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Rose Angel

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Ana caminhou em direção à construção maior, o convento, que somente perdia em tamanho para a escola anexa. Percebeu que no lado esquerdo do pórtico de entrada existia uma pequena capela, com as paredes pintadas de bege, da mesma cor do restante da propriedade, mas com uma única torre que apontava para a abóbada celeste com a mesma suntuosidade das torres das catedrais. Bem no alto, logo abaixo da cruz, pendia um sino de bronze, cujo som das badaladas Ana ouvira logo após ter sido despertada pelo galo.

Caminhou vagarosamente pelo estreito caminho ladrilhado que levava ao refeitório, observando atentamente a paisagem ao redor. Ao aproximar-se da construção maior ouviu um burburinho vindo de dentro e um agradável aroma de café recém passado e pão fresco. Parou em frente à porta, silenciosamente, observando o interior daquele amplo recinto, e sua presença nem foi notada pelas pessoas que circulavam no local, cada qual ocupada com seus próprios afazeres. Percebeu a intensa movimentação das freiras. Algumas organizavam a mesa do café enquanto outras, mais velhas, aguardavam sentadas o início do desjejum. Ana olhou seu relógio e viu que eram seis e vinte e cinco. Neste momento Madre Lídia entrou no refeitório por uma porta interna lateral e imediatamente percebeu a presença de Ana, caminhando em sua direção.

- Bom dia. Não acredito que nenhuma das Irmãs a tenha convidado a entrar! – disse a Madre em tom de crítica.
- Eu recém cheguei, nesse exato momento, para ser mais precisa. Elas realmente não me viram. – respondeu Ana educadamente.
- Mas então vamos entrando. – disse a Madre conduzindo Ana pelo braço e fazendo-a sentar-se a seu lado na mesa.

Ao passar pelo meio do refeitório sentiu todos os olhares voltados em sua direção e um silêncio se fez repentinamente. Chegou a ficar meio desconcertada. Porem a Madre logo tratou de apresenta-la:

- Irmãs, um minuto de atenção, por favor. Esta moça é a nossa nova contratada para cuidar da manutenção de nosso convento e da escola.

Um breve murmurinho e algumas risadinhas baixas se fizeram ouvir, como que estranhando o fato de uma mulher exercer aquele tipo de atividade. A Madre continuou com voz alta e firme:

- O nome de nossa funcionária é Ana e espero que ela possa contar com a colaboração de cada uma de nós no que for preciso para orienta-la neste início de suas atividades.

Novo burburinho e vários sorrisos e balançares de cabeça assentindo à determinação da Madre. Uma das freiras levantou a mão pedindo a palavra. A um gesto da Madre a freira proferiu:

- Em nome das Irmãs eu gostaria de dar as boas vindas à amiga, e me colocar à disposição no que for preciso para ajudar. – disse a Irmã ostentando um sorriso sincero.
- Obrigada. – respondeu Ana, percebendo tratar-se da mesma freirinha que perseguia Abelardo. Precisou esforçar-se para controlar o riso ao relembrar a cena da perseguição ao galo.
- Então vamos proceder nossa oração, tomar café e pôr mãos à obra em nossas atividades de hoje. – disse a Madre. – Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...
- Amém! – responderam as freiras em uníssono, colocando-se todas de pé.

Ana também se levantou para acompanhar a oração. Não que fosse dada a rezar, mas em respeito ao local onde se encontrava e às pessoas que a haviam acolhido de forma tão simpática. Após a oração fizeram o desjejum. Enquanto se alimentava Ana observava todos os movimentos a sua volta. Percebeu que ali havia dezenove freiras. Mais tarde soube tratar-se de quatorze freiras e cinco noviças. Algumas usavam um hábito mais pesado, de cor marrom, apesar do calor intenso daquela época do ano. O que ajudava era a temperatura fresca mantida pela construção antiga. Outras usavam um hábito cinza claro, este parecendo ser mais adequado ao clima. Outras, ainda, uma saia cinza com blusa branca ou bege. A maioria usava véu, que tapava completamente os cabelos e caía até o meio das costas. Ana percebeu umas mulheres bem idosas e outras muito jovens, talvez ainda menores de idade. Tinha bastante dificuldade em entender o que fazia uma pessoa deixar a própria casa, abdicar de uma vida livre e passar a viver num convento. "E sem sexo", pensava Ana consigo mesma. Realmente não conseguia entender. O que a intrigava naquele momento era o fato de que aquelas mulheres pareciam felizes, pelo menos a maioria delas. Conversavam e sorriam alegremente. Naquele ambiente parecia reinar uma energia diferente, e um sentimento de paz tomou conta do coração de Ana. A sisudez que imaginava ser a vida religiosa destoava daquele alegre burburinho no café da manhã. Por vezes sentia-se observada por olhares curiosos, como que tentando adivinhar o que viera fazer num lugar tão remoto.

