Pentimentos

por Jackie de Sampa

Contato: cidajack@hotmail.com

 

 

 

VINTE E OITO
PARTE TRÊS

 

disclaimer no capítulo UM

 

"When fortune smiles on something as violent and ugly as revenge, it seems proof like no other, that not only does God exist, you're doing His will."
“Quando a sorte sorri para algo tão violento e feio como a vingança, parece prova de que, não somente Deus existe, mas você está fazendo Sua vontade!!!”
 - The Bride (Kill Bill – Vol. 1)

 

 

Às 20 h, Norah chegou ao apartamento de Rebecca. Trazia consigo uma garrafa de champanhe, flores, chocolates e cerejas.

Por sua vez, Rebecca a esperava com um delicioso jantar encomendado, já que não sabia o que preparar.

O ar estava denso. Ambas guardavam suas expectativas, bem como suas intenções carregadas de culpas.

Como sempre, apesar do clima, Norah foi a companhia agradável com a qual Rebecca se habituara.  Após o jantar, estavam relaxadas no sofá, bebendo o champanhe.  De alguma forma a intimidade aflorou e, entre uma cereja e um gole da inebriante bebida, as duas começaram a se beijar.

Desta vez, Rebecca não queria ‘observar’ o beijo: queria sentir. Sentir muito mais do que apenas assistir o corpo reagir.

As mãos de Norah tornaram-se mais atrevidas, livres pelo consentimento silencioso, já que as bocas ocupavam-se em sufocar suas ansiedades.

A curiosidade de Rebecca era mais contida; suas mãos buscavam onde firmarem-se, decididas em explorar alguma parte do corpo a sua frente.

Logo a jovem sentiu os botões de sua blusa cederem à urgência da consultora. Norah não queria ser afoita, mas os pequenos obstáculos pareciam se multiplicarem.  Buscando acalmar os ânimos, Rebecca empurrou Norah delicadamente para o encosto do sofá. Segurando suas mãos, pediu calma.

- Deixe-me ajudá-la com essas complexas invenções da moda. – disse, com um sorriso malicioso.

A jovem soltou o último botão, revelando seus seios envoltos pelo cetim da lingerie. Norah sabia que o corpo da jovem era estupendo, firme, com músculos bem distribuídos e uma deliciosa e lisa barriguinha. A gula no olhar de Norah era obscena. Entre saber e ter aquele corpo delicioso, o controle perdeu o embate. Ela começou a desejar ardorosamente aquele corpo sobre o seu. Rapidamente, arrancou a camiseta revelando que estava sem sutiã.  Tentou puxar a jovem sobre si.  Não conseguiu.  Rebecca parecia fazer algum jogo de sedução.

- Você terá que ter paciência. Jamais imaginei ter... - fez uma pausa demorada demais para o sexo latejante da consultora - ...outra mulher. – a jovem chocou-se com sua própria fala.
- Essa noite é nossa e eu sou sua! – Norah não queria ser precipitada, mas estava em seu limite.
- Deixe-me admirá-la.

Lentamente, a jovem retirou a calça jeans, deixando a outra mulher apenas de calcinha. Deixou a consultora nua. Era um corpo normal; ou anormal era a curiosidade que ‘não’ despertava em Rebecca. Não provocava urgência em sua libido; sabia que não seria a nudez que a alucinaria.

Norah percebeu o olhar. Não poderia perder agora. Subitamente, inverteu a posição, prendendo a jovem junto ao seu corpo, ocupando sua boca com o beijo ávido. Sentiu sua pele roçando na roupa ainda presente na jovem; o suficiente para arrepiar todos os pelos do corpo nu.

Puxou a jovem para ficarem em pé. Ainda beijando, tirou a blusa e a arremessou longe. Com um braço ao redor da cintura da loirinha, acariciou os seios por sobre a lingerie, provocando os mamilos, deixando-os volumosos. Desceu a mão sentindo a pele macia, quente, jovem. Continha-se para não salivar.

Rebecca sabia dos toques em sua pele, sabia das reações do corpo; mas não sabia dizer o que sentia. No começo, tentou se convencer que não analisaria, deixaria fluir e ser guiada pelo corpo.  Mas, sem conseguir sentir, foi inevitável as lembranças de toques mais precisos, de mãos mais possessivas, que percorriam seus caminhos com mais destreza; ou, simplesmente ao ver o olhar da consultora sobre seu corpo, lembrar do ardor, da brasa de sentir outros olhos azuis como laser a queimar de desejo cada ponto de sua pele.

Aquelas mãos em seu corpo a faziam sentir-se como uma paciente sendo examinada. E, lembrar de médicos naquele momento em nada favorecia à consultora.

Norah, perdida em seu prazer, não mais se importava com a evidente falta de reação da jovem. Ainda arriscando com a possibilidade de Rebecca seguir obstinada em seu plano de recomeço sexual, assumiu o egoísmo do desejo; deixando a cordialidade de lado, quis avançar por dentro da calça que já havia entreaberto, aproveitando a inércia aparente de Rebecca, entregue aos beijos e suas reflexões.

Ao primeiro toque em sua púbis, a inércia acabou. A realidade aflorou com toda força sobre seu real desejo.

- Sinto muito... - a jovem segurou a mão, impedindo o avanço - ...não consigo fazer esse jogo.

Norah demorou para entender. Rebecca a afastou.

- Não seria justo com você. Nem comigo. Desculpe-me. Não vou dar a você o prazer que merece. Nunca irei amá-la. Nem de corpo, muito menos de alma!!! – a voz estava embargada, mas decidida.

Disse, ao mesmo tempo em que largava Norah, nua, no meio da sala. Ao tentar se desviar para sair, foi segura pelo braço.

- Não faz isso comigo...- a voz mal saía tamanho o esforço para conter a raiva - ...por favor!
- Norah, essa não sou eu!!!  Isso não é o que eu acredito.

A cabeça de Norah fervilhava. Sentia frustração em seu desejo, em seus planos, em seu orgulho. Doía. E a dor facilmente se traduziu em ódio.

- Rebecca, por favor...
- Por favor você, Norah! Não percebe o que iria ocorrer aqui? Eu critico Luciana, mas ela é apenas sensata com seus desejos. Ela sabe que não é amor, é apenas sexo. Eu quero me iludir, mas nem ao menos aproveitar o sexo eu consigo.
- Consegue sim, amor. Você não pode se prender e nem se comparar à Luciana. Ela é um monstro sem sentimentos....
- Norah, para!!! Se você continuar, estará sendo tão fria e calculista quanto Luciana.

A consultora não queria deixar seu temperamento levar a melhor, por isso tentava ainda encontrar as palavras para seduzir a jovem.

- Rebecca, podemos tentar sem pressa, ao longo da noite.
- Norah, eu amo a Luciana. Minha mãe disse e é verdade: não posso desistir dela tão cedo.
- Cedo!?!?!? Ela provocou isso. Você sempre soube do que ela era capaz...
- ...e por saber, não deveria ter me abalado tanto. Deveria ter ficado e enfrentado junto. Não faz sentido. Eu só posso dar um passo como esse que íamos dar se realmente estiver sem ela no meu pensamento. Eu busquei em você comodidade; não era arriscado. Santo Deus. – começou a andar pela sala, esfregando as mãos – Norah, você veio para prestar ajuda profissional e eu a enredei num jogo sórdido que nem sei jogar. Ridículo. Posso ter estragado uma frutífera aliança profissional por causa de um impulso. Estamos aqui nos humilhando.

Norah buscou a garrafa de champanhe e sorveu num gole o líquido que ainda borbulhava. Em sua cabeça, ria da ingenuidade da jovem em achar que ela era a autora do jogo que se desenrolava nas últimas semanas. Norah não sabia se achava linda essa ingenuidade ou se tinha pena de alguém tão crédulo nas mãos das pessoas que a cercavam, incluindo a si mesma nesse grupo. Mas, ainda queria encenar mais um pouco, pois realmente estava se sentindo uma imbecil sendo preterida por criatura tão irritantemente romântica. Deixou a ira se mostrar; ainda tentaria incutir uma culpa em alma tão cândida.

Por sua vez, Rebecca viu os olhos azuis ficarem escuros e sabia que ela estava irada.  Não era para menos: o que ocorrera ali foi uma sucessão de enganos encobertos por desejos e conveniências. Tinha sido pior do que Luciana fora em qualquer momento dessa separação.

- Rebecca, preferia passar uma vida inteira sem que você me amasse a ter me submetido a esta humilhação. – o tom da voz era monocórdico – Se você não considera isto uma crueldade, precisa rever seus princípios. Se ‘eu’ seria o troco que você ia dar em Luciana; qual será o meu troco para o que me fez agora?

Rebecca estava imóvel. Para seu crédito, olhava Norah nos olhos.

- Eu corri o risco, sim; mas, você não pensou em me preservar. O que eu sou agora nesse circo? Você acha que vai voltar para Luciana? Se antes, ela já achava você uma peça usada, de segunda mão; agora, que demonstramos algo mais para aquela Clara e Régia que certamente já contaram para a chefe, sua palavra vale menos que titica de galinha para ela. Naquela cabeça torpe, que não a merece, eu já comi você faz tempo!!! Eu já usei desse corpinho lindo que um dia ela também desfrutou. Ela não quer meu resto, mesmo que eu não tenha tido esse prazer. Vê o circo armado? Eu queria você, apesar dessa confusão. E você ousa brincar comigo. Dói saber que nosso melhor sentimento, nosso desejo, consideração foram apenas experimentos. Se você gostasse, quem sabe poderia ficar com a tonta da Norah e esperar que a poderosa me massacrasse apenas por não poder perder?

A jovem sentia-se mal. As palavras de Norah não mereciam descontos por causa da aparente humilhação. Passada a excitação do desejo, ainda que nua, sua postura em nada era de alguém vencido.

- O que viu de errado em mim? Meu corpo é repugnante? Meus toques são brutais ou, por outra, não são animalescos como o de sua dona? É essa a relação: ela é sua dona e você o animal da vez no zoológico de criaturas que ela forma ao seu redor.

A fala terminou ao ser colocada a última peça de roupa. Norah saiu, deixando apenas o olhar magoado como lembrança.

Parada no meio da sala, Rebecca ainda escutava as palavras da consultora.

Sentia vergonha, pois sabia que cometera um erro; mas também sabia que erro maior seria prosseguir. Norah e ela ainda não tinham uma história; ela a magoara, mas em bases ainda reparáveis, obstante naquele momento a consultora não pensar assim. As acusações de Norah certamente pesariam sobre ela pelo resto da vida, mesmo que somente como exemplos dos erros que jamais seria capaz de repetir. Mas, agora tinha outras prioridades. Para o resto da vida também.

Pegou o telefone.

 

***
***

 

Já era tarde da noite, quando o celular de Clara tocou.

- Era Rebecca. – informou Clara – Ela quer me ver agora.
- Sério? E tem que ser agora?

Régia e Clara preparavam-se para ir ao encontro de Luciana.

Depois da conturbada situação ocorrida no hospital naquela manhã, elas decidiram que contariam tudo para Luciana sobre as descobertas ocorridas no clube, além das fotos tiradas.

Mesmo Régia sabendo que a médica era constantemente vigiada por Paula, não se importou em ir à casa de Luciana, pois era perfeitamente comum aos olhos da insana doutora Paula que os ‘chupins’ tentassem de tudo para não perder a ‘vaca leiteira’. Mas, por segurança, pediu que a reunião fosse na sala de troféus de Luciana, um lugar pouquíssimo visitado pela médica e de menor probabilidade de ter escutas. Desde a primeira vez que estivera na sala com Clara, sabia que era possível chegar ao local pelo jardim, bem como sabia que era possível entrar na mansão por uma entrada no fundo da propriedade. Somente Clara tinha a senha de entrada.

- Por que tem essa entrada? – Régia quis saber, após o acerto do encontro.
- Luciana eventualmente trazia algumas pessoas para certos rituais e não queria que a entrada principal fosse memorizada.
- Esse negócio de ‘rituais’ não são novidades na vida da doutora, então?
- Com certeza, não! Acredito, pelo que o Prof. Arthur disse, que começou com a Dra. Paula.
- É, isso explica algumas coisas ocorridas até agora.
- Mas, nosso problema agora é outro: Rebecca.
- Sinceramente, não vejo problema, pois eu falo com Luciana e você com Rebecca.
- Saco!!! Estou sem a menor paciência para as picuinhas da Rebecca. Quero acompanhar você e a doutora, pois sei que será um exercício brilhante de raciocínio; vocês duas são mentes inigualáveis. Entretanto, lá vou eu ouvir uma mocinha que não sabe para quem quer dar sua preciosa bucetinha. Merda!

Régia riu da expressão desconsolada. Puxou sua mulher para junto de seu corpo e, com muita propriedade, deixou seus dedos adentrarem a calcinha branca.

