Dando asas aos sonhos

Rose Angel

Contato: roseangelys@yahoo.com.br

 

 

 

Quando Nadine pisou na soleira da porta de entrada da Pousada viu a silhueta do perfil de Mabel. Esta encontrava-se sentada numa cadeira de encosto alto, bastante antiga, que ficava ao lado da mesinha do telefone. Parou por um momento para observa-la. Estava com as mãos sobre os joelhos e parecia aguardar ansiosamente por algo. Nadine esboçou um sorriso, pois encantou-se com a aura de expectativa da artista, tal qual uma criança que espera seu presente de aniversário. “Que gracinha...” pensou Nadine. Observou o perfil de Mabel e o quanto seu narizinho era charmoso. Nesse momento Mabel pressentiu que a observavam e virou seu rosto em direção à Nadine. Esta ainda tentou disfarçar, mas ficou evidente que olhava para ela. Mabel sorriu e franziu o pequeno nariz no sorriso, deixando Nadine encantada com sua expressão de contentamento ante ao passeio que estavam por realizar. “Ou será que ficou feliz ao me ver?...” pensou Nadine, “Bobagem... deve estar contente com as oportunidades que terá de me tirar do sério durante a tarde!... isso sim...”

- Eu já estou pronta!!! – disse Mabel colocando-se em pé num pulo.

Para não perder a pose, Nadine fechou a cara, passou por ela e disse séria:

- Que bom. – e olhando para seus pés retrucou – Troque as botas por um par de tênis, vamos caminhar bastante.
- Mas...

Antes que Mabel pudesse argumentar Nadine já havia cruzado pelo hall de entrada e saído pela porta da cozinha.

“Que grossa... custava dizer isso de forma mais... mais amigável?... mas acho melhor colocar os meus tênis mesmo...”, remoeu Mabel consigo mesma enquanto subia as escadas em direção a seu quarto. Não levou mais do que cinco minutos para retornar e ao chegar no pátio o grupo já a aguardava.

- Muito bem, - disse Nadine – agora que os retardatários já chegaram vamos seguir para a trilha.

Mabel sentiu o sangue subir-lhe pelas faces, mas não teve tempo de responder, pois Nadine já caminhava com passos largos à frente do grupo. “Que injustiça!!! Eu fui a primeira a descer. Ela que me mandou colocar esses malditos tênis!!! Que raiva!!! Como pode ser tão estúpida! E eu tão idiota de me alegrar quando a vejo! Raios!” pensava Mabel enquanto seguia por último na fila que já havia se formado.

“Eu podia ter pegado mais leve”, pensava Nadine, “mas fica pelo ‘princesinha’ do outro dia”.

Feliciano seguia com eles e observava atentamente Nadine e Mabel. Ele era um velho perspicaz e havia se dado conta do clima entre as duas: “Não sei não... elas parecem que dão choque só de se olhar... ou muito me engano ou essa história ainda vai dar pano para manga... eu só não quero que a minha menininha sofra.”


Caminharam por cerca de duas horas por uma trilha bem conservada e de fácil acesso. Grande parte do trecho era em subida e as pernas de Mabel pareciam estar pesando mais que o resto do corpo. Não estava habituada a maiores esforços físicos. Costumava malhar na academia, não muito, mas aquele tipo de esforço era diferente. Percebeu que todos levavam mochilas às costas. Ela não levou nada, aliás não saberia o que levar para o meio do mato. Pela metade do caminho de ida começou a sentir sede. Todos haviam levado garrafinhas d’água, menos ela, e não daria o braço a torcer pedindo água para quem quer que fosse.

Nadine ia dando explicações sobre as plantas, o solo, as árvores e a geografia local. Mabel prestava atenção e percebeu o quanto aquela mulher dominava o assunto. “Qual será sua formação?” pensava. Quando chegaram a uma clareira no alto de uma montanha pararam para descansar. Mabel sentou-se exausta, suando em bicas. Feliciano estava sentado ao lado de Nadine e fez menção de se levantar para oferecer água à Mabel, quando Nadine discretamente segurou-o pelo braço, fazendo-o sentar-se novamente. Pegou seu cantil, levantou-se e caminhou em direção à artista. Havia percebido que Mabel não trouxera nem sequer água e ficou com pena dela. No fundo queria que sentisse um pouco as dificuldades da vida no campo, mas mata-la de sede já era demais!

Ao perceber a aproximação de Nadine, Mabel preparou-se para se defender do que viesse pela frente. Para sua surpresa Nadine sentou-se a seu lado, sorveu um longo gole de água de seu cantil e depois o ofereceu à Mabel. Esta chegou a pensar em recusar, mas se deu conta que desfaleceria. Pegou o cantil e bebeu aquele líquido precioso com avidez, até o último gole. Ao perceber que havia tomado toda a água desconcertou-se:

- Nossa... desculpe... eu não percebi que só tinha um pouco... e te deixei sem...
- Não tinha pouco... mas tudo bem, estamos perto de uma fonte natural.

“Estamos perto de uma fonte natural... porque ela não me disse isso antes... aí eu não teria tomado essa água babada!” remoeu Mabel.

- Está cansada? – perguntou Nadine.
- Não, nem um pouco!
- Pois parece...
- Mas não estou!
- Tudo bem, tudo bem... é que esta trilha é uma subida e tanto. Até eu canso.

“Até eu canso... bé, bé, bé... até a mulher maravilha cansa” debochou Mabel em pensamento. Olhando para Nadine não deixou por menos:

- Olha aqui, você foi injusta comigo agora a pouco! Eu fui a primeira a me aprontar para a caminhada! Antes da hora combinada eu já estava no saguão! E foi você quem me mandou botar os tênis!
- Sugeri.
- Tudo bem, sugeriu. E eu achei boa a sugestão, tanto que troquei as botas por eles!
- Ainda bem, senão além de sedenta estaria com os pés arrebentados.
- E posso saber porque vossa senhoria não me sugeriu trazer um cantil?
- Porque eu pensei que vossa onipotência iria imaginar que sentiria sede!
- Mas eu não sabia que era tão longe! Olha, o que é que você tem contra mim? Já percebeu que vive me retrucando?

Nadine se desarmou um pouco e respondeu mais brandamente:

- É que você é meio teimosa...
- Mas precisa implicar tanto?...

Nadine ficou em silêncio e baixou os olhos, Mabel continuou:

- Olha só... vamos combinar assim: eu teimo menos e você implica menos também, ok? – disse estendendo a mão para Nadine.

Esta olhou para a pequena mão estendida no intuito de firmar um pacto. Olhou Mabel nos olhos, sorriu e retribuiu o aperto de mão:

- Combinado.

Quando as mãos se tocaram Nadine sentiu um calor subindo-lhe pelas faces. Os olhos de Mabel encontraram os dela e as mãos ficaram unidas por um tempo maior do que o necessário para firmar um acordo de paz. O toque da mão de Mabel era suave, mas firme. Sua pequena e delicada mão era quente e acolhedora. Mabel sentia a mão forte de Nadine envolver toda a sua e era como se estivesse sendo protegida de todos os perigos do mundo por aquele toque. Foram trazidas de volta à realidade por Feliciano, que deu uma tossidinha discreta ao chegar perto delas. Soltaram as mãos rapidamente enquanto Feliciano questionava sobre os rumos que tomariam daquele ponto em diante.

Estavam numa clareira que dava acesso a outras sete trilhas secundárias e sinalizadas. Nadine levantou-se e pediu a atenção do grupo:

- Pessoal !!! Por favor... Cheguem mais perto, por favor. É o seguinte: desse ponto em diante cada um dos presentes pode seguir pela trilha que escolher. Todas as placas indicam aonde as trilhas levam. Mas prestem atenção: não andem sozinhos. Andem pelo menos de dois em dois. E muito importante: mantenham-se nas trilhas principais, as que são sinalizadas. Em hipótese nenhuma penetrem nas trilhas naturais abertas na mata pelos animais ou pelo pessoal da manutenção, pois estas não possuem sinalização e são perigosas para quem não as conhece. Repetindo: SOMENTE nas trilhas sinalizadas, ok?
- OK!!! – responderam os jovens.

