Um amor encomendado

De Tynah

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Eu ainda estava com o corpo molhado de suor quando deixamos a estrebaria lado a lado. Meu corpo quente entrou em choque assim que senti o sereno gelado da madrugada. Involuntariamente cruzei os braços sobre o peito.

-Está com frio? - perguntou Laura aproximando-se de mim, me olhando ainda com aquele sorriso iluminado.

Eu não conseguia encará-la, me sentia ridiculamente envergonhada. Parecia que tudo o que eu havia feito há poucas horas não tivesse sido real, ou fosse realmente eu. Era absurdo. Baixei os olhos e encarei o chão enquanto caminhava.

“Que loucura eu fiz, eu devo ter enlouquecido!”

Um calafrio tomou meu corpo e eu tremi. Laura imediatamente me envolveu em seus braços, queria me aquecer de algum jeito. Eu me afastei dela.

-Alguém pode nos ver! - Falei olhando para os lados - Já deve estar amanhecendo, pode ter alguém por aqui.
-É. –Disse ela - Você tem razão.

Continuamos a caminhar até alcançarmos a escada lateral da casa. Quando eu subi o primeiro degrau me voltei para ela que estava parada me olhando. Não sabia o que dizer.

-Boa noite. - disse simplesmente tentando me ocupar ajeitando meus cabelos soltos atrás da orelha.
-Boa noite. Lins. - então estreitou os olhos pra mim - Seu nome é mesmo Lins?

Respirei fundo, eu queria me afastar dali o quanto antes, porém, respondi.

-Não. Chamo-me Ivana Lins, mas prefiro que me chamem pelo sobrenome, é mais respeitoso, mais formal.
- Ivana Lins... um nome lindo. - disse ela mais para si mesma do que para mim, então sorriu e me olhou - Posso te chamar de Ive?
-Não. - Falei rapidamente ignorando a expressão de riso no rosto dela. - Olha... eu preciso entrar.

Na verdade eu queria gritar:
“O QUE ESTÁ ACONTECENDO COMIGO?”

Queria ficar sozinha e ruminar tudo aquilo, digerir. Não percebi que Laura vencia o degrau que nos separava e ficou bem em minha frente. Eu me recostei na parede assustada. Ela me tomou nos braços como se eu fosse uma boneca de pano e me beijou, capturou meus lábios com ansiedade e me presenteou com sua língua gostosa, quente e ousada. Quando dei por mim já estava agarrada nela, acariciando seu rosto de anjo enquanto me entregava àquele beijo mágico sem me importar se alguém veria ou não aquela cena.

-Quando amanhecer eu estarei na cachoeira tomando um gostoso banho. - Disse ela em meu ouvido - Esperarei por você, estarei do mesmo jeito que me encontrou da outra vez. - concluiu antes de beijar minha orelha e sair.

Fiquei ali por alguns segundos, com o coração descompassado, os lábios pegando fogo enquanto a olhava desaparecer naquela escuridão.

Tomei um longo banho, fazia tudo mecanicamente, eu não tirava Laura de meus pensamentos, ela estava tomando conta de todo o meu ser eu não conseguia organizar minhas ideias, eu não sabia dizer o que havia acontecido.

-Eu não sou lésbica! - disse num sussurro quando já me deitava e involuntariamente meu corpo me dava sinais de que o corpo de Laura ainda estava presente no meu. - Tire essa mulher da sua cabeça Ivana! - Exigi de mim mesma jogando os lençóis para cima de mim. Dei socos no travesseiro com a desculpa de amaciá-los, mas eu queria era descarregar minha angústia, minha perturbação. - Ela está enganada se pensa que irei fazer o que ela me pediu, acha que me tem nas mãos por conta do absurdo que aconteceu. Não vou atrás dela feito um cachorrinho, ou feito o seu cavalo idiota!

Pensei que não conseguiria pregar os olhos, porém foi como se eu apenas tivesse piscado os olhos e imediatamente uma luz muito forte atingiu meus olhos e eu despertei assustada.

