Dando asas aos sonhos

Rose Angel

Contato: roseangelys@yahoo.com.br

 

 

 

No outro dia bem cedo, na cozinha da Pousada, Olga e Feliciano tomavam o café da manhã e conversavam:

- Estou um pouco preocupada com a Nadine...
- Eu também Olga, eu também...
- Então você sabe do que eu estou falando?
- Acho que sim... é sobre essa moça da cidade?
- É.
- Pois não é preciso ser muito observador para ver os olhares que elas trocam. Mas Nadine é uma mulher, Olga, não é uma criança. Ela sabe o que faz.
- Não sei, Feliciano... não sei se ela sabe o que faz. Já te esqueceste da Sila? Lembra do estado que Nadine ficou?
- Mas essa moça parece ser diferente...
- Pois é, parece, mas quem garante que é? Ela é da cidade grande, Feliciano, não vai querer se entocar nesse fim de mundo. E tu acha que a Nadine sai daqui? Isso vai ser coisa pra causar sofrimento.
- Olga, Olga... deixa que a Nadine sabe o que é melhor pra ela...
- Mas eu não me conformo... não sei porque ela não casa com o Hermann, ou com o Rudi... levaria uma vida tranqüila...
- E quem salta de uma montanha com uma asa de pano lá quer uma vida tranqüila, Olga??? Deixa a Nadine, não te mete, que ela vai ficar chateada. E se tu quer arrumar casamento porque não arranja um pra ti? – disse Feliciano colocando sua mão sobre a de Olga.
- Lá vem você com essas conversas que eu não gosto – respondeu Olga puxando sua mão.
- Você não acredita nos meus sentimentos, não é?...
- Acredito! Assim como acredito no coelho da Páscoa! Velho abusado!
- Velha rabugenta!!!
- Já terminou o café? Então vai dar jeito na vida!
- Vou mesmo!!! Mais uma coisa: não te mete na vida da Nadine.
- Eu não vou me meter, estou só comentando contigo. Vê se vai dar com a língua nos dentes!
- Eu não sou linguarudo, viu? – retrucou Feliciano, deixando Olga resmungando sozinha.



Mal Feliciano havia saído da cozinha chegou Nadine, beijou Olga e disse animada:
- Olginha, o que tem de bom para o café? Tô com uma fome...
- Acordou bem disposta... que bom.
- Pois é... tive bons sonhos...
- Sei...
- Olha, eu vou ter que ir na cidade agora de manhã. Pretendo voltar cedo da tarde. Se a Isabela perguntar por mim diga que passo aqui mais tarde, certo? – disse Nadine colocando um pedaço de bolo na boca e levantando-se para sair.
- Mas senta para tomar café, menina...
- Não dá tempo. Quero ir cedo para voltar cedo.
- O que é que vais fazer lá?
- Preciso mandar alguns documentos para o papai e meu scanner não está muito católico... vou lá no Fredi. Depois vou no banco.
- Dê recomendações minhas ao Hermann!!! – disse Olga entusiasmada, com uma pitada de malícia na voz.
- Olga... eu já te falei que o Hermann é meu amigo. Só isso.
- Eu sei... só estou mandando um abraço, custa transmitir?...
- Eu te conheço Olga... mas pode deixar que eu transmito o TEU abraço, sim. – respondeu Nadine rindo das investidas de Olga de casá-la com o gerente do Banco.




Pouco depois das nove horas Mabel acordou, espreguiçou-se na cama, rolou de um lado para outro até que todo seu corpo se sentisse despertado. Lavou o rosto, vestiu-se e desceu para o refeitório.

- Bom dia, Olga!!! Estou morrendo de fome!!!
- Que bom, outra que acordou bem disposta!
- Outra?
- É. Porque a Nadine também acordou faceira... Foi para a cidade, resolver umas coisas de negócios para o pai. Pediu para te avisar que volta de tarde.
- Obrigada pelo recado. – respondeu Mabel sorridente.




Depois do café resolveu levar seu material de pintura até a margem do arroio. Tinha visto belíssimas paisagens e sentiu vontade de pintar um pouco. Muniu-se de cavalete, tela e tintas e instalou-se de frente para o córrego de águas cristalinas, tendo uma montanha esverdeada ao fundo e um Ipê florido em primeiro plano, que mais parecia um buquê gigante colocado perto da margem do rio. Nem reparou o tempo passar até que Feliciano foi chamá-la, a pedido de Olga, pois já havia passado muito da hora do almoço. Retornou para a Pousada e colocou sua tela inacabada para secar num canto de seu quarto. Na verdade seu desejo naquele momento não era pintar uma paisagem e sim uma figura humana, de preferência uma mulher morena, alta, de cabelos longos e olhos azuis... que tirasse a roupa e pousasse nua para ela, como uma Vênus, totalmente livre e plena de suavidade... quem sabe não teria oportunidade de realizar sua obra prima mais breve do que pensava?... “Pode ser, Mabel... pode ser...”

 

***********

 

Na cidade Nadine tratou de realizar suas tarefas o mais rápido possível. Nem se lembrou de dar as recomendações de Olga para Hermann. Na verdade mal conversou com ele, apesar das tentativas do gerente do banco de atrair a atenção de Nadine. Depois ela foi até a casa de Fredi e Marcos. Ambos estavam em casa, de folga. Fredi trabalhava no banco também, porém tinha algumas horas em haver e havia decidido descansar naquela quarta-feira. Marcos era representante de vendas e também decidiu folgar naquele dia, afinal já havia mesmo ultrapassado sua cota de vendas para aquele período. Ficaram felizes ao ver Nadine, principalmente pelo fato dela estar bastante animadinha. E não sossegaram até que ela lhes contasse sobre os últimos acontecimentos da Pousada dos Sonhos.

- Amiga... isso tá me cheirando a desencalhe... – disse Fredi brincando.
- Não fantasia, Fredi – respondeu Nadine.
- Ai querida... tá subestimando minha capacidade intelectual, é?...
- Claro que não... mas tu viaja...
- Pois eu quero ser mico de circo se essa uma aí não tá dando em cima de ti...
- Não sei... as vezes acho que sim, outras, sei lá. Nossas realidades são muito diferentes...
- Nadine, vem aqui – disse Fredi puxando-a até em frente a um espelho – o que é que tu tá vendo???...
- Não seja bobo, Fredi...
- O que é que tu tá vendo?...
- Eu.
- E?...
- E o que?
- E o que mais, ora bolas?
- Sei lá!
- Pois então EU vou te dizer: eis uma mulher linda!!! Vitaminada, gostosa, inteligente, bom papo, bom caráter, princípios, quer mais???
- Tu tá me deixando sem jeito...
- Nadine, qualquer mulher que seja do babado, mesmo que tenha somente dois neurônios, e ainda um deles for manco, daria qualquer coisa para ficar contigo...
- Tua opinião de amigo não vale, é tendenciosa. E quem diz que ela “é do babado”???...
- Sou teu amigo, mas não sou cego... nem cínico. E, Nadine, te liga! Essa uma não te deu uma letra, ela te deu um alfabeto!!!
- Ele tem razão, Nadine. – interveio Marcos.