Nadine continuou:

- São quase 15:00 horas. Vamos nos reencontrar aqui as 16:30 horas para retornarmos à Pousada ainda com a luz do dia, certo?
- CERTO !!! – gritaram todos, espalhando-se pela clareira em grupos de dois, pois Feliciano foi com eles.

Mabel não fez menção de se levantar e Nadine foi para junto dela:

- Não quer dar uma volta?
- Acho que não... apesar de não estar cansada, vou ficar por aqui mesmo, apreciando a paisagem.
- Sei...
- Mas se você quiser ir com eles, eu fico aqui meditando.
- E quem iria protege-la das onças?
- ONÇAS ?... – disse Mabel, sobressaltada – Tem onças por aqui???
- Brincadeirinha... – respondeu Nadine sorrindo.

Mabel não perdeu a pose:

- Olha, não é que eu tenha medo de onças, mas é que eu não levo muito jeito com felinos... tenho asma!
- Ah...
- Sério! Nunca pude ter gatos. Se bem que eu sempre quis ter um gatinho, mas enquanto era pequena minha mãe nunca deixou. Por causa da asma! E depois que cresci não tive tempo para me dedicar a algum animalzinho de estimação.
- Eu tenho uma gata.
- Verdade? E como ela se chama?
- Esmeralda.
- Ai que amor! Porque esmeralda?
- Por causa dos olhos... – respondeu Nadine encarando Mabel – olhos verdes e lindos, da cor dos teus.

Dessa vez é Mabel que ficou sem jeito e baixou os olhos, desconversando:

- E qual o nome da sua égua?
- Atena.
- Nome de deusa...
- Pois é, acho que combina com ela.
- É... combina.
- Tá com fome? – questionou Nadine.
- Um pouco, essa subida desgastou um pouco da minha reserva de energias.
- Então vamos até a trilha 2. Ela leva a um pomar. É bem perto.
- Nadine, na subida eu vi uma dessas estradinhas estreitas... - disse Mabel.
- Que NÃO devem ser tomadas por pessoas de fora e desacompanhadas... – disse Nadine interrompendo a frase pela metade.
- Eu já entendi... mas como eu ia dizendo, um atalho que levava até uns plátanos maravilhosos! Eu adoraria fotografá-los! É que depois eu transformo as fotos em telas.
- Existem outros milhares de plátanos por aqui. – disse Nadine.
- Mas eu quero aqueles! – respondeu Mabel com a mão na cintura – É por causa da luminosidade da mata cerrada!
- Já falei que lá não dá.
- Tá bom então... arrumo outros.
- Isso mesmo.


Elas seguiram lado a lado por cerca de setenta metros dentro da mata até nova clareira que descortinava um pequeno pomar, onde se encontravam laranjeiras, macieiras, bergamoteiras, jabuticabeiras, goiabeiras e um abacateiro enorme.

Com destreza Nadine subiu na laranjeira mais próxima e apanhou algumas laranjas de umbigo, as quais ia jogando uma a uma para Mabel que as aparava com a jaqueta que havia tirado. Ao descer pegou seu canivete que trazia na mochila e descascou as laranjas passando-as para Mabel, que se deliciava com as frutas maduras, doces e suculentas.

- Esse lugar é lindo!!! – exclamou Mabel. – Ótimo para servir de inspiração para novos trabalhos. Acho que virei aqui mais seguido.
- Lembrando das recomendações que eu passei para a gurizada, tudo bem!
- Acha que eu não sei me cuidar, é?...

“Recomeçou a teimosia!”, pensou Nadine. “Recomeçou a mania de querer mandar!”, pensou Mabel.

- Não é isso... só estou dizendo que é perigoso...
- As vezes você fala igualzinha a minha mãe. Até parece que se conhecem... – retrucou Mabel.
- Que bom saber que sua mãe é uma pessoa ponderada!
- E exagerada também!

“Não adianta, Nadine, essa aí é cabeça dura! Mais fácil ensinar uma vaca a voar do que essa criatura a ter um pingo de noção de ‘alguém sabe um pouco mais do que eu’ !!!”, ruminava Nadine em seu íntimo, novamente com aquela sensação de irritação lhe subindo pela fronte.

- Mas tudo bem... eu vou seguir as tuas orientações direitinho, certo? Pode ficar tranqüila! – remendou Mabel, pressentindo a irritação de Nadine.
- Assim espero! Vamos retornar, pois já está quase na hora de iniciarmos a descida para casa.
- Vamos lá então.


Elas encontraram o grupo e retornaram para a Pousada dos Sonhos. Nadine se despediu deles no hall de entrada e foi até a cozinha. Mabel a observava por detrás do vão da porta. Nadine abraçou Olga e esta lhe fez o sinal da cruz na testa, abençoando-a e dizendo:

- Dorme com Deus e sonha com os anjos, minha filha.

Nadine deu um beijo em Olga e se preparava para sair quando Mabel a chamou:

- Nadine!

Nadine se voltou em sua direção:

- O que?
- O que vamos fazer amanhã?
- Atividade livre.
- Mas o que você sugere?
- Olha... você pode fazer o que quiser...
- Eu queria ter emoções fortes!!! Estou adorando essa coisa de poder encontrar uma onça... – brincou Mabel.
- Então volte para o lugar onde estivemos hoje, pois lá perto é a “toca das onças”... – respondeu Nadine entrando na brincadeira da artista.
- O que você sugere, afinal?
- Nem sei, tem tantos lugares bonitos...
- O que é que VOCÊ vai fazer?

Nadine pensou um pouco: “emoções fortes, ein? Se é isso que a mocinha quer, é isso que a mocinha terá!” e respondeu:

- Eu vou até a Pedra Grande.
- Eu posso ir junto???
- Pode. Te pego as nove horas, pode ser?
- Pode ser!
- Então até amanhã.
- Até!


Nadine se virou e deixou a Pousada, levando uma vianda que Olga havia preparado para ela, enquanto Mabel subiu saltitante para seu quarto. Antes de chegar no sopé da escada Olga lhe gritou:

- Quando sentir fome pode descer que o jantar já está pronto, minha filha!
- Obrigada Olga!!! Só vou tomar um banho rápido. – respondeu Mabel já no topo da escadaria.

Olga secou suas mãos rechonchudas no pano de prato e observou o passo de Nadine, rumo à sua cabana. Em seguida voltou seu olhar para a escadaria e ficou pensativa. Havia percebido um brilho diferente no olhar de sua princesinha?... Ou havia se enganado?... Não, não havia. Conhecia Nadine muito bem e sabia que ela estava mexida com a encantadora mulher que se preparava para o jantar. Na verdade, nunca entendeu muito bem essa coisa de Nadine só se interessar por mulheres, afinal haviam tantos moços bonitos, dispostos a casar e constituir família... “Tem o Rudi, do Seu Firmino ferreiro, e o Luiz Henrique, da Farmácia... também tem o Arnaldo, rapaz estudado, advogado, filho do dono do Frigorífico... isso sem falar no Hermann, o gerente do banco! Até o gerente do banco queria namorar Nadine!!!” pensava Olga, “mas não! Se enrabicha sempre por um rabo de saia... fazer o que? Deixar de amar a minha princesinha? Deixar de apóia-la, mesmo que seja em suas esquisitices? Isso não. Se tem alguém com quem pode contar esse alguém sou eu!”. Olga continuava com suas divagações: “só espero que essa moça da cidade grande não faça minha menina infeliz...”

 

***********

 

Entrando em sua casa Nadine sorriu frente ao divertimento que estava arquitetando para o dia seguinte. Preparou seu equipamento e o amarrou cuidadosamente por sobre a caminhonete vermelha. “Emoções fortes...” sorria consigo mesma...

Botou a mesa e saboreou a janta preparada por Olga, tomou um banho e recolheu-se, pois estava cansada. Exausta, mas excitada pelo dia de domingo... dia que prometia fortes emoções.

