Pentimentos

por Jackie de Sampa

Contato: cidajack@hotmail.com

 

 

 

VINTE E OITO
PARTE DOIS

 

disclaimer no capítulo UM

 

 

Rolling In The Deep
Adele

There's a fire starting in my heart
Reaching a fever pitch and it's bringing me out the dark
Finally, I can see you crystal clear
Go head and sell me out and I'll lay your ship bare

See how I'll leave with every piece of you
Don't underestimate the things that I will do

There's a fire starting in my heart
Reaching a fever pitch and its bringing me out the dark

The scars of your love remind me of us
They keep me thinking that we almost had it all
The scars of your love, they leave me breathless
I can't help feeling

We could have had it all
(You're gonna wish you never had met me)
Rolling in the deep
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)
You had my heart inside of your hand
(You're gonna wish you never had met me)
And you played it to the beat
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)

Baby, I have no story to be told
But I've heard one of you and I'm gonna make your head burn
Think of me in the depths of your despair
Making a home down there, as mine sure won't be shared

(You're gonna wish you never had met me)
The scars of your love remind me of us
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)
They keep me thinking that we almost had it all
(You're gonna wish you never had met me)
The scars of your love, they leave me breathless
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)
I can't help feeling

We could have had it all
(You're gonna wish you never had met me)
Rolling in the deep
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)
You had my heart inside of your hand
(You're gonna wish you never had met me)
And you played it to the beat
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)

Could have had it all
Rolling in the deep
You had my heart inside of your hand
But you played it with a beating

Throw your soul through every open door
Count your blessings to find what you look for
Turn my sorrow into treasured gold
You pay me back in kind and reap just what you sow

(You're gonna wish you never had met me)
We could have had it all
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)
We could have had it all
(You're gonna wish you never had met me)
It all, it all, it all
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)

We could have had it all
(You're gonna wish you never had met me)
Rolling in the deep
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)
You had my heart inside of your hand
(You're gonna wish you never had met me)
And you played it to the beat
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)

Could have had it all
(You're gonna wish you never had met me)
Rolling in the deep
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)
You had my heart inside of your hand

But you played it
You played it
You played it
You played it to the beat



No carro, Régia esperava por Clara, já que não quis ir junto ao flat, pois sabia que o juízo de Rebecca a seu respeito não estaria dos melhores.

- Régia, eu vou matar aquela loirinha irritante. Ela está impossível!!! – Clara bufava ao entrar no carro.

A bióloga deu a partida no veículo e não pediu detalhes, pois sabia que Clara desandaria a falar. Em segundos, ela contou tudo que viu, ouviu e alguma coisa do que disse. Régia ouvia, prestando muita atenção ao que se referia à Norah. Embora não pudesse apontar o quê, seu instinto dizia que a consultora era inocente demais para ser apenas inocente.

- Clara, Norah estar aí no flat até que faz sentindo, diante de tudo o que ocorreu. Só não sei como o prego foi parar no ombro dela, já que o banco espatifou-se a maior parte em mim, após pegá-la de raspão.
- Não sei, mas ela foi parar no hospital após desmaiar. E tinha o prego; e tomou um monte de remédio; e acabou na cama da Rebecca... juntas. Mas, não é isso que me irrita.
- Até já imagino o que seja...
- A Becky acha que você foi capanga da doutora e segurou a Norah para ela apanhar!
- Isso é birra. Deixa a menina. Ela vai pedir desculpas, pois se existe algo que Rebecca não sabe ser é injusta. Mudando de assunto, Luciana disse o que quer de nós?
- Detalhadamente; até me pediu conselhos e opiniões!

Régia detestava quando Clara era irônica. Sinal de que o humor estava abaixo de zero.

Na mansão, tiveram que aguardar a médica na biblioteca. Esperaram menos de meia hora. Ela chegou e foi sentar-se à sua mesa.

Tinha um corte no lábio inferior, provocado pelo soco de Régia. Era a única lembrança aparente da briga. Além de ainda usar a roupa da noite anterior.

- Você já foi ao hospital ver o olho, Régia?
- Não precisa doutora, estou bem. O roxo sai logo. E você, como está o queixo?
- Bem. Clara, pega isto.

Entregou uma chave para a sócia.

- Quero que use o quarto do Douglas para a Anna. É um quarto equipado com sistema de segurança, o que facilita monitorar a menina durante a noite. Também tem um cômodo com porta adjunta que poderá ser usado pela enfermeira.

Clara e Régia se entreolharam, sem saber o que dizer. Régia intuiu que Douglas era o nome do filho da doutora.

- Tem uns brinquedos por lá e algumas roupas também. Aproveita que vai para a fazenda e distribua para quem quiser.
- Vou providenciar tudo, doutora. Devo preservar alguma coisa?
- Não. Pode modificar o quanto for necessário. Nada lá me interessa.

Sem mais uma palavra, levantou-se.

- Já tomaram café?

As duas estavam tão passadas que aceitaram tomar café, mesmo já tendo feito o desjejum.

Luciana estava abatida. Era nítido que não dormira nada. Os olhos vermelhos e a quantidade de café denotavam a ressaca.

- Fui ver Rebecca. Queria ter certeza de que estava bem.

Novamente, as duas se entreolharam.

- Vocês combinaram alguma coisa para quando eu falar, ou ficam se olhando porque é amor demais? – a médica falou, com certo humor.

Clara quase cuspiu o café na toalha. Régia respondeu qualquer coisa para dar tempo da ex-secretária se recompor.

- Quando foi isso?
- Estava na porta do prédio quando vocês chegaram. Tão logo Clara saiu, eu entrei. - a médica falou com certo enfado – Eu estava de moto, o que poupa muito trânsito.
- Ah. – Régia falou.
- Ela teve algumas escoriações na costela do lado esquerdo, mas não quebrou.  – Clara complementou, mesmo sabendo ser desnecessário. - Já a Norah teve um prego cravado no ombro e perdeu sangue, precisou ser medicada e ficar em observação. Desmaiou antes pelo ferimento e apagou depois com os medicamentos, por isso teve que dormir no flat.
- Bem, se serve de atenuante, a marca do pé dela está na minha camiseta e a dor no meu estômago. Foi uma boa justificativa para dormir com Rebecca.
- Pior é que a Rebecca acha que a Régia segurou a Norah para a doutora bater. – Clara não quis dar ênfase ao pernoite da consultora no flat.
- Já falei com ela sobre isso. Conhecendo-a, logo pedirá desculpas.

Ficaram em silêncio, o casal querendo saber o que aconteceu, mas sem querer perguntar. A calma de Luciana nunca prenunciava algo bom.

- De minha parte, oficialmente, estamos separadas. Antes que uma olhe para a cara da outra, fui ao flat conversar seriamente com a Rebecca. Fiz uma pergunta e a resposta dela ratificou que não podemos pensar em futuro juntas, na condição atual em que me encontro. Todos sabiam, menos eu, que não sou dona das pessoas; infelizmente, as que realmente são importantes, não estão sob a extensão do meu domínio. Quer para o bem, quer para o mal.

Clara preocupou-se com Becky. Como ela teria reagido. Queria falar com ela, mas a doutora tinha outros planos.

- Mas, vamos às coisas práticas, nas quais quero a participação de vocês.

Durante algumas horas, Luciana foi verborrágica. Expôs seus planos para tudo o que ocorria.

- A doutora está certa que é o que deve ser feito?
- Régia, é uma pergunta muito pueril vinda de você.

Clara viu algo que nunca vira: Régia corar e baixar a cabeça diante de alguém.

 

***
***

 

A primeira meia-hora de vôo foi constrangedora. Norah estava com o braço imobilizado. Rebecca demonstrava desconforto e por isso usava uma almofada em sua poltrona; Clara, apesar de querer conversar com a jovem, não queria fazê-lo na frente da consultora. Régia ostentava o olho roxo, com o pequeno corte no supercílio; olhava fixamente pela pequena janela. Estavam no jatinho comercial da empresa, menor e com nenhuma privacidade em relação ao modelo espaçoso da médica.

Decorrida a primeira hora dentro do jato, foi servido o lanche de bordo. Como em um campo de guerra, Norah e Rebecca estavam em uma fileira e Clara e Régia na outra. Súbito, Norah foi para a fileira oposta.

- Régia, gostaria de agradecer por você ter se colocado entre nós lá na briga. Tenho noções de defesa pessoal, mas com certeza Luciana poderia ter feito um estrago maior em mim.

Todas foram pegas de surpresa com essa fala. Clara e Régia esperavam isso de Rebecca, jamais de Norah.

- Não fiz por você, embora realmente quisesse evitar maiores estragos. Nem sei como esse prego foi parar aí, sinceramente. – a líder mencionou, arqueando a sobrancelha perfeita de forma intimidadora.
- De qualquer forma, Régia, agradeço assim mesmo. – dizendo isto, retornou para o assento que ocupava.