Nadine é obrigada a rir das colocações de Fredi, sempre tão veemente e escandaloso. Mas ele tinha razão, sim. Ela estava era ressabiada e tinha medo de se entregar novamente numa relação e ver tudo ir por água abaixo.

- Eu sou muito passional quando me apaixono...
- É só maneirar um pouco... não ir com tanta sede ao pote, meiga...
- E eu consigo???... Vocês me conhecem...
- Mas tente! – incentivou Fredi.
- Não sei...
- Nadine, - disse Marcos, mais ponderado – dê a si mesma uma chance de ser feliz... pelo menos, tente.
- Vou pensar...
- QUE BOM... A princesinha vai pensar...
- Fredi... não começa... – resmungou Nadine.
- Bom, - continuou Fredi – agora que já acabamos nossa obrigação vamos ao lazer...
- Como assim? – questionou Nadine.
- Meiga, eu estou prontinha pra ir até a Pousada... quero ver de perto essa tal loirinha...
- O que???...
- Isso mesmo!!! Nós vamos contigo, não é Marcos?

Marcos ficou perplexo com a cara de pau do namorado:

- Fredi... você quer me matar de vergonha? O que a nossa amiga vai pensar???
- Que somos duas bichas curiosas, ora...

Nadine caiu na risada e se deu por vencida:

- Ok, vamos lá... mas olha lá, ein? Nada de piadinhas de mau gosto, entendeu Fredi?
- Querida, eu sou uma lady... esqueceu? – respondeu abraçando Nadine.




O trio se dirigiu à Pousada dos Sonhos na caminhonete de Nadine. De seu quarto da Pousada, Mabel escutou o barulho inconfundível do motor de “Pimentinha” e desceu correndo as escadas. Estava ansiosa para ver Nadine. Seu coração batia mais forte e se deu conta que precisava ao menos ver Nadine de longe, como quem necessita de alimento, água e ar. Havia esperado por ela toda a manhã. Na verdade havia contado os minutos até a hora do meio dia e preparava-se para esperar por mais algum tempo até que o barulho do motor e da lataria vermelho-rubi havia anunciado o retorno antecipado de sua dona. No hall de entrada tentou se recompor, respirando fundo para desacelerar seus batimentos cardíacos. Saiu pela porta da frente a tempo de ver Nadine desembarcar com seus amigos. Esta, ao bater a porta da caminhonete avistou Mabel na frente da casa grande e acenou para ela.

- Ai que amor... abanando para o docinho... – debochou Fredi.

Marcos o cutucou de leve e disse:

- Não começa!
- Ai, só tô brincando... pra ver se desestresso a Nadine...
- Eu não estou estressada, Fredi.
- Tudo bem, tudo bem... não tá mais aqui quem falou.

Mabel caminhou em direção a eles e Nadine fez as apresentações:

- Isabela, esses são Fredi e Marcos.
- Encantada... DO... – respondeu Fredi, estendendo a mão para Mabel.
- Muito prazer. – falou Marcos, também estendendo a mão para cumprimenta-la.
- Igualmente! – disse ela – Pensei que você só retornaria mais tarde... – falou dirigindo-se à Nadine.
- Pois é... consegui resolver tudo rapidamente.
- Por que será??? – perguntou Fredi debochado, recebendo uma pisoteada no pé, de Nadine.
- Aaaaaiii !!!
- O que foi? – perguntou Mabel.
- Meu joanete!!! – respondeu Fredi – tem me matado...
- Coitado... deve doer um bocado – disse Mabel, solidária.
- E como!!!
- As vezes piora, não é mesmo, Fredi??? – disse Nadine olhando para ele de cara feia.
- É. Consegue piorar.
- Mas vamos entrando... – disse Nadine, apontado para a porta – vamos até o escritório, ver aquele probleminha no computador...
- Que probleminha??? – disse Fredi ingenuamente, ao que Nadine lhe fuzilou com o olhar.
- Aaahhh... lembrei... ando tão esquecido... acho que preciso tomar guaraná...
- Venha conosco, Isabela... – convidou Nadine.
- Com certeza – respondeu ela encarando Nadine nos olhos.

Fredi percebeu a encarada e cutucou Marcos, que o censurou com o olhar.




O quarteto adentrou no pequeno escritório da Pousada dos Sonhos, onde havia uma escrivaninha num canto, com uma confortável cadeira de encosto alto e estofamento de veludo azul marinho. Na outra extremidade da peça havia um móvel com o computador, ao lado de uma estante de livros que ia até o teto, tomada por publicações dos mais variados estilos. Na parede do lado esquerdo da porta havia um sofá de dois lugares e em frente à escrivaninha duas banquetas de madeira, também estofadas com o mesmo veludo azul marinho. Na parede por sobre o sofá havia um enorme quadro de um campo de girassóis. Atrás da escrivaninha uma pintura a óleo da Pedra Grande, cuja assinatura era nada mais, nada menos do que Lino, o padre Lino. Mabel admirou as pinturas e sentou-se no pequeno sofá. Marcos, sempre discreto e ponderado, falou:

- Pode deixar, Nadine, que eu verifico o teu computador, eu sei o que fazer.
- Eu posso ajudar, entendo um pouco de informática. – referiu Mabel.
- Não precisa!!! – exclamou Fredi – o Marcos é entendido... em computação. Vem cá... senta aqui comigo que eu quero te conhecer...

Nadine começou a suar frio e ficou pensando se não havia sido uma idéia de jerico ter trazido Fredi junto. Este começou um verdadeiro interrogatório:

- Então... de onde você veio?
- São Paulo.
- Nossa!!! Cidade grande!
- É... bem grandinha...
- E o que é que tu fazes da vida? Estás de férias?
- Mais ou menos... é que eu trabalho por conta... sou artista plástica.
- Ai, que loucura... – disse Fredi. – e o que é que estás achando aqui dessa titiquinha, que é Itamoema???
- Estou adorando... – respondeu Mabel, novamente encarando Nadine, que sente o rubor lhe subindo pelas faces.
- Escuta, tens namorado?...
- Fredi !!!... – repreende Nadine.
- O que é???... Deixa que se a Isabela não quiser, não responde, não é querida?
- Com certeza... – concordou Mabel – Mas não tenho não.
- Então estás de coração aberto??? Disponível para novas paixões?...
- Estou.
- Aaaiii que bom!!!

Nadine levantou num pulo, dizendo:

- Vou até a cozinha pegar um cafezinho.

Saiu do escritório com a vontade de esbofetear Fredi, mas internamente radiante pela resposta convicta de Mabel. Ao retornar com a bandeja respirou fundo, com receio do rumo que a conversa pudesse ter tomado. Para sua surpresa os três estavam em frente à tela do computador, trabalhando na página da Pousada dos Sonhos. Mabel dava sugestões de novas fotos e de textos mais arrojados, que dessem informações mais específicas sobre as belezas do lugar. Nadine respirou aliviada e disse:

- Olha o cafezinho, pessoal.




Após o jantar, que foi divertidíssimo com as histórias mirabolantes de Fredi, Nadine foi levar os amigos de volta para a cidade e perguntou à Mabel:

- Vamos junto?
- Claro que sim!