 

***********

 

Mabel havia colocado seu relógio para despertar bem cedo. No primeiro toque espreguiçou-se como um felino quando acorda e saltou da cama, direto para o chuveiro. Tomou um banho rápido e vestiu a roupa que já havia escolhido no dia anterior e deixado cuidadosamente arrumada sobre a cadeira em frente à janela. Havia escolhido um conjunto de abrigo de malha, calça alaranjada cor de telha com dois frisos brancos e casaco em cor inversa, branco com listas alaranjadas. Por baixo colocou uma camiseta de mangas curtas, branca, e um blusão de lã amarelo por cima da camiseta. Calçou seu par de tênis brancos e colocou uma tira de malha laranja para prender os cabelos. Colocou dois jatos de seu perfume preferido, Paris, de Saint Laurent, um no peito e outro na nuca. Passou um creme protetor com filtro solar no rosto e nas mãos. Olhou-se no espelho e gostou do resultado. Estava com uma cara boa, descansada, e mesmo sem a maquiagem que costumava usar na rotina de seus compromissos sociais estava se sentindo bonita. Remexeu na sua mala e pegou um lenço de seda amarelo bem claro, o qual enrolou no pescoço. Agora sim... seu figurino estava completo.

Abriu a janela de seu quarto e vislumbrou uma paisagem quase que totalmente oculta por uma neblina densa. No leste podia-se perceber no entanto que a claridade matinal penetrava a névoa, tornando-a amarelada e quase translúcida. Os primeiros raios solares refletiam-se na vegetação mais próxima de sua janela e formavam prismas multicoloridos nas gotículas de orvalho que ainda pendiam nas extremidades das folhas. Mabel sentiu um cheirinho de café passado que vinha do refeitório da Pousada dos Sonhos. Animada pelo odor convidativo pegou uma mochila e desceu até a cozinha, onde Olga já havia preparado um lanche para a viagem, conforme haviam combinado na noite anterior. Também pegou uma garrafa de água mineral, “só pra garantir”, riu consigo mesma.

- Olha, vejam lá o que vocês vão me aprontar... – advertiu Olga para Mabel – não me fiquem muito tempo no sol, nem façam esforço depois de comer.
- Tudo bem, Olginha... – disse Mabel – quando Nadine chegar você diga isso a ela, que é cabeça dura!
- Eu sempre digo, mas pouco me ouve, por isto estou dizendo para você também.

Mabel riu dos cuidados extremados de Olga e prometeu:

- Pode deixar que eu vou vigiar Nadine... e qualquer coisa que ela faça de errado eu te conto!

Neste momento Nadine entrou na cozinha e escutou a última parte da conversa:

- Ahrá... além de teimosa ainda é dedo duro?... – retrucou brincando.
- Só vou fazer um favorzinho para minha amiga Olga...
- Tá certo...
- Vamos então? Eu já estou pronta!
- Tô vendo – respondeu Nadine olhando Mabel de alto a baixo.

Mabel deu um abraço e um beijo em Olga e cochichou ao seu ouvido:

- Pode deixar que eu supervisiono essa rebelde!

Olga riu e também deu um abraço em Mabel, que logo em seguida saiu pela porta dos fundos da Pousada em direção à rua. Nadine passou por Olga sapecando-lhe um sonoro beijo nas bochechas rosadas.

- Aonde fica a tal Pedra Grande, Nadine?
- Fica a mais ou menos uns doze quilômetros daqui.
- E a gente vai a pé???

Nadine sorriu e respondeu:

- Não... vamos no meu carro. Está estacionado ali perto do pórtico de entrada.
- Graças a Deus!!! – suspirou Mabel aliviada, caminhando em frente à Nadine.

O balanço dos quadris de Mabel, enquanto caminhava na direção do veículo, atraiu o olhar de Nadine, que não pôde deixar de observar a perfeição daquelas curvas por debaixo da calça de abrigo. O brilho dos cabelos dourados refletia os raios de sol daquela manhã de domingo. O corpo de Mabel deixava um rastro de perfume enquanto se deslocava para frente. Nadine percebeu-se mais interessada em Mabel do que seu bom senso poderia lhe aconselhar. Lembrou-se de um seriado que costumava assistir na infância chamado Perdidos no Espaço, quando o robô começava a gritar ao menor sinal de que algo estava fugindo do controle: “Perigo, perigo, perigo!!!...”. “Que se dane o bom senso” pensou, “quero mais é viver e ser feliz”.

Quando chegaram perto da caminhonete Mabel olhou para o equipamento alongado, amarrado sobre o veículo e questionou:

- O que é isso???
- Surpresa... vai saber quando chegarmos lá.
- Ah, isso não vale! Eu morro de curiosidade.
- Problema teu! Só conto lá.
- Malvada...

Nadine sorriu abrindo a porta para Mabel embarcar. Esta última se encantou com o gesto: “hoje em dia poucos homens fazem isso... quem diria uma mulher... ela está, pelo menos, se esforçando para ser gentil...” sorriu Mabel pensativa.

Nadine dirigia lentamente por uma estrada de chão e gradativamente a pouca neblina que ainda pairava por sobre a paisagem foi se dissipando, dando lugar a um belo dia ensolarado. As encostas das montanhas ostentavam as mais variadas tonalidades de verde que a íris humana era capaz de captar. Em contraste com o céu azul algumas nuvens esbranquiçadas pareciam algodões doces pairando por sobre as montanhas. Em determinadas partes da estrada se avistavam despenhadeiros íngremes, alguns com belvederes para o deleite dos turistas. De outras partes se avistava o arroio que dava nome à cidade, o Arroio Bonito, com suas águas encrespadas e inquietas, correndo incansáveis em direção contrária à nascente, na ânsia de encontrar, talvez, um oceano...

Mabel viajava quieta, encantada com as belezas do lugar. Percebia que estavam subindo a serra cada vez mais, pois sentia os ouvidos estourarem de quando em vez. Nadine a observava com o rabo do olho, enquanto sorvia o agradável olor de seu perfume que havia se espargido pela cabine da caminhonete.

Finalmente Nadine quebrou o silêncio:

- Depois da próxima curva chegamos a nosso destino.
- Que bom, pois eu pensei que chegaríamos até as nuvens...
- Mas estamos quase lá!

Ao dobrar a última curva Mabel ficou encantada com o que viu. O morro no qual subiam terminava abruptamente numa pequena clareira, onde situava-se uma enorme pedra redonda, em cuja superfície podia-se subir pela encosta do morro. Parecia que o mundo terminava naquele ponto, pois o vale que se estendia abaixo ficava pequenininho, as poucas casas pareciam de brinquedo e os campos de plantações pareciam aqueles tapetes felpudos das soleiras das portas.

Mabel desembarcou do carro e caminhou até o que parecia ser o limite entre o céu e a terra. Abriu os braços, como se pudesse abraçar toda aquela amplidão. Nadine estava bem atrás dela e sentiu o toque dos cabelos de Mabel no próprio rosto, cujo vento tratava de esvoaçar desgrenhadamente. Por muito pouco não enlaçou Mabel pela cintura. Deu dois passos para trás, fugindo do suave contato físico que o vento lhe impunha. Pressentindo sua proximidade Mabel se voltou para trás e disse:

- Nadine, este é o lugar mais lindo do planeta!!!
- Eu sei, por isso te trouxe aqui...
- Muito obrigada...
- Mas as emoções fortes ainda estão por vir...
- O que é que você está armando???
- Nada de mais... – respondeu Nadine andando em direção à caminhonete, começando a desamarrar seu equipamento de vôo livre.

Mabel chegou perto de Nadine e percebeu tratar-se de uma asa delta ainda desmontada.  Chegou a perder o fôlego quando avistou dois capacetes: “Se ela pensa que eu vou voar nessa engenhóca, está muito enganada...voar é para os pássaros, eu nasci com pernas e não asas, logo caminho ao invés de voar!” Nadine percebeu a agitação de Mabel e questionou:

- Tens medo de altura?
- Eu??? Imagina... claro que não...
- Que bom!!! Pois eu trouxe equipamento para vôo duplo.

Mabel engoliu em seco, mas não quis dar o braço a torcer:

- Ah é??? Que bom...
- Já voou alguma vez?
- Nunca... só de avião. Mas deve ser a mesma coisa, né?
- Ôôô... igualzinho...

Mabel foi até a caminhonete, pegou sua mochila e tomou um gole de sua água. Estava precisando! Na verdade, naquele momento, desejou beber algo bem mais forte, que pelo menos lhe desse mais coragem. Nadine viu a garrafa e comentou sorridente:

- Ficou com medo de passar sede de novo?
- Pois é... gato escaldado... – respondeu meio sem cor, tirando a manta do pescoço. Subitamente começou a suar...

