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Rose Angel

Contato: roseangelys@yahoo.com.br

 

 

 

Na manhã do dia seguinte, quinta-feira, no refeitório, a Madre veio ter com Ana antes mesmo de tomar seu café.

- Bom dia Ana, hoje eu gostaria que tu me fizesses um favor especial.
- Se estiver ao meu alcance...
- É que conseguimos uma linha telefônica nova e quero destina-la especificamente para a internet. Poderias puxar uma extensão do poste até o escritório do convento?
- Posso sim.
- Que ótimo. Já pedi para a Irmã Diva comprar a fiação e as tomadas. Ela disse que sabe bem o que é preciso e já saiu para buscar.
- Tudo bem então. Assim que ela chegar eu coloco para a senhora.
- Muito obrigada, então. Se quiser aguardar no seu quarto eu peço pra ela te chamar assim que voltar da cidade.
- Tá.

Eram pouco mais de oito e meia e Ana escutou o ronco do motor do fusca bege do convento retornando com a Irmã Diva na direção. Ela era uma mulher muito alta e magra, com pés grandes dentro de botinas de couro pretas, cabelo escuro preso num coque no alto da cabeça, dispensava o véu que quase todas as demais usavam. Poderia ser comparada sem exageros com a "Olívia Palito". Usava óculos de aros redondos sempre na ponta do nariz afilado. Estava sempre correndo de um lado para outro. E era a motorista oficial do convento. "Sem nunca haver tido uma multa sequer!", gabava-se ela.

Tão logo desembarcou, Ana foi ao seu encontro e a freira lhe passou os materiais que precisava. De posse deles Ana foi até a secretaria. Viu com a Madre o local exato onde ela queria que fosse instalada a tomada e foi para o galpão do almoxarifado buscar a escada. Em menos de vinte minutos puxou a fiação do poste até a parede do convento. Devido a espessura da construção achou melhor fazer uma entrada pelo marco de madeira da janela. O barulho da furadeira elétrica fez a Madre sair por uns minutos da sala. Ana estava quase concluindo a sua tarefa quando se deu conta que faltariam alguns grampos para fixar o fio na parede. Foi até o almoxarifado para busca-los e ao retornar a porta da secretaria estava entreaberta. Ana pôde ouvir claramente o trecho final da conversa que se desenrolava lá dentro, entre a Irmã Teodora e a Madre que evidenciava irritação no tom de voz, aliás, uma entonação que Ana desconhecia até então naquela mulher ponderada e de muita classe.

- Mas eu não entendo, Madre! – dizia a Irmã Teodora.
- Não entende o quê, Irmã?
- A contratação dessa moça! Nós sempre contamos com o serviço do Seu Jorge e dos voluntários...
- Sim, e por conta do Seu Jorge e dos voluntários nossa escola estava caindo aos pedaços! E o nosso convento também não está lá essas coisas!
- Mas Madre...
- Nada de mas... Eu quero deixar bem claro que quem dirige este convento e esta escola sou eu, e EU tomo as decisões que julgar necessárias para o bom funcionamento desse local! E não preciso de conselhos! Quando porventura precisar eu peço, caso contrário, mantenha-se no seu lugar! Ou será que a senhora pretende assumir o meu lugar junto à Ordem?
- Não, Madre, por favor, não é nada disso... eu só quero ajudar...
- Já disse que se precisar de ajuda eu peço.
- Mas essa moça é diferente de nós... é esquisita... é da cidade grande...
- Assunto encerrado, Irmã. – disse a Madre enfaticamente. – Agora me dê licença.
- Mas eu tenho trabalhos por fazer aqui no escritório...
- A senhora está dispensada por hoje. Tire o dia de folga. Vá passear, distraia-se. E reze! Reze para que Jesus abra o seu coração e permita que consiga ver que todos somos iguais perante Ele. Ou por acaso esqueceu dos seus votos?
- Não senhora, não esqueci.
- Então tente repensar suas atitudes dos últimos dias.

A Irmã Teodora baixou os olhos, que se encheram de lágrimas, e retirou-se da secretaria, passando por Ana como um raio, quase que esbarrando em seu ombro. Na passagem dirigiu-lhe um olhar de ressentimento.