- Ela pode não saber para quem dar a dela; mas eu sei para quem quero desesperadamente dar a minha! – a loira falou, já ofegante.

Régia não esperou: colocou Clara sobre a bancada da pia e desceu entre suas pernas, buscando por sua abertura. Antes de iniciar qualquer ato, a líder olhou demoradamente para a vulva que se oferecia à sua frente, afastando delicadamente as dobras de pele até que o clitóris se tornasse atrevido. O olhar visto pela loira a fez rir. Riu de prazer, por antecipação, por agradecimento à deusa do amor.

Seria uma cena como tantas outras já vividas, assim como as naturais reações do sexo também já foram repetidas inúmeras vezes; mas, graças aos céus, não era ela que sentiria enfado por todas as reações já manifestadas.

Régia olhou para o rosto de sua amada e viu os olhos verdes brilharem, bem como o sorriso malicioso que mimetizava o seu próprio.

Numa atitude irreverente, Régia mordiscou o clitóris no sexo incandescente de sua mulher, fazendo-a tremer. Ambas olhavam-se com divertimento.

- Serei rápida, pois Luciana me aguarda. – disse, enquanto retinha a carne levemente entre os dentes.
- Serei rápida, pois meu fogo te aguarda!! – Clara ofegava sentindo a pontinha da língua roçando levemente seu ponto rijo.

Para seu crédito, Régia não deixou nenhum milímetro da vulva de sua amada sem receber o carinho de sua língua. Clara, por sua vez, não conseguiu cumprir sua palavra e segurou seu prazer o máximo que pode, para reter a maravilhosa sensação que tomava conta do seu corpo, desde a ponta do pé até o último fio de cabelo. Agarrou a cabeça de Régia e a fez lutar por respirar entre suas pernas. Régia era uma guerreira e esse tipo de batalha era apenas mais uma que venceria para a glória do prazer que Clara sabia conceder.

Clara perdeu o controle sobre seu orgasmo quando Régia acelerou as lambidas, metendo a língua dentro de sua vagina, alternando as sucções com as penetrações. Quanto mais mexia o quadril no impulso da excitação, mais deixava o rosto de Régia se lambuzar em sua umidade. Para a líder era um deleite sem igual sentir o gosto, o cheiro se espalhando por sua pele, como um perfume, a essência única, úmida. Infelizmente, teria que banhar-se para ver Luciana.

Com isto em mente, para frustração de Clara, Régia a carregou para o banheiro, ocupando sua língua com a língua gêmea, trocando sabores; lambendo o corpo amado ao mesmo tempo em que eliminava as poucas vestes sobre seu próprio. Já sob o chuveiro, atacou novamente de onde tinha parado. Foi instantâneo o orgasmo. Clara grudou no azulejo e por pouco não escorrega para o chão, não fosse o equilíbrio de Régia. Ela estava mole, a pressão arterial deveria ter despencado, o vapor a deixara sufocada, já que tinha dificuldade de respirar.

- Você está com pressa e eu não estou em condições, agora. Mas, me aguarde!
- Promessa é dívida, minha gostosa.

Rapidamente terminaram o banho. Cada qual saiu para sua missão, bem mais relaxadas e preparadas para a barra pesada que ambas enfrentariam.

 

***
***

 

- Que merda, Régia! Quando soube?

Luciana observava Régia falando ao telefone com Clara. Fez um sinal para que fosse colocado no viva-voz.

- Clara, a doutora está ouvindo também. Então, o João ligou agora. Acabaram de encontrar o corpo deformado. Ainda não falou com D. Ruth. Acha que deve esperar Rebecca.
- Sei. Entendi.
- Sei que você está com Rebecca, por isso liguei. Penso que é melhor uma amiga dar a notícia.
- Eu sei. Pode deixar. Algum detalhe que tenho que saber?
- Foi por aposta. Ele tentou enganar mais um. Jogou tudo que tinha, inclusive o cartão de banco. Dizem que o cara foi sacar e a senha era falsa. Então quando tentou fugir, teve o que merecia.

Silêncio no aparelho.

- Clara... não menciona meu nome, mas o que a Rebecca precisar você pode providenciar. Já prepara o jato. – Luciana se fez presente.
- Pode deixar. Ah, que horror! Ela está tão animada... Bem, vai ser uma longa noite.
- Amor, vou preparar as coisas para a viagem. Leve a Becky para nossa casa.
- Certo. Beijo.

Clara estava na sala. Rebecca tinha ido para a cozinha pegar o vinho.

A conversa foi a mais inusitada possível. A ex-secretária viera o trajeto todo se preparando para ter paciência e foi recebida, digamos, pela ‘antiga Rebecca’.

Após extenso pedido de desculpas, a jovem apenas disse que amava demais a doutora Luciana e que não iria mais fugir disso. Agradeceu pelo zelo do casal com relação a elas, protegendo sob danos físicos, o amor que sabiam nunca tinha terminado.

- Agora, Clara, é convencer aquela turrona novamente.
- Você tem certeza? Norah terminou realmente? – foi a pergunta cautelosa da ex-secretária.

A jovem franziu o cenho.

- Ela me preocupa, pois confundi a parte profissional com pessoal. Não sei como encará-la como nossa consultora. Não quero prejudicá-la. Não além do que já a transtornei. Mas, como disse a ela, não adianta eu tentar me enganar: amo Luciana, só sei ser amada por ela, meu corpo é dela... enfim, você sabe o que sinto porque amamos da mesma forma nossas morenas.
- Vamos esperar e ver como fica a parte profissional; de resto, espero que ela não cause confusão para você. Convenhamos que você não agiu da forma mais corretas com ela!

Estavam nesse momento da conversa, quando o celular tocou e a notícia foi dada.

Agora, o foco era outro. Clara respirou fundo e encheu a taça de vinho, bebendo um bom gole.

- Era Régia.
- Percebi, Clara. Onde ela está?
- Está com Luciana. Tivemos uma conversa meio áspera hoje de manhã, no escritório dela. Resolvemos ir conversar com ela novamente, para esclarecer as coisas; mas você me chamou, então nos dividimos.
- Luciana está dando trabalho? Você ficou mais séria depois da ligação
- Com a doutora está tranquilo. O problema é com seu pai.

A jovem sentou, bebendo um longo gole do vinho, repetindo o que Clara fizera antes.

- Vivo ou morto? – foi a pergunta desconcertante da jovem.
- Morto.

Clara não sabia se ficava chocada com a pergunta ou agradecia por não ter que preparar uma conversa confortadora.

- Mamãe já sabe? – Rebecca aparentava calma.
- Não. João está esperando por você, ou Régia, para irem contar.

Lentamente, a lágrima começou a rolar pelo rosto. Outro gole de vinho.

- Era inevitável que isto ocorresse. Será que eu fui a culpada? Depois que eu os localizei, ele virou outra pessoa! Que homem era aquele que nunca conheci como pai? Meu Deus, para que tantas perguntas se a resposta já foi tirada de mim! Clara, foi por jogo, não foi?

A loira mais velha confirmou silenciosamente.

- Por que eu fui devolver aquela fazenda, meu Deus! Ele não tinha o que apostar. Estava sossegado naquele sítio. O pouco que viu de dinheiro o modificou.
- Para com isso, Becky! Se for assim, eu também tenho culpa, por ter comprado a fazenda. Seu pai teve muita chance de sair dessa. Agora mesmo, nós fomos até lá e falamos com ele. Nos oferecemos para tirá-lo de lá e colocar em um lugar mais calmo; longe dos credores. Ele zombou de você, nos ofendeu novamente; por pouco, João não meteu uns tapas nele. Se você quer chorar por seu pai, chore. Mas não lamente ter achado sua família. Ele foi um efeito colateral.

Clara sentou ao lado da jovem, segurando sua mão livre. Estava um pouco trêmula.

- Eu vou para a fazenda.
- Nós iremos!
- Será que encontraremos um vôo?  E, depois, como iremos?
- Esquece que o jato está a nossa disposição? Só preciso fazer uma ligação para prepararem a nave. São 22h40 min, assim só partiremos amanhã cedo. Pegue suas coisas e durma lá em casa.
- Não. Ficarei bem aqui. Apenas faça suas ligações. Vocês não precisam ir comigo. Acabamos de chegar de lá ontem.
- Tem certeza que não precisamos ir?
- Claro!

Clara ligou novamente para Régia. Novamente Luciana quis ouvir.

- De jeito algum, Clara. Vocês irão com ela sim. Não quero Rebecca sozinha perto de outro assassinato. Régia irá para falar com o João e ver quem foi o mandante. Se ela não quer dormir na casa de vocês, tudo bem. Mas a viagem vocês irão sim.

Clara estava farta desses assuntos do pai da Becky; mas ponderou que D. Ruth e Lilly precisariam de pessoas mais calmas para resolver as coisas práticas. Além do que a doutora não deixara margem para réplicas.

- Becky, Régia quer ir. Ela quer ver a situação como está. Concordo com ela, pois acho que sua mãe e irmã vão precisar de ajuda.
- Vocês façam como quiserem. Amanhã nos encontramos então.
- Certo.

Clara permaneceu por mais meia hora com a jovem, tempo para confirmar o vôo. Aproveitou para observar se Becky realmente estava bem. Talvez pelo vinho, ela estava relaxada, deitada de olhos fechados.

- Bem, a nave só estará pronta depois das oito e trinta; assim, às oito viremos buscá-la. Vou para casa, ajeitar as coisas. Durma bem.
- Dormirei. Queria ter Luciana comigo.
- Vamos processar uma coisa por vez, certo?

 

***
***

 

Régia estava mostrando as fotos para Luciana, quando recebeu a notícia. Após comunicarem Clara, voltaram às ponderações.

- Por tudo que ocorreu no clube, com aquelas assinaturas falsas nos papéis de uso da sala e o vídeo; mais essas fotos; além das aparições da Dra. Paula; é mais do que evidente que ela a está seguindo, doutora.
- Então ela está nos seguindo, a mim e Becky, pois também tinha um jogo de fotos dela na casa de Norah que me foi entregue, como você já sabe.
- Norah... a doutora sabe que temos pouquíssimas informações sobre ela. As referências profissionais foram sumárias. Tirando o fato que ela e Waldemar não se bicam e de que Becky frequentava o apartamento dela, não temos mais nada.
- Não sabia. Achei que Clara tinha checado. Você desconfia dela?
- Clara checou com as empresas, mas não na vida pessoal. Digamos que ela não me convence, mas é só intuição.
- Não sei o que dizer, pois pouco quis olhar para a figura. Pelo que Clara disse, Becky está feliz com ela. Deixe ela para depois.

Régia não estranhou a postura da médica, já que havia deixado o caminho livre para a consultora.

- O que me irrita é o trânsito livre de Paula pelo hospital. Você ouviu ela dizer que entra e sai quando quer. Então, agora, fiquei intrigada com a situação do clube, que só não piorou porque a família abafou tudo. De qualquer forma, você foi lá e limpou qualquer pista. Mas, se eu não tivesse sua lealdade, poderia ter tido uma enorme dor de cabeça com aqueles documentos falsos. Não seria presa, mas estaria envolvida em um escândalo. Como Paula se beneficiaria disso? Quero ver a fita com a mulher parecida comigo.
- De longe parece com você, mas o que ela faz em cena a Marcella observou que não era sua forma de agir.
- Marcella tem ajudado? Vocês duas juntas?

Régia teve que rir da expressão de Luciana.

- Nem eu acreditei, mas ela é esperta demais para recusar a minha ajuda numa hora dessas. Deu-me todas as senhas e acesso ao clube; além de verificar pessoalmente todas as fitas gravadas clandestinamente. Ela é leal à doutora.

Luciana sacudiu a cabeça, numa expressão de inconformismo.

- Marcella foi uma decepção. Essa coisa do clube foi uma idiotice. Ela sempre quis crer que existia uma irmandade naquele meio; mas, infelizmente, são poucos e isolados os grupos que praticam bdsm com respeito e ética.
- Para mim é um assunto complicado. Fico pensando se, com todo o meu instinto assassino, eu poderia ser uma praticante?
- Basta ter domínio, independente do papel. Quando ele se vai, e ele foge com facilidade, tudo desanda e deixa de ser prazeroso; quando isto ocorre deixa exposto o motivo que não permite que seja compreendida a real satisfação nessa orientação. – os olhos de Luciana brilhavam, olhando fixamente para o líquido em seu copo.
- Nessa prática, qual o seu nível?
- Não sou devotada como Marcella, mas não sou displicente como Paula. Só tenho como regra nunca usar para sexo com submissos ocasionais.
- Algum motivo?
- Simplesmente porque não entendem o nível de conexão, não querem dor, mas arremedos dela; apenas excitação para espantar o tédio, acabam tornando banal a questão da dominação. E são os mais perigosos. Levam o dominador para a beira do assassinato. Só me entreguei a duas pessoas: Paula e Marcella. Elas foram as melhores. Quando não são dommes de fato, e logo eu sei, prefiro eu mesma dominar.
- Marcella falou que você é switcher. Ela esboçou certo preconceito, mas disse que você é a melhor. O que você busca?  O que dá mais prazer a você: sentir ou impor a dor?