Nadine montava a asa delta vagarosa e minuciosamente, enquanto Mabel continuava a suar frio, tentando aparentar tranqüilidade. Nadine, percebendo a saia justa na qual se encontrava a artista, se divertia com a situação:

- Já tô quase pronta.
- Não tenha pressa...
- Fica tranqüila, eu faço isso há anos.
- Graças a Deus! – desabafou Mabel.
- O que?
- Nada, nada... falei que o vento tá forte, né?
- Nem tanto.
- Não seria melhor voarmos outro dia? Com menos vento?
- As condições climáticas estão ótimas. Mas se estiveres com medo...
- Não... o que é isso???... eu lá sou mulher de temer uma alturinha dessas??? – respondeu Mabel sentando-se devido à tontura, só de pensar naquele desfiladeiro no qual estava prestes a se projetar com aquela mulher que teimava em testar seus limites desde a primeira vez que a viu.

“Louca! É uma doida varrida! E eu uma estúpida sem coragem de dizer que estou me borrando!” pensava Mabel, “tomara que meus pais não sofram muito, afinal vou ter uma morte rápida, indolor, um só ‘póf’ e nada mais...”, “mas, talvez eu sobreviva, afinal se não fosse seguro essa desvairada não iria saltar... é Mabel, deve ser seguro... coragem...”

Quando Nadine finalmente terminou sua tarefa, virou-se sorridente para Mabel, que permanecia sentada, estampando um sorriso amarelo:

- Tudo pronto! Podemos saltar!
- Ai que bom... – disse Mabel a meia voz.
- Não sei... não estou sentindo empolgação na tua voz – provocou Nadine.
- Impressão tua... estou empolgadíssima... – respondeu com a voz em escala decrescente.
- Então porque não levanta daí?
- Já vou, já vou... – respondeu Mabel, enviando uma mensagem de seu cérebro para as suas pernas, ordenando levantarem, porém estas teimavam em permanecer enraizadas no chão como se fossem um tronco de árvore.

Nadine se aproximou e estendeu a mão para Mabel, içando-a de sua confortável e segura posição de sentada. Sentiu as mãos de Mabel encharcadas de suor e riu consigo mesma. “Depois do salto aposto que ela vai me agradecer...”, pensou Nadine. Colocou o equipamento do carona em Mabel e lhe forneceu as explicações necessárias para saltar com segurança e realizar um pouso tranqüilo. Mabel prestou atenção em cada detalhe, porém o nervosismo a impedia de assimilar as orientações na primeira explicação e acabava pedindo para Nadine explicar de novo. Mal acreditava na paciência que Nadine estava tendo com ela. Tudo pronto e explicado prepararam-se para o salto. Tentando aparentar naturalidade Mabel ainda perguntou:

- Será que eu posso levar minha máquina fotográfica?
- Com certeza. Serão as mais belas fotos que já tiraste.
- Assim espero...


Munida de sua máquina fotográfica e sentindo o coração bater-lhe quase que no pescoço, Mabel caminhou em direção à Pedra Grande como se estivesse subindo no cadafalso. Suas pernas estavam bambas e precisou da ajuda de Nadine para se aprumar. Aprontaram-se e Nadine questionou:

- Pronta?
- Pronta. – respondeu – “e que Deus me ajude!!!” – pensou.

Num impulso iniciaram a corrida em direção à beirada do penhasco e como num passe de mágica os corpos muito próximos, como se fossem um único ser, saltaram no nada, e começaram a planar... Quando Mabel finalmente conseguiu abrir os olhos teve a sensação de estar dentro de um sonho, aqueles sonhos bons, onde voamos alto, muito alto, bem perto do céu... Podia tocar as nuvens. Voava mais alto que os pássaros, sentia-se um Ícaro do século XXI. Quando conseguiu tomar consciência da realidade à sua volta deparou-se com Nadine olhando para sua expressão de êxtase e gritou:

- Isso é maravilhoso!!!

Nadine sorriu e assentiu com a cabeça. Mabel tirou várias fotos, um filme de 36 poses todo. Não havia aderido ao modismo das máquinas digitais. Possuía uma máquina automática, pequena, com um ótimo zoom, gostava dessa coisa de revelação e de guardar os negativos. Voaram por cerca de uma hora e prepararam-se para pousar. Nadine posicionou a asa delta sobre uma plantação de girassóis e foi como se houvessem adentrado num dos quadros de Van Gogh. O pouso foi tranqüilo e Nadine teve de admitir que, apesar do nervosismo, Mabel era ótima aluna. Livraram-se do equipamento e caminharam até uma extensão de gramado, cuja relva verde convidava ao repouso. Mabel deixou-se desfalecer, deitando-se de costas, braços abertos, olhos fechados, sorrindo e respirando o sol da manhã. Nadine deitou-se a seu lado, feliz.

- Essa foi a melhor coisa que eu fiz na vida!!! – exclamou Mabel.
- É muito bom, não é mesmo?
- Se é. É como se a gente comungasse com o infinito...
- Bonita descrição.
- Modéstia à parte, eu sou boa com as palavras.
- Modéstia bem à parte, a perder de vista... – sorriu Nadine.
- Boba...

Nadine se virou de lado, apoiando o tórax sobre o cotovelo e segurando a cabeça com a mão. Ficou bem próxima de Mabel e disse:

- É bom estar contigo aqui...
- Eu sou mesmo ótima companhia... – sorriu Mabel debochando.
- Mas tava borrada de medo, não tava?

Mabel espiou Nadine abrindo um só olho e defendendo o rosto do sol:

- Estava! – admitiu. – Estava apavorada, sua louca, desvairada, quase me matou de susto!!!

As duas caíram na gargalhada e se rolaram na relva verde sentindo, na carícia da vegetação, o abraço aconchegante da Mãe Terra.

- Nadine, como é linda a Pedra Grande vista aqui de baixo, parece suspensa no ar, parece que vai cair do morro.
- É linda mesmo... e foi a sua lenda que deu o nome ao distrito.
- Itamoema?
- É.
- O que significa?
- Em guarani Ita significa pedra e Moema era a filha de um Pajé que viveu há muito, muito tempo atrás... Ela estava noiva de um jovem guerreiro, porém numa noite de plenilúnio descobriu-se apaixonada por Jaci, a lua.
- Mas Jaci é mulher...
- Pois é... por isso o Pajé proibiu que ela contasse sobre seus sentimentos a quem quer que fosse e obrigou-a a se casar com o guerreiro. Moema engravidou dele, porém em todas as noites de plenilúnio subia na Pedra Grande e admirava sua amada. Um dia, completou-se o tempo de gestação e numa das visitas noturnas à Jaci, Moema pariu sobre a Pedra Grande. Era uma menina e Moema a ofereceu para sua amada. Esta estendeu seus raios prateados e abraçou a criança transformando-a em estrela, na estrela Dalva, na verdade o planeta Vênus.
- Que coisa linda...
- Mas a lenda não termina aí. Retornando para a aldeia sem a filha, o Pajé e o marido de Moema a expulsaram da tribo, banindo-a do seio de sua família. Sem sua tribo, sem sua filha e sem sua amada, Moema sobe na Pedra Grande novamente, e chora. É uma noite de lua nova. Jaci, diminuta, se compadece com o sofrimento de sua amada e lhe estende um tímido raio de luar, que ao toca-la a transforma também em estrela, levando-a para bem perto de si. Desde então quando vemos o céu nas noites de lua nova encontramos uma pequena estrela bem perto da lua. É Moema, vivendo feliz ao lado de sua Jaci.

Nadine termina o relato e ao olhar para o lado Mabel tinha os olhos marejados de lágrimas.

- Não consigo ouvir histórias de amor sem chorar... – diz secando as lágrimas.
- Se eu soubesse não teria contado.
- Mas gostei de ouvir... gostei mesmo...

As duas se calaram e permaneceram deitadas ao sol, lagarteando por um bom tempo, até que Mabel rompeu o silêncio:

- Nadine...
- O que?
- Como é que a gente vai voar de volta até o carro?...