Embarcaram na Pimentinha, apertando-se na cabine da caminhonete. Estrategicamente Fredi fez Mabel sentar ao lado de Nadine. Os corpos se tocaram e novamente Nadine sentiu o calor do corpo de Mabel em contato com a lateral do seu. As coxas ficaram bem próximas e cada vez que Nadine precisava fazer uma mudança no câmbio do veículo era obrigada a esfregar seu braço em Mabel e encostar no interir de suas pernas, que ficaram com a alavanca das marchas entre elas. Pobre Nadine... estava suando frio. E Mabel divertia-se com a situação percebendo o embaraço da outra. “A vingança é um prato que se come frio...” pensava Mabel, “ela bem que já me deixou em situaçõezinhas constrangedoras.” Ria consigo mesma, “mas que toque maravilhoso, que corpo quente, macio... acho que estou me apaixonando por essa mulher...”




Depois de deixarem os rapazes em casa retornaram para a Pousada e conversaram durante todo o caminho de volta, porém sobre assuntos gerais, desde o tempo até times de futebol. Quando chegaram na Pousada Nadine deixou Mabel na porta de entrada e disse:

- Amanhã eu não venho aqui.
- Aahh... por que? – perguntou Mabel sedutoramente.
- Porque preciso terminar de preparar a terra. Calculo que só vamos terminar à noitinha. Mas, se der tempo eu venho jantar com vocês. Se não, sexta-feira bem cedo vamos até a cascata dar um mergulho? Já está fazendo calor, e eu adoro banho de cachoeira.
- Eu topo. Mas se a água estiver muito fria posso molhar só os pés???
- Pode... – riu Nadine. – então tchau...
- Tchauzinho... – respondeu Mabel ficando na ponta dos pés e aplicando uma rápida e sonora beijoca na face de Nadine, que ficou estática.

Mabel se virou e correu escadaria acima para seu quarto, deixando Nadine parada na porta da rua, com uma sensação de calor invadindo-lhe as entranhas. “Danou-se, Nadine” pensou consigo mesma, “estou apaixonada!”

 

***********

 

A manhã de quinta-feira descortinou-se clara e ensolarada. Depois da chuva de uma semana atrás o tempo tinha se estabilizado e a previsão era de mais sol e temperaturas em elevação. A primavera vinha chegando com a exuberância própria da estação das flores, do renascimento, da renovação. Nadine e Feliciano pegaram no batente bem cedo. Nadine queria terminar o serviço cedo, tomar um banho revigorante e aprontar-se a tempo de jantar na Pousada. Não queria perder a oportunidade de estar perto de Mabel. Feliciano a observava e algumas vezes flagrou-a assoviando e sorrindo consigo mesma. “Ela está feliz... sem dúvida, está feliz. E isso é bom...” pensava Feliciano. Algumas vezes durante a lida Nadine virou seu rosto na direção da estrada que levava à casa grande na esperança de ver Mabel passeando, no entanto o dia transcorreu sem que visse a razão de sua repentina animação.




Naquela mesma manhã Mabel havia acordado tarde. Sabendo que Nadine só viria à noite, ou quem sabe no dia seguinte, resolveu tirar algumas fotos as quais transformaria em telas.  Instantaneamente lhe vieram à mente as imagens dos plátanos que avistara sábado, e também a advertência de Nadine: “mantenham-se nas trilhas principais, as que são sinalizadas. Em hipótese nenhuma penetrem nas trilhas naturais abertas na mata pelos animais ou pelo pessoal da manutenção, pois estas não possuem sinalização e são perigosas para quem não as conhece.”

“Não devem ser tão perigosas assim...” conjeturou Mabel, “Nadine é exagerada! Vou até lá dar uma bisbilhotada...”. Pegou sua máquina fotográfica e desceu as escadarias da Pousada. Cruzou com Olga no corredor que levava à cozinha e lhe disse:

- Olga, vou dar uma volta...
- Vai tirar fotografias? – questionou Olga vendo a máquina pendurada em seu pescoço.
- Vou. Vou ver se fotografo uns plátanos por aí...

Dizendo isso saiu em direção aos fundos da propriedade.

 

***********

 

Mabel caminhou por cerca de uma hora na trilha principal e eram quase onze e meia quando chegou na trilha secundária que levava aos tão almejados plátanos. A luminosidade era ainda mais incrível naquela hora do dia e podia avista-los ao longe, na planície abaixo da encosta do morro, bem além de onde se encontrava no momento. Algumas folhas de coloração marrom, em forma de estrelas espiraladas, deixavam transparecer a luz solar, assumindo uma tonalidade amarela e transparente, enquanto que outras, mais sobrepostas, impediam a passagem dos fachos de luz dando um aspecto de penumbra rende aos troncos. Mabel olhou para os lados e não havia mais ninguém na mata além dela e das criaturas que habitavam a vegetação local e os troncos das árvores. Mesmo com as palavras de Nadine ecoando em seus ouvidos embrenhou-se trilha adentro, numa descida íngreme, agarrando-se a cipós, pedras e troncos, tentando firmar os pés e locomover-se com segurança. Desceu por cerca de quarenta metros quando se viu obrigada a costear uma pedra enorme e coberta de limo. A terra em volta estava instável devido à umidade natural do local e desbarrancou com o peso do corpo de Mabel. Esta ainda tentou segurar-se, porém as ervas nas quais tentou inutilmente se firmar desgrudaram-se do solo argiloso e Mabel caiu por um longo trecho de ribanceira. Parou subitamente ao bater de encontro a uma enorme tora de madeira, provavelmente caída da grande árvore nativa que, imponente, parecia abraçar o terreno no qual Mabel se encontrava quase que desfalecida. Ficou deitada por um tempo que não saberia precisar, enquanto se recuperava do susto. Sentia muita dor no braço esquerdo e as costas ardiam devido ao esfolamento na queda. Tentou se levantar vagarosamente e conseguiu manter-se em pé. Lentamente fez um auto-exame e percebeu não ter fraturas, nem maiores escoriações além das costas raladas. Seu braço esquerdo deveria estar com um entorse, pois conseguia move-lo consideravelmente, embora sentisse uma dor aguda perto da articulação do cotovelo. Olhou para cima e se deu conta que caíra cerca de vinte metros, numa ribanceira íngreme e úmida. Reparou que estava numa espécie de buraco, cuja única saída era para cima. Tentou escalar o solo, porém devido a umidade encontrava-se escorregadio. A dor no braço a impedia de firmar o corpo numa tentativa de escalar o terreno. Estava, de fato, bastante encrencada. “E agora???...” pensou. “Vou ter que esperar alguém vir me tirar daqui... a Nadine vai querer me matar!... Se bem que ninguém sabe que eu vim para cá... e esse sítio é enorme... Deus do céu, não vão me achar nunca... malditos plátanos!”. Num rompante de desespero ainda gritou:

- SOCORRO... SOCORRO... TEM ALGUÉM AÍ EM CIMA???...

Como já esperava ninguém respondeu. Ouvia somente os barulhos da mata, e o eco de seu grito se perdeu por entre o vale e a montanha. Mabel recostou-se no tronco caído e ajeitou o braço esquerdo rente ao corpo. Restava-lhe somente esperar... e rezar.

 

***********

 

Tão logo terminou seus afazeres Nadine largou o trator no galpão do sítio e tratou de ir para casa, tomar um banho, caprichar no visual e ir para a casa grande jantar com a moça da cidade cujos encantos haviam conquistado o seu coração. Ao entrar pela porta da cozinha abraçou Olga, que estava mexendo uma panela no fogão.

- Oi minha coisa fofa... – brincou Nadine.
- Como está a minha queridinha?... Muito cansada?
- Não, não muito...

Olga olhou na direção da porta, esperando ver a entrada de Mabel logo atrás de Nadine. Como esta não veio perguntou:

- Nadine, onde está a Isabela?
- Como assim?
- A Isabela... ela está contigo, não está?
- Não. Eu passei o dia no campo, fui em casa e vim direto para cá. Não vi a Isabela hoje. Pensei que ela estaria aqui me esperando.
- Essa menina saiu cedo... – disse Olga preocupada.
- Que horas??? – questionou Nadine sentindo um aperto de angústia no peito.
- Eram umas dez e meia, mais ou menos...
- E ela não veio almoçar, Olga?
- Não.
- E porque tu não mandou me avisar???
- Mas, Nadine, eu pensei que ela estivesse contigo, afinal vocês estão se dando tão bem... – respondeu Olga deixando transparecer segundas intenções na voz.
- Pois é, mas ela não me procurou.
- Meu Deus, será que ouve alguma coisa?
- Não sei, Olga, não sei... – respondeu Nadine andando de um lado para outro.

Neste momento Feliciano entrou no recinto e tomou par do sumiço de Mabel.

- Ela deve estar por perto, se perdeu na hora... – disse Feliciano tentando aparentar calma e tranqüilizar Nadine e Olga que estavam bastante receosas.
- Mas ela nem veio para o almoço... – respondeu Olga.
- Olga, pensa bem... ela te disse aonde ia? – questionou Nadine.
- Não... não me lembro...
- Pensa bem, é importante, Olga... por favor... – suplicou Nadine.
- Ela só falou que ia tirar umas fotos... fotos de uns plátanos...

Num estalo Nadine se lembrou do comentário de Mabel e exclamou:

- Feliciano, prepare Atena, eu sei aonde ela está. Vou pegar lanterna e cordas. Vai rápido!!!


Em minutos Feliciano encilhou Atena e Vendaval e ambos partiram pela trilha que haviam percorrido no sábado. Durante a tarde haviam se formado algumas nuvens de chuva e uma garoa fina começou a cair sobre Itamoema. Nadine galopava o mais rápido que podia e Feliciano a seguia de perto. A noite já havia caído quando chegaram na trilha secundária que levava aos plátanos que haviam atraído a atenção de Mabel. Nadine desmontou e, munida de uma potente lanterna, adentrou pela trilha gritando o nome de Mabel:

- ISABELA... ISABELA... VOCÊ ESTÁ AÍ???...


Mabel estava encolhida devido ao frio e a chuva que caía mansamente sobre sua cabeça. Tentou se proteger sentando bem rente ao tronco de árvore, porém a água escorria pela encosta do morro e acabava por molha-la por inteiro. Seu braço doía menos, mas estava sentindo muito frio. Embora os dias fossem quentes naquela época do ano, a temperatura à noite costumava cair bastante e a própria umidade da mata contribuía para tornar a sensação térmica ainda mais baixa. Mabel tremia e pensava; “acho que não sobrevivo até amanhã... que falta de sorte morrer justo agora, que encontrei uma mulher maravilhosa... porque não dei ouvidos aos seus conselhos??? Mas não... eu sou teimosa como uma mula... tinha que vir sozinha... e vou morrer sem dizer pra Nadine o quanto ela é especial... droga de vida!...”. O cair da noite havia lhe tirado as últimas esperanças de ser resgatada daquela encosta quase que inacessível. Quando Mabel já estava desistindo de lutar e ciente de que ninguém a encontraria ouviu uma voz bem conhecida chamando por seu nome.

- ISABELA!!!...


- EU TÔ AQUI... – gritou com as poucas forças que lhe sobravam devido ao frio e ao medo. – AQUI EMBAIXO... NADINE... me tira daqui...
- Ela está aqui, Feliciano, ela está aqui!!! – disse Nadine ao ouvir o apelo de Mabel. - ESTÁ TUDO BEM... EU JÁ CHEGO AÍ...

Nadine posicionou o foco de luz, iluminando a beirada da pedra na qual Mabel havia caído.

- Feliciano, amarre a ponta da corda numa árvore – disse Nadine, trançando a outra extremidade em sua cintura – Eu vou descer.
- Vai com cuidado, menina – respondeu Feliciano sabendo que não adiantaria contrariar Nadine.

O facho de luz, apesar de potente, não conseguia chegar até onde Mabel estava e Nadine se guiava pela voz da mulher que estava disposta a resgatar de qualquer forma, mesmo que lhe custasse a vida.

- AGUENTA FIRME QUE EU JÁ TÔ CHEGANDO AÍ...
- Eu tô bem...

Pouco a pouco Nadine foi vencendo a descida, conforme a corda ia sendo solta gradativamente por Feliciano. Em determinado momento Nadine conseguiu vislumbrar o reflexo do cabelo loiro de Mabel e direcionou o foco de luz iluminando um rosto que sorriu aliviado ao vê-la. Nadine conseguiu chegar até Mabel e esta abraçou-se a ela como quem se agarra a uma tábua de salvação.

- Você está bem??? – perguntou Nadine afastando-se um pouco e direcionando o facho de luz de cima a baixo no corpo de Mabel.
- Eu tô legal, nada quebrado...
- Por enquanto... – respondeu Nadine – eu devia te quebrar os dentes, sua teimosa...

Mabel sorriu e abraçou Nadine. Instantaneamente o sorriso se transformou em lágrimas. Nadine sentiu o soluçar de Mabel de encontro ao seu corpo e as lágrimas umedecendo seu peito. Nadine a envolveu afetuosamente, aconchegando-a bem junto a si. Sentiu um alívio profundo e agradeceu a Deus por ela estar a salvo e em seus braços.

- Tudo bem... tudo bem... já passou... – disse Nadine abraçando-a com força e confortando-a em seus braços. – eu vou poupar os teus dentes... – emendou brincando.

Mabel se acalmou e parou de chorar.

- Vamos subir, mocinha?... – perguntou Nadine.
- Vamos...

Nadine tentou pegar Mabel nos braços, porém esta gemeu de dor, segurando o braço esquerdo. Vendo que estava com um possível entorse, Nadine fez com que Mabel se segurasse em seu pescoço com o braço direito, mantendo o esquerdo abaixado e encaixado entre elas, numa posição que doesse o menos possível.

- Te segura em mim e relaxa, deixa a subida por minha conta, ok?
- Tudo bem... – respondeu Mabel encostando seu rosto no pescoço de Nadine.

