Uma mulher para amar eternamente

by Léia Cristina

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CAPÍTULO 7

 

Pela manhã, Athynna permaneceu no quarto até ouvir Carla Jullien sair para trabalhar. Desceu e cumprimentou Ted e Sabrine. A Sra. Alverez estava atrasada, mas os noivos não reclamaram.

- Carla convidou a todos para assistir ao espetáculo de dança flamenca no próximo fim de semana. Disse que será especialmente em atenção a você, Athynna. – Sabrine contou, irradiando alegria, enquanto tomava o café da manhã. – Não vejo um show desses há anos.
- Eu gostaria de ver também. Parece muito bom. – Ted murmurou.

Athynna sorriu. Nunca vira uma dança flamenca e adoraria assistir ao espetáculo com Carla Jullien, mas a situação entre elas era delicada. Seria melhor não aceitar o convite. Ela podia alegar uma dor de cabeça e ficar em casa.

Naquele momento, decidiu dedicar-se totalmente ao trabalho, deixando de lado pensamentos sobre Carla Jullien. Nada de bom poderia resultar de um relacionamento entre as duas.

Quando terminaram de tomar café, ela chamou Sabrine para conversarem sobre os convites e outros detalhes. Estava ansiosa para terminar o que precisava fazer na Espanha e retornar para casa.

Naquela tarde, acompanhou a Sra. Alverez e Sabrine à casa de modas que confeccionaria o vestido de noiva. As três mulheres passaram horas examinando tecidos e rendas. Finalmente, Sabrine escolheu o modelo e entrou numa sala com a costureira que lhe tiraria as medidas.

A Sra. Alverez e Athynna aguardaram, exaustas.

- É muito cansativa toda essa preparação. – a espanhola comentou. – Seria mais fácil se Sabrine não insistisse em ter uma grande festa. No meu casamento tudo foi mais tranqüilo.

Athynna estava curiosa para saber como fora o casamento, porém não sabia se a Sra. Alverez gostaria de contar.

- Foi o segundo casamento de Juan. – a espanhola prosseguiu, para alegria de Athynna. – O primeiro foi com a mãe de Carla Jullien, como você já sabe. Como se tratava de um segundo casamento, não houve muita extravagância.
- A senhora não queria uma grande festa? – Athynna perguntou.
- Queria. Todas as garotas sonham com uma grande festa de casamento e eu não fui exceção. No entanto, queria Juan mais do que qualquer festa. Tivemos uma cerimônia íntima que reuniu os amigos e Carla Jullien, naturalmente.
- Não sabia que Carla compareceu ao seu casamento. – Athynna comentou. Como ela se sentiu, assistindo ao casamento do pai? indagou-se.
- Ela morou com Juan por quase um ano, antes de nosso casamento. Sempre gostei muito dela. Era uma menina muito educada e tornou-se uma mulher de bem.
- Então, realizará sua fantasia por meio de Sabrine. – Athynna supôs.
- Isso mesmo. E estou muito feliz! Gostaria que Juan estivesse aqui. Ele era muito carinhoso com nossa filha.
- Mais do que era com Carla Jullien? – Athynna se atreveu a perguntar.
- Gostava igualmente das duas filhas. Era muito honesto, muito generoso. Mas não era exaltado como Carla Jullien. Juan era calmo. Fomos muito felizes.
- Acho que sua filha também será.

Athynna achava que a Sra. Alverez pensava diferente de Carla Jullien, entretanto queria se certificar disso.

- Sei que será. – a mãe da noiva afirmou. – Ted gosta muito dela. Não fazem sentido as desconfianças de Carla. Ela foi magoada pelos ingleses e não reconhece que existem os bons. Quando Ted e Sabrine mostrarem o quanto são felizes, ela vai ceder. – sorriu. – Acho que muitas coisas se modificarão para melhor.

Carla Jullien detestaria os ingleses só por causa da mãe? Athynna voltou a ser perguntar. Não é uma atitude muito racional num adulto.

A semana passou rápido. Athynna evitou Carla Jullien o quanto pôde, sem negligenciar os outros. Era cordial, mas mantinha-se ocupada o tempo todo. Toda noite deixava a sala de estar mais cedo, alegando que tinha trabalho a sua espera no quarto. Evitava olhar para Carla Jullien e só a fitava quando necessário e por educação.

Na sexta-feira, ela chegou mais cedo do trabalho. Encontrou Sabrine e Athynna trabalhando na relação dos convidados.