Nadine riu muito e respondeu:

- Nós vamos de carona!
- Carona? De quem?

Mal acabara de falar e ouviu uma voz grave e amigável vindo na direção delas:

- Querida!
- Oi, Padre Lino... – disse Nadine levantando-se e caminhando em direção ao amigo, sendo envolvida pelo abraço do Pároco local.
- Você ‘nom’ cansa de voar como pássaro?
- Não... e hoje arrumei companhia para a minha loucura! Padre, essa é Isabela, hóspede da Pousada.
- Muito prazer, Isabela.
- O prazer é todo meu, Padre. – respondeu pensativa - “Isabela”...”engraçado ser chamada de Isabela... é como se Mabel Lopes houvesse ficado num passado distante”...
- Vamos, eu levo vocês de volta para a Pedra Grande...
- E almoça conosco na Pousada? – convidou Nadine.
- Com certeza! – respondeu o padre – ‘Nom’ posso recusar a comidinha da Olga. Hoje cedo, na missa, ela me disse que farias um desses vôos doidivanas...
- Olga sabia do vôo livre? – questionou Mabel.
- Sabia. – respondeu Nadine – eu vôo quase todos os domingos...
- E não me contou nada...
- Estragaria a surpresa... ou te botaria para correr!
- Engraçadinha...
- Mas vamos, vamos... – interveio o Padre.

Eles subiram até a Pedra Grande no jipe verde musgo do padre Lino. Quando dirigia o padre sungava a batina, deixando descobertas as canelas brancas e roliças, e as botinas surradas que usava com meias vermelhas, do Internacional, seu time de futebol do coração. Mabel encantou-se com a simpatia do padre e conversaram animadamente durante todo o trajeto.

 

***********

 

Ao chegarem na Pousada dos Sonhos, pouco depois do meio dia, Olga já os aguardava com a mesa posta. Os outros hóspedes já haviam almoçado e estavam passeando novamente nos fundos da propriedade, provavelmente foram repousar nas redes embaixo do capão de mato ao lado do milharal. Feliciano aguardava para almoçar com eles.

A refeição transcorreu num clima de muita animação. Padre Lino era um sacerdote de origem alemã, com um sotaque bastante carregado, omitindo quase que todos os erres duplos das palavras.

- A minha ‘caróça’ está desativada! – contou o Padre - Mandei a roda de ‘féro’ pro Firmino há mais de duas semanas e o ordinário ainda ‘nom’ me aprontou.
- Não reclama padre Lino, o senhor tem esse jipe que o leva para onde quiser... – disse Nadine.
- Mas eu ‘nom’ posso botar pasto no tanque de gasolina! E na minha ‘caróça’ o combustível é pasto... pra Margarida, minha ‘burinha’.

Mabel caiu na risada. Padre Lino sabia como animar qualquer conversação. Percebeu uma afeição toda especial que Nadine nutria por ele, e era recíproco. Olga também estava animada e comentou:

- Isabela, eu fiquei tão ansiosa esta manhã, pois eu sabia que essa menina – apontou para Nadine – ia te levar para voar naquela tal de “asa aberta”!
- Asa delta, Olga, d-e-l-t-a ! – soletrou Nadine.
- Pois então, foi o que eu disse: essa ‘asa aberta’ que não pode ser coisa de Deus, não é padre Lino?
- ‘Nom’ é pra tanto, Olga... – respondeu o padre – a Nadine sabe muito bem o que faz! E se Deus fez os pássaros, também fez o ser humano...
- Com pernas, padre Lino, não asas – retrucou Olga.
- Mas também sem raízes, Olga... as pessoas são livres... – continuou o padre.
- Então porque não me avisou do “perigo iminente”, Olga? – questionou Mabel em tom de brincadeira.
- Eu não! A Nadine pediu pra não contar...
- Mas eu podia ter morrido de susto... – emendou Mabel.
- Mas não morreu! – interrompeu Nadine.

Vendo que aquele trelelê iria longe o padre Lino desviou o rumo da conversa:

- Escuta, o teu trator já está bom de novo, Nadine? – perguntou o Padre.
- Nem me fale!!! Conseguimos colocar aquela encrenca para funcionar. Pode deixar que eu não esqueci do seu eito de milho... – respondeu Nadine.
- Que bom, ‘senón’ passa a lua boa para o plantio...
- Nadine está sempre correndo de um lado para outro padre – emendou Olga – mas para o senhor eu garanto que ela tira um tempinho.
- Queridinha... – disse o padre – aliás, falando em tempinho, quando é que a senhora vai tocar violón na missa de novo, ein dona Nadine? – quis saber o padre Lino.

Nadine olhou de relance para Mabel e percebeu que esta iria rir e debochar de sua atividade bastante ortodoxa. Lançou um olhar de prévia reprovação para ela e retrucou:

- Quando der, padre... quando der...

“Com certeza ela não vai me poupar do deboche”, pensava Nadine, olhando Mabel de esguelha, enquanto esta lhe fitava com um olhar maroto.

Almoçaram e conversaram a tarde toda. As 16:00 horas Olga preparou um café para eles, com as mais variadas qualidades de pães, doces e salgados. Os olhos de padre Lino brilharam de contentamento. Os de Nadine também, ao ver o sorriso de satisfação estampado no rosto de Mabel, enquanto devorava com vontade os quitutes preparados com carinho por sua querida Olga.

- Huuummm, Olga... isso é delicioso... – não cansava de repetir Mabel a cada manjar diferente que experimentava.

Olga ria sozinha de puro contentamento. Para vê-la realizada e feliz bastava elogiar suas habilidades culinárias, e Mabel estava pouco a pouco conquistando a afeição sincera de Olga. E Nadine estava gostando disso. Aliás, estava gostando mais de Mabel do que havia planejado...



Quando o sol se pôs no ocidente e o céu assumiu uma tonalidade rosa-alaranjada no horizonte, padre Lino levantou-se, despediu-se do grupo e embarcou em seu jipe, retornando para a casa paroquial.

Nadine também se despediu de Olga e Feliciano. Mabel a acompanhou até a porta dos fundos, que levava à estradinha de acesso até sua cabana junto ao arroio.

- Nadine... hoje você me fez passar pela experiência mais inenarrável de toda a minha vida... nunca senti tanto medo, meu coração nunca bateu tão forte e descompassado, nunca estive tão perto de enfartar, fazer xixi nas calças ou morrer numa queda em um desfiladeiro entre as montanhas... – disse Mabel bastante séria fitando Nadine nos olhos e continuando após breves momentos de um silêncio que pareceram horas - ...Muito obrigada! – emendou sorrindo, com certeza o mais belo sorriso que Nadine já havia visto até então.
- Eu sabia que gostaria.
- Obrigada, mesmo.
- De nada.

As duas ainda se entreolharam por instantes e Nadine disse:

- Boa noite.
- Boa noite... – respondeu Mabel.

Nadine se virou e rumou para a estradinha de chão. Nem bem tinha percorrido algumas passadas e Mabel lhe gritou:

- Nos vemos amanhã?...
- Pode ser... – respondeu sem se virar para trás.

 

***********

 

Ao entrar em sua cabana Nadine não conseguia tirar Mabel dos pensamentos. Abriu uma lata de cerveja e sentou-se na sacada que dava para o lado do poente. Ficou admirando a coloração do céu, os matizes que iam do amarelo até o violeta, intercalando-se e mudando de tonalidade conforme o sol ia se afastando por trás da linha do horizonte, dando lugar ao manto acinzentado da noite que deixava transparecer o brilho tímido das primeiras estrelas que surgiam.

Nadine tinha consciência do que estava se processando em seu íntimo, porém ficava pensando em quão poucas chances teria de conquistar aquela criaturinha teimosa e encantadora. “Ela não é daqui... Vive numa cidade grande, conhece muitas pessoas, daqui a pouco vai embora para sempre, deve ter namorado até... ou será que não?... mas que ela me olha de um jeito diferente, me olha! Ou será que estou vendo chifres em cabeça de cavalo?”, pensava Nadine inquieta. Resolveu esvaziar sua mente daquele turbilhão de pensamentos e dormir, pois o dia seguinte seria bastante atarefado para ela. E assim o fez.