Nadine já havia praticado alpinismo e era muito ágil em escaladas. O peso do corpo de Mabel dificultava um pouco a subida, exigindo de Nadine um esforço físico bem maior. Empreendeu a subida lentamente para não correr o risco de nova queda e de machucar a preciosidade que carregava junta a si. Feliciano a auxiliava puxando gradualmente a corda que havia amarrado em Vendaval. Em pouco mais de trinta minutos conseguiram vencer a encosta e chegar a seguridade da trilha principal. Nadine montou em Atena e Feliciano ajudou a colocar Mabel montada na frente de Nadine. Esta última segurou as rédeas da égua passando seus braços ao redor do corpo de Mabel, que continuava segurando seu braço esquerdo bastante dolorido.

Nadine conduziu Atena numa marcha lenta até a Pousada. Mabel recostou-se no corpo de Nadine, que havia tirado a própria jaqueta e colocado sobre seus ombros. Sentia-se segura e o balanço suave do passo de Atena embalava Mabel e fazia com que se aconchegasse cada vez mais de encontro a Nadine. “Eu poderia morrer agora que morreria feliz...” pensou Mabel.

“Graças a Deus você está bem...” - pensava Nadine enquanto retornavam – “mas precisava ser tão teimosa?... acho que dessa vez aprendeu a lição. Querida... parece um bichinho encolhido... e esse perfume... eu adoro esse perfume...”


Ao chegarem na Pousada Olga correu até eles, com os braços abertos e aliviada ao avistar Mabel.

- Graças a Deus... graças a Deus... – repetia Olga.

Nadine desmontou e tomou Mabel nos braços, fazendo-a desmontar delicadamente.

- Eu não disse que montaria nessa égua?... – brincou Mabel com voz fraca.

Nadine sorriu frente a capacidade de Mabel de manter o bom humor mesmo numa situação tão séria.

- E eu não pensei que essa quadrúpede se venderia tão rápido – respondeu Nadine fingindo indignação.

Nadine percebeu que Mabel estava muito quente e encostou sua boca na testa dela, testando sua temperatura e percebendo que estava febril.

- Feliciano, pega a caminhonete e vai buscar o Dr. Rui. – disse Nadine.
- Não precisa... eu tô bem – respondeu Mabel, tendo um acesso de tosse.
- Vai Feliciano. – reafirmou Nadine.


Olga e Nadine levaram Mabel até o quarto. Olga ajudou Mabel a tomar um banho enquanto Nadine foi soltar os cavalos. Em menos de uma hora Feliciano voltou com o médico do vilarejo. Era um senhor de meia idade, alto, descendência germânica, olhos verdes e óculos de aro redondo que pendiam na ponta de um nariz longo e afilado. Examinou Mabel, auscultou-a, e constatou um entorse no cotovelo e um resfriado devido à exposição prolongada ao frio e à umidade.

- Essa menina está fazendo uma crise asmática... – proferiu o médico – pelo resfriado e também de fundo emocional. Vai precisar de cuidados por uns dias. Nada de excessos, repouso e medicação na hora certa. Vamos dar uma imobilizada no braço para aliviar a dor.

O Dr. Rui prescreveu a medicação para Mabel, fornecendo os remédios prescritos, que costumava carregar em sua maleta em virtude das dificuldades de acesso à farmácia e ao adiantado das horas em que costumava atender as chamadas de emergência. Nadine acompanhou Dr.Rui até a porta e questionou:

- Ela está bem mesmo, doutor?...
- Está sim... mas precisa de certos cuidados. Em quatro ou cinco dias vai estar nova outra vez... e pronta para outra!
- Pelo amor de Deus, doutor, nem brinque...

Ambos riram. Nadine pagou a conta do médico e subiu até o quarto de Mabel. Pegou Olga de canto e falou:

- Olga, amanhã é sexta-feira e os hóspedes do final de semana começarão a chegar. E virão muitas pessoas, acho que mais de quinze. Isabela não vai conseguir descansar aqui e você não poderá cuidar dela com o movimento e as exigências da Pousada. Feliciano vai se encarregar das atividades externas e eu vou ficar tomando conta dela. Ela vai para a minha casa. Vai comigo agora.
- Você que sabe, Nadine – disse Olga, sem disposição para discutir com sua princesinha e ciente de que não adiantaria mesmo.

Nadine foi até a cama de Mabel e lhe disse:

- Nós vamos para a minha casa, agora.
- Olha... eu não quero incomodar.
- Não discuta. Você já teimou que chega hoje. – respondeu Nadine passando o braço ao redor de Mabel, ajudando-a a se levantar.

Na verdade o que Mabel mais queria era ficar perto de Nadine e achou melhor calar a boca mesmo e deixar-se levar para onde quer que Nadine a quisesse levar. Olga arrumou alguns pertences de Mabel colocando-os numa sacola, no banco da caminhonete, após o retorno de Feliciano, que fora levar o Dr. Rui de volta para casa. Nadine conduziu Mabel até o veículo e rumaram para sua cabana. O pequeno trajeto foi vencido em breves minutos e Nadine conduziu Mabel pela escada de sua cabana, para o segundo piso, instalando-a em seu quarto, em sua própria cama. Mabel estava sem forças para discutir ou argumentar. Nem sequer havia prestado atenção no interior da casa que havia estado tão curiosa para conhecer. O estado febril a impedia de raciocinar direito e tratou de enterrar a cabeça no travesseiro macio, que possuía o cheiro dos cabelos de Nadine, e adormecer profundamente, sentindo o calor e o aconchego das cobertas quentinhas. Nadine colocou um colchão ao lado de sua cama e deixou uma luminária acesa, com o foco de luz bem suave, para que pudesse observar o sono de Mabel de quando em vez. Deitou-se e também adormeceu, vencida pela exaustão, não sem antes colocar o relógio para despertar no horário da próxima medicação de sua doentinha.

 

***********

 

Antes que o relógio despertasse Nadine já estava de pé. Tratou de preparar uma bandeja com café da manhã, arrumando cuidadosamente uma fatia de mamão, duas fatias de pão de centeio, manteiga, iogurte natural, granola, um potinho de mel e uma xícara na qual colocaria o café tão logo Mabel despertasse. Tentou fazer o mínimo de barulho possível, para que Mabel pudesse dormir mais um pouco, no entanto seus ruídos despertaram a artista de seu sono reparador. Ela abriu os olhos vagarosamente e olhou em volta, lentamente tomando consciência de onde se encontrava. Estava no segundo piso da cabana de Nadine. Era uma peça única, ampla, com uma amurada separando o local onde se encontrava a cama do que seria a sala/cozinha. Sobre este murinho de tijolos à vista se encontravam enfileirados vasinhos de violetas das mais variadas cores. Do forro de cedrinho do teto, bem ao centro, pendia uma luminária circular com cinco bojos no formato de flores de lis.  A área do segundo piso deveria medir aproximadamente sessenta metros quadrados, fora a sacada ao redor de toda a extensão da construção. Mabel se viu deitada numa cama também ampla, com uma coberta macia e roupas de cama perfumadas. Sentia-se bem, o braço imobilizado havia parado de doer. Percebeu ainda, no parapeito interno da janela ao lado da escada, no outro extremo do aposento, uma figura peluda sentada, cinza, peito branco e olhos enormes e verdes a fitá-la atentamente, pressentindo que havia despertado. Por certo era Esmeralda. Num outro canto do cômodo avistou Nadine de pé, de costas para ela e de frente para o fogão, parecia cuidar de algo no fogo. Sentiu um aroma agradabilíssimo de café recém passado. Observou o porte daquela mulher e o quanto era imponente e bela. Estava usando uma blusa cor de abóbora, bem justa, mangas três quartos e uma calça jeans desbotada. Calçava um par de pantufas do Garfield e Mabel não pôde deixar de rir daquele detalhe que destoava totalmente da Nadine que conhecia, ou que pensava conhecer.

