Uma questão de preferência

Maat

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MINHAS CARAS LEITORAS AQUI VAI MAIS UM CONTO QUE ESPERO SEJA DO AGRADO DE VOCÊS. O TEMA É O DE SEMPRE, O AMOR ENTRE DUAS DAMAS.

OBRIGADA.

MAAT.

 

CAPÍTULO 1

 

Saí finalmente do rol dos desempregados, ou, melhor falando, dos que estão com sua mão-de-obra disponível. Amarguei uma fase muito ruim e agora posso dormir tranquila. Trabalho perto de minha casa; posso ir até de pé. Agente de saúde, não é bem a profissão que sonhei a vida inteira, mas, para começar está de bom tamanho, também tenho apenas o 2º grau completo... A vida de uma mulher não é muito fácil, aqui no terceiro mundo, mas ser mulher para mim é o máximo, portanto vou caminhando e procurando construir meu caminho. Sou entendida, uma safista que se poderia dizer nata. Acho que a pessoa pode ser lésbica desde o nascimento e aprender a ser pela vida afora. Desde que me entendo por gente, sempre dei uma olhadinha nas meninas. Apesar do amor que sinto pelo belo sexo, não sou muito de declarar minha identidade sexual. Acredito que sendo isso algo tão íntimo, porque falar se você não sente vontade de fazê-lo? Esse negócio de dizer aos outros o que você gosta de fazer na cama, não é comigo. Não sei publicar em um jornal minha identidade sexual, não sei falar para qualquer pessoa o que mais amo fazer. Vejo em sites, jornais e revistas pessoas que dizem.
- Finalmente saí do armário.

Ou então.
- Dei um chute no pau da barraca e assumi.

E não sou tímida, já fui, quando adolescente, depois criei coragem e consegui falar sem gaguejar para cantar uma dama.

Todavia, não consigo falar com desenvoltura para pessoas que não amam o safismo como eu. Às vezes me pergunto.
- Porque tenho que falar de coisas tão íntimas, se não é o meu desejo, falar assim para quem não ama essas coisas como eu? Qual a obrigação que tenho de falar?

Sinto-me meio sem jeito no meio de gente como eu, que diz, sem nenhum constrangimento.
- Eu sou, assumi e nem to aí.
Bate no peito, com um sentimento que diz ser orgulho e diz.
- Viu como assumi e não morri?
Também não me sinto diminuída por isso. Quem sabe um dia eu tenha coragem de publicar em um jornal minha saída do armário.
- Gente, eu sou!
É quem sabe. Sou meio esportiva, qualquer pessoa um pouco mais observadora, que tenha um bom gaydar sabe que eu sou amante do safismo...

Porque tenho que me dirigir a desconhecidos e declarar minha identidade sexual, apenas porque não fazê-lo seria motivo de vergonha diante de seres iguais a mim? Sinto um pouco de constrangimento ante pessoas assim. Será que sou covarde? Não é o que penso de mim.

Chove pra caramba, nessa terra. Vou correndo pelo meio dos carros, pois sou pedestre. No meio da chuva, no meio da lama. Tem uns chatos que dirigem carros que passam sobre as águas que estão acumuladas ao lado do meio fio e, sentem prazer em jogar água na gente. Finalmente chego a meu trabalho. Como agente de saúde, tenho de visitar uns pacientes, aliás, os pacientes dos médicos. Chego à casa de uma velhinha.
- Senhora, procuro dona Maria Aparecida, a senhora conhece?

A velhinha humilde olha-me e diz.
- O que a senhora quer com ela? Num sei quem é não, num conheço.
Identifico-me.
- Eu sou agente de saúde, senhora.
Penso.
"Será que a velhinha entendeu?"

A senhora dá um sorriso... É meio desdentada. Continuo me identificando.
- Meu nome é Rosamaria...

Continuo conversando com a velhinha.
- É que ela consultou-se no hospital de Taguatinga e como sou agente de saúde, vim saber como ela está passando, se melhorou...

A velhinha dá outro sorriso e comenta.
- Ah! ta certo, pois bem a Maria Aparecida sou eu mesma...
E faz:
- Ri ri ri ri.

Que velhinha miserável... Não é que ela me enganou direitinho? Sorrindo e incrédula com a prudência de D. Aparecida, eu indago.
- É a senhora. mesmo?
- Sou eu, minha fia, sou eu... É que sou mineira uai, e sou... Meia desconfiada.
- Meia?

Sorrindo replico.
- E como a senhora está?
- To bem, minha fia, já me a recuperei, estava apenas sentindo uma dor nas costas, mas já passou.
Amável, eu me despeço.
- Que bom, vou anotar aqui que a senhora. Maria Aparecida, está recuperada de seu problema de saúde.
- Obrigada, minha fia, esse serviço do posto de saúde, é bão.