Já amanhecia, e pela fúria com que os raios do sol inundavam meu quarto, parecia que já passava do meio dia. Pulei da cama desesperada e corri para a janela.

“Laura”

Ela havia me esperado na cachoeira, eu não havia ido, por que não acordei mais cedo?!

-Espere! - falei fechando os olhos e abrindo no mesmo instante em que suspirava - Eu não iria mesmo. Eu decidi isto! Foi tudo uma grande bobagem, Ivana. - Falei tentando convencer toda a minha alma de que não estava terrivelmente entristecida por não ter ido àquela cachoeira ver aquela imagem linda novamente.

Quando desci me deparei com a mesa lotada, todos já estavam almoçando.

-Boa tarde bela adormecida! - Falou Enrique, o presidente das empresas Cristalls. Um senhor de mais ou menos quarenta e cinco anos, estava particularmente bonito dentro de uma camisa xadrez e um jeans claro.
-Boa tarde. - falei meio a contragosto, porém sorri para todos à mesa.
-Me desculpe a indiscrição Lins, mas você esta muito bonita, hoje! -Disse Pietro.

Seu comentário me pegou de surpresa, jamais havia lhe dado tal liberdade. Antes que eu pudesse responder foi a vez de Tomas completar.

-Está realmente uma gata, acho que nunca a vi tão linda, Lins e olha estou dizendo isto com todo o respeito.

Eu estava chocada. Afinal o que havia dado neles? O que eles andavam aprendendo com o Yang? E eu continuava sendo a mesma pessoa, dentro das mesmas roupas idiotas que eles usavam: um jeans, uma camisa azul clara... a única diferença era que eu não havia prendido meus cabelos, havia escovado-os por um longo tempo enquanto divagava em meus pensamentos absurdos.

Enrique percebendo minha expressão de desagrado, falou antes que eu abrisse a boca.

-Venha se juntar a nós garota, depois do almoço teremos nosso último encontro antes de partirmos bem cedo amanhã de manhã.

Sentei-me sob os olhares inquisitivos de Tessa. Esta me olhava sem disfarçar, parecia estar elaborando uma pergunta. Tentei ignorá-la e me apressei a me envolver em uma conversa com Yang sobre o que eu havia perdido naquela manhã.

-Eu os levei para conhecer a plantação de peras. - disse ele em seu tom tranquilo de sempre - Depois conversamos um bom tempo.
-Eu acho que perdi a hora. - Falei meio sem jeito, então Anita entrou na cozinha.
-Boa tarde garota. - Falou ela animadamente.

Eu evitei olhá-la, me senti extremamente sem jeito na presença dela, parecia que ela podia ler na minha testa o que eu e a filha dela havíamos feito à noite passada. Eu ainda não podia acreditar no que havia acontecido. Sorri meio sem jeito e dei graças a Deus quando o almoço foi servido, além do mais descobri naquele momento que estava morta de fome.

Eu não estava nem um pouco animada para esta tal cavalgada, aliás eu não queria chegar perto de um cavalo. Caminhei lentamente ao lado de Enrique até chegarmos próximo à estrebaria onde alguns peões preparavam os cavalos. Então quando nos aproximamos do grupo ouvi Marie dizer a Tessa.

-Nasceu um cavalinho esta madrugada, ele é lindo venha ver! - Senti um arrepio na espinha.
-Quer vir também Lins? - Convidou Tessa percebendo que eu as olhava.
-Não. - Falei já me voltando para Yang. - Olha, eu não sei montar, não me dou muito bem com cavalos então eu... acho que me ocuparei em outra coisa até que vocês voltem.

Ele sorriu de um jeito tão paternal que me deixou naquele momento um pouco menos ansiosa.

-Pode ir na garupa de alguém minha querida, ou se não quiser mesmo ir, tudo bem. - então se afastou.

Era o único que não usava os trajes de peão, estava sempre dentro de uma calça larga de algodão cru e uma camiseta bege.

Eu evitava olhar para dentro da estrebaria, me recostei em uma cerca próxima e fiquei ali, tentando não recordar cada passo que havia dado por ali naquela madrugada.