Após o café a Madre Lídia convidou Ana para conhecer a propriedade. O conjunto todo era realmente bem maior do que Ana havia imaginado. Além da escola, do convento, da capela e da área destinada à manutenção havia ainda um extenso pedaço de terras que abrigavam a padaria, a lavanderia, a rouparia, o pomar, o roseiral, o galinheiro, o parreiral, a pastagem das ovelhas, o viveiro dos coelhos e uma grande parte de mata nativa. Ana não saberia precisar o tamanho real daquela propriedade. A Madre se deteve mais nos prédios e nos detalhes que precisavam dos serviços de Ana. Deu atenção especial à capela e à secretaria do convento. A rouparia também precisava de reparos quase que imediatos na parte elétrica. Na lavanderia ficava a caldeira que mantinha a água aquecida em toda a propriedade. A Irmã Janete era a responsável pela lavanderia e pela caldeira.

A morena percebeu que havia muita coisa por fazer. Tanto melhor, pois assim o tempo passaria mais rápido naquele lugar remoto.

- E então, minha filha? Assustada com a demanda de trabalho? – questionou a Madre.
- Trabalho nunca me assustou. – respondeu Ana com seriedade.
- Ótimo. Percebo que vamos nos dar bem.

A Madre conduziu Ana até a escola para que conhecesse o local. As salas de aula estavam desertas devido ao período de férias escolares e os passos ecoavam pelos corredores. Em época letiva os mesmos corredores mantinham-se silenciosos, no entanto se os ouvidos se aguçassem podia-se perceber a conversa e a movimentação dentro das salas de aula. Os ruídos eram abafados pela generosa espessura das paredes centenárias. Caminharam por um extenso corredor e pararam em frente a uma porta onde se lia "Direção". Madre Lídia abriu a porta e penetrou no recinto, seguida de Ana. Uma freira de hábito cinzento estava registrando alguns dados num caderno de capa escura, sendo que levantou os olhos ao ouvir o barulho da porta. Ao avistar a Madre os olhos da freira brilharam e esta exclamou quase eufórica:

- Bom dia, Madre! Pensei que a senhora nem viesse para cá nesta manhã!
- Bom dia Irmã. Eu estou mostrando o convento e os arredores para nossa nova funcionária. – respondeu a Madre apontando para Ana.

O semblante da freira fechou-se instantaneamente ao avistar Ana. Ela ajeitou os óculos de armação escura na ponta do nariz e Ana sentiu-se observada dos pés à cabeça.

- Ana, esta é a Irmã Teodora, minha assistente. – apresentou a Madre.
- Muito prazer. – disse Ana secamente.
- Igualmente – respondeu a freira em tom mais reservado ainda.

Ana constatou tratar-se de uma mulher de cerca de cinqüenta anos, alta, robusta e de pele clara. Os olhos castanhos eram um tanto quanto juntos e as lentes grossas pareciam deixa-los fora de foco. No entanto podia-se dizer que era uma mulher bonita. Parecia ter o cabelo claro, a julgar pela cor das sobrancelhas, uma vez que os mesmos estavam escondidos sob o véu. Ana sentiu que a Irmã Teodora a olhava com ressalvas, arriscaria até a dizer que com certa antipatia. No entanto esse semblante de poucos amigos se dissipou instantaneamente ao voltar novamente seu olhar para a Madre. Nesse momento voltou a estampar um sorriso nos lábios. Ana era uma mulher muito perspicaz e julgou ter notado algo de diferente naquele sorriso, talvez mais do que admiração pela figura de autoridade. "Bobagem", pensou Ana, "coisas da minha cabeça". De parte da Madre, Ana não percebeu sequer a menor reciprocidade naquela euforia. O fato é que Ana não gostou nem um pouco do olhar que a Irmã Teodora lhe dirigiu e seu sensor interno de perigo acendeu-se automaticamente. Ficaria o mais longe possível dela, para evitar qualquer tipo de confusão.

- Irmã, - continuou a Madre – eu vou terminar de mostrar a escola para Ana e mais tarde venho ajuda-la a colocar essa papelada em dia.
- Eu fico lhe aguardando, Madre. – respondeu a Irmã Teodora sorridente.

Madre Lídia abriu a porta e Ana virou-se para sair. Proferiu um "com licença" seco e quase inaudível, que ficou sem resposta por parte da Irmã Teodora.

Já passava das dez horas da manhã quando a Madre deu por encerrado o passeio de apresentação com Ana.

- Bom, agora acho que já conheces o suficiente para iniciar o trabalho. Hoje podes organizar as tuas coisas e descansar. Amanhã cedo começamos no batente. Pode ser?
- Por mim, tudo bem.
- Então, se me der licença, vou para a secretaria da escola. O almoço é servido do meio dia até a uma hora, no refeitório. As três e meia é a hora do lanche da tarde e a janta é servida das dezenove as vinte horas. Agora que tu já sabes o caminho é só chegar.
- Tudo bem.
- E Ana, tu podes ocupar o galpão da manutenção. Fique a vontade para organiza-lo como quiseres. Afinal, ao que tudo indica, aqui será a tua morada por um bom tempo.
- Pois é. – respondeu Ana sempre mantendo a mesma seriedade.
- Com licença, então. – disse a Madre retirando-se e deixando-a a sós com seus pensamentos.

Ainda era cedo e Ana dirigiu-se ao galpão, portando as chaves que a Madre havia lhe dado. Realmente precisava organizar suas coisas.

Com a claridade do dia pode perceber que seu alojamento era ligado ao galpão por uma porta lateral. Poderia circular sem maiores problemas entre sua "casa" e seu "escritório". Na noite anterior havia entrado em seu quarto pela porta da frente, e estava tão cansada que mal percebeu aquela porta interna de acesso. Abriu o enorme portão da sala de manutenção. Era um portão de ferro de quase dois metros de largura que corria lateralmente sobre um trilho arredondado, um pouco emperrado, evidenciando a necessidade de um pouco de lubrificante nas dobradiças e rolamentos. A referida sala era imensa, com prateleiras em todo o redor do cômodo que ostentavam as ferramentas mais diversas. Num canto uma mesa de madeira e duas cadeiras com assento e encosto de palha, além de uma banqueta de madeira cuja pintura azulada estava descascada e parecia ter um efeito de pátina. Ana constatou que sua Kombi caberia perfeitamente num canto, sobrando muito espaço ainda. Olhou ao redor, respirou fundo e iniciou sua árdua tarefa.

Inicialmente estacionou a Kombi no interior do salão e descarregou o restante de suas coisas. Resolveu começar pelo quarto. Arrumou suas roupas no armário defronte a cama e seus pertences pessoais no banheiro, no criado-mudo e nas gavetas de uma cômoda em cujo espelho refletia-se a vegetação que podia ser avistada do lado de fora da janela entreaberta.

Quando terminou de organizar o quarto percebeu que já faltavam vinte minutos para uma hora. Se deu conta de que estava com fome e correu para não perder o almoço. Ao entrar no refeitório não avistou a Madre, aliás, havia apenas duas freiras mais velhas que ainda terminavam de comer. Cumprimentou-as com um aceno de cabeça, serviu-se e foi sentar numa mesa num canto. Almoçou em silêncio e colocou seu prato, copo e talheres na mesinha auxiliar, onde todas já haviam colocado, para serem recolhidos pelas responsáveis pela cozinha. Foi a última a sair do refeitório. Retornou para sua arrumação. Não chegou a fazer o lanche da tarde, pois queria terminar de organizar o galpão. Um pouco antes das dezoito horas terminou sua tarefa. O dia havia sido quente e Ana precisava urgente de um banho. As dezenove horas já estava no refeitório. Jantou e se recolheu exausta. O dia seguinte prometia ser de muito trabalho.

Mal havia deitado na cama e escutou uma batida discreta na veneziana de madeira. Levantou-se e entreabriu a porta avistando uma figura pequena e sorridente. Era uma freira mais velha, de hábito cinza claro, medindo cerca de um metro e meio e com muitos quilos acima do peso ideal. Tinha o rosto redondo e as faces coradas, o sorriso evidenciava uma dentadura já desgastada pelo tempo. Por sob o véu podia-se ver alguns fios de cabelo grisalho e encaracolado, que grudavam nas têmporas suadas.

- Boa noite, minha filha, desculpe incomodar...
- Tudo bem... o que houve? – quis saber Ana.
- Nada, não houve nada... Meu nome é Celestina, Irmã Celestina. Eu passei aqui só para me apresentar. Sou a responsável pela cozinha e gostaria de dizer que és bem vinda aqui. Olha... – disse a freira estendendo para Ana um pratinho de louça tapado com um guardanapo de papel – eu trouxe pra ti. É um bolinho que eu fiz. Espero que goste. Caso sintas fome de noite.
- Muito obrigada... – disse Ana esboçando um sorriso – mas não precisava.
- Precisava sim. Saco vazio não pára em pé. E se eu bem conheço a Madre ela vai te colocar no batente amanhã. E tem muita coisa pra fazer, muita mesmo. E, minha filha, qualquer coisa que tu precisares pode me pedir, viu?
- Obrigada novamente...
- Minha filha... eu sei que nem sempre quem trabalha consegue comer na hora das refeições... sempre que perderes a hora é só procurar por mim que eu te arrumo uma coisinha pra comer, tá?
- Tudo bem...
- Tu já viste onde é a cozinha, não é mesmo? Eu estou quase sempre lá. Se não estiver é só me procurar. Mas... – disse a Irmã baixando o tom de voz e chegando perto de Ana, continuando em tom de sigilo -...isso é segredo nosso, certo?
- Certo. – concordou Ana.
- Então eu já vou indo, para que possas descansar. Boa noite. – disse virando-se sorridente e caminhando em direção ao convento.
- Boa noite. – respondeu Ana – E... Irmã...
- Sim?... – disse a freira virando-se para trás.
- Obrigada de novo. E caso a senhora precise de qualquer coisa eu também estou à disposição.
- Não vou esquecer! – respondeu sorridente – Um dos bicos do meu fogão vive entupindo, agora já sei a quem chamar! Tu entendes de fogão, não entendes?
- Entendo sim.
- Que bom! Dorme com Deus, minha filha.
- Igualmente. – respondeu Ana.

A morena ainda observou a figura diminuta se distanciando a passos rápidos e curtos e ficou feliz por haver sido alvo da demonstração de bondade daquela senhora. Destampou o pratinho e percebeu tratar-se de um bolo de chocolate com cobertura de côco ralado. Não resistiu e comeu todo o pedaço antes de dormir. Colocou seu relógio de pulso para despertar as seis horas da manhã seguinte.

Antes do despertar do relógio Ana abriu os olhos, mas desta vez não foi Abelardo quem lhe tirou dos braços de Morfeu. Espreguiçou-se languidamente virando-se na cama de um lado para o outro. Foi até o banheiro e tomou um banho rápido, deixando os cabelos soltos até que secassem naturalmente. Colocou um de seus macacões de trabalho e calçou um par de tênis surrados. Antes das seis e meia estava no refeitório. A Irmã Celestina acenou afetuosamente para a morena, que retribuiu o cumprimento. Quando a Madre Lídia chegou para o café da manhã sentou-se ao lado de Ana, saudando-a amigavelmente:

- Bom dia, mocinha. Dormiu bem?
- Muito bem.
- Ótimo. E conseguiste organizar tuas coisas ontem?
- Consegui.
- Então estás pronta para começar o trabalho?
- Estou.
- Que bom. Então vamos tomar nosso café.

Novamente a Madre levantou-se para proferir a oração. Irmã Celestina pediu a palavra:

- Madre, eu poderia fazer um agradecimento especial?
- Com certeza, Irmã. – respondeu a Madre.
- Eu gostaria de agradecer em nossa oração desta manhã a presença de nossa nova funcionária, e agradecer a Deus por tê-la mandado até nosso convento. Que seja bem vinda e que inicie o trabalho conosco com o pé direito! E com as bênçãos de Nossa Senhora do Rosário. Amém.
- Amém! – responderam as demais.

Ana ficou encabulada por ser o centro das atenções naquele momento. Não pôde deixar de perceber o olhar gélido e de viés que a Irmã Teodora lhe dirigiu, instalada numa mesa contígua. Não soube identificar bem o que percebeu naquele par de olhos que a observavam atrás das lentes espessas. Talvez um misto de despeito e... ciúmes? Ana não sabia ao certo. Novamente, porém, teve certeza de que precisaria tomar cuidado com ela.

Ao término do desjejum a Madre conduziu Ana até as dependências da escola. Havia alguns vidros e lâmpadas para serem trocados. Também havia uma sala de aula desativada em virtude de um vazamento que danificou o piso há algum tempo atrás. O vazamento havia sido saneado, mas o piso ainda precisava de reparos.

- Eu gostaria que começasses aqui pela escola. Alguns pais de alunos já andaram reclamando e eu gostaria de organizar tudo antes do reinício das aulas. O material que precisares, lâmpadas, vidros, lajotas, enfim, qualquer coisa, é só pegar no almoxarifado, com a Irmã Diva.
- Tudo bem.
- O que for preciso pegar na Ferragem também é só pedir para ela.
- Entendido.
- As ferramentas estão na sala de manutenção. Já deves ter visto.
- Eu vi sim, inclusive dei uma organizada nas prateleiras.
- Muito bom... – disse a Madre – pelo visto vamos nos dar bem. Gosto de pessoas com iniciativa.
- Posso começar?
- Claro.
- Então, com licença.
- Toda.

Ana afastou-se com passos firmes, sabendo perfeitamente o que havia para ser feito. Nos dias que se seguiram ficou praticamente o tempo todo nas dependências da escola. Seu único contato com as demais Irmãs era na hora das refeições. Desde que chegou não travou nenhum tipo de conversa com ninguém, além da Madre e da Irmã Celestina, que a paparicava sempre que podia. Trabalhou inclusive no sábado.

No domingo a Madre dispensou seus serviços, sugerindo que fosse até a cidade conhecer as redondezas. Como o dia havia amanhecido ensolarado e quente Ana vestiu uma bermuda jeans e uma camiseta regata verde musgo, disposta a dar uma boa caminhada. Havia acordado tarde, quase dez horas. A hora do café já havia passado, e quando se preparava para sair a Irmã Celestina lhe sorriu da soleira da porta do quarto.

- Bom dia, dorminhoca! Dormiu mais que a cama?
- É... de fato eu estava cansada, acabei perdendo a hora.
- Mas eu não esqueci de ti... olha aqui. – disse a velha senhora estendendo-lhe um cestinho de palha com alguns pães de queijo e uma garrafa térmica com café com leite.
- Irmã... não precisava se incomodar.
- Claro que precisava! Eu vejo como você trabalha, minha filha! Não é justo que passe fome.
- Irmã... se tem uma coisa que eu não tenho passado nos últimos dias é fome...
- Bom, mas mesmo assim, trata de comer esses pães!
- Sim senhora. – respondeu Ana frente ao tom amorosamente autoritário da freira.

A mesma virou-se serelepe e retornou para a cozinha cantarolando uma música religiosa.
Ana sentou-se na cama de frente para o criado-mudo e devorou seus pães. Sempre fora comilona, porém graças aos exercícios físicos decorrentes da vida pouco sedentária que levava estes não lhe permitiam engordar. Terminando de comer escovou os dentes e deu mais uma penteada nos cabelos, deixando-os soltos. Fechou a porta de seu quarto e dirigiu-se para o caminho ladrilhado que levava ao pórtico de entrada. Antes de chegar ao portão ouviu um alarido de vozes, em um animado discurso. Da estrada, entrando pelo portão principal, vinham duas freiras de bicicleta. Ao vê-la pararam para cumprimenta-la.

- Bom dia! – disseram quase que em uníssono.
- Bom dia. – respondeu Ana, sempre séria.
- Vai passear? – perguntou a mais velha delas que não aparentava ter mais do que 20 anos.
- Vou.
- Vai até o centro? – continuou bisbilhotando.
- Pretendo. – respondeu Ana já ficando irritada com o interrogatório.

Ana nunca havia gostado de dar explicações de sua vida para ninguém. Fez menção de passar pelo lado, mas a freirinha a interpelou novamente:

- Quer que a gente vá contigo? Podemos te mostrar a cidade.

Ana virou-se com o semblante fechado e já ia responder de forma rude quando olhou pela primeira vez, com mais atenção, para sua interlocutora. Era uma jovem de pele muito clara e belíssimos olhos verde-esmeralda. Alguns fios de cabelo loiro caíam sobre sua testa, como que fugitivos da prisão do véu, e eram embalados pela brisa da manhã. As faces estavam coradas pelo esforço físico de pedalar e pela incidência do sol que àquela altura da manhã já estava quase que a pino. A dentição perfeita ostentava um sorriso encantador e afetuoso que acabou por desarmar a impaciência de Ana. Seria impossível ser rude com aquela criatura, mesmo tendo sido responsável por seu primeiro despertar naquele convento, ao perseguir o galo Abelardo naquela madrugada de quarta-feira. A outra freirinha parecia mais jovem ainda, não devia ter mais do que dezesseis anos, quase uma criança. A pele também alva contrastava com uma cabeleira negra que se escondia sob o véu claro. Os olhos negros como duas jabuticabas maduras eram expressivos e alegres.

- Nós não nos apresentamos ainda, não é mesmo? Que distração a nossa! – continuou a loirinha – Eu sou a Irmã Lúcia. Essa é a Clarice, ela ainda é noviça.
- Muito prazer! – disse Clarice.
- Igualmente. – respondeu Ana com mais tolerância no tom de voz.
- E então? – disse Lúcia – Quer que a gente te mostre a cidade?
- Muito obrigada, mas eu prefiro ir sozinha. – respondeu Ana virando-se e passando por entre as duas bicicletas, seguindo em direção à rua.
- Se mudar de idéia é só chamar! – ainda gritou Lúcia.

Ana apurou o passo e dobrou à direita no portão principal, seguindo pela rua sem asfalto.

- Porque será que ela não quis a nossa companhia? – perguntou Clarice.
- Sei lá... – respondeu Lúcia - ...coisas de gente da cidade grande. Vai entender... Mas vamos logo que eu quero ir até o pomar pegar algumas frutas.

Após sair do campo de visão do convento Ana diminuiu o passo e caminhou vagarosamente até a cidade. Era um típico lugarejo de interior. O comércio todo fechado por ser domingo. Algumas pessoas passeando na praça, algumas crianças correndo pelas calçadas e uma meia dúzia de cachorros tomando banho de sol. Da rua principal saíam várias ruas secundárias, e pronto: terminou-se a cidade. Podia-se percorrer o centro de ponta a ponta em menos de meia hora. Havia pouco recurso naquele local e os moradores acabavam recorrendo a São Nicolau, que ficava a mais ou menos trinta quilômetros de distância. Vale Verde subsistia basicamente do gado de corte e da agricultura. Os rebanhos de ovelhas também eram em quantidades razoáveis. Observava-se grandes propriedades rurais contrastando com algumas pequenas propriedades, estas ultimas sem os recursos de maquinários e tecnologia das primeiras. A solução foi trabalhar em cooperativa. E parecia estar dando certo, pois em Vale Verde não se observava muita miséria, uma vez que o desemprego era quase nenhum, sempre havia a possibilidade de se conseguir trabalho nas fazendas. Obviamente existia o jugo dos donos de terras sobre os menos favorecidos, mas de modo geral Vale Verde parecia conviver bem com isso.

Ana caminhou até a bodega na qual havia pedido informações no dia que chegou à cidade. O bar estava com as portas abertas e algumas mesas de bilhar estavam empilhadas num canto. Um funcionário fazia a limpeza do local. Não havia um único cliente no estabelecimento. Ana entrou e dirigiu-se ao balcão. O funcionário largou o rodo e o balde d’água e veio em sua direção.

- Pois não, madame.
- Uma cerveja.
- Garrafa?
- Lata.
- Tem preferência?
- Me vê uma Brahma.

O rapaz estendeu a cerveja e Ana pagou com uma nota de dez. Colocou o troco no bolso da bermuda e limpou a parte de cima da lata com um guardanapo de papel. A latinha estava estupidamente gelada e Ana sorveu os primeiros goles com os olhos semicerrados, entregando-se ao prazer de sentir aquela bebida gélida descendo por sua garganta seca.
Neste momento o dono do bar, que havia conversado com ela na noite em que chegou à cidade, entrou por uma porta lateral e veio na direção de Ana, reconhecendo-a.

- Bom dia, moça.
- Bom dia.
- Achou o convento, então? – perguntou o homem olhando Ana de cima a baixo intrigado, pois sua vestimenta em nada se assemelhava aos trajes usados pelas freiras.
- Achei.
- E ta parando por lá?
- Tô.

O homem estava de fato curioso, porém o tom de voz de Ana o desencorajou a formular maiores questionamentos. Tratou de organizar o balcão. Quando Ana enfim pediu mais uma cerveja o homem não se conteve:

- A moça vai ficar por aqui muito tempo?
- É possível.
- Mas... faz o quê no convento?
- Além de rezar? – respondeu Ana ironicamente.
- É...
- Manutenção.
- Mas isso é serviço de homem...
- Mas é o que eu faço.

O dono do bar coçou o queixo enquanto continuava a observar a forasteira.

- A moça veio de onde?
- De longe. – respondeu Ana demonstrando pelo tom de voz que a conversa acabava por ali.
- Ah... Bom, seja bem vinda então. Quando precisar dos serviços do meu estabelecimento estamos à disposição.
- Se joga bilhar por aqui ou as mesas são só enfeite?
- Se joga sim senhora, quase todas as noites. A homarada vem em peso! – disse o bodegueiro empolgado – Mas se a moça quiser jogar também não tem problema... – continuou tentando retificar a gafe.
- Quem sabe um dia desses... – respondeu Ana virando-se e saindo do bar.

O homem ficou parado observando o caminhar de Ana enquanto se distanciava. "Que monumento...", pensou, "tem um jeitinho meio esquisito, meio abrutalhado, mas é um mulherão... ô se é".

Ana retornou ao convento por volta das duas horas da tarde. No seu criado-mudo encontrou uma vianda térmica com seu almoço e uma jarra de suco natural de laranja. Sorriu e sentou-se para comer. Por certo havia sido a Irmã Celestina que estivera ali. Após comer deitou-se por cerca de uma hora para descansar da caminhada. Por volta das três e meia resolveu explorar o restante da propriedade do convento. Saiu para caminhar em direção aos fundos, onde lhe falaram que havia o pomar, o galinheiro e as pastagens.