Ana respirou fundo e entrou no recinto como se não houvesse escutado nada. A Madre, por sua vez, também não falou sobre o assunto, desviando a conversa para as maravilhas do mundo virtual. Apesar de estar a bem pouco tempo naquele local Ana já conhecia a Madre o suficiente para perceber que ficara mobilizada e entristecida com o teor da conversa com a Irmã Teodora. Mas por certo saberia contornar aquela situação.

Ana ainda trabalhou na escola na sexta-feira e deu por encerrada sua tarefa naquele local antes do final da tarde. A Madre, satisfeitíssima com os resultados da reforma, disse para Ana descansar naquele sábado e domingo.

No sábado Ana acabou acordando cedo, porém após o café da manhã voltou para seu quarto e deitou mais um pouco, pegando no sono novamente e dormindo até quase o meio dia. Deu-se conta de que estava cansada, porém o sono fora de hora acabou sendo bastante reparador.

Depois do almoço aproveitou para lavar algumas roupas e dar uma geral em sua Kombi. Depois optou por ouvir um pouco de música estirada confortavelmente numa rede que havia prendido num dos cantos do galpão.

Por volta das dezessete horas, quando os raios do sol já não estavam tão escaldantes saiu para dar um passeio, queria conhecer melhor o pomar. As árvores frutíferas ocupavam uma vasta área e podia-se encontrar as mudas mais variadas. Ana teve sua atenção despertada para um canto do terreno, perto de uma encosta rochosa, onde a claridade direta do sol pouco batia conferindo uma umidade propícia para o desenvolvimento de quatro pés de figos. Estes germinaram lado a lado e suas copas acabaram se fundindo numa só. Estavam carregados de frutos, a grande maioria maduros. Ana sempre teve uma predileção por figos maduros, desde pequena, e aquelas frutas pareciam sorrir-lhe, convidando-a a um banquete digno dos deuses. As copas cerradas com galhos carregados de frutos faziam com que as hastes da ponta chegassem quase que até o chão, formando uma caverna de vegetação, na qual se podia facilmente entrar e saciar a fome. E Ana não se fez de rogada: penetrou na densa camada de ramos e sentiu-se num paraíso. Era a primeira vez que via uma figueira tão carregada de frutos. Tirou do bolso um canivete que sempre carregava consigo e passou a descascar alguns frutos, saboreando-os com avidez. Enquanto se deliciava começou a escutar um cantarolar baixinho vindo em sua direção e espiou através dos galhos da figueira. Era Lúcia que vinha saltitante, cantarolando uma música de aleluia. De seu posto Ana podia novamente observa-la sem ser vista. A freirinha parou a menos de dez metros de distância, à sombra de um gigantesco abacateiro que àquela altura do ano não possuía uma única fruta em seus ramos, somente folhas de um verde intenso. Olhou para cima, tirou suas sandálias e sungou seu hábito até a altura das coxas, introduzindo a barra da saia no elástico da calcinha. Ficou parecendo usar fraldas. Ana teve de rir da cena. Estava sem o véu e os cabelos loiros estavam presos num rabo-de-cavalo. Em seguida Lúcia tirou um pequeno binóculo de dentro de uma sacola plástica e o pendurou no pescoço. Num pulo ágil escalou o caule mais grosso da árvore com a agilidade de um primata. Em seguida empreendeu uma escalada na direção dos galhos mais altos. "Essa garota parece um moleque...", pensou Ana enquanto saia de seu esconderijo e caminhava em direção ao abacateiro. Lúcia estava tão distraída observando pássaros que nem sequer notou a aproximação da morena. Posicionada bem em baixo de onde Lúcia estava, Ana podia ver o contorno de suas pernas e o amarelo claro de sua calcinha de algodão por baixo do hábito cinzento. Ana observava a cena divertida e encantada com a agilidade daquela macaquinha loira. No entanto, por vezes, até os macacos caem das árvores. Ao tentar posicionar melhor seu pé esquerdo, o galho em que se apoiava acabou quebrando e Lúcia despencou como uma jaca madura. Desta vez foi Ana quem, num movimento preciso e de puro reflexo, aparou Lúcia em pleno ar, evitando que se estatelasse no chão. Seus braços fortes, acostumados ao trabalho pesado, não tiveram nenhuma dificuldade em amparar a pequena freira em queda livre. Com os olhos arregalados de susto, e sem entender bem o que se passava, Lúcia ainda no colo de Ana encarou sua salvadora e sorriu incrédula franzindo o nariz:

