A Herdeira

Rose Angel

Contato: roseangelys@yahoo.com.br

 

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Olha eu aqui de novo... Desta vez me aventurando numa história meio que de suspense, meio que policial... Vamos ver.

Vale o velho lembrete de que esta história contém temas adultos expondo relações sexuais explícitas entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, onde você mora é proibido ler esse tipo de material ou for homofóbico, não continue a leitura.

Essa história novamente tem as protagonistas inspiradas nas personagens de Xena e Gabrielle que são marca registrada da MCA/Universal e Renaissance. Elas são usadas aqui sem intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright.

Uma das personagens principais tem o nome dedicado a uma amiga querida, a pedidos... Beijos, Tine!

Também dedico esta história a pessoa que mais me incentiva a escrever e é minha fã incondicional... e vive comigo, e é a razão do meu existir. Te amo Mima!

E sempre merecem a minha dedicatória as amigas Paula Marinho e A.L.Benner, grandes escritoras e grandes mulheres! Para Lucia, Gê Lua, Cyn, Gisa, Drica, Deby, Cinthia, Bêra, Su, Rê, Rê Martins e todas as mulheres maravilhosas do mundo que escrevem a nossa história...

A cidade em que é ambientada esta história é fictícia, mas para quem conhece as paisagens da serra gaúcha fica muito fácil visualizar o local, e para quem não conhece ainda, fica a sugestão... Usem a imaginação e viagem pra valer!

Espero que gostem e desejo a todos uma boa Leitura!

Se quiserem enviar comentários meu e-mail é roseangelys@yahoo.com.br

 

 

 

Agosto de 2006

 

Cristine caminhava apressadamente pelo corredor de embarque do Aeroporto Galeão, no Rio de Janeiro, tão absorta em seus pensamentos que mal percebia a intensa movimentação ao seu redor. O burburinho das pessoas que estavam chegando e partindo, o vai-e-vem de malas e bagagens empurradas nos carrinhos metálicos, a voz grave, aveludada e compassada que emanava dos alto-falantes e anunciava a saída e chegada de novos vôos, nada disso prendia a atenção da jovem que se dirigia à aeronave da TAM, que já recebia os primeiros passageiros em seu interior imenso. Voar era sempre a mesma angústia para Cristine. Desde a primeira vez que andara de avião a sensação era a mesma: desconforto. A pressurização a incomodava e fazia seus ouvidos e maxilares parecerem de cristal, como se fossem se quebrar ao mais suave toque. Ficava com a boca seca e as mãos suadas.

Portando apenas uma valise de mão instalou-se num dos bancos centrais, longe das janelas. Colocou seu cinto de segurança e abriu uma revista de bordo tentando distrair a mente. No entanto seu pensamento vagava entre a ansiedade de estar prestes a ficar a incontáveis metros acima do chão e a expectativa frente ao que lhe reservava seu destino.

Tão logo o avião fez a primeira manobra ainda em terra, posicionando-se de frente para a pista de decolagem, Cristine colocou um chiclete de hortelã na boca, para tentar aliviar a torrente de explosões em seus ouvidos que por certo iniciariam no momento em que o trem de pouso saísse do chão. A aeronave iniciou sua corrida veloz e Cristine fechou os olhos, sentindo a pulsação de seu coração na garganta. Em segundos sentiu o habitual frio no estômago e tomou ciência de que já não estava mais em terra firme.

Ainda de olhos fechados tentou recapitular os últimos acontecimentos, a surpresa com o telegrama e o telefonema que recebera no dia anterior e que a fizera estar ali naquela situação tão inusitada. Sentia-se “sem chão” no sentido amplo da palavra, literal e metaforicamente. Recordava que no final da tarde anterior havia recebido um telegrama em seu trabalho. Dizia o seguinte: “Senhorita Cristine Dupret Torres, favor entrar em contato urgente com Dr. Mendes. Assunto de seu interesse. Escritório de Advocacia Mendes e Winter Ltda.” Logo depois se lia o número do telefone do escritório. Movida pela curiosidade Cristine discou o número cujo prefixo era do Estado do Rio Grande do Sul e uma voz com timbre de tenor atendeu do outro lado da linha:

- Alô, Escritório de Advocacia.
- Por favor, o Dr. Mendes se encontra?
- Pois não, sou eu mesmo.
- Eu sou Cristine Torres e recebi um telegrama seu.
- Senhorita – disse o advogado suspirando profundamente, visivelmente aliviado pelo contato – solicitei um contato urgente, pois um de meus clientes é parente seu, o Sr. Artur Diaz Torres...
- Sim, é um tio meu. Na verdade eu pouco tenho contato com ele, acho que o vi somente umas três ou quatro vezes em minha vida.
- Bom, senhorita, lastimo informa-la, mas o seu tio veio a falecer no dia de hoje.

Fez-se um silêncio na linha. Nem Cristine nem o advogado sabiam o que dizer. Na verdade Cristine não tinha vínculo algum com seu tio e seria hipócrita se dissesse estar lamentando seu óbito. Mas também fôra assolada por um estranho sentimento de vazio, de perda. Novamente perdas. Havia perdido os pais ainda pequena, tragicamente. Ficara sozinha desde então. Sabia da existência de seu tio paterno, porém este nunca fizera menção de uma aproximação maior com ela. Crescera em colégios internos. Com ótima formação, porém sempre solitária. E naquele momento a sensação de estar sozinha novamente afligiu seu coração.

- Alô... senhorita...
- Sim... estou ouvindo...
- Bem... como testamenteiro de seu finado tio estou entrando em contato com a senhorita para informa-la de que será aberto o testamento de seu tio dentro em breve e seria imprescindível a sua presença.
- A minha presença?
- Sim.
- Mas, por qual motivo?
- Bem, a senhorita consta no testamento.
- Como?
- Seu tio lhe deixou alguns bens.

Novo silêncio se fez na linha telefônica. Desta vez o advogado continuou.

- Se me permite sugiro que venha para o funeral de seu tio, que será amanhã.
- Mas... como?... Eu não me preparei...
- Infelizmente senhorita a morte não manda avisos e sempre nos pega desprevenidos. Se me permite ainda posso providenciar passagens aéreas e transporte para trazê-la em tempo de despedir-se do falecido. Também devo lhe informar que poderá ficar na casa de seu tio.
- Eu não sei... preciso pensar... me organizar... - Não há tempo para isso, senhorita.

Cristine inspirou profundamente e respondeu movida pelo impulso:

- Tudo bem então. Eu vou... Mas, para onde mesmo?
- Para Doze Colinas, aqui no Rio Grande do Sul. Eu providencio o que for necessário e lhe telefono para dar os detalhes dentro em breve.
- Tudo bem.

Cristine passou seus telefones de contato para o Dr. Mendes e tratou de ir para casa a fim de arrumar sua mala. Antes conversou com sua sócia da firma de engenharia e arquitetura, Cynthia, e combinaram que ela tomaria conta dos negócios em sua ausência, que pretendia que fosse breve.

Era pouco mais de dez horas da noite quando o telefone em seu criado mudo tocou. Estava tomando banho, no entanto conseguiu ouvir quando a secretária eletrônica capturou o seguinte recado: “Senhorita Cristine, aqui quem fala é Mendes. Está tudo resolvido. A senhorita embarca no Galeão às seis horas da manhã e nós lhe buscaremos no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. De lá seguimos para Doze Colinas a tempo de acompanhar o sepultamento de seu tio. Favor entrar em contato comigo tão logo receba esta mensagem”.

Assim que terminou de secar-se e vestir-se Cristine retornou a ligação e falou com Dr. Mendes anotando o número do vôo e demais detalhes necessários para identificar o advogado em sua chegada.

Cristine foi trazida de volta à realidade pelo toque suave em seu ombro da comissária de bordo:

- Aceita uma bebida?
- Água, por favor.

Ainda se encontrava num estado letárgico, misto de espanto e incredulidade. Da noite para o dia havia perdido o único familiar que ainda lhe restava, embora que distante, e poderia estar herdando sabe-se lá o quê. Um grande ponto de interrogação pairava em seus pensamentos. Decidiu tentar distrair-se novamente com a revista de bordo quando uma turbulência mais forte a fez empalidecer. “Calma Tine”, pensava ela, “é assim mesmo, isso é normal, vai passar”. E de fato passou. A viagem de quase duas horas foi tranqüila e quando o avião pousou em solo Riograndense, e os motores das turbinas inverteram seu giro a fim de desacelerar a velocidade da aeronave, Cristine suspirou aliviada. O barulho ensurdecedor era de fato um bálsamo para seus ouvidos, pois era sinônimo de contato com o solo abençoado e firme. O desembarque foi até rápido, mais rápido do que ela supunha que fosse. Ao dirigir-se à porta envidraçada visualizou ao longe um homem alto, com alguns cabelos grisalhos despontando em suas têmporas, aparentando cerca de cinqüenta anos, um tipo realmente interessante, segurando uma discreta placa com seu nome.

Sabedora dos rigores do inverno gaúcho, Cristine precavida havia deixado um agasalho de lã à mão. Vestiu seu casacão antes de desembarcar e ao primeiro contato com o ar sulista sentiu sua pele arrepiar-se de frio. O contraste com o clima carioca era gritante. Acostumada com uma temperatura mais quente, onde se podia freqüentar as areias da praia do Leblon inclusive no inverno sem maiores problemas, aquela aragem gélida em suas faces a fez ficar corada e com o nariz avermelhado. Aquele mês de agosto estava se superando no frio e no volume de chuvas. Chovia há aproximadamente dez dias, incessantemente. Neste período raras vezes uma nesga de luminosidade parecia querer furar as nuvens cinzentas e deixar transparecer o azul celeste, no entanto logo a massa compacta das nuvens despejava uma nova enxurrada de espessas gotas, transformando em lamaçal as estradas não asfaltadas das cidadezinhas do interior e criando um caos no centro da cidade, na capital.

Enquanto dirigia-se ao Dr. Mendes a jovem não podia deixar de pensar no que a aguardaria nos próximos dias. Ao aproximar-se do advogado este esboçou uma mesura com a cabeça, estendendo-lhe a mão e dizendo:

- Senhorita Cristine?
- Sim.
- Meus pêsames, senhorita.
- Obrigada – respondeu Cristine.
- O carro está nos aguardando no estacionamento. A senhorita gostaria de tomar um café antes de partirmos?
- Não, obrigada. Estou sem fome.
- Neste caso, vamos indo. Por gentileza. – disse o Dr. Mendes gentilmente pegando a mala de Cristine e indicando a direção do estacionamento com um gesto discreto.

Dr. Mendes era um homem reservado, de poucas palavras, no entanto bastante elegante e gentil, um verdadeiro cavalheiro. Em menos de dez minutos estavam defronte ao ômega azul marinho em cujo porta-malas foi colocada a bagagem de Cristine. No curto trajeto até o carro Cristine pôde sentir o frio cortante a invadir-lhe os poros através das poucas partes de seu corpo que estavam sem proteção. Puxou a gola de seu casaco para cima tentando proteger mais seu pescoço e as orelhas, sentindo seu corpo encolher-se instintivamente, na tentativa de amenizar a sensação gélida. O cabelo loiro esvoaçava com as rajadas de vento que cruzavam os corredores do estacionamento. A porta do carro foi aberta pelo motorista, Henrique, que trajava um impecável uniforme marinho, com um pesado sobretudo negro que lhe chegava até as canelas, deixando à mostra somente a barra da calça e os sapatos cuidadosamente engraxados.

- Senhorita Cristine, este é Henrique, o motorista do falecido senhor seu tio.
- Meus pêsames, senhorita. – disse Henrique tirando seu quepe e inclinando-se respeitosamente num cumprimento, evidenciando estar de fato bastante entristecido pela morte do Sr. Artur.
- Obrigada.
– E muito prazer em conhecê-la. Este criado está ao seu dispor para o que precisar. – continuou o motorista.
- Obrigada novamente. – respondeu Cristine.
- Então vamos. Infelizmente uma ingrata e dolorosa tarefa nos aguarda... – disse Dr. Mendes segurando a porta enquanto Cristine embarcava.

O carro pôs-se em movimento e, em silêncio, Cristine observava a paisagem cinzenta que se descortinava ao longo do caminho. Espessas gotas de chuva teimavam em chocar-se violentamente contra o vidro do carro, turvando a visão de Cristine. Quando a chuva cedia por instantes podia observar um pouco as curvas da estrada. O vento fustigava o arvoredo e a vegetação do acostamento. Perdida em seus devaneios sentia-se como se estivesse num sonho, como parte de um filme cuja película pudesse ser parada a qualquer momento. Porém a voz do Dr. Mendes deu-lhe a dimensão de que estava presa à realidade.

- A senhorita já conhecia este lugar?
- Não... só de ouvir falar. Lembro remotamente que meu pai contava histórias de sua infância aqui... mas são lembranças muito vagas.
- Entendo... – respondeu o advogado. – Faz muito tempo que ele faleceu, não é mesmo?
- Faz.

Fez-se um silêncio, novamente quebrado pelo Dr. Mendes:

- Tem feito uns dias muito chuvosos... o tempo de fato não está ajudando em nada.
- Como se o tempo pudesse ajudar em alguma coisa neste caso... – disse Cristine, mais para ela mesma do que para o advogado.
- De fato... – ponderou Dr. Mendes – Senhorita, eu respeito seus sentimentos, e coloco-me à sua inteira disposição para lhe colocar a par de todas as circunstâncias que envolveram o falecimento de seu tio. Basta a senhorita assim o desejar. Não quero forçar uma conversa que a faça sofrer. Qualquer coisa que deseje saber é só me perguntar, certo?

Cristine olhou o advogado nos olhos e sentiu franqueza em suas palavras. Com um aceno de cabeça assentiu e tornou a olhar para a paisagem da estrada. Passados cerca de trinta minutos Cristine perguntou:

- Meu tio estava doente há mais tempo?
- Que eu soubesse não. Fazia controle médico sistemático devido a problemas cardíacos, mas nada que pudesse indicar algo mais sério.
- E qual foi a causa da morte?
- Infarto. Fulminante.

Cristine calou-se novamente.

- Seu tio era um homem circunspeto, de poucos amigos. Mas era uma pessoa pela qual eu nutria uma especial amizade e admiração. Convivíamos-nos desde que me conheço por gente. Quando eu era ainda um meninote o Sr. Artur já era um jovem gerenciador da propriedade herdada de seu pai e dos escritórios da família. A minha origem era muito humilde e um belo dia eu disse ao Sr. Artur que pretendia ser advogado – sorriu entristecido – e ele me ergueu nos braços e disse que faria de mim o melhor advogado da região. E assim o fez. Pagou todos os meus estudos até que me formasse. Desde então defendo os interesses dele como defenderia os de meu próprio pai. Por isto senhorita, empenhei-me tanto em localizá-la, pois sou sabedor de que este seria um dos desejos dele.
- Mas ele mal me conhecia... Nem consigo me lembrar do rosto dele... – disse Cristine com um tom de amargura na voz. – Porque ele não me procurou antes? Enquanto estava vivo? O senhor tem idéia do que é não ter ninguém na vida? – desabafou Cristine – O senhor sabe o que é sentir-se sem ninguém?
- Não... Não sei... – respondeu Dr. Mendes pousando delicada e respeitosamente sua mão por sobre a de Cristine – mas posso imaginar... Porém garanto-lhe que seu tio deve ter tido seus motivos para fazê-lo. Não o culpe por isso, por favor...

Cristine suspirou profundamente, engolindo uma sensação de choro contido, e respondeu brandamente:

- Tudo bem...

Percorreram o restante do trajeto em silêncio. A viagem até Doze Colinas levou cerca de duas horas. Ao entrarem na cidade Cristine percebeu as pequenas vielas sem asfalto que convergiam todas até a estrada principal, na qual trafegavam, e que era coberta por paralelepípedos de pedra ferro, irregulares e gastos, mais pelo tempo de uso do que pelo fluxo de veículos. Era uma cidade pequena, com alguns estabelecimentos comerciais e pouquíssimo movimento. A chuva intensa e o frio haviam esvaziado as ruas e todos procuravam um abrigo seco e quente.

Cristine olhou seu relógio de pulso e viu que já passava das dez horas da manhã. Percebendo seu movimento Dr. Mendes falou:

- O enterro está marcado para as onze horas. Chegaremos a tempo, fique tranqüila.

O veículo continuava sua marcha rumo ao pequeno cemitério local. Cristine sentia avolumar-se a sensação de gelo interior, porém não sabia definir com certeza se seria pelo clima ou pelo nervosismo.

 

 

TRÊS MESES ANTES...

 

Sentado em seu escritório o introspectivo Artur Diaz Torres analisava detalhadamente os documentos com as referências pessoais dos cinco candidatos para a vaga de serviços gerais que precisava contratar ainda naquele dia. Era observado por James, seu secretário pessoal e afilhado, e por Morris, o sisudo mordomo da propriedade. Dr. Mendes também estava presente, porém lia o jornal local distraidamente, atendo-se às publicações legais por serem de seu interesse profissional.

- James, - disse Sr. Artur – selecionei estes dois candidatos. Quero entrevista-los agora. Dispense os outros. Me encaminhe primeiro este aqui – e estendeu a ficha para o secretário.