As duas bebiam gim e tônica. Estavam na sala de armas, analisando a situação entre Luciana e Paula. De certa forma, falar sobre o assunto de dominação poderia ajudar a entender algumas coisas entre elas.

Os pares e olhos azuis encaravam-se. A médica observava o rosto a sua frente. Régia poderia dizer que estava sendo avaliada.

- Régia, não enverede por esse caminho. A menos que queira entender na prática.
- Queria entender, já que você é uma mulher que não vejo como submissa. Eu não me vejo como submissa, por isso também não a vejo assim.
- Com certeza, você nunca será submissa. O que fez com Paula hoje foi prova de que o controle foge na primeira oportunidade e nos faz cometer besteiras.

Régia sentiu a mudança de assunto. ‘Mais um dos fantasmas do passado que não devem ser tocados’ pensou.

Falando neles, tão logo Paula começou a aparecer mais, Luciana combinou com o casal que na presença dela, elas não se tratariam cordialmente. Queria deixar a médica ciente de que o casal era considerado como bajulador; pessoas que mantinha por capricho. Isto as manteria salvas contra possíveis agressões. Porém Régia não conseguira manter a cabeça fria.

- Você sabe que Paula não vai deixar passar barato o ferimento na língua. Aquilo foi tolice.
- Doutora, se eu quisesse matar Paula, não teria alterado um músculo de meu corpo. Não perdi o controle, pelo contrário, dei meu recado; não poderia deixar aquela louca atormentar a Clara. Vou ficar de olho.

Como Luciana, Régia não gostava de intromissões em suas atitudes. Sabia no que se metera.

- Dra. Luciana, de todas as coisas a que mais deixou Rebecca decidida a dar uma chance para Norah foram as fotos da garota de programa. – encerrou o assunto Paula.
- Régia, não vou negar as fotos. Não fui ao clube, mas queria tirar Becky da minha cabeça. Sexo sempre foi como um sedativo para mim, apenas isso. Ela sabe disso e não sei por que se revoltou tanto. Mas, o mais engraçado, é que eu fui um fiasco!

Régia disfarçou a expressão, engolindo o líquido forte.

- Essa garota não me fez nem cócegas. Nem ela e nem mais ninguém. Eu só sei me entregar à Becky. Não consigo mais desconectar para o sexo puro. No dia seguinte a essas fotos, eu nem saí da cama, com medo dos meus passos; com medo de ter medo sempre diante de pensar em amar, física ou emocionalmente. Eu amo Rebecca. Aquela mulher está em mim, como bem disse Ruth. Ela arruinou a Luciana predadora sexual. – disse, com um riso fraco – Tem que ser ela, com ela e por ela.
- Eu sei que ela também a ama, doutora. Por que não fala com ela?
- Eu amo Rebecca é fato. E a amo viva. Por isso, eu amo mais o bem-estar dela. Represento perigo, sou nociva a ela. Ela parece estar se dando com a tal Norah. Enquanto não souber o que fazer com Paula, não posso arriscar.
- A conversa com Paula hoje foi convincente?
- Não. Ela não quer ninguém perto de mim. Ela vai querer provas. E eu vou ter que passar por elas.
- Quem garante que essas provas não representarão algum atentado contra Rebecca?
- Já pensei na possibilidade. Calculei que é um risco menos eminente. Espero que tenha sorte no meu plano.

O celular tocou novamente. As duas morenas estavam ouvindo. Clara ligava de casa já. Ela confirmou o horário da viagem.

- Como ela está?
- Doutora, Rebecca está se culpando por ter levado o pai para a fazenda. Eu a deixei aparentemente calma, mas chorava desde o momento que soube.
- Que merda essa morte agora. Até para morrer o Andras foi inconveniente!

A revolta de Luciana ficou cômica, diante da gravidade da situação.

- Está muito frio nessa sala! – Régia reclamou, após espirrar.

 

***
***

 

Estava um dia nublado. Fina garoa. O clima no carro estava estranho, pois todas permaneciam caladas. Clara, como sempre, consultando os brinquedos eletrônicos. Régia usava óculos escuros e uma echarpe.

- Você está bem, Régia!
- Afônica! – mal pronunciou as palavras, fazendo um pouco de mímica.
- Ela e Luciana se reuniram na sala de armas. O ar lá dentro é quase glacial.
- Conheço aquela sala... rs... já tive princípio de pneumonia após fazermos certos ‘esforços físicos’ lá dentro... rs... suei demais sob o ar geladíssimo... - enrubesceu um pouco, mas manteve o sorriso como a lembrar de algo agradável.

Clara deu um sorriso e segurou na mão de Régia, encostando a cabeça da líder em seu ombro.

- Depois eu cuido dela, direitinho! – disse, com um sorriso malicioso.
- Vai deixar ela pior, hein?

Depois dessa conversa, o ambiente descontraiu, apesar do silêncio retornar.

- Você está bem? – Régia tentou falar novamente.
- Nem sei.

Becky não dormira bem. Passara a noite chorando. Por mais que Andras fosse uma pedra no sapato, não merecia morrer brutalmente. Ela sentia pelo pai que conhecera enquanto criança. O homem que conheceu recentemente, ela desprezava. Por isso, os sentimentos eram confusos.

- Temo estar sentindo pesar por racionalidade: ele era meu pai, eu tenho que sentir sua perda. Mas, na verdade, não sinto assim. Tenho buscado recordações que me ajudem a sentir algo de concreto. – baixou o olhar para as mãos – Minha vida está tão distante de mim no momento. É egoísmo, mas tenho outras coisas para pensar.

Clara ouviu as palavras e sabia o que se passava em Rebecca. Contara parcialmente para Régia que, por sua vez, relatara a conversa que teve com Luciana.

Era claro que ambas precisavam se encontrar, mas se Rebecca estava cheia de certeza quanto ao que fazer com seu amor, a médica não sabia o que fazer para resguardar e proteger a jovem. Pela primeira vez, Clara via a doutora sem opções, quase que desesperada; pessoas desesperadas cometem bobagens. Era inevitável.

Ao subirem no jato, Rebecca perdeu o equilíbrio e Régia segurou sua mão, ajudando-a. O tempo tinha melhorado, mas ainda estava frio. O calor da mão da líder fez a jovem estremecer. Era tão engraçado que uma amiga produzisse aquela sensação, quando na noite anterior uma mulher ardente não a tenha esquentado dessa forma. Pensou em Norah e sentiu vergonha.

Estavam no jato maior.

- Luciana sabe que estamos no jato dela?
- Não. – Régia respondeu rapidamente.
- Mas, com certeza, não objetaria diante da situação. – Clara emendou.
- Não sei. Luciana tem atitudes que desnorteiam qualquer um. Ela sabe do ocorrido com papai?
- Régia estava com ela quando João ligou.
- Hum...

Régia estava com os olhos fechados. Estava realmente indisposta. Nunca a tinham visto assim.

- Vem, amor, vem deitar aqui no reservado. Nunca mais fique naquela sala. – Clara estendeu o copo com água e as aspirinas.

Rebecca observou as duas se afastarem.

- Será que terei Luciana de volta? – foi a pergunta à Clara, que não entendeu a princípio.
- Ai, Clara, eu sinto tanto a falta dela. Ver Régia só me deixa com mais saudades; ainda mais quando vocês demonstram esse carinho e cuidado. Eu quero cuidar daquela mulher. Quero que ela saiba que sou dela. Ela querendo ou não!

Clara ficou meio sem fala diante dessa última declaração.

- Ontem eu fiz uma besteira. Sabe, não é nem pelo corpo; não sou nenhuma virgem imaculada; muito pelo contrário, graças à Luciana. – deu um sorriso malicioso – E graças a ela, também, ontem eu percebi que não tenho mais tesão, libido, desejo. Norah é uma mulher muito bonita, corpo perfeito, gestos delicados, pele macia, cheirosa, seios...
- Rebecca, já entendi essa parte... - Clara a interrompeu, meio desconfortável - ...se tiver que continuar trabalhando com ela, não gostaria de ter tantos detalhes. – completou.
- Ah, certo. Desculpa. Só queria ilustrar que estou completamente insana ao deixar uma mulher como ela na situação que deixei. Juro que eu até fiz um esforço para ser racional, o que seria um paradoxo num momento como aquele, mas era a forma como eu talvez me sairia melhor. Mas não deu! O azul dos olhos não eram os meus favoritos e nem invadiam meus sentidos; os toques não tinham o direito de posse que concedi à Luciana; o beijo era... não era. – deu um riso fraco.

Falavam em um tom mais baixo. Não queriam incomodar Régia. Por um momento, só se ouvia os ruídos da aeronave, que eram mínimos. Becky olhava pela janela as nuvens como algodões. Olhou novamente para Clara, pois sentia o olhar da mulher pousado nela.

Clara a encarou e viu que naquela cabeça a peça solta voltou ao lugar. Essa era a Rebecca de Luciana e de todas elas.

- Rebecca, espero que você tenha aprendido algo com isso tudo; mas, acima de tudo, que você nunca mais tente ser o que não tem aptidão para ser. O amor da doutora você conseguiu sem manipulações, apenas com sua determinação e caráter. E é assim que você faz. Acredito que a doutora sabe disso tudo. E ama tudo em você. Claro que não digo que ela goste de ser preterida; mas a sua atitude de querer preterir em defesa de suas convicções, isso com certeza a encanta. Você é uma mulher linda, tem encantos, fascínios, meiguice; com certeza, é uma amante dedicada, desde que tenha no coração o amor antes de qualquer sentimento ou sensação.
- Eu supus que em meio a nossa crise, Luciana se sentiria como eu, sem tesão por outra pessoa. Magoa saber que uma profissional concedeu conforto a ela, mesmo que tenha sido algo físico, sem amor, sem envolvimento. Foi uma suposição ingênua, mas foi mais uma esperança, uma vontade de crer que ela mudou. Então achei que deveria ter conforto também; de uma forma menos predadora, mas com um egoísmo calculado. Vingança contra mim mesma. Burrice idiota.

De repente, começou a chorar. Clara a abraçou.

- Eu deveria estar chorando por meu pai, mas choro por Luciana. Não sei como confortar minha mãe, porque agora eu preciso que ela me conforte. Que bom que vocês vieram. Adoraria que Luciana estive aqui.

O resto da viagem seguiu em silêncio.

 

***
***

 

- Mudanças de plano. O infeliz do pai da Rebecca foi assassinado. Voltaram todas para a fazenda.
- Tem certeza, Norah?
- Rebecca ligou ontem. Disse que quer conversar comigo, mas não poderia por conta do fato.
- Por que ela ligou para você?
- Digamos que afastamos todos os amigos dela e eu ganhei uma das vagas. – Norah não queria revelar suas investidas na jovem.
- Merda, merda, merda!!!!!  Será que Luciana sabe?
- Quem cuida da doutora é a Paula. Liga para ela.
- Espera que já retorno, Norah... – começou a rir... - ...gosto mais desse nome do que do seu verdadeiro.
- Lisonjeada!

Norah não viu problemas na situação; a seu ver, favorecia ainda mais ao plano. Queria ficar o mais longe possível do cenário que seria armado; assim, com a jovem na fazenda e ela em São Paulo, o álibi estava pronto.

Paula ainda não sabia que a noite de caça tinha sido um fracasso. Norah não contaria. Por mais que tentasse se convencer de que ter Rebecca seria apenas um plus em suas negociatas, sentia-se humilhada. A rejeição acertou letalmente sua estima. O pior era constatar que estava magoada.

- Norah... está ouvindo?
- Aqui.
- Paula disse que a doutora ontem permaneceu em casa. Mas Régia foi vista com ela.  E agora está no hospital.  
- Então sabe, porque aquelas duas relatam tudo para ela.
- O que significa que ela não se importou. Norah, o que você fez com Rebecca para deixar Luciana tão puta?
- Pior que num fiz nada. – respondeu a verdade, contrariada. - Enfim, deixa tudo pronto. Mas tem que ser sem violência. Rebecca é fácil.
- Nem eu quero que algo aconteça com aquela preciosidade. Preocupa-me que Luciana esteja alardeando que não quer vê-la nunca mais. E essa indiferença com a dor da perda da Rebecca atesta o fato.  Paula tem rondado por lá. Cismou agora com a Régia e a Clara.
- Isso é bom! Aquelas duas são os leões-de-chácara da Luciana. Elas podem causar problemas.
- A tal Régia quase arrancou a língua da Paula. Confesso que teria feito um bem: aquela fala demais e irrita.
- Por que a colocou no plano, então?
- A insanidade dela é conveniente. Além de ter livre acesso à Luciana.
- Ela quer Luciana e não se importa com ninguém, principalmente Rebecca.
- Você parece bem preocupada com a Rebecca. Por mim, quero que Luciana pague; de preferência, primeiro em dinheiro; depois, quem sabe deixo Paula cobrar a dívida dela.
- Não estou preocupada com ninguém! Também quero dinheiro. Quero sair da mira dessa gente. De vocês. Não faço parte dessa história. As contas do passado são suas. Entrei por grana, espero sair com a grana. Rebecca é uma vítima de todas vocês, sendo que a maior vilã é essa tal Luciana.
- Ok. Vamos trabalhar. Já que você é a nova amiguinha, sonda quando ela volta. Tenta fazer com que volte ainda essa semana.
- Não garanto.