- Ooooi... Tu vem sempre aqui?
- Não, só quando resolvo colher freiras. – respondeu Ana colocando Lúcia no chão delicadamente. – Machucou?
- Não... e tu? Machucou alguma coisa? Eu sou meio pesadinha.
- Não mais que um pneu de trator.
- E tu por acaso já levantou um pneu de trator??? – disse Lúcia em tom de deboche.
- Alguns.
- Tá brincando...
- Não, não tô.
- Mas mesmo assim... é diferente.
- Com certeza. Pneus não correm o risco de se enforcar com o tirante de um binóculo.
- Ah... – Lúcia sorriu – não tem perigo nenhum! – disse ajeitando o binóculo que fora parar nas costas.
- Tem sim. Não escale mais nada com esse treco pendurado no pescoço, ou com qualquer outra coisa que possa servir de forca. Você não tem amor à vida?
- Claro que tenho! Mas eu não ia adivinhar que cairia! – respondeu Lúcia colocando as duas mãos na cintura, numa pose desafiadora olhando Ana de baixo para cima.
- Mas devia.
- Tu tá falando igualzinha a Madre!
- Aliás, a Madre sabe desse teu gosto por alpinismo?

Lúcia arregalou os olhos como uma criança travessa e pediu:

- Nãããão... e nem pode ficar sabendo... por favor, não vai contar.
- Vou pensar.
- E se eu prometer não subir mais.
- Pode subir, mas sem esse troço no pescoço.
- Combinado! – concordou Lúcia sorridente enquanto ajeitava a parte de baixo do hábito.

Ana virou-se e começou a se afastar do pomar.

- Eeeeiii, - gritou Lúcia, correndo atrás de Ana – Onde é que tu vai agora?
- Não te interessa.
- Não seja mal educada! Eu ia te convidar para um passeio.
- Já passeei o suficiente hoje. – respondeu Ana caminhando com passadas largas e rápidas.

Lúcia precisava quase que correr para poder acompanha-la.

- Tem uma trilha bem legal aqui perto. – insistiu Lúcia.
- Já falei que não tô a fim.
- Tu é sempre assim mal humorada?
- Só quando me torram a paciência.

Lúcia desacelerou o passo e respondeu:

- Pois então tá. Um bom dia pra ti também! Eu vou rezar para que Deus proteja o teu estômago de uma úlcera! Pois pelo teu humor é capaz de já teres umas duas ou três.

Ana chegou a parar para responder, mas ao olhar a figura diminuta parada com as mãos na cintura e os cabelos revoltos, bufou e continuou sua marcha para casa. Logo após a janta recolheu-se, dormindo cedo.

O domingo amanheceu bastante quente e o dia prometia passar dos quarenta graus de temperatura. Por ter se recolhido cedo Ana acabou acordando bem cedo também, antes mesmo do raiar do sol. Tomou uma ducha quase fria, pois havia transpirado muito durante a noite, apesar de haver deixado a janela totalmente escancarada, permitindo a entrada da aragem noturna. Colocou uma bermuda de lycra preta e uma camiseta regata branca por cima de um top vermelho que podia ser visto pelas laterais da cava da manga. Calçou um par de chinelos havaiana brancos e saiu para a rua, a fim de respirar o ar fresco da manhã, antes que a temperatura subisse e tornasse o dia insuportavelmente quente. Eram pouco mais de cinco horas da manhã e Ana observou movimentação na capela. Dirigiu-se até a porta alta de madeira escura e esculpida que se encontrava aberta, como num convite a alguns minutos de recolhimento e oração. Galgou os cerca de dez degraus que separavam a rua do pórtico da ermida e chegou até a soleira da porta. Espiou para dentro do local iluminado apenas por uma meia dúzia de velas tremulantes ardendo no altar e pela luz artificial vermelha e contínua do Sacrário. Os primeiros bancos estavam tomados pelas Irmãs do convento. Algumas ajoelhadas, outras, as mais velhas, sentadas e totalmente absortas nos livros de orações. O silêncio era tamanho que se podia quase que ouvir os compassos das respirações daquelas mulheres. Ana não ousou mover um único passo em direção ao interior da capela, temendo quebrar o silêncio absoluto e quase mágico que reinava no local. Por causa dos véus e da penumbra não conseguia distinguir quem era quem naquele ambiente.