Nadine pressentiu que estava sendo observada e virou-se, deparando-se com o sorriso de Mabel, um sorriso meigo e encantador...

- Bom dia, mocinha... – disse Nadine carinhosamente, aproximando-se dela e sentando na beirada da cama.
- Bom dia... – respondeu Mabel baixando os olhos, envergonhada por sua atitude infantil que a pôs em risco e estava causando tantos transtornos na rotina de Nadine.
- Que cara é essa?...
- Nadine... eu queria pedir desculpas... mas se não quiser desculpar, não precisa... olha, eu acho que vou embora...
- Psssiu... – fez Nadine tapando os lábios de Mabel suavemente com dois de seus dedos – está tudo bem agora, já passou.
- Mas você tem razão, eu sou mesmo muito... muito...
- Encanzinada !
- Encanzinada?... O que é isso?...
- Obstinada... e teimosa!!!

Mabel sorriu e assentiu com a cabeça:

- Pois é...
- Mas o importante é que estás bem.
- Você poderia ter se machucado também...
- E você poderia ter morrido! Por favor... nunca mais faça isso... eu...
Nadine ficou em silencio, interrompendo a frase.
- Você o que?...
- Fiquei com medo... – disse brandamente – se quiser fotografar plátanos de novo eu te levo, combinado?...
- Combinado... – sorriu Mabel.
- O café está pronto, madame. – disse Nadine levantando-se e caminhando em direção à pequena mesa ao lado do fogão.

Mabel fez menção de levantar e Nadine disse:

- Não senhora... café na cama!!!
- Tudo bem... posso fazer xixi?...
- Xixi pode! É nesta porta da esquerda, aliás, a única deste aposento...


Mabel se levantou e andou vagarosamente na direção do banheiro. Observou que a decoração do mesmo era toda em tons de verde, desde a louça sanitária até os detalhes do piso-parede. Na frente da janela basculante semi-aberta encontrava-se pendurado um pequeno xaxim com uma planta trepadeira que subia pelo suporte que a prendia ao teto. Haviam outros galhos que pendiam descompromissadamente e balançavam-se como malabaristas de circo, conforme a brisa da manhã penetrava pela abertura e movimentava suavemente o vaso. Em um canto do banheiro existia uma banheira de hidromassagem, toda de madeira, como se fosse um ofurô, porém bem maior, comportando confortavelmente duas pessoas. “Eu me perderia nessas águas com essa mulher...” pensou Mabel maliciosamente. Aproveitou e lavou o rosto na torneira de água quente. Percebeu que seus pertences de higiene pessoal haviam sido cuidadosamente alinhados num canto do balcão da pia. Olhou-se no espelho e viu que estava desfigurada, com olheiras. Tratou de escovar os dentes e pentear os cabelos, que estavam emaranhados apesar de serem lisos, na tentativa de melhorar um pouco sua aparência. Retornou para a cama e sentou-se recostando-se nos travesseiros, enquanto aguardava Nadine que estava lhe servindo o café. Esmeralda continuava a contempla-la, de longe, parecendo querer perguntar o que fazia deitada na cama de Nadine.

- Nadine, essa é a Esmeralda? – perguntou Mabel, apontando para a gata.
- É. Diga bom dia para a Isabela, Esmeralda.

A gata pareceu entender e ronronou um miadinho fino.

- Que amor!!! – encantou-se Mabel.
- Essa mocinha é muito esperta...
- E aposto que não entende o que eu estou fazendo na cama da dona dela.
- Bom, na verdade Esmeralda acha que ELA é minha dona, não o contrário, mas deve estar estranhando mesmo, pois faz muito tempo que ficamos sempre só nós duas.
- Ela é muito bonita. – disse Mabel.
- Mas é temperamental. – respondeu Nadine.
- Quem puxa aos seus... – falou Mabel, remendando logo em seguida - ...brincadeirinha...



A bandeja com aquele líquido fumegante, trazida por Nadine, fez os olhos de Mabel brilharem. Se deu conta de que estava faminta, afinal no dia anterior fizera um jejum forçado. Não pode deixar de voltar os olhos para as pantufas de Nadine, eram chamativas demais! Tentou conter o riso mordendo o canto dos lábios, porém Nadine lhe fez uma cara de brava e disse em tom de brincadeira:

- Pode rir...
- Desculpe... – disse Mabel explodindo numa risada divertidíssima.
- Isso é coisa do Fredi!!!
- Só podia... – disse Mabel ainda rindo. – mas são um encanto... só que...
- Só que, o quê???...
- São enormes!!!
- Mas queria o que??? Que eu amputasse os dedos do meu pé ou metade da cara desse gato???...
- Mas são lindas...
- Se quiser eu te empresto! Faça bom proveito!
- Em casa eu tenho umas do coiote!!!
- Jura??? – perguntou Nadine.
- Juro.
- Que bom... vejo que não sou doida sozinha...

As duas caíram numa gargalhada e Nadine colocou a bandeja no colo de Mabel:

- Vamos lá, mocinha, comendo... que é para tomar o remédio depois!
- Sim senhora!


Mabel tomou seu café da manhã, sua medicação para a dor, antiinflamatório e para o controle de asma e depois dormiu novamente. Sua cabeça pesava um pouco e tossia bastante. O braço não estava incomodando, em compensação a sensação do resfriado a deixava caidinha. A febre havia cedido e acordou com o ruído da movimentação de Nadine terminando o almoço. Novamente foi servida na cama. Nadine serviu um prato para si e sentou-se aos pés da cama, almoçando com Mabel. Quando terminaram a refeição Mabel pediu:

- Eu queria levantar um pouco...
- Tudo bem, venha sentar aqui perto da janela que dá para o arroio.


Nadine ajeitou uma cadeira para ela bem defronte a uma enorme janela envidraçada, cujo ângulo de visão cobria quase que toda a extensão visível do Arroio Bonito. Ao fundo se vislumbrava uma encosta de mata nativa, onde a vegetação exuberante exibia várias tonalidades de verdes e marrons e, por ironia, incontáveis plátanos balançavam suas folhas ao vento.

- Plátanos... – disse Mabel.
- Pois é... Plátanos.
- Porque você não me disse que se viam plátanos da tua janela???...
- Tu não me perguntou...
- Pois é... não perguntei...

Fez-se um período de silêncio até que Mabel perguntou:

- Nadine, você sempre morou aqui?
- Sim... Não... Quer dizer, sim e não.
- Como assim??? Sim e não?
- É que aqui sempre foi o meu lar, o lugar para onde eu retornava, o porto seguro. Mas passei um tempo fora, estudando.
- Estudando o que? E aonde?
- Agronomia. Em Porto Alegre.
- Quer dizer que a senhorita é uma engenheira agrônoma?
- É. Parece. – respondeu modestamente Nadine.
- E depois?
- Depois fiz mestrado no Rio de Janeiro.
- Quanto tempo ficou lá?
- Só o tempo de terminar a tese. Já te falei que sempre volto correndo para cá.
- E volta por causa de alguém?
- Sim.
- De quem???
- De mim mesmo... eu amo esse lugar.
- Ahaaa... E você sempre morou aqui sozinha?... – cutucou Mabel.
Nadine fez um breve silêncio, baixou os olhos e respondeu secamente:
- Não.