 

***
***

 

- Larissa, quero uma reunião com o gerente de credenciamentos; também quero saber onde você agenciou aquela moça que me serviu outro dia e prec...
- Moça, doutora? Que moç... - a secretária não se deu conta que interrompera a médica.
- Você me interrompe para demonstrar incompetência estando apenas a cinco minutos na minha presença?

Larissa nem se atreveu a perguntar novamente. Fez que entendeu.

- Quero ver o Waldemar hoje.
- Amanhã terá reunião do time de qualificação. Quer que o chame hoje mesmo?

O olhar de Luciana fuzilou a pobre moça; Larissa entendeu e nem arriscou mais nada.

- A doutora deseja mais alguma coisa?
- Uma secretária competente; mas seria pedir demais!!! Traz umas aspirinas. Saudades da Clara!

Deu a volta e sentou de costas, olhando para a janela.

- Larissa, eu quero a substituta da Marcella e o chefe de segurança aqui. Imediatamente.

O primeiro a chegar foi o gerente.

- Quanto tempo permanecem os dados de um associado, plano empresarial, após o desligamento? Tentei localizar um associado e não consegui.
- Nós não mantemos registro com mais de 3 anos. Posso providenciar para que a empresa de arquivo localize alguma mídia de backup.
- Você tem 2 horas para isso. Quero os últimos 5 anos. Também quero acesso ao banco de dados.
- A doutora já tem pelo sistema...
- Quero acesso à estrutura do banco de dados.
- Alguma query ou view que possamos fazer?
- Não. Apenas monte um banco com a restauração do backup e me dê acesso irrestrito. Somente para mim, entendeu? Em duas horas quero esse acesso.

Ele nem bem saiu, entrou a diretora adjunta de Marcella para o hospital, juntamente com o chefe de segurança.

- Bom dia, doutora.

Estava prestando atenção ao monitor, vendo a relação de nomes de associados. Não respondeu.

- Quero que cheque todos os vídeos de segurança dos últimos dois meses que contenham essa pessoa ou alguém semelhante. - tirou uma foto e entregou ao segurança.
- Sim, senhora. Vai demorar... -
- ...dois dias, no máximo! Detalhe: sigilo absoluto. Quero que faça isso pessoalmente. Nada de sair daqui resmungando com todo mundo. Entendeu?!?!
- Sim, senhora!

‘Ao menos esse não faz perguntas’, pensou aliviada.

Fez sinal para o chefe de segurança sair e voltou-se para a diretora.

- Quero um levantamento detalhado sobre todo o movimento administrativo: compra, venda, estoque, contratações, empresas terceirizadas, tudo que possa ter ocorrido nos últimos dois meses e que não se encontre na nossa curva de normalidade.
- A foto que a doutora mostrou é da filha do professor Arthur, certo?

Intrigada, Luciana assentiu.

- Ela tem circulado muito neste andar e também foi reportado pelas enfermeiras que ela ronda constantemente o quarto da menina Anna.
- Por que não fui informada sobre isso antes? – o tom calmo não era bom sinal.
- Temos ordem do professor para deixá-la circular apenas neste andar. E sua ordem é para que ela não entre na sala do seu marido e fique na sala do pai, mas não é fácil mantê-la apenas em um lugar. Ela nos ameaça sempre.
- LARISSA!!!! – num gesto súbito, Luciana nem se deu ao trabalho de usar o telefone, em passos largos já estava na porta, gritando pela secretária.

A moça entrou acuada diante da expressão da médica à porta da sala. Os ombros baixos como um cachorrinho que fez xixi no tapete.

- Ela disse que Paula está ameaçando vocês e com isso transitando livremente pelo hospital. – fez uma pausa, olhando diretamente nos olhos das duas mulheres, que baixaram a cabeça não suportando o olhar. - Ela ameaça; eu executo. – disse pausadamente - Desde quando ela manda mais do que eu aqui? Qual parte que vocês entenderam, e eu não me lembro de ter dito, que eu não sou DONA DESSE HOSPITAL? EU PAGO O SALÁRIO DE VOCÊS!!! EU DEI ORDENS!! E TODOS PARECEM TER IGNORADO. O QUE OCORRE?

Larissa olhou para a diretora e novamente para Luciana.

- Dra. Luciana... - a diretora tomou a palavra - ... a Dra. Paula ameaça a todas fisicamente. Com a Larissa ela colocou um bisturi no rosto dela, jurando marcá-la se falasse algo sobre vê-la aqui no andar. Eu... bem... antes de saber dessas ameaças, ciente de que todos sabem que  monitoramos os andares, pensei que a Dra. Paula também tivesse ciência disso e nem se importasse. Da mesma forma, a doutora também tivesse esse conhecimento, por isso também não nos culpava pelo trânsito dela aqui.

Luciana andava de um lado para o outro.

- Minha sala não é monitorada. Ela disse que entra e sai livremente dela; deu sinais de que conhece todos os cantos aqui, transitando com desenvoltura inclusive para saber onde estão os objetos em meus armários. Isto eu precisava saber! – disse enfaticamente.

Olhou para a secretária. Sentiu pena. Outra vítima do passado da famigerada doutora Luciana.

- Larissa, porque não veio dizer para mim dessa ameaça absurda?
- Ela é filha do Prof. Arthur... e, bem... - ...começou a corar e Luciana pode imaginar o que mais havia dito... - ...bem, ela não gosta da senhorita Rebecca, digamos assim, e disse coisas que a desqualificou, ressaltando que a doutora estava furiosa com a senhorita... – corou ainda mais -...disse detalhes íntimos ocorrido entre as doutoras e que aqui era o lugar da mulher que era dona da senhora. – ao terminar, parecia que tinha comido e vomitado um prato indigesto, tal era a expressão.
- Eu a aconselhei a não se envolver. – a outra mulher interveio - Não temos bala para enfrentar à altura. Prezamos e precisamos de nossos empregos.

Olhou para a diretora. Com um gesto, incentivou-a a falar.

- Todas as líderes de governança tiveram algum problema com ela. Vi o hematoma no braço de uma delas. No restaurante ela vive aprontando, colocando defeitos na comida, revirando os pratos no self-service; na lavanderia também, já ouvimos alguns boatos; e na cozinha dos internos ela tentou entrar, mas foi barrada pelo segurança, já que... - engasgou para dizer... - bem, eu não confio nela e nem em suas atitudes; temi que pudesse causar algum dano aos pacientes. Todos são minha responsabilidade. Assumo o que fiz, mas também fui acuada por ela e, sinceramente, não sei se a enfrento de novo.  – afastando a echarpe, mostrou a marca ao redor do pescoço.

A médica ficou sem palavras momentaneamente.

- Qual o seu nome?
- Izabel.
- Pois bem, Izabel, você disse que ela ronda o quarto da menina. Por que não a protegeu também?
- Como soube que a doutora vai quase que diariamente ao quarto da menina, algumas vezes até pernoita; e que também foi vista conversando com a doutora Paula por lá; presumi que estava tudo certo.
- Presumiu errado. Quero que vocês parem de presumir as coisas!!! – disse, socando a mesa - Eu quero seguranças 24 horas na porta dela de agora em diante. Aquela menina é um investimento deste hospital, tem monitoramento constante da mídia especializada em medicina, bem como tem a comoção popular. Ou seja, nada, mas nada mesmo, pode acontecer com ela sob nossas dependências. Entendeu??

A diretora respondeu afirmativamente.

A médica olhou demoradamente para as duas jovens diante dela. Não tinha imaginado o pesadelo que estava se configurando nas vidas de todos que a cercavam. Percebeu que deveria temer realmente a insana mulher.

- Vou indenizá-las, vocês e a outra moça.
- Não precisa...
- ...precisa sim. – disse sem margens para réplicas - Vou verificar com meus advogados como faremos. Mas, de agora em diante, fiquem alertas. Chamem os seguranças assim que ela aparecer nos andares. Não tentem enfrentá-la. Deixem-na circular livremente, já que a invasão não foi evitada; mas, protejam-se. Ela é mentalmente desequilibrada; é obcecada por mim e psicopata. Não hesita diante de dor, tanto para causar quanto para receber.

A médica sentou-se pesadamente. As duas funcionárias permaneciam em pé, diante dela.

- Izabel, quero uma reunião com as líderes de governança; quero todos os relatórios possíveis na minha mesa antes dessa reunião. Também quero falar com as enfermeiras que atendem o andar e as que são exclusivas da menina. Larissa, você já conseguiu o que pedi? Fala para o chefe de segurança que não quero mais todos os vídeos, só os do quarto da Anna. E quero acesso às câmeras do quarto dela também.

 

***
***

 

D. Ruth, tal qual Rebecca, percebeu imediatamente que o retorno súbito de todas era algo com Andras. João de Deus não teve coragem de contar antes. Nem tanto por Ruth, mas por Lilly.

- O que fizeram com Andras?

Rebecca foi para o lado da mãe, mas acabou abraçada com LIlly.

- Aconteceu algo com papai? É grave?

Clara estava ao lado de Régia, que tirara o óculo. Fitavam Ruth.

- Ruth, o desinfeliz foi matado, depois de tentar passá a perna nuns cabra jogador. Num sobrô muito prô cê reconhecê. Num pude sarvar ele dessa vez. – João foi o mais direto que pode.

As três mulheres Stoianoff começaram a chorar. Lilly era mais enfática em seu pranto.

- Ai, homi dismiolado! Eu sabia. Num tinha como sê diferente. – Ruth resignou-se.
- Dismiolado e burro. Achô que ia se dá bem di novo, como ocorreu com a outra aposta. Dessa vez pegaram ele.

Clara prontificou-se a tratar do funeral. O corpo estava retido no necrotério da cidade. Após algumas negociações, foi liberado sem necessidade de reconhecimento familiar. Régia atestou que estava em estado lastimável, traumatizante demais para as familiares.

- João, a Ruth e a Lilly estarão seguras aqui? Eles podem querer cobrar delas a dívida? – a mulher de olhos azuis quis saber.
- Em argum outro lugar, vai tê outros enterros, si ocê mi entendi!

Fizeram tudo como deveria ser. O velório foi com caixão lacrado, na antiga enfermaria da fazenda.  Apesar dele não ser querido, as pessoas vinham prestar seus pêsames às mulheres Stoianoff que eram bastante consideradas pelo povo local.

As carpideiras estavam presentes, com suas rezas intermináveis.

Clara e Régia, ainda que não simpatizantes, permaneceram no velório; havia cachaça, café, bolinhos e alguns outros regalos. O falatório corria solto.

Ruth veio falar com a líder, quando Clara se afastou com Lilly e Daniel.

- Povo num pode sabê de defunto. - disse, demonstrando cansaço - Cadê Luciana?

Com certa rouquidão, Régia respondeu que não sabia.

- E a tar Norah, num quis vortá?
- Partimos rápido.
- Humm.

Ficaram em silêncio, olhando o caixão no meio da sala.

- Fiquei cum ele por todos esses anos. Tanto tempo e num conheci ele. Também num amei. Respeitei, cuidei, dei fio, mas num amei. Naquele tempo, as muié tinha que tê um homi. A gente era meio estrangeiro. Tinha que ficá em colônia. Num tinha o qui escolhê. E, escolhido, num tinha como separá. E, despois de um tempo, nem valia a pena pensá em separá. Jeito era fazê vista grossa, criá os fios e envelhecê. Vida besta! – deu uma risadinha sendo acompanhada pela mulher de olhos azuis.

Subitamente, pegou a mão de Régia e a olhou diretamente nos olhos.

- Brigada por vortá por minha minina. Ela tá confusa. Acha que deveria ter deixado a gente onde tava. Tá achando que tem curpa na morte do desinfeliz.
- Ela é boa moça. Tem esse senso de bondade. Tenho muito carinho por ela. – o olhar recaiu sobre a jovem, abraçada com a irmã ao lado do caixão.

Ruth permaneceu segurando a mão da líder, ao perceber a ternura em seu olhar. ‘Essas muié duronas... a quem pensam que engana?’

- E inda tem essas besteiras entre ela e a dôtora. Mas, ela vai acertá. Vai sê feliz com esse amor lindo. Num vai sê besta como eu. Num vai se grudá com quem num ama. Ela num ama aquela Norah. Num tem que fazê isso. Sei que ela tem seus desejos; eu também tinha, mas muié daquela época num podia pensá nessas coisas com tanta importância. Becky diz que pensa nisso....
- Em sexo, Ruth?
- É, em sexo... - enrubesceu - ...pensa nisso porque a dotôra ensinô. – riu novamente – Bem mi lembro das aulas, com certeza. Por isso qui sei que num tem mais outra professora. Mas, sexo num é amor, num é mesmo?

A mulher de olhos azuis deu um leve sorriso.

- Ela tem que esquecer Luciana. Não dá mais para ser algo confiável. Vai que dá certo com a Norah! Seria melhor.
- Cê acha qui a dotôra vai deixá?
- Luciana já deixou. Becky está por conta própria! Luciana está sendo coerente, pois seria um desastre. Não devemos mais nos intrometer.
- Cê tem certeza? Cê pensa assim mesmo?  Cê era a mais contrariada quando foram imbora!
- Ruth, onde você quer chegar? – Régia endureceu a voz.
- Tava matutando... mas, quero agradecê ocês, di quarquer forma, porque vejo que cuidam da minha fia e do amor dela. Ocê num me engana com esse disfarce.

Régia franziu o cenho, com desconfiança.

- Cê sabe o que é amor e quem é seu amor. Por favor, protege minha minina. Só confio em ocê!

A mulher de olhos azuis ficou séria, cabisbaixa, nem percebendo que Becky veio perto da mãe.

- Queria Luciana aqui, mãe. Ela não gosta do papai, mas ela não ter vindo me deixou triste. – encostou a cabeça no ombro da mãe.
- E a tar Norah, que fim levou?
- Ela ligou hoje. Aqui é difícil pegar celular. Queria vir, mas não tem razão. Ela nem conhecia papai.
- Do jeito que tava de grude com ocê num ia se importá em puxá mais meu saco. Tá tudo certo com cês duas, fia?
- Tá, sim,mãe. Isto não impede de querer Luciana aqui. – mudou de assunto. - Olho para você, Régia, me olhando com tanto pesar e vejo Luciana.
- Você falou da doutora, mas está igual: quer uma na cama e a outra para consolar! – a líder foi meio dura.
- Ai, Régia, não compara. Nunca vou entender essa prática. Deixo isto para a doutora, que é a especialista em departamentalizar sentimentos. – respondeu, com certo pesar.
- Desculpa! – a líder disse, baixando os olhos novamente.
- Sabe que não precisa se desculpar. Nem me evitar. – tocou o braço da líder, afagando-o.

Nesse momento, Clara olhou e chamou Régia.

- Clara me chama. – e se afastou.

Lá pelas tantas, todas se recolheram, pois o enterro seria cedo. Régia alegou que ficaria mais um tempo, junto com João de Deus, pois temia algum tipo de manifestação no velório. Assim, Clara foi sozinha para o quarto. Régia bebia cachaça e conversava com o capitão.

No dia seguinte, o enterro transcorreu normalmente. Ruth chorou juntamente com as meninas. Falou algumas poucas palavras, principalmente pedindo a clemência dos céus para com as atitudes terrenas do defunto.

Estavam na sala, após o almoço. Aliás, quase ninguém comera direito. Lilly ainda estava inconsolável, sendo amparada pela irmã, que oferecera-lhe um calmante.

Ruth trouxera um chá de hortelã com mel e agrião para Régia que o tomava, olhando pela janela. Clara também bebia um chá, envolvida com uma revista, enquanto os demais tomavam café. O tempo tinha clareado, mas o chão ainda estava úmido.

- Vocês vão usar a cabana, Clara? - Rebecca perguntou, após deixar Lilly no quarto, adormecida.

Régia imediatamente olhou para a ex-secretária.

- Não. Vamos embora amanhã. Não viemos para passeio...
- Então eu vou. – disse, dirigindo-se à porta.
- Você não vai voltar conosco?
- Vou ficar mais um pouco, Clara. Depois eu arrumo um vôo comercial. Régia, quero falar com você, pode me levar para a cabana?

A líder olhou para Clara.

- Lá não tem tanto conforto. Nós gostamos porque tem valor sentimental, uma vez que Régia ressuscitou lá; nosso amor floresceu lá. Mas, você sozinha na cabana não faz sentido! Nem a cachoeira vai dar para desfrutar, com esse tempo que fez.
- Clara, menos! Quero apenas um pouco de isolamento. Quem sabe meu amor também não renasça lá? Sonhar ainda é livre... rs... imaginar Luciana entrando pela cabana, jogando-me ao chão, me pegando com suas mãos fortes, seu beijo embriagador, seus toques...

Ruth pigarreou, já que João de Deus estava vermelho; Clara e Régia meio que sorriam, maliciosamente.

- Minina, tenha modos na frente das pessoas. Respeite seu pai que nem esfrio ainda! – Ruth disse, mas em tom de falsa represália.
- Enfim... - disse, sacudindo a cabeça - ...Régia me leva e depois volta.
- Ok. Eu vou também então!
- Clara, quero conversar a sós com Régia. Ela esteve com Luciana ontem, quero saber algumas coisas.
- Régia está indispost...
- Eu vou. – a líder respondeu, ainda com a voz limitada.

Foi o tempo de prepararem os cavalos. Ruth fez Rebecca levar uns sanduíches, frutas e bolo.

Boa parte do trajeto foi feito em silêncio. Becky na frente, seguida por Régia; Daniel e João, ao longe também as acompanhavam. O menino tinha ordem de esperar o tempo que fosse para trazer a jovem de volta; enquanto o capitão retornaria com Régia.

- Régia, Clara já deve ter contado a você o que fiz com Norah ontem à noite. – disse, quando os cavalos se emparelharam.

A líder permaneceu em silêncio.

- Eu tive em minhas mãos uma mulher desejável, fogosa, pronta para mim. – dizia e olhava para a mulher no cavalo ao lado – Norah queria meu corpo com volúpia. Estava tão afoita, que se atrapalhava com as próprias mãos.
- Coisa de amadora. – a líder tentou uma piada.
- Pode ser. – a jovem sorriu fracamente – Mas, com certeza, era muito tesão! Desejo por mim. As mãos em meu corpo eram quentes. Lábios úmidos. Olhar de gula.
- Rebecca, ponto para você; azar da Luciana. Eu não preciso ouvir isso. – a líder disse, se revirando na sela, como se nunca antes tivesse montado.
- Você está conversando com Luciana. Quero que você conte a ela como foi minha noite com a mulher para qual ela me lançou, feito uma boneca velha.
- Rebecca, você acha que eu sou leva e traz? Que vou me servir a dar recados íntimos para a doutora? – olhou com frieza para jovem - Ultimamente, você anda se confundindo a meu respeito. Cuidado que não costumo ser tão condescendente como estou sendo! – dizendo isto, saiu cavalgando para perto dos homens.

Rebecca sentiu medo, mas não ia se intimidar. Sabia que precisava contar para ela tudo, pois era sua chance de fazer Luciana ouvi-la e saber que nada que ela pudesse fazer agora, faria com que mudasse de idéia. Luciana não era mais uma missão: era a sua vida, seu destino que sempre seria amar a médica e seguir atrás dela, mostrando que o amor suporta tudo e todas as provas. Luciana era seu lar, era a plenitude da compreensão do seu próprio todo como mulher, como ser humano.  A líder ia escutar, quisesse ou não! Depois, faria o que bem entendesse com a informação. Acelerou o cavalo e emparelhou novamente.

- Régia, você foi a mais renitente em crer nesta confusão toda. Nunca gostou de Norah, sempre teve sua teoria da conspiração e, em momento algum, tenho que ser honesta, veio dar conselhos, apesar do seu desagrado; porém sempre defendeu Luciana.

A mulher de olhos azuis permanecia focada na trilha.

- Escuta, preciso que você me ajude. Agora mais do que nunca! Norah foi um erro!

Os olhos azuis ergueram-se, mas não a fitaram.

- Chegamos! Vou entrar para ver se está tudo certo. Depois vou embora. Você procura por Luciana, se ela quiser te receber, então conte pessoalmente sobre suas experiências com a consultora.

 

***
***

 

Desde que a pequena comitiva partira, Clara ficou agitada. Andava de um lado para o outro, quase cavando um buraco no chão de madeira.

- Tá nervosa por quê, D. Clara? Régia é muié adulta e Becky também. As duas sabem se defender.

Os olhos verdes olharam para pares de verdes em outra tonalidade, tentando assimilar o que fora dito.

- Como?
- Cê tá parecendo incomodada cum a partida delas. Num achava que cê tinha ciúmes da minha fia com a Régia!
- Que ciúmes, D. Ruth!?!?! Desde quando? – Clara ficou extremamente sem graça.
- Desde que ocês acharam que minha fia é tonta!

D.Ruth disse, em tom divertido e riu ainda mais da cara da ex-secretária, que parecia ter engolido todas as moscas do ambiente.

- Do... do que  você está falando?
- D. Clara...
- Clara.
- ...Clara, eu conheço ocês. Demorei um tiquinho prá sabê, mas foi um tiquinho mesmo!!!
- Posso saber o que você soube que eu não sei?
- Percebi umas mudanças na D. Régia... que me alertaram prum fato...

Clara sentou. Pegando a revista que nem folheava mais.

- Antes do cê tentar lê essa rivista de cabeça pra baixo...

Clara jogou a revista, como se fosse uma batata quente.

- Eu, agora, sei o mutivo de ocê tá preocupada. – disse, com ar de esperteza.
- Temia por isso!
- ...ela num tiro os zóios de cima da minha minina. Nem durmi com o ocê ela foi!!!! É prá preocupá mesmo!

Clara escondeu o rosto entre as mãos e, de repente, começou a sacudir os ombros. Ruth ficou preocupada com a reação. Será que cometera um engano falando o que falou?

 

****
****

 

A mulher morena caminhou a passos largos, fazendo Rebecca correr para alcançá-la. Tão logo entrou na cabana, a jovem trancou a porta atrás de si.

- Olha para mim, Régia!!!

A morena não pode evitar. A loira a segurou pelo punho, fazendo-a encará-la. Com uma sacudida brusca, a líder livrou o braço, desviando o olhar da jovem.

- Quero que diga para aquela turrona que eu não consegui!!! Não pude deixar Norah ter meu corpo, não por ele; mas porque eu falhei miseravelmente em evitar comparações. Aquele corpo não era o meu ambiente; aquele azul não era o meu mar onde mergulho sem hesitação; aquela boca era pesada contra a minha. Eu fui uma ridícula querendo imitar algo que eu não entendo. E quer saber o que eu sei aqui? - a mulher morena de olhos azuis parecia abobalhada, quando a jovem levou sua mão ao peito, onde estaria o coração - Sei que ele só vai voltar a bater se eu me entregar novamente à mulher que eu amo!

Os olhos azuis viam a intensidade dos verdes, cada vez mais próximos. Por segundos, os perdeu de vista.  Ao sentir a mão de Becky em sua nuca, recobrou os sentidos.

- O que você está fazendo, Rebecca? – disse, tentando afastar-se.

Rebecca, num movimento rápido, desequilibrou a líder, jogando-a no chão. Deitando-se sobre ela, beijou-a. Avidamente, saboreando a boca, chupando os lábios. Foram vários segundos antes da reação indignada.

- Ficou louca?!?!?!? A Clara...
- Loucas ficaram você e Clara, por acharem que me enganariam, Dra. Luciana!!!!

Dizendo isto, retomou o beijo, prendendo o corpo da morena contra o chão rústico.

 

****
****

 

João e Daniel esperaram umas duas horas.

- Acho que a Rebecca ganhou a aposta! – Daniel disse.
- Num me diga que o isprito di porco do pai já incostó nela com essas marditas aposta!! Quero ocê longe disso.
- Pai, sossega! – o menino percebeu a cara de espanto do caboclo
- Óia que te quebro as fuças!
- Pai... você sabe de tudo. Rebecca soube desde o começo!! Eu apostei que ela tava errada, mas pela demora, não só estava certa como também num precisa mais de nós. Vamu embora!
- Essa cabana inda vai virá moter!!!
- Lilly queria vir conhecer...
- ...nem pensa nisso, nem pensa!!! D. Ruth me mata!!!!

Os dois seguiram rindo pelo caminho.

 

***
***

 

Clara não parava de sacudir os ombros, deixando Ruth preocupada, ainda que cautelosa.

- Cê tá chorando, Clara?
- D.Ruth, você É ÓTIMA!!! – Clara disse, revelando que estava rindo, para alívio da jovem senhora.