O silêncio sepulcral da capela foi quebrado pelo som melodioso e suave da voz da Madre Lídia que iniciou a reza do terço. As demais Irmãs respondiam em uníssono a cada pausa da Madre, e o desenrolar mântrico do terço, ecoando na acústica da construção antiga, conferiria uma sonoridade característica e envolvente.

Ana havia percebido que esse ritual na capela acontecia todas as manhãs, sem exceção. Eventualmente, em horários diversos, não era raro de se ver uma movimentação silenciosa na ermida, fruto de peregrinações solitárias ou em pequenos grupos de freiras. Outra peculiaridade era o toque do sino sempre que o relógio marcava seis da manhã, meio dia, três da tarde e seis da tarde.

Sem fazer qualquer ruído Ana afastou-se do local, ainda escutando o ecoar longínquo das vozes em oração. Colocou uma cadeira de praia defronte a porta de seu quarto e estirou-se para trás, pensando acerca dos últimos acontecimentos de sua vida, principalmente desde que chegou naquele convento. De fato a experiência não vinha sendo de todo desagradável, como pensara que seria. Muito pelo contrário. Apesar da demanda de trabalho e das implicâncias da Irmã Teodora, estava se sentindo bem, principalmente devido à acolhida da Madre Lídia e aos paparicos da Irmã Celestina. Puxando pela memória se deu conta de que nem mesmo sua mãe havia lhe dispensado tantos cuidados quanto esta última. Não havia dia em que a Irmã Celestina não lhe desse uma coisinha diferente para experimentar. Inclusive costumava parar um pouco para conversar com ela, obrigando-a a fazer uma pausa no trabalho que estivesse realizando. E isto não a incomodava, pelo contrário, sentia-se bem, embora não fosse pessoa de muitas palavras e na maioria das vezes era a freira quem tagarelava e ela respondia com monossílabos. A Irmã Celestina lhe ficara agradecida por ter dado uma geral em seu fogão industrial, desentupido os bicos e regulado o forno. "Ficou uma maravilha!!!", dizia a freira radiante.

Perdida nesses devaneios foi trazida de volta à realidade pelo toque grave do sino da torre da ermida. Percebeu, depois de alguns minutos, que as Irmãs cruzavam o portal de madeira da capela e caminhavam na direção do refeitório. Resolveu dar um tempo e foi tomar seu café da manhã quando quase todas já haviam terminado. Ao sentar-se numa mesinha de canto Lúcia passou por ela e lançou-lhe um tímido bom dia, ao que Ana respondeu com um maneio de cabeça. Lúcia serviu-se de café e ajeitou duas fatias de pão num pratinho. Como não havia mais ninguém no refeitório foi até a mesa de Ana e perguntou-lhe docemente:

- Posso sentar aqui contigo?
- Pode. – respondeu Ana secamente.
- Com licença, então – disse instalando-se numa cadeira de frente para Ana, que permanecia com os olhos voltados para sua xícara de café.

Depois de alguns minutos Lúcia puxou conversa:

- Pretende passear hoje?
- Não sei.
- Pode ficar tranqüila que não vou me oferecer para te ciceronear.
- Que bom.
- Tu é sempre assim ranzinza? – provocou Lúcia.

Ana respirou fundo, cruzou os braços e olhou diretamente para Lúcia. Novamente os olhos verdes e espontâneos da freirinha não lhe permitiram uma explosão de raiva. Respondeu pausadamente:

- Não... as vezes eu consigo controlar minha tendência psicopata e não chego a estrangular quem tenta me tirar do sério.

Lúcia deu uma gargalhada e respondeu:

- Então eu sou uma sobrevivente!
- De certo modo, sim...
- Bom saber! – respondeu Lúcia dando uma bocada em seu pão com geléia de uva. Ao engolir continuou - ...tu não contou nada pra Madre sobre o pomar? Contou?...
- Não.

Lúcia sorriu franzindo o nariz:

- Obrigada... fico te devendo essa.
- Não me deve nada.
- Ótimo então, eu não gostaria de ficar em débito com uma psicopata.

Desta feita foi Ana quem teve de ceder e um breve sorriso se estampou em sua face.

- Eeeeiii... tu sabe rir! E que sorriso lindo!

Novamente Ana ficou séria e desconcertou-se com o elogio de Lúcia. Tomou o último gole do café de sua xícara, pediu licença e retirou-se, deixando Lúcia sozinha no refeitório.

