A Herdeira

Rose Angel

Contato: roseangelys@yahoo.com.br

 

 

Traduzir página Web de:

 

 

Parte 2

 

A sexta-feira amanheceu como havia sido a alvorada nos dias anteriores: taciturna e chuvosa. Cristine acordou cedo, por volta de oito horas. Desta vez despertou totalmente consciente de onde estava. O som da água da chuva escorrendo pelo telhado e batendo no chão úmido aliado ao uivo do vento que soprava entre as montanhas e copas das árvores convidava a permanecer mais um tempo sob as cobertas quentes e aconchegantes, porém Cristine não se intimidou. Jogou o edredom para o lado e calçou um par de pantufas de lã, que a governanta havia gentilmente providenciado para amenizar a sensação de frio nos pés. Cristine repetiu o gesto do dia anterior abrindo a janela e espiando para fora. Novamente divisou a paisagem dos fundos da propriedade e bem ao longe o cemitério. Era como se os anjos guardiões da tumba de sua família atraíssem o olhar de Cristine. Aguçou a vista e lhe pareceu observar alguma movimentação junto ao túmulo. Deveria ser o coveiro cuidando de seus afazeres na manutenção dos túmulos, atividade esta que para a maior parte das pessoas seria uma tarefa execrável e nefasta. Para Guilherme, no entanto, era um trabalho como outro qualquer. Cuidava daquele campo-santo desde que tinha vinte anos, e agora beirando os sessenta, costumava dizer em tom de brincadeira que tinha a vantagem de ter um serviço onde ninguém o incomodava e nem tagarelava aos seus ouvidos. Para esta função bastava sua esposa em casa, emendava rindo da própria piada.

Cristine vestiu-se e desceu a escadaria rumo ao andar térreo do castelo. A mesa posta para o café a aguardava. Como que possuidor de uma bola de cristal que o informasse dos passos de todos os que o rodeavam, Morris se encontrava de prontidão junto à mesa. Anemary encontrava-se postada do outro lado e Adelaide empunhava uma bandeja com café e leite quente, pronta para servi-la. Eles pareciam ter adivinhado que estava descendo. Nem bem havia entrado na sala de refeições Morris disse solenemente:

- Bom dia, senhorita.
- Bom dia Morris.
As mulheres também a cumprimentaram. A loirinha percebeu que estava sozinha ali, não havia nem sinal de James, Valesca, João Vítor e nem tão pouco de Angélica. Sabia que Dr. Mendes só viria à noite.

O mordomo apressou-se em puxar a cadeira para Cristine, que lhe sorriu e passou direto, caminhando na direção da cozinha.

- Vou tomar café na cozinha – disse Cristine em tom amigável.

Tal atitude deixou Morris tal qual uma estátua de gesso. Pálido e teso não moveu um músculo sequer do rosto. Simplesmente recolocou a cadeira em seu lugar e voltou à sua costumeira posição de sentido. Anemary não disfarçou o ar de desaprovação. Adelaide apressou-se em seguir Cristine, empunhando a bandeja de prata polida.

Ao entrar na cozinha Cristine cumprimentou Regina, que sentada num canto descascava algumas cebolas. Estava com os olhos vermelhos e marejados por conta da acidez dos tubérculos.

- Estou para ver cebolas mais fortes que estas... – comentou passando o avental nos olhos.
- Quase que dá para sentir daqui. – respondeu Cristine.
- Mas então vai lá pra sala, vai, - disse Regina – estão esperando para servir o teu café, menina.
- Eu vou tomar café aqui na cozinha. Gosto mais.

Regina deu um sorriso e depositou a bacia com as cebolas na pia, deixando-as em água corrente. Passou limão nas mãos para tirar o cheiro e lavou-as em seguida com sabão líquido. Enquanto isso Adelaide corria para trazer a louça francesa da mesa para a cozinha.

- Não te estressa Adelaide, eu vou tomar café nessa caneca aqui mesmo – disse Cristine enquanto pegava uma caneca de louça do suporte de madeira em cima da mesa central. Logo em seguida tratou de sentar-se e deixou Adelaide servir-lhe o café, enquanto Anemary a observava desencantada com sua postura pouco aristocrática. “Tão diferente do tio”, pensava a governanta.

Com um tom de voz tentando deixar transparecer indiferença Cristine perguntou:

- E Angélica? Já acordou?
- Já. Acordou e saiu muito cedo. – respondeu Regina.
- Ah... – anuiu Cristine com ar de quem não havia ficado satisfeita com a resposta.
- E não tenho nem idéia pra onde aquela menina foi... – continuou Regina.

Era engraçado ouvir Regina referindo-se à filha como “aquela menina”. Angélica tinha trinta e três anos, porém Regina se referia a ela como se ainda fosse uma garotinha. Fazia a mesma coisa com Ariel, guardadas as devidas proporções. Cristine sentiu uma ponta de melancolia, lembrou-se de sua mãe, aliás, do pouco que conseguia se recordar dela. Havia perdido a conta das vezes em que desejara ter a mãe presente em sua vida, cúmplice em suas traquinagens, compreensiva em suas dúvidas e angústias nos tempos de adolescente. Suspirou.

- O que foi, minha filha? – perguntou Regina ao perceber o ar tristonho de Cristine.
- Nada... lembranças do passado... nada de importante.

Regina a encarou ternamente.

- Queres um pedaço de bolo de laranja? – disse afetuosamente.
- Quero!

Conversaram ainda durante algum tempo até que Regina pediu licença para ir até a despensa pegar alguns mantimentos para o almoço. Cristine resolveu dar uma bisbilhotada no castelo. Como que por encanto Anemary e Morris desapareceram de sua vista. Às vezes era como se simplesmente evaporassem, reaparecendo quando menos se esperava. Morris tinha passos de felino, dos quais não se conseguia ouvir a aproximação. Anemary também conseguia ser muito discreta, e Cristine não saberia dizer como conseguia abafar o barulho do salto de seus sapatos. Cristine chegou a conjeturar a hipótese dos dois terem um caso amoroso, afinal desapareciam e ressurgiam como que num passe de mágica! Poderiam encontrar-se furtivamente nos corredores sombrios, esvair-se em atos libidinosos e logo em seguida reaparecer como se nada tivesse acontecido. Cristine foi obrigada a rir do próprio pensamento e da cena que imaginara. Não. Com certeza não seria possível a ambos deixarem-se levar pelos prazeres mundanos, pelo menos os dois juntos, seria talvez um caso de amor platônico, para não amarrotar os uniformes e despentear o coque da governanta.

Também não havia sinais de James, Valesca e seu “Adonis”. Estava momentaneamente abandonada por todos.

Sentiu falta de Angélica. Queria ouvi-la chegar e escutar sua voz. Queria sentir seu perfume e o toque de suas mãos. Deu-se conta que queria aquela mulher. Mais que isso, percebeu que há dois dias nem sequer pensava em Mariana e isso lhe fez um bem enorme, levantando sua auto-estima. Mariana conseguia fazer com que sempre ficasse esperando por ela, tinha se deixado transformar numa “refém emocional”. E o pior é que já havia se dado conta disso em suas sessões de análise, mas ainda não conseguira efetivamente transformar aquela relação e o seu sentimento. E como que por encanto Angélica conseguira lhe despertar a consciência de sentir-se observada e desejada. E isso estava lhe fazendo um bem enorme, apesar de todo o estresse que foram os últimos dois dias em sua vida.

Cristine caminhou vagarosamente pelos longos corredores do castelo, observando as portas que se enfileiravam em ambos os lados. Como que “tirando a sorte” num jogo ia abrindo algumas, aleatoriamente. Em sua maioria eram quartos. Acomodações amplas e com móveis obedecendo a um mesmo estilo clássico, cuja madeira escura conferia um ar de austeridade a todo aquele local. Com a calefação funcionando podia se dar ao luxo de andar sem encolher-se de frio. Subiu a escadaria observando mais atentamente os detalhes do teto naquela parte do castelo. Havia uma forração de madeira escura e envernizada e detalhes de uma pintura descascada ornavam a meia-cana de fora a fora. Uma barra retratando folhas de louro e punhais repetia-se em toda a volta. Bem defronte ao topo da escada havia uma tapeçaria gigantesca, com cerca de três metros de largura por cinco de altura retratando um brasão, que Cristine imaginou ser o de sua família. Em cores desgastadas pelo tempo podia-se ver os fios dourados e prateados que circulavam os contornos das armas do brasão.

Já no segundo piso Cristine continuou a vasculhar curiosamente. Uma das portas chamou sua atenção. Era um pouco diferente das demais. Embora de mesma dimensão e material, tinha uma maçaneta diferente das demais. Enquanto as outras eram longitudinais aquela era esférica e dourada. Apresentava um relevo ao redor que facilitava o contato, impedindo que as mãos resvalassem com a umidade natural da pele.

Cristine teve o pressentimento de que aquele era o quarto de seu tio. Olhou para ambos os lados e certificou-se de que continuava sozinha. Sentiria-se constrangida caso fosse surpreendida naquela incursão exploratória não autorizada. Vagarosamente levou a mão ao metal reluzente e girou a maçaneta no sentido anti-horário. A fechadura girou com um suave ranger que fez Cristine sobressaltar-se e olhar novamente ao seu redor. A porta descerrou-se para a esquerda e Cristine adentrou lentamente naquele recinto. A penumbra reinava absoluta naquele lugar e Cristine pôde divisar a claridade do contorno da janela bem à frente da porta, na outra extremidade do quarto, mais para a sua direita. Fechou cuidadosamente a porta atrás de si e, envolta pelas sombras, rumou na direção da cortina de veludo ocre que impedia a luz do dia de entrar pelas vidraças embaçadas. Com movimentos lentos puxou a cortina para o lado, deixando o aposento ser invadido pela claridade natural do dia. Bem no meio havia uma cama imensa, cuja colcha de seda na mesma tonalidade da cortina ostentava bordado em seu centro o mesmo brasão da tapeçaria da escada. Cristine teve a certeza de que aquele era o quarto de seu tio.

Na delegacia de Doze Colinas o delegado Munhoz coçava o queixo, pensativo. Aguardava um fax da capital. Montando guarda ao lado do aparelho não esperou o segundo toque para levantar o fone do gancho e ouvir uma voz feminina dizer com gentileza:

- Fax para o delegado Munhoz, poderia me dar o sinal, por favor?
Instantaneamente o delegado apertou o botão de “receber” e recolocou o fone no gancho. Apenas uma folha foi sendo expelida aos poucos, sendo destacada avidamente assim que o sinal do término do envio soou com agudez. Munhoz leu atentamente o conteúdo daquele documento e secou o suor de sua testa com um lenço amarelado. Deixou-se cair em sua cadeira macia e pegou o telefone:

- Alô, Adroaldo? Munhoz. Preciso que venhas até aqui. Agora.

Cristine continuava sua incursão secreta pelo quarto do tio. De modo geral lhe parecia um quarto normal. Apresentava um ar austero e masculino, sendo que um odor de perfume de pinho achava-se entranhado no ambiente. Não conteve sua curiosidade e abriu as portas do guarda roupas do falecido tio. A organização do interior do móvel chegou a lhe causar certo constrangimento, principalmente ao compará-lo com o seu próprio armário e ao lembrar-se de como precisava se esquivar dos desmoronamentos de pilhas de roupas que vinham abaixo cada vez que abria as portas rapidamente. Os ternos estavam alinhados por cores e os pulôveres de lã impecavelmente dispostos em pilhas simétricas. As camisas também pendiam enfileiradas por tonalidades e comprimento de mangas. Até mesmo as meias e as cuecas repousavam alinhadas dentro das gavetas, dispostas por cores. Esta organização com certeza deveria ser obra de Anemary, no entanto o seu tio parecia que colaborava na manutenção da mesma.

Havia uma porta lateral que dava para um banheiro amplo. A mesma organização do quarto se repetia no banheiro. As loções pós-barba, os perfumes e os desodorantes masculinos se encontravam dispostos simetricamente no balcão da pia, em frente a um enorme espelho retangular.

Todo aquele lugar dava a impressão de esperar o dono adentrar a qualquer momento. Cristine suspirou ao lembrar que o tio jamais entraria ali.

De volta ao quarto pôde observar que a espessa cortina escondia algo mais do que simplesmente as vidraças da janela. Uma porta trancada à chave escondia sabe-se lá o quê, numa peça que parecia não ser muito visitada. Cristine instintivamente começou a procurar uma chave que pudesse descerrar aquela passagem. Olhou em volta e imaginou que o melhor lugar para se esconder uma chave seria num fundo falso de gaveta, ou entre as meias. Mas pensou melhor e resolveu procurar num lugar mais óbvio. Abriu a gaveta do criado mudo e o que encontrou foi uma pequena caixa de madeira. Retirou a caixa e abriu a tampa cuidadosamente. Dentro havia abotoaduras douradas, um relógio também de ouro, uma corrente de prata com um pingente em forma de flor de lis e, bingo, uma chave antiga que Cristine sabia de antemão em qual fechadura se encaixaria.

Pegou a chave e foi até a porta atrás da cortina. Introduziu a chave e girou-a trezentos e sessenta graus. Ouviu o estalar metálico da lingüeta da fechadura liberando o acesso ao quarto contíguo.

Cristine sentiu seu coração se acelerar dentro do peito. Deu um passo à frente e sentiu um odor de mofo, de coisas velhas, de poeira. O aposento estava escuro e Cristine precisou de alguns minutos até sua vista se adaptar à penumbra. Tateou os lados da porta até localizar um interruptor de luz. Ao acendê-lo pôde enfim visualizar o que aquela peça escondia. Espantou-se ao constatar que ali havia um atelier de pintura. Várias telas encontravam-se escoradas numa das paredes, algumas com trabalhos inacabados, algumas concluídas e outras tantas ainda virgens. As prateleiras laterais estavam tomadas por latas de tinta, solventes e bisnagas coloridas, além de flanelas e pedaços de tecidos usados para a limpeza dos pincéis. Também havia inúmeras espátulas, pedaços de ripas de madeira, pincéis, lápis, aquarelas e tudo o mais que se podia imaginar para dar vida e cor àquelas telas. Aquele atelier em nada lembrava o quarto do tio. Tudo se encontrava disposto aleatoriamente. As bisnagas coloridas se misturavam aos potes e pincéis como que numa dança pictórica. Nada se encontrava alinhado, nem tão pouco obedecia a uma lógica simétrica. Tudo ali era improviso e sentimento. “O outro lado do tio Artur”, pensou Cristine, “e por certo o mais encantador”.

Sua atenção voltou-se para o centro do aposento, onde um cavalete de madeira rústica suportava uma tela coberta por um tecido que caía até o chão. Cristine puxou o pano e descobriu a tela. Era o retrato do que Cristine julgou ser uma camponesa, sentada num tronco de árvore, com um pomar de pessegueiros floridos ao fundo. A jovem mulher segurava um ramalhete de lírios. O que deixou Cristine intrigada era que seu rosto estava disforme, como um borrão. Era como se o autor houvesse tentado modificar os traços da jovem e para tal tivesse que apagar o original. No lugar do rosto havia apenas uma mancha indistinta. Os cabelos da mulher eram longos, lisos e loiros, e esvoaçavam com a brisa. A pele era alva como a neve. As mãos eram delicadas e os dedos longos tinham um único adorno na mão direita: uma aliança de noivado. Por algum motivo que desconhecia aquela figura lhe parecia familiar.

Ainda observando seu redor Cristine percebeu mais uma porta que dava acesso a outra peça. Esta, porém, mais baixa que as demais, mais estreita também. Parecia mais um alçapão vertical do que uma porta. A loirinha aproximou-se com curiosidade. Desta feita a chave jazia pendurada num prego enferrujado cravado no centro da estrutura de madeira. Era uma chave antiga com um símbolo de um pentagrama esculpido em sua extremidade. Pendurada, a chave deixava à mostra o pentagrama invertido. Cristine não gostou do que viu. Conhecia alguma coisa de magia e sabia que o pentagrama invertido era associado à magia negra. Um calafrio percorreu-lhe a coluna. No entanto, movida pela curiosidade em conhecer a fundo o seu falecido tio, Cristine pegou a chave, mesmo que relutante, e descerrou aquela pequena porta de acesso. Instantaneamente um odor fétido e forte chegou-lhe às narinas, o qual a jovem não saberia conceituar. Recuou um pouco, inspirando profundamente para em seguida trancar a respiração e adentrar no breu. Procurou um interruptor de luz na escuridão daquele covil e ao encontrá-lo foi acometida por um sobressalto. A luz amarelada de uma lâmpada escurecida pelo pó mostrou à Cristine uma verdadeira cena de horror a qual a jovem observou por poucos segundos antes de sair correndo daquele lugar. Alguns ganchos de metal pendiam do forro e das paredes de pedra irregular, num cenário que lembrava um açougue insalubre. Uma mesa central ostentava carcaças ouriçadas de animais que pareciam querer saltar sobre quem se atrevesse a entrar ali. Os olhos das pequenas feras pareciam vivos pelo efeito da luz, porém o negrume da morte estava estampado na rigidez facial daqueles seres que certamente pertenciam a outro mundo. Algumas lâminas, facas e adagas encontravam-se espalhadas no tampo de madeira. Cristine abafou um grito de desespero e saltou dali o mais rápido que pôde. Fechou a porta atrás de si, trancando-a com a chave de metal. Depositou aquele símbolo nefasto no lugar onde estava e recuou assustada. De repente o atelier onde estava assumiu um ar ameaçador e Cristine sentiu o frio do medo percorrendo sua pele. Tratou de sair dali e trancar a porta, recolocando a cortina a esconder aquela passagem, que desejou não ter conhecido. Devolveu a chave à caixa de madeira no criado-mudo e abriu a porta do quarto vagarosamente, espiando o corredor antes de sair sorrateiramente e dirigir-se para seu quarto.

Estava tão absorta em sair dali o quanto antes que nem percebeu o par de olhos que a espiavam sorrateiramente pela fresta de uma das portas daquele vasto corredor.

Ao fechar a porta atrás de si e visualizar a mobília familiar do seu dormitório Cristine respirou fundo, aliviada. Seus batimentos cardíacos estavam acelerados e suas pernas trêmulas pela descoberta inesperada e sinistra.