Morris abriu a porta para a passagem de James e permaneceu em sua costumeira posição de sentido. Parecia que em seu íntimo ouvia constantemente a melodia do hino nacional, tamanha sua retidão na postura e seriedade. Raramente sorria e respondia sempre em monossílabos, em um tom de voz baixo, grave e respeitoso. Parecia olhar o mundo de cima de um pedestal. Apesar da aparência arrogante, Sr. Artur gostava dele. Era considerado um serviçal exemplar pelo patrão. Parecia adivinhar os pensamentos deste e não raras vezes atendia as suas vontades antes mesmo que fossem expressas verbalmente. Morris demonstrava fidelidade e discrição, virtudes indispensáveis no conceito do Sr. Artur. Contratado em uma das viagens de Artur à França, desempenhava suas funções na propriedade do novo patrão sem cogitar a possibilidade de retornar para sua terra natal. Havia se adaptado bem ao país e ao clima, cujo inverno lhe lembrava os rigores do inverno europeu.

O primeiro candidato selecionado adentrou na sala pedindo licença e respeitosamente tirando a touca de lã que lhe cobria os cabelos cuidadosamente aparados. Tinha um aspecto limpo e um discurso adequado. Respondeu ao que lhe era perguntado de forma direta, sem rodeios, o que agradou Sr. Artur.

O segundo candidato aparentou maior nervosismo, principalmente ao ser observado pelo possível futuro patrão dos pés à cabeça. Não lhe foi dirigida a palavra mais do que duas ou três vezes.

Após a saída deste, Artur disse secamente a James:

- Já fiz a minha escolha. Quero o primeiro – disse olhando novamente para a ficha do rapaz – o Thomaz.

Ele pode começar agora mesmo.

- Tem certeza, padrinho? – questionou James.
- Absoluta. Encaminhe-o aos seus aposentos, por favor, Morris.
- Pois não, senhor. – respondeu o Mordomo saindo do recinto.
- Eu ainda acho que o segundo candidato seria o mais adequado, padrinho, afinal mora aqui na cidade, é gente conhecida...
- Mas tu não és pago para achar nada. Aqui quem acha sou eu, e gostei do que escolhi. – disse Sr. Artur secamente.
- Desculpe... – assentiu James em voz baixa.
- Não se desculpe, James. Mas tente guardar seus palpites para si mesmo, e só os dê quando eu pedir.
- Sim senhor, padrinho. Com licença. Vou dar as orientações que o rapaz precisa.
- Isso. Vá, vá...

James saiu da sala deixando Sr. Artur e Dr. Mendes sozinhos. Este último sorriu e disse:

- Artur, Artur... Tente controlar sua impaciência. Tu pegas muito pesado com o rapaz – disse referindo-se a James.
- Mas ele consegue me tirar do sério, Adroaldo. Sempre tem um palpite furado para dar. E quando é preciso não sabe tomar as decisões adequadas. Não poderia nunca tocar os negócios para frente.
- Mas quem sabe agora tenhas a pessoa certa...
- Quem sabe. – respondeu Artur secamente e apressando-se em mudar de assunto – e então, como me saí?
- Acho que acertou na escolha. – respondeu Mendes sorrindo discretamente e tornando a ler a página das publicações legais de seu jornal. – Agora me sinto mais tranqüilo.
- Eu também... – respondeu Artur em voz baixa, mais para si mesmo do que para o amigo.
- Artur, - disse Adroaldo Mendes agora deixando transparecer preocupação na voz – tem certeza que não seria melhor conversar com o Munhoz sobre o incidente do carro?
- Acho que não. Realmente foi uma falha mecânica. Podia acontecer com qualquer um.
- Mas foi contigo.

Artur calou-se pensativo e continuou:

- Não... ainda acho que foi coincidência...
- Eu não tenho essa certeza – respondeu o advogado. – E as armas da coleção? Conseguiste acha-las?
- Ainda não, devo ter guardado em algum lugar por aí.
- Será? Metódico como és não poderias ter simplesmente esquecido...
- Mas tu chega a ser um mau agouro, ein, Adroaldo! – retrucou Artur.
- Sou apenas um amigo preocupado...
- Ta bom, ta bom... – retrucou o homem mais velho com irritação.

 

********

 

Quando o carro parou em frente ao cemitério da cidadezinha Cristine sentiu novamente a sensação de frio no estômago avolumar-se. O cemitério era cercado por um muro alto, de pedras, por sobre o qual se conseguia avistar os mausoléus de família e as imagens dos anjos e santos de mármore cuja função era velar o sono eterno dos que ali, em paz, repousavam pela eternidade. A chuva novamente voltara a castigar a cidade e caía abundantemente, precipitada com força pelas nuvens escuras e carregadas que pareciam querer abafar as copas das árvores mais altas.

O automóvel cruzou o portão de ferro do campo-santo e rumou por um curto caminho de paralelepípedos até a pequena capela mortuária.

Dr. Mendes desceu do carro e abriu um guarda-chuva negro, fazendo a volta para acolher Cristine e protegê-la da chuva espessa. Henrique já abrira a porta do carro e a jovem sentira o frio novamente assolando sua cútis clara e sensível. Sentiu o coração disparar. Estava preste a presenciar o funeral do único familiar que ainda sabia existir e do qual não tinha sequer a menor recordação. Apesar disso sentia o coração enlutado, com um sentimento de perda que não saberia definir. Ao desembarcar, Dr. Mendes passou o braço por cima de seus ombros, acolhendo-a junto a si e conduzindo-a para a porta de madeira que se encontrava totalmente aberta. Neste momento o sino começou a tocar, em badaladas rítmicas e melancólicas, anunciando que o momento da despedida final se aproximava. Cristine pôde ver a movimentação dentro do pequeno recinto, onde as pessoas se aproximavam da urna mortuária, cercando-a solenemente, embora mantendo certa distância, como que reservando um espaço para sua entrada.

Por um momento Cristine estancou, sendo tocada com suavidade no ombro pelo advogado da família, como que a encorajando a aproximar-se. Retomou a marcha lentamente e chegou até os pés do caixão que repousava sobre um rústico cavalete de madeira escura.

Cristine sentiu que todos os olhares se dirigiram do falecido para ela, porém era como se estivesse fazendo parte de um outro cenário. Por instantes era como se somente ela e o tio, inerte naquela urna de mogno envernizado, fizessem parte da mesma dimensão. Sua mão percorreu a borda do caixão, desde a parte de baixo, e pousou sobre as mãos do falecido, cruzadas sobre seu peito e tendo um único adorno no dedo anular esquerdo, uma aliança de prata desgastada pelo tempo. Sentiu o frio soturno da morte sob seus dedos, advindo daquele corpo agora sem vida.

Observou os contornos de seu rosto e não pôde deixar de notar a semelhança com os traços de seu pai, ou do que se lembrava dele, imagens avivadas pelas fotos de família. Tinha os cabelos grisalhos e as têmporas eram totalmente embranquecidas. As sobrancelhas espessas emolduravam um olhar que jamais veria. “Qual seria a cor de seus olhos?”, pensou Cristine. Aparentava ter sido um homem de porte físico grande, ombros largos, porém as mãos eram delicadas e os dedos eram longos. E ali jazia inerte e sem vida. Sentiu uma ponta de dor na alma, um misto de saudade e solidão. Uma lágrima escorreu do canto de seus olhos umedecendo-lhe o canto da boca. Era como se estivesse enterrando ali toda sua família, e sua história. Dr. Mendes estendeu-lhe um lenço ao perceber a trajetória daquela gota que escorria pelo rosto.

Neste momento o padre adentrou no recinto e todos fizeram o sinal da cruz. O padre, com sua batina longa e negra, iniciou o ritual da encomendação do corpo. Antes que terminasse a primeira oração ouviu-se o ruído do motor de um outro veículo que estacionava em frente à capela mortuária.

Em silêncio e de soslaio todos os presentes dirigiram o olhar para a figura esguia, alta, loira e pouco discreta que desembarcava, quase que teatralmente, do carro. Vestida de negro, com um chapéu de veludo de abas largas e um véu rendado a cobrir-lhe o rosto, aproximou-se chorando do corpo inanimado.

- Nããão... Artur... nããão... – disse debruçando-se sobre o caixão e abraçando o falecido.

Um homem mais jovem que a acompanhava amparou-a pelos ombros puxando-a delicadamente para trás. Os presentes, espantados, aguardavam em silêncio o desenrolar da cerimônia, momentaneamente interrompida. O padre tossiu discretamente, lançando um olhar de desaprovação para a loira, que se abraçou ao rapaz que a acompanhava enquanto soluçava mais discretamente, secando suas lágrimas com um lenço de seda vaporoso e lilás. Dr. Mendes e o delegado Munhoz entreolharam-se rapidamente mantendo, contudo, a fisionomia impassível. Passado o impacto inicial o padre seguiu com a encomendação. Cristine não conseguia entender o que se passava. E por certo não era o momento de dissipar suas dúvidas, afinal passaria alguns dias naquela cidade e poderia tomar ciência de toda a situação.

O ritual transcorreu como de costume. Procedidas as orações e a bênção final a pesada tampa de madeira foi colocada sobre o ataúde, não antes dos presentes fazerem sua última despedida do morto. A loira foi a mais tempestuosa, abraçando-se ao corpo e chegando a pedir que o falecido a levasse com ele, numa cena que chegava a ser patética, não fosse a tragicidade do momento. Sempre amparada pelo homem mais novo, que Cristine comparou a um verdadeiro Adonis pelo porte físico e beleza, a loira foi mantida à distância e impedida de extrapolar na demonstração de desconsolo e afeto pelo finado.

Cristine observou ainda quando uma outra figura digna de ser comparada a uma divindade aproximou-se do esquife e respeitosamente depositou uma flor logo abaixo das mãos cruzadas do Sr. Artur. Numa oração silenciosa contemplou o falecido e deixou cair uma lágrima perceptível somente após passar pela barreira da lente escura dos óculos que impediam que se visse o seu olhar. Fora isso nenhum músculo de seu rosto se moveu, demonstrando autocontrole e discrição. Era uma mulher muito alta, cabelos escuros que pendiam soltos cortados em camadas até a altura dos ombros. A pele era morena, mas parecia mais clara no contraste com a roupa negra.

Nesta feita Cristine, já um pouco mais tranqüila, passou a observar o seu redor. Não havia muitas pessoas ali, talvez umas vinte. Seu tio parecia não ser muito popular, mesmo considerando-se morar numa cidade pequena.

Após ser depositada a tampa do ataúde os cravos foram parafusados, um a um, num silêncio sepulcral quebrado apenas pelo soluçar da loira. O crucifixo de metal incrustado na tampa do esquife reluzia à chama tremulante das quatro velas que circundavam o morto. Cristine logo reparou nas velas, estranhando o fato, uma vez que nos funerais contemporâneos costumava-se utilizar luminárias artificiais. As velas, com seu tremular tristonho, conferiam uma atmosfera antiga e mais solene à cerimônia e ao local.

Vagarosamente o cortejo fúnebre partiu em direção à sepultura previamente preparada pelo coveiro local. A procissão seguia sob a forte chuva que caía insistente. O pequeno mar de guarda-chuvas negros parecia ondular ao som dos pingos de chuva que ensopavam o cortejo e faziam escorrer pequenos córregos pela madeira envernizada do caixão. Ouviam-se somente as batidas secas dos solados dos calçados de encontro à rigidez das pedras assentadas no caminho principal do cemitério, além do ruído abafado das gotas de chuva que ecoavam no pano dos guarda-chuvas e nas lápides esbranquiçadas de cal.

Enquanto o cortejo ia sem pressa o sino da capela novamente soou naquele cenário cinzento. Batia devagar e compassadamente sua melodia funesta. Seu tinir sorumbático ecoava ao longe e parecia penetrar na mente de Cristine e dizer-lhe sombriamente: adeus.

Tão logo o ataúde desceu ao jazigo, atado por espessas cordas, e a lápide de mármore foi colocada por sobre a abertura, o diminuto cortejo foi se dissipando gradualmente. Cristine não chegou a ser cumprimentada por ninguém, uma vez que não conhecia nenhuma das pessoas presentes. Ficou parada onde estava, um pouco afastada do jazigo, sem fazer menção de sair dali. A mulher morena e alta que depositou uma flor nas mãos de seu tio passou por ela e dirigiu-lhe um olhar escondido sob as lentes escuras. Com um movimento de cabeça cumprimentou-a formal e seriamente, porém não lhe dirigiu a palavra. Com a mesma seriedade Cristine devolveu a mesura.

Ainda amparada por Dr. Mendes permaneceu ali, ao lado da sepultura da família, e pela primeira vez pôde ver onde estava uma parte de seus ancestrais. Aproximou-se e observou a lápide de mármore escuro onde se lia em letras gravadas na própria pedra o nome dos seus avós paternos. Mais abaixo, em letras de metal dourado, o nome de seu tio, Artur Diaz Torres, e a inscrição já desgastada pelo tempo, ainda do tempo de seus avós: descanse em paz. Na parte superior do jazigo se erguia um pedestal que servia de base para os pés de dois anjos esculpidos num mármore mais claro. O primeiro impunha uma trombeta e parecia anunciar aos quatro ventos a entrada triunfal daqueles mortos no reino dos céus. O outro, sentado sobre o pedestal, segurava um crucifixo com uma mão e com a outra, estendida na direção da terra, parecia querer auxiliar os espíritos a deixar a cova sombria e irromper a barreira da vida e da morte. A garoa espessa e contínua fazia com que as pontas das asas dos anjos gotejassem e filetes de água corrente descessem pelas faces das estatuetas, como se estas tivessem vida e derramassem um pranto silencioso sobre a lápide fria. Logo abaixo dos anjos se lia: “O Senhor é meu Pastor, nada me faltará, mesmo que eu ande pelo vale da morte nada temerei, pois o Senhor me conduz pela mão e me leva a descansar”.

Cristine observava em silêncio. Somente ela e Dr. Mendes ainda estavam defronte ao jazigo. Até mesmo o coveiro já havia encerrado sua função naquela manhã chuvosa. Por um instante a atenção de Cristine voltou-se para um ponto atrás da sepultura, onde um arbusto dava a impressão de esconder um vulto nas sombras. Apurando mais a visão pareceu à Cristine avistar um rosto por entre as folhas molhadas, um olhar a observá-la atentamente. Percebendo-se também observado o vulto furtivo esgueirou-se pela vegetação espessa e sumiu do campo de visão da jovem. Cristine empertigou-se, como que tentando definir a veracidade daquela cena. Ficou em dúvida se realmente havia alguém ali ou se tal impressão havia sido fruto de sua imaginação, ainda sob o efeito dos últimos acontecimentos. Seu devaneio foi interrompido pela voz do Dr. Mendes.

- Cristine, vamos para casa? – disse o advogado brandamente.

A jovem assentiu com um movimento de cabeça e rumou em silêncio para o carro que continuava estacionado no mesmo lugar. Henrique estava a postos no volante e apressou-se a abrir a porta para ela. Antes que o carro se pusesse em movimento a jovem disse:

- E agora, Dr. Mendes? – questionou Cristine, rompendo o silêncio.
- Agora precisamos dar andamento nas nossas vidas... Temos providências práticas a tomar.
- Sim, eu sei... Mas como vai ser?
- Cristine, tu ficarás na casa do teu tio, que também é tua, e daqui a uma semana abriremos o testamento do falecido, conforme sua vontade.
- Não sei... Acho que prefiro ficar num hotel... – respondeu Cristine.
- De forma alguma. Seu tio ficaria ofendido se a ouvisse cogitar essa possibilidade.
- Mas eu fico constrangida...
- Constrangida com o que? – quis saber o advogado.
- As pessoas não me conhecem... Fica parecendo que estou aqui por causa da herança do tio Artur... – argumentou Cristine.
- Mas nós sabemos que não é assim. Além do mais não compete aos serviçais julgarem a conduta de seus patrões. E agora a senhorita é a patroa.
- Como assim?
- Bom, a senhorita é a familiar mais próxima de seu tio. Além do James.
- Quem é James? – questionou Cristine.
- É o afilhado do Sr. Artur. Na verdade é filho de uma prima em segundo grau do seu tio que morreu quando ele era pequeno e o Sr. Artur acabou assumindo-o na adolescência, quando tomou conhecimento de sua existência. O pai do rapaz é desconhecido e ele passou dos cinco aos doze anos num orfanato. Quando seu tio soube dele fez questão de terminar de criá-lo. É quase um filho.
- Mas então, por direito, os bens de titio pertencem a ele. Eu não tenho o que fazer aqui. Porque o senhor me trouxe?
- Porque seu tio assim o desejou.
- Como assim? Ele sabia que iria morrer? – questionou Cristine.

Dr. Mendes pigarreou e continuou:

- Não... Não sabia...
- Mas então?... – continuou Cristine.
- Senhorita, com certeza temos muito ainda o que conversar, mas creio que este não é o momento. Vamos para casa, a senhorita se instala, descansa, se alimenta, e posteriormente retomamos esta conversa. – respondeu em tom categórico, ao qual Cristine não se sentiu em condições de contra-argumentar.

 

******

 

O veículo seguiu por uma estradinha de chão batido, transformada pela ação da chuva num lamaçal avermelhado, e não levou mais do que três minutos para entrar no portão principal da propriedade de Artur Diaz Torres. Na verdade o local ficava quase que ao lado do cemitério, sendo que o terreno destinado ao campo-santo havia sido doado pela família Diaz há mais de um século.