- Terminem mais cedo, senhoritas. Esta noite, às dez horas, vamos ver Pedro e Glória Del Meunio no Los Gatos Negros. Nada de trabalho no quarto, Athynna. Você vai conosco para conhecer a melhor dança flamenca de Granada.
- Ah, Carla Jullien, que sorte ver os Del Meunio! É um fenômeno! – Sabrine exclamou. – Estaremos prontas mais cedo para conseguirmos bons lugares.
- Tenho lugares reservados na primeira fila. Sairemos às nove e trinta. Pode avisar mamãe e Ted?

Sabrine meneou a cabeça afirmativamente. Athynna ficou calada. Afinal, tudo era feito do jeito de Carla. O jantar foi antecipado para que a família pudesse se arrumar para o espetáculo.

Athynna levara outro vestido de noite, porém encontrava-se duvidosa. Era de crepe rosa, com um decote que valorizava os seios. A cintura bem marcada e a saia justa nos quadris acentuavam as curvas de modo sensual. Ela gostava da maciez do tecido e da cor, que a favorecia, mas achava que o vestido talvez não fosse adequando para a conservadora Espanha.

Apesar dessa dúvida, vestiu-o, decidida a ser ela mesma.

Escovou os cabelos e prendeu-os no alto da cabeça, deixando apenas alguns fios soltos na nuca. A maquiagem foi um pouco mais forte do que de costume, mas exótica, como pedia o acontecimento e o horário. Gostas de insinuante perfume francês deram o toque final.

Ela apanhou um casaco, desceu a escada e, ao chegar à sala de estar, hesitou. Carla Jullien estava lá, sozinha.

- Athynna, você está linda esta noite. – ela comentou, aproximando-se e elogiando o vestido e os cabelos dela.

Também observou o decote, entretanto não disse nada. Athynna sentiu como se ela tivesse tocado em seu corpo. Afastou-se nervosamente. Observou-a de longe, notando que ela usava um vestido preto que lhe caía perfeitamente bem. Então, ousou exibir um sorriso.

- E você, Jul, você não está nada mal. – provocou. – Devia usar vestido sempre.
- Se me ajudasse nos negócios, usaria, mas não é tão confortável quanto uma roupa básica. No seu caso, porém, é diferente. Você não deve vestir-se desse jeito, no trabalho. Ofuscaria a beleza de qualquer noiva.

A voz rouca era quase um sussurro, aveludada como um carinho.

- Quer um xerez? – ela ofereceu.
- Não, obrigada. Não estou me sentindo bem. Talvez devesse ficar em casa.

Por um instante, ela ficou desconcertada e se aproximou.

- Está doente? Foi a comida do jantar?
- Não, eu... – ela murmurou, sentindo-se uma tola.
- Tem trabalhado muito. Divirta-se um pouco e vai se sentir melhor. Ainda faltam dois meses para o casamento.
- Há muita coisa a ser feita.
- Esta noite terá folga para relaxar. Vai gostar do show.
- Carla Jullien, mamãe disse que não irá. – Sabrine anunciou, entrando repentinamente na sala.
- Está doente também? – ela perguntou.
- Não. “Também”, por quê? Tem alguém doente? – Sabrine indagou.
- Não estou me sentindo muito bem. – Athynna respondeu. – Talvez devesse ficar com a señora Alverez.
- Não. – Carla Jullien proibiu, autoritária. – Sabrine, o que houve com mamãe?
- Disse que não quer ir, mas que gostaria muito que nós fôssemos. Athynna, você deve ir. Carla planejou tudo para você.
- Está decidido, Athynna irá. – ela declarou. – Vou falar com mamãe e sairemos em seguida. Ted está pronto?
- Estou aqui.

Ted entrou na sala de visitas e sorriu para o grupo. Sabrine explicou a situação para o noivo, enquanto Carla Jullien saía para falar com a Sra. Alverez. Athynna não sabia o que mais inventar para não ir. Sem a dona d casa para fazer-lhe companhia, seria muito pior. Sem dúvida Carla Jullien levaria Maria e Athynna ficaria sozinha, uma pessoa de sobra num grupo que reuniria dois casais.

Não devo ir, disse a si mesma. Tenho que ser firme na hora de falar com Carla Jullien, para não deixá-la me induzir, principalmente na presença de Ted e Sabrine.

Por outro lado, queira demais assistir ao espetáculo de dança flamenca.
Tinha que se decidir até o retorno de Carla Jullien. Talvez devesse conversar com Ted e Sabrine e escapar para o quarto antes que...

Tarde demais. Carla Jullien entrou na sala e olhou diretamente para ela.

- Mamá ficará bem. Vamos? – ela indagou.

Athynna respirou fundo. Era agora ou nunca.