Os cavalos já estavam sendo distribuídos ao grupo quando ouvi a voz de Tomas.

-Noooossa! - Disse ele numa sonorização exagerada - Esta é a nora que minha mãe pediu a Deus.

O comentário idiota me fez voltar para ele. E imediatamente quis estrangulá-lo ao notar a quem ele se referia.

Laura vinha montada em sua égua branca, seus cabelos estavam soltos e úmidos formando cachos bem definidos e leves, dançando ao ritmo do vento, o chapéu caído nas costas, uma camisa marrom que parecia justa demais, os dois botões de cima abertos deixava à mostra um top branco que ela usava por baixo, top que em minha opinião mais parecia a parte de cima de um biquíni. Ela parou bem próxima dos rapazes que já estavam vidrados nela e desceu com graça do animal, seu jeans surrado e justo dava ainda mais valor ao seu quadril perfeito.

Eu tentava desviar meus olhos dela, mas era algo impossível, e parecia existir a mesma dificuldade para os homens que estavam ali.

-É uma caipira que sabe se vestir. - Ouvi Tessa comentar ao meu lado.

Eu, a contragosto me voltei para ela.

-Percebo o ciúme em seu semblante, Brow. - Falei me controlando para não ser rude. A maneira como ela havia se referido a Laura havia me irritado.

Ela me lançou um sorriso sarcástico.

-Fiz um elogio a ela Lins, e desde quando se importa? - Perguntou ela me olhando impaciente - Sempre foi fria e grosseira, mas realmente desde que chegamos aqui conseguiu se superar, não somos os responsáveis por sua estadia neste lugar, sabia? E não estamos trabalhando!

Então ela saiu, eu nem sequer me dei ao trabalho de responder, meus olhos insistiam em acompanhar a ruiva.

Laura conversava com o grupo de homens, parecia dar-lhes instruções sobre montaria. Então, de repente nossos olhos se encontraram, eu parei de respirar. Ela, sem expressão alguma, voltou-se para os rapazes e no segundo seguinte veio em minha direção. Porém, sequer me olhou, passou por mim e foi direto à estrebaria. Conversou com o restante do pessoal, ria com os outros peões e não me olhou mais nem uma vez. Estranhamente aquela tarde ensolarada, para mim tornou-se cinza, triste. Eu me voltei para outra direção, tentando inutilmente me convencer de que não me importava.

“Deve estar brava comigo por eu não ter ido a cachoeira.”

Concluí com uma fisgada no estômago.

“É melhor assim”.

Eu contraía o maxilar, estava tensa, agitada. Queria sair dali, mas meus pés estavam cravados naquele gramado, eu sentia o palpitar angustiado de meu coração, tudo a minha volta não passava de borrões, as vozes ao meu redor eram desconexas e eu de repente me vi caminhando em direção à estrebaria.

Laura selava um cavalo com habilidade extrema e muita concentração quando parei ao seu lado. Os outros peões já haviam se afastado e conversavam com o grupo já todos montando em seus cavalos.

-Laura. - Falei um pouco insegura.

Ela se voltou para mim por apenas um segundo, depois voltou a afivelar a sela num cavalo marrom.

Aproximei-me mais dela. De onde estávamos ninguém podia nos ouvir. Respirei fundo:
-Eu dormi. - Me vi fazendo algo que não esperava de mim - Eu achei que acordaria cedo, mas eu não sei o que aconteceu... eu desmaiei e quando acordei já passava do meio dia!

Eu estava me justificando com Laura!

Minha voz era tensa, nem em minhas reuniões mais importantes eu havia ficado tão tensa, a ponto de sentir dores nas pontas dos dedos. Ver Laura com ar pensativo sem me olhar, continuar com seu trabalho, fazia com que a angústia que eu sentia aumentasse gradativamente. Então, repentinamente ela parou o que fazia e me encarou, me fez mergulhar naquele mar verde.

-Deve ter feito algo que te sugou toda a energia a noite passada, hein moça. - então ela me presenteou com seu sorriso.