Cruzaram um imenso portal de pedras onde pendia uma placa de madeira entalhada em baixo relevo com a seguinte inscrição: Rincão dos Diaz. Quase toda a propriedade era cercada por um muro de pedras brutas, artesanalmente dispostas sem nenhum tipo de cimento, utilizando-se apenas o formato natural de cada uma delas, como se fosse um quebra-cabeça gigante. Formavam um paredão de cerca de dois metros de altura e circundavam o Rincão dos Diaz conferindo-lhe um ar medieval.

Seguiram por uma alameda cujo calçamento irregular, também de pedras arredondadas, fazia trepidar o veículo. A estrada era ladeada por pinheiros plantados simetricamente em quase toda sua extensão. As copas das árvores tocavam-se no alto, formando um túnel verde. O caminho era na verdade um aclive tortuoso, cuja tonalidade cinzenta do dia conferia uma atmosfera lúgubre.

A construção principal ficava na encosta de um morro e o carro empreendeu uma subida íngreme até a casa, chamada pelos serviçais e pela população da cidade de “castelo”. Tão logo Cristine desembarcou entendeu o porquê daquela alcunha. A construção parecia realmente um castelo. Havia sido projetada pelo bisavô de Cristine, porém quem de fato a edificara havia sido o pai de seu tio Artur.

Cristine começou a se dar conta que descendia de uma família de excêntricos e chegou a achar graça disto. Recordou-se de uma fantasia sua, de infância, na qual sonhava ser uma princesa e morar num castelo encantado, cujo portão principal era vigiado por um temível dragão de duas cabeças. Imaginava que um valente príncipe montado num cavalo branco mataria o dragão e a pediria em casamento, transformando o castelo imaginário num lar próspero e feliz. Porém sempre despertava e se deprimia ao perceber a realidade das paredes esbranquiçadas dos vários colégios internos nos quais passou. Muito mais tarde, após incontáveis sessões de análise, conseguiu entender a simbologia de seu dragão imaginário, seu castelo encantado e de seu príncipe, que na verdade custou a aceitar que seria uma princesa, uma bela e sedutora princesa num corcel negro.

Cristine foi trazida de volta à realidade quando o carro estancou em frente à porta principal da morada. O castelo era de fato gigantesco, deveria ter inúmeras dependências em seu interior suntuoso. Todo construído com pedras regulares de uma coloração cinza-rosada, tinha duas torres na parte da frente. As aberturas eram em forma de arco e lembravam um pouco as antigas igrejas em estilo renascentista. Vistas de fora as venezianas de madeira maciça escondiam-se atrás das vidraças quadriculadas alojadas em armações de madeira escura. A porta principal abria-se em duas partes e tinha cerca de três metros de altura por quase dois e meio de largura. Era também de espessa madeira maciça, lisa, sem nenhum tipo de trabalho na parte externa, somente com uma aldrava de metal em forma de carranca, de cujo nariz pendia uma pesada argola de ferro que servia para bater à porta.

Naquele momento a chuva havia estiado um pouco e somente uma garoa fina insistia em umedecer e acinzentar a paisagem.

Como que adivinhando a chegada deles a porta abriu-se vagarosamente emitindo um rangido de metal ressecado. Cristine arrepiou-se com aquele barulho, porém não saberia dizer o porquê.

Do vão da porta surgiu a figura austera de Morris, em sua habitual postura ereta. Dr. Mendes conduziu Cristine para a entrada e apresentou-a ao mordomo.

- Morris, esta é a senhorita Cristine, a qual aguardávamos.
- Encantado, senhorita – disse Morris seriamente – E meus sinceros pêsames pelo senhor seu tio.
- Obrigada.

Morris deu o lado aos dois para que entrassem na casa. Ainda no saguão, aos pés da escadaria suntuosa Cristine foi apresentada aos demais serviçais da casa. Anemary Frank, a governanta inglesa, de 57 anos, porte elegante e vestimenta engomada cumprimentou-a com uma mesura e um português impecável, ainda que carregado de um sotaque europeu:

- Mademoiselle. Faço minhas as palavras de Morris. E apesar das circunstâncias trágicas lhe desejo boas vindas.
- Obrigada – respondeu Cristine.
- Este é James – falou o advogado dirigindo-se ao jovem que descia as escadas com pressa – o afilhado do Sr. Artur do qual já lhe falei.

James dirigiu-se à Cristine abraçando-a e tentando controlar as lágrimas:

- Muito prazer, prima. Embora eu quisesse imensamente tê-la conhecido numa outra circunstância. – disse enxugando uma lágrima que lhe escorria nas faces.
- Muito prazer, James. E tenha a certeza de que eu também.

Cristine observou que James era um tipo bastante comum, muito magro, estatura mediana, cabelos pretos e cortados bem curtos, nariz adunco, óculos de lentes grossas e aro de acrílico escuro, rosto bastante marcado por cicatrizes, provavelmente de acne ou catapora. Aparentava cerca de trinta anos, sendo que mais tarde Cristine descobriu ter trinta e quatro anos. Parecia estar arrasado com a morte do tio, “também pudera, era um pai para ele”, pensou Cristine.

Assim que James deu um passo para trás o advogado continuou.

- Ainda temos a Regina e o Israel – continuou Dr. Mendes – que são a cozinheira e o nosso jardineiro, além de Adelaide, a arrumadeira e copeira, e Thomaz, nosso encarregado de serviços gerais. Adelaide está de folga hoje e Thomaz deve estar em seus aposentos. Regina deve ter ido providenciar algo para comermos e Israel com certeza recolheu-se em sua casa, nos fundos desta propriedade. Deve estar muito abalado com o falecimento do Sr. Artur, afinal, mais do que um empregado Israel era um amigo do seu tio. Eles se criaram praticamente juntos. O pai de Israel trabalhava com o pai do Sr. Artur nesta mesma propriedade e ambos nasceram aqui.
- Imagino como ele deve estar se sentindo... – ponderou Cristine educadamente.
- Bom, ainda vive nesta propriedade o filho de Regina e Israel, o jovem Ariel, um adolescente que estuda na cidade e eventualmente auxilia o pai nas atividades deste. Também está aqui no momento a filha mais velha deles, Angélica, que mora na capital, mas está passando uns dias de férias com os pais. Eu tomei a liberdade de convidá-la para vir aqui hoje, para que a conheça. É uma moça encantadora e pedi que lhe fizesse companhia por estes dias. Sei que deves estar te sentindo afligida por estar aqui, considerando-se esta situação toda, e acredito que Angélica possa ajudá-la a superar este momento desagradável. Ela é jovem como a senhorita, com certeza lhe será uma companhia agradável, com assuntos condizentes com a sua realidade e juventude.
- Dr. Mendes, por favor, não fale como se fosse um ancião... – riu-se discretamente Cristine.
- Por certo ainda não o sou... Mas quase. – emendou brincando – Mas afirmo-lhe que Angélica lhe será uma companhia melhor do que os demais. Ela, gentilmente, se dispôs a lhe mostrar a propriedade e ficar à sua disposição por estes dias.
- Eu também posso fazer companhia à Cristine, isso me daria muito prazer e me ajudaria a superar a dor que estou sentindo. – interveio James.
- Obrigada, James. – disse Cristine.
- Muito gentil de sua parte James – disse Dr. Mendes - Mas com certeza as moças devem querer conversar sobre assuntos tipicamente femininos, o que foge de sua alçada, meu caro.
- Mas mesmo assim, Cristine, pode contar comigo para o que precisar. – reafirmou James.
- Novamente agradeço. – disse Cristine - Só não quero incomodar, nem impor minha presença para ninguém.
- Não é incômodo algum, - continuou James – É um prazer.
- Tudo bem, então. – concordou tímida.

Com certeza Dr. Mendes e James estavam bem intencionados e desejavam que sua estadia naquele castelo fosse o mais agradável possível, embora em seu íntimo preferisse ficar sozinha mesmo. Mas não quis ser desagradável com o advogado, nem com James, mostrando-se pouco sociável ou ermitã. Há seu tempo daria um jeito de dispensar educadamente o primo James e a amiga arranjada para ela, ou não... Quem sabe.

- Senhorita, por favor, queira me acompanhar – disse a governanta – lhe mostrarei os seus aposentos. A senhorita poderá tomar um banho e tão logo o almoço esteja pronto eu lhe chamo.

James fez menção de pegar a pequena mala de Cristine que estava no chão ao lado do Dr. Mendes, porém Morris antecipou-se a ele, dizendo:

- Pode deixar, senhor, eu levo.

Cristine foi conduzida pela escadaria que levava ao segundo pavimento do prédio. Tudo ali lhe fazia lembrar um castelo medieval, a decoração dos ambientes, as luminárias dos corredores, as portas de madeira maciça e o pé direito altíssimo da construção. O ambiente todo era sombrio, com poucas luzes artificiais acesas. As paredes de pedra, com uma atmosfera mais úmida e sombria devido ao tempo nublado, chegavam a ter um ar fantasmagórico. Cristine percebeu que o longo corredor abrigava inúmeras portas cerradas. Uma delas por certo deveria ser o quarto de seu tio, agora relegado a ser provavelmente um cômodo abandonado.

O amplo corredor fazia uma curva à esquerda e outros tantos aposentos com aberturas lacradas por escurecidas madeiras de lei pareciam querer intimidar os transeuntes.

Cristine não pôde deixar de notar a figura que se movimentava à sua frente. Anemary Frank era uma mulher alta, com os cabelos grisalhos presos num coque no alto da cabeça, onde nenhum fio de cabelo aparentava estar fora do lugar. Seus passos eram firmes e curtos, ecoando ritmicamente pelos corredores devido ao salto pontiagudo do calçado. A vestimenta negra demonstrava o luto pela perda do patrão, embora parecesse à Cristine que aquela mulher jamais usasse outra cor de roupas, que não fossem as escuras.

Anemary estancou defronte a uma das portas descerrando-a com facilidade. A porta deslizou para a direita suavemente, sem emitir o menor rangido, dando a conhecer um espaçoso quarto que em nada condizia com a austeridade dos corredores. Apesar das paredes de pedra o quarto tinha um ar jovial. Móveis de cerejeira, cuidadosamente polidos e sem o menor resquício de qualquer partícula de pó, estavam dispostos harmoniosamente. A cama imensa, com um colchão de molas confortável, tinha uma armação de madeira clara que sustentava um vaporoso mosquiteiro de tule branco. Cristine parecia estar defronte à cama de uma rainha francesa. O edredom de seda alaranjado exibia a borda de um lençol imaculadamente branco, com um bordado à mão de flores e borboletas em um fio dourado. Uma das paredes era coberta de fora a fora com uma cortina de seda, também alaranjada, que ia do teto ao chão e parecia quebrar a austeridade das paredes de pedra. Um móvel no canto do aposento sustentava um aparelho de TV de 29 polegadas, um decodificador de antena parabólica e um DVD, alem de um aparelho de som. Uma confortável poltrona estofada, estilo Luís XV, estava estrategicamente posicionada de frente para a televisão. O roupeiro era amplo e estava totalmente vazio, permitindo à Cristine acondicionar seus pertences com muita comodidade. Em ambos os lados da cama havia criados-mudos com uma luminária em cada um. O quarto tinha o necessário para que ela se instalasse confortavelmente.

O que mais havia chamado a atenção de Cristine naquele lugar era a temperatura agradavelmente aquecida. Percebeu que um sistema de calefação mantinha a temperatura do quarto entre 20° e 24°C, uma maravilha se comparada à temperatura do lado de fora do castelo e dos corredores deste.

À esquerda da suíte havia uma porta que levava ao quarto de banho e Cristine observou que na parede oposta à cama havia outra porta, provavelmente levando para uma sacada.

Anemary a deixou sozinha, pedindo licença para se retirar.

Cristine desfez rapidamente sua mala e entrou no banheiro, disposta a tomar uma ducha reconfortante. O que a admirou naquele toalete foi o fato de ter uma grande banheira esmaltada, daquelas antigas, porém adaptada para hidromassagem e com um cardal que a mantinha aquecida ao gosto do usuário. Não se fez de rogada, afinal o que mais precisava naquele momento era relaxar um pouco. Ligou a água e esperou que a banheira ficasse quase transbordando para mergulhar naquela água quente e borbulhante. Relaxou a ponto de quase adormecer dentro d’água. Fechou os olhos e desejou estar de volta ao seu apartamento no Leblon e ao seu escritório no centro da cidade maravilhosa. Depois de cerca de meia hora de molho, secou-se e vestiu-se com uma de calça de lã escura. Colocou uma segunda-pele por baixo de uma camiseta de algodão e arrematou o conjunto com um suéter de lã verde-musgo. As meias de lã que comprara por insistência de sua sócia, Cynthia, agora estavam lhe servindo em muito. Ainda pegou um agasalho estofadinho que usara uma única vez em uma viagem a Buenos Aires. Sentia-se agora preparada para enfrentar o rigor do frio.

Quando já eram quase duas horas da tarde Anemary bateu à porta avisando que o almoço estava servido. Aguardou Cristine e a conduziu até a sala das refeições.

A imensa mesa estava posta e James já estava instalado à direita da cabeceira, cuja cadeira de espaldar alto se encontrava vazia. Dr. Mendes aguardava Cristine aos pés da escadaria e acompanhou-a até a mesa. Morris indicou-lhe um lugar puxando a cadeira para que se sentasse. Logo em seguida Dr. Mendes acomodou-se a seu lado. O clima era de consternação frente ao lugar vazio na cabeceira da mesa. Em silêncio Morris serviu o almoço. James mal tocou na comida, assim como ela e Dr. Mendes. Cristine continuava com uma sensação de angústia, que lhe impedia de conseguir comer. Forçou algumas garfadas, ciente de que precisava alimentar-se para não piorar a situação.

Logo após o almoço Dr. Mendes sugeriu à Cristine que fosse repousar um pouco.

- Senhorita, seria bom se descansasse por um tempo.
- Acho que realmente estou precisando me recostar um pouco. – respondeu Cristine.
- Eu preciso resolver algumas questões no escritório agora à tarde.
- Mas o senhor vai voltar depois e ficar aqui hoje, não vai? – questionou Cristine deixando transparecer um tom de súplica na voz – É que gostaria de conversar um pouco mais sobre meu tio... – continuou tentando justificar-se.

Na verdade Cristine sentia-se bem ao lado do Dr. Mendes, embora o conhecesse somente há algumas horas. Ele lhe passava um sentimento genuíno de confiança e segurança.

- Venho sim, pode ficar tranqüila. – anuiu o advogado, para o alívio da jovem.

Cristine agradeceu e dirigiu-se ao seu quarto. Tirou as botas de cano curto e deitou-se na cama, sobre o edredom. Adormeceu quase que instantaneamente. Teve um sono agitado, povoado por imagens difusas e acinzentadas. Um trovão mais alto, que ecoou por entre as paredes de pedra, despertou-a de sobressalto. Sentou-se na cama custando um pouco a se conectar com a realidade e entender onde estava. Gradualmente os acontecimentos das últimas horas voltaram à sua memória. Suspirou profundamente.

A chuva continuava incessante e as espessas gotas eram jogadas violentamente contra a vidraça. A veneziana estava aberta e Cristine foi até a janela. A única coisa que conseguia visualizar eram os filetes de água que escorriam externamente de encontro aos vidros, formando arabescos tremulantes e úmidos. Aproximou o rosto da vidraça e com a palma da mão limpou o vidro embaçado, livrando-o da camada interna de gotas microscópicas que turvavam a visão, na tentativa de observar a paisagem da rua. Conseguiu distinguir somente uma neblina densa que limitava a visibilidade a alguns poucos metros da casa. Um caminho pavimentado com pedras irregulares circundava o castelo e bifurcava-se de quando em quando estendendo as pequenas vielas na direção dos arredores da propriedade. Cristine não conseguia ver para onde aqueles caminhos conduziam.

Os trovões ecoavam estridentes e faziam com que a jovem se encolhesse a cada som mais alto, cuja vibração fazia trepidar os vidros da janela. Instintivamente Cristine apertava os braços cruzados à frente do corpo. Resolveu descer e procurar alguma viva alma naquele imenso e lúgubre castelo.

Calçou novamente suas botas que possuíam um revestimento de lã de ovelhas e cruzou os corredores sombrios rumo à escadaria principal. Desceu os degraus ouvindo o ruído dos trovões e da chuva torrencial que abafavam o som dos próprios passos. Percebeu que o hall de entrada assim como a sala estavam vazios. Uma sensação de desconforto a invadiu.

Na tentativa de localizar alguém rumou por uma porta que dava para os fundos da casa. Um corredor mais curto levava à cozinha, a qual Cristine localizou pelo odor agradável de café recém passado. Ao cruzar o portal de acesso àquela peça deparou-se com uma cozinha ampla e clara, com as luzes fluorescentes ligadas e um bule fumegante repousando num canto de um fogão à lenha. A luminosidade e a energia daquele local destoavam do resto do castelo. De costas para a porta, remexendo uma panela de ferro, Cristine viu uma figura de baixa estatura e cabelos grisalhos presos debaixo de uma touca de tecido xadrez esverdeado. Como que percebendo sua entrada a mulher mais velha virou-se e sorriu-lhe amorosamente:

- Boa tarde. A senhorita deve ser a sobrinha do Sr. Artur... Eu sou Regina, a cozinheira.
- Boa tarde, Regina. E muito prazer. – respondeu Cristine.
- Igualmente. E queira aceitar meus sentimentos pela perda de seu tio.
- Obrigada.
- Com certeza foi uma grande perda... – disse a cozinheira – Meu marido está inconsolável. Eles eram mais que patrão e empregado, eram amigos...
- Eu lamento.