Pelo tom de voz de Nadine, Mabel achou melhor mudar o rumo da conversa e começou a questionar sobre seu curso e sobre seus projetos para a Pousada e o sítio. A tarde transcorreu tranqüila e o sol voltou a brilhar nos céus de Itamoema. Durante a janta Mabel referiu:

- Eu estou atrapalhando toda a tua rotina, não é mesmo?
- Não, não está. Se estivesse eu diria.
- Mas amanhã é sábado e a Pousada está repleta de hóspedes. Ouvi você comentar ontem...

“O que não precisa ela ouve... o que deveria ouvir e assimilar entra por um ouvido e sai pelo outro”, pensou Nadine.

- Isabela, o Feliciano dá conta de tudo sozinho, não se preocupe. Se for preciso mesmo ele me avisa e vou ajudar, ok? Isso se tu prometeres ficar comportada...
- Prometo!


Após a janta Mabel pediu para tomar um banho. Colocou um pijama limpo e se deitou, sonolenta em virtude da medicação. Novamente Nadine arrumou seu colchão no chão, ao lado da cama. Antes de se deitar apagou as luzes, deixando acesa apenas uma pequena luminária com foco direcionável. Sentou-se numa poltrona e pegou um livro para ler, porém não conseguiu avançar mais do que dois parágrafos numa mesma página. Com o livro repousando aberto sobre seu colo ficou admirando o rosto de Mabel por longo tempo. Seus traços eram suaves, sua boca tinha um contorno doce e sedutor. Respirava vagarosamente, ferrada no sono, ressonando baixinho. Seus cílios eram longos e curvados para cima, e o cabelo loiro com reflexos dourados emoldurava-lhe o rosto conferindo-lhe um ar angelical enquanto dormia. Nadine sentiu vontade de abraça-la, aconchegando-a nos braços e velando seus sonhos. Aproximou-se dela, ajeitou o cobertor cobrindo bem as suas costas e deitou-se em seu colchão, fitando-a ainda mais uma vez antes de apagar a luz. Esmeralda aninhou-se nos pés da cama de Nadine, ronronou um pouco e também adormeceu.

 

***********

 

O sábado descortinou-se límpido e brilhante. O sol espargia seus raios pela Serra Gaúcha fazendo evaporar as gotas de orvalho deixadas pelo sereno da noite. Por volta de dez horas da manhã o Dr. Rui foi examinar sua paciente e constatou que ela estava muito melhor, praticamente boa. Retirou as faixas do seu braço e Mabel referiu não sentir mais nada:

- Antiinflamatório porreta, esse ein, doutor? – disse Mabel brincando.
- Se é! Levanta até um cavalo! – respondeu o médico também em tom de brincadeira.
- Nesse caso, mula... empacada. – emendou Nadine, desviando o olhar de Mabel que se virou e lhe fez uma careta.


Após a saída do Dr. Rui, para surpresa de Mabel, Olga apareceu para almoçar com elas. Trouxe uma sopa de capeleti, queijo parmesão ralado e um pãozinho crocante para acompanhar. Isso sem falar nos bifes acebolados, no arroz de formo e nas saladas variadas.

- Eu trouxe tomatinhos de jardim, Isabela, pois eu sei que gostas...- disse Olga, paparicando-a.
- Obrigada, Olga... – respondeu contente.


Depois do almoço Nadine levou Mabel até a sacada, pois o dia estava ensolarado e quase sem vento. Esmeralda havia saído para passear e aproveitar o dia ensolarado. Provavelmente retornaria para dentro de casa somente no final da tarde. Gostava de caçar borboletas e lagartixas, embora quase nunca conseguisse transforma-las em presas. Valia o divertimento.

Mabel instalou-se numa rede e Nadine noutra, ao lado. Conversavam quando a atenção de ambas foi desviada para um fusca amarelo índio que se aproximava da cabana. Ao avista-las de longe Fredi colocou a cabeça para fora da fusqueta e abanou efusivamente para as duas. Ao seu lado Marcos continuou dirigindo calmamente. No banco de trás estavam Eduardo e Lúcia. O menino também abanava para elas:

- Ôiêêê...
- Parece que temos visitas... – disse Nadine sorridente – e daquelas que deixam a casa cheia!!!

Mabel sorriu. Nadine desceu as escadas indo de encontro ao grupo que desembarcava do “Kinder Ovo...” como Fredi chamava o carro deles “...com uma surpresa agradável!!!”, a cada vez que saía de dentro do minúsculo veículo. Eduardo correu na direção dela com os braços estendidos, enquanto Lúcia e os rapazes tiravam algumas sacolas de dentro do carro.

- Dinda...dinda!!! – gritou Eduardo alegremente enquanto se jogava no colo de Nadine. – Eu que pedi pra vir aqui, ver a Isabela... o vô contou pra mãe que o Feliciano disse pra ele que a nossa amiga tá doente!
- Nossa amiga?...
- É. A Isabela é minha amiga... e tua também...
- Tá bom, garoto abusado... – disse Nadine colocando-o no chão.
- Dinda... – falou Eduardo colocando a mão no bolso e retirando uma folha de papel cuidadosamente dobrada e a estendendo para a madrinha – Olha aqui... eu falei que já tinha visto a Isabela... olha... ela é a moça da revista...

Nadine desdobrou a página recortada de uma revista de moda e reconheceu Mabel ao lado de uma mulher muito bela, com o seguinte título de reportagem: “Mabel Lopes inaugura exposição no MAC”. Ao lado da foto das mulheres que apareciam lado a lado o seguinte texto: “A renomada artista expõe seus trabalhos numa exposição no Museu de Arte Contemporânea e aparece na noite de inauguração em companhia da modelo Márcia Mendes, com quem tem sido flagrada seguidamente em eventos e lugares públicos. Parece que a amizade das celebridades vai além dos compromissos de trabalho, afinal as duas tem sido vistas juntas, divertindo-se na noite paulista e carioca.”

Nadine leu o pequeno texto e viu o quanto o chamado continha segundas intenções. Viu também que se tratava de uma revista de um ano atrás. Eduardo, sem querer, havia lhe fornecido certezas que até então não possuía. Se deu conta que Mabel realmente havia “lhe dado um alfabeto”, como disse Fredi e guardou o recorte no bolso de sua calça, fingindo indiferença, não querendo deixar transparecer o quanto aquele pequeno pedaço de papel recortado havia lhe deixado internamente mexida. Disse em tom casual:

- Realmente é ela, Eduardo... Parece que nossa amiga é famosa... mas não vamos comentar nada para não deixa-la constrangida, certo?
- Certo, dinda. Mas eu tinha razão, viu?
- Vi, querido. Desculpe ter duvidado.
- Tudo bem, dinda... é como a minha mãe diz: “esse rapazinho aumenta, mas não inventa!” – referiu Eduardo com as mãos na cintura imitando a mãe.