Eu senti meus joelhos tremerem, o sorriso dela aqueceu meu coração, meu corpo, minha alma e no instante seguinte o sol brilhava novamente. Eu suspirei e toquei levemente sua mão que agora se mantinha parada ao lado da sela do cavalo.

-Senti sua falta. - disse ela com aquela voz rouca que me deixava louca. - Vai ter que pagar por ter me deixado esperando.

Eu sorri e me afastei um pouco antes que perdesse o juízo completamente.

-Vai com eles para este passeio a cavalo? - perguntei agora já me afastando do cavalo.
-Sim. E você vai também. - falou ela acariciando a crina do animal.

 

**********

 

-Não vou não.
-Vai. - então ela se afastou com o cavalo até onde ainda se encontrava algumas pessoas do grupo, o restante já se posicionava sob uma grande árvore, se protegendo do sol, apenas esperando por ela.

Laura se aproximou novamente de mim, puxando seu cavalo branco pelas rédeas:
-Monte.
-Está de brincadeira não é?! – falei - Sabe que este animal me odeia; não me deixou montá-lo.
-Não se preocupe, ela vai deixar você montá-la desta vez. - Então ela se aproximou perigosamente de mim - Eu vou te ajudar a montar.
-Mas Laura eu não monto faz muito tempo e esse...
-Olha, comece tratando-a como menina ou Missy que é seu nome. - Falou ela enquanto ajeitava a égua bem perto de mim.
-Laura, eu não vou montar este... Esta égua. - Falei decidida.

Laura continuou ali, esperando, já segurando o apoio para os pés da sela:
-Ponha o pé direito aqui, dê um impulso e passe a perna esquerda pra cima dela, venha. - Ela me encarava de um jeito provocativo e irritantemente sedutor.

Eu fui. Coloquei o pé, ainda insegura. Segurei a sela com firmeza então Laura se posicionou atrás de mim e segurou minha cintura.

-Não vai cair desta vez, estou aqui. - eu amoleci inteirinha e ela percebendo falou: - não perca a concentração minha linda, suba.

Dei um impulso e pulei para cima do animal, senti uma das mãos de Laura deslizar rapidamente apalpando meu bumbum.

-Desculpe. - disse ela com um sorriso safado no rosto, quando eu já me ajeitava sobre a égua. Fiquei olhando-a sentindo dentro de mim uma alegria quase palpável.
-E agora? - Perguntei tentando disfarçar minhas sensações adolescentes.
-Agora você segura firmemente as rédeas, ok?
-Mas como eu faço para ela me obedecer, Laura? Eu falei sério quando disse que não monto há muito tempo. Desde criança.

Então Laura montou no cavalo marrom e aproximou-se de mim:
-Não se preocupe, não vai precisar guiá-la, ela irá me seguir. - disse ela levantando o queixo.

Eu não me contive e ri.

-Está trapaceando sabia?! – falei - Esta égua gosta tanto assim de você?
-Na verdade ela gosta muito de mim sim, mas não é exatamente a mim que ela gosta de seguir. - então ela acariciou o pescoço do cavalo no qual estava montada - Ela gosta de seguir o namorado dela.

Ouvimos Yang chamar a todos ali próximo à árvore, então Laura disse:
-Não se preocupe ok? Confie em mim.

Ela seguiu na frente e sem que eu fizesse movimento algum, Missy a seguiu.

-Não tem vergonha de ficar correndo atrás de um cavalo? - perguntei à égua como se ela pudesse me responder, então olhei a silhueta de Laura sobre aquele cavalo, seus cabelos agora secos e mais brilhantes ofuscavam o brilho do sol. Comentei com Missy - Estou me comportando igualzinho a você não é? Somos duas desavergonhadas! - Balancei a cabeça indignada.

“Eu realmente devo ter enlouquecido, agora falo com animais!”