Por volta das dez horas da manhã Ana resolveu dar mais uma caminhada pela extensa propriedade do convento. Desta vez andou em direção à pastagem das ovelhas. Eis que após uns quinhentos metros de onde estava começou a ouvir vozes em algazarra e eventualmente um apito agudo. Ao dobrar à esquerda numa pequena estradinha coberta de brita grossa deparou-se com uma rústica quadra de vôlei onde as freiras estavam reunidas disputando uma partida animada. Um pouco mais afastado havia um banco de madeira, a única arquibancada para as espectadoras que eram em número de seis, fora a Madre que apitava o jogo. As demais estavam dispostas em dois times de seis jogadoras cada. Ao avistar Ana de longe a Madre acenou para ela, fazendo um sinal para que se aproximasse. A Madre estava posicionada numa banqueta de madeira, na linha da rede e segurava o apito na mão direita, enquanto observava a trajetória da bola. Ana foi se aproximando e logo a irmã Celestina lhe abanou, convidando-a a sentar-se a seu lado. Ana acomodou-se entre as Irmãs Celestina e Sebastiana, que lhe sorriu com a amabilidade dos seus noventa e três anos. Tanto as jogadoras como a torcida eram muito animadas. Ana começou a observar o jogo e viu que Lúcia compunha um dos times que, aliás, perdia deslavadamente do outro time. As componentes do time de Lúcia eram as mais novas dali, além de uma freira mais velha e outra estrábica. O time adversário era liderado pela irmã Teodora e jogava relativamente bem. O placar chegava a ser uma piada. Os dois sets que Ana inicialmente assistiu foram perdidos de zero pelo time de Lúcia. Logo após iniciarem o terceiro uma componente do time de Lúcia, Geovana, pisou em falso e sentiu dor no tornozelo. Disse não ter mais condições de jogar. Ana pensou consigo mesma, "boa desculpa, garota...". Nesta ocasião originou-se a polêmica de quem iria substituí-la para que o jogo continuasse. As freiras mais velhas estavam fora de cogitação, as mais novas alegavam as desculpas mais variadas para não jogar no time perdedor. No meio do burburinho formado a Madre assoprou com veemência o apito, emitindo um som forte e agudo que fez com que todas calassem a boca instantaneamente. Madre Lídia virou-se para Ana e sugeriu:

- Ana, tu não gostarias de participar dessa nossa brincadeira?

Ana foi pega de surpresa e meio que gaguejou:

- Não... não...
- Mas parece que só tu tens condições de colaborar conosco... – insistiu a Madre.

Lúcia correu até ela e pediu, olhando-a fixamente:

- Por favor...

"Novamente esses olhos verdes... puta que pariu..", pensou Ana sem conseguir formular nova negativa. A Irmã Celestina deu-lhe um tapinha na perna e disse carinhosamente:

- Vai, vai...

Ana se levantou e todas comemoraram com pulinhos de felicidade e batidas de palmas. Menos Irmã Teodora que observava Ana com seriedade e disse à meia voz:

- Ainda acho que seria melhor tirar alguém do nosso time, assim ficaria parelho.

A Madre dirigiu-lhe um olhar de reprovação, uma vez que percebeu que Ana havia escutado o comentário maldoso. "Agora é uma questão de honra", pensou Ana com seus botões. A morena dirigiu-se para a quadra enquanto as demais jogadoras a cercavam. As freiras estavam vestindo abrigos cinzentos e camisetas brancas, como se estivessem uniformizadas para a partida. Antes de reiniciar o jogo Ana pediu à Madre:

- Madre, eu preciso conversar com o meu time um pouco, pode ser?
- Claro...

Ana conduziu seu time para uma distância em que pudesse falar sem ser ouvida pelas demais. Abaixou-se um pouco e começou a falar baixo e claro.

- Muito bem meninas... O placar não está a nosso favor, mas vamos confiar que temos condições de jogar bem, ok?
- Ok! – responderam as demais.
- E vamos confiar em Jesus! – disse a Irmã Margarida, que era a mais velha do time, com sessenta e cinco anos.
- Vamos... – concordou Ana - ...se bem que não sei se Jesus manja esse lance de vôlei...

Lúcia cutucou Ana no cotovelo. A morena continuou.