Regina sorriu tristemente, mas logo tratou de alegrar sua expressão e perguntar amistosamente:

- Está com fome? Quer alguma coisa? Morris me falou que a senhorita mal tocou na comida.

Cristine percebeu-se com um pouco de fome.

- Não quero dar trabalho – respondeu a jovem.
- Não é trabalho algum, senhorita.
- É... Regina... Posso lhe pedir uma coisa?
- Claro.
- Não me chame de senhorita. Acho tão formal... Prefiro que me chame pelo nome, Cristine.
- Pois não, senhori... digo, Cristine.

A cozinheira indicou-lhe uma cadeira junto à mesa de tampo de madeira envernizada.

- Senta aqui, então. Vou te servir um lanchinho. – disse sorridente.

Enfim Cristine sentia-se próxima a alguém naquele lugar sombrio. Havia simpatizado com Regina assim que a viu. E esta também sentira a mesma coisa a seu respeito. A cozinheira tinha uma energia boa, um astral luminoso apesar das circunstâncias.

Antes que Regina terminasse de servir Cristine a porta que dava acesso à rua abriu-se e uma figura esguia praticamente saltou para dentro, espanando-se a fim de tirar a água de cima de sua capa plástica. Regina disse:

- Minha filha! Tu estas igual a um pinto molhado! Tira essa capa e deixa ali no canto.
- Oi mãe! – disse dirigindo-se à Regina, sapecando-lhe um beijo nas faces, e logo em seguida à Cristine
– Olá!
- Olá. – respondeu Cristine.
- Esta é minha filha, Angélica. – apresentou Regina – Ela está passando as férias aqui conosco.
- Dr. Mendes já havia me falado nela. – disse Cristine educadamente.
- Muito prazer, Cristine. – disse Angélica estendendo-lhe a mão num cumprimento formal.
- Igualmente.

Angélica tinha um aperto de mão firme e Cristine sentiu o olhar desta fixo no seu. Pareceu-lhe momentaneamente ser aquele um cumprimento por segundos mais longo do que necessitaria ter sido. Manteve o olhar fixo em Angélica e esta disse soltando sua mão:

- Eu lamento pelo seu tio...
- Obrigada – respondeu Cristine.
- Eu gostava muito dele, muito mesmo... – disse Angélica deixando transparecer consternação na voz.
- Eu imagino...
- Dr. Mendes me pediu que te fizesse companhia e cá estou. – disse Angélica sorrindo afetivamente para Cristine.
- Olha... Eu não quero dar trabalho...
- Tudo bem... Eu tô de férias mesmo. E não será trabalho algum te fazer companhia – disse Angélica novamente olhando Cristine diretamente nos olhos.

Sem querer Cristine enrubesceu e desviou o olhar.

Angélica sentou-se à mesa, de frente para Cristine e serviu-se de uma xícara de café quente. Precisava tomar algo que lhe esquentasse por dentro. Envolveu a caneca fumegante com as mãos no intuito de aquecê-las. Estava com os nós dos dedos descoloridos pela pouca circulação sangüínea devido ao frio.

Discretamente Cristine passou a observá-la. Deu-se conta de haver sido ela quem lhe cumprimentara discretamente logo após o enterro de seu tio naquela manhã. Continuou seu exame minucioso. Angélica era uma mulher bastante alta, cujos cabelos escuros, cortados em camadas caíam-lhe displicentemente sobre os ombros escapando pelas bordas de sua touca de lã negra. Os olhos, de um azul incrivelmente vivo, contrastavam com a tonalidade escura dos cílios longos. A boca com dentes imaculadamente brancos era afilada e um sorriso de revés fazia com que aparecessem os esboços do que seriam pequenas covinhas nas faces. O rosto, apesar de anguloso, ostentava feições bastante delicadas. A pele de uma tonalidade moreno-clara era aveludada e aparentava maciez ao toque.

Por instantes Cristine teve o ímpeto de tocar naquelas mãos que seguravam avidamente a caneca de café quente. Como que temendo que lessem seus pensamentos tratou de desviá-los para outro enfoque.

- Chove sempre assim nesta época do ano? – perguntou Cristine.
- Geralmente não tanto. Nosso inverno é sempre muito frio, já chegou inclusive a nevar a alguns anos atrás, mas fazia tempo que não chovia tanto! – respondeu Regina.
- E o frio também está se superando este ano, não é mesmo mãe? – emendou Angélica.
- Ô se está! – disse Regina – Mas neve não caiu.
- E espero que não caia! – retrucou Angélica – Quero mais é que o verão chegue logo!
- Eu confesso que estou bastante preocupada. Acho que não sobreviverei uma semana por aqui. – disse Cristine em tom de desalento.
- Sobrevive sim. A gente se acostuma. – disse Angélica.
- Espero... – retrucou Cristine.
- É uma lástima que tenhas vindo para cá numa situação como esta... – falou Angélica – Afinal esta é uma bela cidadezinha para se descansar.
- Pois é... – anuiu Cristine.
- Mas caso a chuva dê uma trégua podemos andar por aí amanhã. – continuou Angélica – Te mostro a propriedade e os arredores do castelo.

Cristine riu e comentou:

- É muito engraçada a naturalidade com que vocês se referem a esta casa como “castelo”...
- Mas é isso que ela é. – riu-se Angélica – Ou tu tens um nome mais apropriado?
- Acho que não. – respondeu Cristine pensativa.
- Esquisitices do padrinho... – disse Angélica.

Regina fuzilou-a com o olhar e tentou remendar:

- Na verdade o Sr. Artur era um excêntrico...
- Esquisito, mãe! Mas eu o adorava e tu sabes bem o quanto. E não quero precisar de meias palavras para falar dele só porque ele morreu...
- Por favor, Angélica... – disse a mulher mais velha.

Cristine tentou amenizar o clima de desconforto e disse:

- Ele parecia ser de fato bastante... diferente.
- Na melhor das hipóteses, Cristine. – respondeu Angélica – Mas era uma pessoa pela qual eu nutria um especial afeto. E a minha mãe sabe disso. E era recíproco. Eu era afilhada dele, de batismo, e sempre tivemos muito em comum. Mas eu o respeitava nas esquisitices e ele me respeitava no meu jeito de ser.
- Bom, vocês querem que eu faça uns bolinhos de chuva? – perguntou Regina tentando desviar o rumo da conversa.
- Acho ótima idéia! – respondeu Cristine.
- Eu idem – disse Angélica.
- Então vou por mãos à obra. Angélica, pega a farinha pra mim, na prateleira de cima. E tu, Cristine, me alcança dois ovos ali do balcão. – disse Regina tratando de pegar uma bacia ovalada para fazer a massa.

Cristine pegou os ovos e ao se virar pôde constatar as curvas arredondadas do corpo de Angélica que se esticava para alcançar na prateleira superior. Por certo Regina jamais alcançaria ali sem o auxílio de um banquinho, assim como ela própria. Mas para Angélica era uma tarefa bastante fácil. A morena tinha o corpo muito bem definido, pelo que podia perceber por sob a calça jeans apertada e a blusa de lã colada ao corpo. Calçava botas de couro de cano alto e tonalidade marrom escura. Movia-se com a elegância de uma leoa. Novamente Cristine tratou de desviar os pensamentos, dirigindo sua atenção aos ovos que estendia cuidadosamente para Regina.

A mulher mais velha preparou a massa enquanto colocava uma pequena panela de ferro com óleo para aquecer. Cristine notou que Angélica em quase nada se parecia com sua mãe. Excetuando-se os olhos que tinham a mesma tonalidade e o sorriso que evidenciava covinhas na face, em mais nada se pareciam. Isso, porém, sem levar em conta a simpatia. Tanto Angélica quanto Regina pareciam ser pessoas de fácil convívio, espontâneas e encantadoras.

Antes de Regina servir os bolinhos, enquanto ainda os passava numa mistura de açúcar com canela, a porta dos fundos novamente se abriu dando passagem para um senhor de meia idade, ao qual Cristine não precisaria ser apresentada, visto logo saber de quem se tratava: Israel, o pai de Angélica. A filha era a cópia xérox numa versão feminina do pai. O mesmo porte avantajado, o mesmo tom de pele e de cabelos, as mesmas feições, enfim, um caso que dispensava qualquer teste laboratorial de paternidade, bastava apenas uma olhadela e pronto. O homem caminhava lentamente e cabisbaixo. Ostentava uma expressão de desconsolo e tinha os olhos avermelhados como se houvesse chorado ainda há pouco. Ao ver Cristine dirigiu-se para ela estendendo-lhe a mão.

- Pai, esta é Cristine, a sobrinha do padrinho... – disse Angélica.

O velho senhor nada conseguiu dizer. Apenas apertou a mão de Cristine para logo em seguida secar algumas lágrimas que lhe brotaram dos olhos.

- Desculpe, senhorita... – disse Israel – Mas não consigo me conformar...
- Eu imagino... Soube que vocês eram muito amigos... – respondeu Cristine.
- Pois é... Eu perdi um irmão.
- Eu lamento. – disse Cristine.
- Vem aqui meu velho – disse Regina carinhosamente – Vou te servir um café.
- Eu não quero. – respondeu o velho.
- Pai... O senhor tem que comer alguma coisa... Por favor... – pediu Angélica.
- Me dá um cafezinho preto então... – anuiu Israel.
- Toma aqui, come um bolinho também – pediu Regina – Só um...

O jardineiro pegou um dos bolinhos a contragosto e pôs-se a comê-lo vagarosamente, com o olhar perdido na direção da parede.

- O velho Israel aqui é um exímio conhecedor de botânica, sabia Cristine? – disse Angélica, referindo-se às habilidades de seu pai.
- Não exagera Angélica... – respondeu o velho tentando esboçar um sorriso.
- Mas é verdade! – continuou a morena – Se quiseres saber qualquer coisa sobre qualquer planta desta região é só perguntar pra ele.
- Essa menina aumenta as coisas... – disse Israel.
- Não aumento nada. O senhor é que é modesto.
- É verdade – emendou Regina – o Israel é conhecedor de todas as plantas daqui das redondezas. E o jardim da propriedade é lindo! Quando parar de chover terás a oportunidade de vê-lo.
- Com certeza. – respondeu Cristine.

Israel sorriu tristemente e depois de sorver sua taça de café pediu licença e saiu na direção dos fundos, pegando uma sacola com algumas ferramentas de jardim que estava atrás da porta e dizendo que retornaria para casa.

Tão logo o velho saiu Regina suspirou tristemente.

- Eu não posso ver o Israel assim... Me corta o coração. Nem quando ele perdeu o pai ficou tão abalado.
- Mas mãe, o vovô estava doente há muito tempo... e o papai sabia que ele morreria dentro em breve. Só que no caso do padrinho foi diferente...
- Eu sei, minha filha... Mas me dói...
- Mãe, ele precisa de tempo... Só isso. A gente supera tudo na vida. Só precisa dar tempo ao tempo.

Novamente Regina suspirou. Cristine ficou observando como Angélica era ponderada. Aparentava ser uma pessoa muito carinhosa, porém prática e decidida frente aos contratempos da vida. Deixava transparecer firmeza e segurança, exatamente os sentimentos que Cristine precisava para se manter naquele momento. Decididamente a idéia do Dr. Mendes em pedir que a morena lhe fizesse companhia havia sido providencial. Percebeu-se com vontade de ficar perto de Angélica, até mesmo porque estava gostando muito de observar os trejeitos daquela bela mulher.

Neste momento James entrou nas dependências da cozinha e cumprimentou as três mulheres. Cristine percebeu o tom de frieza com o qual se dirigiu à Angélica, para logo em seguida sorrir amavelmente para ela própria.

- Como está, prima? – perguntou James – Conseguiu descansar um pouco?
- Consegui sim.
- Que bom. Mas... – continuou dirigindo-se formalmente à Regina - ...porque não foi servido o lanche da senhorita Cristine na sala de jantar? A cozinha não me parece ser o lugar mais adequado para recepcionar um hóspede da casa.

Regina não respondeu. Limitou-se a baixar os olhos. Angélica saltou em defesa da mãe:

- Pelo que me conste ela não é hóspede. É a dona desta casa! Ou estou enganada? Logo, ela come aonde quiser. – disse a morena desafiadoramente.

James ficou rubro, deixando transparecer irritação. Cristine tentou apaziguar os ânimos:

- James, fui eu que pedi para ficar aqui. Eu não me importo, muito pelo contrário. Aqui está quentinho por causa do fogão... o hall e a sala de jantar estão muito frios.
- É a maldita calefação! – respondeu James – Precisamos consertá-la o quanto antes. O padrinho estava providenciando isso...

Fez-se um silêncio. James continuou:

- Angélica, se quiser voltar para casa ficarei com Cristine. Obrigada por ter vindo.
- Mas eu não pretendo ir. Vim para fazer companhia pra ela e vou fazer. A não ser que ela me peça para ir. – respondeu Angélica em tom baixo e categórico.

Novamente James enrubesceu de fúria. Cristine interveio:

- Olha só, eu agradeço a atenção dos dois. É muito gentil da parte de vocês, muito obrigada mesmo. Mas não quero causar nenhum constrangimento, por favor.

Conscientizando-se da situação a que Cristine estava sendo exposta Angélica abrandou o tom de voz:

- Desculpe... Eu não quis constrangê-la – disse levantando-se da mesa.
- Nem eu. – emendou James – Desculpe-me.
- Tudo bem... – respondeu Cristine.

Angélica continuou:

- Bem, eu vou fazer o seguinte: vou até a biblioteca e deixo vocês à vontade para conversarem. Cristine, se precisar de mim estou na segunda porta à esquerda, depois da escadaria. Com licença.


- Não. – disse Cristine instintivamente, ao que Angélica estancou.

Fez-se um instante de constrangimento entre eles.

Regina deixou o avental no encosto de uma das cadeiras e disse que iria até a despensa, saindo do recinto.

Angélica encarou Cristine nos olhos.

James disse:



- Bem, neste caso, sou eu que vou deixá-las à vontade. Desculpe novamente Cristine, eu só quis ajudar.

- Eu sei James, e agradeço. Mas preciso ver umas questões com Angélica... – desculpou-se.


- Tudo bem... Se precisar de qualquer coisa estou no meu quarto. Com licença. – disse James e saiu da cozinha.



Depois que o rapaz saiu Angélica, colocando as mãos na cintura, disse:

- Putz, desculpa, foi mal. Mas é que esse cara me dá nos nervos!

- Tudo bem, só que comigo ele foi muito receptivo e amável...
- Mas não te ilude. Isso aí é um adulador barato! – desabafou Angélica, para logo em seguida abrandar a voz – Olha, eu sei que não deves ter entendido nada, mas eu te explico, ok?


- Por favor. – anuiu Cristine.
- É que desde que James veio para cá nós sempre tivemos uma relação digamos que... conflituosa. Ele sempre teve ciúmes do padrinho, queria atenção exclusiva. Tudo bem, eu entendo que ele tem uma história de vida e de infância muito triste, mas não justifica as atitudes dele... Pelo menos hoje. O padrinho sempre foi muito ligado a mim e James passou a competir comigo cada centímetro de espaço afetivo junto ao tio. E aí se originaram todos os nossos conflitos. Coisas de infância...


- Entendo. – disse Cristine.


- Mas... – continuou Angélica em tom maroto - qual é a questão que tu precisas ver comigo mesmo?



Cristine novamente ruborizou-se, divertindo Angélica com seu desconcerto.

- Beeem... ééé... livros. Você falou em biblioteca e eu fiquei curiosa. Tenho certa predileção por livros. É isso.


- Ah, bom. – respondeu Angélica mantendo firme o olhar em Cristine.


- Além do quê eu não pretendia ficar no meio do arranca-rabo de vocês...



Angélica foi obrigada a sorrir lembrando-se da saia justa de Cristine. Novamente tratou de desculpar-se:



- Me desculpa de novo, ok? Não vai mais acontecer.


- Tudo bem. – respondeu Cristine.


- Bom, mas então quem sabe a gente vai até a biblioteca. – sugeriu Angélica.


- Ótima idéia. – concordou Cristine.

