou-se Fernanda de repente.
- Ela vem, acho... depois que ela se livrar daquela chata lá...Estão discutindo quem fica com o quê. Sabe como é. Carolina vai disputar até o último alfinete – Ricardo respondeu distraído, com os olhos grudados num grupo de rapazes de corpo sarado e roupas estilosas.
- Genteee. Você viu aquele quitute?
Fernanda sorri:
- Vi, claro. Com aquela roupa chamativa, ele não passaria despercebido nem se quisesse.

Ricardo lançou um olhar de censura para ela e comentou:
- É um legítimo Herchcovitch, meu amor... respeito.

Fernanda ri. É, ela não sabia. Ricardo, ao contrário, era ligado em moda. Ele lança um olhar em sua direção, inquieto.

- Com essa cara de poucos amigos, você não vai conseguir atrair nem mosca.
- Não estou aqui pra paquerar, Ricardo. Lembra?
- Pensei que era brincadeira sua... desde quando você fica sem vontade de fazer o que você faz de melhor nessa vida?

Fernanda ficou uns segundos em silêncio.
- Acho que foi desde o momento em que topei com a Camila.

Ricardo abriu a boca e ficou com o ar de espanto.

- A Camilinha? Ah-meu-Deus!

Fernanda conta o que estava acontecendo: o reencontro, as reações, os diálogos e, enfim, sua impotência em lidar com tudo.

Ricardo não sabia o que dizer. Então puxou a amiga pela mão a fim de que eles saíssem do burburinho. Sentaram-se numa pequena mesa, no fundo do bar.

- Me conta: como foi isso? – perguntou, olhando-a bem sério.

Fernanda suspirou.

- Faz alguns dias. E minha vida está um inferno.
- Ah, não era pra menos. Vocês se amavam muito...
- Hoje ela me odeia, Ricardo – interrompeu Fernanda, com ar angustiado – Você sabe melhor que ninguém como me sinto a este respeito.
- Claro – disse ele, pegando sua mão e apertando-a delicadamente – Você deve estar se sentindo muito mal.

“Diga algo que eu não saiba, meu amigo...”

- Estou – disse com o ar cansado – Tudo, dentro de mim, dói. E o pior é ter que conviver com esses sentimentos, ter que me calar e respeitar o ódio dela por mim. Ela tem todo direito de me odiar. Eu a fiz sofrer horrivelmente...

O rosto de Ricardo estava riscado por rugas condoídas.

- Não se lamente tanto...o que você fez foi a única solução possível naquele momento, você sabe disso.

Ricardo suspirou. O que poderia dizer? Faltavam-lhe palavras.

- Você sofre hoje porque interrompeu a relação, Fernanda, mas não há como saber o que teria acontecido a vocês se o pai dela não tivesse aparecido. Você nunca foi de ficar muito tempo com uma garota, não é? Enjoa fácil, rápido, não tem paciência para o ritual do amor. Você sofre ainda hoje porque terminou gostando. Vocês eram tão jovens e inexperientes... eram tão diferentes, não queriam as mesmas coisas...
- Mas éramos apaixonadas.
- É verdade, mas isso não é nenhuma garantia de felicidade. Aliás, nunca foi. Lembra com o Celso? Eu era “arriado” os quatro pneus por ele. E nunca fui tão infeliz com alguém. Então, qual a lição disso tudo? A paixão é inevitável: concede prazer e dor...mas também pode ser um completo desastre emocional.
- ...
- Sei o que está pensando, Fernanda: você não pode saber o que teria sido de vocês, não é? E se tivesse enfrentado tudo? Vocês ainda estariam juntas, se amando como antes? – Ricardo faz uma pequena pausa e continua: - É, amiga, isso você nunca vai saber. O agora é o hoje, uma outra situação. Quem sabe você não consegue uma segunda chance?
- As coisas nunca mudaram de fato, Ricardo. Continuo presa a esse sistema. O pai de Camila pode perfeitamente me destruir de verdade, se ele realmente quiser isso. Basta manipular o mercado, falar com as pessoas certas. Não sei se estou preparada para essa guerra. Nem sei se quero.

Ricardo baixou a cabeça e pensou, comovido, como a vida tinha colocado Fernanda numa situação limite: ou enfrentava o pai de Camila e lutava por aquele amor, ou simplesmente obedecia: sumia, enterrava tudo, esquecia que a tinha conhecido e preservava o pouco que tinha conseguido a duras penas: emprego, estabilidade, uma carreira.

- Eu tive medo... confesso. Mas me arrependo amargamente por ter fugido. Deveria ter dito a verdade.

Ricardo observava Fernanda. Era mesmo estranho vê-la admitir que, debaixo daquela razão fria, da máscara de indiferença e da postura de completa objetividade, ainda pulsasse dentro dela um coração romântico capaz de qualquer gesto louco para viver aquele amor interrompido.

- Acho que se Camila soubesse o que aconteceu, a perdoaria. Na verdade, você foi tão vítima quanto ela. Quem poderá julgar você? O que é a expectativa de felicidade, vivida na ebulição dos sentidos, diante da possibilidade de perder tudo, e, talvez, até a própria vida?

Fernanda cobre momentaneamente os olhos e suspira.

- Fui mesquinha, covarde, uma fraca.
- Não, Fernanda...não acho. Qualquer pessoa teria agido da mesma maneira. Não se culpe tanto. Sei como aquela decisão não foi fácil, o quanto te doeu e o quanto ainda dói. Você agiu certo. Não poderia ter tomado uma decisão diferente.

“Não tenho tanta certeza, Ricardo”.

- Camila não me perdoa. Você não sabe como ela me trata, de que maneira ela me olha. Há tanto ódio, tanto ressentimento. Não suporto isso, Ricardo.

Fernanda sentiu as lágrimas irromperem nos olhos. Limpou rapidamente antes que elas caíssem pelo rosto.

- Fernanda, não... por favor, amiga. A Camila está magoada, mas é porque não sabe o que aconteceu.
- E nem vai saber.
- Mas se ela soubesse dos fatos, ela entenderia...
- Não posso contar, esqueceu? Isso me colocaria em dificuldades outra vez.
- É, eu sei...
- Talvez o melhor a fazer seja terminar esse trabalho e desaparecer de vez da vida de Camila. Ela não está suportando ter que me ver. O pior é que não posso delegar essa atividade a ninguém neste momento, nem ela. Estamos numa situação complicada. Temos reuniões constantes, ajustes, acertos... está sendo difícil.

Ricardo abraçou-a de lado e disse, olhando em seus olhos de forma carinhosa:
- Você pode tentar argumentar de mil maneiras que não deseja mais viver esse amor, Fernanda, mas eu digo que nada é mais forte e efêmero do que a paixão. E se esse sentimento guardado eclodir outra vez, que seja! Deixe fluir. Se for para vocês viverem isso de novo, não rejeite a oportunidade. Não fuja disso, Fernanda.

Ela encostou sua cabeça no ombro de Ricardo e pensou no que ele havia dito. Mas era todo oca, vazia. Ca-mi-la por dentro, reverberando suas palavras de dor. E ela, nos fundos do bar, olhando aquela pequena multidão que sorria sorrisos de fantasia. Teve ímpetos de chorar outra vez. Mas Ca-mi-la, dentro dela, remexia-se inteira. E Fernanda de repente soube: não podia mais evitar. Ainda amava Camila, amava como antes. E esse sentimento seria sua dor, sua rendição, o seu flagelo.

É, ela sabia por experiência que os sonhos podem virar pesadelos.

 

Eu Te Amo, canção de Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque