Dando asas aos sonhos

Rose Angel

Contato: roseangelys@yahoo.com.br

 

 

 

Julho/2004
ALT/UBER

 

Disclamers:

Aí pessoal...

Olha eu aqui de novo... Só que dessa vez escrevendo no estilo ALT/UBER. Quero ressaltar que tomei gosto por esse estilo depois de ler as belíssimas histórias da grande escritora, e amiga, A.L.Benner. Sugiro que leiam seus contos, pois são realmente muito bons.

Vale o velho lembrete de que esta história contém temas adultos expondo relações sexuais explícitas entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, onde você mora é proibido ler esse tipo de material ou for homofóbico, não continue a leitura. A escritora e a pessoa que mantém o website onde esse trabalho aparece não aceita responsabilidade legal pelo não cumprimento desse alerta.

Essa história tem as protagonistas inspiradas nas personagens de Xena e Gabrielle que são marca registrada da MCA/Universal e Renaissance. Elas são usadas aqui sem intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright.

Aviso aos navegantes: Essa história é ambientada na região serrana do Rio Grande do Sul, porém não adianta procurar no mapa a cidade de Arroio Bonito e o Distrito de Itamoema porque eles só existem, de fato, na nossa imaginação. No entanto as referências às paisagens e demais descrições de lugares fazem jus às belezas que realmente existem no sul do país.

Espero que gostem e desejo a todos uma boa Leitura!

Se quiserem  enviar comentários acerca da história, críticas ou sugestões, ou trocar idéias sobre a série XWP meu e-mail é angelysr@terra.com.br

 

 

Era final de uma tarde chuvosa na cidade de São Paulo. Mabel dirigia seu carro pelas ruas movimentadas do centro da cidade. Enquanto enfrentava a loucura do trânsito seus pensamentos vagavam ao longe, alheios ao deslocamento lento e truncado, próprio daquele horário em que praticamente toda a população de trabalhadores se deslocava de volta para suas casas. Mabel também estava retornando para casa, para a casa onde morava com seus pais. No banco traseiro do carro uma pequena mala com algumas roupas e alguns poucos pertences que ainda haviam ficado na casa de Márcia, após terminarem um namoro de quase três anos. Mabel tinha o coração apertado e, enquanto se deslocava muito lentamente, fazia uma retrospectiva mental de toda sua vida até aquele momento. Havia nascido em Santa Rosa da Serra, uma cidade no interior de Minas Gerais, onde havia passado sua infância e parte da adolescência. Filha de um bem sucedido funcionário do Judiciário Federal mudou-se aos 14 anos para São Paulo, em virtude do trabalho do pai. A única filha mulher entre cinco irmãos, três mais velhos e um mais novo, debutou num dos clubes mais sofisticados da metrópole. Teve uma educação rígida e freqüentou sempre as melhores escolas. Ótima aluna, sempre com notas acima da média, ingressou na faculdade de Direito com dezessete anos, influenciada pelo pai, e aos vinte e dois anos graduou-se Bacharel em Direito. Nesta época era noiva de Roger, renomado ginecologista e obstetra, vinte anos mais velho que ela. Havia conhecido o noivo numa festa que reunia a elite da sociedade local. O pai de Mabel também havia exercido cargo político e a família havia se tornado quase que uma celebridade por conta do mesmo. Quando conheceu Roger deslumbrou-se por ele, encantou-se por sua conversa e beleza. Roger, por sua vez, reconheceu os encantos físicos de Mabel, porém o que mais lhe chamou a atenção certamente foi o quanto a influência do futuro sogro poderia lhe ser útil em sua carreira. Namoraram por um ano e somente após o noivado Mabel concordou em entregar-se ao homem com o qual sonhava casar e constituir uma família, bem nos moldes que a sociedade e sua educação lhe impunham. Roger foi o primeiro homem de Mabel, e o último também. Logo após sua formatura, e já com o casamento marcado, o sonho de Mabel desmoronou numa manhã de segunda-feira. Percebendo que Roger havia esquecido seu telefone celular na casa que estavam montando para eles, e na qual haviam passado a noite, resolveu ir até o consultório do noivo para entrega-lo, antes que o primeiro paciente do dia chegasse para consultar. Pensava em fazer uma surpresa para o noivo e levou alguns pães de queijo, pois percebeu que Roger havia saído apressado, sem tomar seu café da manhã. Como Roger costumava deixar um chaveiro reserva em casa não precisou tocar a campainha do consultório para entrar. Girou a chave e entrou na ante-sala que estava vazia. Parou por um momento, pois escutou vozes na sala de atendimentos. Ouvindo mais atentamente constatou tratarem-se de gemidos. Silenciosamente caminhou até a porta entreaberta e a cena que viu a deixou perplexa. A secretária de Roger estava nua, posicionada na mesa ginecológica do noivo, o qual fazia sexo furiosamente com ela. A mulher gemia e urrava em êxtase enquanto Roger pronunciava palavras que Mabel jamais teria coragem de repetir. Antes de consumar o ato Roger puxou a secretária, virando-a de costas e fazendo sexo anal com a mesma, com uma fúria que Mabel jamais imaginara ver no homem que pensava amar. Lágrimas escorriam de seu rosto enquanto continuava parada e vendo Roger terminar aquela orgia agarrando-se aos cabelos da secretária enquanto a mesma lhe fazia sexo oral. Roger estava se recompondo quando se voltou para a porta e viu Mabel parada, quase que em estado de choque, olhando incrédula para ele. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Mabel virou-se e saiu correndo porta afora, sentindo o seu mundo desabar sobre sua cabeça. Roger ainda tentou alcança-la, mas foi em vão. Nunca mais conseguiu olhar para aquele homem no qual havia depositado todos os seus sonhos. Não conseguia aceitar a traição. Naquela ocasião chegou a pensar em pôr fim à própria vida, porém sua família conseguiu dar-lhe o suporte que necessitava. Foi naquela época também que sua amiga de faculdade, Alice, aproximou-se dela. Foi com Alice que Mabel trocou o primeiro beijo com uma mulher. E gostou. Gostou muito. Alice foi uma mola impulsora no destino de Mabel. Alice era independente e alto astral, muito bem resolvida com sua sexualidade e em muito auxiliou a então namorada, Mabel, a ir de encontro aos seus anseios e desejos mais íntimos. Nesta época se deu conta que não desejava seguir a carreira jurídica. Optou pelas Artes Plásticas. Reingressou na faculdade e mesmo antes de formada já se ouvia falar de suas obras como “artista revelação”. Sua especialidade eram as aquarelas e óleos. Passou a ser reconhecida como Mabel Lopes, por seu próprio trabalho, e não mais somente por ser filha de José Isidoro Lopes Santini. O namoro com Alice durou quatro anos e terminou quando Alice resolveu viajar a serviço, era fotógrafa, com uma ex-namorada para a África do Sul. Mabel não quis correr o risco de ser traída novamente, embora Alice jurasse que a relação com sua ex era estritamente profissional. Depois de Alice teve mais dois ou três casos passageiros, até iniciar o namoro com Márcia. O relacionamento com esta última foi se dissipando aos poucos e chegou ao término sem Mabel conseguir precisar o motivo exato. Simplesmente foi esfriando e acabou. E enquanto restavam ainda a amizade e o respeito optou por juntar seus pertences e afastar-se de quem lhe havia sido tão importante há um tempo atrás.

Perdida nesses devaneios foi trazida de volta à realidade pelo barulho de uma freada brusca do carro que ia à sua frente. Conseguiu parar seu carro a tempo de evitar uma batida, porém não conseguiu evitar que o táxi que vinha atrás encostasse em seu pára-choque traseiro. A chuva fina continuava a cair e pelo retrovisor de seu carro viu a imagem do motorista descendo do táxi e gesticulando nervosamente. Tudo o que Mabel queria naquele momento era evitar discussões, não estava emocionalmente bem para qualquer que fosse o confronto. Lentamente desceu do carro e mal ouviu as explicações do motorista que tentava convence-la de que ele não havia tido culpa pela batida. Mabel olhou seu pára-choque e não havia realmente sinais de avaria. Virou-se para o motorista, um senhor de meia idade, obeso, claro, com as faces rosadas de nervosismo, e disse:

- Tudo bem... está tudo bem... não foi nada. – retornou para o seu carro, deu a partida e olhou pelo retrovisor ainda conseguindo ver o taxista aliviado entrando em seu veículo e a longa fila de carros que havia se formado atrás dele.

Seus cabelos loiros ficaram umedecidos pela garoa e de seus olhos verdes escorreram duas lágrimas que se alojaram nos cantos da boca afilada e suave de Mabel. Sentia-se como se o mundo estivesse lhe pesando sobre os ombros. Tinha trinta e quatro anos, porém era como se já houvesse vivido o suficiente para saber que seu destino era viver só.

Com esse estado de ânimo estacionou o carro em sua garagem e foi direto para seu quarto. Não queria que seus pais a vissem naquele estado de tristeza. Tirou os sapatos e atirou-se na cama, olhando para o teto por longo tempo, tentando esvaziar a mente... Precisava fazer alguma coisa, ou enlouqueceria. Tinha tudo o que qualquer mortal almejaria: uma carreira, família, ótima situação financeira, carro do ano, aparecia com freqüência nas colunas sociais e nas revistas de celebridades, era bonita, enfim... tinha tudo. Ou quase tudo, não havia sido ainda feliz no amor. E achava que nunca o seria.
Levantou-se vagarosamente da cama e foi até o seu computador. Faria uma pesquisa na internet. Precisava sair de circulação por um tempo e decidira viajar, sozinha, para onde não fosse reconhecida. Navegou por sites de busca, de turismo, até deparar-se com uma discreta propaganda:

“Pousada dos Sonhos”

“Se você necessita fugir da opressão das grandes cidades,
se o seu desejo é ter contato com a natureza, longe de tudo que cause estresse, venha para a Pousada dos Sonhos, afinal o que seria da vida se não fossem os sonhos?
Torne o seu realidade!
Ar puro, comida caseira, passeios a cavalo, trilhas, banhos de cachoeira...
As maravilhas da natureza na serra gaúcha.
Esperamos você!”

 

Juntamente com o anúncio havia uma foto de uma rústica construção com uma mata nativa ao fundo. Belíssima paisagem. Mabel anotou o telefone e o endereço de e-mail e resolveu fazer uma reserva. Iria passar uma temporada na Pousada dos Sonhos, para tentar dissipar a nuvem de pesadelos que teimava em pairar sobre seu dia a dia.

 

***********

 

O mês de agosto chegava quase ao fim, mas ainda fazia bastante frio na cidadezinha de Arroio Bonito. As paisagens da região serrana do Rio Grande do Sul começavam a mudar de cor e os prenúncios da primavera já se faziam notar nos matizes da vegetação local. Nadine havia ido até a cidade em busca de uma peça para o trator de sua granja, alguns suprimentos para a cozinha de Olga, sementes de hortaliças e tinta para cerâmica. Após comprar o que precisava embarcou em sua caminhonete F-1000 à diesel, ano 84, vermelha, tração nas quatro rodas, o xodó de sua dona, a quem Nadine chamava carinhosamente de “Pimentinha”. Segundo Nadine Pimentinha era temperamental e as vezes fazia manha somente para passar um dia todo na oficina do amigo Zé Paulo.

Nadine dirigia de volta para casa admirando a paisagem. Embora houvesse nascido ali não cansava de admirar as belezas do lugar, principalmente naquela época do ano.

Ao cruzar a porteira de entrada da propriedade avistou ao longe a figura de Olga que lhe abanava da soleira da porta. Olga era uma mulher alta, robusta, de descendência germânica, com cabelos grisalhos, pele muito alva e faces rosadas. Do alto de seus 74 anos de idade esbanjava vitalidade e disposição. Católica fervorosa comparecia à missa todos os domingos de manhã e mantinha-se solteira por convicção, apesar das investidas de Feliciano, serviçal da fazenda a mais de quarenta anos. Feliciano já havia se tornado mais que empregado, era considerado um grande amigo do pai de Nadine, Giácomo DiLaitano. Na verdade havia nascido na fazenda e o pai de Feliciano era empregado do pai de Giácomo. Desde a infância desenvolveram uma amizade profunda. No presente Feliciano já fazia parte do patrimônio da estância. Olga também, porém ela havia chegado à fazenda mais tarde, logo após o casamento de Giácomo. Este se encantou com uma bela jovem de descendência indígena, cabelos negros, longos e lisos, sorriso franco, olhos escuros como a noite e pele morena como as cuias de erva mate. A mãe de Nadine, Maria Tereza, tinha 17 anos quando se casou com Giácomo, então com 25 anos. Formavam um casal encantador, eternos apaixonados. Olga foi contratada para ser a governanta da casa e para servir de companhia para Maria Tereza, pois Giácomo passava grande parte do seu tempo no campo, cuidando da criação de gado. Quando Maria Tereza tinha 21 anos deu à luz Nadine, que chegou para alegrar a vida de todos. Porém, quando Nadine ainda era bebê sua mãe saiu com ela para um passeio de carroça. Em determinado momento o cavalo que traçionava o veículo assustou-se e disparou, fazendo a carroça despencar em uma encosta da estrada. Maria Tereza morreu na queda e Nadine, milagrosamente, não sofreu um arranhão sequer. Maria Tereza foi encontrada com a filha nos braços, muito provavelmente defendeu a filha com o próprio corpo. A tristeza abateu-se sobre o Rancho da Figueira, Giácomo foi perdendo o gosto pelas coisas. Vendeu gradualmente suas cabeças de gado, começou a beber e pouco parava em casa. Foi nessa época que Olga assumiu Nadine como filha, passou a cuidar da menina e dispensou-lhe todo o cuidado e atenção que a mesma necessitava. Foi Olga também quem, num rompante de ousadia, despertou Giácomo do estado letárgico em que se encontrava, questionando se havia deixado de amar a filha, se não era capaz de perceber que não se podia voltar no tempo e nem mudar o destino. E mais, que Nadine precisava dele e que era necessário que ele vivesse para criar a filha. Tais palavras proferidas por Olga com o dedo em riste, um palmo a frente de seu nariz, fizeram com que Giácomo chorasse igual a uma criança e se desse conta de que precisava reagir. Aos poucos foi se restabelecendo e conseguiu dar à filha o suporte emocional que precisava. Vinculou-se à Nadine de tal forma que levava a menina aonde quer que fosse, inclusive em algumas lidas de campo, sob os protestos de Olga que dizia: “isso não é coisa de menina, Seu Giácomo...” Gradualmente a vida foi voltando ao normal no Rancho da Figueira, embora Giácomo nunca mais houvesse pensado em se casar.


Olga acenava para Nadine enquanto esperava que a mesma manobrasse a caminhonete na frente da casa. Secando as mãos no avental de tecido xadrez cor de laranja, correu na direção de Nadine para abraça-la:

- Meu amorzinho... como você demorou! E os meus temperos?

Nadine abraçou Olga e respondeu:

- Estão todos aqui!!!
- Conseguiu inclusive o cardamomo?
- Querida, meu nome é eficiência... claro que consegui – respondeu Nadine beijando as faces coradas de Olga.
- É que eu quero fazer aqueles biscoitinhos que tu gostas...
- Ai, Olga... desse jeito eu vou ficar obesa!!!
- Ah, sim, vocês jovens tem mania de achar que magreza é saúde! Você precisa de sustância para agüentar o tranco do dia a dia!

Nadine riu e entrou em casa carregando a sacola de comprar e as encomendas de Olga.

- Vou tomar um banho e descansar um pouco, Olga, estou pregada, a estrada está cada vez pior...
- Vou reclamar para o Prefeito!!! Isso é péssimo para os negócios. Precisamos de um bom acesso para os hóspedes!
- Tá certo, Olga, reclama mesmo... – sorriu Nadine.

Nadine tomou seu banho na casa grande e subiu para o escritório. Antes de se recostar um pouco, num sofá confortável no canto do aposento, sentou-se em frente ao computador, verificou sua correspondência e navegou pela página da Pousada dos Sonhos. Nadine sempre fora resistente à idéia de informatizar a Pousada. Achava esse negócio de computador uma coisa muito sofisticada para a realidade da Fazenda da Figueira. A Fazenda já havia sido uma referência na criação de gado leiteiro e para abate. Hoje o pai de Nadine havia vendido grande parte da extensão dos campos para adquirir pastagens no estado do Mato Grosso, lugar onde passava a maior parte do ano. A Fazenda da Figueira havia se transformado em propriedade de porte médio, onde Nadine se dedicava ao plantio e administração da Pousada. A idéia de transformar a casa grande em pousada havia sido de Olga, uma visionária nata. Ciente das belezas da região serrana, em especial dos encantos da Fazenda da Figueira, idealizou a Pousada e cuidou de cada detalhe da decoração e da organização das atividades do novo negócio, principalmente da culinária do lugar. Nadine se dedicava a administrar o lado burocrático da Pousada, bem como cuidava dos cavalos e do planejamento e acompanhamento das trilhas. Os negócios estavam indo bem, no entanto por idéia e insistência do amigo Fredi, havia aceitado informatizar a Pousada e criar uma página na internet para a mesma, para ajudar na divulgação do lugar. E precisava dar a mão à palmatória: o movimento havia aumentado. Não havia sequer um final de semana em que não houvesse pelo menos um hóspede na Pousada, inverno ou verão. No inverno investiam no marketing do frio, possibilidade de neve, café colonial, lareira, boa comida. No verão divulgavam as cachoeiras, trilhas e passeios ao ar livre. E estava dando para sobreviver bem.

Fredi e seu namorado Marcos eram praticamente os únicos amigos de Nadine, pelo menos os mais chegados. Nadine era pessoa que se relacionava bem com todos, porém tinha certa dificuldade de estreitar os laços de amizade, quer por sua natureza reservada, quer pelo fato de que numa cidade pequena era impossível esconder sua homossexualidade. Era engraçado, pois em seu círculo de amizades estavam os tipos mais opostos, por exemplo, o padre Lino. Nadine havia sido batizada por ele, assim como havia feito a Primeira Comunhão e Crisma. Quando se descobriu gay não fez nenhum segredo para seu amigo e apesar dos conselhos do padre nunca deixou de ser respeitada por ele em virtude de sua orientação sexual. Olga também sempre soube das preferências de Nadine, embora colocasse defeitos nas poucas namoradas que teve, sempre achando que não estavam à altura de sua princesinha. No fundo Nadine se divertia com as implicâncias de Olga. Quando conheceu Fredi, que veio da capital para trabalhar no Banco local, foi amor à primeira vista. Um se encantou com o outro e Fredi passou a ser o irmão que Nadine nunca teve, além de ser seu confidente e ouvinte. Fredi segurou a barra de Nadine quando esta terminou o relacionamento com a última namorada, Sila, a quem Fredi chamava “amigavelmente” de “encosto”. Ele sempre havia implicado com ela, e alertava Nadine sobre a incomodação na qual estava se metendo. E de fato foi uma experiência bem traumática. Sila era possessiva e manipuladora, Nadine chegou ao extremo de quase agredi-la numa das freqüentes discussões que travavam, quase sempre por motivos banais. Até que Nadine resolveu terminar o romance tão conturbado, para alegria de Fredi, Marcos, Olga e até do padre Lino. Desde então estava sozinha, e queria ficar assim por um bom tempo, longe de confusão e discussões.

Nadine verificou sua correspondência e viu que havia um pedido de reserva para a próxima semana, no nome de Maria Isabela Hoffman Lopes Santini, por tempo indeterminado. Reserva para uma só pessoa, com chegada prevista para a metade da semana, entre quarta e sexta-feira. Estranhou, pois geralmente as reservas eram para mais pessoas, geralmente famílias ou grupos de amigos em finais de semana. Mas não quis se deter em detalhes que não lhe diziam respeito e retornou o e-mail confirmando a reserva e fornecendo as referências de trajeto solicitadas pela hóspede, que se deslocaria de carro até a pousada. “Deve ser alguma senhora aposentada, ou viúva, quem sabe, disposta a descansar longe do burburinho da cidade grande”, pensou Nadine. Sem mais o que fazer recostou-se no sofá colocando os pés para cima, na guarda, e pegando no sono vencida pelo cansaço.

 

***********

 

Mabel fazia sua mala enquanto sua mãe tentava, inutilmente, dissuadi-la da idéia de fazer uma viagem tão longa sozinha.

- Minha filha, essas estradas estão um perigo... porque você não pega um avião até Porto Alegre? Depois aluga um carro...
- Mãe, eu já disse: vou com o meu carro. Gosto de dirigir na estrada. E sei me cuidar...
- Mas filha, porque então não vai para um lugar mais perto? Tem tanto lugar bonito por aqui...
- Eu sei que tem, mãe, mas eu quero ir para lá. Já decidi.
- Você é teimosa igual ao seu pai. É minha sina mesmo agüentar gente teimosa...
- Mãnhe... não vamos começar de novo, vamos?...
- Mas, Mabel, você é a minha menininha...
- Eu tenho 34 anos, Dona Ivone!
- Eu sei, mas para uma mãe as filhas são sempre menininhas... eu queria tanto te ver casada... ver meus netos...

Mabel senta-se na cama, pega as mãos de sua mãe, olha nos seus olhos e diz carinhosamente:

- Sobre isso a gente também já conversou, mãe... a senhora já tem netos... eu cresci e fiz opções na minha vida...
- Eu não quero falar sobre isso...
- Mas, mãe, o papai nunca me deixou falar sobre mim... a senhora vai fazer o mesmo?...
- Eu não quero te ver sofrendo, minha filha. Essas suas... suas... conquistas sempre acabam te fazendo mal... olha pra você, Mabel... está desfigurada, pálida, olhar triste... eu não agüento te ver assim... – diz a mãe com os olhos cheios de lágrimas.
- Mãe, eu tô bem. Só preciso de um tempo, ok? Eu preciso ficar sozinha, preciso pensar, preciso definir coisas, eu preciso de uma perspectiva para minha vida... e eu quero me afastar daqui para poder espairecer e pensar.
- Mas...
- Não tem mas, mamãe. Olha, lembra da história do alpinista? Ele só consegue ver a totalidade da montanha se tomar distância dela. E eu estou precisando fazer isso com a minha vida, com a minha rotina...
- Tudo bem, filha... eu só quero o teu bem... mas liga pra mim durante a viagem? Pra eu saber se tudo corre bem...
- Ligo, mãe, eu ligo sim. Prometo.

Mabel abraçou afetuosamente sua mãe, dando-lhe um beijo na testa. Esta retribuiu e afagou os cabelos e o rosto da filha.

Mabel terminou de arrumar seus pertences, colocou a bagagem no porta malas de seu Ford Focus branco, quatro portas, cuidadosamente encerado pelo motorista da família, pegou sua bolsa, beijou a mãe e pegou a estrada rumo à Pousada dos Sonhos, situada no Distrito de Itamoema, cidade de Arroio Bonito, Rio Grande do Sul. Estava saindo cedo e planejava pernoitar em Joinvile ou Florianópolis, seguindo viagem no dia seguinte, afinal não tinha pressa nenhuma em chegar... Na verdade o que Mabel mais tinha naquele momento era tempo...

 

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Olga preparava uma fornada de biscoitos caseiros quando escutou Nadine esbravejar no pátio ao lado da cozinha:

- Que porcaria mesmo!!! Como é que não funciona?
- Não funcionando, Nadine!!! – respondeu Feliciano.
- Mas essa peça é nova!
- Eu sei, filha, mas veio com defeito... e sem ela o trator não funciona.
- Então vou ter que ir até a cidade trocar. Precisamos do trator o quanto antes. Temos muito chão para lavrar, semana que vem é mudança de lua e vamos ter que deixar o terreno pronto para semear de qualquer jeito.
- Queres que eu vá? – questionou Feliciano.
- Não. Pode deixar, vou eu.
- Olha, não cria caso na Ferragem, pois é defeito de fábrica, não é armação do Alcides... – advertiu Feliciano.
- Até parece que tu não me conhece! E eu sou lá de criar caso???...
- Eu que sei... – respondeu o velho rindo da falta de crítica de Nadine.
- Feliciano... o senhor não acha que está muito abusado? – questionou Nadine, mais em tom de brincadeira do que de represália.
- Pode ser... mas são os anos que eu tenho a mais que me dão esse direito... – disse abraçando Nadine e a acompanhando até sua caminhonete.

Nadine deu um tabefe no ombro de Feliciano e logo em seguida retribuiu o abraço, sorrindo para ele enquanto caminhava na direção do carro.

- Vou num pé e volto no outro.
- Vai com Deus, filha... – acenou Feliciano enquanto fechava a porteira após a passagem da caminhonete que seguiu rumo à cidade de Arroio Bonito.

 

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O Distrito de Itamoema ficava distante cerca de trinta quilômetros de Arroio Bonito e parte da estrada era de chão batido. Quando chovia a parte da estrada sem asfalto ficava quase que intrafegável. Olga bem tinha razão em reclamar para o Prefeito, como se adiantasse...

Mal havia vencido os dois primeiros quilômetros e iniciou-se uma chuva fina, que logo se transformou numa cascata de água despencando de um céu cinzento e ventoso, típico do inverno do sul do país. “Só me faltava essa!!!” esbravejou Nadine para si mesma. Por sorte Olga havia colocado uma jaqueta impermeável no banco do carona, para qualquer eventualidade. Olga parecia pensar em tudo. Poucos quilômetros antes de chegar à cidade Nadine começou a sentir a caminhonete puxando para um lado e estacionou para verificar os pneus. Colocou sua jaqueta e saiu do carro, enfrentado a chuva que naquele momento estava mais branda. Um dos pneus traseiros estava furado. Por sorte já se encontrava na parte asfaltada da estrada, porém não avistou viva alma na rua. Até os cachorros deveriam estar se escondendo da chuva... e ela ali. Nadine já estava irritada e naquele momento percebeu-se furiosa. Resolveu trocar o pneu sozinha. Precisava fazer força para descarregar a raiva! Era uma mulher bastante forte, estava acostumada a fazer “coisas de homem” como dizia Olga em tom de crítica. Mas naquelas circunstâncias as “coisas de homem” lhe tirariam do aperto em que se encontrava. Pegou o estepe com certa dificuldade por causa do peso e da chuva. Posicionou o macaco hidráulico e afrouxou os parafusos da roda. Ergueu o carro e retirou o pneu furado. Colocou o estepe e os parafusos. Baixou o carro e pisou na chave de roda, ficando em pé e usando o peso de seu corpo para dar o aperto final nos parafusos. Àquela altura dos acontecimentos estava com os cabelos e rosto totalmente molhados pela chuva e de suor, pelo esforço realizado. Suas roupas estavam secas graças à jaqueta impermeável, lembrança da bendita Olga. Nadine, porém continuava furiosa. Chegando na cidade pegou o único semáforo existente, mais para enfeite do que por necessidade, fechado. Respirou fundo para diminuir a irritação, pois a última vez que havia passado no sinal vermelho o guarda Martins havia lhe parado e quase lhe aplicado uma multa! E lá estava ele, estrategicamente posicionado sob uma árvore de copa bastante cerrada que impedia a chuva de passar. “O cretino está me olhando, que raiva!!!” pensou Nadine enquanto aguardava o sinal verde.

 

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Mabel havia pernoitado em Florianópolis e pela manhã seguiu viagem rumo ao Rio Grande do Sul. Passava pouco das onze horas da manhã quando passou pela divisa de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Como havia levado petiscos para beliscar no caminho estava sem fome e não parou para almoçar.

Consultou o mapa e as indicações que havia recebido da Pousada dos Sonhos e chegou com facilidade até a cidade de Arroio Bonito. Chovia naquela tarde de inverno, uma chuva branda e que prometia ir longe. Pelas poças formadas nas ruas Mabel percebeu que a chuva havia sido forte antes de chegar. Precisava procurar o Posto de Gasolina para abastecer o carro e achar a estrada que levava a Itamoema. Como a cidade possuía somente uma rua principal asfaltada resolveu seguir por ela, pois certamente acharia o que procurava. Ao longe avistou uma placa BR indicando um posto de combustível, porém antes parou no semáforo da cidade, atrás de uma caminhonete vermelha, aliás o único veículo que avistou na rua. Olhou na direção da caminhonete e viu através do vidro traseiro um par de olhos azuis refletidos no retrovisor interno do veículo. Aqueles olhos eram lindos, pensou Mabel, mas estavam distraídos por alguma coisa, pois não perceberam o sinal esverdear.

 

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Nadine olhava para o guarda Martins e novamente a raiva tomou conta dela, lembrando de como aquela arrogante autoridade de trânsito havia se dirigido a ela pelo simples fato de ter passado o sinal vermelho, num domingo ao meio dia, onde não havia ninguém na rua num raio de, no mínimo, um quilometro! E o maldito só não havia lhe aplicado uma multa graças ao padre Lino que viu o ocorrido e intercedeu em seu favor, dizendo que não deveria ser tão rígido assim, afinal deveria seguir o exemplo de Jesus Cristo que era paciente e perdoava as faltas dos irmãos. Como o guarda não quis discutir com o padre, ficou o dito pelo não dito. E lá estava ela, disposta a descer do carro na chuva e descontar sua raiva no guarda Martins. Nadine foi trazida de volta à realidade por uma buzina insistente atrás dela, avisando que o sinal estava verde. Novamente foi tomada por um acesso de raiva, afinal quem estaria com tanta pressa naquele fim de mundo?... E como Nadine estava disposta a brigar com alguém mesmo, não teve dúvidas: puxou o freio de mão, desceu da caminhonete e caminhou em direção ao carro branco que havia buzinado atrás dela:

- Escuta aqui... qual é a tua!!! Tá com pressa??? – disse aos brados dirigindo-se ao motorista, sem ver quem era.

Mabel baixou o vidro fumê e respondeu:

- Desculpe... eu não fiz por mal... é que você devia estar distraída, o sinal abriu já faz um tempo...

Nadine, ao ver Mabel, ficou desconcertada. De fato estava sendo muito agressiva com quem não tinha culpa de sua irritação. Respirou fundo, baixou os olhos e respondeu:

- Por favor, quem deve se desculpar sou eu. Realmente estava distraída. Desculpe...

Dizendo isto deu as costas à Mabel, entrando novamente na caminhonete e seguindo para a loja de ferragens. Mabel observou a figura de Nadine se afastando, seus ombros largos sob a jaqueta impermeável, corpo bem definido, lindos olhos azuis. Os cabelos longos, escuros e molhados emolduravam o rosto moreno. Devia medir cerca de 1.80m, calçava botas de couro e calça jeans. “Que mulher linda...” pensou Mabel, afastando rapidamente tal pensamento de sua mente, afinal havia vindo para dar um rumo à sua vida, e ficar sozinha, longe de tudo e de confusões, principalmente as de natureza amorosa. Abasteceu o carro e seguiu rumo à Itamoema, para a Pousada dos Sonhos. O frentista do posto de combustível havia lhe dado as indicações que precisava para se localizar. Após rodar cerca de dezoito quilômetros entrou na estrada de chão batido, conforme lhe haviam informado. A estrada se encontrava em péssimas condições devido à chuva, muitos buracos e lama. Em certos trechos a estrada estava bastante escorregadia, mas Mabel estava tranqüila, afinal estava quase chegando a seu destino.

 

***********

 

Nadine havia entrado na sua caminhonete e seguido em direção à ferragem com a imagem do rosto da mulher do carro branco na mente. Estava envergonhada por sua atitude impulsiva. Havia sido grosseira com uma pessoa desconhecida, e sem necessidade. Precisava controlar o seu gênio, pensava enquanto manobrava a caminhonete no estacionamento. Lembrava do rosto delicado, da pele clara e dos olhos verdes, como duas esmeraldas. A boca afilada e a voz tranqüila e melodiosa. “Eu sou mesmo uma cavalgadura!!!” pensava Nadine. “Mas já passou, não adianta chorar pelo leite derramado... já pedi desculpas e pronto! E a gente não vai se ver mais mesmo...” continuava Nadine em seu monólogo mental. “Mas ela não é daqui... eu nunca vi. Deve estar de passagem. Mas também, precisava buzinar??? Eu tenho verdadeiro pavor de gente me atucanando... Porcaria de vida!!!”

Afastando esses pensamentos Nadine realizou a troca da peça do trator sem maiores problemas. Aproveitou para comprar um novo pelego para sua égua e embarcou na Pimentinha para retornar à Pousada.

Dirigia devagar pela estrada de chão batido, pois a mesma estava enlameada e escorregadia. Quando faltavam menos de três quilômetros para chegar na pousada, logo após uma curva mais fechada, Nadine freou a caminhonete, pois à sua frente se encontrava um carro parado e atravessado na pista, totalmente atolado na lama. Nadine reconheceu o carro e desceu da caminhonete, indo ao encontro do Ford Focus branco.

A motorista já se encontrava com o vidro semi-aberto e sorriu sem graça para Nadine:

- Você vai me xingar de novo, né?

Nadine sorriu, também sem graça e respondeu:

- Não... claro que não...
- Você poderia me ajudar?

Fazendo um sinal de positivo com a cabeça Nadine voltou para a caminhonete e pegou o cabo de aço para desatolar o carro de Mabel. Esta desceu do carro e atolou os pés na lama.

- Eu ajudo você...
- Não precisa, não... volta para o carro. Liga a chave, só a elétrica, e deixa em ponto morto.

Nadine colocou o cabo de aço no dispositivo do Focus, próprio para guincho, e retornou para a caminhonete. Vagarosamente foi dando ré até que o carro branco desatolou, ficando novamente no sentido do fluxo da estrada. Como o trecho estava intransitável para qualquer carro que não fosse caminhonete com tração nas quatro rodas, foi necessário que Nadine rebocasse o carro de Mabel por cerca de duzentos metros. Quando chegaram numa parte firme da estrada ambas desceram. Nadine desprendeu o cabo de aço e Mabel agradeceu pela ajuda.

- Quanto eu te devo? – questionou Mabel.
- Nada.
- Então muito obrigada.

Nadine esboçou um sorriso tímido e ficou calada.

- Como é o seu nome? – perguntou Mabel.
- Nadine. E o seu?
- Isabela. Prazer.
- Igualmente.

Seguiu-se novo silêncio quebrado por Mabel:

- Você sabe onde fica a Pousada dos Sonhos?
- Sei... – respondeu Nadine – é só me seguir... eu estou indo para lá.
- Ótimo! Fiz reserva para passar alguns dias lá. – respondeu Mabel entrando em seu carro.


Nadine dirigia devagar, olhando pelo retrovisor para ver se a sua acompanhante não iria se atolar de novo. “Isabela... Maria Isabela Hoffman Lopes Santini... era ela sim”, pensava Nadine rindo de si mesma ao lembrar que havia imaginado uma senhora aposentada, ou viúva... que piada. E que bela mulher era aquela. Pequena e delicada, olhos espetacularmente verdes... “Mas o que é isso, Nadine! Nada de pensar bobagens, ainda mais quando se trata de hóspede... chega de confusão nessa tua vida!!!”

 

***********

 

Com esses devaneios permeando os pensamentos de Nadine os carros penetraram na porteira da Pousada dos Sonhos. Àquela altura da tarde a chuva havia estiado e o céu estava azulado perto da linha do horizonte, embora ainda ao sul houvessem nuvens espessas e cinzentas. Mabel seguiu Nadine e estacionou o carro nos fundos da Pousada. Desembarcaram e Nadine conduziu Mabel para o hall de entrada. Olga havia escutado a movimentação dos veículos e já se encontrava à espera na frente da pousada. Nadine entrou na frente e antes que tivesse tempo de apresentar Mabel, Olga olhou-a de cima abaixo e começou seu discurso:

- Ách... minha querida... olha o estado que estás... o cabelo todo molhado, e as botas enlameadas, deve estar com as meias úmidas e os pés gelados, vais pegar um resfriado, depois tosse a noite toda! E tudo por causa da teimosia!!! Precisava trocar essa maldita peça do trator hoje? E aquele velho desocupado do Feliciano poderia ter ido! Vai já tomar um banho quente, princesinha!...

Nadine escutava o discurso impassível, pois sabia que de nada adiantaria tentar conter a enxurrada de recomendações e reclamações de Olga. Mas quando esta a chamou de “princesinha” perto de uma pessoa desconhecida, sentiu o sangue ferver-lhe nas veias!
“Princesinha...” pensou Mabel rindo consigo mesma. Se existia algum codinome que não combinava com a dona era aquele, pelo menos o “inha”.

- Olga... – grunhiu Nadine entre dentes – essa é a hóspede que esperávamos, Isabela.
- Muito prazer! Seja bem vinda! – disse Olga efusivamente, dirigindo-se à Mabel, completamente alheia ao olhar de reprovação e irritação de Nadine – Como foi a viagem???

Olhando para Mabel mais detalhadamente percebeu que também estava tomada de lama e questionou:

- Mas, afinal o que aconteceu? Vocês duas estão imundas!!!
- Olga... – repreendeu Nadine.
- Ora, imundas no bom sentido... essa Nadine é muito implicante – disse Olga sorrindo e dirigindo o olhar para Mabel.
- Meu carro atolou na estrada e Nadine fez a gentileza de me socorrer – respondeu Mabel, em tom de agradecimento.
– Mas venha, venha, vou leva-la até seu quarto. Nadine, peça pro Feliciano buscar a bagagem da moça!

Nadine deu meia volta sem responder e Olga a observou por cima do ombro. “Furiosa... minha menina está furiosa... o que terá acontecido?...” seguiu pensativa conduzindo Mabel para seu quarto. Por vezes Olga não se dava conta que tratava Nadine como se esta ainda tivesse cinco anos de idade. Por ter perdido a mãe tão cedo acabou superprotegendo a menina. Por sorte Giácomo fazia o contraponto e dava à filha a autonomia que precisava para aprender a encarar os conflitos do cotidiano. No fundo Nadine compreendia as preocupações de Olga e nutria por ela um amor incondicional, mas não conseguia deixar de se irritar com o excesso de zelo da mãe adotiva.

Nadine não chegou a procurar Feliciano, descarregando ela mesma a bagagem de Mabel. Eram quatro malas e uma valise de mão. “Quanta tralheira...” pensou Nadine, enquanto depositava as malas, uma a uma, no saguão de entrada. Nisto Feliciano entrou pela porta dos fundos e, solícito, carregou três malas de uma só vez para cima, depositando-as no interior do quarto de Mabel.

- Isabela, este é Feliciano! – disse Olga.
- Muito prazer, senhorita... Feliciano, um seu criado... - disse o velho tirando seu chapéu e estendendo a mão para Mabel.
- O prazer é todo meu – respondeu Mabel retribuindo o aperto de mão e sorrindo frente à simpatia do ancião.
- Qualquer coisa que precisar é só tocar a campainha. – informou Olga, indicando um interruptor num canto do aposento. – As toalhas já estão no banheiro e daqui a duas horas a janta estará servida.
- Obrigada, Olga. Vou tomar um banho e depois eu desço.

Olga se virou deixando Mabel no quarto e cruzando com Nadine que vinha subindo a escada com a ultima mala de Mabel e sua valise de mão. Ao passar por Nadine sapecou-lhe um beijo na face e reafirmou:

- Já pro banho!!!

Nadine fez cara de brava, mas não conseguiu mantê-la frente ao gesto afetivo de Olga. Retribuiu o beijo e respondeu:

- Tudo bem... já estou indo... antes vou entregar essa mala, que aliás deve ter chumbo dentro!

Olga sorriu e desceu a escadaria. Nadine chegou ao quarto de Mabel e encontrou a porta entreaberta. Espiou discretamente para dentro e viu que a nova hóspede estava na janela, admirando a paisagem do vale que se descortinava encosta abaixo. Bateu levemente na porta atraindo a atenção de Mabel.

- Com licença. Sua mala. Onde devo colocar? – questionou Nadine entrando no aposento.
- Pode deixar que eu mesma pego, está pesada.
- É, eu sei! Quero dizer, nem tanto...

Mabel fez menção de pegar a mala e elas acabaram quase que se esbarrando no meio do quarto. Mabel olhou Nadine nos olhos e sorriu da cena:

- Desculpe, não quis atropela-la...
- Tudo bem, a culpa é minha. Sou meio desajeitada mesmo... – emendou Nadine, largando a mala perto da cama e baixando os olhos, evitando encarar Mabel. – Se precisar de algo é só chamar.
- Você trabalha aqui? – perguntou Mabel.
- Sim. – respondeu Nadine enquanto se virava para sair. – Boa noite.
- Boa noite – respondeu Mabel – e muito obrigada... princesinha.

Nadine mal acreditou no que ouviu. Olhou Mabel nos olhos e novamente o sangue lhe subiu às faces. A raiva que estava pouco a pouco sendo abrandada aflorou novamente. Nadine, porém engoliu em seco, fechou a cara, virou-se e saiu caminhando a passos largos e rápidos, escada abaixo. Passou por Olga como um furacão e sentiu vontade de dizer-lhe umas verdades, mas achou melhor ir para casa.

No quarto Mabel divertiu-se com a situação. Enquanto tomava banho pensava na figura de Nadine. “Mulher enigmática... parece muito senhora de si. Meio arrogante, até. Mas com olhos lindos...” “E deve ser gay, ou não? Deve ser sim, tem todo o jeito. Mas também não me interessa! Não vim aqui para arrumar sarna pra me coçar...” “Se bem que eu podia ter lhe poupado do ‘princesinha’, ela ficou furiosa... mas eu não tinha como adivinhar que ela se irritaria tanto! Problema dela! Que se desestresse, eu estava só brincando.”

 

***********

 

Na trilha que levava para a casa de Nadine, esta caminhava chutando as pedras do caminho. Pensava: “mas o que essa mulherzinha pensa que é???... não lhe dei esse tipo de liberdade! Mas a culpa é da Olga, que não tem travas na língua! Agora vou ter que agüentar a gozação dessa uma até sabe-se lá quando... mas isso não vai ficar assim! Se bem que, pela minha cara, ela deve ter percebido o quanto foi infeliz na colocação! Tudo bem, foi brincadeira, eu sei... mas não gosto de ousadias de pessoas estranhas.”

Nadine entrou em sua casa, tirou as botas e a jaqueta e foi direto para o banho. Precisava de água quente. Encheu a banheira do seu quarto e mergulhou naquela água maravilhosamente acolhedora. Começou a relaxar sentindo o calor invadir-lhe por completo. Realmente estava com os pés congelados, Olga tinha razão. Lavou os longos cabelos negros e colocou creme rinse, enrolando-os numa toalha enquanto permanecia por mais um tempo sentindo o borbulhar da hidromassagem nas costas e na planta dos pés. Depois de quase meia hora enxaguou os cabelos, enrolou-se numa toalha verde oliva felpuda e foi para o quarto vestir uma roupa mais quente. Secou os cabelos e colocou um pijama confortável. Resolveu que não sairia mais de casa naquele dia. A noite já havia caído e Nadine preparou um lanche. Esquentou leite e preparou chocolate quente. Enquanto sorvia a bebida em pequenos goles pensava em Mabel. Era uma mulher bela, interessante, meio metida, mas linda. Mas não tinha jeito de gostar de mulheres, não. Pelo menos não parecia. “Deve ter marido e filhos” pensava Nadine. “Se bem que, se tivesse filhos não viria para passar uma temporada por tempo indefinido...” “O que será que ela faz da vida? Além de fazer piadinhas sem graça...” “Nadine, Nadine, vamos mudar o rumo dessa prosa...”

Nadine saboreava uma torrada com queijo colonial e continuava a pensar na vida. Já estava sozinha há quase dois anos, mas estava bem. Pelo menos sem cobranças, discussões e cenas de ciúmes. No entanto admitia para si mesma sentir falta de uma companhia, não só amigos, pois tinha a amizade sincera de Fredi e Marcos. Não era só isso. Sentia falta de uma mulher para amar. Ansiava pelo toque quente e pelas mãos carinhosas, desejava ter uma companheira para dividir seu dia a dia, para conversar horas a fio sobre as coisas da vida, para cavalgar, para ficar junto sem fazer absolutamente nada, contar estrelas, esquentar os pés no inverno e tomar banho de cascata no verão. Em seu íntimo desejava mais do que uma transa eventual, almejava não só uma paixão, mas um amor verdadeiro. Porém quando pensava nessas questões tratava de afasta-las do pensamento: “bobagens...” dizia para si mesma, “...isso só existe nos contos de fadas, Nadine! Cai na real.”

Nadine estava cansada e se deitou cedo. Logo pegou no sono, porém este foi povoado de sonhos indefinidos, onde uma figura pequena e de olhos verdes teimava em aparecer com um sorriso de deboche, dizendo: “princesinha...” Ao acordar começou a se dar conta da química que se processava dentro dela ao deparar-se com Mabel. E, pensando em se preservar e não sofrer mais, nunca mais, decidiu que ficaria o mais afastada possível dela.

 

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Na sala de jantar da pousada Mabel saboreava a comida preparada com esmero por Olga. Estava deliciosa, sem falar das sobremesas. Precisava tomar cuidado ou sua estadia na Pousada dos Sonhos lhe renderia o pesadelo de muitos quilos a mais na balança... Era a única hóspede naquele dia, por ser uma quinta-feira. A maioria das pessoas chegavam entre sexta e sábado.

Mabel estava curiosa para descobrir o que Nadine fazia na Pousada. Ela não aparecera para jantar, portanto deveria ser serviçal, fazer suas refeições na cozinha, ou quem sabe não morava lá e tinha ido para casa. Será que morava com alguém? Chegou a quase questionar com Olga, mas considerou mais ético não bisbilhotar a vida alheia, pelo menos assim descaradamente. Teria tempo suficiente para descobrir. Olga conversou um pouco com ela:

- De onde você é, filha?
- De São Paulo. – respondeu Mabel.
- E como descobriu nossa pousada?
- Pela página da internet.
- Ách... essas coisas eu não entendo... – disse Olga sorrindo – como é que tem tanta coisa dentro daquela maquininha pequena, a gente consegue saber coisas de todo o mundo!

Mabel sorriu frente à ingenuidade e franqueza de Olga.

- Nadine já tentou me ensinar, mas eu não entendo. E você faz o que? – bisbilhotou Olga.
- Eu sou Artista Plástica.
- Artista... que lindo!!! – disse Olga encantada. – Mas faz aqueles quadros sem pé nem cabeça, que ninguém entende?...
- Também, Olga, também... gosto do abstrato, mas também trabalho o convencional, o “que todo mundo sabe o que é”... – respondeu sorrindo.
- Que lindo!!! Mas me dê licença, fique à vontade que eu preciso cuidar das minhas obrigações.

Dizendo isso Olga se afastou de Mabel. Esta ficou rindo da espontaneidade e simpatia da velha senhora. Bom, já havia descoberto que Nadine entendia de computação, logo não poderia ser tão chucra como parecia. De fato, Nadine parecia ser uma mulher culta, “pavio curto, mas estudada...” pensou Mabel.

Após o jantar telefonou para sua mãe e recolheu-se para seu quarto. Dormiu cedo, pois estava exausta da viagem.

 

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O dia seguinte amanheceu chuvoso, uma garoa fina caía incessante por sobre a Pousada dos Sonhos. Devido a previsão de tempo chuvoso para todo o final de semana houveram desistências de reservas e somente um pequeno grupo de cinco amigos confirmaram a chegada para sábado pela manhã.

Naquela sexta-feira Nadine tratou de trabalhar no galpão, juntamente com Zé Paulo, para deixar o trator pronto para o preparo da terra. O tempo passou rápido e nem chegou a ir até a Pousada. Olga foi levar o almoço para os dois no galpão e comentou:

- A nova hóspede é uma simpatia, não é mesmo, Nadine?
- Nem reparei. – respondeu secamente Nadine, enquanto limpava as mãos engraxadas numa estopa embebida em solvente.
- Ela veio de São Paulo. É artista! – comentou Olga.
- Só podia! – respondeu Nadine.
- Como assim, Nadine? Não vai me implicar com a moça, ein?
- E eu sou de implicar com os outros???...

Olga e Zé Pedro se entreolharam e sorriram.

- Tudo bem, Olga, não vou implicar. Palavra de escoteiro! – disse Nadine com um gesto teatral, como se proferisse um juramento.

Olga deu uma palmada no traseiro de Nadine e esta pulou para a pequena mesa posta com seu prato de comida.

- Deixa eu ver essas mãos, - disse Olga – quero ver se estão bem limpas para comer.
Pacientemente Nadine mostrou as palmas que havia lavado cuidadosamente com sabão de mecânico. Olga pegou as mãos de Nadine entre as suas e as beijou:
- Minha menininha... essas mãozinhas não deviam fazer esse tipo de serviço, isso...
- “...é coisa de homem...” – emendaram Nadine e Zé Pedro ao mesmo tempo, rindo da colocação de Olga, que sempre dizia a mesma coisa.
- Isso, debocha dessa velha que se preocupa contigo – respondeu Olga com as mãos na cintura e batendo o pé direito no chão em sinal de contrariedade.

Nadine levantou num pulo e abraçou Olga pela cintura fazendo-a girar num bailado, como se dançassem ao som de uma valsa imaginária.

- Pára com isso, menina... Eu tô ficando tonta... – disse Olga rindo do rompante de Nadine. – Não adianta Zé Pedro, essa menina não me leva a sério mesmo!
- Mas eu te amo, sua boba... eu te amo muito – dizia Nadine enquanto bailava e beijava as faces de Olga.
- Eu já estou toda babada...
- Bé, bé, bé... – debochou Nadine – vai lavar bem essa cara... – disse imitando a pose e os trejeitos de Olga.

Nadine e Zé Pedro terminaram o almoço e continuaram na lida da arrumação do trator. Conseguiram acabar o serviço quase no início da noite. A chuva havia estiado por completo e se vislumbrava um céu azul no horizonte.

 

***********

 

Da janela de seu quarto Mabel também contemplava aquele céu azulado, cujo contorno avermelhado por cima das montanha onde o sol se punha, indicava a iminência de um dia de sol no sábado, totalmente oposto ao que havia sido divulgado pela previsão meteorológica.

Como o dia todo havia sido chuvoso, Mabel aproveitou para dormir bastante e colocar a leitura em dia. Faziam meses que não dedicava tempo à leitura. Em sua mala havia colocado vários livros sobre assuntos esotéricos, revistas e material sobre arte. Teria muitas opções para se divertir.

Enquanto observava o ocaso percebeu-se pensando na figura esguia de Nadine. Não a tinha visto durante todo o dia, se bem que havia saído do quarto somente para as refeições. Instantaneamente tratou de afastar tais pensamentos da cabeça.
No dia seguinte, caso houvesse sol, planejava conhecer a Fazenda, ou poderia até fazer uma trilha. Esperaria para ver.

 

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Conforme o prenúncio alaranjado do ocaso, o sábado amanheceu ostentando um céu límpido e sem nuvens. Era bem cedo quando chegaram os demais hóspedes esperados. A claridade matinal recém despontava no horizonte delineando as montanhas e dando formas à natureza, que até então se encontrava encoberta pelo manto escuro da noite. Eram cinco jovens com idades entre 20 e 25 anos. Duas moças e três rapazes. Alojaram-se em dois quartos. Após o café da manhã já estavam prontos para explorar a Fazenda, combinaram iniciar o dia com uma cavalgada.

Mabel também havia acordado cedo e ouvira a chegada efusiva do grupo. Lavou o rosto, vestiu-se e, ao abrir a janela, avistou ao longe a figura imponente de Nadine encilhando um cavalo ruão, todo branco e com as crinas amareladas. Perto dela Feliciano puxava mais dois pelas rédeas. Pela movimentação percebeu que haveria uma cavalgada matinal. Abriu uma de suas malas e trocou o tênis que já havia calçado por um par de botas de cano curto, assim como a calça jeans por uma de lycra, para facilitar a montaria. Estava excitada, pois montara num cavalo somente uma vez na vida, quando ainda era criança, mas estava adorando a idéia de repetir a experiência. Desceu a escadaria da Pousada e entrou na sala de refeições onde o café já a aguardava, acompanhado dos mais variados petiscos preparados por Olga. Esta veio recebê-la de braços abertos:

- Venha, querida... o café está na mesa!

Olga apresentou Mabel ao jovem grupo que acabava de fazer sua refeição matinal e rumava para o pátio lateral, ao encontro de onde estava Nadine. Mabel mal engoliu um pedaço de bolo e uma xícara de café com leite e correu para juntar-se ao grupo, com medo de ficar para trás.

Nadine distribuía as montarias para os hóspedes quando Mabel juntou-se a eles cumprimentando-a sorridente:

- Bom dia, Nadine.
- Bom dia. – respondeu com um monossílabo.
- Bom dia Feliciano. – disse Mabel.
- Bom dia, dona Isabela. Como passou a noite?
- Dormi como um anjo! E você Nadine, dormiu bem? Ou com os pés destapados? – brincou provocante Mabel.

Nadine respirou fundo e respondeu educadamente, porém sem esboçar qualquer menção de sorrir:

- Dormi bem...

Feliciano olhou Nadine pelo canto dos olhos e pensou: “esta cavalgada vai ser longa...”

Mabel olhou para um cavalo baio, amarelo torrado, pêlo cuidadosamente escovado e brilhante e disse:

- Eu quero ir naquele cavalo.
- Naquele não. – respondeu Nadine.
- Mas porque não?
- Primeiro: porque “ele” não é cavalo, é uma égua. E é minha. Segundo: porque ela é temperamental, não gosta de estranhos.
- Parece que não é só ela... – continuou provocando Mabel.

Estrategicamente Feliciano interveio e ofereceu uma égua extremamente dócil para Mabel, toda preta, com olhar meigo, passo lento e cadenciado.

- A senhorita já montou alguma vez?
- Uma vez só, quando eu era pequena... – respondeu Mabel. E dirigindo o olhar para Nadine continuou - ...mas é como se eu houvesse nascido sobre um cavalo!
- Sei... – grunhiu Nadine.
- Eu a ajudo a montar, senhorita. – disse Feliciano entrelaçando as mãos para que Mabel pudesse apoiar seu joelho.

Para surpresa de Nadine até que Mabel conseguiu manter-se relativamente bem sobre Jabu, diminutivo de Jabuticaba, nome escolhido em virtude da cor da égua, que era preta e lustrosa como o ébano. Feliciano segurava as rédeas de Jabu enquanto Nadine cavalgava mais a frente com o restante do grupo.

- Feliciano, Nadine trabalha aqui há muito tempo? – futricou Mabel curiosamente.

Feliciano sorriu e respondeu:

- Sim... muito tempo... ela nasceu aqui. Aliás, eu também. Sou amigo e me criei com o pai dela.
- Ah, o pai dela também trabalha aqui?
- Bom, aqui não. No momento ele está em sua fazenda de gado no Mato Grosso. Por aqui ficou só a Nadine, tocando os negócios da família.

Mabel coçou a nuca e continuou o diálogo:

- Então ela é a dona da Pousada?
- É.
- Por isso a arrogância...
- Como, senhorita?
- Nada, nada, pensei alto.

“Mas é óbvio que só poderia ser a dona, pois patrão nenhum admitiria uma serviçal tão... tão, digamos, temperamental” pensava Mabel.

- Feliciano, a Nadine mora na Pousada?
- Mora numa casa na Fazenda, porém afastada da Pousada, perto da cascatinha.
- Mora sozinha?
- Sim... mas porque a pergunta?
- Nada, nada não, só curiosidade. Pensei que pudesse ser casada e viver na cidade...
- Não, ela vive sozinha mesmo, nunca casou. - Feliciano deu uma tossidinha discreta e mudou o rumo da conversa – O que a senhorita está achando da Pousada?
- Estou adorando esse verde todo ao redor. Estava precisando disso.
- Que bom. Vai ficar até quando?
- Não sei ainda, trinta dias, talvez... tudo depende...
- Depende do que?
- Do meu estado de ânimo... – respondeu Mabel com um suspiro.


Feliciano se calou e continuaram o passeio até a beira de um riacho onde a água límpida e gelada escorria brejeiramente por sobre as pedras tomadas de limo. Um pouco mais à esquerda do cenário uma pequena cascata de uns cinco metros de altura caia formando uma bacia em frente a uma caverna escavada nas rochas pela natureza. Podia-se chegar nessa caverna natural coberta de musgo somente a nado. Nadine costumava brincar ali quando criança, para desespero de Olga, que via a garota serelepe projetar-se no vazio de braços abertos, como se alçasse vôo das pedras, indo cair bem no meio da piscina natural formada pela cascata. Ainda hoje Nadine costumava nadar naquele local.

Desmontaram e iniciaram um passeio pelos arredores. Nadine tentava se esquivar de Mabel, porém em determinada parte da caminhada esta última emparelhou o passo com a primeira, aproximando-se por trás. Olhando para Nadine, Mabel referiu:

- Olha só... eu queria me desculpar pela brincadeira da “princesinha”... eu não queria que tivesse ficado chateada...
- Tudo bem... – respondeu Nadine mais tranqüila - ...é que eu tenho um pouco de bronca com essas colocações da Olga... ela me trata como se eu ainda fosse criança.
- Por certo é porque ela gosta muito de você.
- Eu sei, na verdade Olga é como se fosse minha mãe...
- E a sua mãe?
- Morreu quando eu ainda era bebê, não tenho nenhuma lembrança dela, só conheci por fotos.
- Sinto muito.
- Tudo bem, Olga conseguiu suprir a minha carência de mãe. – disse Nadine em tom de brincadeira.
- Deu pra perceber... – sorriu Mabel. Depois de um silêncio não resistiu e alfinetou novamente – Mas você poderia ter me emprestado a sua égua...

Nadine parou abruptamente, virou-se para Mabel e quando esta última esperava uma enxurrada de desaforos, percebeu um par de olhos azuis diretamente fitando os seus, e uma voz branda lhe dizendo:

- Eu não quero que ela te machuque... eu já falei, ela não permite que mais ninguém a monte, além de mim, e de Feliciano.
- Mas garanto que ela iria gostar de mim...

Nadine balançou a cabeça e continuou a caminhada pensativa, “que mulher teimosa, uma jumenta empacada...”. Enquanto isso Mabel também seguia com seus próprios pensamentos: “arrogante, sempre arrogante, acha que só ela sabe fazer as coisas e tomar pé das situações...”.

Mabel observava Nadine que havia acelerado o passo e alcançado o grupo que ia mais à frente. Vestia uma calça justa marrom escura, própria para equitação, que marcava cada curva de suas pernas e nádegas. As botas pretas, de cano alto, pareciam encompridar ainda mais aquele par de pernas que pareciam duas colunas de templos gregos. Trajava uma jaqueta vermelha, curta, de mangas longas, deixando a mostra a gola rolê da blusa de lã salmão que vestia por baixo. Apesar da aparente frieza Mabel se sentia atraída por ela. Aquela figura lhe era enigmática. O que esconderia por trás daquela pose arrogante? Mabel caminhava pensativa: “...o mais engraçado é que ela parece ficar desconcertada cada vez que eu chego perto...”, “ah, se eu não estivesse disposta a dar um tempo... bem que poderia investir meu charme naquele belo par de olhos azuis... e de pernas...”

Continuaram costeando o arroio e a paisagem que se descortinava era exuberante. Pararam numa clareira na mata, onde o cenário conjugava em perfeita sintonia as montanhas e o vale, a excitação da cachoeira e a calmaria da copa das árvores naquele dia sem vento, o azul do céu e o verde dos campos, o barulho violento da queda d’água e a cantiga suave dos pássaros nos ninhos. Mabel estava embevecida. Fechou os olhos e embriagou-se com o perfume da mata. Recostou-se num tronco de árvore e ficou observando por algum tempo a inércia da natureza e o movimento lento das sombras das árvores, conforme o sol se deslocava no céu de brigadeiro. Volta e meia seus olhos procuravam por Nadine e em determinada hora sorriu feliz por estar vivendo aqueles momentos de comunhão com a natureza... e consigo mesma. Experimentou uma sensação de paz que há muito tempo havia esquecido, em algum lugar do passado...

Perto do meio dia retornaram para a Pousada, onde Olga já aguardava o grupo com o almoço pronto. Durante a manhã a temperatura começou a aumentar e já deveria estar perto dos 20° quando cruzaram o pórtico de entrada da casa grande. Nadine havia tirado a jaqueta e caminhava com a peça vermelha jogada descuidadamente sobre os ombros. “Como é charmosa...” pensou Mabel. Seus olhos verdes se iluminaram quando Nadine pegou um prato e serviu-se, sinal de que almoçaria com eles. Mabel sentou quase que à sua frente e a observava discretamente. Nadine tinha classe. Observando bem, não tinha nada de chucra, nem de mal educada, como pensou a primeira vista.

Almoçaram em silêncio e combinaram fazer uma trilha às treze horas. Teriam cerca de quarenta minutos para descansar. Mabel foi até seu quarto e tomou um banho rápido. Colocou seu perfume preferido e um conjunto em tom verde musgo, que realçava a cor de seus olhos.

Antes das treze horas já esperava pronta no hall de entrada.