Por sua vez Mabel também encontrava-se imersa em questionamentos: “nunca conheci pessoa tão enigmática... capaz de gestos extremamente delicados e logo em seguida bruscos, quase agressivos... gosto de ficar perto dela, me sinto bem... mas ela é fechada como uma ostra, quase não fala dela... aposto que tem namorado... ou não?... ela tem todo o jeito de ser gay... e tem aquela história da lenda de Itamoema... muito significativa... será que ela tá me dando uma letra?... com certeza! E tem aquele lance dos olhares, eu não me engano... minha intuição me diz que ela gosta de mulheres, sim...mas entre ser gay e dar bola para mim tem uma grande diferença... ela me acha uma dondóca da cidade... posso até ser, mas não sou esse descompasso que ela acha que sou!!! Eu tenho as minhas habilidades... são urbanas, tudo bem, mas tenho o meu valor! Ela é petulante... mas eu estou gostando disso... acho que vou ficar um bom tempo aqui por Arroio Bonito, vou querer voar novamente da Pedra Grande, quem sabe ouvir mais sobre a lenda de Itamoema... pois é, quem sabe...”. Dizendo isto para si mesma adormeceu profundamente e sonhou com um vôo no céu azul, um mergulho em um par de lindos olhos azuis...

 

***********

 

A segunda-feira amanheceu com pouca nebulosidade e com a temperatura em elevação, prometendo uma tarde quente, própria de prenúncio de primavera. Era dia 1° de setembro e Nadine acordou bem cedo. Ela e Feliciano trataram de trabalhar no preparo da terra para o plantio. O arado não descansou o dia todo. Fizeram uma pequena pausa para o almoço e retomaram o trabalho no campo até o final da tarde.

Na Pousada Mabel havia esperado Nadine o dia todo e encontrava-se ansiosa, caminhando de um lado para outro, observada de longe por Olga. Durante o almoço passou o tempo inteiro olhando para a porta da cozinha, na expectativa de que Nadine adentrasse para almoçar na Pousada. Atentava a qualquer movimentação e Olga chegou a ficar com pena dela quando o sol começou a desenhar sua descida rumo ao poente. Apesar de disfarçar, escondendo-se atrás de uma revista que mantinha aberta na mesma página há horas, não conseguia enganar a vista perspicaz de Olga. A velha senhora estava entendendo perfeitamente bem o que se passava, e estava preocupada. Depois de servir o café da tarde para Mabel, que novamente era a única hóspede da Pousada, Olga colocou:

- Porque você não vai dar uma voltinha pela propriedade?
- Não estou com vontade, não, Olga. Acho que é cansaço de ontem.
- Mas uma caminhadinha vai lhe fazer bem... – insistiu Olga.
- Tá bom, eu vou... Olga, o que será que a Nadine está fazendo?
- Com certeza lida de campo. Estão arando a terra.
- É por isso que não veio aqui hoje?...
- Certamente.
- Fora hoje, ela costuma passar aqui todos os dias?
- Sim, todos os dias.
- Então amanhã ela vem?
- Acho que sim.
- A casa dela é longe?
- Não muito... porque?
- Por nada, só curiosidade. Vou dar uma volta. Até daqui a pouco.
- Até. Vai com Deus, filha.

Olga observou Mabel se afastando vagarosamente, em direção ao riacho. Ao afastar-se da casa grande começou a admirar a paisagem e distraiu-se bastante, sempre caminhando devagar. Em dado momento começou a escutar vozes conhecidas. Aguçou o ouvido e distinguiu a voz de Nadine que gritava para se fazer ouvir acima do ruído do trator:

- Vamos deixar aquele canto perto das cocheiras para amanhã!
- Certo! Já estou quase cansado! – gritou Feliciano.


Mabel observava Nadine ao longe, dirigindo o velho trator que soltava uma fumaça acinzentada de óleo queimado pelo escapamento. Dirigia o trator com habilidade. Os braços fortes manuseavam a direção sem maiores esforços e o maquinário ia deixando um rastro de terra revolvida atrás de si. Nadine vestia uma calça jeans de aspecto surrado e botas de couro de cano alto. Trajava uma blusa preta, justa, de mangas curtas e um chapéu de palha lhe protegia o rosto do sol do final de tarde. De tempos em tempos secava o suor da testa com a palma da mão. Era uma mulher grande, musculatura definida, pernas bem torneadas, ombros largos, e embora apresentasse um porte vigoroso era muito feminina. Seus movimentos possuíam um gingado e uma sensualidade natas. Quanto mais Mabel observava aquela figura, mais se encantava com seus atributos físicos. “Mabel, Mabel... isso está ficando mais sério do que imaginavas”, pensava consigo mesma. A visão, mesmo que ao longe, da figura de Nadine, havia feito valer a segunda-feira, agora estava feliz. Poderia retornar para a Pousada e dormir tranqüila. Pensou em se aproximar para conversar com Nadine, mas achou melhor não atrapalhar o serviço e esperar pacienciosamente pelo dia seguinte. Voltou para a Pousada mais animadinha, fato percebido por Olga:

- Encontrou Nadine?
- Vi de longe – respondeu Mabel meio desconcertada pela perspicácia de Olga. – “será que está estampado na minha testa?...” pensou.
- Falou com ela?
- Não... ela nem me viu. Estava trabalhando muito.
- Eu te disse. Aquela menina está trabalhando muito. Eu já falei para ela fazer uma empreitada com algum homem, mas ela é teimosa e quer fazer tudo sozinha.
- E depois ela diz que EU sou teimosa... – falou Mabel mais para si mesma do que para Olga – Eu vou tomar um banho, desço mais tarde.



Naquela noite Nadine deitou-se exausta após o banho e depois de comer alguma coisa. Estava com o corpo dolorido e cansado. Adormeceu pensando no vôo de asa delta da manhã do dia anterior.

Mabel custou mais a dormir. Leu até tarde e foi vencida pelo sono somente perto da uma da manhã.

 

***********

 

Na terça-feira a temperatura continuava a subir e ao meio dia fazia quase trinta graus. Nadine ainda não havia tido tempo de ir até a Pousada e Mabel resolveu que iria atrás dela: “...se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé!” Vestiu uma roupa leve, tênis, calça corsário preta e camiseta branca com uma estampa floral no peito. Caminhou em direção ao campo de plantio, mas quando cruzava perto da estrada que sabia levar à casa de Nadine não conseguiu conter sua curiosidade. Mudou de rumo e andou em direção à tão famosa cabana que estava disposta a conhecer. No final a estradinha fazia uma curva fechada para a direita e lá estava ela. Era uma casa aparentemente simples, construída parte com tijolos à vista e parte com madeira, que davam um charme todo especial à construção rústica na beira do arroio. Tinha dois pavimentos e olhando de fora parecia ter o térreo amplo. Na parte de cima havia uma sacada que circundava toda a edificação e haviam redes pendentes nos quatro cantos da casa. As janelas estavam todas abertas, mas a casa parecia estar vazia. Nadine deveria estar na lida do campo. Mabel aproximou-se da cabana, olhou para os lados e não viu ninguém, reinava absoluto silêncio nos arredores. Esticou-se para espiar pela janela lateral, subindo inclusive numa pedra de alicerce que estava solta rente a parede. Quando estava prestes a bisbilhotar o interior da casa uma voz às suas costas fez com que quase despencasse no chão:

- Procura alguma coisa?
- Aaaai... que susto, Nadine!!! Desse jeito não sobrevivo ao final da temporada.

Nadine riu da situação.

- E então... está procurando alguma coisa?
- Estou! Ou melhor, estava! Eu já achei! Vim te fazer uma visita. – respondeu Mabel com as mãos na cintura – Tem café nessa cabana?

Sem saber bem como proceder, porém feliz ao ver Mabel, Nadine gaguejou:

- Tem... claro que tem...