Seguiu por uma viela margeada de arbustos floridos. Depois de cerca de cinqüenta metros a vista se abria numa clareira onde uma construção rústica abrigava cerca de trinta galinhas. Ao lado o viveiro dos coelhos, todo cercado de uma tela miúda, tinha no seu centro uma casinha de madeira pintada de amarelo, com portas minúsculas que serviam de entra-e-sai para as bolinhas de pêlo que ocupavam aquele espaço. Ana contou cinco coelhos, quatro brancos e um negro como o ébano. Colheu um feixe de capim rasteiro e introduziu pequenas porções de vegetação pelos espaços da tela. Os pequenos animaizinhos, com seus narizes avermelhados, comeram avidamente a refeição oferecida. Ana divertiu-se com a cena. Ficou quase meia hora observando os pequenos roedores. Resolveu seguir seu passeio exploratório. Continuou caminhando na direção dos fundos da propriedade. Após um ligeiro declive o terreno se fechava numa mata nativa. Havia uma trilha estreita e Ana resolveu enveredar por ela. Caminhou vagarosamente observando o colorido das folhas e sentindo a umidade agradável da vegetação cerrada, contrastando com o calor do sol de verão. Andou mais de meia hora prestando atenção na trilha para não se perder na volta. De repente começou a ouvir um barulho de água corrente e um quase inaudível burburinho de vozes. Aguçou o ouvido e seguiu em frente silenciosamente. Não chegou a andar dez metros e avistou uma pequena queda d’água, de aproximadamente três metros de altura, que formava uma piscina natural e que dava vazão a um pequeno córrego que seguia encosta abaixo. Protegida pela vegetação abaixou-se e observou duas silhuetas que se banhavam na água gelada que escorria pelas rochas. Era Lúcia e Clarice que tagarelavam alegremente.

- Ai, que coisa boa essa água, ein? – disse Clarice.
- Ta uma delícia! Esse córrego é uma bênção dos céus num dia como hoje!
- Nem fale... Mas, Lúcia...
- O que é?
- E se a Madre souber que viemos aqui?
- O que é que tem?
- Ela vai nos xingar. – disse Clarice em tom de preocupação.
- Não vai nada. – respondeu Lúcia.
- Vai sim! Ela sempre disse que não era pra gente vir pra esses lados!
- Mas ela não precisa ficar sabendo...
- Mas e se ela perguntar? – insistiu Clarice.
- Mas ela não vai perguntar!!!
- Como é que tu sabe?
- E porque ela perguntaria? – quis saber Lúcia.
- Sei lá! Às vezes a Madre parece adivinhar os nossos pensamentos...
- Mas se tu não fizeres uma cara de quem fez pum na missa ela não vai saber! – disse Lúcia.
- Tu acha?
- Tenho certeza! É só a gente esperar o cabelo secar e pronto! – respondeu Lúcia jogando água no rosto de Clarice, numa brincadeira divertida.

Naquele momento era Ana quem estava se divertindo com a traquinagem das jovens freiras. Pensou em dar um susto nas duas, mas desistiu de seu intento imaginando o embaraço por que passariam as transgressoras. Nesse instante Lúcia nadou até a borda e saiu de dentro d’água. De seu posto de observação Ana pode ver a silhueta do corpo da jovem que trajava apenas uma calcinha e uma camiseta regata branca e transparente em decorrência de estar molhada. Prendeu a respiração e não conseguiu desviar a atenção dos bicos endurecidos dos seios que se projetavam da blusa molhada. A jovem tinha o corpo pequeno, mas muito bem definido. Os cabelos molhados e soltos pendiam até a metade dos ombros, num corte reto. Lúcia sentou-se numa pedra onde os raios do sol conseguiam penetrar pela vegetação, na intenção de se secar. Ana pode perceber o reflexo da água nos pêlos dourados dos braços e das pernas. Quando Lúcia fez menção de tirar a blusa para colocar o hábito que repousava num galho de árvore Ana virou-se abruptamente, desviando os olhos do que considerou ser um pecado. "Que é isso, Ana", pensou consigo mesma, "ela é uma freira! Quer arder no fogo do inferno?", "além do quê é quase uma criança". Recriminando-se pelos seus pensamentos afastou-se em silêncio e tratou de voltar para casa. De volta ao seu quarto olhou-se no espelho, estava transpirando muito. Foi até o galpão da manutenção e colocou sua luva de boxe, caminhando até o saco de areia que havia estrategicamente pendurado num canto. Praticava boxe desde muito jovem e naquele momento sentiu necessidade de canalizar sua energia para desanuviar sua mente. Treinou por mais de hora soqueando o adversário imaginário. Por fim, exausta, tomou um banho relaxante. Já estava na hora da janta. Foi até o refeitório e deparou-se com as duas arteiras sentadas lado a lado, com as caras mais deslavadas possíveis, como se nada tivessem feito de errado. Na verdade Ana não via nada de errado em nadar num dia quente como aquele. Talvez fosse arriscado por ser um lugar ermo, mas só por isso. Jantou cabisbaixa e recolheu-se aos seus aposentos para dormir. A segunda-feira prometia ser apenas o início de uma semana de bastante trabalho.