O grupo seguia pelo campo aberto. Eu ia bem atrás, era a última. Por várias vezes Tomas e Pietro tentaram me acompanhar e nesses momentos Laura passava com seu cavalo bem à nossa frente e seguia para o outro lado. Missy imediatamente fazia o mesmo e eu ia parar do lado oposto de onde eles estavam. Então ela se virava pra mim, piscava e seguia um pouco a frente.

Eu estava me divertindo, o lugar tornava-se um conto de fadas, uma terra mágica, onde tudo podia acontecer. Pegava-me sorrindo para o canto dos pássaros, feliz como há muitos anos não me sentia. Porém, o flerte entre Laura e eu, nossos olhares furtivos, cúmplices era o que realmente deixava tudo tão lindo, tão perfeito.

Passamos então para uma trilha, entramos na mata fechada íngreme. No princípio eu me assustei, parecia que Missy me derrubaria a qualquer instante. Eu me sentia insegura sobre a sela, porém Laura não desviava os olhos de mim, e nesse trecho ela ficou na minha frente o tempo todo, sempre olhando pra trás.

Todos conversavam animadamente, então, quando passamos por um espaço um pouco mais aberto, Laura ficou ao meu lado:
-Tudo bem? - Perguntou me olhando nos olhos.

O arrepio na espinha foi incontrolável.

-Sim, mas estou sentindo dores no corpo, como te falei, não monto há muito tempo.
-Não ponha a culpa em Missy por suas dores no corpo. - Disse ela com uma falsa expressão de irritação - Ela não tem culpa se você passou a noite toda movimentando seu belo e gostoso corpo!

Eu senti meu rosto queimar. Baixei os olhos, sem jeito. Eu parecia uma adolescente diante de suas primeiras experiências românticas.

-Pare com isso Laura. - falei quase num sussurro, olhando-a novamente.

Laura fez com que seu cavalo quase colasse em Missy, nossas pernas se encostaram e ela disse:
-Não me olhe desse jeito, eu posso provocar um escândalo aqui e agora! - Disse com os olhos brilhantes, eu percebi que seu rosto também enrubescia.

Eu via o desejo estampado no rosto dela, e imediatamente meu corpo todo reagiu.

-Laura! - alguém gritou.

Ambas nos viramos para trás e então me deparei com um cavalo maravilhoso. Todo negro, com crinas esvoaçantes e porte majestoso. Sobre ele, vinha um homem de porte tão perfeito quanto o do cavalo. Usava chapéu e roupas de caubói, camisa xadrez azul escura, calças pretas e botas marrons bem lustrosas. Vinha a galope com um sorriso que eu logo identifiquei como o de um garoto propaganda.

Quando parou bem a nossa frente eu pude ver o quanto ele era bonito. Cabelos muito negros, olhos do mesmo tom. Rosto bronzeado, e seu sorriso era encantador. Ele tirou o chapéu e falou:
-Estou correndo atrás de vocês há quinze minutos garota! - Disse ele olhando diretamente para mim. - Boa tarde moça.
-Boa tarde. - Falei com um sorriso, porém um olhar inquisitivo. Eu ainda não havia visto aquele homem.
-Já foi mais rápido caubói! - falou Laura com um sorriso iluminado.

Eu a olhei surpresa, ela porém continuava a olhar para o homem.

-Garota, sabe que não pode comigo! - disse ele aproximando-se perigosamente dela; os olhos dele brilharam ao encará-la. Por uma fração de segundos os olhares pareceram tão íntimos que me senti constrangida em estar ali.

Eu odiei a cena. Quis me afastar, no entanto Missy não mexeu um músculo:
-Você deve ser a senhorita Lins estou certo? - Perguntou ele afastando-se de Laura e me estendendo a mão. - Sou Hélio.
-Oi, e você está certo. - falei apertando sua mão com firmeza, ele me encarou nos olhos, e seu sorriso de repente para mim tornou-se uma sombra na minha bela tarde.
-Vai cavalgar com a gente? - Perguntei tentando disfarçar minha contrariedade.
-Sim, mas antes eu preciso dar uma palavrinha com esta delícia aqui. - Disse ele aproximando-se mais de Laura.