Diante do fato, Rebecca não sabia para quem olhar. Resolveu fechar os olhos e fingir um sono, que acabou por ocorrer realmente. Não se dera conta, mas estava extenuada. Depois da visita de Luciana sua cabeça virou um turbilhão; e seus sentimentos eram uma montanha-russa. Norah teve a perspicácia de deixá-la só, após ouvir tudo que a médica dissera. Alegou precisar resolver as coisas para a viagem e que precisava ir ao médico trocar o curativo.

O resto do dia ficou em casa, não atendeu ninguém. Resolveu arrumar suas coisas para a viagem. Ao recolher suas pastas e papéis, achou o envelope que nem lembrava mais que largará ali, depois de tantas confusões. Abriu e ficou pasma com o conteúdo. Luciana continuava a mesma.

Com todas essas perturbações, a chegada na fazenda foi a melhor coisa do dia. Rever a mãe e a irmã era o alento que precisava. Agora que tinha uma situação afetiva definida, precisava demais do colo da mãe.

D. Ruth era um alívio para todas. Régia adorava a jovem senhora. Clara a tinha em grande estima.

O reencontro foi genuinamente alegre. Ainda nos braços da mãe, Rebecca apresentou Norah.

- Mãe, essa é a Norah. Ela está trabalhando conosco no projeto da empresa de cosméticos e medicamentos.
- Prazê, dotôra Norah!
- Então a senhora é a famosa D. Ruth. Muito prazer em conhecê-la! E, não sou doutora!
- Famosa é ocê que diz. Mas, sim, sou D.Ruth. E mió sem o dôtora, prá num confundi com a Luciana.
- Essa é a Lillian. – Rebecca se apressou a apresentar a irmã.
- Você é a irmã querida, então. Rebecca fala muito de você também.
- Prazer. – Lilly sempre muito tímida.

Depois disso, todas ficaram paradas onde estavam. Rebecca não gostou do exagero da consultora com suas mesuras, já que falou muito pouco sobre a mãe e nada sobre a irmã, por incrível que pareça. As conversas delas nunca chegaram detalhadamente nos familiares. Infelizmente, com o marketing pessoal, Norah não estava acertando: a jovem teve a certeza que sua mãe não foi com a cara dela. O fã clube de Luciana era fiel!

D. Ruth continuava abraçando Becky, por isso sentiu a bandagem no torso da jovem, bem como viu a careta que ela fez quando foi cutucada. Reparando mais, observou o braço imobilizado da consultora e o olho arroxeado da líder. Só Clara estava aparentemente bem.

- Vixi. O avião trombou? Cês tão tudo estrupiada!!!! – a jovem senhora brincou, em sua simplicidade.
- Ai, mãe, é uma longa história!!! – Becky fez um muxoxo.
- Arguma coisa mi diz que tem zóio azur nisso. – a jovem senhora disse isso quase rindo.

Todas ficaram quietas. Norah completamente deslocada. Foram salvas quando Mirtês chamou todas para o café.

Régia e Clara pediram licença para se recomporem da viagem, dizendo que o lanche do vôo fora suficiente.

- O armoço é no horário de sempre. João deixou recado pedindo descurpas, mor de poder cuidar de umas coisas na cidade. Mas vem pra cumê com ocês. –  Mirtês informou.

O casal, sem formalidade, foi para o quarto. Foi o tempo de desabar as malas no chão.

- Você reparou como Becky apresentou Norah? – Clara perguntou, jogando-se na cama de casal.
- Muito profissionalmente. – a líder respondeu, aterrissando ao seu lado.
- Você reparou como Norah cumprimentou a Ruth e a Lilly? – a loira perguntou de novo, ficando por cima de Régia.
- Muito intimamente. – outra resposta correta.
- Você reparou como Ruth a recebeu? – Clara começou a abrir os botões da blusa de sua mulher.
- Muito formalmente. Ganhei o quizz? Qual meu prêmio? – era meio fora de hora, mas o desejo estava aflorando na líder.
- Falta mais uma: o que concluímos? – a loira já acariciava os seios expostos.
- Que Norah vai ter um puta trabalho para conquistar as Stoianoff! Estamos felizes com isso?
- Muito. Acertou 4 em 4, vou caprichar no prêmio. – Clara disse, com muita sensualidade. - Foram 4 respostas corretas, serão 4 pontos aos quais darei atenção.
- Foco, minha amada, foco!! Temos que trabalhar...
- No momento, estou focada em um seio perfeito...

 

***
***

 

- Luciana, é verdade que Arthur não faz mais parte do conselho?
- Não precisa de mim para saber disso. – Luciana mal parou para responder ao homem que a seguia pelos corredores.
- É Paula. Foi aquela cena vergonhosa no corredor no dia da reunião?

Luciana continuava a andar rapidamente em direção ao elevador. Estava apressada, não por algum compromisso, mas em se livrar do Prof. Victor. Até então, ele ficou quieto em seu canto; mas a saída de Arthur do conselho, o colocava como segundo maior acionista da empresa; bem longe de Luciana, mas isso aumentava seu poder. Quando Thomas cedeu as ações para Arthur, pensava justamente em equilibrar as coisas. O conselho era cheio de regras, uma delas previa que, apesar de majoritária, Luciana deveria contar com o apoio traduzido em 15% além das suas ações. O que significava que, sem Arthur, ela tinha que fazer muito lobby para que as coisas fluíssem. Assim, mesmo que as ações dele viessem para Luciana, ela ainda teria que contar com o apoio de outros. Infelizmente, nem sempre os outros eram favoráveis; alguns eram aliados de Victor e totalmente contrários ao estilo de vida da médica. Portanto, sustentar a perda de Arthur não era uma boa estratégia empresarial.

- Victor, dê-se por contente.
- Mas, você não pode fazer isso!! Ele é leal, seu braço direito; ele é um homem estimado pelo conselho, por mim e por seu marido. Essa confusão por causa daquela aproveitadora sem teto é desmedida! Ele é um professor renomado, ela uma ... uma... prostitu...

O homem foi lançado contra a parede, quando a médica virou e o empurrou. Luciana avançou contra o homem que tinha o olhar de espanto, ainda mais realçado pelos óculos, e o prendeu pelo colarinho. Ele encolheu diante do olhar que recebeu.

- Você sabe que eu posso tudo! Mas o que eu realmente posso é meter a mão nessa sua cara de ave de rapina se insistir em ofender a Rebecca. Ela sempre o respeitou. Nunca desmereceu sua presença. Se Arthur merece minha consideração por soltar aquela louca da filha atrás de nós, Rebecca merece a sua por nunca tê-lo ofendido.

Ao soltar Victor ele percebeu que estava longe do chão e perdeu o equilíbrio, caindo aos pés da médica totalmente vermelho.

- Agora, se quer fofoca, nunca mais mencione essa pessoa aqui dentro ou na minha frente. Eu e ela não temos mais nada. O meu ódio é só meu. E não quero atribuir outra culpa a ela que seria seu assassinato.  Entendeu? – disse com o tom mais ameaçador que poderia.
- Você é louca igual à Paula. Qual a diferença entre vocês?  - o velho médico ainda alisava o pescoço, onde fora apertado.

Luciana ergueu Victor do chão, arrumou o óculos em seu nariz, ajeitou o colarinho. Ele se encolheu novamente diante da expressão insana.

- Não queira saber! – dizendo isso largou o homem estupefato diante da porta que se fechava.

 

***
***

 

Os dois primeiros dias na fazenda foram relativamente calmos. D. Ruth, após saber de tudo o que aconteceu, assumiu uma postura mais tolerante com Norah, em favor de não ser injusta. Mas, virava e mexia, encontrava alguma coisa para mencionar Luciana e deixar claro sua preferência.

Norah, por sua vez, tentava agradar sempre. Oferecia-se para ajudar no preparo das refeições; elogiava café, bolo, pães; procurava demonstrar seu real carinho por Rebecca, o que acabava sendo pior.

Aliás, excluindo os assuntos profissionais, Norah era totalmente ignorada pelos outros, exceto Rebecca. Boa parte do dia ficava com Régia, percorrendo todos os pontos da fazenda, obtendo o mínimo necessário de diálogo. Noutra parte, reunida com Clara e Rebecca, fazendo planilhas de custos, anotando assuntos para pesquisar, montando cronogramas.

Profissionalmente, todos estavam empolgados com a capacidade dela. Sabia o que estava fazendo. Era segura em apresentar os pontos; tudo o que Luciana falou era realmente birra, pois não havia nada de banal ou amador no que ela fazia.