Sorrindo para a velhinha:
- Obrigada, senhora. bom dia.
- Bom dia, minha fia e bom trabalho. Agradeço mais uma vez...
- Obrigada.

Sigo meu caminho de casa em casa, visitando os pacientes.
"Esse tempo de chuva é terrível..." Murmuro com meus botões.

Chego no Centro de saúde com umas botas de lama nos pés. Minhas sandálias que eram brancas estão irreconhecíveis, todavia nada que uma boa limpeza não possa dar conta. Limpo os pés no tapete, entro, assino meu ponto. Moro a uns 8 km do local onde trabalho. Antes de sair ouço uma colega, Maria da Glória, (ela é meio desajeitadazinha, feinha, mas muito simpática e prestativa), também, agente de saúde, diz que temos uma nova colega de trabalho.

- E quem é?
- É a nova administradora, é bonita...

Saio calada. Eles sabem que sou entendida e esperam alguma resposta, creio sáfica de minha boca, mas faço-me de desentendida... Vou embora calada.

 

CAPÍTULO 2

 

Vou no meio da lama, para a casa de minha irmã, onde resido. Minha irmã, a Claudiane é separada do marido e tem um namorado, o Geraldo. Ambos são evangélicos. Eu, Rosamaria sou católica, sempre acreditei e ainda hoje acredito que quando temos um problema grave temos que, é claro, nos apegar com Deus e que a religião da gente, vem em segundo plano, ou seja, Deus é Deus, não importa qual o caminho que seguimos para alcançá-lo. Ela é uma boa irmã, mas está sempre envolvida com os cultos, com a bíblia em punho, lendo os salmos e os versículos... Às vezes ela tem uma reunião com as colegas que ela chama de irmãs. Irmã Divina, irmã Clotilde, irmão Jeremias e por aí vai.

Mal adentro o recinto e Claudiane me diz.
ãs vem aqui, e eu conto com sua compreensão.
- Mas Claudiane, de novo? Essa mulherada não tem o que fazer, quase todo dia vem louvar a Jesus...

Minha irmã ri divertida com o comentário.
- É que temos que discutir uns textos bíblicos...
- Está certo.
- Gostaria que não fizesse nenhum comentário que deixasse minhas irmãs constrangidas...
- E o que eu digo?
- Ah! Fala um monte de abobrinhas, besteiras, do tipo, quero que você explique esse texto...
Rimos e eu prometo.
ésó brincadeira mesmo...

Daí a pouco chegam as “irmãs”. São quatro mulheres, ambas com cerca de quarenta anos. Meio gordinhas e com cara de boas pessoas. Tinha uma delas, irmã Raquel cujas pernas eram cheias de cabelos, parece que ela não depilava as pernas. Um dia, não resistindo a curiosidade, (Claudiane dizia que a curiosidade era um grave defeito meu, coisa que eu via com naturalidade) perguntei-lhe bem séria.

- Irmã Raquel na sua religião não é permitido depilar as pernas?

Ela sorriu meia sem graça, afinal eu era entendida, parecia que ela estava sendo desvirginada por minhas palavras, ou quem sabe, sendo interpelada por um homem vestido de saias.

- Foi o pastor que disse que nós, as mulheres, temos que ter certo decoro e não ficar com essas vaidades do mundo, que isso não agrada a Deus.

Sorri procurando ser simpática e minha irmã, contendo o riso interfere.

- O que foi que eu te disse Ro-sa-ma-ria?
- A mesma coisa de sempre, disse-me que hoje iam estudar a bíblia.
ós.
- Certo.

A voz de uma irmã me desperta de minhas recordações.

- Boa noite Rosa.


O restante das irmãs fazem coro a D. Expedita dizendo boa noite. Minha irmã pega a bíblia e diz.
- Vamos escolher um texto ao acaso...

A mulherada responde.
- Certo.

Claudiane escolhe o texto. Abre a bíblia e com um dedo como se fosse por acaso aponta uma passagem do livro sagrado. E começa a ler. É o salmo 91. Deixo-as a sós para que estudem o texto bíblico. Tomo banho, janto, deito-me e fecho a porta de meu quarto. Aquelas reuniões, quase todo dia, não me aprazem muito. Cai uma chuva forte e as irmãs vão embora na chuva. Minha irmã entra para me dar boa noite.
- Rosinha, boa noite, dorme com Deus.
Eu respondo.
- Boa noite, e as irmãs, foram lavar suas almas na chuva?