“De onde surgiu este imbecil?”

Questionei meus pensamentos. Eu não o queria perto dela, eu não queria ninguém entre nós, não naquele momento, não quando estávamos a apenas algumas horas do fim. Do término da magia. Do retorno à realidade.

Laura me olhou de maneira tranquilizadora.

-Espere por mim um minuto sim, moça! - falou ela desmontando de seu cavalo e o amarrando na árvore mais próxima. Missy imediatamente se aproximou do cavalo.

“Égua idiota!”

Eu queria sair dali, correr para junto do restante do pessoal, que a esta altura já sumia na mata.

Vi Laura se afastar ao lado do homem, era bem mais alto que ela, parecia ter mais ou menos quarenta anos. E a intimidade que parecia existir entre eles me deixou perturbada.

-Quem é ele Missy? - Perguntei à égua que devorava o gramado verde sem ao menos se abalar com minha angústia. Suspirei resignada. Vi ao longe alguns gestos de Laura, vi ela tirar e recolocar o chapéu na cabeça umas duas vezes e por fim eu a vi voltar. Hélio mantinha o sorriso jovial e animado, porém o olhar furtivo dele sobre ela me atingiu como um tapa, Laura não retribuiu o olhar, porém seu semblante era sereno.
-Vamos ver o que este animal pode fazer! - Disse Laura ao chegar bem perto e montar no cavalo negro de Hélio.

Senti um frio repentino no corpo todo.

-Onde vai? O que pensa que está fazendo? - Perguntei sem conseguir conter o tremor na voz, porém tentando manter meu tom autoritário de sempre.

Laura não me olhou diretamente, mas falou:
-Tenho um problema para resolver agora, preciso voltar. - ela encarou meus olhos, vi mistério neles. - Continue seu passeio, e bom proveito.

Então ela se afastou. Eu fiquei olhando ela desaparecer por entre as árvores e com ela todo o brilho daquele dia.

-Heii! - Ouvi Hélio já montado no cavalo marrom ao meu lado. - Está tudo bem com você? - Perguntou ele com uma expressão preocupada nos olhos.
-O que você disse? - Perguntei tentando voltar à realidade, tentando controlar o monstro que se formava dentro de mim que tentava me sufocar.
-Perguntei se podemos continuar, temos um longo caminho até o alto do vale.

Balancei a cabeça, queria afastar as nuvens que escureciam minha visão.

-Podemos sim. - Falei mecanicamente.

Por um longo trecho eu tentei manter uma conversa agradável com ele, afinal ele era simpático, porém minha irritação com Laura só fazia aumentar, ela havia me abandonado, ela havia me descartado simplesmente como uma qualquer. Eu estava me sentindo ferida. Havia algo entre os dois... Mal ouvia o que Hélio dizia, até que o nome de Laura surgiu.

-Ela é a melhor veterinária deste lugar e um cliente precisa muito dela agora. - Disse ele.
-Veterinária? - Perguntei e me dei conta de que eu jamais havia tido a curiosidade em saber o que Laura fazia ali. Algo que normalmente era a primeira coisa a se saber em uma relação, em minhas relações.

“Mas que relação?”

Eu não podia acreditar em meus próprios pensamentos.

“Não há relação alguma entre nós! O quanto menos eu souber dela melhor.”

Suspirei aflita.

-Está tudo bem? - Perguntou novamente Hélio parando seu cavalo.

Eu não aguentei mais:
-Não. - Falei irritada - Quero descer desse animal, já não aguento mais, estou dolorida.
-Ok, vou levá-la de volta eu só... - nesse momento o som de um bip o interrompeu. Hélio tirou da cintura uma espécie de celular antigo, que logo percebi que se tratava de um rádio - Diga. - Falou ele com o aparelho bem próximo a boca.

Fez então um sinal de aguarde para mim e se afastou com seu cavalo uns quatro metros. Eu já estava furiosa, me sentindo uma completa idiota, dependente dos outros, dependente de um animal.

“Chega!”

 

 

Continua...