- Acho que devo ficar também. – ela insistiu.
- E me deixar fazer papel de boba ao lado desses dois namorados? Ah, não, Athynna, você vai comigo.
- Mas você e Maria...
- Maria não irá conosco esta noite. Não gosta desse tipo de espetáculo.

Sabrine percebeu alguma coisa diferente em Carla e disse:

- Carla está certa, Athynna. Maria não gosta dessas coisas. Venha conosco. Se Carla ficar sozinha comigo e Ted vai ficar perturbando o tempo todo. Venha, assim ela se ocupa com você.
- Você é encantadora, querida irmã. Vamos, então?

Athynna não tinha escolha. Não podia desapontá-los.

A música que ressoava na boate Los Gatos Negros podia ser ouvida na rua. Entraram e Athynna sentiu a vibração de alegria e entusiasmo mexer com ela. Seguiram o maítre em direção à mesa que fora reservada e que se localizava ao lado da pista de dança, permitindo excelente visão.

Por um momento, Athynna gostaria de ser uma pessoa especial para Carla Jullien. Queria esquecer que ela era uma mulher e comprometida.

Estava difícil conversar por causa do barulho, mas Athynna não precisava falar. Tinha certeza de que gostaria daquela noite.

- Quer um drinque? – Carla perguntou, falando ao seu ouvido.

Athynna virou-se para responder. Estavam muito próximas e ficaram olhando-se por uns instantes.

- Quero vinho branco ou xerez.

Carla fixava os lábios dela, deixando óbvio o desejo de beijá-la. Depois de alguns momentos, desviou o olhar e fez sinal para um garçom.

Sabrine e Ted tinham ido para a pista e Athynna tentava localizá-los entre os pare.

- Quer dançar? – Carla perguntou, colocando o braço atrás da cadeira dela.

Athynna se lembrou dos momentos em que tinham dançado, na festa de noivado. Era algo muito perigoso.

- Não, obrigada.

Carla Jullien tocou-lhe a nuca para pegar alguns fios de cabelo, que começou a enrolar num dedo, provocando as sensações mais perturbadoras em Athynna. Quando a música terminou, as pessoas retornaram aos seus lugares para assistirem à apresentação dos Del Meunio. Carla Jullien ajeitou as cadeiras de Athynna e de Sabrine para que elas pudessem ver melhor.

As luzes foram se apagando lentamente e apenas um refletor iluminou o centro da pista. A música começou a soar com suavidade e o círculo de luz do refletor moveu-se para um canto da pista, iluminando um casal devidamente posicionado. Os braços da dançarina estavam levantados acima de sua cabeça e os do bailarino rodeavam a cintura dela, sem tocá-la.

Athynna ficou encantada com a cena. O vestido da mulher era vermelho com fios prateados que refletiam a luz. Era justo até os quadris, de onde surgia uma saia volumosa formada por babados franzidos, tudo em vermelho e prata, contrastando com o traje totalmente negro do dançarino.

Os dois moveram-se para o centro da pista e começaram a dançar, a princípio languidamente, depois cada vez mais rápido.

Athynna assistia fascinada ao rodopio dos dançarinos, bem próximos de sua mesa. Estava impressionada com a rapidez e a precisão com que eles se movimentavam.

O homem batia palmas, com as mãos acima da cabeça. A mulher ondulava o corpo e girava, batendo os pés e as castanholas.

A dança terminou sob gritos e aplausos que se prolongaram até que o casal recomeçou a dançar.

- Está gostando? – Carla quis saber.
- É maravilhoso, melhor do que eu esperava. – Athynna respondeu, encantada. – Como conseguem esse preparo físico? Estou cansada só de assistir.
- Treinam muito, são ótimos atletas.

O próximo número foi lento e triste. Carla Jullien cantarolou a melodia toda ao ouvido de Athynna. Ela não queria que aquela noite mágica terminasse.

Mas acabou, cedo demais. Ela se levantou, relutante, acompanhando os outros. Olhou pela última vez em direção à pista, como que recordando os passos dos dançarinos.

- Foi maravilhoso. – declarou, sorrindo pra Sabrine e Carla Jullien. – Obrigada por me trazerem.
- Está se sentindo melhor, agora? – Carla Jullien indagou, olhando-a detidamente.
- Estou, obrigada.
- Não temos nada parecido com o flamenco, na Inglaterra. – Ted comentou, quando saíam da boate.
- Eu sei, a Espanha tem muito a oferecer como emoção, divertimento e amor. – Carla argumentou. – Ao contrário da Inglaterra com sua gente fria e solitária. Com certeza, é isso o que Sabrine quer.
- Um dia, Carla, você e eu falaremos sobre os ingleses. – Athynna retrucou, surpresa com sua atitude. – Podemos ser atenciosos, amorosos e nos divertir. Além do mais, você é meio inglesa, certo? Todos gostamos de atenção e do amor da família e dos amigos. Por que acha que os ingleses são diferentes? Por causa de uma mulher?