Claudiane ri, mas, me chama a atenção.
- Oh! Rosamaria, elas são boas pessoas, é claro que temos, todo mundo tem os seus pecados.
Fala com certa censura na voz.
- Estou brincando, desculpe. É que não compreendo como pode ter deixado nossa religião, que mamãe nos ensinou para ir para outra...
- Devia ser meu destino.
- Concordo.

Ela fecha a porta e vai dormir.

 

CAPÍTULO 3

 

Conheço no outro dia a administradora. É bonita, jovem e tem os cabelos cheio de cachinhos. Chama-se Lídia... Penso com meus simpáticos botões.
"Bela..."

Mais tarde ela sai com o noivo que veio buscá-la. Um sujeito sem graça; é verdade que não sou chegada no pedaço, mas, é que o cara é feinho, mesmo. Murmuro baixinho ao vê-lo.
- Feio. Aliás, a Bela e a fera...

Os dois se beijam suavemente, entram no carro e vão embora. Vou para casa, debaixo de minha sombrinha, meus pezinhos sofrem, a lama respinga neles, em janeiro S. Pedro não economiza água. Claudiane abre a porta e me parece de péssimo humor. Antes que eu pergunte do que se trata, ela começa a falar sem parar.

- Imagine que dei entrada para tirar minha licença prêmio e eles me negaram.
- E porque motivo o fizeram?
- Eles alegaram que no momento os funcionários estão poucos e se eu quiser tenho que esperar pelo próximo ano....
- Sinto muito.
- Sabe o que vou fazer?
Ela diz exaltada.
- O que?
- Ah! Sei lá, vou jogar uma praga neles, vou lá encher o saco.
- Pára com isso, irmãzinha, fica calma, esfria a cabeça, espera pelo próximo ano.
- O que?
- Calma, calma, isso acontece, às vezes nem tudo que a gente quer, a gente tem na hora que a gente quer, entendeu?
- Não, não entendi. Não quero nem saber, quero minha licença prêmio.
- A mulher não já falou que não é possível?
- Falou, mas eu quero, eu quero você entendeu?
Que coisa chata.
- Entender eu entendi, quem não entendeu, foi sua chefe.
- Eu quero que aquele prédio exploda...
- Claudiane, está louca, como dizer uma besteira dessa, hem? Cadê sua fé em Deus, para que serve aquele monte de versículos que você vive a dizer, aqui em casa, hem?

Minha irmã não era má pessoa, mas quando contrariada, esquecia-se da bíblia, dos versículos e tudo, era como se a fé dela ficasse abalada quando contrariada... E começava a, segundo a própria, lançar pragas. Eu achava aquilo horrível.
Ela reclamou mais ou menos uma hora e finalmente foi dormir. Mas, antes disso, afirmou-me.
- Amanhã vou lá dizer umas verdades para a tal mulher.

Fechei suavemente a porta do meu quarto e desejei que ela se tranqüilizasse. Eu hem? Qualquer coisinha abalava sua fé em Deus, aí eram pragas, e mais pragas. Que coisa mais chata! Fui trabalhar como sempre no meio da chuva. Prometi a mim mesma.

"Um dia vou ter um carro."

Quando entro no centro de saúde onde trabalho, vejo a bela administradora. Murmuro com meus simpáticos botões.
- A bela sem a fera...
Sorrio com polidez e digo.
- Como vai doutora Lídia?
A jovem sorri mostrando uns dentinhos bonitos. Desvio meus olhos e penso.
- Bonita...
Ela me cumprimenta afável.
- Como vai, Rosamaria?

Sigo meu caminho e vou limpar a lama de minhas sandálias.  Continuo refletindo, pensando em Lídia... Quando Maria da Glória interrompe meus pensamentos.

- Tudo bem, Rosamaria?
- Tudo bem.
- Gostaria de te dizer uma coisa... É em particular...
- Certo.
- Sabe Rosamaria que estou transando com meu namorado?
- Que bom, e tem como posso dizer, sem ser indiscreta demais, visto alguma estrela, vagalume... Chegado ao clímax?
- Ainda estamos na fase do conhecimento, mais cedo ou mais tarde vou conseguir.
- Que bom, tenha fé que conseguirá.

Nossa chefe nos chama, ela quer nos entregar uma relação das visitas que temos que fazer quando a chuva parar um pouco.

 

CAPÍTULO 4

 

A chuva passa e vamos visitar os pacientes. Felizmente estão bem... Se recuperando... Vou para casa.