 

**********

 

Angélica conduziu Cristine pela escadaria e pelo álgido corredor de acesso ao segundo piso do castelo e parou defronte a uma das imponentes portas de madeira, escura e maciça, que ocultava um universo até então desconhecido para Cristine. Angélica empurrou a porta e o que se descortinou foi um ambiente escuro onde reinava o mais absoluto silêncio e em cujo ar pairava um odor morno de papéis envelhecidos e de bolor. Cristine estancou na porta, temendo adentrar na escuridão do aposento e esbarrar em algum móvel ou objeto. Angélica moveu-se tranqüilamente na escuridão, familiarizada com o ambiente. Dirigiu-se para a parede à esquerda da porta de acesso e levou sua mão diretamente ao interruptor acendendo as fracas luzes de um grande candelabro que pendia no centro do teto. Assim que o espaço foi iluminado, ainda que parcamente, Cristine pôde ver a dimensão daquela biblioteca. Tratava-se de um salão imenso, cuja extensão deveria exceder cento e sessenta metros quadrados. Como as demais peças daquele castelo o pé direito era bastante alto e a parede lateral direita ostentava prateleiras de livros que iam do chão ao teto. Da mesma forma havia mais três fileiras de prateleiras de livros que cruzavam o recinto longitudinalmente, porém deveriam medir, no máximo, dois metros de altura cada uma. Em toda a extensão da parede do lado esquerdo da biblioteca havia armários envidraçados ostentando a coleção de moedas e de armas pertencentes ao excêntrico Artur. Mais próximo à porta havia uma infinidade de moedas antigas dispostas metodicamente e catalogadas conforme o ano de cunhagem. Ao longo da prateleira envidraçada encontravam-se vários tipos de armas, desde rifles antigos, espingardas de caça, revólveres, pistolas, até arcos e flechas, punhais, espadas e adagas. Todas as peças pareciam em ótimo estado de conservação, com os metais reluzindo à claridade do candelabro. Bem no final do imenso salão havia uma janela cujos vidros encontravam-se escondidos por um espesso acortinado de veludo negro. Cristine teve a impressão de que aquela janela jamais devesse ter sido aberta, pois tudo no ambiente cheirava a confinamento. Defronte à cascata ondulada do tecido cor de ébano havia uma mesa de tampo de madeira, muito comprida, com os pés torneados, ladeada por quatro cadeiras de espaldar alto, e estofado aveludado, do mesmo tecido das cortinas. Angélica continuou sua caminhada pelo aposento e passou a acionar interruptores dispostos ao longo das prateleiras e que acendiam lâmpadas fluorescentes dispostas simetricamente entre uma estante e outra.

Como que por encanto a atmosfera sombria foi substituída por uma luminosidade que chegava a ofuscar a visão ambientada à penumbra inicial. Desta feita Cristine passou a se deslocar pelo salão e a ter uma imagem mais fiel do ambiente que a cercava.

Foi até o fundo, sendo acompanhada em silêncio por Angélica. Estancou ao lado da enorme mesa e reparou nas esculturas que a rodeavam. Em ambos os lados da mesa, parecendo incrustadas em pedestais de mármore, estátuas de bronze em tamanho natural de caçadores exibindo a caça abatida pareciam ter vida própria. Um deles segurava uma lebre pelas orelhas e Cristine sentiu repulsa pela imagem pensando em como alguém poderia ter coragem de matar um animalzinho tão indefeso. Na outra o caçador repousava seu pé sobre uma onça prostrada, enquanto que com as mãos impunha o rifle que vitimara o animal. Da mesma forma Cristine sentiu-se angustiada frente àquela representação, mesmo sabedora de tratar-se apenas de uma obra de arte. Como que adivinhando os pensamentos de Cristine, Angélica quebrou o silêncio:

- Eu também não gosto delas. – disse absorta.


- Pois é... – respondeu Cristine - ...por mais que argumentem eu não consigo ver a caça como esporte. Para mim é só uma matança cruel.


- Eu também acho.



Fez-se um silêncio até que Cristine perguntou:



- O tio Artur caçava?



Angélica sorriu:



- Ironicamente, não. O padrinho era um... pode-se dizer pacifista. Era incapaz de ferir alguém, ou algum animal.


- Mas então... porque as estátuas? E a coleção de armas? Eu não entendo... – disse Cristine.


- Isso são reminiscências do pai dele e do avô, objetos de família que ele resolveu manter. Eu cresci ouvindo o padrinho falar: “Queres conhecer verdadeiramente um homem? Dê-lhe o poder... e uma arma. O sábio a guardará em lugar seguro, pois sua fortaleza vem de dentro, enquanto que o covarde a ostentará aonde for, para que todos vejam o quanto é poderoso”. E lembro quando ele me pegava no colo e apontava para estas estátuas e dizia: “Estás vendo aquele ali? Tira-lhe o rifle que a onça o devora. E aquele outro? Desarma-o que é capaz de disparar de medo da lebre. O sábio respeita a onça em seu território, e não permite que ela se aproxime a ponto de expor ambos a um risco desnecessário, e aprende com a lebre a agilidade de fugir da onça”. Por muitos anos eu não entendi a mensagem. Hoje entendo.



Cristine ficou encantada em conhecer aquele lado de seu tio. E começou a admira-lo naquele momento. Continuou a observar o seu redor e ver a imensidão de livros existentes ali.



- Deve ter milhares de livros aqui... – conjeturou Cristine.


- Realmente. – concordou Angélica – E a maioria destes foi o padrinho quem adquiriu. Ele costumava freqüentar as livrarias e os sebos atrás do que chamava de raridades. Eu acho que ele leu quase tudo isso aqui.


- Impossível! – disparou Cristine.


- Para o padrinho não. Ele passava a maior parte do tempo aqui. Lia quase que um livro por dia.


- Ele não tinha amigos?


- Poucos. Muito poucos. Ele era um solitário.


- E por quê? – quis saber Cristine.


- Isso eu não sei... – desconversou Angélica – Qual o tema que mais te atrai para leitura?


- Muitos... principalmente arte. Por causa da minha profissão.


- E qual é?

- Arquitetura. – respondeu Cristine.


- Legal.


- E a tua? – questionou a loirinha com curiosidade.



Angélica pareceu titubear por um segundo antes de responder:



- Bibliotecária.



Cristine riu-se:



- Então você se sente em casa aqui!


- Pois é...


- E você trabalha aonde? – continuou Cristine em seu interrogatório.



Novamente Angélica pereceu hesitar antes de responder:



- Numa escola. – disse secamente, desviando o olhar de Cristine e tratando de desconversar – Se quiseres procurar qualquer livro tem um fichário completo aqui.



Angélica apontou para um arquivo bem no canto da sala, perto da janela, meio que ocultado pelo caçador com a lebre.



- Isso que eu chamo de organização! – disse Cristine – Aposto que foi você que organizou.


- Ledo engano – riu-se Angélica – Foi o padrinho. Isso é datado de antes do meu nascimento, se duvidar antes do nascimento de Matusalém!



Ambas sorriram. Cristine passou a admirar a vasta coleção de armas. Enquanto olhava atentamente a coletânea era observada discretamente por Angélica. A morena percebeu o quanto sua interlocutora era atraente. O cabelo loiro e curto aparentando displicência devido ao corte moderno e picotado exalava um olor perfumado e doce. Alguns fios pendiam desordenados sobre a testa de pele alva. O nariz pequeno e arrebitado era emoldurado por feições suaves e por uma boca sensual. Na nuca aparecia uma pequena e discreta tatuagem de uma borboleta alçando vôo. A estatura mediana estava aumentada em cerca de cinco centímetros pelo salto das botas. Mesmo com roupas de inverno Angélica podia perceber as curvas suaves do corpo de Cristine, o volume dos seios pequenos por sob o suéter de lã e a curvatura delicada dos quadris. Respirou fundo e pensou: “Não posso desviar o foco meu objetivo... raio de mulher gostosa!”.

Cristine tagarelou mais uma meia dúzia de perguntas que Angélica respondeu mais no instinto, uma vez que seus pensamentos teimavam em se desviar para as curvas do corpo da loirinha.

Angélica acompanhou o movimento dos olhos de Cristine na prateleira de armas e de repente deixou de ouvir os questionamentos desta última. Sua atenção voltou-se para um dos nichos que se encontrava vazio. Fechou os olhos e tentou visualizar aquele local da última vez que o vira e sua recordação lhe causou um calafrio. Decididamente algo fôra retirado dali, e ela bem sabia o que era. Circunspeta passou a rememorar a data em que estivera ali pela última vez. Havia sido duas semanas antes do falecimento de seu padrinho, com certeza. Restava saber se havia sido ele que tirara o objeto que faltava. E esta informação ela não tinha como obter. Seu semblante assumiu um ar de preocupação. Foi trazida de volta à realidade por um toque suave em seu braço.



- Angélica... aconteceu alguma coisa?


- Não. Nada. Por quê?


- É que eu to falando com você há horas... e você não responde...


- Desculpe. É que me distrai... – respondeu Angélica.


- Pensando no quê? – quis saber Cristine.


- Nada... nada de importante. Bobagens.



Cristine franziu a testa, mas não quis ser invasiva e mudou de assunto:



- Será que o Dr. Mendes vem mesmo hoje?


- Ele te disse que viria?


- Disse.

- Então vem. Ele costuma cumprir o que diz.


- Que bom. Tenho muito o que conversar com ele...


- Imagino... – respondeu Angélica
– Vamos descer então. Quem sabe ele já esteja lá embaixo.


- Vamos.



Angélica fez um gesto para que Cristine tomasse a frente no corredor onde estavam. Seguiu logo atrás dela apagando as luzes e por último desligou o interruptor do candelabro, deixando novamente a biblioteca mergulhada na mais absoluta escuridão.

Desceram as escadarias conversando sobre assuntos banais e dirigiram-se novamente à cozinha, pois estava quase que insuportável permanecer na sala de visitas devido ao frio.

Cristine olhou o relógio de parede que marcava dezessete horas. A chuva continuava intermitente e a escuridão da noite já ensaiava seu pouso sobre aquela parte do continente. As nuvens escuras acabavam por acelerar a incursão do breu e escondiam, numa cortina densa e impenetrável, o brilho das estrelas.

A cozinha estava vazia, e enquanto Angélica servia um cafezinho para ambas ouviram o som de passos aproximando-se cadenciadamente. Era o Dr. Mendes seguido de Morris que vinha segurando a pasta de couro do advogado. Ao vê-las o homem grisalho sorriu-lhes afavelmente.



- Boa tarde, moçinhas.


- Boa tarde. – responderam ambas.


- E então senhorita Cristine, como está se sentindo? Conseguiu repousar um pouco?


- Consegui. Me sinto melhor. E Angélica me fez companhia, mostrou-me a biblioteca.


- É um belíssimo acervo... – conjeturou Dr. Mendes.



Neste momento a governanta entrou na cozinha, dirigindo um cumprimento formal a todos.



- Boa tarde. – disse Anemary – Angélica, por acaso viste a tua mãe?


- Não, eu estava na biblioteca com Cristine. Por quê?


- Preciso falar-lhe acerca da ceia. Senhorita, – disse a governanta dirigindo-se a Cristine – teria alguma preferência para o jantar?


- Não... – titubeou Cristine, desacostumada com tantas mesuras – por favor, não quero causar transtornos... qualquer coisa está bom para mim.


- Anemary gosta de agradar aos hóspedes – disse James adentrando na cozinha – quero dizer, nesse caso, aos patrões – e sorriu cordialmente para Cristine.


- Bom, eu vou chamar a minha mãe. – disse Angélica dirigindo-se para a porta – Eu volto para o jantar. – e piscou para Cristine, desconcertando-a.

 

***********

 

Que mulher era aquela, pensava Cristine, que conseguia deixá-la atrapalhada com um simples olhar ou com uma mera piscadela? É certo que sempre fôra tímida, porém com Angélica estava se superando. Naquele pouco tempo em que conversaram percebeu-se sem jeito em duas ou três ocasiões. Estava começando a ficar preocupada com aquilo. Isso sem falar nos predicados físicos da moça, que a haviam deixado bastante impressionada.

Nesta feita lembrou-se de Mariana. Precisava telefonar para ela, afinal viajara sem ao menos entrar em contato com ela. Tudo bem que não tinham mesmo nenhum compromisso mais sério, porém não custava nada ter certa consideração. Conhecera Mariana num congresso e se encantara com sua beleza. E nem sabia dizer o porquê daquela beldade haver olhado para ela e ter feito uma investida direta. Os olhos castanho-esverdeados a desnudaram no primeiro encontro e elas acabaram num motel no mesmo dia em que se conheceram. Cristine jamais tinha agido daquela forma, porém Mariana despertava seu lado mais instintivo e lascivo. No entanto, a mesma sempre fôra muito direta e objetiva com Cristine, desencorajando-a a alimentar quaisquer expectativas acerca de um relacionamento mais “sério”. E contrariando todos os seus princípios Cristine resolveu “ficar” com sua bela Mariana. Não podia negar que inicialmente tinha a esperança de transformar aqueles encontros em um casamento, porém depois de quase onze meses de caso estava quase que perdendo as esperanças e conformando-se com a situação. Fingia não saber que Mariana por vezes saia com outras companhias. Preferia não pensar para não sofrer, mas no fundo aquela situação a incomodava. Já havia pensado em dar um basta, no entanto ao vislumbrar o encantador sorriso emoldurado por aqueles olhos brilhantes acabava protelando seu intento.

- Cristine, gostarias de tomar um drinque antes do jantar? – perguntou James – E o senhor, Dr. Mendes? - Eu aceito. – respondeu o advogado.
- Eu também. Para espantar o frio.
- Então vamos até o salão de jogos – convidou James.

Novamente deixaram o ambiente agradavelmente aquecido da cozinha para adentrar no frio úmido do hall de entrada. O salão de jogos ficava no térreo, perto da porta de acesso aos fundos do castelo. A calefação estava funcionando bem, para a satisfação de Cristine. Havia uma mesa de bilhar num dos cantos do aposento. No outro, uma mesa redonda coberta por uma toalha de veludo verde-musgo para jogos de cartas e afins e uma mesa de pingue-pongue mais ao centro. Perto da janela, também coberta por um acortinado escuro, um balcão de bar defronte a uma prateleira de bebidas parecia convidar a um drinque. Os copos enfileirados simetricamente pareciam ter sido limpos há poucos minutos.

- O que vai ser? – perguntou James ao Dr. Mendes e à Cristine.
- Eu te acompanho no que fores tomar – respondeu o advogado.
- E tu, Cristine?
- Eu quero um licor.
- Temos um de amoras que é delicioso. Era o preferido do padrinho. – disse James enquanto pegava um cálice para servir Cristine.
- Mas eu tenho certeza que Cristine vai gostar mais deste outro aqui – disse o advogado tirando a garrafa de licor de amoras das mãos de James e substituindo-a por uma garrafa de licor de Amarula.

O advogado serviu o licor e o estendeu à moça. James serviu duas doses de conhaque para eles. Sorveram a bebida em silêncio, cada qual perdido em seus próprios pensamentos. Foi James quem externou seu sentimento:

- Eu custo a acreditar que nunca mais vou sentar aqui com o padrinho... – e encheu os olhos de lágrimas.
- Realmente é uma sensação muito estranha. – concordou Dr. Mendes – Pensar que ontem pela manhã meu amigo estava aqui e agora...

Um silêncio pesado caiu sobre eles. Cristine não sabia o que dizer. Não partilhava da intensidade da dor dos dois homens à sua frente, porém era como se houvesse perdido uma pessoa com a qual estivesse acostumada a conviver.

- Eu não me conformo... – disse James.
- Mas é preciso. – argumentou Dr. Mendes – Não há nada que se possa fazer para mudar o que passou. E Artur está morto.
- Dr. Mendes, meu tio era religioso? – quis saber Cristine.
- Porque a pergunta? – quis saber o advogado.
- Curiosidade...
- Não. Artur era ateu. Pode ter acreditado em Deus um dia, porém depois de um tempo acho que passou a desacreditar.
- E por quê?

O advogado a fitou por instantes, desviou os olhos, tomou mais gole de sua bebida e a deixou sem resposta.

Cristine não conseguia conceber o que poderia fazer alguém desacreditar de Deus. E ela própria era prova disso. Apesar de sua vida nunca haver sido um mar de rosas não conseguia desacreditar de uma força superior capaz de auxiliar nos momentos mais difíceis. Mas enfim, cada um, cada um... pensou.

- Afinal, o que fazes da vida, prima? – perguntou James, com o claro objetivo de mudar o rumo da conversa.
- Eu sou arquiteta.
- Aaah... Eu fiz Administração de Empresas, para trabalhar com o padrinho.
- Que bom...
- Sempre moraste no Rio? - continuou James.
- Não. Morei em muitos lugares, principalmente depois que meus pais morreram. Estou no Rio há cinco anos. Gosto de lá.
- Eu sempre morei aqui no sul. Depois que a minha mãe morreu eu fiquei durante anos num abrigo, em Porto Alegre. O padrinho me localizou através de um parente distante e me trouxe pra cá quando eu tinha 12 anos. Aí fiquei sempre com ele... – novamente um soluço embargou a voz de James.
- Parece que temos histórias parecidas... – disse Cristine.
- Pois é... – respondeu James tristemente.
- Só que com a diferença que eu não tive um “padrinho” que me acolhesse – respondeu Cristine mais para ela mesma do que para seu interlocutor.
- Bom, mas isso são águas passadas – interveio Dr. Mendes quebrando seu estado meditativo – Mas me conta, o que achaste da biblioteca, Cristine?

Passaram a discorrer sobre as coletâneas e as raridades que se encontravam minuciosamente catalogadas na biblioteca. Dr. Mendes contou a Cristine fatos interessantes relacionados a aquisições de alguns volumes garimpados por seu tio. Ao enveredar para este lado a conversa seguiu animada até o momento em que Morris veio bater à porta e avisar que o jantar estava servido. Passava um pouco das dezenove horas.

Novamente dispuseram-se à mesa nos mesmos lugares que haviam ocupado no almoço. Cristine percebeu o lugar de Angélica vazio e antes que pudesse questionar James disparou:

- Angélica como sempre atrasada...
- Ela deve ter tido seus motivos. – argumentou Dr. Mendes.

Regina, que começava a servir o jantar, tossiu discretamente, controlando-se para não responder a James em defesa da filha.