Neste momento, antes que tivessem tempo de entrar em casa, Feliciano apareceu cavalgando Vendaval:

- Nadine, Jabu está mancando muito, perdeu uma das ferraduras e não temos para repor. Alguns outros cavalos também estão precisando de ferraduras novas, e eu não posso ir até o ferreiro agora. Você poderia ir?
- Posso sim – respondeu Nadine, para desconsolo de Mabel. – Eu tinha mesmo que passar o arado no terreno ao lado da igreja, conforme prometi para o padre Lino. – e virando-se para Mabel continuou – o café fica para outro dia... mas tu não gostaria de ir comigo até a vila?
- Claro que sim! – respondeu Mabel efusiva.
- Mas nós vamos de trator...
- Olha, depois da ‘asa aberta’ eu ando em qualquer coisa...
- Então vamos – disse Nadine sorridente.


Nadine ajudou Mabel a se posicionar da melhor maneira possível no paralamas do trator, a sua direita. Percorreriam cerca de cinco quilômetros, não era muito longe, mas Nadine sabia que sua caroneira viajaria desconfortavelmente. Mabel, no entanto, estava radiante... A proximidade de Nadine a deixava com uma sensação de proteção e bem estar. Durante o trajeto trocaram somente poucas palavras, aos gritos, devido ao ruído do motor. Chegando no centro da Vila de Itamoema Nadine estacionou o trator defronte a uma pequena casa onde se lia uma placa que apontava para um galpão nos fundos: “Ferraria Schneider”. Nadine ajudou Mabel a descer do trator, quase que pegando-a no colo. Elas ficaram muito próximas e Mabel sentiu o calor do corpo de Nadine encostando no seu. Sentiu o coração bater mais forte e as mãos ficarem úmidas de suor. Nadine, por sua vez ficou com a boca seca e a respiração ofegante. Colocou Mabel delicadamente no chão e voltou seu olhar para o arado, na parte de trás do trator. Subitamente Nadine deu um grito que ecoou como uma trovoada pela rua deserta devido a hora de meio dia:

- Desce já daí, piá de merda!!!

Mabel olhou na direção do trator, perplexa, a tempo de ver um garoto magrinho, claro, talvez com seis ou sete anos, subindo com a agilidade de um gato pelo arado e alcançando o paralamas onde ela vinha sentada. Quando pensou que o garoto fosse disparar em sentido contrário ao de Nadine, para surpresa de Mabel, o pequeno arteiro abriu seus braços e se jogou no ar em direção ao colo de Nadine. Esta o aparou como um saco de batatas e ele a envolveu pelo pescoço beijando-lhe as faces. Nadine rodou com ele, abraçando-o afetuosamente.

- Já não te falei que trator não é lugar de criança???
- Mas, dinda... o meu pai deixa...
- Teu pai é teu pai e eu sou eu! – falou com seriedade.
- Tá bom... não subo mais...
- E por falar em teu pai, cadê aquele desocupado? – brincou Nadine.
- Tá na roça.
- E a tua mãe?
- Foi na venda.
- Tu tá sozinho?
- Não. Tô cuidando do vô.
- Ah... e o teu avô lá precisa de cuidados, moleque abusado?
- Minha mãe disse que precisa.
- Tá bom... – sorriu Nadine.
- O vô tá lá no galpão. Eu te levo lá.

Nadine colocou o menino no chão e ele olhou para Mabel. Correu até ela e lhe deu um abraço:

- Oi. Tu é amiga da minha dinda?
- Sou.
- E qual é o teu nome?
- Isabela.
- É bonito. Tu também é bonita. Mas a minha dinda é mais.
- Eduardo!!! – repreendeu Nadine enquanto Mabel ria face à espontaneidade do garoto.
- Sabe... – cochichou Mabel no ouvido dele - ...eu também acho.

Nadine ficou desconcertada, porém disfarçou e continuou o diálogo:
- Vamos logo, piá... vamos ver o vô Firmino...

Eduardo puxou Nadine e Mabel pelas mãos, conduzindo-as pela lateral da casa até o galpão dos fundos.

- Nadine! Que surpresa! – disse Firmino. – Bom dia, moça! – disse dirigindo-se à Mabel.
- Bom dia.
- Firmino, essa é Isabela, uma de nossas hóspedes... e minha amiga. – emendou Nadine.
- Vão sentando. Querem um mate?
- Eu quero. – respondeu Nadine.
- Eu também. – disse Mabel.
- Firmino, eu preciso de umas ferraduras, umas vinte. – disse Nadine saboreando o amargo do chimarrão vagarosamente.
- É pra já.

Enquanto Firmino juntava as ferraduras num canto do galpão Nadine passou a cuia para Mabel dizendo-lhe baixinho:

- Toma devagar, tá muito quente.
- Eu tô acostumada...
- Não quero essa boca queimada... – sussurrou Nadine à meia voz.

“O que será que ela quis dizer com isso???...” pensou Mabel, “acho que eu sei... eu bem sei...”. Sorriu maliciosamente para Nadine aproveitando que Firmino estava de costas e Eduardo corria no pátio.

Firmino retornou com o pacote de Nadine, enquanto Eduardo irrompeu voando galpão adentro, sendo repreendido pelo avô:

- Devagar, piazito. Esse menino não sabe andar, só corre...
- É pura energia da idade, Firmino, deixa o garoto... – defendeu Nadine.
- Mas ele é muito arteiro. Inda ontem se pendurou na corda do sino da igreja e quase mata o padre Lino de susto.

Nadine e Mabel riram. Eduardo se jogou no colo de Nadine e a abraçou.

- E depois vem com essa cara de sorro manso... – disse o avô.
- Dinda... quando é que eu vou poder voar contigo?
- Eu já te disse. Quando estiveres da altura do meu ombro.
- Mas vai demorar...
- Não demora não... é rapidinho.
- Eu já sou bem grande!
- Tô vendo... – disse Nadine jogando Eduardo para cima, fazendo o menino chegar quase até o teto do galpão – Pronto... te fiz voar!
- Mas eu quero voar na Pedra Grande.
- Um dia, meu amor... um dia.

Mabel observava a afetividade de Nadine com o menino. Ela era dócil, mas firme. Não cedia aos seus caprichos de criança, mas não deixava de alimentar os sonhos do menino. Era mais um lado de Nadine que a deixou encantada.

Eduardo, ainda no colo de Nadine, olhou para Mabel e disse:

- Sabe, eu já te vi...
- Me viu?...
- Ããhrãã... – assentiu Eduardo com a cabeça.
- Claro que já... – referiu Nadine – quando chegamos agora há pouco!
- Não mesmo... eu já vi antes...
- Aonde? – questionou Mabel incrédula.
- Na revista! Lá na minha escola!
- Não inventa, menino! – repreendeu Nadine.
- Mas é verdade, dinda...
- Não liga Isabela, esse menino tem imaginação fértil. – disse Nadine encerrando o assunto pelo tom de voz e colocando Eduardo no chão. – Escuta piá, aonde estão os modos que a tua mãe te deu? – continuou Nadine – Não vai oferecer nem um copo d’água pras visitas?
- É mesmo!!! – disse o menino, dirigindo-se para Mabel.
- Isabela, tu queres um copo d’água, também tem suco de maracujá que a mãe fez...
- Eu aceito!
- E tu quer conhecer o meu quarto? – perguntou Eduardo.
- Quero sim.
- Eu te levo então. – disse o menino pegando-a pela mão.
- Eu vou indo até a igreja, para adiantar o serviço. – referiu Nadine – Depois o Eduardo te leva lá.
- Tudo bem.
- Cuida bem dela, certo? – disse Nadine dirigindo-se ao menino.
- Pode deixar, dinda. Eu tô acostumado a cuidar de gente grande. – disse apontando debochadamente para o avô.
- Ô rapazinho abusado! – disse Firmino.

Mabel entrou na modesta casa sendo conduzida pela mão de Eduardo. Ela pensou que o menino poderia ter razão, sim. Poderia tê-la visto numa das inúmeras vezes que apareceu em revistas e colunas sociais. Mas decidiu não levar aquele assunto adiante, afinal ali estava Isabela: Mabel Lopes havia ficado no burburinho da cidade de São Paulo.


Enquanto Nadine foi até a Casa Paroquial Eduardo se encarregou de distrair Mabel. Mostrou seu quarto e seus brinquedos. Depois a levou para ver seu pônei, no potreiro.