- A senhora é a Irmã?...
- Margarida! – respondeu a mulher mais velha.
- Muito bem... Irmã Margarida! A senhora é uma mulher alta, tem braços longos.
- Tenho quase um metro e oitenta!
- Pois então... Eu quero que a senhora se posicione na rede. E erga os braços. O mais alto que puder. Pode ser?
- Pode...
- Então me mostre como. – disse Ana.

A freira levantou os braços somente até a altura das orelhas.

- Irmã... eu acho que a senhora não entendeu... Tem que levantar mais alto, assim ó... – e Ana fez o gesto – imagine que a senhora se deparasse com... sei lá... com o Papa, por exemplo, e precisasse saudá-lo! A senhora ficaria assim de braços abaixados como se estivesse com o desodorante vencido?

O time inteiro gargalhou e Irmã Margarida respondeu efusiva:

- NÃO... Eu acenaria assim! – e levantou os braços o mais que pode, pulando inclusive.
- Isso! Muito bom! Agora é só fazer isso quando estiver na rede. Combinado?
- Combinado! – respondeu a freira sorridente.
- E a senhora é?...
- Irmã Irene!
- Bom Irmã Irene... – disse Ana dando três passos largos para trás e afastando-se dela – Daí de onde a senhora está eu gostaria que apontasse para a minha mão erguida.

A freira imediatamente apontou para o braço erguido de Ana, porém com um desvio de mais ou menos trinta graus, por conta do estrabismo. Ana se aproximou novamente e disse:

- Irmã, onde estão os seus óculos?
- No meu quarto!
- E porque a senhora não joga com eles?
- Bom... porque não posso correr o risco de quebrá-los. É muito caro fazer novos!

Ana coçou a cabeça pensativa:

- Bom... então vamos fazer assim: quando a senhora estiver no saque, e eu vi que a senhora tem um saque potente, ao invés de mirar no alvo a senhora vai direcioná-lo cerca de trinta graus para a direita, e pode baixar o braço com vontade! Combinado?
- Combinado!
- Bom, você Irmã Lúcia, pare de pular como uma pipoca na fogueira. Fique na sua posição sem atrapalhar as outras. E pule o mais alto que puder para cortar essa porra de bola!

Fez-se um silêncio e Ana ficou encabulada pelo palavrão:

- Perdão! Eu me exaltei. Mas vamos continuar. Você... – disse Ana apontando para a mais nova delas.
- Clarice!
- Clarice... Não tenha medo da bola. Ela não morde.
- Mas machuca.
- Não machuca se você souber jogar. Tente defender os saques assim – demonstrou Ana colocando ambos os braços junto ao corpo juntando os pulsos – Se tentar defender novamente um saque da Irmã Teodora como se fosse dar uma cortada vamos ter que reimplantar seus dedos.

Nova gargalhada no grupo.

- E você, mocinha...
- Clara.
- Continue jogando como está que tá bom. Vamos lá?
- VAMOS! – gritaram as demais dando-se as mãos.

A Madre sorriu quando o time se apresentou em quadra. Irmã Teodora também sorriu ironicamente, numa atitude de provocação à Ana que se manteve impassível. O time adversário iniciou sacando, saque defendido por Clarice que sorriu orgulhosa de si mesma. A bola passou para o outro lado e Irmã Teodora posicionou-se para cortar. No entanto, colada na rede a Irmã Margarida se lembrou do Papa e pulou o mais alto que pode, com os braços erguidos, fazendo com que a bola tocasse no chão da quadra do adversário. Estava feita a algazarra. Foi um pula-e-comemora só aquele primeiro ponto. Ana percebeu um ar de satisfação no rosto da Madre e piscou para ela, num sinal de cumplicidade. Das cerca de vinte sacadas da Irmã Irene doze foram direto para o chão da quadra, indefensáveis. As outras deixavam o time adversário em maus lençóis. Era só mesmo uma questão de regular a pontaria. Ana conseguia estar em todos os lugares da quadra quase que ao mesmo tempo, e cada vez que o ataque era encabeçado pela Irmã Teodora fazia questão de defender de qualquer maneira. Quando faltavam quinze para o meio dia a Madre deu por encerrado o jogo e o placar estava disparado para o time de Lúcia e Ana. As adversárias vieram abraçar as novas vencedoras, menos Irmã Teodora que rumou para o convento taciturna, demonstrando contrariedade. A Irmã Celestina abraçou Ana pela cintura comemorando:

- Viu só o que faz a boa alimentação??? Isso que é desempenho!!!