Após breves instantes Angélica irrompeu na sala, desculpando-se pelo atraso:

- Mil perdões, mas é que perdi a hora supervisionando os deveres da escola de certo adolescente em sua fase de rebeldia...
- Quem? – questionou Cristine.
- Ariel, meu irmão. Um rebelde sem causa... Se não der uma caprichada não vai se formar neste ano. E o danado é muito inteligente, mas anda com os hormônios falando muito mais alto que os neurônios. – e riu-se.

Todos tiveram que rir, até mesmo James.

O jantar transcorreu normalmente e no momento em que Regina servia a sobremesa ouviu-se uma batida seca ecoando no hall de entrada. Alguém havia tocado a aldrava de metal.

Morris dirigiu-se à porta da frente para atender quem chegava.

- Quem será? – perguntou James com um tom de curiosidade.
- Não faço a mínima idéia – respondeu Dr. Mendes.

Passados alguns instantes ouviu-se um burburinho de vozes vindas na direção dos presentes. Passadas curtas e rápidas entrecortadas pela voz de Morris que tentava interceptar os visitantes:

- Senhora, por favor, aguarde no hall... senhora... por favor...
- Morris! Eu sou de casa! Pode deixar que eu mesma me anuncio! – disse uma voz feminina e decidida.

Valesca Scolari irrompeu na sala de jantar com a intensidade de uma tempestade tropical. Ainda trajava o mesmo vestido com o qual estivera pela manhã no enterro do Sr. Artur. Logo atrás dela o mesmo deus grego que a acompanhava pela manhã, a qual a loira oxigenada fez questão de apresentar logo de chegada:

- Boa noite! Este é o meu irmão, João Vítor. – disse esbaforida – Dr. Mendes, nós viemos para ficar!
- Como assim? – questionou o advogado levantando-se abruptamente e jogando o guardanapo de linho por sobre a mesa.
- Ora, ora, Dr. Mendes... O senhor bem sabe o quanto Artur e eu éramos íntimos... e por certo ele gostaria que eu estivesse aqui neste momento difícil, para prestar minha solidariedade! E esta bonequinha linda, quem é? – perguntou Valesca dirigindo seu olhar para Cristine.
- É Cristine, minha prima e sobrinha do tio Artur – interpelou James, também levantando-se.
- Muito prazer, Valesca Scolari.
- Prazer. – respondeu Cristine surpresa com a cena que se desenrolava. Definitivamente o dia vinha se superando em surpresas para ela.

Dr. Mendes dirigiu-se aos visitantes e apontou para o corredor, indicando o escritório do falecido Artur.
- Por favor, me acompanhem, precisamos conversar. – disse o advogado denotando irritação na voz e logo em seguida olhou para Cristine complementando – Eu já retorno.

James também os acompanhou. Morris e Anemary seguiram atrás e postaram-se como fiéis cães de guarda do lado de fora da porta do escritório, que se fechou após a passagem de James.

Quando saíram Cristine olhou para Angélica e questionou:

- O que é que está acontecendo?
- Sei lá...
- Mas quem é essa mulher?
- Bom... é uma... amiga do padrinho.
- Amiga?
- É... amiga íntima...
- Aah... entendo. – disse Cristine.

Regina tossiu discretamente, fuzilando a filha com o olhar.

- Olha, quer saber? Essa aí é uma oportunista que dava pro padrinho. Pronto, falei.
- Angélica! Por favor! – repreendeu Regina.
- Mas mãe, é verdade! Essa mulher é uma vagabunda.

Regina balançou a cabeça e retirou-se da sala, enquanto Angélica dava algumas garfadas em sua sobremesa, uma porção de pêssegos em calda com cobertura de creme de leite.

- Ela era amante do tio Artur?
- Era. Mas eu não vejo nada de mais nisso. Ele tinha o que ela queria: dinheiro. Em troca lhe dava o que ele precisava: a sensação de estar vivo.
- Isso parece tão... superficial... – disse Cristine pensativa – sem querer pregar falso moralismo...
- Olha Cristine, cada um procura a felicidade do jeito que pode...
- Mas o tio Artur precisava que fosse assim?...
- Assim como?
- Assim... com essa pessoa que não parece ser muito... digamos, aah... sei lá... não quero julgar sem conhecê-la.
- Cristine, o padrinho era homem. E tu sabe como é. Pro que ele queria a Valesca servia.

Cristine olhou para Angélica com o semblante deixando transparecer decepção frente às suas colocações. Angélica olhou para Cristine e sorriu amenizando sua expressão:

- Olha só... eu não to querendo dizer que eu concordava ou não com o relacionamento deles... Mas esse relacionamento de fato existiu, não se pode negar. E eu já te falei que o padrinho e eu nos entendíamos bem, cada um aceitava o outro com a sua forma de pensar e agir. É isso.
- Eles ficaram juntos muito tempo? Estavam juntos agora?
- Acho que tiveram um caso durante uns cinco ou seis anos. Fazia mais ou menos seis meses que o padrinho rompeu com ela. Acho que cansou. Sei lá. Só sei que ela nunca aceitou o rompimento e seguido vinha até aqui para torrar a paciência do pobre. Acabava ficando uma noite ou outra e levava um dinheirinho pra casa no final das contas. Mas era só.
- E esse irmão dela? Você conhecia?

Angélica riu:

- Irmão? Ta me gozando, né? Se esse cara for irmão da Valesca eu mudo de nome!
- Mas então...
- É óbvio que é “casinho” dela. E não é de agora! Eu conhecia sim. Ele vinha aqui com ela nos últimos tempos.
- Será que é por isso que o tio Artur rompeu com ela?
- Não... com certeza não. Ele nunca se iludiu com a “fidelidade” da Valesca. Acho que realmente saturou da cara dela.

Cristine ficou pensativa. Descobrira mais uma faceta do falecido tio.

- Ta pensando o que? – quis saber a morena.
- No dia de hoje... Nunca imaginei que minha vida pudesse dar uma reviravolta dessas em tão pouco tempo.
- E o que ta achando? – questionou Angélica.
- Confesso que não sei... De ontem para cá eu descobri e perdi meu familiar mais próximo. Me sinto num mundo à parte... conheci pessoas...
- E gostou?... De conhecer essas “pessoas”? – questionou Angélica fixando o olhar em Cristine e sorrindo sedutoramente.

Cristine manteve o olhar, retribuiu o sorriso e respondeu:

- Gostei...

Neste momento Anemary retornou para a sala de jantar:

- Deseja mais alguma coisa, senhorita? – disse dirigindo-se à Cristine.
- Não, obrigada.
- E tu, Angélica?
- Também não, obrigada.
- Então vou pedir que Regina tire a mesa. Com licença. – disse a governanta.

Enquanto isso no escritório a conversa se desenrolava tempestivamente.

- Ora Adroaldo! Quem tu pensa que és para pensar em me expulsar daqui? – dizia Valesca com ambas as mãos na cintura, numa pose desafiadora.
- Eu sou o representante legal do falecido, pelo menos por enquanto.
- Por enquanto??? – ironizou Valesca.
- É. Por enquanto. Tão logo seja aberto o testamento o novo proprietário desta casa passará a administrá-la.
- E quem garante que não seja eu??? – provocou Valesca.

Dr. Mendes respirou fundo e olhou para a loira.

- Valesca, vamos ser civilizados – disse abrandando a voz – tu sabes que não tenho nada contra ti, nunca tive...
- Mas então me deixa ficar Adroaldo... Só até a abertura do testamento. Olha, eu fui despejada, estou com uma mão na frente e outra atrás... Eu tenho certeza que Artur tinha uma estima especial por mim e deve ter me incluído como beneficiária... Se não o fez eu prometo que vou embora sem criar caso.

O advogado respirou fundo, olhou para James que deu de ombros e ponderou:

- Tudo bem, Valesca. Mas só até a abertura do testamento. Isso se Cristine não se importar.
- Tenho certeza que aquele anjo de candura não se importará de me hospedar por uns dias...
- Eu espero não me arrepender por isso... – ponderou o advogado.
- Fica tranqüilo, Adroaldo. Eu não vim para criar caso, no fundo eu sempre amei o Artur...
- Ta... vais querer me convencer disso??? – disse Dr. Mendes dirigindo um olhar inquiridor para o acompanhante de Valesca.
- Eu o amava sim... Do meu jeito. Mas amava. E tu não tens o direito de duvidar. – disse Valesca agora em tom sério.

O advogado a encarou em silêncio.

James disse:
- A senhora pode ficar num dos quartos de hóspedes do térreo, o seu “irmão” no outro.
- Tudo bem. – respondeu Valesca.
- Vou pedir que Morris pegue as malas de vocês. – disse James saindo do recinto e sendo acompanhado por João Vítor.
- Valesca, por favor, procure ser discreta... Respeite a memória do meu amigo. – pediu o advogado num tom de voz brando, deixando transparecer sofrimento.
- Eu já falei: não te preocupes. – respondeu Valesca no mesmo tom.
- Vou pedir pra Regina providenciar algo pra vocês comerem. Ela já deve ter tirado a mesa.
- Obrigada.
- Vem, vou te apresentar pra Cristine.

Valesca seguiu ao lado do advogado e entrou na sala de jantar quando Cristine e Angélica se levantavam da mesa.

- Cristine, gostaria de te apresentar Valesca, uma pessoa... estimada por Artur.

Angélica mal conseguiu disfarçar um sorriso irônico.

- Muito prazer, doçura. – disse Valesca.
- Igualmente – respondeu Cristine.
- Como vai, Angélica? – perguntou Valesca.
- Indo... – respondeu a morena sem deixar transparecer nenhuma emoção.
- Cristine... – continuou o advogado – caso não te importes Valesca poderia ficar hospedada aqui até a abertura do testamento de Artur.
- Por mim, tudo bem. – respondeu Cristine.
- Eu não te falei, Adroaldo? Essa menina não tem somente carinha de anjo, ela É um anjo, uma alma caridosa. – disse Valesca teatralmente.
- Menos, Valesca, menos... – disse Angélica.
- Mas é verdade! – continuou a loira oxigenada – Eu costumo não me enganar com as pessoas. Da mesma forma que sei que entendes bem o relacionamento que tive com Artur, não é mesmo Angélica?

A morena pareceu ter sido pega no contrapé e limitou-se a responder um sim com um gesto de cabeça.

- Bom, com licença então, eu vou até a cozinha ver se Regina consegue algo para comermos. Mesmo triste não perco a fome. – disse Valesca dirigindo-se para a porta lateral.

Dr. Mendes coçou a cabeça e disse:

- Achei melhor não criar caso com Valesca, pelo menos por estes dias. Ela está passando por uma situação difícil, foi despejada, e acredita que Artur a tenha incluído no testamento...
- Sei... – disse Angélica.
- Acredito que ela não vá perturbar – continuou o advogado – E logo depois da abertura do testamento ela irá embora, me prometeu que irá.
- E tu acreditas nisso? – perguntou Angélica.
- Acredito. Por incrível que pareça, eu acredito.
- Por mim tudo bem... – disse Cristine – Ela me pareceu uma pessoa... divertida.
- Ôôô se é... – emendou Angélica.

Dr. Mendes fitou Angélica com um olhar desaprovador frente a seu comentário.

- Desculpa... – disse Angélica – escapou.
- Eu preciso me recolher. – disse Cristine – Estou muito cansada. O dia foi muito estressante para mim.
- Para todos nós. – emendou Dr. Mendes. – Eu também preciso me recostar.
- Nos vemos amanhã então?
- Sim. – respondeu o advogado – Eu vou sair cedo, acredito que ainda estarás dormindo, mas venho almoçar contigo.
- Obrigada.
- Boa noite então – disse o advogado subindo as escadas em direção a um dos quartos no andar superior.
- Eu também vou indo – disse Angélica – Olha só, essa propriedade toda tem uma série de ramais interligando os aposentos e as casas. Tem uma listagem no teu quarto. Se precisar de qualquer coisa é só chamar, ok?
- Pode deixar. Qualquer coisa eu prendo o grito.
- Boa noite então... – disse Angélica estendendo a mão para Cristine num cumprimento formal.

O toque naquela mão macia e quente fez a morena sentir um arrepio a percorrer-lhe o braço. Cristine também sentiu uma energia diferente naquele toque. E gostou. Novamente Angélica fitou Cristine nos olhos e sorriu sedutoramente. Soltou a mão da loirinha e dirigiu-se para a porta dos fundos, deixando Cristine a observar a cadência de seus passos e as curvas de seu corpo movendo-se com a elegância de um felino. Pressentindo o olhar de Cristine fixo em seus quadris Angélica sorriu para si mesma, caminhando sem olhar para trás na direção de sua casa.

Já em seu quarto Cristine colocou seu pijama e enfiou-se sob as cobertas quentinhas. Adormeceu sem nem ao menos lembrar de telefonar para Mariana. Seus pensamentos estavam todos direcionados para outro foco.

Angélica custou muito a dormir. Em sua cabeça um turbilhão de pensamentos fervilhavam concomitantemente. Pensava em seu padrinho, na chegada de Valesca, em seu objetivo maior, em Cristine... Precisava ordenar os pensamentos.

 

************

 

Quando Cristine despertou levou alguns segundos até concatenar-se com a realidade à sua volta. Esfregou os olhos, espreguiçou-se e jogou o edredom macio que a cobria para o lado. Como de costume deu um tempo a seu corpo, não gostava de acelerar seu despertar. No entanto sua mente não acatou o comando de despertar gradativamente. Tão logo seus olhos visualizaram a claridade difusa que transformava em vultos os móveis ao seu redor foi como se seu cérebro detonasse uma torrente de pensamentos. Recapitulou em segundos o dia anterior e as emoções a fizeram sentar na cama, com uma sensação de angústia.

Pegou seu relógio de pulso que estava sobre o criado-mudo e percebeu já ser bastante tarde, comparando-se ao horário em que costumava acordar. Passava das onze horas da manhã. Aguçou o ouvido, porém não conseguia escutar nada mais do que o monótono barulho da chuva que não havia dado uma trégua sequer desde o dia anterior.

Calçou seu par de chinelos de dedo que havia deixado ao lado da cama e foi até o banheiro. Olhou-se no espelho, achando-se abatida e com olheiras. “Também... pudera...”, pensou. Lavou o rosto sendo que não conseguiu dissipar o mal estar. Resolveu então que o melhor para reanimá-la seria um bom banho. E assim o fez.

Depois de vestir-se com roupas bem quentes sentiu-se melhor e até considerou estar com uma aparência bem melhor do que há de poucos minutos atrás. Para apurar mais um pouco seu visual colocou um batonzinho discreto, que veio a realçar a suavidade da curva de seus lábios.

Abriu a janela do quarto e a luz difusa do dia chuvoso invadiu o recinto permitindo à vista de Cristine captar os contornos dos móveis e dos objetos ao seu redor. Ao olhar para fora se deparou com o mesmo cenário do dia anterior, porém com um pouco mais de visibilidade apesar da chuva. Naquele momento quase não havia neblina e pôde observar melhor os arredores do castelo, com suas vielas de acesso a lugares que passou a ter curiosidade de conhecer. Percebeu que daquele ponto podia avistar ao longe, no vale, o pequeno cemitério onde tio Artur havia sido sepultado. Mais ainda, conseguia divisar os anjos de pedra que guardavam a catacumba da família. Suspirou ao lembrar-se de sua chegada no dia anterior e da despedida do tio.

Fechou a janela novamente e percebeu-se com uma pontinha de fome. Dirigiu-se ao corredor sombrio e desceu as escadas vagarosamente. Percebeu movimentação no andar térreo. Cruzou por James que dava algumas ordens a dois homens portando ferramentas e escada.

- Bom dia, prima – disse James – Estou providenciando o conserto de parte da calefação. Tem feito muito frio.
- Que bom. – respondeu Cristine, rumando para a cozinha.

Ao entrar naquela peça tão agradável sentiu novamente o clima quente mantido pela temperatura do fogão. Regina estava empenhada em cozinhar, tendo como ajudante uma moça a quem não conhecia ainda.

- Bom dia – disse Cristine.
- Bom dia – responderam ambas as mulheres, sendo que a mais velha se apressou em fazer as apresentações.
- Cristine, esta é Adelaide, que também trabalha aqui conosco.
- Encantada, senhorita – disse a mulher mais jovem, baixando os olhos, sorrindo timidamente e ficando rubra até a raiz dos cabelos.
- Muito prazer, Adelaide. – respondeu Cristine.

Adelaide tratou de dar andamento no que estava fazendo: descascando uma bacia de batatas cozidas. Cristine achou engraçada a postura da moça. Aparentava uma grande timidez, porém era muito graciosa. Tinha a pele clara como Cristine e o cabelo era da mesma cor do dela. Os olhos, porém eram escuros como duas jabuticabas. Os cabelos de Adelaide também eram curtos, todavia com cumprimento suficiente para dar suporte a um elástico colorido que lhe prendia os fios loiros. A estatura e o tipo físico também lembravam Cristine que, no entanto, deveria medir alguns centímetros a menos que a moça, porém esta diferença era compensada pelo salto de sua bota. Poderiam passar por irmãs. Cristine divertiu-se com a semelhança.

- Senta aí, minha filha – disse Regina – Queres tomar café ou preferes esperar pelo almoço?
- Que horas é costume servir o almoço? – perguntou Cristine.
- Ao meio dia, em ponto. Seu Artur sempre gostou do almoço pontualmente.