No dia seguinte Ana acordou cedo e se pôs a trabalhar novamente na escola. Calculava que teria ainda mais sete ou oito dias de serviço naquele local, até que tudo ficasse em ordem, como a Madre havia lhe pedido. Ana costumava trabalhar cabisbaixa e compenetrada, sem se dispersar nem tão pouco fazer "corpo mole". A Madre Lídia admirava essa qualidade que vinha observando em sua nova funcionária. Na manhã de quarta-feira, enquanto observava Ana em sua atividade, sem que esta última percebesse sua presença, constatou estar cada vez mais satisfeita em ter aceitado o desafio proposto por sua sobrinha Denise. No entanto se deu conta de que enquanto Ana estivesse trabalhando ali não teria de fato uma fonte de renda e não disporia de sequer alguns tostões caso quisesse comprar um par de meias. Com estes pensamentos a Madre chamou a atenção de Ana:

- Ana.

A morena levantou os olhos, secou o suor da testa com o verso da mão e respondeu:

- Sim?
- Poderíamos conversar um pouco? Na secretaria?
- Tudo bem. – respondeu Ana seguindo a Madre.

Ao entrarem na secretaria da Escola Ana sentiu novamente o olhar gélido da Irmã Teodora. Algumas vezes, enquanto trabalhava nas salas de aula, percebia a Irmã Teodora a observa-la de soslaio. Por vezes a freira tentava disfarçar e por outras fazia questão de que Ana notasse sua presença, como que tentando demonstrar uma hierarquia, uma subordinação ao seu olhar perscrutador. Ana conseguia se controlar e demonstrava uma total indiferença à sua presença. Por vezes precisava se esforçar para isso, mas fazia o possível para evitar atritos. Por certo essa atitude de Ana, de não revidar provocações, acabasse por mobilizar ainda mais os sentimentos negativos daquela mulher em relação a ela.

A Madre apontou para uma cadeira em frente à sua mesa, pedindo que Ana se instalasse ali. Logo após dirigiu-se à Irmã Teodora:

- Irmã, a senhora poderia nos dar licença por alguns momentos? – pediu a Madre.

A mulher assentiu com a cabeça, levantou-se e quando passou por Ana dirigiu-lhe um olhar de reprovação. Ana tratou de olhar para a Madre, demonstrando controle da situação. Por alguns instantes pôde-se ouvir o ecoar das passadas fortes da Irmã Teodora no corredor deserto, afastando-se dali.

- Desculpe os rompantes da Irmã Teodora – justificou-se a Madre, num tom conciliador – mas é que ela tem alguns posicionamentos muito... digamos, arraigados. E tem dificuldades de aceitar mudanças.
- Do tipo?...
- Contratar uma pessoa... diferente do que costumávamos contratar.
- Entendo. – respondeu Ana.
- Mas ela é uma boa pessoa. – defendeu a Madre – Só que tem uma necessidade de centralizar informações e gosta de participar das decisões referentes à dinâmica do convento. Mas na verdade eu sou a culpada por isso, que sempre a fiz participar de tudo. Ela é o meu braço direito aqui dentro. E quando eu decidi aceitar sua vinda para cá não comentei com ninguém, nem com ela. Isto provavelmente a tenha deixado ressentida.

Ana continuava ouvindo a Madre, calada e séria.

- Bom, mas eu não a chamei para falar sobre Teodora, e sim sobre ti. E então? O que tem achado desses dias por aqui? Estás assustada com a demanda de serviço?
- Como eu já lhe disse o trabalho nunca me assustou.
- Bom... e... e o resto?
- Que resto?
- Tu sabes bem do que eu estou falando Ana.
- Está tudo bem.
- Eu estive pensando... enquanto trabalhares como prestadora de serviços não terás uma fonte de renda, de fato.
- Não se preocupe, eu tenho umas economias com as quais vou me virando.
- Ana, eu tenho observado teu desempenho e estou muito satisfeita. Muito mesmo. Com o teu desempenho e com a tua postura. Por isso gostaria de acertar contigo um valor pelas horas que acabas trabalhando a mais do que um expediente normal de trabalho.
- Não é preciso.
- Eu acho que é. – respondeu a Madre num tom gentil e firme. – Por certo será um valor bem inferior ao que receberias normalmente, mas é o que podemos bancar com a verba da Ordem para os serviços de manutenção. Ao menos não dependerás das tuas economias ou da bondade alheia para custear um refrigerante na cidade.

"Ou para pagar uma mulher qualquer...", pensou Ana ironicamente.

- Tudo bem então, Madre, eu agradeço a sua compreensão. Seria só isso? Ainda tenho muito trabalho que gostaria de terminar hoje.
- Sim. É só isso.
- Então... com a sua licença. – disse Ana levantando-se para voltar aos seus afazeres.
- Toda.

A Madre ainda ficou na secretaria por mais um tempo tentando adivinhar o que Ana pensava a respeito das coisas. Ana era uma mulher enigmática, circunspeta e calada. Mas a Madre gostava dela. Na verdade confiava nela. E nem saberia dizer o porquê.