- Quer saber, Régia: estou começando a ver Norah com outros olhos. Você sabe como adoro competência e ela tem de sobra! E demonstra dedicação à Becky.
- Clara, o que mais me intriga é que longe de um encontro com Luciana, tudo fica normal. Não vou negar a competência dela. Suas perguntas são pertinentes; suas observações são extremamente produtivas. Ela é simples, fala com todos de forma educada; não tem medo de por a mão na terra, na bosta; ou seja, não tem frescuras. Gosto dela, mas ainda tem algo que me incomoda. Confesso que não gosto de vê-la de forma mais afetiva com Rebecca.
- Deve ser pelo fato de sabermos que Luciana e Becky ainda têm chances. D. Ruth também não gosta. Quando estão juntas, ela está sempre na defensiva.
- Pois é, para mim, isto é mais um indício de que devo manter um pé atrás mesmo. Ruth sabe das coisas.
- Não sei; ela é mãe e viu a filha envolvida com uma mulher bem mais velha e vivida; com certeza, não era isso que queria para sua menina, mas com sabedoria aceitou, talvez acreditando mesmo no amor único. De repente, aparece essa Norah toda cheia de amor para dar para Rebecca, recém-saída da relação complicada... Bem, Ruth pode ter aceitado não a relação homossexual, mas o amor; e agora não aceita que essa coisa com mulheres prossiga em Rebecca.
- Clara, o que você diz pode até ser uma idéia, mas não é Ruth. Até porque, ela jamais veria a filha como leviana. Como nós, ela protege Luciana; e, como nós, ela não confia plenamente em Norah. Ou você confia?
- Confio em você, meu amor! – a reposta de Clara foi diplomática.

Estavam se vestindo, porque ia ter um evento para a criançada.

No outro quarto, Ruth e Rebecca também falavam sobre Norah.

- Fia, você sente arguma coisa por essa D. Norah?

Rebecca não sabia o que responder. Deixava nas horas de folga, que Norah disputasse sua atenção, já que sempre estava entretida com sua família e os amigos, em sua maioria, crianças. E, então, descobria mais qualidades nela: brincava com as crianças, admirava os trabalhos das mulheres, adorava sentir o cheiro das plantas, brincar com os animais. O que mais encantou a jovem foi a idéia de montar um teatrinho de marionetes para a criançada. Há muito que Rebecca se afastara de seu real sonho que era contar estórias, escrever contos; enfim, ser escritora.

- Mãe, ela é admirável. É um ser humano no real sentido do ser. Não posso negar que me pego pensando que poderia dar a ela uma chance. Vejo nela tudo que sempre quis ver em Luciana. – deu um sorriso resignado.
- Minha minina se desapontou com a dôtora. Num sei quem disse, mas já ouvi dizê que faz parte do amor.

Rebecca andou até a janela e viu as luzes no refeitório comunitário. Estavam preparando tudo para o teatrinho. Ela e Norah, em um momento de folga, foram fazer um piquenique e a jovem contou desse seu sonho e do poema que escrevera recentemente e estava no note; Norah juntou sua sensibilidade com o tino comercial e sugeriu que Rebecca ilustrasse o que escrevera ou fizesse uma peça; por fim, saiu o tal teatrinho. Para Rebecca, foi mágico. Pela primeira vez, alguém via seu talento natural, sem colocar alicerces de dinheiro e poder. Riram muito juntas, imitando as vozes dos personagens. Foi um momento genuinamente lúdico. Não o lúdico erótico de Luciana; mas o infantil, onírico.

- Mãe, Luciana não me decepcionou. Ela provou ser tudo que sempre disse ser. Eu paguei para ver e vi. A decepção, se houve, foi comigo mesma. Foi com a minha percepção de que eu não posso querer ser a virtude em pessoa; posso errar acreditando em meus princípios, mas não transferir para o outro o motivo do erro. Luciana tentou estar o que eu queria ver, isto até pode ser considerado uma virtude; mas por ser a pessoa que é não conseguiu. Não posso culpá-la por isso.
- Minha fia, cê qué deixá sua mãe doida? Mas, de tudo, acho que entendi que ocê não tá com raiva da dôtora.

Rebecca riu da simplicidade da mãe. Exagerou filosofando entre o ‘estar’ e ‘ser’; mas, sua mãe entendera. Simplesmente deveria ter dito que não odiava Luciana. Mas estava muito aborrecida consigo mesma. O que vivera e vivenciara nas ruas não lhe davam o direito de querer ser tão severa, pudica, virtuosa. Ela tinha que viver. Como vivera nas ruas, sem família, sem alguém. Ela não saiu ilesa das ruas por graça divina. Soube fazer alianças. Conquistar ao menos uma pessoa para ter um conforto afetivo. Foi corajosa com Luciana. Deveria seguir com mais equilíbrio, deixando de querer ser a salvadora do mundo.

- Mãe, não posso querer forçar essa ingenuidade quase infantil pelo resto da vida. Vi muitas atrocidades nas ruas e jurei não ser igual àquelas pessoas. Não queria ser parte dessa engrenagem que engana, mata, mente, domina, escraviza, humilha baseado unicamente em dinheiro.

Sentou ao lado da mãe, com lágrimas nos belos olhos verdes.

- A minha decepção é com minha impotência. Algo quebrou em mim desde que estava nas ruas. Tentei colar com Luciana, mas nunca mais se torna sólido. A bondade não tem um modelo; pelo menos, não o meu modelo para todos seguirem.
- Cê escolheu a árvore mais alta da floresta pra... - ela ficou corada para terminar a frase - ...trepá!

Ambas riram. Rebecca deu um tapinha no braço da mãe, começando a enxugar o rosto.

- Lembrando disso... - também corou um pouco – ...esse é outro aspecto que tenho que reconhecer. Embora Luciana tenha sido desagradável ao dizer, ela me ensinou a ser dona dos meus desejos, a exigir meu prazer e eu quero continuar a ser plena como mulher. Em resumo, vou viver minha vida do jeito que a fiz hoje. E, se Luciana viver a dela com um pouco mais de humanidade, já considerarei minha missão cumprida.

D. Ruth olhou para ela, buscando o que dizer antes de apoiar qualquer decisão dela.

- Num seria mió ocês conversarem? Luciana pode tê terminado com ocê, mas num qué dizer que ocê terminô com ela. A vida do cês está fiada juntas.  E tem que vê que essa tar Paula tá atazanando ocês por conta de querê prendê a dotôra....
- ...e, onde quer chegar mãe?
- Bão, cê sabe mió que eu como a dotôra resorve suas coisas: ela enfrenta, mas cum ocê na mira, ela num tem puder de fogo... vai que...
- ...ela ferra com nosso amor para me proteger daquela louca??? Ah, mãe!!! A senhora pode ver tudo em Luciana, menos atitudes que a façam abrir mão de suas posses.
- Fia... só pensa no que ocê falou naquela noite que ela falô da perda do fio e do marido. Que ocê é quem escolhia o que queria arriscar e ela era sua escolha.
- Mas eu também disse a ela que minhas próximas escolhas dependiam dela e ela me virou as costas; dando a última palavra: eu não podia trocá-la por outra, porque o descarte tinha que partir dela.

D. Ruth simplesmente beijou as faces, ainda úmidas da filha, como dando sua benção.

- Fia, cê vai segui o caminho que for o seu. Nele, eu só tenho que recebê ocê nos meus braços, se for preciso.  
- É só isso que eu preciso saber.
- Mas, que eu prefiro a Luciana, eu prefiro. Ô muié marruda!!! Vai demorá mi acostumá com essa bajulação dessa outra.

 

***
***

 

Há muito tempo que não aparecia naquela mansão. Tinha muitas recordações encerradas naquelas paredes. E em seus arredores. Ela e Paula exploravam tudo por ali como se fosse um mundo perdido. O reino delas. Descobriram um lugar secreto; era um túnel que terminava em uma espécie de calabouço. Não sabiam de quem a casa fora comprada ou quem mandara construir, mas existia aquele espaço do qual tomaram posse e passou a ser o local secreto. Não demoraram para equipá-lo de acordo com suas necessidades. No começo, eram experiências de laboratório com animais; nem sempre aprovava usá-los, mas Paula a convencia que era pela profissão. Chegaram mesmo a ter um defunto como objeto de estudo. Depois, era lá que aconteciam as cenas e ritos mais ousados entre elas e, posteriormente, com outros ‘escravos’. Por alguns anos, mesmo após irem para o exterior, o local permaneceu secreto e as práticas mais arriscadas; até o dia que precisaram da ajuda do Prof. Arthur. Então o abandonaram. O professor mandara lacrar tudo com tijolos. Olhou na direção do pequeno bosque nos fundos da mansão. Aquele ainda era um dos seus fantasmas. Sentiu o arrepio costumeiro.

Parou a moto em frente à porta. Arthur a esperava, conduzindo-a para a biblioteca. Ainda que as propriedades fossem quase vizinhas, desde o casamento nunca mais pisara naquela casa.

- Quer uma bebida?
- Gin e tônica.

Como sempre fazia, Arthur deixou Luciana relaxar. Apesar dela não evidenciar, o velho professor sabia da tensão que ela carregava, não apenas pelos últimos acontecimentos, mas pelo passado contido naquela residência.

- Primeiramente, você sabe que não aceito sua saída do conselho. Aquele acordo faria sentido com Thomas vivo. Agora não é uma boa estratégia empresarial. Se quiser, pode voltar tudo como antes. Sem precisar bancar meu amigo.