Ao dizer isto Regina calou-se, dando-se conta que nunca mais teria o patrão na cabeceira da mesa. Suspirou.

- Acho então que vou dar uma enganada no estômago, afinal falta menos de meia hora pro almoço... – disse Cristine pegando uma banana do cesto de frutas e sentando-se perto do fogão à lenha.
- E Angélica? – questionou Cristine.
- Está estudando com o irmão. Mas disse que vem almoçar aqui. Deve estar chegando.
- E você, Adelaide? Mora aqui perto? – perguntou Cristine.

Novamente a copeira foi acometida por uma onda de rubor antes de responder:

- Moro. Moro na cidade.
- E gosta de trabalhar aqui?
- Muito. Aqui todos sempre foram muito bons pra mim... O Seu Artur até pagou o estudo pra mim. Eu terminei o segundo grau no ano passado. A escola é pública, mas o material era caro, eu não conseguia comprar...
- Mas o teu salário é tão pouco? – provocou Cristine.
- Não... não é isso... mas é que eu gasto muito com o meu pai, que é doente. A minha mãe não consegue trabalhar, pois cuida dele, e os meus irmãos são pequenos ainda.
- O pai de Adelaide teve um derrame há mais de sete anos e ficou praticamente vegetativo. – comentou Regina.
- Deve ser uma barra pesada... – conjeturou Cristine.
- Se é... – disse Adelaide - mas a gente vai levando.
- Adelaide tem irmãos gêmeos, de nove anos, uns encantos. – disse Regina.
- O Jorge e o Joel, são meio que como filhos meus, ajudei a criar. – completou Adelaide.
- Deve ser muito bom ter irmãos... – disse Cristine.
- É bom. – riu-se Adelaide – as vezes dá vontade de amarrar os dois numa árvore, por causa das molecagens, mas no fundo é muito divertido.
- Imagino... – riu Cristine.

Neste momento Angélica entra na cozinha pela porta dos fundos, aparentando irritabilidade.

- Bom dia – disse em tom sério.

- Bom dia – respondeu Cristine estranhando aquela cara amarrada.
- O que foi que houve? – perguntou Regina sem nem olhar para a filha, afinal conhecia seu humor somente pelos passos.
- Aquele teu filho cabeçudo! Deixei ele lá, brigando com os cálculos!

Todas tiveram de rir, menos Angélica que as fitou ainda séria.

- Isso... vão rindo... isso porque não são vocês que tem de tentar colocar um pouco de raciocínio dentro daquela cachola que só pensa em seios e bundas!
- Mas isso é próprio da idade... – ponderou Regina.
- Com certeza, depois passa. – disse Cristine.
- Mas até lá o moleque vai ficar repetindo de ano! – exclamou Angélica.
- Tu estás sendo injusta – disse Regina – o teu irmão nunca rodou.
- Isso porque eu tenho pego o cabeça-oca em quase todos os finais de semana ... nos últimos dois anos!
- Coitado. Deve ser por isso. – provocou Cristine.
- Engraçadinha... – disse Angélica, sendo obrigada a sorrir da espirituosidade da loirinha.
- Afinal, no que é que ele está tendo dificuldades? – quis saber Cristine.
- Em TUDO! – respondeu Angélica – Em tudo que não seja mulher...

“Chega a dar inveja...” pensou Cristine divertida. “Aliás, a irmã dele parece que deve ter a mesma maneira de se distrair”, continuou pensando Cristine, lembrando-se das tiradas e dos olhares de Angélica. “E como ela fica linda assim irritadinha”...

- Afinal, qual é a matéria que ele menos entende? – insistiu Cristine.
- Exatas. Matemática e Física. O cara é um jumento! Tudo bem que eu também não sou lá muito boa nessas coisas, mas pelo menos eu sempre fui esforçada! – completou Angélica.
- Que bom, assim não fico complexada por ter dois filhos jumentos! – disse Regina em tom de deboche.
- Mãããe, eu to falando sério! Tanto a mãe quanto o pai dão muito mole pra esse guri. – disse Angélica à Cristine.

Esta última sorriu:

- Deve ser coisa de filho caçula...
- É...
- Olha só... – continuou Cristine - ...se você quiser eu posso dar uns toques pra ele, em matemática.
- Não precisa se incomodar com isso não... – respondeu Angélica.
- Não seria incômodo algum, afinal preciso ocupar o meu tempo mesmo, pelo menos até semana que vem. E eu gosto cálculos, lembra?...
- Bom, sendo assim, tudo bem... embora eu acho que seja malhar em ferro frio. – disse Angélica.
- Não subestime o seu irmão... – disse Cristine sorrindo.

Angélica a fitou encantada com seu sorriso. Aliás, o que mais fizera desde o dia anterior havia sido se encantar com os trejeitos de Cristine. Em outra ocasião aquilo não a deixaria tão desassossegada, porém na situação que estava vivenciando sentia uma inquietação palpitante a cada vez que se percebia a admirar a loirinha. Instantaneamente tentava direcionar toda sua energia ao seu objetivo naquele momento. Tinha plena consciência do que estava em jogo, e do quanto precisava ficar atenta.

- Adelaide, tu já podes pôr a mesa. – disse Regina – O almoço está quase pronto.

A copeira tratou de enfileirar pratos e talheres na mesa da sala de refeições. Mal havia terminado e James se juntou a elas.

- Finalmente o hall de entrada e o corredor ficarão aquecidos. Esse pessoal é bom no que faz – disse James referindo-se aos homens que ainda trabalhavam no conserto da calefação.
- Até que enfim... – disse o Dr. Mendes, que chegava naquele momento a tempo de ouvir o comentário de James.
- Pois é. O padrinho queria fazer isso há tempo... – complementou James.
- Mas vamos nos sentar – disse Dr. Mendes, desconversando e gentilmente puxando a cadeira para Cristine sentar.

Logo em seguida repetiu o mesmo gesto para Angélica.

James e o advogado também se instalaram e Regina serviu o almoço.

Comeram quase que em silêncio, tecendo somente alguns poucos comentários acerca do tempo chuvoso.

Logo após o almoço Dr. Mendes referiu que voltaria para a cidade, pois precisava dar andamento em alguns processos que tomariam grande parte de seu tempo naquela tarde. Disse ainda que não poderia dormir no castelo naquela noite, sendo que retornaria somente no final da tarde do dia seguinte. Despediu-se e foi levado por Henrique até a cidade, pois havia deixado seu carro numa oficina, para revisão.

James também pediu licença justificando necessitar trabalhar um pouco no escritório. “Negócios que precisam ser tocados para frente”, argumentou.

Regina e Adelaide ocuparam-se na cozinha enquanto Morris e Anemary cuidavam cada qual de seus afazeres de rotina.

Angélica sorriu para Cristine e disse:

- Parece que sobramos só nós duas.
- Pois é... – concordou Cristine – E, por curiosidade, cadê a Valesca e o irmão?
- Sei lá! Devem estar por aí. A mãe deve saber... Escuta, quem sabe a gente vai até lá em casa, para conheceres?
- E iniciar a árdua tarefa de ensinar matemática a um rebelde? – brincou Cristine.
- Nem me lembre disso que o sangue me ferve nas veias! – disse Angélica.

Cristine achou graça do rompante de Angélica. A morena conduziu Cristine na direção da porta dos fundos, que dava para a rua. Num pequeno corredor de acesso havia um cabide com alguns capotes de chuva e numa imitação de um vaso da dinastia Ming repousava um enorme guarda-chuva, com o qual Angélica havia se protegido da garoa fria que caía ininterruptamente. Angélica pegou uma das capas e estendeu outra para Cristine.

- Toma, coloca por cima, senão tu vai tomar um banho até lá em casa. É perto, mas essa chuvinha ta molhando pra valer.

Cristine jogou a capa por cima de sua vestimenta enquanto Angélica ajeitava a sua e abria o guarda-chuva. A morena passou o braço por cima dos ombros de Cristine trazendo-a de encontro ao próprio corpo, com o intuito de protegê-la das gotas que se projetavam das nuvens carregadas. Cristine aninhou-se bem junto a Angélica e passou o braço por sua cintura, para conseguir acompanhar sua marcha e ficar o mais embaixo possível da proteção do pano do guarda-chuva. Cristine podia sentir o perfume dos cabelos de Angélica cujos fios soltos, fustigados pelo vento, batiam de encontro a seu rosto provocando-lhe uma agradável sensação de carícia.

As passadas firmes de Angélica conduziam Cristine em segurança, desviando-a das poças d’água que se formavam ao longo do caminho.

Angélica podia sentir o perfume que emanava de Cristine. Os cabelos recém lavados e a pele alva exalavam um olor suave que estava deixando Angélica entorpecida de prazer. A morena tratou de centrar seu pensamento no trajeto, e nas poças d’água...

Conforme iam se movimentando, afastando-se do castelo rumo à casa de Angélica, Cristine pôde observar um pouco da paisagem ao redor, mesmo tendo seu campo de visão restrito devido ao diâmetro do guarda-chuva. Rumavam por uma viela ladrilhada com pedras arredondadas e desgastadas pelo tempo. Precisavam tomar cuidado em alguns trechos, pois o limo nascido sobre as pedras, umedecido pela chuva, transformava-as em armadilhas perigosas para os mais distraídos. Isto não chegava a ser um problema para Cristine, pois a mesma sentia a firmeza do braço de Angélica ao redor de seus ombros, e tinha a certeza que, mesmo que escorregasse, seria prontamente amparada por aqueles braços fortes.

A vegetação densa ao redor estava encharcada e as poucas flores existentes pareciam verter água pelas pétalas arriadas pelo peso das gotas de chuva.

Conforme iam se afastando do castelo o cenário ao redor parecia ficar mais selvagem, com a vegetação parecendo querer fechar-se ao redor delas. Os ladrilhos de pedras irregulares cederam lugar a uma viela sem nenhum tipo de revestimento, cuja terra avermelhada e amassada pelos pés dos passantes continuava escorregadia e predisposta a derrubar os desavisados em suas poças de água lamacenta. Durante todo o trajeto Cristine pareceu ouvir passos atrás delas, todavia preferiu pensar tratar-se de fruto de sua imaginação. Em dado momento, porém, foi como se um dos arbustos fizesse um movimento diferente dos demais, tocado pelas rajadas de vento. Pareceu ainda à Cristine que Angélica também havia visto o mesmo que ela, porém pareceu disfarçar sua impressão. Cristine quis diminuir o passo, no entanto Angélica continuou com a mesma marcha, obrigando-a a seguir com ela, tentando ainda desviar a conversa. Nem bem haviam avançado alguns metros e novamente Cristine percebeu um movimento nos arbustos e teve a nítida impressão de avistar um vulto disforme à observa-las. Sobressaltou-se.

- O que foi? – perguntou Angélica.
- Tem alguém seguindo a gente.
- Como?
- Tem alguém seguindo a gente! Tem alguém ali no mato olhando pra gente!!! – respondeu Cristine deixando transparecer medo na voz.
- Impressão tua, quem poderia ser? Fica calma. Ta tudo bem. – desconversou Angélica.
- Mas eu vi um vulto, não sei o que era...
- Cristine, deve ter sido um animal silvestre, fica calma...
- Mas era grande! Eu juro! Porque não acredita em mim???
- Calma... Eu acredito. Mas é que podes ter visto uma capivara, que são grandes, e tem muitas por aqui.
- Será?
- Claro. Afinal aqui não tem mais ninguém além de nós.
- Tem certeza? – questionou Cristine.
- Absoluta.

Cristine suspirou e Angélica sentiu que ela se aconchegou mais junto a seu peito e tratou de apurar o passo, instintivamente. A morena lançou um olhar de soslaio para o mato e viu o mesmo vulto que Cristine avistara. Com um olhar significativo fez o vulto desaparecer mata adentro.

Andaram mais um pouco e a mata densa cedeu lugar a uma clareira aos pés de um morro, onde uma casa de madeira pintada de azul encontrava-se com a porta da frente aberta, como que num convite a abrigarem-se da chuva. Por instantes Cristine parou em frente à residência, encantando-se com a mesma. Era uma casa singela, em estilo polonês, toda de madeira e cuja cobertura de telhas francesas conferia um ar de antiguidade à construção. De fato era uma casa bastante velha, porém em ótimo estado de conservação. As tábuas dispostas verticalmente ostentavam uma barra decorativa logo abaixo do nível das janelas, com pinturas de flores amareladas. Nas paredes laterais externas pequenas armações com vasos de flores adornavam toda a extensão, dispostas assimetricamente e conferindo um ar primaveril àquela paisagem de inverno. As janelas não possuíam venezianas, somente vidraças com armações pintadas de um azul escuro cujo arremate interno de cortinas brancas e rendadas dava a impressão de uma casa de bonecas. Ao redor das janelas também havia um contorno pintado, retratando flores e folhas coloridas. Havia um sótão onde duas janelas, estas com venezianas de madeira, se abriam para a frente da residência. Todo o telhado da casa era circundado por lambrequins de madeira pintados de branco, arremate tipicamente polonês. Uma chaminé de metal projetava-se do meio do telhado e expelia golfadas de fumaça, sinal de que alguém mantinha o fogão à lenha aceso.

Ao chegarem à área da frente, protegidas pelo telhado que se projetava da parede principal, Angélica soltou Cristine e fechou o guarda-chuva.

A loirinha olhou em volta e exclamou:

- Que encanto de casa! Uma legítima casa em estilo polonês!
- Pois é... meus avós maternos vieram da Polônia e foram eles que construíram essa casa.
- Mas essas terras não são do tio Artur? – perguntou Cristine.
- Sim e não.
- Como assim? – quis saber Cristine.
- Bom, minha família trabalha com a tua há muitos anos, desde que os meus avós imigraram. Esta parte da propriedade fica bem no limite e foi comprada pelos meus avós, dos teus. Histórias de família... um dia eu peço pra mãe te contar.
- Ta. – sorriu Cristine.
- Mas vamos entrar – disse Angélica, indicando o caminho com a mão.

A sala era uma peça ampla, com o assoalho de madeira envernizado e as paredes internas pintadas de azul bem claro. A decoração era simples e aconchegante. Parecia não haver ninguém em casa, salvo pelo barulho ao longe do crepitar da lenha no fogão da cozinha. Angélica pediu que Cristine a acompanhasse. Ao entrarem na cozinha Cristine viu um rapaz sentado de costas para elas, sendo que nem percebeu a entrada das mesmas devido a um fone de ouvidos que lhe tapava as orelhas. Estava sentado em frente a vários livros e um caderno aberto, porém saracoteava-se ao som da música que somente ele escutava no momento. Angélica respirou fundo, balançou a cabeça e aproximou-se dele por trás, lentamente. Ao alcançar o pequeno rádio aumentou o volume de supetão, fazendo o garoto dar um pulo e arrancar o fone de ouvido.

- O que é isso? Enlouqueceu? Quer me deixar surdo? – exclamou o rapaz, fuzilando Angélica com o olhar.

Instantaneamente se deu conta de que não estavam sozinhos. Aprumou-se e tratou de se desculpar.

- Desculpe, eu não sabia que essa megera tinha vindo acompanhada.
- Tudo bem – disse Cristine tentando não rir da situação.
- Esta é Cristine – apresentou Angélica – Ariel, meu irmão.
- Muito prazer, Ariel. – disse Cristine.
- Igualmente. – respondeu o garoto.

Ele aparentava não ter mais do que 16 anos, era alto como Angélica, porém as semelhanças terminavam por aí. Ariel era claro, muito magro, com olhos esverdeados e as feições da mãe. Tinha um sorriso lindo como o de Angélica, ostentando uma dentição perfeita e uma covinha no queixo.

- Ô cabeçudo, eu já não te disse pra desligar esse rádio na hora de estudar? – repreendeu Angélica.
- Mas eu me concentro melhor com música – respondeu o rebelde, não querendo encompridar aquela discussão.

Angélica balançou a cabeça.

- Queres um cafezinho? – perguntou Angélica à Cristine.
- Aceito.
- Eu também quero – disse Ariel.

Angélica dirigiu-se ao fogão à lenha pegando um bule vermelho esmaltado que se encontrava bem no canto, e cujo conteúdo era mantido na temperatura ideal pelo calor constante da chapa de ferro. Serviu três canecas daquele líquido fumegante, alcançando-as a seus respectivos destinatários. Sentaram-se à mesa arredando alguns livros. Cristine perguntou:

- Época de provas?
- É. – respondeu Ariel.

Angélica manteve-se quieta.

- E como vão as notas? – perguntou Cristine.
- Essa uma aí já não fez fofocas a meu respeito? – perguntou Ariel referindo-se à Angélica.
- Por quê? Deveria? – instigou a morena.
- Não, mas sabe como é... vive implicando... – emendou Ariel.
- Com motivo ou sem? – perguntou Angélica.
- Claro que sem! – disse Ariel.
- Mas afinal, - interpelou Cristine – ta bem ou mais ou menos?
- Mais ou menos... – anuiu Ariel.
- Vejo que você está estudando matemática... – disse Cristine olhando para o caderno aberto.
- Pois é... to apanhando pra caramba...
- Com licença, - disse Cristine virando o caderno para ela – Ah, ta explicado, trigonometria...
- Eu poderia matar quem inventou esse raio de matemática! – disse Ariel.
- Pois eu acho que foi um dos iluminados do planeta! – disse Cristine.
- Ta me gozando, né? – disse Ariel.
- Não to não.
- Mas me diz onde é que eu vou usar esse raio de matemática na vida?
- Bom, no meu caso eu uso direto... eu fiz arquitetura. Mas a gente usa sempre. O que é que você gosta de fazer?
- Nadar! – respondeu Ariel com os olhos brilhantes.
- E você nada como amador?
- Não. Eu participo de competições. – disse Ariel orgulhoso.
- Bom, então uma das aplicações práticas da matemática poderia ser para calcular quantas braçadas você teria que dar para atravessar uma piscina olímpica e quanto tempo levaria para ser mais rápido do que os teus adversários.