Em 1982, o Brasil é administrado pelo generais (militares) e a liberdade é meio restrita. Assim que chego em casa, Claudiane me diz que um colega meu, da época em que eu fazia o 2º grau, morreu, de acidente, o Arinelson. Fico meio de luto, pois éramos bons amigos. Ele era metido a entendido, mas preferiu se casar e constituir família no estilo heterossexual. Tinha dois filhos... A esposa era uma jovem meio simpática. Afirmara-me, quando em vida, que se esforçava para ser um bom marido. Fui no outro dia ao enterro. Arinelson estava sendo velado no cemitério de Taguatinga. Ali, estirado, no meio de tantas flores, jazia um grande amigo. Fiquei emocionada, vendo-o inerte e duas pequenas lágrimas caíram de meus olhos, escorrendo em meu rosto. Os brasilienses não gostam de muitas perguntas. Por exemplo: se uma pessoa morre a gente, que não é parente, não pode ficar perguntando.

- Como foi que aconteceu, ele sofreu muito, quero dizer no hospital, ficou muito tempo hospitalizado, sabe se a polícia prendeu o dono do carro que o atropelou?

É algo considerado como indiscrição, os brasilienses trocam olhares de reprovação ao ouvir perguntas desse tipo. Procurei respeitar os costumes... Aproximei-me da viúva e murmurei... Escolhendo as palavras...
- Sra. sinto muito...
Dei-lhe um abraço frouxo... Ela derramou mais algumas lágrimas e indaguei:
- Como foi o acidente?
Senti os olhares dos presentes me condenando pela indiscrição.

"Será que teria sido melhor eu ler os jornais?"

Questionei-me. Continuei.
- Sra. eu e o Ari fomos muito amigos, no colegial, sei que me conhece muito pouco...
A viúva procurou ser gentil.
- Ele comentou algumas vezes sobre você Rosamaria...

Fiquei aliviada. A família do Ari não gostava de mim, porque sou entendida, e eles achavam que eu tinha um pouco de culpa pelo filho deles procurar um romance com um homem... Imagine! Eu nunca fui de me meter na vida particular de ninguém... Por exemplo, de aconselhar uma pessoa a dormir com um homem ou com uma mulher... Eles pediam ao Arinelson para se manter longe de mim, pois, eu era um mau exemplo, levava uma vida reprovável... Eram católicos praticantes, aquele tipo de gente que vive boa parte do tempo na igreja e queriam manter o filho deles longe do pecado. Não sou contra quem seja praticante de qualquer religião...

A viúva respondeu.
- Ele foi atravessar o eixo, ali, na altura da 112 sul e não viu o carro que vinha em alta velocidade, o motorista fugiu sem prestar socorro...
- Sinto muito, repeti.

Os pais do morto se aproximam. Sei que o cemitério é um lugar público, mas, achei melhor me retirar. Seu Nelson me cumprimenta.

- Como vai, Rosamaria?
- Vou bem, seu Nelson... Lamento pelo Ari...

Como uma pessoa bem educada estendo a mão para o pai do falecido. Ele aperta minha mão, volta-se para a viúva e diz.
- A Rosamaria teve um caso com o Ari...

Meus olhos deram uma volta de 380 graus...

Comentei:
- O queeeê?

O velho continua.
- Não precisa se envergonhar, sei que foram amantes, meu filho era um garanhão...

Surpreendida e indignada respondi.
- Isso nunca aconteceu, apenas éramos colegas de escola.

O velho continuou surdo às minhas palavras.
- Não seja tímida, meu filho me contava tudo para mim, era meu orgulho.

Calmamente comentei.
- O senhor está enganado devia ser de outra mulher que ele estava falando.

O velho retrucou firmemente.
- Não, era de você que ele falava...
- Nesse caso ele estava brincando, pois, somente fomos amigos.

A viúva interfere.
- Devia ser por isso que ela estava chorando...

Pensei com meus botões.
- Meu Deus que loucura!!!!!

A viúva que se chamava Ester exigiu:
- Saia daqui sua piranha, não respeita nem um velório...

Tratei de sair de mansinho para evitar um barraco. Seu Nelson segurou-me pelo braço e murmurou.
- Vá embora, não quero que pensem que meu filho era um maricas... um... um...

Caminhei determinada para a saída do cemitério, no caminho um homem aproximou-se de mim e entregou-me um cartão. Surpresa li o cartão. O cartão era de um despachante (profissional que cuida da documentação de veículos) com um telefone.

- Desculpe não entendi, não tenho carro...
- Ouvi sua conversa com o Nelson, sabe adoro mulheres bi, fico louco...
- Olha cara, vai procurar o que fazer, imagine eu bi...
- Ah! Desculpe não quis ofendê-la...
- Dá licença.

Achei melhor ir para casa...

 

 

Continua...