Nadine não pôde deixar de rir do deboche do menino. Neste momento Fredi, Marcos e Lúcia juntaram-se a eles.

- Desculpe Nadine se viemos sem avisar, mas esse piá encasquetou que queria ver a Isabela, depois que soube que ela caiu na mata. – disse Lúcia – fez até um presente para ela. E foi comentar com esses dois – disse apontando para Fredi e Marcos - que alimentaram a teimosia dele!
- Tá aqui, ó dinda... o presente da Isabela...– disse Eduardo mostrando um pequeno embrulho. – é uma escultura de argila!!! Uma coruja!!! Tem os olhos BEM grandes. Eu que fiz. E pintei de vermelho! Dinda, existe coruja vermelha?
- De repente... se ela estiver enraivecida... – brincou Nadine.
- Minha coruja não é raivosa!!! Já sei! Ela é colorada, como o padre Lino! Eu torço pro Caxias, que nem o meu pai.
- Tá certo... – sorriu Nadine.
Fredi referiu:
- Querida, trouxemos umas maravilhas da padaria da cidade para a nossa doentinha... uma rosca de polvilho daqui, ó! – disse puxando a ponta da própria orelha.
- Eu falei que a gente deveria ter ligado antes... – ponderou Marcos.
- Mas EU é que sei! Nadine é minha AMIGA... entendeu? E eu não preciso de convites pra visitar uma amiga... – respondeu Fredi.
- Nem eu pra visitar a minha dinda! – retrucou Eduardo.
- Cala a boca, piá!!! – repreendeu Lúcia dando um safanão na orelha do filho.
- Realmente, meus amigos não precisam de convite... as pessoas que eu amo são sempre bem vindas, a qualquer hora... – respondeu Nadine.

Eduardo abraçou a madrinha pela cintura, empinou o nariz e disse olhando debochado para a mãe:

- Não falei?...
- Respeita a tua mãe, moleque! – disse Nadine repreendendo-o.
- Tá... desculpa mãe... – respondeu virando-se e correndo em direção a porta de entrada – Vou lá ver a Isabela.

Enquanto Nadine, Lúcia, Fredi e Marcos depositavam as sacolas na cozinha Eduardo subiu correndo a escada de madeira que levava ao segundo pavimento.

- Isabela... olha eu aqui!!! – disse sorridente enquanto corria na direção dela e a abraçava afetuosamente.
- Querido... como é bom revê-lo. E como você está bonito!!!
- Gostou? – disse Eduardo ajeitando o cabelo lambido de gel e cuidadosamente penteado para o lado – É a minha roupa de ir na missa!!!
- Você está lindo... um gato!!!

Eduardo, que era só sorrisos com os elogios, entregou o presente de Isabela:

- Presente pra ti!!!
- Pra mim???...
- É, eu que fiz!!!
- Nossa, quanta honra!!! – respondeu Mabel desembrulhando o presente com cuidado. – Que linda... uma coruja!
- Colorada, que nem o padre Lino! Por isso é vermelha!... Posso te contar um segredo?... – perguntou chegando bem pertinho do ouvido de Mabel.
- Pode.
- É que eu só tinha tinta vermelha... mas não conta pra dinda, senão ela ri de mim...
- Segredo nosso! – respondeu Mabel abraçando e beijando afetuosamente o pequeno amigo – Eu adorei o presente, muito obrigada!
- Eu gosto de ti.
- Eu também, querido, eu também.


O restante do grupo chegou até Isabela e Eduardo, e sentaram para conversar. Mabel sentia-se bem e ficou contente com a hospitalidade daquelas pessoas que conhecia há tão pouco tempo e já demonstravam preocupar-se com ela. Nem reparava o tempo passar, tão diferente de sua louca rotina em São Paulo. Estava adorando aqueles dias, isto sem falar no que lhe despertava o real desejo de permanecer por muito tempo em Itamoema: Nadine.

- Gente!!! Vocês sabem do que eu me lembrei?... – perguntou Fredi.
- Do que!!! – perguntaram todos curiosos.
- Lembram de quem está de aniversário daqui a onze dias?...
- Fredi... – disse Nadine com ar de reprovação.
- Mas querida, você não vai escapar da festa!!! – disse Fredi dirigindo-se aos demais – Vocês não acham que ela merece???
- MERECE!!! – responderam todos em uníssono.
- Tudo bem... – concordou Nadine, dando-se por vencida. Sabia que não adiantava teimar com Fredi.
- Olha, a gente pode fazer uma festança no domingo seguinte!
- Nada de festança. Um almoço no dia mesmo. – respondeu Nadine.
- Combinado, querida. Melhor que nada! – disse Fredi.
- Qual é o dia, afinal? – Questionou Mabel.
- Dezoito. – respondeu Nadine.
- Virginiana... – disse Mabel – mas deve ter ascendente em Leão... muito mandona...
- E lua em capricórnio!!! Quando diz que pau é pedra... – disse Fredi.
- Não começa, Fredi! - respondeu Nadine fazendo uma cara brava - Nem você, só por que está doente... – continuou dirigindo-se para Mabel.

Todos caíram na risada, inclusive Nadine.

- Quantos aninhos mesmo você estará completando? – questionou Fredi.
- Trinta e seis.
- Nossa!!! Tá ficando velhinha... – debochou Fredi.
- Velha é a tua vó!!! – pulou Eduardo em defesa da madrinha – Minha dinda é nova, e linda, e cheirosa. E tu é fedido...
- Ô menino, cadê o diabo do respeito??? – repreendeu Fredi.
- Tu que começou...
- Eduardo, o Fredi está brincando – disse Lúcia com voz firme – Peça desculpas.
- Só se ele disser que a minha dinda não é velha...
- Eduardo... – disse Nadine – ...tua mãe tem razão. Ele está brincando... pede desculpas.
- Tá bom... desculpa. Mas ela não é velha...
- Claro que não é, pivete... – respondeu Fredi – ela é poderosa!!!
- Menos, Fredi, menos... – disse Nadine divertidamente.
- Bom... então qual vai ser o cardápio do almoço de aniversário? – continuou Fredi.
- Eu gosto de churrasco!!! – disse Eduardo.
- E eu de lasanha... – respondeu Fredi.
- Por mim qualquer coisa está bom. – disse Marcos.
- Por mim também. – concordou Mabel.
– Sugestão: vamos deixar que a Olga escolhe, ela é a mestre-cuca mesmo... – respondeu Nadine.
- Tá certo... mas a decoração da mesa faço eu!!! – disse Fredi.



Os visitantes acabaram jantando com elas e já eram mais de dez horas da noite quando foram embora. Enquanto o fusca amarelo se distanciava podia-se ver a mãozinha de Eduardo abanando pelo vidro traseiro.

Nadine percebeu que Mabel estava bastante alegre, mas cansada, afinal ainda estava se recuperando. Mabel tomou um banho rápido e se deitou, dormindo quase que instantaneamente. Nadine também tomou seu banho, leu um pouco e adormeceu pensando no recorte que Eduardo havia lhe mostrado.