Então, ambas começaram a rir.

- Desde quando soube?
- Bem, minha fia contou do fracasso que foi a coisa dela com a tar Norah. Aí, falou que sentiu um arrepio intenso quando Régia a segurou pra num caí da escada do jato. Eu disse qui ela tava meio sacudida com a coisa toda, qui Régia é muito parecida com a dotôra, ainda tinha a morte do desinfeliz do Andras. Ela mudou de assunto, mas sabia que num tinha deixado prá lá. Aí, eu qui fiquei com minhoca na cabeça. E fiquei tocaiando a D.Régia.

Clara escutava, ainda sorrindo.

- Então fiquei intrigada que o corte do zóio foi pará na boca.   
- Tentamos colocar maquiagem para disfarçar.
- Burrada grandi: D. Régia num ia colocá pó na cara. Dispois, as botas eram sem sarto. Aí, eu peguei nas mãos e, só si ocês tivessem descobrido um creme muito bão, prá sumi os calos da mão dela.

Clara riu da esperteza da mulher a sua frente, bem como da própria ingenuidade delas.

- Aí, a muié num conseguia tirá os zóios azur de cima da minha fia. E ocê nem encostou na Régia, ficando com a cara enfiada nas suas coisa. Eu conheço ocês e sei que num desgrudam. Nessas coisa de fogueteiras, cês forma os mesmo tipo de casar: cê cum Régia e minha fia com a dotôra num ficam perto sem pregá fogo...
- Ruth!!! Era um velório!
- Do Andras, qui era muiiiitooo respeitado pro cês!! Tá bão qui ocê e D. Régia iam drumi separadas só por isso!!!

Clara corou, mesmo rindo da verdade. De repente, ficou séria.

- E Rebecca foi desmascarar a doutora na cabana. Minha nossa!!!!
- Num sei como ainda num vimos as faíscas daqui!

Clara acharia ótimo, não fosse o que escutara das coisas ocorridas no hospital, quando Régia ligou. A Paula estava rondando e a doutora fizera algum acordo com ela. Com o impulso de vir ser solidária com Becky, mesmo sob risco calculado, Luciana foi imprudente.

Resolveu contar tudo para Ruth, pois precisariam segurar Rebecca.

- D.Ruth, senta. É uma longa estória!

 

***
***

 

Para seu mérito, a morena ainda tentou se debater, mas não teve forças para resistir ao desejo. Era aquilo que queria ter feito desde o primeiro instante em que viu Becky; não no carro, ou no avião, mas naquela noite no bar. Desde aquele dia, não teve paz! Não deixou de sonhar com os lábios amados; com as formas voluptuosas do corpo compacto, sólido, rijo e macio nos lugares certos. Com o cheiro do suor delas na hora do amor.

Deixou sua boca ser devorada, demoradamente. Becky tinha a mesma fome: queriam tudo.

Apesar da urgência, ambas pareciam temerosas em avançarem além dos beijos. E eram beijos deliciosos. Becky parecia querer demonstrar que ninguém daria a Luck aquelas sensações. Lambia os lábios, sugava a língua da forma como a médica adorava. Logo, os beijos não eram mais saboreados alternadamente; ambas travavam disputas por suas bocas, sedentas.

- Luciana... Luciana... como você pode ser tão boba às vezes. – disse, em meios aos beijos, agora depositados no pescoço, lambendo, sugando as veias pulsantes, chupando com sofreguidão.
- Isto não era para acontecer... - a médica dizia, sem qualquer resistência ao que ocorria em seu corpo.
- Era não... vai acontecer! – a jovem loira guiou as mãos grandes para seus botões.

Com muita segurança, apesar de trêmulos, os dedos longos brincaram com os adereços, desvendando os seios. Mas, quando ia tocá-los, foi impedida.

- Não... Tenho medo. – disse, olhando profundamente nos azuis já escuros de desejo.
- Medo de mim?
- De mim. De gozar tão logo sinta seu contato e estragar nosso momento!!! Eu quero demais você! – encostou o rosto no rosto amado, esfregando, como querendo absorver para sempre o perfume em sua própria pele.
- Então... -  a jovem percebeu o alívio no olhar de sua amada - ...não! - subitamente, Luciana a empurrou.

Rebecca insistiu porque as palavras da médica não condiziam com o desejo em seu olhar; não representavam a pele arrepiada.

- Sim. – a jovem voltou a beijar, com muito controle, até ter certeza de que a alma fora acariciada e trazida para fora.

Luciana, deitada no chão frio, sob o corpo quente, sentia como se um raio de luz, vindo diretamente do céu, a redimisse de todos seus infortúnios. A língua de Rebecca explorando a sua, com tanta minúcia e detalhamento, de uma forma que nunca fizeram, faziam-na lamentar querer tanto e sempre mais. Sua mulher desenhava a língua amada, temperando com sabores, apimentando com sua paixão, mas também saciando a sede com a saliva. Agora entendia o poeta que disse isso. Entretanto, seu racional gritava insistentemente que não deveria deixar ocorrer. Ele parecia alguém em perigo gritando em uma sala com janela de vidro anti-ruído. O desejo via o desespero, mas não escutava o alerta. Fechou a janela. Não via mais. Dane-se o racional!

Tomou para si o beijo, desenhando o contorno dos lábios, sugando como a uma fruta suculenta e cheia de sumo. Lembrou do que Becky dissera sobre ser amada no chão, em sentir suas mãos fortes, em sentir a boca, os toques. Em uma atitude mais determinada, rolou Rebecca, ao mesmo tempo em que arrancava a camisa da jovem, e sobrepôs o corpo ao dela. Adiando por segundos a necessidade, arrancou a camiseta. Rebecca observava o tórax adornado pelos maravilhosos seios. Gemeu por antecipação, ansiosa. Sem perder o contato visual, a médica segurou-a fortemente entre os braços, vestindo o corpo amado com o seu. O calor era intenso. Luciana sempre fora quente demais e Rebecca estava em casa novamente.

A médica sentiu a jovem sem qualquer resistência, invertebrada, se entregando. As mãos pequenas, macias, fortes acariciavam seus cabelos negros. Pareciam animais que se reconheciam pelo cheiro.

- Luck, Luck... como você pode achar que eu não a reconheceria?!?!?! – a jovem esfregava o nariz nos pelos sedosos em sua nuca, entre seus cabelos. – Seu cheiro está em mim....
- Eu mudei o perfume... - ...disse, pateticamente, retribuindo os gestos, ao cheirar demoradamente os cabelos loiros.
- Mas não seu toque, o calor da sua mão... - beijava os dedos - ...do seu olhar. Régia não tem a sua magia. A nossa conexão.  E eu senti isso, então não poderia ser por ela!!!

Rebecca guiou os dedos de Luciana por seus seios, descendo até sua púbis. A médica a amparava, trabalhando com a língua em pontos que alucinavam a jovem. Amaldiçoou a calça que ainda vestia. Delicadamente afastou Luciana. Ergueu o quadril o tempo mínimo para retirar o resto da roupa. Sem demora, a médica fez o mesmo.

Nuas, esfregavam-se com sofreguidão. Entrelaçaram suas coxas, confundindo suas vulvas. Puxando a médica sobre si novamente, sem rodeio, após toda a antecipação, colocou os dedos de sua amada na entrada de sua vagina.

- Não tem mais medo? - a voz da médica estava realmente rouca de desejo.
- Agora... - Becky dizia, ofegante - ...temo morrer antes de tê-la. Possua-me.

Luciana puxou o corpo da jovem, encaixando-a em seu regaço, para que cavalgasse livremente. Os olhos se encontraram no exato momento que os dedos da doutora entraram, sem mesuras, profundamente no ambiente que era seu. Os olhos de Becky se abriram mais, revelando verdes brilhantes, intensos; para logo fecharem-se em deleite. A médica começara a operar sua mágica.

- Abra-os. – aquele tom de comando na voz amada, sussurrado em seu ouvido, causaram arrepios em lugares longínquos dentro dela; era uma descarga elétrica nos sentidos de Becky.

Luciana olhava intensamente para ela, enquanto seus dedos entravam e saiam, escorregando facilmente pela carne lubrificada. A jovem sentia quando eles molhavam o clit inchado, mas não se detinham ali, apenas provocando com rápidos apertos, para depois entrarem novamente, saírem, entrarem novamente. Becky via o desejo no olhar concentrado, sabia que estava sendo estudada; a médica queria saber o que causava. Não resistia e fechava os olhos, para reabri-los cada vez mais desfocados. Era desnecessário ver, mas era excitante demonstrar. O quadril ganhava vida própria, em movimentos que ditavam um ritmo caótico; para frente, para trás, cima, baixo.  Os gemidos eram incontroláveis. As batidas do coração retumbavam diretamente em seus ouvidos, ao mesmo tempo que os dedos estocavam mais forte, rápido e fundo, completando a orquestra da libido.

Luciana prendia a jovem sob seu olhar. Era absurdamente excitante ver a pele avermelhada, o suor, a dificuldade em respirar, o peito subindo involuntariamente, permitindo aos seios voarem livremente em todas as direções. Luciana sentia escorrer em seus dedos, por sobre seu pelos, o líquido do seu amor. Sentia as unhas de Becky cravadas em suas costas. Teve o rosto preso entre as mãos amadas e a boca novamente devorada. O gemido tornou-se um grito, engolido pela boca da morena, insuficiente para abafar o som desesperado.

A médica preocupou-se em poder machucar a jovem, tamanho o descontrole do corpo sobre seu colo, sobre sua mão. Era uma entidade, uma possessão. Agarrou a jovem e ambas lutaram contra a força que saía delas mesmas. A energia transitava entre os corpos. Becky tremia compulsivamente, agarrada ao corpo quente e suado. Arranhava, beijava, lambia e sugava o que encontrava ao seu alcance. Luciana apenas a segurava. O corpo da morena ainda reprimia a pressão que estava prestes a explodir.

Ainda ofegante, mas cheia de energia, Becky acomodou Luck em outra posição e, em fração de segundos, sua boca devorava avidamente a vulva da sua mulher; o suco, o cheiro, o enrijecimento encontrado deu vitalidade para a língua letal. A morena não fazia diferente, devorando por entre os pelos loiros, a carne úmida e deliciosa. A explosão não demorou. Luck agarrou a cintura de Becky, prendendo o cheiro em suas narinas, já que não controlava mais sua língua, além dos gemidos guturais. Becky não encontrava fim para a bebida deliciosa; queria a última gota, mesmo que representasse a vida de ambas.

Os braços da médica soltaram a cintura da loira, ao mesmo tempo que seu quadril erguia-se em espasmos enquanto Becky se saciava. Aos poucos, a jovem veio em sentido inverso, beijando as longas e perfeitas pernas que esticaram sobre o chão, relaxadas na explosão do gozo; passou pelas coxas, a respiração nos pelos deixaram os sentidos da médica alertas novamente; foi desenhando o caminho e lambendo a barriga, mordiscando os mamilos rijos, inalando a respiração quente e ofegante, alojando a língua na boca entreaberta. Os gostos misturaram-se novamente, culminando a celebração de reencontro; eram elas novamente, só delas o amor e desejo de almas gêmeas.

 

***
***

 

João e Daniel chegaram. Ruth os viu pela janela da cozinha.

Depois da conversa com Clara, sentia um aperto no coração. Pela primeira vez, estava revoltada.

- Os homi vortaram sozinhos. – disse, colocando água para ferver - É, Clara, minha fia num manda recado.
- E a doutora não aceita seus próprios acordos. – a loira mais jovem demonstrou seu pesar.
- Bem que o João podia ter uma conversinha com essa tar Paula. Que cê acha?

Clara olhou espantada para Ruth. No fundo, tinha que admitir que não seria má idéia.

- Clara, Luciana num vai resorve isso sem violência.
- Ruth, ela não quer mais culpas. Ela já fez de tudo para manter Paula longe. Enquanto estava sozinha, conseguiu. Essa mulher é louca. Ela gosta de impor dor; não se importa em sentir. Capaz de se apaixonar pelo João!

Ruth riu mais do jeito de Clara do que da piada.

- Coitado do João. – a jovem senhora preparava o café.
- Ela não tem noção de nada, Ruth. Só pensa em magoar Luciana e quem a cerca com amor. Eu, Régia, vocês, todos somos alvo para ela. Se for preciso, ela machuca a doutora fisicamente. Já o fez algumas vezes!
- Mas quando Régia quase arrancô a língua dela, ela baixo a bola.
- Que ódio, Ruth!! Aquele tapa que ela me deu... eu queria pular nela, mas Régia se adiantou e fez ela se curvar. Ela não teve reação. Só que é traiçoeira. Régia diz que sabe o que fez; mas eu temo. Ela vai cobrar. É a única coisa que move aquela mulher: vingança. E também o sentimento que ela semeia em todos!