A médica notou a mudança na expressão do médico. Parece que tirara um peso das costas dele.

- No mais, tomei uma decisão e vou participar a você. Se terei ou não a sua ajuda, farei tudo como planejei.
- Luciana, só não entendo porque você veio, se já sabe que vai conseguir o que quer de qualquer jeito.
- Com sua ajuda, poderá ser mais rápido. Não tenho tempo a perder.

Era uma desculpa fraca, mas aceitável. Depois de tudo exposto, ele poderia avaliar a real intenção por trás de tudo.

E assim foi feito: Luciana falou com objetividade, expondo todos os aspectos envolvidos em sua decisão.

- Luciana, que você não queira mais culpas, eu concordo; que não queira desperdiçar vidas está coberta de razão; que queira frear Paula, também tem meu apoio; mas, o que você me expôs é um clássico ato de desespero; em nada parece uma atitude pensada.
- Mas é a única forma que vejo, Arthur. – foi enfática.
- E Rebecca?

O professor se assustou com o brusco levantar da cadeira. O olhar gélido, o maxilar enrijecido. Luciana tentava conter uma cólera que fazia questão de se externar. Ao falar, parecia cuspir um veneno da alma.

- Arthur, não fale nesse nome na minha frente. Eu odeio tudo que ela me fez entender. Ela foi a responsável por eu acreditar em amor novamente. E foi a responsável por eu entender que, apesar do dinheiro conveniente para todos, eu não posso ter esse luxo que é o amor. Estou com ódio de tudo ao que ela me expôs: desde as patéticas cenas de amor até às ridículas brigas diante de meus empregados e conselheiros. Eu expus minha preferência sexual, cheguei à mídia por atender caprichos dela, coloquei o nome de Thomas em risco. E aonde cheguei? Ao ponto de partida: amor não foi feito para mim. Se ela queria dinheiro ou seja lá o que for; ela pode levar o que quiser, mas não quero ver, ouvir ou falar com essa pessoa. – terminou o resto da bebida em um gole - Céus!!! Ela me fez crer que perder meu marido e filho valeu a pena, por poder tê-la encontrado. – serviu outra dose da bebida para, repentinamente, atirar o copo contra a parede.

O homem assustou-se com a ira demonstrada.

- Arthur, ela me deu para Paula. Ela é a responsável por eu estar aqui, com essa resolução. Quer saber: eu deveria matá-la, assim essa culpa que me faz estar aqui, tomando essa decisão, não fosse necessária. Mas, a única coisa que essa mulher representa para mim são culpas e mais culpas: passadas, presentes e, se não tiver como, futuras.
- Rebe... digo, essa jovem errou ao omitir ter investigado sobre seu passado. Desde a primeira vez que esteve aqui e ouviu algumas coisas de nós, achei que ela iria buscar ajuda com você. Soube que ela conversou com o Victor também e ele fez maus comentários sobre você. Mas, ela é jovem, é um erro comum...
- Chega Arthur. Não quero defesas. Encerrei isso. A empresa nova nem verá minha cara, assim não tenho porque falar dessa criatura infeliz. – a médica encerrou o assunto.

Luciana esquecera a conversa de Rebecca com Victor, tomou nota mentalmente para averiguar o que fora dito. Mas, no momento, Paula era o mal a ser anulado.

- Arthur, é muito simples o que peço: mesmo negando saber o paradeiro de Paula, quero que ela saiba que preciso conversar com ela. Se você ou Cecília souberem, mande-a entrar em contato comigo.
- Luciana, repito que não sabemos onde ela está.
- De qualquer forma, se ela aparecer, está dado o meu recado. E eu moverei terras e céus para encontrá-la.

Sem mais uma palavra, a médica deixou a biblioteca, caminhando seguramente para a saída.

Enquanto ouvia o arranque do potente motor, o velho médico avaliava o que viria com tudo isso.

 

***
***

 

O teatrinho fora um sucesso. Depois dele, a cantoria foi inevitável.

Clara e Régia se divertiram muito com o texto de Rebecca e a animação proporcionada por Norah, Lilly, Daniel e a própria autora.

Aproveitaram também para distribuir os brinquedos e outras coisas do filho de Luciana. Quando soube disso, Rebecca sentiu uma espécie de alívio. Era como se com isso realmente pudesse dar sua missão por cumprida, como dissera para D. Ruth.

- Régia, preciso conversar com você. Clara, posso roubá-la?
- Devolvendo logo, pode! – a ex-secretária até pensou em fazer uma piada com o fato de Régia ser sósia da doutora, mas achou que não seria de bom tom.

As duas se afastaram um pouco do barulho, indo para o alpendre da casa principal.

- Régia, peço-lhe humildemente que me perdoe. Tudo que disse à Clara foi por pura infantilidade. Sei da sua integridade. Enfim...
- Becky, não tenho que perdoar nada, pois não me abalei com isso. Fosse Norah uma pessoa realmente perigosa, Luciana nunca iria ter tempo de pegá-la antes de mim. Como disse no avião, fiz para proteger Luciana de cometer algo irreversível.
- É. Norah tem razão: você não gosta dela mesmo!

Régia não confirmou e nem negou.

- Aquele dia do bar, tínhamos decidido não ir. Realmente fomos ao cinema, eu queria ir para casa, até mesmo para curtir um bom vinho com Norah.

A líder prestava muita atenção ao que era dito.

- Deveria ter mantido sua resolução; eu chamei Luciana por saber que você recusara o convite. Aliás, ela também recusou. Foi uma grata surpresa ela ter aparecido.
- Pois é. Mas, de repente, Norah começou a falar que talvez fosse melhor irmos, já que Clara a hostilizava e aquele convite poderia ser uma forma de trégua; uma maneira de apaziguar. Ela tinha acabado de atender o celular e eu fui ao banheiro do shopping. Quando retornei e ela disse isso, senti que tinha razão. Não era impressão dela que Clara a tratava com distanciamento. Confesso que, em alguns momentos, via em Clara as atitudes de Luciana. Quanto a você, nunca foram apresentadas; não sabia o que acharia. Bem, eu liguei e falei com quem pensei fosse a Clara. Luciana armou e deu no que deu: você nos recebeu mal, respondeu asperamente para Norah e, depois, com a confusão o que vi foi Luciana golpeando-a em seus braços. E, o resto, você sabe. Lamento imensamente e agradeço que nada de mais grave tenha lhe acontecido; jamais me perdoaria se você perdesse sua liberdade reconquistada. Minha relação com a doutora não valeria arriscar sua vida e amor por Clara.

Régia aceitou o beijo e abraço. Em nenhum momento perdeu tempo considerando as bobagens ditas pela jovem para irritar sua mulher. Sempre gostou de Rebecca, por isso valia a pena qualquer esforço para não deixar que se perdesse.

- Então Norah cisma que não gostamos dela? – Régia quebrou o momento piegas.
- Ah, Régia, não é cisma: está na cara de todas vocês!! Minha mãe que sempre foi tão amável com todos, está fazendo Norah dançar miudinho. – disse rindo. – Ainda bem que por sua formação em psicologia, ela tem essa facilidade por entender certos aspectos.

Régia soltou uma gargalhada que deixou a jovem desconcertada, ciente de que dissera alguma besteira.

- Becky, não desmerecendo Norah, não precisa ser psicólogo para entender a rejeição a um estranho que pousa de pára-quedas no meio de uma revolução sentimental. Todas acabamos ligadas à Luciana por cordas tênues, mas muito firmes. Teia de fios de aranha, quase invisíveis, mais altamente aderentes. Ela é a estranha e, desculpe-me, mas tem que realmente provar muito para ganhar seu espaço. Não o de Luciana, mas o espaço dela. Ao nosso lado e ao seu também.

A jovem ficou muda. Sacudindo a cabeça, como que avaliando e concordando com cada palavra.

- Ela é competente para isso.
- Não questiono a competência dela já que, até agora, ela tem se saído bem demais. – havia certa ironia na afirmação. – O que digo é: tudo que é bom demais, é bom demais para ser verdade.
- Porque essa sua desconfiança com ela?
- Diante de tudo que me contaram, ela sempre aparece na hora errada diante de Luciana. Não acha estranho?

Dessa vez foi Rebecca quem gargalhou na cara de Régia.

- Você ainda não se livrou da síndrome da teoria da conspiração. Não a culpo. Sem ofensas, uma vez mafiosa, sempre céptica.

Régia sorriu de viés. Os olhos azuis brilhantes e mais atentos.

- Não tinha como ela armar todas as situações. Um bom exemplo: foi você quem convidou Luciana para o bar, ninguém mais sabia, ou tinha mais alguém na hora do convite?

Régia tinha uma dúvida, mas era difícil argumentar agora. Ela conhecia alguns pontos a mais do que a jovem. As investigações feitas no clube ainda eram um segredo. A líder ainda levantava informações com a ajuda de Marcella, mas nada de concreto foi detectado para ligar tudo o que ocorria.