Ariel a olhou pensativo e respondeu depois de um tempo:

- Eu nunca tinha pensado nisso...

Cristine pegou uma folha e um lápis e começou a rabiscar:

- Bom, quanto mede a piscina que você treina?
- Vinte e cinco metros.
- E qual a tua média de tempo?

Ariel ia respondendo e Cristine ia fazendo um gráfico de distância e tempo. Angélica observava. Cristine conseguiu prender a atenção de Ariel que acompanhava sua linha de raciocínio atentamente, juntando num mesmo papel noções de matemática e física. Ao terminar Ariel estava boquiaberto, Angélica também. Cristine conseguira prender a atenção do rapaz nos estudos por quase meia hora, num simples conversar sobre natação.

- As ciências exatas são facílimas quando se entende a lógica da coisa... – continuava Cristine – Olha só, você entende o porquê dessa fórmula de calcular a área desse triângulo retângulo?
- Não. – disse Ariel.
- É simples, basta...

E Cristine se dispôs novamente a discorrer sobre fórmulas matemáticas. Tinha um conhecimento invejável e uma didática mais invejável ainda. Ao ouvi-la falar tudo parecia mais fácil. Por incrível que pudesse parecer Ariel estava gostando de rever aquela matéria com ela. De fato o mundo havia perdido uma ótima professora de matemática, pensava Angélica. Ariel permaneceu absorto durante quase duas horas. Angélica chegava a desconhecer o irmão, sempre disposto a terminar logo as lições e tratar de pegar alguma revista de mulheres nuas ou ligar o rádio e curtir as músicas do momento.

- E é isso! – Finalizou Cristine.

Ariel permanecia concentrado e empenhado em resolver as próximas questões de seu caderno.

- Nossa! Nunca ninguém tinha me explicado isso dessa maneira! – dizia Ariel boquiaberto. – Realmente não é difícil...
- Não falei? – disse Cristine.
- Bom, mas agora a Cristine precisa dar um tempo... – disse Angélica – Afinal ela já se formou e não precisa rever essa matéria...
- Amanhã tu me dá mais uns toques, Cristine? – perguntou Ariel ansiosamente.
- Claro.
- Ariel, tu não vai torrar a paciência da visita, vai? – disse Angélica.
- Para mim é um prazer. – disse Cristine.
- Credo, cada um se diverte como pode mesmo... – disse Angélica em tom de brincadeira.
- Ta vendo Cristine? Essa daí é mais jumenta que eu! – disse Ariel implicando com a irmã.

Angélica pegou o garoto e lhe aplicou um cascudo na orelha, levando na esportiva sua provocação.

- Tu me respeita, guri!

Cristine riu deles.

- Que tal a gente fazer umas pipocas? – disse Ariel.
- Acho ótimo! – exclamou Cristine.
- Tudo contigo, pivete – disse Angélica – Teve a idéia, executa!
- Pra já! – disse Ariel saltando de onde estava e pegando uma panela grande que estava no armário embaixo da pia.

Em poucos minutos estavam saboreando uma baciada de pipocas regadas a chocolate quente feito por Angélica. O trio conversava sobre vários assuntos e em dado momento uma guerra de pipocas foi desencadeada na cozinha, onde cada qual procurava acertar a caneca de chocolate de seu adversário. Em instantes o chão da cozinha ficou tomada por uma camada de flocos brancos, parecendo neve. Era como se eles já se conhecessem há bastante tempo. As horas passaram despercebidas.

Quando já passava das cinco horas da tarde Regina chegou em casa, porém a bagunça da cozinha já havia sido limpa, sem haver sobrado vestígio da confusão armada.

Logo em seguida Israel também chegou. Estivera trabalhando na estufa, na tentativa de se distrair. Continuava com aspecto triste e abatido, mas parecia disposto a reagir.

Angélica levou Cristine de volta ao castelo. Enquanto aguardavam a hora do jantar ficaram conversando no escritório que fôra do tio. James já não estava mais trabalhando lá.

O aposento era simples. As paredes de pedra ostentavam uma decoração discreta onde quadros a óleo retratavam o que Cristine constatou serem paisagens da propriedade onde estavam. No entanto o que mais lhe causou surpresa foi a assinatura dos quadros: “A Torres”. A assinatura rebuscada deixou Cristine em dúvidas quanto à autoria das telas. Angélica olhou para ela, novamente adivinhando seus pensamentos e disse:

- São do padrinho.
- São lindos... – disse Cristine contemplativamente.
- Essa era uma das distrações dele.

Era incrível como Angélica conseguia saber o que Cristine pensava. Havia uma sintonia inata entre ambas. Cristine suspirou, andou em volta do aposento. Passou sua mão delicadamente pela borda da mesa cujo tampo de vidro protegia a madeira avermelhada. Observou a cadeira de espaldar alto e assento de palha, onde uma almofada de veludo azulada e desgastada pelo tempo de uso ainda repousava de encontro ao encosto.

- Eu tenho sentido tantas coisas diferentes nessas últimas horas... – disse Cristine, mais para si mesma do que para Angélica.
- Eu imagino. – disse a morena.
- A cada instante eu me surpreendo mais com o meu tio... – continuou Cristine - ...isso – disse apontando para os quadros – é totalmente diferente do Artur que eu imaginava: frio e distante. Esses quadros contrastam com essa casa, esse castelo. A sensibilidade destas telas não condiz com a frieza deste lugar. As pessoas são formais, eu não consigo entender isso.
- Como assim? – perguntou Angélica.
- Por exemplo, o Morris. Parece um boneco empalhado. Ele nunca sorri? Aliás, ele consegue demonstrar algum sentimento? Ele me deu os pêsames com a mesma expressão que chama para o jantar... E Anemary. Ela também é esquisita. Aparenta um gosto exagerado por disciplina e por regrinhas.
- Bom, isso eu sou obrigada a concordar. – disse Angélica – Mas é que eles vêm de outra realidade. Morris é francês, veio com o padrinho já há bastante tempo. E Anemary também veio “importada”, é inglesa. E tu sabes como são esses gringos. É gente esquisita mesmo.
- Mas tem outras coisas que eu não entendo...
- O que?
- Porque é que a tua mãe não faz as refeições conosco? Pelo que você conta ela é quase da família.
- Bom, isso é coisa dela... Desde cedo ela sempre foi a cozinheira da casa. Apesar de conhecer o padrinho de longa data eles sempre mantiveram certa distância. O amigo mesmo do padrinho é o meu pai. E este sempre passou mais tempo fora do castelo do que dentro.
- Mas como você se sente com sua mãe a servi-la na “mesa do patrão”? E me desculpe a pergunta, eu não quero causar constrangimento nem criar polêmicas, só quero entender... – disse Cristine.
- Pois é... Parece estranho, mas eu me acostumei com isso... Na verdade eu nunca me preocupei com isso, pois para mim, comer na cozinha, na sala, quarto, no escritório, tanto faz. Eu não ligo para essas coisas. Eu sempre costumei circular por todos os espaços desta propriedade, sem restrições. E sempre tentei entender e aceitar as pessoas daqui como elas são, com suas virtudes, manias e encucações.
- Eu te admiro por isso... – conjeturou Cristine. – Não sei se conseguiria...

Angélica sorriu e completou:

- Se fosse obrigada a conviver com gente esquisita desde tenra idade aposto que aprenderia!

Desta vez foi Cristine quem teve de sorrir. Depois de um período de silêncio continuou:

- De repente eu me dei conta que eu gostaria de ter convivido com o meu “tio esquisito”...

Angélica ficou em silêncio. Cristine foi até um canto e observou o quadro onde uma menina de longos cabelos negros parecia levantar vôo, suspensa por um balanço de cordas atado numa frondosa figueira. A menina sorria e, de olhos fechados, parecia sorver a energia de um raio de sol que lhe iluminava o rosto. Cristine passou a ponta dos dedos pelo contorno do rosto da menina e sorriu melancolicamente.

- Quem é? – perguntou à Angélica, embora já soubesse a resposta.
- Sou eu. – respondeu a morena.

Cristine se voltou para ela e perguntou, deixando transparecer tristeza na voz:

- Por que será que ele nunca me procurou?...

Angélica baixou os olhos e respondeu a meia voz, sem encarar Cristine:

- Não sei...

Logo em seguida, depois de instantes que pareceram horas, onde uma angustia latente parecia querer saltar do peito de Cristine, Angélica desconversou:

- Vamos descer? Daqui a pouco o jantar vai ser servido. Pontualidade britânica, lembra?

Cristine somente assentiu com um gesto de cabeça, tristemente. Sempre que tentava aprofundar a questão do seu relacionamento com o tio percebia que seu interlocutor desconversava, quer fosse Angélica ou o Dr. Mendes. Era como se uma parte da história do tio, e por conseqüência da sua própria história, não pudesse lhe ser revelada. Ali de pé, segurando as mãos em frente ao corpo, com os olhos fitando o nada, Cristine sentiu-se frágil e desamparada. Algumas lágrimas teimaram em se formar em seus olhos e Angélica, num rompante, abraçou-a afetuosamente de encontro ao peito, sem falar nada. Confortada por aquele abraço Cristine permitiu-se chorar. Soluçou baixinho, silenciosamente. Angélica passou a mão pelos cabelos loiros e aninhou-a de encontro a si, numa atitude protetiva e de consolo. Sentiu as lágrimas quentes de Cristine umedecendo seu peito e os espasmos daquele corpo diminuto a cada soluço que tentava em vão engolir. Quando percebeu que ela gradativamente parara de chorar levantou sua face puxando-a delicadamente pelo queixo. Seus olhos verdes estavam mais brilhantes do que o normal, devido ao reflexo das lágrimas. Passou a mão em suas faces, secando-lhe as lágrimas. Cristine a olhou nos olhos e o que viu foi um genuíno sentimento de solidariedade e afeto. Seu toque era quente e aconchegante. Teve o desejo de beijar a boca de Angélica, porém ficou estática admirando o azul cristalino de seus olhos fitando-a tão de perto. A morena, por sua vez, também desejou capturar aqueles lábios e beijar aqueles olhos. Mais que isso, queria poder mudar a realidade, queria que aquela situação não estivesse acontecendo, queria dizer-lhe muitas coisas... Mas não podia.

- Vamos descer então? – disse Angélica amorosamente.
- Vamos... – respondeu Cristine - ...e me desculpe...
- Não tenho o que desculpar.

Elas se entreolharam e sorriram com cumplicidade. Desceram as escadas, porém antes Cristine quis passar em seu quarto e lavar o rosto, para dissipar qualquer vestígio das lágrimas que vertera ainda há pouco. Angélica desceu na frente dela e a esperou na cozinha.

Valesca e seu “Adonis” conversavam com James na mesa de jantar enquanto aguardavam que fosse servida a ceia. Quando Cristine desceu e passou por eles sentia-se melhor. Havia lavado o rosto e colocado um pouco de maquiagem.

- Ora, ora, se não é a princesinha descendo de seus aposentos – disse Valesca, com uma naturalidade que não soava de forma nenhuma a deboche.

Cristine teve de sorrir do comentário.

- Princesa? Eu? Por quê? – quis saber.
- Ora, tu já te olhaste no espelho? – disse Valesca – Com essa carinha angelical e tua delicadeza poderias bem ser uma princesa de contos de fadas.
- Que é isso... – respondeu Cristine sem jeito.
- Mas isto é verdade. – anuiu James – De fato tu és muito bela, prima.
- Por favor, eu estou ficando constrangida...
- Ai que amor! – bradou Valesca – Além de tudo é tímida! Mas vem aqui, vem, sente-se. Regina já vai servir o jantar.

Cristine olhou em volta e imaginou que Angélica estaria na cozinha. Disse:

- Eu vou até a cozinha, estou com sede.

Morris, de sua posição de sentinela, disse enfaticamente:

- Pode deixar, senhorita, eu pego a água.
- Não Morris, eu mesma vou até lá. – respondeu Cristine rumando para a cozinha.

A governanta inglesa fez um ar de quem discordava daquilo. Para ela era inconcebível a patroa servir-se de água, e ainda mais na cozinha. No entanto permaneceu com a fisionomia impassível. Tinha consciência de que não era paga para questionar as atitudes dos patrões.

Cristine encontrou Angélica recostada no balcão da louça, conversando com a mãe. Contava a proeza de Cristine ao conseguir manter Ariel concentrado sobre seu caderno de matemática por mais de duas horas.

- Minha filha – exclamou Regina – eu nem sei como te agradecer!
- Que é isso Regina? Não precisa agradecer nada, pois não me custou nada. Foi, digamos, um momento de lazer.

As três sorriram.

- E olha que o cabeçudo até pediu mais umas aulas! – emendou Angélica.
- Não acredito... – disse Regina.
- Mas é verdade! – falou Angélica. – Com certeza Cristine ganhou o céu com este feito! – e riu-se.
- Agora vão indo lá que eu vou servir o jantar. – disse Regina.
- Regina... – disse Cristine - ...você não gostaria de jantar conosco?
- Mas eu vou jantar...
- Eu falo conosco, na mesa, agora. – continuou Cristine.

Angélica deu de ombros, afinal já sabia como aquela conversa terminaria. Deixou as duas e foi para a sala de jantar.

- Minha filha, eu não consigo...
- E por quê?
- Porque não estou acostumada...
- Mas você é quase da família...
- Mas não sou. Eu sou a cozinheira da casa.
- Mas é a comadre do dono!
- Por favor, Cristine, não insista. – pediu Regina com voz branda.

Cristine percebeu que era inútil argumentar, pelo menos naquela ocasião. Sorriu afavelmente para Regina e dirigiu-se à sala de jantar. Instalou-se à mesa, defronte a Angélica, e balançou a cabeça. A morena fez um movimento de ombros, como a lhe dizer: “eu te falei...”.

O jantar transcorreu em um clima agradável. Valesca era uma mulher bastante falante e Cristine não podia negar que seu discurso era eloqüente e acabava envolvendo seus ouvintes. De fato, até poderia ser uma oportunista, porém começou a entender o que seu tio havia visto nela. Apesar de aparentar superficialidade Valesca tinha opiniões sobre a vida e a existência que chegavam a surpreender, isso sem falar nos seus atributos físicos. Apesar de ser uma mulher de meia idade ostentava ainda um porte elegante, seios fartos e quadris largos, pernas bem torneadas e pele mantida fresca com cremes e emplastos. Na verdade Valesca costumava viver cada dia como se fosse o último. Era dada a aproveitar o máximo que a vida poderia lhe oferecer. E Cristine compreendeu assim o que Angélica havia falado sobre a amante de Artur.

Somente James passou o jantar taciturno, respondendo com monossílabos ao que lhe era perguntado. Cristine reparou que ele e Angélica quase não se falavam, embora tentassem manter um clima cordial.

Terminada a refeição James, Valesca e João Vítor pediram licença e foram se recolher. Angélica levantou-se da mesa e também se despediu de Cristine. Somente as duas estavam na sala de jantar e a morena aproximou-se de Cristine e colocou ambas as mãos em seus ombros. Olhou-a nos olhos e disse:

- Fica bem. Amanhã a gente se vê, ok?
- ok.

Angélica debruçou-se e Cristine teve a nítida impressão de que ela lhe beijaria os lábios. No entanto a morena desviou o trajeto de sua boca e deu um suave beijo na face de Cristine, que sentiu seu rosto e seu corpo pegarem fogo com aquele breve contato. Angélica ainda lhe sorriu ternamente e a deixou parada e estática, de pé ao lado da mesa de jantar, sem conseguir esboçar nenhum tipo de reação. Por instantes sentiu-se uma colegial descobrindo os estranhos e deliciosos prazeres da carne. Tratou de dissipar aquela sensação e rumou para seu quarto, disposta a dormir profundamente. Seu intento, porém custou um pouco a se realizar, uma vez que ficou durante muito tempo ruminando as sensações que a proximidade de Angélica lhe causavam. Resolveu deixar de lado suas “pirações”, como costumava dizer. Deixaria as coisas acontecerem a seu tempo e conforme o acaso lhe reservasse. Deu-se conta que nas últimas horas o que mais havia feito era deixar-se levar pela canoa do destino. Enfim adormeceu.

Em seu quarto Angélica também tentava conciliar o sono, com os pensamentos girando a milhares de rotações por minuto. De repente Angélica ouviu um som seco, como o de uma pedra jogada ao encontro de sua janela. Apurou o ouvido e depois de alguns segundos novamente o mesmo ruído. Saltou da cama e jogou um casaco grosso por cima de seu pijama. Sem fazer qualquer ruído entreabriu a janela e avistou somente a escuridão absoluta. Em silêncio esgueirou-se até a porta da frente e espiou para fora. Percebeu um vulto disforme e familiar escondido nas sombras da mata. Respirou fundo e saiu na direção do breu, desaparecendo encoberta pela escuridão da noite.

 

 

Continua na Parte 2...