João entrou, Daniel foi guardar os cavalos. Percebeu o clima.

- Qui foi? – perguntou pegando a caneca de café da mão de Ruth.

Ruth e Clara o interaram de tudo.

- Danou-se!!! Inté ocês da cidade tem essas coisa. A dôtora num tá diferente da Regia antes da poderosa mafiosa livrá a cara dela. – caboclo coçou a barba por fazer -  Oia, acho inté que tá pior!  - sorveu uma golada do líquido forte - Agora, si Régia si livrô da máfia, a dôtora pode si livrá dessa doida.
- Fugindo? Mudando de nome, de país... se escondendo? – foi a pergunta quase histérica da ex-secretária, ao perceber o rumo da conversa.

João e Ruth trocaram olhares cúmplices.

 

***
***

 

Na outra ponta, Régia/Luciana estava executando uma busca pelo banco de dados recém-restaurado.

Localizou o registro de Norah, mas nada de novo foi constatado. Não havia fotos. Apenas o endereço conferia com o que Clara informou.

A reunião com o Waldemar foi produtiva, ainda que insuportável.

- Fala o que você sabe sobre Norah Vilhena. – a falsa doutora foi curta e grossa, demandando antes mesmo dele sentar.

Régia sabia que Luciana era seca com o consultor. Clara contou sobre as vezes que a doutora o deixou falando sozinho ou terminou suas reuniões sem dar chances a ele.

- No... No... Norah Vilhena. Eu sei...?! – aparentou preocupação.
- Está com medo do quê? – a morena não tinha tempo para rodeios – Qual sua ligação com ela?
- Não gostaria de falar sobre ela. - ele tentou ganhar tempo.
- Mas eu gostaria, já deu para perceber!!! – foi sarcástica.
- Doutora, ela é passado. Não nos vemos faz tempo...
- ...ela esteve aqui na última reunião, quando aquela loira trapaceira saiu do hospital.
- Bem que eu avisei a doutora sobre a Reb...
- Waldemar, você avisou bosta nenhuma: você se intrometeu onde não devia. Pula essa parte e seja breve, se quiser sair rápido da minha frente. Você não viu a Norah quando esteve aqui?
- Na... na... não. – estava inseguro, cauteloso.
- Você daria boas referências dela?
- Sim, sem problemas. Trabalhamos juntos. Ela realmente era competente.
- Por quê ela evita você?
- Evita?!?!
- Não: é o musical! Fala logo. – a líder estava se divertindo um pouco.
- e... bem...
- Desembucha, homem!
- ...tivemos um ...caso. – a voz saiu em um fio.

Régia não demonstrou a surpresa que sentiu. Com todas as estórias sobre Waldemar, imaginá-lo com Norah era um exercício e tanto. Fez sinal para que continuasse.

- Ela me largou. Mas, eu a revi depois em uma das empresas clientes do hospital; depois nunca mais. Ela aprontou alguma? Eu não tenho mais nada com ela. – disse, demonstrando segurança pela primeira vez.
- Você realmente não sabe o que ocorreu entre nós ou está se fazendo de besta? Ou tá com medo de se intrometer de novo em minha vida?

Waldemar sabia do que ocorrera com a doutora e a filha do Prof. Arthur. O Prof. Victor o deixava sempre bem informado. Com relação à Norah, no dia da última reunião, foi uma tremenda confusão naquele corredor. Sabia que Rebecca era o pivô, mas não sabia de Norah ainda.

- Eu sei o que todos comentam, inclusive o Prof. Victor: o seu rompimento com a jovem por causa do envolvimento dela com uma funcionária.
- Norah é a funcionária! Como ela se aproximou de mim?
- Não faço ideia!!
- Ela disse que você comentou sobre a necessidade de consultoria para minha nova empresa.

Ele começou a se revirar na cadeira. Olhava para a jarra de água sobre a mesa, mas não se atrevia a beber. Régia/Luciana notava a boca seca.

- Se não a vê há tanto tempo, como ela ouviu a dica de você?
- Não sei. – disse, aflito – Eu não comentei com ela. À bem da verdade, eu pedi ao Prof. Arthur que me indicasse para a Srta. Clara. Mandei um email para ele. Ele nem respondeu. Eu não insisti. Não queria mais uma confusão com a doutora.
- E Norah?
- Eu não sei. Tenho contatos. Eu falei... antecipando... que estava... - ele não resistiu e pediu água, pegando mesmo sem a médica esboçar reação.
- Você não veio aqui beber água. O que você antecipou?
- ...que ia ser o consultor da sua nova empresa. – disse, em meio à tosse ao engasgar com a água.
- Quando foi?
- Em um evento que promovi...
- ....promoveu usando o meu nome e de minhas empresas? – Régia fez a mais perfeita imitação de Luciana, ao arquear as sobrancelhas intimidadoramente.

Ela ria por dentro ao ver o homem, já pequeno, diminuir cada vez mais quando ela levantou da cadeira e o encarou com os olhos azuis mais gélidos.

- Dentre as pessoas presentes, alguém que mantivesse relações com Norah? – estava com o rosto a centímetros do rosto branco e suado.
- Se ainda permanece no meio, mais da metade da sala poderia ter contato com ela. – ele disse, ciente de que suava demais para a temperatura dentro da sala.

Régia decidiu dispensar o homem, antes que ele se borrasse. O cheiro já não estava dos melhores.

- Pode ir!

Ele levantou de um salto, assustado, querendo cumprir a ordem o mais rápido possível.

- WALDEMAR!!

Ela quase riu ao perceber as pernas bambas quando ele se voltou para encará-la.

- Nunca mais se promova às minhas custas! Entendeu?

Ele estava estático.

- ENTENDEU?
- S... s... sim.

Régia imaginou aqueles assobios de desenhos quando o personagem sai em disparada. Assim que ele fechou a porta, ela desandou a rir. Ele era perigoso em sua ambição, mas a médica o mantinha no lugar.

Larissa entrou com o telefone da agência de acompanhantes, bem como um book.

- Doutora, a Clara é quem cuidava desse tipo de agendamento. Se eu não o fiz do seu agrado, me perdoa.  – estava encabulada.

Luciana não ligava para a opinião alheia, menos ainda de suas funcionárias. Acostumada com Clara e a habitual discrição, não percebia que certas pessoas ficavam constrangidas com seus pedidos, bem como, modo de vida. Clara mesmo reclamara das vezes que a vira junto com outros/outras na cama, sem qualquer pudor ou respeito pela secretária.

Larissa agora sentia a mesma coisa. Sem Clara, a médica distribuía as ordens para o primeiro que entrasse em sua mira, mesmo que não fosse a função do infeliz.

- Agradou. Por isso quero o telefone. Como você faz?
- Clara me instruiu que a doutora tem cadastro, no qual está anotado as últimas acompanhantes solicitadas. Caso queira outra, tem esse book para escolha. O pagamento sempre em dinheiro. Mas a doutora recebe uma fatura.
- Essa parte eu sei! São caras essas daí... - disse, enquanto folheava o livro, admirada com a variedade de lindíssimas mulheres - ...mas são as melhores!

Larissa estava avermelhada. Sempre lutara contra preconceitos. Porém sua reação era espontânea: ela entendia a orientação e os desejos, mas não entendia a exposição.

Percebendo o desconforto, a falsa doutora a dispensou com um gesto.

- Larissa, está faltando alguma foto nesse book?
- Doutora, nunca o folheei, mas fica trancado na minha gaveta.

Já era final da manhã, Régia ia almoçar no hospital. Depois ficaria com Anna.

Resolveu ligar para Clara e ficou sabendo dos acontecimentos.

- Eu sabia que isso ia acontecer! Rebecca ama Luciana, jamais seria enganada. Você seria?
- Claro que não!! Você e a doutora nem são tão parecidas, se vistas juntas. O corte do cabelo ajudou; e o fato dela ter emagrecido nos últimos tempos. Mas, nós sabemos quem são nossas mulheres, com certeza.
- Bom saber.
- Mas, Paula se enganou, não foi?
- Ela não ama. Ou, melhor dizendo, ama outra mulher, da qual realmente não sente nem o cheiro mais!

Clara contou sobre a revolta da D. Ruth e sobre os planos do João.

- João na cidade é um peixe fora d´água. E Paula nada tem a fazer na fazenda.
- Régia, você ainda analisa o plano?!?!! Nem tinha que pensar. É horrível.
- Clara, não cogitei pela violência; mas porque se a doutora quisesse, realmente poderia fugir. Agora seria o momento, já que trocamos os papéis.
- É, mas quem garante que Paula não vai perceber?
- Infelizmente, não saberia enganá-la por muito tempo, mas seria o suficiente para elas sumirem.
- E você seria o alvo: primeiro, se passando pela doutora; depois, quando descoberta, recebendo a ira da louca, por ter ajudado a acabar com a vingança dela. De jeito algum!! Isso não é nem para ser falado para a doutora ou Rebecca.
- Entao, se prepara, pois os planos de Luciana são bem piores; até porque não existe solução a curto prazo.
- Vai ser um estresse sem fim quando a febre do reencontro acabar. Eu não posso ficar e não quero você por muito tempo aí, bancando a doutora.
- Foi bem proveitoso. Luciana, transtornada com as coisas afetivas e as ameaças de Paula, negligenciou demais o hospital. Paula tem deitado e rolado aqui.

E relatou tudo.

- Bem, acabei o almoço. Vou fazer um tempo no quarto da Anna. Depois vou analisar alguns vídeos. Beijos molhados onde você quiser!
- Ai... ai... ai... amanhã quero esses beijos nos locais certos, que já estão molhados.

 

***
***

 

Luciana ofegava. Seus seios estavam sensíveis devido à gula de Becky, neste momento provocando os mamilos, com mordidas e chupões. Os dedos brincavam no clitóris, mas levemente, com displicência. Era o paraíso. Ela não teria do que reclamar, não fosse o fato que o racional continuava se intrometendo na primeira trégua dos sentidos. E foram poucos momentos de trégua, já que não deixaria de atender aos estímulos e vontades de Becky.

- Becky, amor...

O gozo veio novamente. Tinha sido revirada, tocada em todos os meios e orifícios possíveis. E também tratou com atenção todos os pontos que Becky ofereceu.

Após o recente orgasmo, relaxou completamente na cama, deitando com a jovem entre seus braços, as costas contra seus seios doloridos. Sorriu ao sentir o leve incômodo. Sentia os mamilos da jovem em seus braços, já que a abraçava. Ela estava arfando.

- Vamos relaxar.
- Não quero relaxar. Não quero romance agora. Sei que assim que ficarmos relaxadas, vamos falar dos fatos, da nossa realidade. Não quero ouvir. Na fúria do sexo, encontro a paz para ser sua.

Luciana foi pega de surpresa com essa confissão.

- Mas precisamos....
- ...não agora, não hoje....
- Quando?
- ...nunca seria um bom tempo. – Becky disse, rindo fracamente.

Luciana a virou para si, acomodando-a em seu colo, fazendo com que olhasse diretamente em seus olhos.

- Vamos ter que conversar. Estamos separadas, lembra?
- Você quis se passar por Régia, então finja que aqui não somos Luciana e Rebecca que estão longe, magoadas, confusas e cheias de sentimentos embaralhados por nosso passado.

Luciana sentiu os lábios delicadamente sobre os seus, ainda impressionada com a súplica nos olhos verdes, sinceros.

- Seremos como Régia e Clara: apenas almas gêmeas reunidas. Em sexo, carne, luxúria ornando o amor que não sabemos disfarçar.
- Becky, você não sabe quanto a amo... - o beijo reacendia o desejo de mais beijos.
- Nós não sabemos o quanto nos amamos... - dizia enquanto se afastava - ...mas vamos aprender, nem que seja só por hoje, de uma vez por todas, Luck!

A médica admirou, encantada, o abdômen liso, definido em músculos envoltos pela pele macia; deixou as mãos deslizarem por ele, como se nunca houvesse feito esse caminho antes. Becky estava sentada sobre seu colo, apoiada em suas pernas que formavam o encosto para ampará-la. Ela apenas olhava para o rosto amado, mesmerizando-se com o azul límpido pousado em suas formas.  Havia tristeza neles. A jovem sabia que a médica não estava em paz; o fato é que nunca estivera. Temia porque sabia que ao deixar aquela cama, o verdadeiro cenário da pintura seria trazido à frente.

Luciana deixava os dedos passearem pelos braços de penugem douradas: músculos trabalhados, fortes, firmes. Desenhava os contornos do corpo, memorizando cada detalhe. Ainda estava arroxeado perto da costela. Naquele momento, lembrou-se de sua estupidez. Sentiu vergonha.

- Não lamente por isso! Foi besteira minha. – a jovem sussurrou, buscando tranquilizar a perturbação visível no olhar.
- Foi minha estupidez, física e mental. – a médica depositou um beijo na pele escurecida, sentindo o suspiro profundo.