Carla e Athynna trocaram olhares belicosos e ela parou, de repente.

- Por que parou? – Sabrine perguntou.
- Vamos, o carro está logo ali. – Carla falou, recomeçando a andar e ignorando as perguntas de Athynna e Sabrine.

Chegaram tarde em casa e Athynna estava agitada demais para dormir. O grupo se separou na base dos degraus para a porta principal. Ted puxou Sabrine para o terraço, explicando que desejavam admirar a vista.

Athynna olhou de relance para Carla, antes de subir com ela.

- Ainda pensa que Ted é um caçador de fortunas? – ela perguntou.
- Ainda é cedo para dizer. – ela respondeu, abrindo a porta e segurando-a para que Athynna entrasse. – Saberei na hora certa.
- Se conhecer Ted melhor, vai descobrir que ele é um bom rapaz.
- “Bom rapaz” dá idéia de rapaz chat.

Carla Jullien estava com as mãos sobre os ombros dela, impulsionando-a gentilmente, quando entraram na sala de estar. Athynna sabia que devia se retirar para o quarto antes que alguma coisa acontecesse.

- Ele não é chato. – defendeu. – Posso lhe assegurar.
- Não quero falar sobre Ted. Quer conversar um pouco? Quer um drinque? – ela indagou, servindo-se.
- Não, obrigada. Vou dormir.
- Escapando novamente, Athynna? Fez isso a semana inteira. Tem receio do quê?

Ela nunca saberia quanto sua presença a deixava perturbada.

- Não tenho receio de coisa alguma, señora. – ela mentiu. – Estou apenas cansada. A noite foi maravilhosa. Obrigada por sua insistência, caso contrário eu não teria ido. Mas agora necessito de um bom descanso.
- Ainda não. – Carla  terminou de tomar o drinque e disse. – Vou partir domingo à tarde para uma viagem de negócios pelo norte da Europa. Estará aqui quando eu retornar, na sexta-feira?
- Devo terminar meu trabalho na segunda ou terça e então retornarei para casa. Estarei de volta perto da data do casamento.
- Fique.
- Não posso.

Carla se aproximou e delicadamente soltou os cabelos de Athynna. Continuou mexendo neles, enquanto segurava o rosto dela, preparando-se para beijá-la.

- Não! – Athynna protestou, mas ansiosa para sentir os lábios firmes e macios de Carla.
- Sim! – Carla exclamou num tom ameaçador.

Beijou-a com firmeza até Athynna ceder e entreabrir os lábios. Um barulho no vestíbulo interrompeu-as e elas perceberam que Ted e Sabrine estavam chegando. Pararam de se beijar, mas Carla continuou com as mãos nos cabelos brilhantes. Athynna estava preocupada, querendo saber se os dois jovens se dirigiriam à sala de estar ou subiriam para os quartos.

Quando as vozes foram se distanciando, Athynna ficou aliviada. Por que Carla não a deixava sozinha?

- Sua mãe contou, enquanto esperávamos Sabrine escolher o vestido de noiva, que seu pai foi um homem de gestos muito nobres e que você se parece com ele. – Athynna declarou. – Eu discordo. Você esqueceu que tem uma namorada-noiva.
- Mas isso não faz diminuir sua excitação, señorita. Gosta de ficar em meus braços.
- Descarada!

Ela se virou, furiosa, pronta para sair. Carla a puxou bruscamente pelo braço.

- Para sua informação, meu namoro e compromisso com Maria está terminado. – Carla falou. – Não temos nada em comum, como você salientou tão admiravelmente na semana passada. Mas não tenha esperanças, pequena senhorita inglesa. Um caçador de fortunas na família já é suficiente.
- Não passa pela sua cabeça que Sabrine possa ser amada pelo que é e não pelo dinheiro que possui? Dê uma chance a si mesma e encontrará uma pessoa que goste de você e não de sua maldita fortuna. Espero sinceramente que consiga.

Athynna andou em direção à escada, com lágrimas caindo pelo rosto. Seu coração estava partido, como se tivesse lavado uma punhalada. Ela queria ir embora e esquecer as palavras terríveis de Carla Jullien Alverez. Ela estava livre, mas deixara claro que não queria nada com ela.