- O.K. Aceito que eu seja o próprio álibi dela. Mas, você sabe que as teorias de conspirações são difíceis de provar... ou abandonar. Sou o que fui treinada para ser. Certas coisas, mesmo que maléficas, podem ser úteis ao longo da vida; para o bem ou para o mal.
- Agora você disse uma verdade: eu aprendi muito sobre o mal para insistir no bem absoluto. Vamos voltar? Clara deve estar a sua procura.

 

***
***

 

A festança rolou solta. Tecnicamente, já era sábado, domingo elas partiriam. Acabaram estendendo mais a estadia, devido ao estado físico de Norah e Rebecca.

Com a ajuda de Norah, fizeram e serviram uma sangria na festa; para finalizar a noite, ela e Rebecca bebiam sentadas na rede do alpendre.

- Obrigada pela maravilhosa noite, Rebecca! – a consultora disse, ao mesmo tempo em que colocava sua jaqueta sobre os ombros da jovem.
- Eu é que agradeço por me ajudar a redescobrir meus sonhos. – dizendo isso, Rebecca envolveu a consultora em seus braços, tomando cuidado com o ombro machucado, beijando suavemente seus lábios.

Norah ficou abobada. E ruborizada.

- Não sabia que a sangria estava tão forte. Estamos embriagadas. Ou só eu estou.

Rebecca não pode deixar de rir. Uma risada sincera e hipnótica para os sentidos da mulher ao seu lado.

- Você tem sido hostilizada, ofendida e humilhada nessa estória toda. Todos já sabem o que sente por mim e tentam me resguardar, esperançosos que Luciana venha me resgatar. Como se eu tivesse que manter alguma ‘virgindade’ para ela.
- Desculpa se a constrangi; mas, eu tentei ser discreta, porém... bem... você sabe... quando a gente se apaixona... bem, quando nos apaixonamos perdemos a noção de certas coisas. Peço perdão...
- Norah, você é única: pedir perdão por se apaixonar?!?!?

A consultora corou novamente, baixando os olhos.

- Eu que devo pedir perdão por não corresponder e ainda deixar que você seja alvo de tudo isso.
- Não tem importância passar por tudo isso se for para ficar ao seu lado. Para conhecê-la, aprender e ensinar para e com você. – disse, olhando diretamente nos olhos da jovem.

Rebecca não conseguia ver nada em Norah, além de amor e ternura. Os olhos azuis, em nada a faziam lembrar-se da médica; mas, eram azuis e novamente a jovem via-se em um mar, mas muito mais calmo e convidativo. Sabia que estava usando a mulher para experimentar novas sensações; para sair da zona de conforto que foi ser de alguém dominante; aprender que podia seduzir apenas por exercer a sedução. Na verdade, sair de uma zona de conforto e entrar em outra, uma vez que Norah já era cativa.

- Norah você realmente quer ser a primeira depois de uma relação tão conturbada como a que tive?
- Você acha que posso ser a primeira depois dessa sua relação tão conturbada?
- Temo ser instável demais, Norah.
- Temo ser apenas gratidão.

Norah segurou o rosto entre suas mãos. Rebecca sustentou o olhar terno. A aproximação de suas bocas foi hesitante, ainda que ambas estivessem presas no campo magnético da atração. Não houve resistência. Apenas a consumação de um beijo que não comungava do mesmo significado: Norah provando do ser desejado; Rebecca buscando outro sabor em sua vida.

O segundo beijo revelou mais ousadia. Rebecca fazia um laboratório com seus sentidos. Era, sim, capaz de se estimular. Seu corpo reagia. Não sabia se era certo sentir algo sem ser com sua doutora. Mas, seu corpo sentia. E Norah, estimulada pela aceitação, demonstrava sua paixão.

- Somos urbanas demais para essa rede. – ela dizia em sussurros ao ouvido de Rebecca. – Vamos entrar. Vamos para meu quarto. – Norah demonstrava urgência.

Rebecca deixou-se conduzir para dentro da casa que estava silenciosa, mas era certo que os outros ocupantes ainda não haviam se recolhido ao sono. Ao entrar no quarto ocupado pela consultora, esses pensamentos tiraram a concentração da jovem.

- Norah... podemos esperar?
- Como? – ela não parecia ouvir o que a jovem dizia.
- Podemos esperar até retornarmos para São Paulo? Não conseguiria transar sabendo que minha mãe e irmã estão no quarto ao lado. Quero que a entrega seja completa.

Como que saída de um transe, Norah se afastou, mantendo Rebecca em seus braços.

- Claro... desculpa... eu... bem... é difícil refrear o que consegui; mas posso esperar, agora que tenho esperanças.
- Norah, vamos combinar uma coisa: chega de pedidos de desculpas.

Um pouco mais recomposta, a consultora amenizou as carícias.

- Pode ficar mais um pouco? Apenas mais um beijo?

Rebecca sorriu e retomou o beijo onde pararam.

Algum tempo depois, retornou ao quarto da mãe. Sabia que ela estava acordada. O silêncio era a melhor opção naquele momento. Estava sem sono, mas não precisava falar nada com sua mãe. Ela já sabia que isso aconteceria.

Era inevitável a comparação entre os sentimentos e sensações experimentadas com Norah às vividas com Luciana.

Com Luciana, ela entrava em um sonho; realizava uma conquista não apenas carnal, mas sobre barreiras emocionais controversas; a primeira noite com a médica foi mágica. Luciana esperou por Rebecca; não se impôs, mesmo sendo a dominadora que era. Certamente criou o clima, mas o fez ciente de que ambas não conseguiam mais segurar a tensão sexual, após repararem suas diferenças. Elas demoraram a atingir a carne; mas depois disso, nunca houve um aspecto tão verdadeiro e consensual em suas vidas do que a entrega entre seus corpos.

Com Norah foi deliberado. Foi apenas... parou para pensar que ‘apenas’ era uma palavra que desqualificava o amor da consultora. Na verdade, foi algo grandioso para o avanço de sua vida por sobre suas mágoas e perdas. Não sabia se era muito ou pouco o tempo de separação, mas ela não era uma viúva que tem que resguardar a esposa. Ninguém morreu; não fisicamente. Norah também fora paciente; ficara em seu espaço, dali lançando suas setas, consciente que o escudo ‘Luciana’ impedia que acertassem o alvo; mesmo assim, pegou suas chances e seguiu. Então, porque essa ponderação excessiva sobre o que fizera? Foram beijos; embora promessas para algo mais; foram beijos aos quais se entregou buscando... lutava com as palavras para usar a verdade: buscando esquecer Luciana. Provar que existia vida além dela. Foi gostoso sentir novamente a paixão de outro correndo em seu corpo; sentir seu corpo provar que está vivo; era um longo caminho a ser percorrido até conseguir libertar seu prazer do amor desmedido que ainda sentia. Ela conseguiria. O que importava e bastava para o momento era ter sua honestidade reconhecida pela consultora. Norah poderia ser apenas um começo, ou não.

 

***
***

 

- Cecília, o que ela planeja é algo muito desesperado, pois é sem reversão. Entretanto, parece a única forma de colocar uma cerca em Paula.
- Arthur, nunca quis essa relação. Avisei dede o começo desse descontrole psicológico. Nunca admiti perder minha filha para esse buraco negro criado por Luciana. Confesso que fui eu quem tirou a Paula da instituição, mas não achava que ela ia começar a aprontar. Luciana merece ser atormentada, porém a pessoas que a cercam, principalmente essa jovem Rebecca, não devem ser alvo por conta do descontrole de nossa filha. São situações tão contraditórias e todas elas apresentam um ‘mas’: eu sou mãe e não vejo que essa seja uma solução e sim será uma nova prisão para nossa filha.
- E para Luciana também. Concordo com você em tudo, mas temos que concordar que Luciana está disposta a reparar as coisas. Ela está com muito ódio da Rebecca por conta dela representar o símbolo de sua impotência diante de Paula. Se nossa filha queria que isto ocorresse, ela foi além das próprias expectativas, já que provocou uma ira ainda maior em Luciana pelo fato de Rebecca tê-la obrigada a aceitar as manipulações de Paula.
- E por ter sido obrigada a odiar a Rebecca, ela quer punir a si e a Paula. Sim, porque o que ela pretende vai deixá-la cada vez mais presa à nossa filha pela culpa.
- Eu não vejo saída sem apelarmos para a morte.
- Paula tampouco merece ser vítima pela segunda vez.
- Se você quer saber, cabe a Paula a decisão. Ela vai procurar Luciana de qualquer jeito. Vamos esperar. Cruzar os braços e deixar os dados rolarem.
- Não volto ao Brasil, Arthur. Quero estar longe disso tudo.

 

***
***

 

No sábado de manhã, o clima estava estranho na fazenda. Clara encarava Rebecca com certo pesar ao vê-la trocando carícias com a consultora.

Régia, se tinha pensado em aliviar a tensão com Norah, desistiu completamente ao ver o clima entre o novo par.

D. Ruth estava quieta. Sem qualquer conversa simples. Mesmo Lilly permaneceu calada, sem seus famosos comentários.

Clara não quis falar de trabalho, alegando dor de cabeça e que queria um tempo para curtir a fazenda com Régia. Dessa forma, evitou Norah o máximo que pode. Ao final do dia, não aguentando mais, encurralou Rebecca em um canto.

- É oficial agora?
- Como?
- Rebecca, não se faça de desentendida!
- Tá... Tá. Sim, eu resolvi dar uma chance a Norah.

Clara a encarou como alguém que vê se quebrar uma peça rara, de colecionador.

- Rebecca, você pode estar magoada com a doutora, mas não tome rumos precipitados em sua vida. Não se vingue dela se violentando.
- Vingança?!?!? Eu querer seguir minha vida é me vingar da Luciana! Clara, por nossa amizade, pare de querer me preservar como a última virgem para Luciana. – com essa fala, Rebecca espantou Clara.
- Becky, nunca me intrometi na sua vida, porém sei quem você é; sei seus princípios, por isso sei que você não ama essa mulher. Se vai ser sexo por sexo, isso não é você!
- É, isso é um privilégio da Luciana. Ela pode sair com prostitutas e ainda se achar no direito de me reivindicar como sua propriedade, espancar as pessoas, me dar permissão para sair da vida dela. Ao menos Norah não é um objeto para mim, mas uma pessoa com qualidades que aprecio, além de sexo.
- Que conversa é essa Rebecca? Prostitutas? Propriedade?

Rebecca foi para o quarto e retornou com um envelope.

- Encontrei isso sob a porta do apartamento. Sem remetente, mas nem precisa ser adivinha para saber que foi coisa da Paula e isto é o que menos importa. O que tem significado é que a doutora não sabe ficar sem sexo, mesmo sendo por sexo apenas. Ela não suporta ver que seu melhor brinquedo estava tomando vida própria; seu capricho não permite que ela veja o que julga ser seu, servir a outros.

As imagens da foto mostravam Luciana encontrando com uma jovem, depois elas entravam no carro e novamente desciam na porta do flat que a doutora usava para seus encontros. Outra foto continha informações do chamado ‘book’ que contém o perfil das garotas para escolha. Se o ciúme de Rebecca não a cegasse, veria que a moça lembrava ela fisicamente.

- Becky, você conhece a doutora melhor do que eu, mas tenho que dizer que isso não é nada para ela.
- Assim como eu.
- Pare com isso! Você sabe que sexo sempre foi vital para ela. Sabe que ela não admite ser controlada em seus desejos. Sabe o quanto ela luta contra qualquer sentimento que a impeça de ter o que quer. Se ela realmente contratou uma profissional, é mais do que claro que não tinha intenção outra que não distrair o que a consumia.
- Então, eu também preciso me distrair. Norah atende perfeitamente.

Clara estava ganhando tempo, pois sua cabeça fervilhava com a informação de que Paula pudesse ter chegado tão perto de Rebecca. E como o processo todo estava se desencadeando. Luciana deveria agir rápido.

- A doutora paga em dinheiro; você vai pagar com sentimentos. Becky, não desista da doutora. Essa Paula é perigosa para todas nós. Dê tempo para que a doutora possa enxergar com clareza a situação. Não queira se afastar de seus princípios, porque isso só vai aumentar a sua dor.
- Clara, se for por Paula, então tenho que esperar uma vida toda; não posso depender dos fantasmas eternos de Luciana para retomar uma vida, seja qual for o começo. Eu sou honesta com Norah e ela aceitou o desafio, isto me basta.

A futura empresária percebeu que a jovem estava confusa, magoada e querendo revidar de alguma forma.

- Nessa confusão toda, tenho deixado as emoções desviarem minha atenção das coisas práticas. Tenho que sair do flat, caso queira ter dinheiro para investir nessa empresa. Esse período que estou lá foi bem caro. Devo admitir que estar com a doutora me poupava das contas do dia-a-dia. Tenho que investir na empresa, mas também ter algum lastro até que possamos ver retornos.

A jovem estava coberta de razão. Pelos cálculos e todo planejamento, só começariam a ter lucro após dois anos, graças ao fato de que as farmácias da doutora pouparam gastos maiores. Aliás, sem isso, o empreendimento não seria possível. Apesar de Clara também depender disso, inclusive para que as famílias pudessem honrar seus pagamentos para com ela; ainda tinha uma boa reserva, nunca deixando de especular na bolsa de valores e outros tipos de investimentos.

- Olha, vamos nos mudar para a mansão e a casa vai ficar vazia. Você pode ficar lá, enquanto ficarmos na mansão. Se tudo der certo e Anna voltar agora, no mínimo ficaremos lá por um ano, para todos os procedimentos. Caso contrário, não sabemos estimar.

Rebecca ficou surpresa com a oferta diante dos últimos desentendimentos com o casal. Clara era fiel a Luciana, portanto sempre protegeria o que julgasse ser dela. No caso, Rebecca.

- Não sei, não, Clara. Estamos em um momento delicado para nós, com toda essa torcida pró-Luciana e eu querendo modificar meus rumos. Temo ficar reprimida entre as paredes da casa da guardiã dos bens da doutora.

Clara baixou a cabeça, sacudindo em sinal de impaciência.

- Becky, achei que você tinha superado essa coisa de ‘propriedade da doutora’. Infelizmente, enquanto você não entender que nunca foi propriedade da doutora, nunca poderá enxergar o quanto está rumando para desastres. A oferta foi feita.

Clara saiu da frente da jovem, antes de começar a chorar.

 

***
***

 

Se a viagem na ida foi constrangedora, na volta piorou. Ainda que discretas, Rebecca e Norah não escondiam que estavam envolvidas. A jovem descansara a cabeça no ombro bom da consultora que, por sua vez, beijava-lhe a face vez ou outra.

Régia e Clara já tinham discutido demais a situação, após a ex-secretária ter presenciado o beijo ainda na varanda e as duas se recolhendo ao quarto de Norah. Depois, com a conversa que Clara teve com a jovem, a bióloga ficou ainda mais irritada com o fato de saber que Paula rondava a todas bem de perto. Mais do que nunca, tinha certeza que ela estava entre elas, infiltrada de alguma forma.

Além dessas preocupações, também estava contrariada. Mesmo com Clara justificando as atitudes de Becky, Régia não se conformava em ver o novo casal, sabendo que aquilo não era o que todos que conheciam a história delas, desejavam. Ela sabia que o amor de Becky e Luciana ainda existia, não tinha que ter esses desvios de percurso. Fosse outro casal e ela, Régia, não estaria tão chocada. Ninguém tem que ficar eternamente guardando luto de relacionamento. Mas, ela sabia que Luciana e Becky eram almas gêmeas, assim como ela e Clara. Podia ser mafiosa, assassina, líder de invasores de terra; enfim, todas as coisas mais violentas e cruéis; mas, sabia de amor. Tinha vivido sua cota de dores de amores; tinha perdido por suas próprias mãos a quem amava; tinha abandonado o sentimento, mas ele foi resgatá-la através de Clara. Luciana esperava ser resgatada, Becky só seria completa se a resgatasse. Não dava para crer que, em pouco tempo, um urubu viesse bicar o que ainda não estava morto.

Clara, ainda que inconformada, tentara convencer sua mulher, e a si mesma, de que a jovem estava, pela primeira vez, exercitando sua vida, livre de outros. Com Luciana ela ousara; agora, novamente, estava por conta própria. Tinha que aprender. Recomeçar a viver. Mas, tinha que admitir, se fosse um livro, pularia toda a parte desse romance estranho, pois não era fácil aceitar a cena. E, no fundo, tudo era por orgulho e teimosia da jovem.

Ao chegarem a São Paulo, separaram-se no aeroporto.

Régia e Clara deram graças aos céus por poderem sair do confinamento que estava o pequeno jato.

Rebecca sentia-se muito bem com a consultora. Gostava realmente da atenção especial que estava recebendo. Sabia que tornara-se uma recompensa para a esperançosa mulher. Saboreava a sensação.

- Você quer ir para minha casa hoje? – Norah perguntou, quase sem jeito.
- Se você não se importar, prefiro ir para meu apartamento.
- Certo.
- Sozinha. – Rebecca disse mesmo sabendo que estava decepcionando Norah.
- Mas... pensei... pensei que pudéssemos ficar juntas o resto do dia. Chegamos cedo, ainda podemos descansar, e...
- ...você disse que esperaria, Norah. – a jovem encostou um dedo nos lábios da consultora, que desviou o rosto.
- Foi a sua conversa com a Clara, não foi? Ela não gosta da nossa relação e deve ter falado coisas que te deixaram constrangida em se envolver com alguém, nem bem terminou com a doutora. – jogou a mochila no chão - Quando elas vão entender que você não é propriedade da Luciana, para ficarem cuidando. Além do mais, a própria toda poderosa deixou você ir, quem são elas para se intrometerem dessa forma!?!?! – a fala da consultora parecia denotar certo desespero, além da irritação. – Eu quero você, preciso ter você... não tenho mais tempo....
- Norah! Que conversa é essa? Claro que tem tempo. – a jovem começou a rir – Não vou fugir de você!