Custava a crer no que vira. Três ambientes totalmente contraditórios, fazendo parte da vida de uma mesma pessoa. Novamente Cristine sentiu desconhecer o tio. Quando pensava conhecê-lo um pouco, vislumbrando uma pessoa sensível, novas descobertas a levavam a crer na existência de um homem dúbio e perverso, seguidor de sabe-se lá qual doutrina. Cristine estava confusa, e assustada. Despiu-se e deixou-se envolver por uma torrente de água morna e revigorante. Os jatos direcionados com força pela torneira metálica pareciam tirar um peso de cima dos ombros da jovem e davam a impressão de lavar as recordações de minutos antes. Depois do banho Cristine sentiu-se um pouco melhor.

Ficou em seu quarto até a hora em que uma voz familiar veio bater à porta e chama-la para o almoço: era Angélica.

Cristine saltou de sua cama e girou a chave na fechadura, destrancando a porta do quarto. Havia fechado a porta à chave instintivamente e Angélica percebeu o ruído metálico. Ao ver o rosto de Cristine sorriu-lhe afetuosamente, percebendo, no entanto, pela expressão da jovem, que algo havia acontecido.

- Oi. – disse Angélica – Tudo bem?
- Tudo. Tudo bem. – titubeou Cristine sem querer comentar com a amiga o que havia acontecido. Não queria parecer enxerida, indiscreta ou invasiva. Para ela entrar no quarto de alguém sem ser convidada era algo muito desrespeitoso. Ainda mais naquela situação. Resolveu guardar aquilo como seu segredo, pelo menos por enquanto.

A resposta hesitante de Cristine não convenceu Angélica. A morena era perspicaz e observadora. Sabia que algo não estava dentro dos conformes, todavia achou melhor deixar que Cristine lhe contasse quando tivesse vontade.

- E então? O que fizeste durante a manhã? – questionou Angélica.
- Nada. – respondeu Cristine de supetão. – Quer dizer... quase nada. Fiquei descansando aqui no quarto.
- Que bom. É ótimo quando se consegue relaxar um pouco...
- Pois é... Mas vamos descer?
- Vamos.

Almoçaram sem a presença do Dr. Mendes e de James. Somente Valesca e João Vítor estavam à mesa com elas. Conversaram sobre temas diversos. O tio Artur acabava sendo citado a cada novo assunto que abordavam. Ao término da refeição Valesca pediu licença e foi para seu quarto, seguida de seu deus grego. Angélica olhou a dupla se afastando, balançou a cabeça e deu um sorrisinho amarelo.

- Você tem certa restrição à presença de Valesca aqui, não é mesmo? – disse Cristine.
- Mais ou menos...
- Você não gosta dela?
- Não gosto e nem desgosto. Ela é indiferente. Já te falei o que eu acho.
- Mas então qual o motivo do desconforto?
- É que acho muito desagradável essa mulher vir com o amante dela. O padrinho nem esfriou no túmulo e ela já veio se instalar aqui, e acompanhada. Acho falta de respeito com a memória dele.
- Mas Valesca garante que João Vítor é seu irmão... – argumentou Cristine.
- Sim... e eu acredito em Papai Noel... – disse Angélica.
- É... acho que você tem razão... Mas ao menos ela tem ficado na dela, e prometeu ir embora depois da abertura do testamento.
- Ao menos isso. Mas a presença dela não chega a me perturbar não...
- Que bom. Alguns sentimentos são piores para quem sente, do que para quem é alvo... – conjeturou a loirinha.
- Com certeza – concordou Angélica – E se o padrinho não se importava com essa situação quem sou eu para me importar...

Cristine assentiu com um gesto de cabeça. Mudando de assunto disse:

- Eu precisaria usar a internet...
- Podes usar o computador do escritório, vem que eu te acompanho. – respondeu Angélica.

Defronte ao monitor de tela plana o Windows abria-se com uma velocidade abaixo do que Cristine estava acostumada a utilizar.

- É meio lenta essa encrenca! – sorriu Angélica. – Eu vivia dizendo pro padrinho comprar um equipamento melhor, mas ele dizia que este estava bom para o que ele queria...
- Não deixa de ser coerente... – riu-se Cristine.

Ao tentar uma conexão Cristine percebeu que o programa não respondia. Angélica testou o aparelho telefônico do recinto e funcionava perfeitamente.

- Deve ter queimado o modem – disse Angélica – Nos últimos dias houve muitas descargas de raios. Mas vamos fazer o seguinte: vamos até lá em casa. O meu PC tá conectando legal.
- Se não for te causar nenhum incômodo... – disse Cristine.
- Incômodo algum... – respondeu Angélica fitando-a nos olhos – Muito pelo contrário, poderá me causar prazer...

Novamente Cristine sentiu as faces coradas, porém sustentou o olhar e respondeu com um sorriso maroto:

- E isso é bom?...
- Ôôô... muito...

Cristine se virou e seguiu para a porta dos fundos do castelo, seguida por Angélica que observava o gingado de seu caminhar. Sentindo-se perscrutada Cristine tratou de valorizar cada passada, acentuando o movimento dos quadris, numa atitude provocativa velada. Em seu íntimo estava gostando daquilo.

Rumaram lado a lado na direção da casa de Angélica. Desta feita não estavam sob a proteção do vasto guarda-chuva que as havia deixado tão próximas em ocasião anterior. Não chovia, porém o tempo permanecia pesado e nebuloso. Um vento cortante impelido em fortes rajadas desgrenhava os cabelos das mulheres. Cristine, precavida, havia colocado um gorro de lã vermelho, o qual enterrava na cabeça cada vez que o vendaval fustigava seu rosto. Uma manta também de lã auxiliava a manter aquecido seu pescoço. Não havia o menor indicativo de que fosse parar de chover por aqueles dias. Instintivamente Cristine percebeu-se olhando desconfiada para a vegetação cerrada onde havia visto um vulto suspeito no dia anterior. Angélica notou seu gesto, todavia fingiu não perceber.

Na cabeça de Cristine fervilhavam as imagens mais recentes que registrara. Uma sensação de medo a invadiu novamente. Olhava a figura esbelta que caminhava a seu lado e lhe transmitia serenidade e segurança. Imaginava se Angélica conhecia ou não aquele verdadeiro “quarto dos horrores”. Mais ainda, conjeturava se a morena tinha conhecimento da finalidade daquele lugar. Até onde será que conhecia verdadeiramente o “padrinho”, como costumava referir-se ao seu tio? Parecia admirá-lo muito para conceber a idéia de um Artur nefasto, cujo lado negro escondia-se atrás das cortinas de um inofensivo atelier de pintura. Ou quem sabe a Angélica que lhe acompanhava não era essa pessoa que se apresentava? Quem sabe não só tinha conhecimento como participava sabe-se lá do quê naquele covil imundo e insalubre, que parecia a entrada do submundo, mais ainda, parecia o próprio antro das trevas? Dúvidas, incertezas, perguntas sem respostas... Enquanto não descobrisse a verdade sobre aquele lugar seria melhor manter-se em um prudente silêncio. Com estas incertezas turvando-lhe os pensamentos continuava sua marcha ao lado de Angélica. Tratou de desviar os pensamentos para evitar que Angélica percebesse sua expressão de aflição. Mas já era tarde. A morena já percebera que algo estava correndo fora do normal, e o que era pior, alheio a seus planos e, por conseguinte fora de seu controle. Esforçou-se para manter a calma. Puxou conversa sobre o mais comum dos assuntos: o tempo.

- E a chuva parece que não quer dar tréguas...
- É... – respondeu Cristine olhando para cima, para as pesadas nuvens que pareciam querer desabar sobre o mundo impiedosamente. Na verdade era assim que Cristine estava se sentindo naquele exato momento: desprotegida e ameaçada por sabe-se lá o quê.

Angélica continuou discursando sobre a chuva, tentando distrair a sua acompanhante, que lhe parecia tensa e ansiosa:

- O que me consola é que já estamos em meados de agosto, e no mês que vem já é primavera. Aí tu precisa ver o que é uma bela paisagem. As montanhas aqui parecem que criam vida própria. Vais gostar.
- Espero... – respondeu Cristine sem muita convicção na voz.
- Bom, já estamos chegando. – falou Angélica.

Para surpresa de Cristine elas não entraram na casa onde haviam estado no dia anterior. Após passarem pelo portão da frente Angélica desviou da casa de madeira azul e conduziu Cristine para os fundos daquele terreno, utilizando uma entrada lateral e independente. Cerca de trinta metros adiante havia outra construção, também de madeira, porém uma cabana.

- Por aqui, senhorita. – brincou Angélica apontando a porta da frente para Cristine.
- Esta casa é tua? – perguntou Cristine, já mais animada e menos tensa.
- É. – respondeu a morena com um sorriso no canto dos lábios.

O sorriso de Angélica tinha o poder de devolver à Cristine a confiança. Era como se a morena irradiasse uma aura luminosa ao sorrir e ao fixar seus olhos da cor do céu de verão. Instantaneamente, ao ser conduzida para dentro daquela casa, era como se qualquer angústia e medo se dissipasse. Respirou profundamente, aliviada.

Cristine olhou ao redor enquanto adentrava na casa. O andar térreo era uma peça ampla, dividida em sala e cozinha, além de um pequeno lavabo. Uma lareira de pedra chamou a atenção de Cristine, ostentando, estendido à sua frente, um espesso pelego de lã em cor natural. Aquele recanto como que convidava a sentar em boa companhia...

Cristine tirou seu cachecol e seu gorro enquanto observava cada detalhe com atenção. Aquela casa tinha a cara de Angélica. Era simples, porém deixava transparecer um bom gosto indescritível em cada detalhe da decoração. Tudo ali era claro e iluminado. A escuridão parecia não conseguir penetrar naquele ambiente. E isso agradou Cristine.

- Vamos subir? O computador ta lá em cima. – disse Angélica.

Subindo a escada de madeira descortinava-se um amplo e único aposento, tendo apenas uma divisória onde havia um banheiro bem maior do que o do andar térreo. Uma sacada frontal dava uma visão de parte da mata nativa ao redor, além de se poder visualizar os detalhes da casa dos pais de Angélica e parte do vale.

- Que casa bonita. – comentou Cristine.
- Obrigada. Mas é muito simples...
- Mas é linda.
- Digna de uma linda visitante... – disse Angélica provocativa.

Cristine sorriu. Angélica dirigiu-se a um móvel de canto ligando seu computador. 

- Pronto. Ao seu dispor. – disse Angélica cedendo lugar para Cristine.

A loirinha sentou-se e pôs-se a digitar. Fez o que precisava em menos de trinta minutos, enquanto a morena a aguardava sentada na sacada do quarto. Apesar do frio, Angélica gostava daquele canto. Costumava deitar-se numa rede que estendia em ganchos de metal fixados nos pilares da estrutura de madeira. Devido à chuva, no entanto, optou por simplesmente sentar-se na armação de madeira que servia de limite da sacada. Montada na madeira grossa dirigia olhares de viés à mocinha que usava seu computador concentradamente.

Ao terminar seu trabalho Cristine foi se juntar à Angélica na sacada. Arrastou um banquinho de madeira e sentou ao lado da morena, olhando-a de baixo para cima.

- Eu estou encantada com esta cabana... – disse Cristine.

Angélica limitou-se a sorrir. Cristine continuou:

- Faz tempo que você mora aqui?
- Uns oito anos.
- Mas foi você que construiu este lugar?
- Obviamente que não. Foram os pedreiros.
- Engraçadinha... – riu-se Cristine – Você entendeu a pergunta!
- Foi. Tem uma hora em que se precisa de um pouco de privacidade.
- Para???
- Trazer quem bem se entende para casa. – disse Angélica sem meandros.

Apesar de ter provocado, Cristine não esperava uma resposta tão direta. De fato esta era uma das virtudes de Angélica, ou defeito: não fazia rodeios. Cristine desconversou:

- Você disse que está de férias?
- Estava.
- Estava? E agora?
- To tirando uns dias de licença... de saúde.
- Você não ta bem?
- To. Quero dizer, mais ou menos.
- O que é que você tem? – questionou Cristine demonstrando preocupação.
- Nada sério... Estresse.
- Aãh... Mas isso é mais comum do que se pensa. Eu mesma já tive várias crises de estresse. É próprio dos dias atuais.
- Pois é... Mas, e aí? Conseguiste ver o que querias? – desconversou Angélica.
- Consegui. Muito obrigada por ter me emprestado teu computador.
- Não há de quê! – sorriu Angélica encantadoramente. – Tu queres um café? Ou um chocolate quente?
- Quero.

Angélica saltou de seu poleiro e Cristine levantou de seu banquinho. Desceram a escadaria de madeira e Angélica colocou leite para ferver. Haviam decidido tomar um chocolate quente.

- Como faz frio aqui nesta terra! – disse Cristine esfregando as mãos.
- A gente acaba acostumando e nem sente tanto assim. Na verdade hoje a sensação térmica está mais baixa por causa do vento.
- Pode ser... – concordou Cristine – Será que o Dr. Mendes chega cedo hoje?
- Não sei... Conforme o movimento do escritório.
- E o James? Onde será que se meteu? Eu não o vi o dia todo... – disse Cristine.
- Não faço a mínima idéia – respondeu Angélica secamente.
- Vocês realmente não se fecham, não é mesmo?
- Não. É como eu já te contei. Coisas de infância.
- Mas vocês poderiam ter superado isso, não?
- Poderíamos. Mas não superamos. Digamos que deva ser uma antipatia inata.

Cristine teve que sorrir.

- Ta rindo do quê? – quis saber Angélica.
- Dessa situação.
- E posso saber por quê???
- Angélica, vocês já são adultos... é estranho que adultos não consigam resolver picuinhas de infância.
- Pode até ser, mas realmente eu não consigo me dar bem com o James. E ele também não se esforça... Acho que vamos passar a vida toda assim. Mas o bom é que a gente se cruza pouco. Ele estava sempre na sombra do padrinho. Agora não sei o que vai fazer...
- Ele parece estar bem perdido... – disse Cristine.
- Parece... Mas ele sabe se virar. – disse Angélica num tom de voz que dava por encerrado o assunto James. – O chocolate ta pronto!
- Oba! O cheirinho ta maravilhoso! – disse Cristine.
Angélica serviu a bebida fervente em cuja mistura havia colocado, além de outras coisas, canela em pó e estendeu uma das canecas fumegantes para Cristine. Ao pegar a louça com ambas as mãos Cristine acabou envolvendo os dedos de Angélica com os seus. Os olhos se cruzaram e permaneceram unidos numa mágica atração. As mãos foram baixando, ainda se tocando, enquanto a caneca era depositada suavemente na mesa de fórmica amarelada. Sentindo um calor repentino Cristine permitiu que Angélica se aproximasse dela. Sentiu a respiração ofegante da morena aproximando-se de seu rosto. Entreabriu os lábios na intenção de receber a boca de Angélica de encontro à sua. Chegou a imaginar a maciez do contato daquela língua e o pulsar daqueles lábios nos seus. Porém no momento em que as bocas estavam prestes a se entregar num ósculo desejado por ambas ouviram passadas na área da frente e o barulho de alguém abrindo a porta, sem cerimônias. Separaram-se num sobressalto.

- Ã-rããã... Achei vocês! – disse Ariel ostentando um sorriso de orelha a orelha e tendo sua pasta com material escolar debaixo do braço.
- Ora, ora, se não é o meu aluno favorito! – brincou Cristine.

Angélica sorriu amarelo para o irmão, mal conseguindo disfarçar a expressão de frustração.

- Eu vi quando vocês passaram para cá, mas tava num plá com uma mina no telefone...
- Imagino... – disse Angélica.
- Bom, aí terminei o meu léro com ela e pensei: estudo ou não estudo? – continuou Ariel.
- Acho que a pergunta é: “perturbo ou não perturbo a Cristine”? – emendou Angélica.
- Começou a implicância, viu?... Se eu não estudo sou rebelde, se resolvo estudar sou “perturbante”... Vai entender as irmãs mais velhas!!! – disse Ariel.

Cristine gargalhou.

- Deixa ela – disse a loirinha – Vamos dar uma pegada na matéria sim!
- Quer um chocolate, ô cabeça de vento? – perguntou Angélica.
- Demorou pra oferecer, ein??? – provocou Ariel.
- Olha garoto...

Os três sorriram enquanto Angélica servia o irmão e alcançava sua caneca de chocolate, enquanto o envolvia num abraço e sapecava-lhe um sonoro beijo na bochecha. Os três sorveram a bebida fumegante e, talvez pelo efeito da canela em pó, os rostos assumiram uma coloração avermelhada, onde as bochechas pareciam ostentar plastas de rouge. As duas mulheres sentiram um calor diferente, e cada vez que os olhos se encontravam um fogo interno parecia reacender a cor das faces. Cristine colocou a culpa na bebida, já Angélica pensava no quê aquela criaturinha conseguia fazer com ela...

Ariel abriu sua pasta e espalhou seu material sem cerimônias sobre a mesa da cozinha. Cristine estudou com ele por quase três horas. Eventualmente a loirinha percebia os olhares de Angélica para ela e mais de uma vez surpreendeu-a lançando-lhe um disfarçado sorriso sedutor.

Quando a “professora” por fim demonstrou sinais de cansaço, Angélica a acompanhou até o castelo. Ariel ficou em casa, embora tenha se convidado para ir junto:

- Posso ir jantar com vocês?
- Te toca, guri! – respondeu Angélica – Tu já encheu o saco da Cristine o suficiente hoje...
- Mas eu não quero mais estudar, só conversar mesmo!
- Já falei que não. Cristine tem assuntos sérios para tratar com o Dr. Mendes. – respondeu Angélica categoricamente.

Ariel deu de ombros e despediu-se delas:

- Ta bom então... Tchauzinho, Cristine... E até amanhã.
- Até. – respondeu Cristine afagando a cabeleira loira de Ariel.
- Não dá muita confiança pra esse guri, senão ele não te deixa mais em paz! – disse Angélica.
- Tudo bem, ele é um amor...
- Mas chato. E convenhamos... inoportuno – disse a morena à meia voz.

Cristine baixou os olhos e sorriu. No trajeto não comentaram absolutamente mais nada sobre o quase beijo.

Quando chegaram ao castelo Dr. Mendes já estava lá. Jantaram na companhia de Valesca e João Vítor. James continuou sem aparecer. Cristine, durante o jantar, perguntou por ele:

- Morris, você sabe onde está James?
- Em seus aposentos, senhorita. Sr. James esteve indisposto durante o dia e pediu que levássemos seu jantar no quarto. Pede desculpas por não estar acompanhando a senhorita.
- Tudo bem, eu só fiquei preocupada com ele... – disse Cristine.
- Cristine, nós vamos proceder a abertura do testamento na quarta-feira, dia vinte, as quatorze horas. – disse Dr. Mendes.

Cristine suspirou.

- Tudo bem.
- Não vejo a hora! – interpelou Valesca – O meu querido Artur por certo lembrou de mim...

Dr. Mendes e Angélica simplesmente ignoraram o comentário. Cristine achou por bem também não estender aquele assunto. Dr. Mendes tratou de mudar o rumo da prosa.

- Amanhã já é sábado... – disse o advogado – o tempo parece realmente voar...
- Pois é... – concordou Cristine.
- Amanhã se tu quiseres eu te levo pra conhecer a estufa – disse Angélica – É um lugar muito bonito.
- É mesmo. – concordou Dr. Mendes.
- Eu adoraria. – respondeu Cristine.
- Então, está combinado. – disse a morena.
- Combinadíssimo.

Depois do jantar Angélica despediu-se do grupo e foi para sua casa, recordando a sensação que a proximidade com a boca de Cristine lhe causara. No entanto, uma ruga de preocupação lhe surgiu na testa, e não era por causa da atração que sentira...

Em seu quarto Cristine rememorava sua expedição matinal. Causava-lhe mal estar saber que ali bem perto havia um aposento macabro que jazia nas sombras daquele castelo. Ao dirigir-se ao seu dormitório deu graças aos céus por Adelaide tê-la acompanhado portando toalhas limpas para trocar, uma vez que não o havia feito no turno da manhã. A arrumadeira esteve fora a manhã toda, alegando estar acompanhando seu pai num exame médico. Cristine chegou a cogitar a possibilidade de pedir que Angélica subisse com ela, mas achou prudente não fazê-lo, tanto para evitar especulações por parte da morena quanto para não demonstrar quão intensamente tinha reagido à aproximação desta. De modo que suspirou aliviada ao ver que Adelaide a acompanhava. O que menos tinha vontade naquele momento era circular à noite sozinha naqueles corredores.

Antes de entrar em seu quarto Cristine não conseguiu deixar de lançar um olhar amedrontado para a porta do quarto de seu tio, que ficava no final do corredor, Oxalá bem depois do dela. Logo após a arrumadeira retirar-se Cristine chaveou a porta. Por via das dúvidas encostou uma cadeira pelo lado de dentro, escorando-a logo abaixo da maçaneta. Isso evitaria qualquer tentativa de entrarem em seu quarto. Sentou-se na cama e percebeu-se com medo. Respirou fundo e tentou racionalizar. “O que é isso Tine?”, pensou, “Não viaja... Ta com medo do quê afinal? De fantasmas? Assombrações? Isso não existe! E o que quer que existisse naquele quarto morreu com o tio Artur”. Cristine levantou-se e retirou a cadeira que havia colocado junto à porta. Um pouco mais tranqüila tomou um banho e aconchegou-se sob as cobertas quentes. Antes de pegar no sono, instintivamente, puxou as cobertas tapando sua cabeça. Sempre repetia aquele gesto quando sentia medo, desde a infância, nas inúmeras noites mal dormidas nos orfanatos onde viveu. Quase entregue aos braços de Morfeu lembrou da boca de Angélica e adormeceu com um sorriso nos lábios.

 

*********

 

No sábado pela manhã Cristine encontrou Dr. Mendes instalado na mesa das refeições tomando seu café da manhã. James estava com ele e conversavam sobre negócios. Cristine inteirou-se das atividades da família e teve uma breve noção do que a aguardaria, conforme o que estivesse estipulado no testamento do tio. Artur tinha uma firma de importação de produtos eletrônicos, peças e componentes. Quem estava administrando tudo naqueles dias era James. O rapaz parecia abatido, pálido e com olheiras.

- Você está melhor, James? – perguntou Cristine.
- Estou. Foi só uma indisposição. Mas já me sinto bem. Desculpe-me não tê-la acompanhado nas refeições ontem...
- Ora, por favor, nem se desculpe por isto. – respondeu Cristine.
- Minha filha – disse Dr. Mendes – Acredito que seja interessante tomares um pouco mais de conhecimento acerca dos escritórios e das representações do falecido.

Cristine deu de ombros e o advogado continuou:

- Creio que James e eu possamos coloca-la a par, mais tarde, no escritório.
- Por mim tudo bem. Só não sei se vai servir para alguma coisa... – disse Cristine.

Fez-se um silêncio e Cristine continuou:

- Não seria mais lógico esperar a abertura do testamento? Acredito que dentro de cinco dias eu partirei, assim como cheguei aqui... E retomarei a minha vida de antes.

Novamente o advogado preferiu o silêncio. Somente anuiu:

- Tu que sabes...

James permanecia calado, como se aquela conversa não lhe dissesse respeito. Ele tinha uma aparência de pessoa triste, pensou Cristine. Ela imaginou como devesse ter sido a vida dele antes de estar ali, e sentiu compaixão. E tentou conceber também como deveria ter sido a relação dele com o tio. Pelo que ouvira falar, novamente foi tomada por um sentimento de pena. James deixava transparecer justamente isso: fragilidade e tristeza. Provavelmente a tristeza estivesse acentuada com a perda do tio, que deveria ser o seu norte. Cristine continuou a observá-lo discretamente. Havia algo em seu olhar que deixava Cristine mobilizada. Não saberia definir ao certo. Sempre fôra boa observadora da natureza humana, mas James parecia ter uma redoma que impedia qualquer tentativa de entender seu interior. Talvez porque custasse a encarar as pessoas. Costumava falar desviando os olhos do seu interlocutor. Era, de fato, uma incógnita.

Ao término do café James disse que precisaria ir até a cidade, sendo que só retornaria à noite. Cristine preferiu ir até a biblioteca para procurar algo para ler. Dr. Mendes a acompanhou. Distraíram-se na busca e quando deram por si já era quase hora do almoço.

Quando desceram e sentaram-se na sala de estar até o almoço ser servido Angélica se juntou a eles.

- Bom dia. – disse a morena.
- Bom dia. – responderam ambos, sendo que Cristine continuou – Pensei que eu tivesse sido convidada para conhecer uma certa estufa...
- Mas o dia recém começou, senhorita afobada... – respondeu com um sorriso de viés que deixou Cristine sem jeito. – Depois do almoço podemos passar a tarde lá. Tem muita coisa para se ver...
- Que bom! O senhor também vem Dr. Mendes? – quis saber Cristine.
- Não... Eu já conheço a estufa, detalhadamente, alias... Artur vivia metido lá, dando palpites no trabalho de Israel...

Angélica sorriu tristemente, baixando os olhos.

- Mas você vai realmente ficar encantada – continuou o advogado.
- Pelo discurso de vocês creio já estar encantada!

Almoçaram tendo Valesca e João Vítor como companhias. Valesca estava visivelmente ansiosa com a proximidade da abertura do testamento, porem não fez nenhum comentário acerca disto. Manteve um silêncio respeitoso. Depois do almoço, como de costume, Valesca e seu suposto irmão desapareceram das vistas dos demais.

Dr. Mendes foi para o escritório e as duas mulheres seguiram para a estufa. Conversavam animadamente. Cristine havia acordado melhor. A sensação de medo e desconforto havia se amenizado. Provavelmente porque sonhara, não com fantasmas, mas com anjos... de lindos olhos azulados.

Garoava naquele início de tarde e Cristine não pôde deixar de alegrar-se com aquilo, pois novamente foi acolhida no abraço de Angélica que segurava seu guarda-chuva negro sobre a cabeça de ambas. 

A estufa ficava no outro extremo da propriedade, na direção oposta à casa de Angélica. Seguiram por outra viela por cerca de trezentos metros. A estufa constituía-se de uma enorme armação de madeira revestida por um plástico transparente e espesso. Aquele sistema permitia que no verão o revestimento fosse suspenso deixando o ambiente arejado e na temperatura ideal para as espécies que abrigava. O telhado baixo era coberto por telhas francesas, tendo algumas unidades de telhas transparentes, o que permitia utilizar iluminação natural.

Em seu interior havia uma variedade imensa de flores, folhagens, mudas de árvores ornamentais, nativas e frutíferas, enfim, incontáveis vasinhos enfileirados em prateleiras em formato de arquibancadas. O local todo deveria ter mais de quatrocentos metros quadrados.

Cristine observava boquiaberta a infinidade e a beleza das espécies ali existentes. Havia orquídeas que, segundo Angélica, devido ao sistema de calefação floresciam durante todo o ano. As araucárias bebês enfileiradas simetricamente pareciam miniaturas de pinheiros de natal. As variedades de samambaias que projetavam suas folhas como longos braços esverdeados rumo ao chão encantaram Cristine.

Numa prateleira central encontraram Israel colocando terra adubada numa fileira de vasos, ainda vazios, preparando-os para receberem uma vida verde em seu seio.

- Oi pai. – disse Angélica.
- Olá. – respondeu o velho.
- Senhor, que belo trabalho desenvolve aqui! – elogiou Cristine.
- Que é isso... – respondeu Israel – Eu só auxilio um pouco essa maravilhosa natureza que nos cerca, a mão verde de Deus.
- Não se subestime – continuou Cristine – Eu soube de fonte segura que o senhor é quem mantém este lugar lindo, além de tê-lo construído.

Israel sorriu. Logo em seguida Cristine submeteu o pai de Angélica a toda sorte de perguntas sobre aquelas plantas, ao que o velho pacientemente respondia em detalhes. Na verdade era um prazer para ele falar sobre seu trabalho, principalmente quando percebia o real interesse de alguém. Israel explicava a origem de cada planta, sua floração, peculiaridades, nome científico, enfim, informações de quem conhecia com propriedade tudo aquilo.

Passaram quase que toda a tarde ali, sem que Cristine tivesse visto tudo que havia para ser conhecido naquele lugar. Por volta de cinco horas Israel convidou-as para tomar um café, em casa.

- Vai indo, pai, eu ainda quero mostrar o meu xodozinho para Cristine. – disse Angélica.

O velho assentiu e dirigiu-se para casa, deixando-as sozinhas naquela imensidão esverdeada.

- Vem aqui. – disse Angélica seguindo por um dos corredores estreitos sendo acompanhada de perto por Cristine.

Desta feita foi a vez de Cristine observar sem cerimônias o gingado do caminhar de Angélica. Balançou a cabeça e tratou de observar as plantas.

Quase no final do corredor havia uma prateleira exclusivamente destinada a uma plantação de morangos. Cristine arregalou os olhos. Adorava morangos!

- Aqui está a minha seção favorita deste lugar – disse Angélica colhendo um dos morangos, retirando seu pequeno caule e colocando-o sob a água corrente de uma torneira próxima.

Levou o fruto avermelhado à boca e fez uma expressão de deleite ao saboreá-lo e sentir a doce acidez de sua polpa. Em seguida colheu outro e repetiu o gesto, porém estendeu o fruto na direção da boca de Cristine. A loirinha entreabriu os lábios e deu uma mordiscada no morango enorme, deixando o caldo doce escorrer do canto de sua boca. Mastigou a polpa adocicada de olhos fechados.

- Huuuummm... Que delícia! – exclamou.

Angélica estendeu-lhe a outra metade do morango e quando Cristine abocanhou a parte de baixo do fruto não pôde evitar o contato de sua boca com a ponta dos dedos de Angélica. Esta sentiu a maciez dos lábios de Cristine na ponta de seus dedos e uma sensação de excitação a invadiu. Intencionalmente Cristine demorou mais do que seria necessário para abocanhar a fruta. Deixou propositalmente seus lábios em contato com os dedos de Angélica, chegando a sugar delicadamente a ponta de seu indicador. Sentiu o estremecimento da morena e encarou-a com certa dose de malícia. Angélica manteve o olhar, sentindo um fogo subir-lhe pelo corpo. Com movimentos lentos colheu outro morango, lavou-o e novamente o levou aos lábios de Cristine. Só que desta vez, quando a loirinha fez menção de abocanhá-lo, afastou-o um pouco de seus lábios, numa brincadeira sensual. Aproximou-se dela, entregou o morango em suas mãos e disse:

- Minha vez...

Cristine não se fez de rogada. Pegou o fruto suculento e o levou na direção da boca de Angélica, que lhe sorria lascivamente. A morena mordeu uma parte dele e também fechou os olhos, sentindo seu caldo escorrer-lhe no canto da boca. Cristine levantou sua mão livre interceptando aquele filete adocicado que escorria dos lábios da mulher à sua frente. Angélica emitiu um gemido baixo ao sentir o toque de Cristine em seu rosto, afagando aqueles dedos com um movimento lateral de rosto. Ainda com a mão livre Cristine contornou a boca de Angélica com a ponta dos dedos, enquanto esta abria os olhos e entreabria a boca, como que suplicando o restante do fruto. Cristine levou a polpa avermelhada novamente aos lábios de Angélica, que desta vez extrapolou os limites da fruta, passando os lábios sensualmente nos dedos da loirinha, que sentiu uma excitação crescente dentro de si.

Sem desviar os olhos de Cristine, Angélica pegou outro fruto, desta vez menor e o levou à boca da loirinha. Esta o abocanhou completamente, também extrapolando os limites do fruto e aprisionando os dedos de Angélica entre seus lábios. A morena deixou-se prender por aquela boca sedenta e permitiu que Cristine lambesse delicadamente seu indicador, depois passasse a língua languidamente por seu polegar, sugando o caldo que escorria por ele. De olhos fechados Cristine pode sentir quando os dedos de Angélica libertaram-se de seus lábios e escorregaram na direção de sua nuca segurando-a com firmeza e trazendo-a para junto de si. A sensação que sentiu a seguir foi um misto de prazer e êxtase. A boca de Angélica tocou a sua com suavidade e doçura. Em princípio os lábios movimentaram-se contornando os seus próprios, beijando-os suavemente.

Os corpos colaram-se como que envoltos por fios invisíveis. Elas podiam sentir a incandescência da pele. As mãos passeavam pelos contornos e curvas, numa viagem exploratória e prazerosa.

Cristine entreabriu os lábios, exigindo mais. Queria a maciez da língua de Angélica em contato com a sua. Uma umidade invadiu as duas mulheres que se acariciavam abraçadas. Cristine passava sua língua no céu da boca de Angélica, penetrando-a agora com urgência e volúpia. E Angélica correspondia plenamente aos estímulos daquela pequena mulher. E lhe dava o que ela, através dos sentidos, lhe implorava.

Aquele beijo intenso, molhado e quente foi a melhor sensação que Cristine já experimentara na vida. Nunca ninguém a havia beijado com aquela intensidade, com aquela entrega. Nunca, através de um simples beijo, sentiu-se tão desejada como naquele momento. Quando encarou Angélica viu o fogo e o desejo latente em seus olhos. Sorriu-lhe com sensualidade enquanto sentia novamente a pressão da boca de Angélica na sua e o movimento de sua língua buscando dar e receber prazer.

Angélica desejou que aquele beijo durasse uma eternidade. Teve vontade de beijar aquela boca assim que a viu pela primeira vez. Embora isso pudesse interferir em seus planos estava disposta a arriscar-se para viver plenamente aquele momento. Queria aquela mulher, toda, inteira. Seu corpo tremia de excitação e sua respiração ofegava de encontro à língua colada na sua.

Ambas sentiam a vontade quase que incontrolável de arrancar todas aquelas roupas que impediam que seus corpos se tocassem. Sentiam-se arder e os sexos latejavam.

Pouco a pouco foram aliviando a pressão das bocas e encararam-se amorosamente, uma mergulhada nos braços da outra.

- Eu adoro morangos, sabia? – brincou Cristine.
- Deu pra perceber... – respondeu Angélica sorrindo.
- Mas confesso que nunca haviam me servido assim...
- Assim como? – provocou Angélica.
- De uma forma tão... deliciosa.
- Folgo em saber – riu-se a morena – E por acaso a senhorita gosta de outras frutinhas também?...
- Depende...
- Depende??? De quê?
- De como me são servidas... – respondeu Cristine com malícia.
- Ããh... Eu estava me referindo a um fondue... de frutas.
- Adoro!
- Então que tal a gente fazer um lá em casa... daqui há pouco?
- Eu topo. Mas agora eu quero mais um pouquinho desses suculentos morangos... – disse Cristine colando novamente sua boca à de Angélica.

Depois de mais algumas carícias as duas mulheres conseguiram, mesmo que a contragosto, desvencilharem-se uma da outra. Angélica acompanhou Cristine até o castelo e combinou de buscá-la dentro de uma hora e meia.

Neste meio tempo a morena providenciou o que precisava para o fondue e tomou um banho. Perfumou-se e escolheu uma roupa que valorizava seus contornos. Queria estar especial naquele fim de tarde.

Cristine, mergulhada na água quente da banheira de seu quarto, estava ansiosa para estar de novo com Angélica. Queria sentir aquela boca novamente. E muito mais. Queria ser tocada com a mesma intensidade daqueles beijos. De fato não conseguia lembrar de nenhuma sensação igual. As noites de intimidade com Mariana ultimamente estavam limitadas a uma meia dúzia de beijos e a um orgasmo, e pronto. Cada qual se vestia, pagavam o motel e iam para suas casas. A sua “ficante” não queria maiores envolvimentos. E Cristine não sentia mais reciprocidade nas carícias, nem tão pouco um ardor como vira nos olhos de Angélica. Deu-se conta que merecia muito mais do que vinha tendo, não queria mais nenhuma migalha afetiva. Queria uma mulher inteira, de corpo e alma numa relação, nem que fosse somente por uma noite, mas queria uma mulher plena.

Depois que saiu da água e secou-se vestiu um blusão de lã verde oliva de gola role e uma calça preta. Passou a mão pelos cabelos molhados ajeitando-os como costumava fazer sempre, sem usar pente. “As vantagens do cabelo liso”, pensava. Colocou seu perfume preferido e enrolou o pescoço num cachecol de lã. Calçou um par de luvas, pois a temperatura estava caindo muito. Jogou seu casaco pesado por cima, depois de calçar as botas. Olhou-se no espelho e viu uma mulher diferente da que acordara naquela manhã. A donzela submissa havia cedido lugar à mulher decidida a gozar as delícias do prazer e da sedução. Com esses pensamentos desceu as escadarias de pedra com passos decididos e firmes, sem nem se lembrar do que vira no final daquele corredor pela manhã.

Encontrou Regina na cozinha e lhe disse:

- Regina, eu não vou jantar aqui hoje. A Angélica me convidou para um fondue na casa dela.
- Aquela menina vive inventando coisas... Mas esse negócio é bom mesmo! – riu-se Regina.
- Poderias avisar o Dr. Mendes e o James? Para que não se preocupem.
- Pode deixar que eu aviso.

Quando Angélica chegou ao castelo Cristine já a guardava na cozinha, conversando com sua mãe.

- Oi. – disse com a cara mais deslavada do mundo.
- Oi. – respondeu Cristine.
- E aí? Pronta pra ser minha cobaia? – perguntou a morena.
- Como assim? Você nunca fez um fondue antes? – questionou Cristine – “Ou será que pensa que eu nunca fui com uma mulher para a cama?”, pensou divertida.
- Calma... É que vou estrear um aparelho de fondue novo. Espero que seja bom.
- Vai ser... – disse Cristine, deixando transparecer segundas intenções na voz, percebidas somente por Angélica, que disfarçou.
- Vamos então? – disse a morena.
- Vamos.
- Ô mãe... não comenta com o Ariel que a gente vai fazer fondue, senão o cabeçudo vai se enfiar lá em casa e torrar a paciência da Cristine. – pediu Angélica.
- Pode deixar, eu não comento não – disse Regina rindo – Aquele moleque enche o saco mesmo de vez em quanto!
- Valeu mãe!
- Tchau Regina! – disse Cristine.
- Tchau guriazinhas.

Elas seguiram a pé para a cabana de Angélica, sem a proximidade oportunizada pelo guarda-chuva. Ironicamente a chuva havia estiado embora o céu permanecesse encoberto. Eram seis e meia, porém a noite já havia espalhado suas sombras pelas montanhas e pelo vale. Somente uma tênue luminosidade no poente parecia lutar contra a noite que caía abruptamente. O mesmo vento cortante da tarde continuava fustigando o rosto e teimando em penetrar pelas dobras das vestimentas. Cristine encolheu-se devido ao ar gelado e Angélica passou o braço ao redor de seus ombros.

- Ta com frio?
- To.
- Chega pertinho então... Eu te esquento...
- Isso é uma promessa?
- Ou uma ameaça! – completou Angélica em tom de brincadeira.

As duas gargalharam, aproveitando o momento de descontração para se aproximarem bem, e caminharam agarradinhas até perto do portão.

- Olha só, vamos dar um drible no Ariel, senão a gente vai ter companhia no fondue... – disse Angélica pegando Cristine pela mão e fazendo um pequeno desvio no trajeto.

Ao invés de seguirem pelo caminho principal contornaram a propriedade pelos fundos, procurando não fazer barulho. Na casa de Angélica também entraram pela porta dos fundos.

Depois de fecharem a porta à chave Angélica tirou seu casacão e ajudou Cristine a desvestir o seu. Penduraram os casacos na guarda de uma cadeira e foram para a sala. Ali na mesinha de centro, defronte à lareira, o aparelho de fondue já esperava as mulheres famintas. Uma tábua de frios preparada aguardava ao lado de uma garrafa de vinho.

- Só falta descascar algumas frutas... – disse Angélica.
- Eu te ajudo – falou Cristine arregaçando as mangas do blusão e lavando as mãos na pia da cozinha.

Angélica também lavou as mãos e elas se puseram a descascar e picar as bananas, as laranjas, o mamão, as mangas, o melão e as maçãs. Os morangos e as uvas já estavam lavados e colocados em tijelinhas. Com as frutas dispostas em pratinhos foram para a sala. Angélica acendeu o aparelho de fondue e abriu a garrafa de vinho.

- Tu tomas vinho? – perguntou a morena.
- Tomo.
- Se preferires outra bebida...
- Eu te acompanho no vinho. – disse Cristine.

Angélica serviu duas taças e inclinou-se, oferecendo uma à Cristine.

- Saúde. – brindaram

Ambas bebericaram o vinho devagar, sentadas uma em frente à outra no pelego de lã, tendo a lareira acesa como fonte de luminosidade naquele canto da sala. Angélica havia deixado o ambiente à meia luz. Elas observaram-se mutuamente à luz tremulante das labaredas que se agitavam atiçadas pelos nós de pinho.

Angélica vestia uma calça jeans e um suéter cor de telha. Havia tirado as botas e estava somente de meias, assim como Cristine, que deixara seu calçado junto à porta da rua. Todo o assoalho da casa de Angélica era de madeira, o que tornava aquele ambiente aconchegantemente quente. 

Degustaram os frios e quando o chocolate já havia derretido na cumbuca ovalada passaram a espetar as frutas e mergulha-las naquele recipiente refratário.

- Huuummm... isso é um alimento dos deuses... – disse Cristine.
- Digno de uma deusa... – respondeu Angélica lhe estendendo um morango com chocolate.

Cristine olhou para ela com imenso carinho. Sentia sinceridade em suas palavras. Mordeu a fruta saboreando-a lentamente.

Angélica aproximou-se dela, deitando-se de lado no pelego e apoiando-se no cotovelo. Ficou de frente para Cristine e pegou outro pequeno morango, desta vez com a mão, mergulhando sua extremidade no chocolate quente tomando o cuidado de não queimar seus dedos. Repetiu o gesto da tarde e levou a fruta na direção dos lábios de Cristine. Novamente quando esta quis abocanhá-lo afastou o fruto em sua direção, obrigando a loirinha a aproximar-se e ficar quase que em cima dela. Sorriram.

- Vem pegar – disse Angélica – segurando o morango entre os próprios lábios.

Cristine sentiu todo seu corpo se acender e levou sua boca até a de Angélica. Apertou os lábios contra os delas e ambas sentiram a doçura da fruta escorrendo nas bocas. Entrelaçaram-se e beijaram-se com urgência e ardor. As línguas de fogo da lareira crepitavam no mesmo ritmo frenético que as línguas das amantes.

Deitadas de lado, uma em frente a outra, acariciavam-se enquanto as bocas faziam jogos amorosos. Num clima de namoro adolescente ficaram um bom tempo brincando com as frutas e o chocolate. Lambuzaram-se com o doce e com a polpa das frutas. Lambiam as bocas e os arredores numa brincadeira divertida e sensual.

O azul dos olhos de Angélica refletia as chamas alaranjadas da lenha que ardia e esquentava o ambiente. Sorriam uma para a outra como duas jovens descobrindo a paixão. Cristine acariciava o rosto da morena acompanhando o contorno daquela face angulosa e a linha levemente arrebitada de seu nariz. A boca simétrica por vezes ria com um dos cantos mais contraído que o outro, conferindo um charme todo especial àquele sorriso que emoldurava a dentição perfeita.

Quando a calda de chocolate terminou no recipiente elas relegaram a segundo plano aquele divertimento. Saciada a fome queriam mais...

Angélica puxou Cristine para bem perto de si. Deitou-se de costas na maciez do pelego de lã e fez a loirinha deitar-se sobre ela, acariciando suas costas por sobre a textura aveludada de sua blusa de lã. Cristine sentiu o ardor do corpo daquela mulher sob o seu e intencionalmente começou a fazer uma pressão com seus quadris de encontro ao púbis da morena. A reação de Angélica foi imediata. Sentiu agigantar-se o desejo dentro dela. Seus olhos semicerraram-se e ela segurou os quadris de Cristine com firmeza, movimentando-os vagarosa e ritmicamente contra os seus, abrindo levemente suas pernas, na intenção de encaixar Cristine entre elas. Ambas sentiram-se totalmente molhadas. E queriam mais.

As vestes pesadas tornaram-se barreiras a serem transpostas. Sentindo um rubor de excitação nas faces Cristine sentou-se sobre Angélica, que permanecia deitada, e a fitou com fogo nos olhos. Sorriu lascivamente. Levou suas mãos ao seu blusão puxando-o para cima e descobrindo seu torso, que não tinha mais nada a cobri-lo além da lã verde oliva. Angélica contemplou os seios pequenos e desnudos expondo-se sem pudores e oferecendo-se a ela. Levou suas mãos até os mamilos rosados e rijos e contornou a ambos, fazendo Cristine gemer de prazer. Ainda insatisfeita Cristine desabotoou sua calça e num movimento ágil se desfez dela e da calcinha rendada também. Angélica estava com a boca seca e os sentidos totalmente entorpecidos pela visão daquela deusa em forma de gente que, sentada nua sobre ela, esfregava-se implorando ser tocada. Podia ver o reflexo do rastro molhado que Cristine estava deixando em sua calça jeans. Os pelos louros encharcados continuavam a se mover ritmicamente contra seus quadris.

Num movimento ousado Angélica descerrou o zíper de sua calça e Cristine a puxou para baixo, enquanto a morena se desfazia da parte de cima de sua vestimenta. Totalmente nua sentiu a maravilhosa sensação do contato do sexo de Cristine com o seu e gemeu alto, contorcendo-se. Sentiu o jorro que escorria de Cristine misturando-se ao seu próprio. jorro que escorria de Cristine misturando-se ao seu prontorcendo-se. seus quadris.e cima de sua vestimenta. lEstava preste a gozar com aquele simples contato. Respirou fundo e controlou sua explosão iminente. Sentiu o olhar de Cristine fixo em seus peitos morenos e gemeu novamente quando a loirinha inclinou-se e abocanhou cada um deles, suavemente, sugando-os um a um, sem pressa. Apoiou-se nos cotovelos para facilitar o acesso de Cristine a seus mamilos intumescidos. A cada movimento da língua de Cristine, Angélica gemia baixinho.

Num movimento mais brusco a morena sentou-se e abraçou Cristine, encaixando-a sentada entre suas pernas. Passou as mãos pelas suas costas, sentindo-a arrepiar-se por completo. Levou sua boca até os peitos da loirinha sugando-os com suavidade. Cristine arqueou seu corpo para trás, segurando a cabeça de Angélica enquanto esta lhe lambia os mamilos. Apertou sua cabeça de encontro aos seios exigindo que os sugasse com vigor, o que Angélica prontamente fez. Desta vez foi Cristine quem gemeu alto.

Deliciando-se com as reações da mulher sentada sobre ela Angélica baixou sua mão acariciando as nádegas e, por trás, chegou até o sexo de Cristine. Neste momento sentiu a mulher movimentar seus quadris para trás, na direção de seus dedos, como que implorando para ser penetrada. Angélica sentiu o quanto Cristine estava encharcada e seus dedos moveram-se escorregadios para dentro daquela cavidade morna e macia. Cristine emitiu um gemido gutural e abocanhou a boca de Angélica, num beijo ardente. Iniciou um movimento de pressão contra os dedos da morena que a penetrava ritmicamente. Angélica continuava os movimentos de vai e vem quando sentiu que Cristine ajoelhou-se sobre ela fazendo com que seus dedos saíssem de dentro de seu sexo. Cristine puxou Angélica para cima, a fim de que ficasse na mesma posição que ela, ajoelhada à sua frente. Colou seu corpo ao da morena e colocou seus dedos ágeis diretamente sobre o ponto de prazer da morena. Cristine sentiu o volume rosado aumentar de tamanho em sua mão e massageou-o com habilidade, arrancando sussurros de prazer da boca da morena.

- Aããhhh... ããããhh... ããããhhh...
- Você quer aqui?... – gemeu Cristine no ouvido de Angélica.
- Quero... assim... mais... isso... mexe... ãããã... ãããã...

Cristine se deliciou com a súplica de Angélica, que arregaçava suas pernas expondo cada vez mais seu sexo incandescente, rogando ser possuída.

A morena também colocou sua mão entre as pernas de Cristine e sentiu-a estremecer. Iniciou um movimento firme de vai e vem no botão carnudo e totalmente escorregadio pelos sumos de sua excitação. Elas não estavam agüentando mais e concomitantemente aceleraram a fricção, gemendo alto e mexendo os quadris. A explosão do orgasmo veio quase que imediata. Espasmos agitaram os corpos das amantes enquanto as chamas crepitavam na lareira. Com as pulsações ainda aceleradas e sentindo todo o corpo latejar de prazer, abraçaram-se fortemente. Permaneceram de joelhos, naquele abraço pleno de intimidade e de compartilhar.

Beijaram-se com suavidade e doçura enquanto se deitavam abraçadas, esperando que as respirações e os batimentos cardíacos voltassem ao ritmo normal.

Olharam durante um tempo para as labaredas que crepitavam, acariciando-se em silêncio, até que Cristine falou:

- Você sempre seduz mulheres indefesas com esta estratégia do fondue? – brincou.
- Não... Somente aquelas que acho que não cederão aos encantos dos meus belos olhos.
- Bom... então eu fui seduzida pelos dois... – respondeu Cristine sorrindo.

Angélica beijou-a com suavidade. Cristine continuou:

- Você conseguiu fazer todo este contratempo da minha vida valer a pena, sabia?

Angélica a apertou com força contra o peito. Cristine continuou:

- Mais que isso, você fez com que eu me sentisse mulher de novo. Depois de tanto tempo...
- Como assim? – quis saber Angélica.
- Fazia bastante tempo que eu não sentia esse... esse ardor, esse tesão todo.
- Isso eu duvido... Como o mundo pode ser cego a ponto de não te desejarem assim? Tu és uma mulher maravilhosamente bela... Tenho certeza que um batalhão de mulheres e de homens gostaria de estar aqui no meu lugar agora...

Cristine riu-se evidenciando não crer naquelas palavras.

- Você é exagerada...
- E tu te subestimas muito. Te olha no espelho, guria! Tu é linda sim. Por fora e por dentro...
- Você me conhece pouco...
- Mas raramente me engano. E agora eu tenho a certeza. O que eu vi em ti assim desnuda, e eu falo de nudez de máscaras, foi a plena certeza de estar com uma fada nos braços... uma pessoa do bem.

Cristine emocionou-se e apertou Angélica contra o peito.

- Mas tem uma coisa me incomodando agora... – disse Angélica enigmaticamente.
- O quê? – perguntou Cristine com uma ruga de preocupação estampada na testa.
- Muita conversa. Eu quero mais ação. – respondeu a morena reiniciando as carícias mais ousadas em sua parceira, fazendo reacender-se o fogo e o desejo de dar e receber prazer.

Após amarem-se com uma volúpia beirando a devassidão continuaram deitadas em frente à lareira, recostadas em almofadas de um tecido acetinado, prazeroso ao tato. As chamas haviam se extinguido e restavam brasas incandescentes que ainda mantinham o ambiente aquecido. Angélica colocou mais lenha no fogo e as labaredas reavivaram-se tremulantes. A luz amarelada refletia-se nos cabelos loiros de Cristine, conferindo-lhe um ar angelical. O relógio de parede marcou meia noite. Cristine se deu conta do adiantado da hora.

- Eu preciso ir... – disse a loirinha demonstrando pouca vontade de sair do aconchego daqueles braços.
- Fica... passa a noite aqui comigo...
- Não posso...
- Por quê? – perguntou Angélica.
- Porque as paredes daquele castelo devem ter ouvidos... e olhos... E acho que não pega bem eu ficar aqui... faz só quatro dias que o tio Artur faleceu... sei lá... não acho adequado...
- Mas quem é que vai saber da gente?...
- Eu sei.

Angélica assentiu, e teve de dar a mão à palmatória. Aquela pequena mulher tinha, além de todos os encantos que provara, bom senso e ética. E ela gostava disso. A contragosto desvencilhou-se dela e vestiu-se novamente.

- Ta com fome? – Perguntou Angélica.
- To... com muuuuita... Você conseguiu esgotar as reservas energéticas desse corpinho aqui.

Angélica riu e foi para a cozinha enquanto Cristine se vestia.

- Sabe de uma coisa? Eu não sei como vou entrar no castelo... – disse Cristine pensativa.
- Pela porta, ora!
- Mas com que chave?

Angélica gargalhou:

- Fica tranqüila que aqui a gente costuma deixar as portas destrancadas. Ainda dá pra fazer isso. – disse a morena.
- Mas pelo que pude perceber a senhorita trancou suas portas à chave... – provocou Cristine.
- Bom... Convenhamos que não seria muito adequado que meu inocente irmãozinho te visse em trajes de Eva gozando em cima de mim...
- Boba! – disse Cristine, jogando um guardanapo na morena que se esquivou do arremesso.

Fizeram um lanche e Angélica acompanhou Cristine até o castelo. Despediram-se com um beijo roubado e discreto. Cristine abriu a porta da cozinha bem devagar, sendo que a mesma emitiu um rangido baixo. Olhou para dentro e o ambiente estava vazio, na penumbra, havendo somente uma claridade tênue vinda dos corredores. Ela se deslocou silenciosamente na direção da escadaria e nem percebeu que uma figura esguia, discretamente posicionada atrás de um dos pilares de pedra, a observou caminhar rumo ao seu quarto. O vulto oculto nas sombras franziu o cenho preocupado. “O que estaria Cristine fazendo na rua àquela hora?”, pensava, “Será que ela percebeu alguma coisa?”... “Caso tenha percebido será necessário tomar uma atitude mais urgente”...

Angélica retornou para casa que era só sorrisos. Apesar de tudo que estava se passando sentia-se flutuar. No caminho pensava, “tudo bem, isso é só uma pequena mudança na ordem das coisas... não me impedirá de cumprir o que me propus fazer, muito pelo contrário...”. No entanto, ao mesmo tempo em que se sentia envolvida e leve, uma sensação de preocupação a afligia. Sabia perfeitamente o que ocorria não muito longe dali.

 

*******

 

Cristine também ostentava um sorriso no rosto e tinha uma sensação de leveza e bem estar. Caminhou pelos corredores sombrios sem medo, pensando no toque de Angélica, e entrou em seu quarto sem nem sequer lembrar-se do que havia mais adiante, na peça contígua ao quarto do falecido tio. Tirou a roupa e deitou-se nua, ainda sentindo o cheiro de Angélica em seu corpo. Estava por demais mexida, pensando na delicadeza da mulher com a qual fizera amor. Rememorava cada gesto, cada sensação, cada toque... E não conseguia conciliar o sono. Olhou para o relógio de pulso e o marcador luminoso marcava uma e meia da madrugada. Levantou-se e serviu-se de um copo d’água que Adelaide deixara ao lado de uma jarra de cristal, numa bandeja de prata, em seu criado-mudo. Sorveu a água avidamente e jogou um roupão atoalhado por cima do corpo nu. Foi até sua janela, cujos vidros estavam fechados em virtude do frio, e puxou a cortina pesada para o lado. Olhou na direção da escuridão e abriu um dos lados da vidraça, para sentir a aragem da noite. O vento gelado e cortante fez com que um arrepio lhe percorresse o corpo, pois contrastava com a temperatura amena do quarto, mantida pelo sistema de calefação.

Cristine respirou o ar úmido da noite, de olhos fechados, ainda recordando os momentos de amor que vivenciara ainda há pouco. Abriu os olhos lentamente, tentando divisar os contornos da natureza, uma vez que parara de chover e a noite estava clara, apesar da nebulosidade. A lua quase cheia teimava em espargir uma fraca luminosidade que vencia a barreira das nuvens. Cristine conseguiu ver os contornos das montanhas e, mais ao fundo, as silhuetas do arvoredo do vale.

Neste estado contemplativo percebeu algo diferente naquela paisagem noturna. Bem ao longe, dentro dos muros do cemitério, e bem perto dos anjos guardiões, Cristine percebeu uma movimentação estranha. Havia luzes no local. E os quase imperceptíveis focos luminosos moviam-se nas sombras da noite. A loirinha fixou os olhos, tentando entender o que se passava. Afinal, quem poderia estar no cemitério à uma hora daquelas? E por quê? Estas perguntas ficaram lhe martelando na cabeça. Muitas coisas estavam confusas para ela. Não conseguia entender certas situações, nem tão pouco conseguia penetrar mais a fundo em questões familiares, que envolviam sua própria história de vida. Percebia que as pessoas ao seu redor sabiam mais do que lhe contavam. Aquele ambiente se descortinava estranho e desconhecido.

Num ímpeto fechou a janela, tirou seu roupão e vestiu-se apressadamente. Estava disposta a tirar aquela história a limpo.

Cristine deixou seu medo de lado e mergulhou na escuridão da noite munida apenas de uma lanterna que havia pegado no pequeno móvel que ficava ao lado da porta de saída da cozinha. Tinha um senso de direção bastante aguçado e lembrava-se perfeitamente do pequeno trajeto feito no dia do enterro de seu tio.

Estava vestida com seu pesado casacão de lã e havia colocado uma touca para aquecer-lhe as orelhas. Suas botas de cano curto resvalavam na lama da estradinha de chão. Alternava os passos cuidadosamente. Caminhava com pressa, sentindo em suas faces as rajadas do vento cortante da madrugada. O silêncio era sepulcral. Ouvia-se apenas o uivo fantasmagórico do vento. As árvores balançavam como que numa dança ritual, todas juntas, formando uma enorme onda de vegetação que parecia querer agarrar Cristine, num abraço prisional.

Conforme ia avançando em direção ao campo-santo a impulsividade que motivou Cristine a rumar naquela direção foi cedendo lugar a um sentimento crescente de temor. Instintivamente diminuiu suas passadas e tentou fazer o menor ruído possível em seu deslocamento. Àquela altura já estava na metade do caminho e embora seu bom senso lhe dissesse para retornar decidiu seguir em frente.

Apontava o facho de luz para o chão, evitando qualquer armadilha no caminho irregular. Seu olhar alternava-se entre o solo, a vegetação à sua volta e o cenário à sua frente. Ao aproximar-se mais e avistar o limite gradeado do cemitério estancou e olhou para trás, parecendo-lhe haver percebido o estalar de uma passada. Foi parcialmente dominada por uma sensação de pânico e encostou-se de costas no muro de pedras, alto e gelado, que circundava o cemitério, como que tentando proteger sua retaguarda. Direcionou o foco de luz para o caminho atrás de si e o que viu foi somente a escuridão vazia. Respirou fundo tentando fazer com que seus batimentos cardíacos diminuíssem de intensidade. Deixou-se escorregar de encontro ao muro até ficar de cócoras. Naquele momento um relâmpago iluminou tudo ao seu redor e logo em seguida um estrondo ensurdecer e seco ecoou nos céus de agosto. Cristine arregalou os olhos, pois pensou ter visto um vulto entre as sombras do caminho, fitando-a de longe. Prendeu a respiração e direcionou o foco de luz. Outro raio iluminou a noite e desta vez Cristine nada percebeu.

Mais um raio e um forte trovão se fizeram ouvir. Instantaneamente foi como se as comportas dos céus houvessem sido abertas. As gotas espessas começaram a cair tempestuosamente. Uma sucessão de raios e trovões fez Cristine se encolher sobre si mesma, excomungando-se por estar ali naquela situação. Tentou racionalizar, não podia deixar o pânico tomar conta dela e falar mais alto que sua razão.

Levantou-se e seguiu adiante, acompanhando o muro de pedras. Ao chegar defronte à entrada levou sua mão ao portão de ferro que, para sua surpresa, rangeu alto e abriu-se pesadamente.

Cristine quase podia escutar as batidas do próprio coração. Pé ante pé entrou esgueirando-se entre as catacumbas. As figuras de pedra que adornavam as sepulturas pareciam criar vida a cada vez que os raios iluminavam seus contornos frios e encharcados pela chuva. O túmulo de seu tio ficava mais para o final do corredor principal. Estrategicamente optou por mover-se entre as lápides, mesmo que por vezes tropeçasse em algumas delas. Ainda na metade do trajeto se deu conta que o facho de luz de sua lanterna começava a ficar mais fraco, dando sinais de que a bateria estava se extinguindo. Deu uma parada em sua marcha e respirou fundo. Sentiu suas mãos geladas e seu corpo tremer de medo. Mal conseguia controlar suas pernas. Mesmo assim seguiu em frente.

Neste momento Cristine ouviu um baque seco, um barulho alto, como se fosse o de uma rocha contra o chão de terra. Estancou e encolheu-se amedrontada entre duas catacumbas de pedra. Instintivamente desligou a lanterna. Não sabia o que fazer. Estava quase que paralisada de pavor. Ficou naquela posição por quase quinze minutos, sem ter coragem de se mover. Fechou os olhos e desejou que Angélica estivesse ali com ela. Queria estar aninhada em seus braços. A morena conseguia lhe transmitir tanta segurança...

A chuva já havia encharcado sua roupa e o casaco que usava dobrara de peso devido à água acumulada no tecido. O frio a fazia tiritar, aliado ao medo. O som de sua respiração ofegante se misturava ao ruído da chuva que caía.

“E agora, Cristine?”, pensava ela, “você é uma mulher ou um rato?”, “levanta e anda! Vai ver o que está acontecendo!”... Ordenava para si mesma.

Conseguindo dominar seus temores ergueu-se com cuidado. Sua vista havia se acostumado à escuridão e passou a mover-se como um animal preste a dar um bote. Segurava fortemente a lanterna apagada em suas mãos. Lentamente foi se aproximando da sepultura de seu tio Artur. Na penumbra percebeu que algo estava diferente. Novamente seus batimentos cardíacos aceleraram-se. Prudentemente parou uns instantes e apurou o ouvido. Silêncio, absoluto silêncio.

Deu mais alguns passos e estancou horrorizada com a visão à sua frente. O pesado tampo de mármore estava totalmente deslocado para o lado, pendendo num ângulo de cerca de quarenta graus e escorado na parede lateral do jazigo. Movida pelo instinto Cristine direcionou a lanterna para o buraco escuro do túmulo e ligou a luz, cujo facho tênue iluminou o interior vazio da cova. Assustada deu um passo para trás, abafando um grito de pavor. Levou sua mão à boca, como que tentando segurar seu coração dentro do peito. Os anjos guardiões como que surpreendidos na noite, pareciam ostentar semblantes de incredulidade, assim como Cristine.

Estática, sentiu suas pernas cedendo com o peso de seu corpo. Fez um esforço quase que sobre-humano e conseguiu controlar a sensação de desmaio que a invadia. Novamente deu um passo para frente e a luz fraca da lanterna, auxiliada por um relâmpago fugaz, não deixou dúvidas em Cristine: a catacumba estava vazia!

Cristine não sabia o que pensar. Teve a sensação de estar dentro de um filme de terror. Parecia estar aprisionada num pesadelo horrendo e desejou, com todas as suas forças, acordar de sobressalto e perceber-se protegida nos braços de Angélica. Mas não era sonho.

Enquanto esses pensamentos borbulhavam em sua mente um novo relâmpago, seguido de um estampido imediato, iluminou a noite e fez com que Cristine visse nitidamente a figura que se aproximava dela, estendendo-lhe os braços. Sem conseguir se conter emitiu um grito apavorado que ecoou na noite, sendo abafado pelo som da tempestade.

À sua frente e avançando vagarosamente em sua direção havia uma figura disforme, um ser envergado pelo peso do próprio corpo, uma parte do rosto descolorido e cadavérico aparecia por baixo da aba larga do chapéu de feltro encharcado. As mãos estendidas em sua direção davam a impressão de querer aprisioná-la em algum calabouço medieval. Um gesto mais brusco daquele ser horrendo, cujo capote escuro lhe chegava até os pés e o chapéu negro escondia parte de seu semblante, fez Cristine derrubar a lanterna e disparar correndo na direção do castelo. Num vôo cego pela noite, levava pela frente pedaços de galhos de árvores e vegetação rasteira. No percurso tropeçou inúmeras vezes e chegou a cair em duas ocasiões, levantando-se logo em seguida, movida única e exclusivamente pela adrenalina, que aguçara o seu instinto de sobrevivência. Não saberia precisar como conseguiu transpor o portal do campo-santo tão rapidamente.

Chegou à porta dos fundos do castelo ofegante e totalmente aterrorizada. Entrou e fechou a porta atrás de si, passando uma pesada tranca nos suportes de metal no lado de dentro da porta.

Com o pouco de senso lógico que lhe restava tirou as botas, para poder correr em silêncio pelos corredores desertos. Subiu as escadas quase que de dois e dois degraus. Abriu a porta de seu quarto, entrou e a chaveou logo atrás de si. Desta feita colocou novamente uma cadeira para escorar o trinco por dentro, deixando-a ali, como um fiel guarda-costas a zelar por sua integridade. Também correu até a janela fechando os tampos de madeira e cerrando as tramelas por dentro. Pronto. Sentia-se ao menos parcialmente protegida.

Ali, na segura claridade de seu quarto, desmoronou por completo. Seus joelhos se dobraram e ela deixou-se cair sobre o peso do corpo, soluçando compulsivamente. Sentia-se sozinha e com medo. Naquele momento seu porto seguro não estava longe dali, porém uma distância escura e ameaçadora a separava dela. Tinha vontade de ir até a casa de Angélica, mas estava sem coragem de ir além dos limites daquele quarto. Pensou em ligar para ela, mas temia por sua segurança caso se deslocasse sozinha até o castelo. Sabia que algo terrível estava acontecendo lá fora, mas não sabia o quê.

Novamente tentou racionalizar e percebeu que o mais coerente seria esperar o dia amanhecer. Deu-se conta que tremia de frio em virtude das roupas totalmente molhadas. Tomou um banho e colocou um pijama.

Aninhou-se sob as cobertas quentes e tapou sua cabeça, como sempre fazia quando tinha medo. Já eram quase três horas da madrugada.

Embora tentasse dormir seus sensores internos de perigo a fizeram ficar de olhos abertos a noite toda, vigilante e apreensiva. Milhares de coisas passaram em sua cabeça. Idéias mirabolantes, cenários demoníacos, paisagens lúgubres, sensações temerosas.

Por volta de sete horas percebeu que o dia havia amanhecido e deu graças a Deus. Talvez por relaxar frente ao término da escuridão acabou pegando no sono e dormiu até quase dez horas da manhã.

Acordou de sobressalto.

Cristine sentou-se na cama e olhou o relógio. Marcava nove horas e cinqüenta e sete minutos. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi Angélica. Precisava falar com ela. Vestiu-se apressadamente, sobrepondo dois blusões de lã, uma vez que o único casaco mais pesado que havia levado estava totalmente ensopado no chão do banheiro. Suas botas também estavam molhadas, por isto optou por calçar tênis. Decidiu que não falaria com ninguém sobre a noite anterior, somente com Angélica. “Preciso aparentar naturalidade quando descer” pensou, tentando controlar seus nervos.

Desceu a escadaria do castelo e percebeu que a sala das refeições estava vazia. Ficou aliviada. Passou pela cozinha e espiou para dentro vendo que Regina e Adelaide estavam distraídas com o almoço. Elas nem perceberam sua espiadela furtiva. Silenciosamente dirigiu-se para a porta da frente. Saiu para a rua sentindo um calafrio ao receber uma lufada de vento gélido no rosto. Encolheu-se toda abraçando o próprio ventre e encurvando-se para enfrentar as investidas das rajadas de vento. Não estava chovendo, porém o tempo continuava carregado. “Acho que o sol nunca brilha neste lugar”, pensou Cristine enquanto caminhava apressadamente na direção da casa de Angélica.

Embora tentasse relaxar estava apreensiva e tensa, com os nervos à flor da pele. Já passava da metade do caminho quando escutou nitidamente passos atrás de si. Disfarçadamente tentou perceber alguma movimentação com o olhar periférico e viu claramente um vulto tentando se esconder na vegetação, ao perceber seu movimento. Cristine sentiu um misto de medo e raiva. Estava odiando estar ali naquela situação. Embora houvesse conhecido Angélica, que era seu único alento naquele lugar, sentia-se como um peixe fora d’água, na verdade um peixe ornamental num tanque com tubarões. Nesta feita o caminho de chão batido fazia uma curva mais acentuada. Cristine não teve dúvidas: agachou-se e armou-se com um pedaço de tora de madeira seca. Quem quer que fosse não encostaria as mãos nela, pelo menos sem luta. Ficou na espreita e tão logo escutou o ruído leve dos passos se aproximando pulou na frente do vulto, esperando ver a garatuja da noite anterior, e gritou, tentando amedrontá-lo:

- Parado aí! Se não quiser conhecer minha ira!

A cena chegou a ser teatral. Cristine tentava convencer a si mesma antes de quem quer que fosse.

Instantaneamente a figura à sua frente estancou e levantou os braços.

- Calma moça! – disse o rapaz.
- Quem é você?
- Thomaz. Eu trabalho aqui.
- E porque está me seguindo? – intimou Cristine ainda com a tora em punho, ameaçadoramente.
- Eu não estou seguindo a senhorita. Estou indo buscar lenha. – respondeu o rapaz brandamente. – Me desculpe se a assustei, não foi minha intenção.

Aos poucos Cristine foi relaxando. Baixou o pedaço de madeira e respondeu:

- Tudo bem... É que não estou acostumada a andar assim pelo meio do mato... E me assustei.
- A senhorita gostaria que eu a acompanhasse a algum lugar?
- Não. Não precisa. Eu to indo ali na casa da Angélica.
- A senhorita é quem sabe. Se precisar de algo é só chamar. Com licença.

Cristine deu o lado para o rapaz passar e este rumou pelo mesmo caminho, porém seguindo em frente, na direção do capão de mato mais cerrado. Cristine percebeu que ele tinha um facão na cintura e um saco de linhagem pendurado. De fato parecia estar disposto a buscar lenha. Pelo menos se quisesse poderia ter lhe atacado, sendo que não o fez. Já havia ouvido Dr. Mendes se referir a ele, embora não o tivesse visto ainda. Precisava controlar seus nervos. Seguiu em frente.

Contornou a residência dos pais da morena pelos fundos, não queria ser vista por ninguém. Percebeu fumaça na chaminé da lareira, respirando aliviada pelo indício de Angélica estar em casa. Bateu na porta dos fundos da cabana.

Angélica abriu a porta e a fitou com uma expressão inquiridora ao perceber seu evidente nervosismo. Sorriu-lhe afetuosamente e abriu os braços. Cristine se jogou neles e se pôs a soluçar. Angélica limitou-se a abraçá-la e trazê-la para dentro de casa, fechando a porta atrás de si.

- Minha querida, o que foi que houve?... – perguntou a morena amorosamente após alguns segundos.

Cristine mal conseguia falar.

- Vem aqui... – disse Angélica – Senta... Tenta te acalmar e me diz o que foi que houve.

Angélica percebeu que Cristine estava gelada e com pouca roupa. Tratou de servir um café recém passado e pegou um cobertorzinho de lã na sala, cobrindo-lhe os ombros e aconchegando-a junto de si.

Aos poucos Cristine foi se acalmando e sentindo novamente o sangue esquentar dentro das veias.

- E agora... Já consegue me contar o que houve? – perguntou a morena.

Cristine anuiu com um movimento de cabeça.

- Me desculpa a entrada assim... tempestiva... mas é que... é que... – e fez silêncio.

Angélica sabiamente permaneceu calada, somente abraçando Cristine e passando a mão sobre as suas, numa atitude de carinho e proteção. A loirinha respirou fundo e continuou:

- Olha só.... O que eu vou te falar vai parecer loucura... Mas eu juro que é verdade... Ontem à noite eu não conseguia dormir...
- Eu também custei a dormir... – disse Angélica amorosamente, tentando descontrair sua interlocutora – Fiquei pensando numa certa pessoinha adoravelmente sedutora e linda...

Cristine sorriu, continuando logo em seguida.

- Eu abri a janela do meu quarto e vi luzes no cemitério.
- No cemitério?
- É. Parece mentira, mas é verdade. E eu fui até lá.
- Tu foste no cemitério sozinha de madrugada? – perguntou Angélica demonstrando incredulidade. – A troco de quê???
- Eu precisava ver o que estava acontecendo!

Angélica levou as mãos à cabeça, assumindo um semblante preocupado.

- Tu não devia ter feito isso!
- Por quê? – quis saber Cristine.
- Bom... Porque... Porque é perigoso, ora essa! Andar sozinha de madrugada na rua! E ainda mais num lugar ermo como o cemitério.
- Mas você falou que aqui não tem perigo... – disse a loirinha.
- Bom... não tem perigo até ali... Mas não se deve arriscar... Cristine, isso é loucura!
- Loucura é o que eu vou te contar agora... Mas eu juro que é verdade.
- O que é... diga.
- A sepultura do tio Artur está vazia! A lápide foi removida e o caixão não está lá.

Angélica engoliu em seco e ficou estática.

- Como é que é???... – perguntou a morena com a voz entrecortada.
- Vou te contar toda a história. – disse a loirinha.

Tentando não atropelar as palavras Cristine contou a Angélica tudo o que ocorrera na noite anterior. A morena ouviu tudo no mais absoluto silêncio. Certa feita pareceu à Cristine que Angélica não estava tão espantada com sua história quanto esperava que ficasse. Porém convenceu-se de que se tratava somente de uma impressão, provavelmente pelo impacto que seu relato lhe causara, considerando-se o vínculo que tinha com o padrinho.

Quando deu por encerrada sua história Angélica permaneceu como que em estado de choque, fitando-a com uma expressão de extrema preocupação.

- Diz alguma coisa. – pediu Cristine.
- Eu não sei o que dizer...
- Mas ao menos você acredita em mim? – perguntou Cristine.
- Não sei... quero dizer, sim, acredito...
- Eu não senti firmeza – disse Cristine demonstrando decepção.
- Olha... – disse Angélica tentando se retratar – Não é que eu duvide... mas tu já parou pra pensar sobre isso? Isso não tem cabimento. A gente viu o caixão sendo colocado lá...
- Mas alguém tirou!
- Mas por qual motivo? – perguntou Angélica.
- Isso eu não sei! – respondeu Cristine se exaltando – Mas se você ta duvidando vamos lá para ver!
- Eu não estou duvidando de ti. Só cogito a possibilidade de um engano... de uma ilusão de ótica, sei lá...
- ILUSÃO DE ÓTICA O ESCAMBAU, ANGÉLICA!!! EU TENHO CERTEZA DO QUE VI!!! – disse Cristine beirando o descontrole.
- Tudo bem... tudo bem... – disse Angélica num tom brando, abraçando Cristine e aconchegando-a junto ao peito – Me desculpa. Eu acredito em ti. Me desculpa.
- Eu tive tanto medo... – disse Cristine – Eu desejei estar contigo aqui, assim, protegida.
- E agora está. E eu quero que tu me prometas uma coisa, prometas não, quero que jures...
- O que? – quis saber Cristine.
- Nunca mais, nun-ca-ma-is, saia sozinha assim pela noite. Se quiser ir me chama que eu vou junto. Mas não vai mais sozinha... Jura?
- Juro. – disse Cristine olhando Angélica nos olhos.
- Eu não quero que nada de mal te aconteça, nunca... – disse a morena enquanto capturava os lábios de Cristine num beijo apaixonado.

Cristine sentiu como que se todos os seus temores e receios se acabassem com aquele beijo e com aquele abraço. De fato jamais sentira tamanha confiança em nenhuma outra pessoa. Em nenhum abraço sentiu-se tão acolhida, em nenhum beijo sentiu-se tão desejada. Seus medos pareciam infantis e infundados ao lado de Angélica, tinha a confiança de que ela não deixaria nada de mal lhe acontecer.

- Angélica... Vamos até o cemitério? Eu posso provar que estou dizendo a verdade, que não é fantasia minha, que não foi sonho... – pediu Cristine.
- Tudo bem. Vamos lá sim. Mas antes eu vou te emprestar um casaco.
- O meu ficou ensopado.
- Imagino...

Angélica pegou um casaco escuro que chegava quase que aos joelhos da loirinha. Apesar de sobrar Cristine dentro dele era infinitamente melhor do que sentir frio. Isso sem falar no cheiro de Angélica, entranhado no tecido, que exalava como um bálsamo para os sentidos de Cristine. A morena também emprestou uma touca de lã para a loirinha, que a enterrou na cabeça a fim de proteger suas orelhas.

Num clima de expectativa e tensão rumaram para o cemitério.

O imenso portão com suas barras paralelas de ferro enegrecido pelo tempo estava ali como na noite anterior: fechado, porém destrancado. Novamente Cristine ouviu o mesmo rangido lúgubre assim que Angélica empurrou as grades para o lado dando passagem às duas. Conforme iam se aproximando da sepultura de Artur, Cristine ia apertando mais a mão de Angélica. Esta última podia ouvir a respiração acelerada de Cristine e segurou sua mão com firmeza, encarando-a com confiança.

Cristine animou-se e seguiu em frente. Quando por fim chegaram à catacumba Cristine empalideceu e cambaleou, necessitando ser amparada por Angélica.

A lápide de mármore estava intacta, colocada sobre o jazigo como no dia do sepultamento. Num ímpeto Cristine correu na direção da pedra, debruçando-se sobre ela e tentando move-la para o lado. Beirando o descontrole dizia:

- Mas tava aberto! Essa pedra não estava aqui! Ele não está aqui embaixo! Eu vi! – Num impulso tentava inutilmente mover a pesada lápide que tinha as cravelhas fortemente parafusadas unindo-a à mureta de pedras do jazigo.

Angélica aproximou-se dela e abraçou-a com firmeza tirando-a de cima do túmulo. Cristine agarrou-se a ela desesperadamente, enquanto repetia sem parar:

- Eu vi... eu juro que vi... eu não estou louca... estava aberto... eu juro... eu vi... eu tenho certeza...
- Tudo bem... calma... Cristine, calma... Por favor...
- Mas eu juro... – disse Cristine chorando baixinho.
- E eu acredito. – respondeu Angélica – Mas vem, vamos pra casa. Vamos sair daqui.

Cristine ainda olhou mais uma vez para a lápide e balançou a cabeça incrédula. Dirigiu ainda um olhar de súplica aos anjos de pedra, como que numa tentativa de que pudessem acenar a verdade para Angélica. A trilha de onde surgira o ser horrendo que a atacara continuava ali, aparentando ser inofensiva.

Por um momento chegou a cogitar a possibilidade de estar enlouquecendo.

Angélica conduziu Cristine para sua cabana. Durante todo o trajeto nada disseram. Caminharam lado a lado, Angélica com o braço sobre os ombros de Cristine, amparando-a.

Quando por fim instalaram-se no sofá da sala Angélica quebrou o silêncio:

- Cristine... Para tudo existe uma explicação lógica. E a gente vai achar, ok? Eu te prometo.
- Mas eu não entendo... Eu vi. A lápide não estava lá, daquele jeito... Tava no lado. E a cova tava vazia. O caixão não tava lá...
- Minha querida, tenta ficar calma. Vamos racionalizar. Alguma explicação deve haver. Mas tenta manter a calma.
- Será que eu to enlouquecendo?...
- Claro que não! Mas tu tiveste muitas emoções de uns dias para cá... sei lá... Vamos fazer o seguinte: vamos tentar não nos impressionarmos com isso. Vamos tentar conversar sobre outras coisas... Outro dia a gente retoma esse assunto, quando a lembrança dele não te causar o que te causa hoje.
- Tudo bem... Acho que você tem razão. Mas tem outra coisa. Tem o tal monstro. Eu não posso ter imaginado. Eu vi.

Angélica suspirou e baixou os olhos.

- Ta... – continuou Cristine – Não vamos mais falar disso. Outro dia quem sabe.
- Eu acho melhor. – Assentiu a morena.
- E Ariel? – perguntou Cristine mudando intencionalmente de assunto.
- Ta ótimo. O cabeçudo perguntou por ti hoje bem cedo.

Cristine sorriu.

- Pois é... a aula particular dele foi adiada ontem por motivos de força maior... – brincou a loirinha.
- Mas em compensação tu deste e recebeste uma aula e tanto, ein? Ou preferias matemática? – provocou Angélica.
- De forma alguma... Digamos que... anatomia é muito mais interessante...
- Concordo plenamente. – disse a morena enquanto abraçava Cristine e a envolvia num beijo amoroso.

Entre afagos e carícias Angélica lembrou-se de perguntar:

- Escuta, tu vieste direto pra cá hoje pela manhã?
- Vim.
- Comeste alguma coisa antes de vir?
- Não.
- Tu ta em jejum? – perguntou Angélica.
- Pois é... Mas eu descobri que teus beijos têm o poder de me alimentar...
- Não debocha! Eu to falando sério. – disse a morena.
- Eu também...

Ambas sorriram. Angélica desvencilhou-se do abraço de Cristine e a puxou para a cozinha.

- Vem cá, vamos comer alguma coisa.

Angélica abriu a geladeira e perguntou:

- O que a senhorita gostaria de comer?

Cristine olhou-a de cima a baixo sedutoramente e simplesmente sorriu.

- Amadinha, esse corpo moreno não está no cardápio, pelo menos agora... – e riu-se. – Diz aí, vai querer o quê?
- Sei lá. Que horas são?
- E por acaso tu come conforme a hora?
- Não é isso, sua boba! É que já ta quase na hora do almoço e eu não quero atrapalhar...
- Tu estas sempre preocupada em não atrapalhar. Eu já te disse que jamais me atrapalhas. Muito pelo contrário.

Cristine sorriu lisonjeada e respondeu:

- Eu não queria almoçar lá no castelo... Prefiro ficar aqui.
- Tu que manda. Quer o quê, afinal?
- Qualquer coisa...
- Ta a fim de almoçar direto?
- Pode ser.
- Bom, então, eu sugiro algo bem prático e que requer pouquíssima habilidade...
- O que??? – quis saber Cristine, curiosa.
- Lasanha. Congelada!
- Cardápio aprovado! – respondeu Cristine.
- Vem aqui escolher então. Eu confesso que adoro lasanha e meu freezer tem sempre um lote!
- Huuummm... quero essa aqui, com molho branco.
- Ótima escolha, madame! – disse Angélica teatralmente retirando a lasanha da embalagem e a colocando no forno. – Prontinho. Mais meia hora e esta gostosura estará pronta para ser devorada!
- Aliás, falando em devorar... – provocou Cristine abraçando Angélica pela cintura.
- Que mocinha sapeca... – respondeu Angélica beijando Cristine com paixão. – Mas saco vazio não pára em pé! – continuou desvencilhando-se e preparando um sanduíche de presunto e queijo para enganar o estômago de Cristine.

Ficaram divagando sobre vários assuntos enquanto esperavam a lasanha ficar pronta. Namoraram como adolescentes comportadas e quando por fim o almoço foi servido, comeram avidamente. Cristine lembrou de ligar para o castelo e avisar que almoçaria com Angélica.

A loirinha ajudou a lavar a louça e quando finalmente se deitaram abraçadas no sofá da sala o telefone celular de Angélica tocou. Esta se levantou num sobressalto, atitude que causou estranheza em Cristine, acostumada a ver uma Angélica menos ansiosa.

A morena atendeu ao telefone e seu semblante se modificou instantaneamente assim que viu o número que estava registrado na memória de seu aparelho.

- Sim. Ta. Tudo bem. Entendi.

Angélica ouvia atentamente e respondia com monossílabos. Tentava não demonstrar emoções, mas Cristine percebeu que a mesma ficara tensa, com uma expressão no mínimo preocupada. Assim que desligou o telefone tentou recobrar-se e disse:

- É... eu preciso dar uma saída... jogo rápido. Se quiseres podes ficar aqui.
- Ta tudo bem? – questionou Cristine.
- Ta. Tudo legal.
- Por que essa cara de preocupação? – insistiu Cristine.
- Preocupação? Impressão tua. Ta tudo bem, tudo normal.

Cristine não quis ser invasiva e controlou-se para não perguntar aonde Angélica iria. Como que adivinhando seus pensamentos a morena disse com voz branda:

- Eu vou até a cidade. Preciso resolver umas pendências. Mas eu não demoro.
- Eu não conheço a cidade... – arriscou Cristine, envergonhando-se em seguida de sua ousadia.
- Outro dia eu te levo para conhecer, ok? Hoje não dá.
- Desculpe, eu não quis... – tentou dizer Cristine, porém um beijo de Angélica não permitiu que concluísse a frase.
- Eu sei... – respondeu a morena.

Cristine sorriu timidamente e disse:

- Eu vou para o castelo, quando você chegar me avisa?
- Aviso. Mas não preferes ficar aqui?
- Prefiro, mas não quero ficar dando bandeira.
- Tu que sabe. – disse Angélica.
Elas ainda trocaram um beijo ardente e cada qual seguiu seu caminho naquele início de tarde de domingo.

 

***********

 

Quando Cristine entrou em seu quarto deparou-se com sua roupa, outrora ensopada, limpa e seca, dobrada sobre sua cama. Suas botas também haviam sido limpas e secas. Por certo Adelaide havia providenciado aquilo sob a supervisão de Anemary. O bom de se ter aqueles serviçais ao dispor era que eles não questionavam nada, simplesmente executavam tarefas. E naquela situação o que Cristine menos queria fazer era dar explicações.

Cristine envolveu o casaco de Angélica com um abraço e inalou a fragrância agradável de seu perfume. Ficou matutando o que teria ido fazer na cidade. Quem teria ligado para ela? Seria alguma mulher? Teria Angélica algum caso amoroso mal resolvido? Ou ainda por resolver? Decidiu não pensar sobre aquilo, no entanto a expressão circunspeta de Angélica lhe deixava com o coração apertado. Pressentia que algo não corria bem. Tentou controlar sua imaginação que já estava transbordando de pensamentos confusos.

Evitou abrir a janela. Não queria avistar o cemitério novamente, pelo menos naquele dia. Por volta de três e meia resolveu procurar o Dr. Mendes, para conversar um pouco com ele. Ao sair de seu quarto avistou uma caixa de papelão colocada da soleira da porta. Achou bastante estranho ter uma caixa assim no corredor, principalmente defronte a seu quarto. A caixa era recoberta com papel de presente azul. Seria uma surpresa de Angélica? Olhou para os lados e não havia ninguém no corredor. Com curiosidade pegou a caixa e a colocou sobre sua cama. Ao abrir a tampa Cristine não conseguiu controlar um grito de pavor. No interior da caixa uma serpente enrosquilhada agitava-se nervosamente. Movida por puro reflexo fechou a caixa rapidamente, sem dar tempo para o ofídio dar o bote.

Descolorida pelo choque Cristine saltou e se colocou em pé, encostada na parede. Neste momento Anemary entrou no quarto de Cristine, atraída por seu grito.

- O que houve senhorita?

Cristine, muda, apontava para a caixa. Quando a governanta fez menção de abrir a tampa de papelão Cristine gritou:

- NÃO! Tem uma cobra aí dentro!
- Como?
- Tem uma cobra aí dentro!

A governanta se retesou. Morris adentrou correndo no quarto.

- Senhorita! Está tudo bem? Eu ouvi um grito.

Era a primeira vez que Cristine percebia uma entonação diferente na voz do mordomo. Estaria de fato preocupado com ela?

- A senhorita Cristine diz que tem uma cobra dentro desta caixa! – disse Anemary para o mordomo.
- Mas como veio parar aqui? – perguntou Morris recuperando seu tom de voz pausado e sua postura inexpressiva.
- Ora Morris, francamente! – respondeu Cristine irritada – Você acha que eu costumo encaixotar cobras para ficar gritando de susto?
- Desculpe mademoiselle... – disse o mordomo.
- Se eu soubesse que havia uma cobra aí dentro eu não teria aberto esse raio de caixa! – continuou Cristine.

Neste momento foi Dr. Mendes que se juntou a eles.

- O que está havendo aqui? – perguntou preocupado.

Cristine, tentando manter a calma, explicou o que acontecera. Morris e Dr. Mendes aproximaram-se da caixa, abrindo-a com cuidado. Em seu interior a cascavel agitava seu guizo freneticamente. O advogado empalideceu e pediu a Morris:

- Leve-a daqui. Deixe em lugar seguro que eu vou dar destino nela depois.
- Sim senhor.

Anemary seguiu Morris. Assim que desceram as escadas Cristine exclamou:

- Afinal, que raio de lugar é esse??? Quem me daria uma cobra de presente??? O que é que está acontecendo??? Alguém quer me matar ou me enlouquecer!
- Calma, minha filha... – disse o advogado.
- Calma nada! Ou o senhor me diz o que está havendo por aqui ou eu vou embora hoje mesmo!
- Mas eu não sei sobre o que estás falando...
- Sobre uma tentativa de assassinato! O meu! Ou vai querer me convencer que alguém me enviou uma cobra como souvenir???
- Cristine, eu não sei como esse bicho peçonhento pode ter vindo parar aqui, mas eu vou descobrir! Eu garanto. Pode ter sido um descuido... ou uma brincadeira de mau gosto...
- Brincadeira de mau gosto??? Quem por aqui é dado a esse tipo de humor negro???
- Eu realmente não sei... – disse o advogado brandamente. – Mas eu vou descobrir. Pode confiar no que te digo: eu vou descobrir.

Cristine respirou fundo. Dr. Mendes parecia sincero em suas palavras. Duvidava que tivesse conhecimento do “quarto dos horrores”, ou que estivesse envolvido na violação da sepultura do tio. Parecia ser um homem franco.

- Eu vou até a cozinha. – disse Cristine – Preciso beber uma água com açúcar...
- Vá, minha filha, vá... Eu desço logo em seguida.

Tão logo Cristine desapareceu no vão da escada Dr. Mendes tirou um telefone celular do bolso. Quando atenderam do outro lado da linha o advogado falou baixo:

- A situação está ficando fora de controle. Quero vigilância redobrada.

Na hora do jantar Angélica apareceu no castelo. Cristine estava amuada. Aguardou seu telefonema a tarde toda. Durante o jantar falaram pouco. Ninguém mencionou o episódio da cobra. James chegou da cidade praticamente na hora da refeição e logo em seguida recolheu-se aos seus aposentos. Valesca e João Vítor pediram para jantar no quarto. Logo depois da ceia Dr. Mendes, Angélica e Cristine foram tomar um licor na biblioteca. O advogado, alegando cansaço, deixou as moças após uma única dose de licor de anis. Quando ficaram sozinhas Angélica falou:

- Eu acabei me atrasando na cidade... – tentou se justificar, mesmo sem Cristine ter feito nenhuma cobrança verbal.

A loirinha deu de ombros e respondeu:

- Esta tarde as coisas ficaram meio tumultuadas por aqui.
- Como assim? – perguntou Angélica.

Cristine contou sobre o incidente da cascavel. Angélica ouviu em silêncio e fechou o cenho, numa atitude de preocupação. Ao final do relato de Cristine a morena a fitou meditabunda e falou mais para si mesma do que para a loirinha:

- E eu não estava aqui...
- Mas o que isso tem a ver?
- Tudo. Eu disse que não vou deixar que nada te aconteça.
- Mas você sabe de algo que possa me acontecer??? – questionou Cristine.
- Não... não sei... mas... – titubeou Angélica – Se eu não tivesse ido à cidade tu estarias lá em casa, comigo.

Cristine a fitou com olhar perscrutador e perguntou em seguida:

- E você conseguiu resolver sua... pendência?
- Consegui. - respondeu Angélica secamente.
- Que bom.
- Cristine, tu vem comigo lá pra casa. – disparou Angélica – Digam o que disserem, tu não fica mais aqui sozinha.
- Angélica, assim você está me assustando.
- Não há do que se assustar – disse Angélica brandamente – Mas é que... bom... eu pensei que talvez a gente pudesse... estudar mais um pouco de anatomia... – e sorriu sedutoramente.
- Bom... Usando esse tipo de argumento, não me resta alternativa que não seja aceitar.
- Ótimo. Mas vamos fazer o seguinte: vamos sair na camufla, ok?
- Ok.
- Pega o que quiseres e vamos. Há essa hora o pessoal já foi dormir.

Cristine foi até seu quarto e pegou alguns pertences pessoais colocando-os numa pequena valise de mão, assim como algumas poucas peças de roupa. Entreabriu a porta de seu quarto e espiou para fora. O corredor estava vazio, somente Angélica a vigiava do topo da escada. Cristine caminhou sem fazer barulho, pegou na mão de Angélica e foram para a cabana.

Durante o trajeto Cristine teve a impressão de que Angélica estava tensa. Por vezes surpreendia a morena lançando um olhar em volta, como um radar silencioso. Aquilo a deixou com uma sensação de aperto no peito. Afinal quem era de fato aquela mulher que a escoltava até sua casa e com a qual havia tido o melhor sexo de sua vida? O que verdadeiramente Angélica sabia? O que evitava contar-lhe e por quê? Por vezes tudo eram dúvidas, no entanto ao mergulhar no abraço da morena e fitar o fundo de suas pupilas azuladas suas incertezas se transformavam como que num passe de mágica em segurança e conforto, mais que isso, em fogo, desejo e paixão. Angélica lhe despertava sentimentos até então adormecidos. Queria estar ao lado dela, sempre. Queria seus abraços e seus beijos como porto seguro naquela situação, quiçá por muito mais tempo...

Ao entrarem na cabana Cristine respirou aliviada ao constatar que Angélica trancara as portas. Tirou o pesado casaco de lã e virou-se para a morena, sorrindo-lhe amorosamente. Angélica a abraçou com carinho, aconchegando-a junto a seu peito.

- Pronto. Agora está tudo bem... – disse a morena enquanto afagava os cabelos de Cristine.

A loirinha levantou seus olhos e sorriu languidamente. Com doçura passou a beijar o peito de Angélica e em seguida seu pescoço. Seus lábios subiram mais um pouco, e deram suaves mordiscadas no lóbulo da orelha da morena. Instantaneamente Angélica se acendeu, deixando transparecer excitação. Sua respiração acelerou-se e ela apertou Cristine com força de encontro a seu corpo.

As mãos ávidas das duas mulheres passaram a se explorar voluptuosamente, buscando curvas e pontos de prazer. Sem desvencilharem-se uma da outra subiram a escada que levava até o quarto de Angélica. O trajeto da subida demorou mais do que o necessário, pois ambas encontravam-se com a atenção totalmente voltada para as carícias da outra.

Angélica procurava não errar os degraus, segurando firme o corpo incandescente que se roçava nela sem pudores. Aquela pequena mulher sabia como despertar sua fera interior, o animal adormecido ávido por dar e receber prazer. Naquele momento se deu conta que nunca havia desejado tanto se dar para alguém, no sentido literal e metafórico. Ansiava fundir-se com aquele pequeno ser e faze-la o mais plena de amor possível.

Cristine sentia as mãos firmes de Angélica a sustentá-la e conduzi-la em segurança até o andar de cima. Durante a subida havia arrancado parte da roupa de Angélica que ficara espalhada pela escada de madeira. Ao chegarem no quarto Angélica já estava com o torso nu. Cristine abocanhava seus mamilos escuros com avidez e sugava-os excitada com a rigidez destes.

Angélica tratou de tirar a roupa de Cristine, sempre abraçada nela, não conseguindo descolar seu corpo daquela mulher que a acariciava com voracidade. Excitava-se ao perceber a figura ponderada, que aparentava tranqüilidade e classe, transformada naquela mulher dominada pela luxúria e pela volúpia. Chegava a beira do descontrole ao ver a loirinha oferecendo-se toda a ela, sem pudores e sem reservas. Num ímpeto atirou Cristine, completamente despida, de costas sobre o edredom macio da cama. De pé, aos pés da cama, abriu o zíper de sua calça jeans e baixou-a juntamente com a sua calçinha, desnudando-se por inteiro.

Cristine mordeu o próprio lábio ante aquela visão e esgueirou-se de costas na direção da cabeceira da cama. Ajeitou-se sobre os travesseiros e abriu as pernas, oferecendo seu sexo totalmente molhado para a mulher à sua frente.

Angélica aproximou-se e rastejou sobre ela, deixando que seus seios tocassem o sexo de Cristine, que arqueou o corpo num gemido. Encaixou-se sobre a pequena mulher pressionando seu púbis contra o dela. Novamente Cristine sentiu o jorro quente que vinha de dentro da morena a escorrer-lhe por entre as pernas, misturando-se à sua própria umidade. Angélica beijou a boca de Cristine com possessão e lascívia. Deixava-se invadir pela língua de Cristine e percorria cada canto de sua boca com a própria.

Com um movimento lento Angélica desceu pelo colo de Cristine beijando e sugando seus mamilos rosados. Enquanto com uma das mãos acariciava um seio, com a língua percorria o contorno do outro, culminando por abocanhá-lo completamente, deixando Cristine a gemer baixinho.

Desceu mais um pouco e sentiu a loirinha abrir mais suas pernas, num convite explícito a posicionar-se entre elas. No mesmo ritmo lento e sensual com o qual beijara os seios, Angélica passou a mordiscar os arredores do sexo de Cristine. Quando sentiu que esta movimentava o ponto central de seu prazer na direção de seus lábios, abocanho-o de uma vez, com sofreguidão e desejo. Sentiu o gosto daquela mulher em sua boca e sorveu de sua essência como quem se serve de um néctar dos deuses. Cristine tinha um gosto ímpar, um cheiro excitante e um toque que fazia Angélica perder o chão. Aquilo por certo deveria ser amor...

Cristine movia seus quadris de encontro à boca de Angélica que a sugava ritmicamente. A loirinha estava tão excitada que não conseguiu adiar a explosão que a acometeu de uma forma brusca e incontrolável. Seu grito de prazer ecoou nas paredes do quarto. Angélica sorriu satisfeita amando senti-la gozar daquela forma. Esgueirou-se sobre ela envolvendo-a num abraço e beijando-lhe a boca.

Cristine olhou para sua amante deixando-se desfalecer por instantes em seus braços, sentindo seu próprio gosto na boca de Angélica. No entanto, logo se recobrou e girou o corpo sobre a morena dizendo-lhe sedutoramente:

- Agora sou eu que quero sentir o teu gosto...

Angélica não se fez de rogada. Abriu suas pernas e ofereceu-se toda para Cristine. A loirinha mergulhou naquele triangulo de pelos escuros, cuidadosamente aparados e cujo odor a deixava desvairada de tesão. Sem rodeios mergulhou na maciez da carne que se movia a cada toque de sua boca. Penetrou-a com a língua sentindo o calor que vinha de dentro dela. Desta vez era Angélica quem gemia e se contorcia de prazer. Cristine moveu sua língua na direção do clitóris de Angélica e começou a lambê-lo ritmicamente, sentindo-o aumentar de tamanho enquanto a morena estremecia a cada passada de língua. Disposta a não castigar muito aquela mulher, que a havia feito gozar como nenhuma outra, e sentindo que ela queria mais, abocanhou seu ponto de prazer, passando a suga-lo com avidez, cada vez mais rápido. Não precisou de muito tempo para Angélica segurar-se na cabeceira da cama, arquear o corpo e emitir um gemido gutural e espasmódico, gozando na boca de Cristine.

Desta vez foi a loirinha quem sorriu e deitou a seu lado. Abraçaram-se com força. Angélica puxou Cristine para cima dela, queria senti-la bem perto. Aos poucos a respiração da morena foi se normalizando e elas olharam-se nos olhos e sorriram, em silêncio. Naquele momento as palavras eram dispensáveis.

A noite recém começava e as amantes trocaram carícias, afagos e abraços pela madrugada adentro. Gozaram uma para a outra por diversas vezes, e cada gozo superava o anterior pela intensidade e prazer. Cada qual, perdida nos próprios devaneios antes de adormecer, se deu conta que estava abraçada à mulher de sua vida, à mulher pela qual valia a pena sonhar e fazer planos para o futuro.

Mas o futuro a Deus pertence...

Cristine acordou por volta de oito horas da manhã, completamente aconchegada no corpo nu da mulher que ainda dormia a seu lado. A claridade do dia invadia as frestas da janela e penetrava pelo vidro fechado da clarabóia do teto, abertura esta que Cristine nem havia reparado quando subira com Angélica na noite anterior. “Também... com tantas coisas mais interessantes para ver...”, riu-se a loirinha.

Cristine passou a reparar em Angélica adormecida. O rosto anguloso, de linhas marcantes, tinha uma candura ímpar. O cabelo negro escorrido emoldurava a face cujos olhos azuis estavam ferrados no sono. A boca de Angélica era sensual e o sorriso era o mais belo que Cristine já vira. O cheiro de Angélica quando fazia amor conseguia deixar Cristine entorpecida e despertava seu lado instintivo, seu lado irracional. Estava se apaixonando por aquela mulher. Na verdade já se apaixonara, isto quando provara seu primeiro beijo. E não sabia o que aconteceria dali para frente. Aliás, seu futuro naquele momento lhe era uma incógnita. E tudo dependia de um documento, um simples papel que poderia transformar sua vida, um último desejo de um parente que nem sequer conhecia.

Angélica despertou de seu sono pressentindo o movimento de Cristine. Ao abrir os olhos viu um par de pupilas verde esmeralda fixas nas suas. Sorriu-lhe com amor.

- Oi... – disse a morena com voz sonolenta.
- Oi... – respondeu Cristine beijando-lhe suavemente os lábios.
- Ta olhando o quê?... – perguntou Angélica sorridente.
- Você...
- E...?...
- E estou admirando esta bela mulher que está deitada ao meu lado...
- Olha que assim eu fico mais convencida do que naturalmente sou...

Ambas riram. Cristine continuou:

- Você deve estar pensando que eu sou meio... sei lá... leviana, vulgar, né?
- Por quê?! – empertigou-se Angélica.
- ... Porque a gente mal se conhece e eu já estou na tua cama...
- Sim... e tu estás pensando o mesmo de mim???
- Nããão...
- Dois pesos e duas medidas?
- Não, já disse! Não me confunde!
- Então seja mais clara... – provocou Angélica apertando Cristine de encontro ao peito.
- Bom... é que... eu... bem...
- Desembucha mulher! – brincou Angélica.
- Você pode até me achar careta, mas é que eu nunca fui pra cama com uma mulher assim...
- Assim como?
- Assim sem quase conhecê-la!
- Não seja por isso, eu me apresento! – brincou a morena – Angélica Bandera, ao seu inteiro dispor, uma sua criada para serviços bem leves, de preferência prazerosos e eróticos...
- Sua boba! – disse Cristine deitando-se sobre ela e sapecando-lhe vários beijos no rosto.

Angélica retribuiu os beijos e num giro aprisionou Cristine sob seu corpo. A morena lhe fitou com seriedade e disse:

- Eu não te acho vulgar, nem leviana. Eu só vejo uma mulher aprendendo a não ter medo de viver. E viver, por vezes, é saltar no abismo com as mãos vazias... Apenas confiando nos instintos e na Providência Divina.
- As vezes eu acho que você é uma bruxa! – respondeu Cristine - Você deve ter alguma bola de cristal!
- Não tenho não... Eu só conheço um pouco da natureza humana...
- Sabe, eu sempre fui muito racional... Mas desde que eu te vi pela primeira vez estou me desconhecendo. É verdade quando digo que nunca fui pra cama com uma mulher antes de sair algumas vezes com ela.
- Garota difícil, ein??? – brincou Angélica.
- Não debocha que é sério...
- Desculpa...
- Eu sempre coloquei a razão antes do sentimento, mas contigo não consegui. E eu estou assustada com isso.

Angélica deixou-se cair ao lado de Cristine e a envolveu com doçura, afagando seus cabelos e trazendo-a para bem perto de si.

- Cristine, eu não quero que nada em mim te cause receio, ou medo...
- Mas eu não estou assustada contigo. Estou assustada comigo, com o que eu estou sentindo...
- Vamos combinar uma coisa? – disse Angélica amorosamente, passando os dedos numa mecha de seus cabelos loiros.
- O quê?
- Vamos viver o hoje... um dia por vez... intensamente... sem medos. E quando o amanhã chegar a gente o vive também, pois não será mais amanhã, será o hoje.

Cristine sorriu tranqüila e respondeu:

- Vou tentar...
- Outra coisa... Haja o que houver confie em mim. Ok?

Cristine franziu o cenho e perguntou:

- O que poderá haver?...
- Sei lá... – desconversou Angélica – Só quero que lembre disso.
- Ta bom.
- E sabe do que mais? – disse a morena.
- O quê?
- To com fome, esse nosso despertar ta muito filosófico e pouco nutritivo!
- Concordo plenamente!

Elas tomaram um banho rápido, se vestiram e desceram. Enquanto Angélica preparava o café Cristine colocava a mesa. O cheirinho do café recém passado espargiu-se no ambiente, assim como o odor das torradas com queijo colonial.

O café está pronto, dona Tine! – disse Angélica.

A loirinha riu amorosamente para ela. Angélica perguntou:

- O que foi?
- Você me chamou de Tine...
- E daí?
- É que as pessoas mais íntimas me chamam de Tine. Eu já havia comentado contigo?
- Não. Mas acho bonitinho... Um apelido bonitinho para uma pessoa bonitinha... aliás, linda...

Novamente Cristine sorriu.

- Que é isso? Assim eu fico sem jeito... – disse a loirinha enrubescendo.
- Mas é verdade... – disse Angélica sapecando-lhe um beijo na testa. Vem, vamos comer.

Sentaram para tomar o café da manhã.

- Angélica... Você conhece um rapaz chamado Thomaz? Que trabalha aqui? – perguntou Cristine.
- Conheço. Por quê?
- Por nada... É que eu achei que ele estava me seguindo ontem, quando eu vinha para cá.

Angélica fez um movimento quase que imperceptível apertando seu maxilar, porém respondeu com naturalidade.

- Com certeza foi impressão.
- É. Foi sim. Ele me disse que estava indo buscar lenha. E ele estava com um facão e um saco de linhagem, logo...
- Pois então. Mas por que tu pensaste que ele te seguia?
- Ai, Angélica, eu nem sei... eu ando com os nervos à flor da pele. E depois daquele presente macabro que me deram ontem... desconfio até da minha própria sombra.

Angélica pousou sua mão sobre a de Cristine e disse olhando fixo em seus olhos:

- Eu já te falei pra confiar em mim. Nada de mal vai te acontecer. Isso dessa cobra aparecer assim, do nada, com certeza foi algum mal entendido e a gente vai descobrir quem foi o responsável.
- Mas e a sepultura vazia?
- Não sei... realmente não sei o que pensar. Mas te garanto que tudo isso ficará no passado.
- Angélica...
- O que?
- Eu to muito ansiosa com a abertura do testamento. – disse a loirinha baixando os olhos.
- Eu imagino.
- A minha vida pode mudar completamente.
- Eu sei.
- Posso ir embora como cheguei ou herdar uma fortuna imensa...
- Mesmo que não herdes uma fortuna, jamais deixarás este lugar como chegaste... – respondeu a morena encarando-a com um ar de melancolia por sua colocação.

Dando-se conta da gafe cometida Cristine remendou em seguida:

- Não. Claro que não. Eu me referia à situação financeira e trabalho, não a sentimento.
- Que bom. – disse a morena desviando o olhar.

Desta vez foi Cristine quem pousou sua mão sobre a de Angélica e falou com seriedade:

- E agora sou eu que te digo que você precisa confiar em mim, acreditar no que eu digo.

Angélica assentiu com um maneio de cabeça e um sorriso tímido:

- Eu acredito.

Terminaram o café e decidiram ir até o castelo. Já passava das dez horas da manhã e encontraram Regina começando os preparativos do almoço.

- Bom dia mãe! – disse Angélica.
- Bom dia Regina! – falou Cristine.
- Bom dia guriazinhas! – respondeu Regina sorridente – Como passaram a noite?
- Bem. – respondeu Cristine de supetão, ficando corada até a raiz dos cabelos.

Angélica riu internamente e respondeu com mais calma:

- Tudo bem, mãe... Tudo tranqüilo.

“Pois sim...” pensou Cristine, “se aquilo é tranqüilidade o que será uma noite agitada para essa mulher!”, e balançou a cabeça fazendo uma careta para Angélica, aproveitando-se que Regina estava de costas. A morena fez uma cara marota.

- Vocês querem tomar café? – perguntou Regina.
- Não mãe, a gente já tomou lá em casa.
- Bom, ao menos essa menina está te tratando bem! – disse Regina para Cristine.

Novamente a loirinha desconcertou-se visivelmente e respondeu desviando os olhos de Angélica.

- Sim. Muito bem.

Angélica pegou uma maçã na fruteira e jogou outra para Cristine, treinando seu reflexo. Esta última conseguiu aparar a maçã no ar.

- Vocês vão almoçar aqui? – quis saber Regina.
- Acho que vamos. – respondeu Angélica – Depende de Cristine, se ela quiser... Eu gostaria de levá-la até a cidade, mas o tempo continua essa nháca que vem sendo nos últimos dias...
- Pois é. – concordou Regina – Parece que São Pedro anda sem reguleta nas comportas do céu!

As três riram.

- Então acho melhor a gente almoçar por aqui mesmo. – disse Cristine.

Neste momento ouviram o som de passos correndo e adentrando pela porta dos fundos. Era Ariel que entrara esbaforido na cozinha, pálido e trêmulo. Angélica correu na direção do irmão.

- O que foi, Ariel? – perguntou Angélica.

Por instantes o garoto permaneceu mudo, como que em estado de choque.

- Pelo amor de Deus, meu filho! O que foi que houve? Aconteceu alguma coisa com o teu pai??? – perguntou Regina ansiosa.

Ariel balançou a cabeça negativamente. Aos poucos entreabriu os lábios e disse:

- O pai ta legal. Ta lá na estufa...
- Mas então o que foi que houve??? – exaltou-se Angélica.
- A Adelaide...
- O que tem a Adelaide??? – perguntou Regina – Ela foi pegar uns temperos na horta...
- Acho que ela ta morta... – disse Ariel empalidecendo mais.
- COMO??? – gritou Angélica.
- Eu acho que mataram ela...

Angélica respirou fundo, segurou o irmão pelos ombros e fez com que ele se sentasse.

- Senta aqui Ariel e me conta o que aconteceu – pediu Angélica tentando manter a calma.

Cristine deixou-se cair numa cadeira, também empalidecendo. Ariel engoliu em seco, suas mãos tremiam e ele transpirava muito. Angélica pediu à mãe que desse um copo d’água para ele. Após beber alguns goles e depositar o copo sobre a mesa ele olhou para Angélica abraçando-a e soluçando alto.

- Calma, querido, calma... – dizia a morena – Tá tudo bem... Tudo bem...
- Não ta bem não! Mataram a Adelaide!!! – disse o rapaz.
- Ariel, tenta ficar calmo e me conta o que aconteceu, certo?

Ele assentiu com a cabeça. Tentou respirar pausadamente e começou seu relato.

- Eu tava vindo pra cá... Queria ver se encontrava a Cristine, para estudar. Aí eu vi a Adelaide saindo daqui. Ela tava com aquela capa de chuva que fica pendurada ali na porta, tava indo pros fundos... Eu dei oi pra ela e perguntei onde ela ia. Ela me disse que ia buscar temperos lá na horta. Eu me ofereci pra ir junto, pra pegar os temperos pra ela, pra ela não precisar sujar as mãos na terra... É que eu acho a Adelaide um tesão de mulher... Ela tem uns peitões...
- Ariel!!! – repreendeu Regina.
- Deixa ele contar mãe! – interveio Angélica – E aí, mano?
- Bom... ela nunca me deu bola mesmo. E dessa vez não foi diferente. Perguntou se eu não me enxergava e me chamou de garotinho. Aí eu disse que não era um garotinho, que já era um homem! E que ela não devia me tratar assim, que eu estava somente sendo gentil. Aí ela riu pra mim e me disse: “quem sabe outro dia”... Bom, eu fiquei olhando ela ir e pensei, pensei, pensei... “outro dia nada, eu vou hoje mesmo”, eu só queria ajudar ela, e conversar, assim quem sabe um dia ela me olhasse com outros olhos...
- Quanta pretensão, ein, galinho? – disse Regina em tom de reprovação.
- Aí eu quis ir atrás dela, - continuou o jovem sem levar em consideração a repreensão da mãe - mas começou a chover e eu entrei na cozinha pra pegar um guarda-chuva pra mim. E um pra Adelaide, pra ela não molhar os cabelos, pois tava só de capa... Depois fui atrás dela. Só que eu fui devagar, para não assustar ela e também pra ela não me botar pra correr... Fiquei só espiando ela de longe, meio escondido. Ela tava lá, tão linda...
- Que coisa feia, meu filho! Espiando os outros! – repreendeu Regina novamente.
- Mas mãe... não era “outros”, era a Adelaide!
- Ta, e aí? – quis saber Angélica.
- Aí tudo aconteceu muito rápido. Ela tava de pé e parece que olhou na direção dos fundos da propriedade... Como se visse alguma coisa... Sei lá... Pode ter sido só impressão, não sei... Aí eu ouvi um barulho alto. E me dei conta que era um tiro quando ela caiu igual uma jaca podre...
- Ariel! Pelo amor de Deus! – disse Regina.
- MÃE, pelo amor de Deus a senhora! Deixa o Ariel falar! Não interrompe! – disse Angélica exaltada.
- Eu fiquei todo borrado de medo e me abaixei. Fiquei quieto, espiando por entre os arbustos, mas eu não consegui ver mais nada. Só ela lá, caída, sem se mexer. Aí eu saí correndo sem olhar pra trás. Parecia que eu ia levar um tiro também. Fiquei com muito medo... Eu acho que ela morreu.
- Santo Cristo! – exclamou Regina despencando numa das cadeiras de madeira crua.

Angélica levantou-se num pulo e disse:

- Mãe fica aqui com o Ariel que eu vou até lá para ver o que houve. Liga pro Delegado agora. E Ariel, não sai daqui nem por decreto, entendeu? – disse Angélica dirigindo-se com seriedade ao irmão.
- Não, por favor, não vai! – pediu Cristine instintivamente, segurando-a pelo braço.
- E tu fica aqui também! Não sai daqui! – respondeu a morena para Cristine, determinada, já caminhando em direção à porta.
- Não vai minha filha! – disse Regina também a segurando pelo braço.
- O que é isso? Agora eu tenho duas babás? – perguntou a morena irritada.
- Não! Tem apenas pessoas que se preocupam contigo! – respondeu Cristine no mesmo tom.
- E que te amam... e não suportariam que nada de mal te acontecesse... – emendou a mulher mais velha.
- Tudo bem... – falou Angélica tentando manter a calma – Me desculpem...
- Todos estamos estupefatos com esta notícia, mas vamos manter a calma. – ponderou Regina – Eu vou chamar Morris e ligar para o Dr. Mendes e para o Delegado.

Regina saiu na direção da sala e deixou Angélica, Ariel e Cristine sentados na cozinha, em total silêncio. Não sabiam o que dizer ou pensar.

Em menos de vinte minutos todos estavam mobilizados com a notícia. Angélica não se conteve enquanto não foi até a estufa certificar-se que seu pai estava bem, sendo acompanhada por Thomaz que chegara logo em seguida, após ser contatado por Morris. Angélica convenceu o pai a ir com eles para o castelo. Quando entraram pela porta dos fundos o delegado Munhoz e o Dr. Mendes recém haviam chegado. Todos estavam na sala, inclusive Valesca, João Vítor, James e o motorista Henrique. Este último estava visivelmente abatido e inquieto. As expressões eram de incredulidade com a notícia ainda não confirmada.

O delegado disse ao advogado e a três homens que o acompanhavam:

- Vamos até lá para averiguar o que realmente houve. Tu poderias nos acompanhar Ariel? – perguntou dirigindo-se ao adolescente com voz calma.

Ariel anuiu com um balanço de cabeça, lançando um olhar assustado para a irmã.

- Tudo bem, Ariel, eu vou contigo. – Disse Angélica passando o braço ao redor dos ombros do irmão.

Morris, James e Henrique também acompanharam o grupo. Cristine, Regina, Israel, Valesca, João Vítor, Anemary e Thomáz permaneceram no castelo.

Ariel estava visivelmente amedrontado, olhando ao redor assustado.

- Calma, querido... – disse Angélica enquanto caminhavam – O que quer que tenha acontecido não vai se repetir. Qualquer pessoa que tenha feito algo brutal contra Adelaide não vai fazer o mesmo com esse bando de gente por perto, principalmente tendo o delegado junto. Tenta ficar calmo...

Ariel abraçava firme a irmã. Tentava ao máximo controlar-se. Angélica sentia as mãos frias do irmão envolvendo-a pela cintura. Afagava-o carinhosamente, tentando transmitir-lhe segurança.

Em poucos minutos chegaram ao local referido por Ariel. Este, ao aproximar-se, instintivamente diminuiu a marcha, sendo quase que empurrado por Angélica.

- Olha... – disse o jovem – Eu estava ali atrás daquele matinho... e ela ta caída ali, mais adiante.

O grupo apurou o passo e a cena que se descortinou era bastante forte. A jovem copeira jazia deitada de bruços imersa numa poça de sangue e água da chuva. Os cabelos loiros estavam tingidos de rubro e pedaços de sua massa encefálica se misturavam ao solo argiloso e escorregadio. O delegado verificou seus sinais vitais sem mover a jovem, embora pelo aspecto da vítima fosse totalmente desnecessário, e afirmou em tom lúgubre, dirigindo-se aos homens que o acompanhavam:

- Está morta. Podem fazer o que é necessário.

A equipe de técnicos da polícia iniciou os procedimentos de praxe nos casos como aquele. Fotografaram o corpo, examinaram o local e no momento em que viraram a jovem de frente todos deram um passo para trás, prendendo a respiração. Embora numa distância considerável puderam ver que o rosto de Adelaide tinha sido totalmente dilacerado por um tiro. A face estava irreconhecível, na verdade inexistente.

Ariel enterrou o rosto no pescoço de Angélica, não conseguindo encarar a cena. James empalideceu como se fosse desmaiar. Seu semblante esquálido ficou muito mais descolorido do que o normal. Sua testa ensopou-se de suor instantaneamente e ele precisou escorar-se num tronco de árvore para não cair. Morris permaneceu impassível como sempre, não fosse pelo seu olhar que se esbugalhou no momento em que o corpo de Adelaide foi virado, poderia se dizer que ele estava até acostumado a presenciar situações como aquela quase que diariamente. Dr. Mendes tentava não esmorecer, no entanto dava sinais de que não agüentaria ficar olhando aquela cena. Virou-se de costas e respirou fundo, engolindo em seco.

Angélica tratou de amparar o irmão e percebeu a figura musculosa de Henrique curvar-se sobre si mesmo, valendo-se também de um tronco de árvore para conseguir manter-se em pé. O motorista silenciosamente esgueirou-se pelo caminho de volta ao castelo, alternando seus passos como um autômato, cabisbaixo e visivelmente abalado.

Como não havia mais nada que pudessem fazer ali Angélica conduziu Ariel de volta ao castelo. Dr. Mendes os acompanhou. James ficou estático onde estava, como se a cena houvesse lhe paralisado os movimentos.

Chegando ao castelo Angélica deixou o irmão na cozinha com a mãe e levou o pai para o escritório de Artur, sendo acompanhada pelo advogado e por Cristine, esta última ansiosa para saber o que realmente houvera. Valesca e João Vítor tentaram acompanha-los, porém Angélica fechou a porta bruscamente e sem cerimônias antes deles entrarem no recinto, dizendo:

- Com licença, assunto de família.

Os dois entreolharam-se incrédulos com a atitude de Angélica, mas acharam por bem não polemizar e voltar para a sala, para saber das novidades mais tarde.

No interior do escritório o clima era de tensão e Angélica começou seu relato.

- Bom... Realmente alguém matou aquela moça. E de uma forma brutal. Arrebentaram a cara dela com um tiro. – disse a morena pausadamente – E o que mais me assusta agora é que seja lá quem tenha sido, vai saber que Ariel viu a cena, mesmo que de longe. E não vai saber o que realmente o guri viu, melhor dizendo, não vai saber SE o guri o viu, ou não...
- Meu Deus... – exclamou Israel entendendo a gravidade da situação.
- Pois é, pai. A gente precisa tirar o mano daqui. – completou Angélica com um ar muito preocupado.
- Mas isso não é problema. – emendou Cristine – A gente pode mandá-lo lá para o Rio, para a casa de uma amiga minha, sem problemas. Seja lá quem for não vai ter acesso ao endereço, pois não é o meu.
- O que é que o senhor acha, pai? – perguntou Angélica.

Israel sentou-se cabisbaixo escorando o rosto nas mãos e pensou por uns instantes, antes de responder:

- Me parece seguro.
- Então está resolvido. – disse Cristine – Eu vou ligar para a minha amiga.
- Calma. – disse Angélica – Daqui não. Vamos ligar lá de casa, depois. Do meu celular.

Cristine encarou Angélica e conjeturou como ela conseguia ser ponderada naquela situação. Parecia que pensava em tudo. E o pior é que sua colocação deixava claro uma certeza que Cristine preferia não ter: Angélica desconfiava de alguém de dentro do castelo.

- Bom, resolvido o problema do Ariel – continuou a morena – Temos o problema de estarmos com um assassino solto por aqui.
- Mas qual será o motivo pelo qual acabaram com a vida daquela pobre moça? – perguntou Cristine – Eu conversei com ela, não me pareceu uma pessoa que tivesse inimigos, era tranqüila, calma, pacata até...
- Se soubéssemos não seria um problema... – respondeu Angélica.
- Mas não pode ter sido acidente? – insistiu Cristine – Sei lá... Um tiro acidental, algum caçador, que tenha disparado sem intenção de alvejá-la e fugiu com medo das conseqüências de sua irresponsabilidade...
- Cristine, se aquele rombo na cara dela foi acidental imagine o que a mesma pessoa faria se tivesse intenção de acertar alguém... – ironizou Angélica – E além do mais ninguém caça por aqui. É proibido.
- Mas algum contraventor, quem sabe...

Angélica limitou-se a balançar a cabeça e respondeu calmamente:

- A gente não pode se negar de ver o óbvio.

Israel, que sempre fora homem de poucas palavras, suspirou pronunciando:

- Meu Deus! Eu custo a creditar... Perdi meu melhor amigo, matam uma moça bem dizer aqui dentro de casa e o meu filho passa a correr risco de vida... Isso deve ser um pesadelo.
- Não é, pai. Infelizmente não é. – respondeu Angélica.

Dr. Mendes permanecia calado. Ouvia e matutava. Muitos pensamentos lhe passavam pela mente. Idéias que lhe tiravam o sossego e o enchiam de receios e temores. Angélica também estava tensa.

Novamente Cristine fora assolada pela sensação de estar num cenário surreal, onde se misturavam pesadelos e realidade. Sua mente fervilhava.

Angélica quebrou o silêncio:

- Olha só, essa ida do Ariel para o Rio fica só aqui entre nós, entendido? Ninguém mais pode saber. Ninguém. Talvez a mãe.

Os três assentiram com a cabeça e responderam:

- Pode deixar. Ninguém saberá.
- É a vida do meu irmão que está em jogo. E nin-guém coloca a vida das pessoas que eu amo em risco. - disse Angélica categórica, mais para si mesma do que para os outros.

Neste meio tempo a polícia procedeu a remoção do corpo de Adelaide e o delegado se dirigiu ao castelo. Encontrou as pessoas reunidas na sala. Todos, excetuando-se Henrique, aguardavam-no reunidos no amplo salão, no mais absoluto silêncio. Eram cerca de onze horas da manhã.

O delegado Munhoz adentrou no recinto cumprimentando a todos com um maneio de cabeça discreto. Iniciou seu pronunciamento num tom técnico e impessoal:

- Já procedemos a remoção do corpo. Alguém já avisou os familiares da moça?

Todos se entreolharam e acenaram um não com a cabeça.

- Alguém aqui se dispõe a fazê-lo ou preferem que eu peça a um dos meus homens?
- Acredito que seja mais adequado que um de nós o faça – respondeu Dr. Mendes – Eu me prontifico a fazê-lo.
- Ótimo. – anuiu o delegado. – Solicito que ninguém deixe esta propriedade até segunda ordem. A partir da primeira hora da tarde pretendo conversar com cada um dos presentes.
- O quê??? Quer dizer que matam alguém aqui dentro e eu não posso ir embora??? – exaltou-se Valesca – Por acaso estou numa prisão domiciliar??? Ninguém vai me obrigar a ficar presa aqui!!! Eu não sou obrigada a ficar sob o mesmo teto que um assassino!!!
- Controle-se, senhora. – disse o delegado calmamente – Eu não disse que há um assassino aqui, nem tão pouco que vocês estão “presos”. Só preciso conversar com vocês, todos, sem exceção. Entendido?

Um pesado silêncio se fez na sala. O delegado continuou:

- Estarei aqui às treze horas e peço que todos estejam aqui também. Com licença.

Delegado Munhoz retirou-se da sala. Logo em seguida Dr. Mendes levantou-se, pesaroso, vergado pelo pesado fardo que carregava nos ombros: anunciar aos familiares de Adelaide o seu falecimento.

James disse:

- Eu vou com o senhor. Depois temos o dever moral de providenciar um funeral para a moça. A família dela é muito carente.
- Obrigado por me acompanhar, James. – disse o advogado.

Tão logo eles deixaram a sala de estar o restante do grupo se dispersou. Os serviçais foram cuidar de seus respectivos afazeres. Regina e Israel foram com Ariel para casa. Valesca e João Vítor foram para a cozinha para comer alguma coisa. Alegavam estar com fome, pelo fato de haverem acordado tarde, não tomando o café da manhã. Anemary, excepcionalmente, tratou de providenciar o almoço, muito embora no que as pessoas menos pensavam naquele momento era comer, excetuando-se a dupla que ainda não havia feito o desjejum.

Angélica e Cristine rumaram para a cabana.

 

 

Continua na parte 3...