Ana retribuiu o abraço e sorriu, sentando um pouco para descansar. O grupo de freiras foi se dirigindo para o convento, sendo que Lúcia ficou para trás. Estava bebendo água de uma garrafa plástica quando sentou ao lado de Ana.

- Quer um pouco? – perguntou alcançando a garrafa para Ana.

A morena estava realmente com sede. Pegou a garrafa e sorveu alguns goles com avidez. Depois estendeu a garrafa de volta.

- Obrigada.
- Eu é que tenho que agradecer. Aliás, o nosso time tem que lhe agradecer.
- Não tem nada.
- Até que pra uma psicopata tu joga bem pra caramba! – brincou Lúcia.
- Eu disse que sou psicopata, não perna de pau.

Lúcia gargalhou. Ana a observou com o canto dos olhos, indiretamente. Por mais que tentasse manter-se distante e indiferente, aquela jovem mulher mobilizava um tipo de sentimento em Ana que ela não sabia definir ao certo. Por mais que a loirinha lhe irritasse em certas ocasiões, com seu jeito serelepe e curioso, não conseguia ficar de fato brava com ela. Na verdade encantava-se com a simplicidade e a pureza daquela figura angelical.

- No domingo que vem nós vamos ganhar de novo! – disse Lúcia sorridente.
- Como é que é?
- Eu disse que no domingo que vem nós vamos ganhar de novo!
- Mas quem falou que eu vou jogar novamente? – retrucou Ana.
- Convencida!!! Acha que a gente ganhou só por tua causa? – provocou Lúcia.
- E não foi?
- Claro que foi, sua boba! – riu-se Lúcia – E é por isso que a senhorita está escalada para participar efetivamente do nosso time!
- E agora você é a Técnica para ficar escalando jogadoras?
- Digamos que eu sou da consultoria do time. E se eu consultar a todas as jogadoras elas vão te querer jogando conosco! – respondeu Lúcia arrebitando o nariz – Joga com a gente???... Por favor...
- Tô bem arrumada...
- Isso é um sim?
- Um talvez.
- Já é alguma coisa! Para um sim é um pulinho.
- Você é insistente, ein garota? – reclamou Ana.
- Só quando é estritamente necessário!
- Tá bom. Eu jogo nessa bosta desse time.

Lúcia olhou para Ana fazendo uma careta de reprovação pelo palavrão.

- Você queria o quê? Eu me controlei o jogo todo! Acho que disse ‘merda’ uma vez só! E baixinho pra ninguém ouvir! Eu não sou de ferro.
- Tudo bem... jogando esse bolão todo tu pode dizer um palavrãozinho de vez em quando... acho que nem a Madre iria se importar. – disse Lúcia.
- Ótimo saber... chego a ficar emocionada com a... condescendência.

Novamente Lúcia gargalhou.

- Ana, vamos almoçar?
- Vai indo, eu vou tomar uma ducha antes.
- Até daqui a pouco então. – respondeu Lúcia enquanto corria de volta ao convento.

Ana ainda ficou parada por alguns momentos, enquanto observava Lúcia se afastando dali. Ela realmente parecia um ser etéreo, uma mistura de fada pela candura e de duende pelas traquinagens. De fato era uma pessoa que emanava uma energia positiva, de felicidade e paz interior.

Depois do almoço Ana tirou a tarde para descansar. Colocou sua rede debaixo do braço e caminhou até a parte de vegetação nativa, amarrando-a entre duas árvores de copa cerrada e cuja sombra convidava ao repouso. À noite, após a janta, Ana estava sentada em frente ao galpão de manutenção, lendo um pouco, quando a Irmã Celestina aproximou-se. Estava com uma espécie de bolsinha térmica pendurada no ombro e disse:

- Boa noite, minha querida! Que noite quente, não é mesmo?
- Ô, nem fale...
- Minha filha... – disse a freira olhando para os lados e falando quase num cochicho - ...vamos até a rouparia dar boa noite para a Irmã Sebastiana?
- Como?...
- Vem comigo, vem... – disse a velha senhora puxando Ana pela mão.

Entraram na rouparia e a anciã sorriu para as visitantes.

- Irmã Sebastiana, eu trouxe mais uma visita para a senhora!
- Bem vindas! – disse a velhinha.
- E olha aqui o que eu trouxe... – disse a Irmã Celestina com cara sapeca.