Com isso, Norah pareceu se recompor.

- Não sei Rebecca. Ainda estou insegura. Antes de você me dar esperanças, eu não ligaria tanto se a doutora voltasse e vocês se reconciliassem; mas, agora, tenho medo. Toda essa torcida, vigilância, marcação sobre sua cabeça, podem causar arrependimentos. De repente, amanhã, você está com a Luciana de novo. Isso que eu quis dizer com a falta de tempo. – sorriu meio sem graça.

Rebecca achou engraçada essa postura da consultora. Estava tão comedida antes, esperando sua vez; agora, queria garantir que não perderia a mínima chance.

- Norah, só peço hoje. Amanhã teremos um dia só nosso! Garanto que não será Clara ou Régia que farão me desviar de minhas escolhas. Antes de tudo, serei honesta com você.

Era visível o desapontamento.

- Além do mais, quero que estejamos inteiras. Minha costela ainda dói e seu braço ainda está na tipóia. – disse, dando um selinho na loira de olhos azuis.
- Não seria empecilho algum para mim! – disse, arrancando a tipóia. – Isso foi frescura!
- HUmmm... poderosa!!! – a jovem riu, tentando aliviar a tensão. – Mas para mim seria uma distração sentir dor, sem ser de prazer. - dessa vez beijou mais demoradamente a mulher a sua frente.

Resignada, Norah embarcou Rebecca no táxi, esperando outro para si. O celular tocou. Viu quem era e não atendeu.

 

***
***

 

Régia resolveu que deveria conversar com Luciana sobre as descobertas no Clube. A polícia não aprofundou as investigações, a família da moça abafou o caso e ficou por isso mesmo. O estabelecimento não reabriu, por decisão das proprietárias, uma vez que existiam outros motivos mais escabrosos. Já se passara um mês desde o ocorrido.

Marcella ajudou como pôde, checando todas as fitas que encontrou. Nada foi revelador, além de muita bizarrice e amadorismo. Depois tudo foi incinerado. O que vazou, não poderia ser recuperado. Enquanto empresária, a ex-diretora amargou certo prejuízo, já que o clube rendia muitíssimo bem, mesmo não sendo o templo purista que ela imaginava.

Assim que chegou em casa, o casal deliberou que no dia seguinte iriam juntas conversar com Luciana e averiguar se ela foi ao clube. Era certo que Paula estava seguindo todos que interessavam em suas intrigas.

A teoria de Régia sempre foi a de que Paula não estava agindo sozinha. O surgimento de Norah deixou essa teoria mais cabível, ainda que extremamente conspiratória.

O envolvimento de Norah com elas já ia há bastante tempo; ela estava fazendo planejamentos; e, por último, estava se declarando para Rebecca. Isto era muito circo para Paula aturar e por isso, somente pela impaciência dela, é que Régia dava o benefício da dúvida para Norah.

- Além da parte profissional, o que sabemos dessa Norah, Clara?
- Eu não sei nada. Rebecca sabe onde ela mora. Deve saber mais, já que anda com ela além do expediente.
- E se eu for perguntar, ela irá me rechaçar com certeza. – Régia brincava com o cabelo de Clara.
- Nem olhe para mim. Eu ofereci a nossa casa para ela e ouvi que sou guardiã das propriedades de Luciana. Para mim, chega de Rebecca. Esta semana não teremos muito para nos reunirmos, vou dar um tempo. Ela é muito boazinha; mas, quando quer, irrita qualquer um!
- É, mas não vamos perdê-la de vista, certo?

Sentiu que Clara deu de ombros, em sinal de indiferença.

 

***
***

 

- Olá, Vigaristinha, já comeu a fedelha?
- Não usa esses termos, Dra. Paula.
- O rumor é que ela irritou Luciana demais e que a doutora quer matar essa fedelha. – a obcecada mulher ignorou o apelo.
- Eu fiz além do que deveria. Não deveria ter a separação. Estou indo na direção errada e posso me ferrar. Mas você garante que segura essa?
- Não é meu interesse que Luciana faça juras de amor para essa fedelha. Você fez o que eu queria, mas fez por que também tem interesses. De resto, ainda podemos ganhar tempo.
- Não temos tanto tempo. Estou sendo pressionada. O plano tem que ser concluído.
- Então, apresse-se para comer seu petisco. Aliás, pelo que ela deixou Luciana doida, deve ser um banquete completo. Lambuze-se! – soltou uma gargalhada. – Mas eu quero que você suje a barra da fedelha o quanto puder. Quero que Luciana a despreze também. – disse em tom ameaçador, desligando.

A consultora olhava para o celular mudo. Levou um susto quando o mesmo tocou e o nome de Rebecca surgiu.

- Oi, amor!! Estava falando de você. – falou, de improviso.
- Falando de mim? Com quem? – Rebecca estranhou, pois Norah nunca mencionava amigos ou parentes.
- Falando profissionalmente, com um relações públicas. – pensou rápido. – E como você está?
- Estou me sentindo estranha. Está próximo do meu período e eu fico meio enjoada às vezes.
- Então hoje a gente não vai se ver... - era nítido o desapontamento na voz da consultora.
- Nada a ver. Quero você comigo. Espero para o jantar. Venha com bastante apetite.– a jovem disse, usando toda a sensualidade possível.
- Estou com fome há muito tempo.

Norah mal teve tempo de guardar o celular.

- Norah, temos que fazer o que combinamos ainda essa semana. Já esticamos demais a corda para saber o quanto Luciana estima essa garota. Não era para haver o rompimento entre elas.
- Fugiu ao meu controle. Fiz tudo que foi combinado. Até apanhei e me feri nessa bagunça toda. Isso não estava no acordo. A mulher é instável: em um momento, ama como louca; e depois abre mão com soberania!
- É jogo dela. Conheço a Luciana. Ela vai tentar ferrar você com a Rebecca e depois ataca novamente. Já deu provas demais que não vive sem essa jovem. Até sexualmente foi um fiasco. A garota que enviei para ela disse que fez tudo que pôde, mas foi enxotada da cama da doutora, que reclamou dos serviços e de insatisfação. Isso para Luciana é o pior que pode acontecer. O que você ainda espera?
- Eu estou esperando aquela Régia e Clara largarem do nosso pé.
- Vou falar com a Paula para dar um jeito; embora ela me preocupe.
- Por quê?
- A Paula está armando, tenho certeza. Ela está feliz com o rompimento. Para ela, interessa que Luciana despreze a Rebecca. Para mim não é bom. Ela só está ajudando porque quer a loirinha.
- Qual o interesse dela na Rebecca? – Norah se arrepiou.
- Sei lá. Paula é doida e sádica. Vai querer se divertir.
- Mas você não vai deixá-la estragar tudo?
- Norah, eu sei o que fazer tão logo você faça sua parte.
- Esta semana não teremos motivo para reuniões. Vou sugerir que Rebecca me receba amanhã e a convenço que não precisamos da Clara essa semana. Elas estão meio brigadas, por causa de Luciana. Aquelas fotos da prostituta abalaram as crenças entre as duas.
- Ótimo. Você tem até quarta-feira. Inventa alguma coisa. Arruma viagem de lua de mel... mas, dê um jeito. Luciana estará fora por uma semana, nesse meio tempo agiremos. É isso: mais dois dias. Entendido?

Norah se meteu numa enrascada. Deveria ter continuado com o plano frio e calculista; mas resolveu se dar bem também. Agora tinha que ser o elo desse cabo de guerra; tentando agradar gregos e troianos para não se ferrar. Não sabia ao certo com quem estava lidando. Paula, com certeza, era assustadora.

Tinha entrado nessa por dinheiro. Recebeu as instruções de que deveria simular um romance com a jovem chamada Rebecca Stoianoff para comprovar que sua noiva, a poderosa Luciana Lowestein, a amava de verdade. Viu o vídeo do programa de televisão. Recebeu sua nova identidade, chaves de apartamento e carro. Depois, dicas de marketing, planejamento estratégico e um site elaborado com suas credenciais profissionais. Ensaiou toda a estória sobre o Waldemar para que se aproximasse com certa intimidade. A primeira parte de sua participação no plano, que seria a aproximação e ganho de confiança, ela executou sozinha. A segunda parte, referente à armação do romance, seria feita com a ajuda da tal Dra. Paula Rangel.

Desta forma, o primeiro encontro com Luciana, na reunião, ela chegou na hora que Paula combinou; ela armou pra Rebecca dormir no apartamento dela ou ela dormir no flat para a Paula fotografar; armou facilmente o banho na casa de Rebecca; e no bar, foi avisada por Paula de que Luciana tinha chegado ao local; mais uma vez, devido à crença excessiva de Rebecca, facilmente a convenceu a ir para lá.