- Olha lá... é o meu cavalinho. – apontou para um pônei embaixo de uma árvore, enquanto sentava com Mabel num banco de madeira, na sombra de uma enorme figueira.
- É lindo. Qual o nome dele?
- Carrapicho.
- Bonito nome.
- Não é tão bonito... é que ele vive cheio de carrapichos no pêlo e sou eu que tenho que tirar. Eu que cuido dele. Dou comida e água.
- Quantos anos você tem?
- Seis, e eu já vou pra escola! Sei escrever meu nome. E o da minha dinda também. É com ‘N’, depois vem o ‘A’, e aí vai... O meu é com ‘E’.
- Muito bem... sabe mesmo.

Eduardo olhou na direção da pastagem e apontou para um rapaz alto, loiro, de pele queimada do sol, que cortava pasto para os animais.

- Aquele lá é o meu tio Rudi. Ele quer namorar a minha dinda. Mas ela não quer.
- Verdade?
- Verdade. E eu acho que sei porque ela não quer ele.
- E por que é???... – bisbilhotou Mabel.
- É que ele tem chulé. A minha mãe faz ele tirar as botas na rua e lavar os pés no tanque, antes de entrar.

Mabel gargalhou da espontaneidade do menino e aproveitou para bisbilhotar mais um pouco:

- Eduardo, a tua dinda tem namorado?
- Não.
- Mas já teve?
- Não me lembro... Tem o Hermann, do banco, que quer casar com ela também. Mas ela também não quer. Eu acho que o Hermann não tem chulé... mas ele é narigudo... é muito feio. Eu também não tenho chulé, ó... – disse levantando o pequeno pé na direção de Mabel.
- Mas eu estou vendo um cascãozinho nesse pé... – brincou Mabel.
- É que eu tô de chinelo de dedo... e tô brincando na rua... mas lavando sai. Mas chulé eu não tenho!
- Acredito em você!!!
- A minha dinda também não tem. Ela é tão cheirosa.

“É mesmo...” pensou Mabel.

- Ela é a mulher mais linda da cidade, ela e a minha mãe. O meu pai é feio. O tio Rudi é mais ou menos...
- E você também é lindo! – disse Mabel abraçando o garoto.
- Tu vai morar aqui na cidade?
- Não sei... eu estou só passeando.
- Porque tu não mora na casa da minha dinda?
- Alguém já morou na casa dela?
- Já. A Sila. Mas eu não gostava dela. Ela brigava comigo o tempo todo quando eu ia na casa da dinda. E não me deixava brincar nos joguinhos do computador. Eu era beeeem pequeno, assim ó... – disse o menino fazendo um gesto com a mãozinha - ... mas me lembro de tudo! Sila era chata. Eu gostei quando ela foi embora. Acho que a minha dinda gostou também. Um dia ela brigou com a Sila e até chorou. Eu tava lá e vi. Outro dia a Sila gritou com a minha dinda e eu xinguei ela, e mandei ela embora. Aí ela me deu um empurrão e eu cai. Minha dinda ficou furiosa! Mandou ela embora. E ela nunca mais voltou. E agora eu vou lá seguido. Minha mãe deixa. Eu gosto de ficar na casa dela. Também gosto da Olga e do Feliciano.
- E se eu resolvesse ficar por aqui?...
- Eu ia gostar. Tu é legal.
- Você é que é um encanto.
- Olha... a minha mãe vem vindo! Mãe, mãe, tem visita!!!


Mabel avistou uma mulher de estatura pequena, bem magra, cabelos claros longos e trançados, olhos azul esverdeados e sorriso franco:

- Bom dia!!!
- Bom dia. – respondeu Mabel.
- Ela é a Isabela, amiga da minha dinda, que foi na casa do padre Lino, arar a terra onde o padre quer plantar milho. A dinda também pegou vinte ferraduras com o vô Firmino e quer que eu leve a Isabela até a igreja depois que ela tomar café da tarde.
- Eduardo... o café da tarde ficou por tua conta... – brincou Mabel.
- Mas é claro que a amiga de Nadine não vai sair assim, sem tomar um cafezinho. Vamos entrar. Muito prazer, meu nome é Lúcia, eu sou a mãe desse cabrito falante – disse apontando para Eduardo.

Enquanto Lúcia passava um café e esquentava o leite Eduardo jogava bola na frente de casa. Ela e Mabel conversavam:

- Eu não sei de onde esse menino tira tanta energia. – disse Lúcia.
- Ele é um encanto...
- Pois é... esse encanto está vivo graças à madrinha dele.
- Como assim?
- Ele custou muito a nascer. Aqui na cidade não tem recurso, nem condução de noite. Meu marido fez um trabalho na Pousada e comentou que já passava do tempo do menino nascer. Na noite que eu passei mal, Nadine apareceu aqui em casa, sem mais nem menos, acho que foi Deus que mandou. Ela me levou até um hospital em Porto Alegre e ficou lá comigo. Eduardo ficou baixado durante duas semanas até ficar fortezinho. Hoje é isso aí que a senhora está vendo...
- Não me chame de senhora, por favor, me chame pelo nome.
- Vou tentar. Mas vamos tomar nosso café?

Depois que Mabel saboreou aquele delicioso café com pão caseiro, Eduardo a levou até a casa paroquial. Lá avistou Nadine terminando de passar o arado num terreno ao lado da igreja, o futuro milharal do padre Lino! Acenou para ela que retribuiu o cumprimento. Padre Lino veio abraça-la também.

Eram mais ou menos quatro e meia quando o serviço foi concluído e Nadine e Mabel se despediram do padre Lino e de Eduardo.

- Vão com Deus, minhas filhas – abençoou o padre.
- Fique com Deus, padre – respondeu Mabel.
- Dinda... quando é que eu posso ir na tua casa?
- Depois do plantio eu venho te buscar. Mais umas três semanas, certo?
- Certo! Isabela, você ainda vai estar aqui daqui a três semanas, não vai???... – questionou Eduardo.
- É possível...
- Aí a gente conversa mais, tá?
- Combinado. – respondeu Mabel piscando o olho com cumplicidade para Eduardo. Este a abraçou apertado.
- Não vai atrás desse conversador fiado, ein? – disse Nadine para Mabel.
- A gente se entende, né Eduardo?
- Ahrãã...
- Tô bem arrumada... – disse Nadine pegando o afilhado no colo e colocando-o na garupa, disparando com ele até o trator.

Nadine colocou o menino no chão e o beijou, despedindo-se dele. Ajudou novamente Mabel a tomar seu lugar de honra no paralamas do trator e dirigiu de volta para a Pousada dos Sonhos.


Lá chegando Nadine acompanhou Mabel até a porta e falou:

- Eu venho jantar com vocês. Só vou tomar um banho.
- Que bom tê-la como companhia por mais algumas horas...
- Eu já volto.


Mabel também tomou um banho rápido e caprichou no visual. Colocou um vestido em estilo indiano, cuja cor marrom alaranjada realçava sua pele clara. Perfumou-se, passou um batonzinho discreto e desceu. Nadine já estava no saguão e ao vê-la descer a escadaria não conseguiu desviar os olhos dela. “Como é linda”, pensou, “muita areia para o meu caminhãozinho...”

Mabel reparou no esmero dos trajes de Nadine. Vestia um agasalho branco, bem justo, e podia-se ver o contorno de sua calcinha rendada. “Filha da mãe... ela sabe como provocar”. Os cabelos negros foram lavados e escovados e pendiam soltos por sobre os ombros. “E que perfume maravilhoso... Eduardo tem razão: como é cheirosa...”


O jantar transcorreu tranqüilo e perto da meia noite Nadine disse que se recolheria:

- Se não minha carruagem vira abóbora! – brincou.
- De novo quero agradecer pelo ótimo dia. – disse Mabel.
- Ah, sim, principalmente pelo conforto do veículo oficial...

Ambas sorriram e Mabel continuou, olhando Nadine nos olhos:

- O dia foi maravilhoso.
- Que bom que gostaste.
- Adorei.
- Boa noite, então.
- Boa noite... e até amanhã.
- Até.


Nadine deixou a Pousada acompanhada pelo olhar de Mabel. Da cozinha Olga observou a cena e suspirou: “...que seja o que Deus quiser... ao menos essa moça é de fino trato, educada, gentil, não é como aquela histérica de antes... é vinho de outra pipa... vamos ver no que dá...”