Os olhos da anciã se iluminaram e Ana não entendia o que estava acontecendo. A Irmã Celestina abriu a bolsa térmica e tirou duas garrafas de cerveja estupidamente geladas. Ana balançou a cabeça e sorriu. A Irmã Sebastiana levantou-se ágil e pegou três copos que estavam num armário no canto da peça. Irmã Celestina serviu a bebida com um olhar de expectativa.

- Agora vamos brindar! – disse a Irmã Celestina alcançando os copos para as outras duas – À nossa saúde, ao calor, à nossa querida Ana, ao Sagrado Coração de Jesus e de Maria, e à vida!
- Saúde! – responderam as outras duas.

Ana observou que a Irmã Sebastiana sorveu mais da metade do copo de bebida numa virada só. Estava se divertindo com a cena, com a expressão de felicidade e de cumplicidade das freiras. Estava tomando conhecimento de um lado nada austero daquele convento. Com o copo pela metade Irmã Sebastiana proferiu:

- Isso é que é bom para matar a sede! E combate a insônia! Na minha idade já se tem certa dificuldade de conciliar o sono. - e riu do próprio comentário.
- Mas que a Irmã Teodora não nos ouça! – emendou Irmã Celestina divertidamente – Ela não sabe o que é bom!
- Não deve saber mesmo... – respondeu Ana – Ela parece estar sempre de mal com a vida.
- Coitada... – justificou a Irmã Celestina – Ela é boa pessoa... Mas muito rígida em algumas situações. E Deus nem gosta de muita rigidez, senão não teria criado o ser humano imperfeito!
- Pensando por este aspecto... – disse Ana.
- Mas é verdade! – disse Irmã Sebastiana – Eu que tenho quase a idade de Matusalém posso dizer com certeza que Deus gosta do que é belo, gosta de música, de risos, de crianças, de flores, de trabalho, de orações, de manhãs de sol, de borboletas, de passarinhos e de cerveja!

As três tiveram de rir. E brindaram novamente.

- Na minha idade – continuou Irmã Sebastiana – eu não posso mais me privar de algumas coisas que eu gosto. E a Madre insiste em dizer que eu só posso tomar leite... "por causa dos remédios" – continuou imitando o discurso da Madre, com a mão na cintura – mas eu preciso é de cerveja de vez em quando! Ainda bem que a Irmã Celestina me entende!
- E eu concordo plenamente, Irmã! – disse Ana em tom solene, tomando mais um gole de cerveja – A vida é feita de momentos!
- Isso mesmo, minha filha! – disse a Irmã Sebastiana sorridente.
- Mas... Irmã... – continuou Ana - ...a senhora não vá errar o caminho para casa ou trocar os pés, ein? Senão não tem como a gente ocultar essa nossa... digamos... pequena contravenção.
- Mas eu sou lá sou mulher de entortar com dois ou três copinhos de cerveja? – brincou a freira mais velha.
- Não leva jeito mesmo! – concordou Ana sorridente.

Era incrível como aquelas duas anciãs conseguiam lhe fazer sorrir com facilidade. Aliás, sentia-se bem naquele lugar. E por incrível que parecesse estava gostando de estar ali. Percebia algumas pessoas muito simples, com valores simples e verdadeiros. Com realidades bem diferentes da dela, mas sem que isso a perturbasse. Havia a implicância gratuita de Irmã Teodora, mas o afeto incondicional da Irmã Celestina, e agora da Irmã Sebastiana, que acabava compensando o resto. A Madre também sempre lhe tratou com consideração. Era muito mais reservada, provavelmente pelo papel que desempenhava naquela organização, mas demonstrava boa vontade para com Ana. E Ana lhe era grata por isso.

As três cúmplices terminaram de tomar as cervejas e ainda conversaram por mais um tempo. Irmã Sebastiana aproveitou para pedir à Ana que desse uma olhadinha em sua velha máquina de costura, que precisava de um pouco de óleo no rolamento do pedal.

Já eram onze horas quando Ana finalmente retornou ao seu quarto, não sem antes certificar-se de que as duas freiras haviam chegado até o convento. Observou as duas caminhando lado a lado, de braços entrelaçados, conversando animadamente, mas em tom muito baixo pelo adiantado da hora.

Tomou uma ducha rápida e jogou uma camiseta velha por cima. Ajeitou o mosquiteiro e adormeceu quase que instantaneamente ao deitar.