Então aconteceu: de tanto conviver com Rebecca, acabou sentindo atração por ela. Paula percebeu, pela forma como estava demorando a finalizar o plano; porém, ao invés de pressionar, propôs que desviassem um pouco do originalmente combinado e separassem as duas, o que atenderia ao interesse da instável médica; bem como, o seu próprio em conquistar a jovem. Aceitando a proposta, intensificou a marcação em Rebecca, para aumentar o ciúme de Luciana. O golpe certeiro foi aproveitar a briga no bar e cravar o prego em si mesma, pois sabia que desmaiava ao ver sangue; mediu a consequência: já que todas as outras sempre apontaram o senso de justiça da loirinha e sua aversão à violência de que sua ex-noiva era propensa, seria fatal o repúdio ao ver ela, sua inocente consultora e amiga, sangrando pelas mãos da doutora. Depois, foi só posar de vítima agradecendo Régia; provocando Rebecca contra Clara; se infiltrando nas fragilidades da jovem, até acertar cada ponto que a agradava. Mas, esse capricho custou tempo. E mesmo o afastamento da Dra. Luciana; isto não era para ocorrer.

Agora, estava colocando em risco sua missão original. Poderia sair dessa muito mal, caso algo desse errado. Sentiu o sexo latejar, dando-lhe maus conselhos. Precisava que tudo desse certo nesse jantar. Ela tinha que ter Rebecca. Nem importava ganhar o coração, pois teria que sumir mesmo; mas queria tê-la entre suas conquistas. Era um capricho, mas já estava arriscando tanto por algo financeiro; deveria ter uma diversão também. Rebecca valia o risco. Depois era pegar o dinheiro e ir embora.

 

***
***

 

Régia estava na sala de Luciana, enquanto Clara tinha permanecido no quarto com Anna.

De repente, a porta foi aberta e surgiu a figura loira, esguia, olhos castanhos, roupas um tanto extravagantes.

Não teve tempo para qualquer reação antes de ser beijada furiosamente.

Sabia que a mulher era a famosa Dra. Paula. E também sabia que fora confundida com a Dra. Luciana.

Ultimamente, Régia tinha deixado o cabelo parecido com o de Luciana. Não era mera coincidência que o fizesse, pois já salvara a vida de Bela Fatal com a semelhança entre elas; porque não poderia salvar Luciana também.

A prova estava tirada: enganara até a obcecada Dra. Paula.

Está certo que não durou muito tempo, pois a bióloga a empurrou.

A princípio, Paula não notou a diferença, porque Luciana a teria rejeitado assim; começou a gargalhar.

- OOpss!! Errei de boca!!!!! – ficou avaliando Régia, andado ao redor dela. - Você deve ser a jagunça sem-terra. Todos falam que você é a cara da Luciana. Admito que, no susto, engana mesmo. Mas, infelizmente, esses olhos estão muito tranquilos para serem os dela. É verdade que você é assassina? Matou uns sem-terra por aí?

Régia permanecia séria, com o olhar gélido. Neste momento, Luciana entrou junto com Clara.

- Como você entrou aqui...
- Pela porta, Luciana. Ainda não entendeu que eu entro a hora que quero aqui?

Clara foi para o lado de Régia. Luciana agarrou Paula pelo braço, puxando-a para longe do casal.

- A capacho aí não se deu bem com você, Luciana, e tratou de arrumar uma igual!!! – com uma sacudida, se livrou da médica morena, mas permaneceu ao seu lado. – Até que tem uma boca gostosa, mas não como a sua, meu amor. Serve para capachos como você, eficiente Clarinha!

A ex-secretária olhou para Régia interrogativamente.

- Ela me beijou pensando que fosse a Dra. Luciana. – Régia falou muito seriamente.

Para sem mérito, Clara não fez comentários.

Nunca tinham se encontrado antes, por isso Régia não queria perder tempo medindo forças. Queria observá-la o quanto pudesse. Embora que a inesperada presença dela, antecipando sua conversa com Luciana, tinha deixado a bióloga contrariada.

- Ah, Luciana. Você se livra de um chupim e aparecem mais!

Clara segurou a mão de Régia, não para detê-la, mas apenas para afirmar que sabia seus pensamentos.

- Vieram aqui alcovitar em favor da protetora de vocês? Sim, porque sem ela, seus dias de mamar na vaca leiteira estão contados. – Paula olhava para as unhas, desdenhando a presença do casal, enquanto falava.
- Paula, dos meus puxa-sacos cuido eu. Se veio para falar daquela vadia, você já deve saber que eu descartei essa pessoa. Ela é notícia velha. Quero que morra; essas duas aí são proibidas de mencionarem qualquer coisa sobre ela. Não posso proibi-las de terem amizade, negócios e o que for; mas não medirei consequências se insistirem em quererem me aproximar dela novamente. – Luciana lançou o mais maligno olhar para o casal.

Dessa vez, Clara e Régia se surpreenderam.

- Ui... fiquei com medo. – Paula disse, passando a mão no queixo de Luciana.

Ao passar pelo casal, simulou um tremor de pavor.

- Arthur deu o recado?
- Não vejo meu pai desde aquela reunião quando você ficou sabendo do seu chifre...
- ...Então, o que faz aqui? – Luciana cortou, não querendo dar margem para mais intrigas.
- Vim dar parabéns por se livrar da fedelha. Agora só precisa cortar essas ervinhas aí.

Luciana virou para o casal.

- Seja o que for que querem comigo, agora não posso. Vejam com minha secretária quando poderei recebê-las, depois que voltar da viagem.
- Mas, doutora, é muito sério o que temos para falar.
- Clara, qual a parte que não entendeu? Não pensa que está na confortável posição de me questionar.
- Luciana, vai devagar. Consideramos você como amiga. Não vamos regredir. – Régia advertiu.
- Está me ameaçando, Régia? – arqueou a sobrancelha perfeita.
- Entenda como quiser; mas quero saber por que está nos tratando mal? – da mesma forma, a bióloga arqueou suas sobrancelhas, ficando cara a cara com a médica.
- Não estou tratando mal e nem bem. – foi a resposta de Luciana, encarando a bióloga.

Paula olhava tudo com ar de deboche. Chegou perto de Clara.

- Luciana corre o risco de ser morta pela sua assassina de estimação?

O tapa de Clara em Paula assustou a todas.

- Uhhhhh... delícia de toque, capacho. – revidou a bofetada, rindo alto.

Régia grudou-a pelo pescoço em uma chave. Aos poucos, a gargalhada foi sumindo. A boca estava aberta tentando respirar. A líder puxou a língua da loira e começou a fechar a boca, de forma que os dentes pressionavam a carne.

- Será que isto responde sua pergunta? – disse, deixando a fera aparecer em seus olhos, outrora calmos, enquanto forçava a boca a se fechar.

Paula mexia os olhos, em desespero. Nenhuma das outras pareciam fazer algum esforço para ajudá-la. Estavam paralisadas.

- Não vai fazer piadinha ? Arrancaram sua língua???? – um filete de sangue começou a escorrer.

Régia sentiria um prazer enorme ao arrancar a língua ferina e estancar o veneno ali mesmo. Tinha ganas de fazer isso.

Clara, saindo do entorpecimento após o tapa, ao ver o sangue, correu para segurar Régia.

Luciana, ao ver tudo, rapidamente decidia se deixava ou não a líder fazer o que ela mesma queria: ia ser muito prático que outra fizesse o trabalho sujo de esfolar Paula; ainda mais sendo Régia, que já carregava tantos crimes nas costas. Com o movimentar de Clara, decidiu que não seria justo. Além do mais, a ordem era “chega de culpas”.

Desta forma, as duas mulheres seguraram Régia. Luciana usou toda sua força para desgrudar a líder. Clara afastou-se com Paula tossindo em seus braços. Rapidamente, tão logo se recuperou, a loira voltou a rir, mesmo com dificuldade.

- Seu toque é muito melhor, assassina!!! Estou molhada de tesão. – disse, numa voz embolada pelo ferimento na língua.

Régia garantiu que Luciana podia soltá-la. Clara veio segurar sua mulher.

- Paula, cala a boca.  Vocês duas, saiam. Vejam o dia que estarei disponível; caso contrário, vão cuidar da sua filha. Agora saiam. – a médica não estava mais contendo sua irritação, mas tinha algo a fazer.

Régia olhou fixamente para Luciana, enquanto saía arrastada por Clara.

- Que povinho grudento você arranjou!!! – Paula cuspia o líquido vermelho enquanto pegava gelo no frigobar.

Movendo-se com total familiaridade pela sala, foi ao banheiro e voltou com uma toalha, jogando-se no sofá. Luciana deu a volta na mesa, sentando-se na beirada, olhando diretamente para Paula.

- Enfim, sós!  O que a colega quer de mim? – a loira de olhos castanhos perguntou, com deboche.
- Você.

 

 

Continua...

 

 

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