Luciana acompanhou o movimento preciso, mas delicado, de Rebecca quando esta ergueu delicadamente uma de suas pernas, abrindo espaço. A excitação antecipou a manobra perfeita de encaixe de seus sexos. Os gemidos de ambas responderam ao sutil roçar de seus pelos. Era a posição que mais as deixavam em conexão. Enquanto ainda havia controle, Becky esfregava-se lentamente, descortinando com os seus, os lábios de Luck, a umidade misturada. As mãos da médica enchiam-se com os seios amados, esfregando-os contra a palma suada. A jovem rotacionava o corpo, buscando o encaixe perfeito; com isso, provocava o corpo sob o seu.

Aos poucos, era Luck quem movimentava o quadril, esfregando mais sofregamente. Becky beijava a longa perna, pelo interior da coxa até atrás dos joelhos, buscando distrair um pouco seu orgasmo, que já queria liberdade. De repente, a perna da médica apoiada nos ombros forte, não se controlava, movendo-se como um tentáculo. Becky queria que durasse. Sob o olhar azul intenso, a jovem abriu com as mãos ainda mais suas vulvas e friccionava em movimentos rápidos e constantes; Luck ergueu os braços, buscando o espaldar da cama, mas foram interceptados quando, com extrema habilidade, Becky os alcançou e deslizou as mãos, correndo as unhas pelos braços longos, quase intermináveis diante da agonia que já tomava conta das amantes; e entrelaçou as mãos de ambas, enquanto deixava seu corpo pender para trás, na cama, formando a tesoura que não corta, mas é o elo entre dois mundos, em conexão absoluta.

Foi intenso, sem controle, o atrito; um embate no qual nada provava quem era mais poderosa. Esfregavam suas carnes, num fogo intenso que, paradoxalmente, produzia líquidos que só o reacendia. O orgasmo de Luciana parecia brincar com ela, surgindo na superfície, para logo se dissipar, como querendo provar mais do atrito, desesperando-a. Rebecca, que antes comandava, já passara o comando e se contorcia alucinada. As mãos apertavam-se em tortura, as forças contrárias tracionavam cada vez mais o cabo de guerra formado pelos músculos e tendões. Luck recebeu o puxão que anunciava a força do orgasmo de Becky. Os ossos da púbis já estavam doloridos, pela força da necessidade da libertação. Luciana a puxou para si, mantendo a fricção. O movimento fez a jovem loira atingir seu clímax. A descarga foi poderosa, fazendo o corpo se erguer, em uma cavalgada, equilibrado no contato entre suas vulvas viscosas. Becky não parou, pressionando Luck na cama, acelerando o esfregar. Por sua vez, a morena ainda travava seu embate com o próprio orgasmo, que parecia um bicho enjaulado diante da porta aberta para sua liberdade, mas resistente em sair. Tomando a jovem em seus braços, sem desfazer o encaixe perfeito, se sobrepôs a ela, intensificando a esfregação.

Na nova posição, teve o domínio e conseguiu ter em seu alcance o corpo todo, colando suas bocas e mantendo o movimento, sentido mamilos contra mamilos, as mãos livres, vagando pela bunda, o dedo pressionado o ânus; cada milímetro dos corpos em contato, na mais plena conexão. A médica esfregava seu clitóris fortemente no outro tão rijo e escorregadio quanto o seu. O seu gozo veio em ondas revoltas, sentia-se escorrer. Becky ainda sentia o efeito do orgasmo anterior. O movimento do corpo era um só com o outro corpo, tão abraçadas estavam. O corpo maior literalmente engolindo o menor. Convulsionavam em um único movimento. Seus nomes se confundindo no grito de libertação, seguido pelo silêncio.

Tentando recobrarem-se, por um momento, ficaram abraçadas, sentadas ainda entrelaçadas, mantendo o contato entre seus sexos. Ofegantes, molhadas por todos os líquidos da paixão, batizaram o amor com as lágrimas involuntárias, oportunistas da fragilidade física, mas redentoras de todos os ápices de paixão com a entrega da alma. Choraram pela mesma razão. Beijavam-se enquanto buscavam o aconchego pós o amor. Luck recostou Becky na cama. Ambas ainda recobrando os sentidos. Aninhando a cabeça no peito arfante, adormeceu com o afago leve.

 

****
****

 

A médica loira surgiu no corredor, causando o show de sempre.

Dirigiu-se à cadeira e sentou diante da secretária, remexendo nos papéis sobre a mesa dela.

- A doutora Luciana não está. – Larissa disse, mais segura depois da conversa com a patroa.
- Eu sei onde ela está, miquinha amestrada!

Levantou-se, empurrando tudo que estava sobre a mesa ao chão.

- Agora você tem o que fazer e me deixa em paz. Vou esperar minha suculenta mulher na sala. Pede para servir um lanche para mim, miquinha!

Quando a moça abaixou para pegar as coisas espalhadas, deu um sonoro tapa na bunda da coitada, disparando um beijo com as mãos na direção dela, tão logo alcançou a porta da sala.

Assim que viu a loira sumir dentro da sala, Larissa telefonou para Izabel.

A falsa médica estava no quarto de Anna, assistindo os vídeos entregues pelo segurança.

As poucas aparições de Paula foram estranhas, pois ela ficava apenas olhando para a menina em coma. Por duas vezes, Anna se mexeu e Paula apenas olhou no prontuário aos pés da cama.

Nos vídeos que mostravam Luciana via-se a médica olhando demoradamente para a menina, mas também lia alguns livros, anotava algumas coisas e, por vezes, adormecia. Régia não pode deixar de perceber que, em alguns momentos, a médica limpava lágrimas teimosas.

Viu o vídeo da manhã da confusão com Becky e Norah.

A atenção de Régia se deteve nas enfermeiras do turno da noite. Ao contrário do revezamento matinal e vespertino, o noturno nunca era com a mesma enfermeira.

Neste momento, Izabel chegou, contando que Paula estava na sala dela.

- Ela disse que sabia onde a doutora estava.
- Tem certeza que ela está na minha sala?
- Sim. Acabamos de servir um lanche para ela.
- Chama um táxi daqui mesmo. Eu vou para casa. Já é final de tarde mesmo.

Régia não deixara nada na sala que pudesse dar pista de que a investigava. O melhor seria não aparecer para ela, já que não conseguiria confundi-la por muito tempo. Não sabia se a doutora Luciana voltaria da fazenda; então, fatalmente cruzaria com Paula, mas não queria que fosse tão logo.

- Não chame o táxi. Vou com meu carro mesmo. Redobre a segurança deste andar. Podem ir embora. Ela não vai ficar feliz com vocês ao saber que a deixei plantada na minha sala.

 

***
***

 

Luciana acordou antes de Rebecca. A jovem dormia pesadamente. A médica riu para si, pois a única culpada do cansaço todo tinha sido a própria. Sentia o corpo todo dolorido, em lugares muito prazerosos de lembrar a dor, como um novo motivo para excitar-se. Antes de cobrir o corpo da jovem, mesmo na fraca luminosidade do ambiente, viu suas marcas ao redor dos mamilos, bem como manchas em locais padeceram sob a fúria incontida. Cobriu a jovem.

Silenciosamente, abriu a porta da cabana e viu que já era noite. Chovia forte. Encontrou, na soleira, a comida que trouxeram, mais algumas coisas. Achou um bilhete informando que os cavalos foram levados, mas a caminhonete estava na trilha, esperando.

Franziu o cenho diante da constatação que já tinham feito os preparativos para elas passarem a noite ali; todos já sabiam o que ocorrera. A expectativa agora era mais um ponto desfavorável. Resolveu pensar em coisas práticas para o momento. Banheiro era uma delas.

Clara e Régia tinham feito melhoras consideráveis na cabana. O gerador à diesel proporcionava o conforto do chuveiro quente, claro que o novo banheiro tinha ficado bem funcional.

Após o banho, colocou algumas coisas para esquentar, improvisando um lanche. Rebecca acordaria com fome.

Ao pensar em fome, sentou-se no escuro, observando a mulher na cama. “Deuses, como vou fazer agora?”

Olhara pelo espelho do banheiro: seu corpo estava cheio de manchas vermelhas e azuladas dos chupões que a jovem deixara; sinais nas coxas, as costas lanhadas. Marcas de posse. No escuro, vendo os fracos relâmpagos sob pequenos trovões, sentiu as lágrimas e os soluços que representavam sua tormenta particular; limpou rapidamente o líquido do rosto, tampando a boca com as mãos, tentando se recompor. Era desespero o que sentia; misturado com impotência, revolta e, acima e pior de tudo, medo.

Estava inconformada com o fato da força da loucura de Paula estar levando a melhor sobre seu querer. Inconformada de ainda ter que lidar com essa parte de sua vida. Com a força avassaladora da vingança.

No fundo, entendia de vingança. Existe ética na vingança? Acreditava que sim, desde que se tivesse a medida certa da igualdade. O olho por olho, dente por dente. Quando realizou a sua própria vingança, teve a certeza de ter colocado um fim nela, ao ver seus algozes sofrerem na mesma medida. Sentiu-se justiçada. Mas, de tudo, aprendera que não havia retorno daquilo que se partiu, por mais certeiro e justo que fosse o ato de vingar, a sensação de missão cumprida perdia-se no vazio deixado pelas perdas. Entretanto, achou que não precisaria mais olhar para trás. E o engano se fez. Como resultado de sua vingança, a sua vida fechou o seu ciclo, mas iniciou a estória de outra pessoa.

Início pautado em sentimento de perda, prejuízo, injustiça. Quem se sente assim quer e merece sua vingança. O maior reconhecimento de todos era admitir que Paula estava coberta de razão em querer sua vingança.

Olhando Becky dormindo, relembrava a conversa em sua sala.

Pateticamente, tentara usar o acordo judicial. Propôs mandar suspender todas as acusações e anular qualquer mandado que colocasse a liberdade de Paula em risco. Ela disse que poderia até ser um começo, mas era pouco, pois mesmo se fosse presa, sairia. Seus advogados provariam nenhuma debilidade mental, atestada pelas instituições internacionais pelas quais passou. E, mesmo que isso pudesse ser pior, já que não dava a ela algum benefício da dúvida por sua insanidade, mesmo assim faria tudo vir a público, causando um escândalo que remontaria desde o início de tudo, enlameando nomes e suas empresas.

- Você prejudicaria sua família também!
- Luciana, colega, minha família se vendeu para você; é justo que perca tudo junto com você!
- Presumo que dinheiro ainda não seria o suficiente?
- Ai, colega, comer loira nunca te deixou burra antes. Está certo que era eu, não uma de péssima qualidade. – e desandou a rir, fazendo careta pela língua ferida – Escuta gostosa, entenda, nada que você me oferecer vai comprar sua liberdade de mim.

Luciana, na cabana, lembrava da conversa com lágrimas que formavam um suco misto de sentimentos, por isso queimavam sua pele. Na frente da mulher insana, permaneceu estoicamente fria. Calculando o efeito de tudo.

- Paula, é piegas, mas será que tudo que já perdi, não é o suficiente para satisfazer você?
- Quando soube que seu marido e filho morreram naquele acidente, do qual você foi a culpada; pensei que era o ápice! – o rosto se iluminou com um sorriso - Você sozinha, culpada pelas mortes, revoltada com perdas novamente, coisa que você nunca soube aceitar; sem poder ter outro filho para amenizar sua solidão. Quando soube disso, olhei o quadro e – o sorriso sumiu e um ar de enfado assumiu a expressão - ....pasme: não senti nada!!!!! Apenas o gosto muito fraco do que poderia ser a minha satisfação na sua dor. E sabe por quê? – parou e cuspiu um filete de sangue na toalha. – Não ouvi a resposta...- ...demandou que a médica falasse, enquanto olhava a mancha na toalha.
- Por quê? – realmente estava curiosa.
- Simplesmente porque não fui eu quem orquestrou tudo. Eu dei um empurrãozinho, já que vocês estavam se recuperando de um ataque meu, mas minhas mãos não mancharam de sangue dos seus entes queridos; nem vi seus olhos desesperados ao acordar. Não tive o prazer de ver suas lágrimas e prová-las, para saber se eram tão amargas quanto as minhas quando molharam minha boca por tantas vezes. É um gosto muito ruim.

Luciana sentia-a arrepiar por dentro. O olhar era de outra pessoa. Os olhos castanhos ganharam brilho intenso ao pronunciar cada palavra. Paula sonhava por saborear sua vingança.

- Sabe, esses anos todos, eu esperei o momento certo. Dinheiro não é problema para mim, pois papai e mamãe já me deram minha parte em tudo que possuem. Papai praticamente só tem as ações das empresas e aquela mansão. Além disso, aprendi com você a explorar velhos milionários. Sabe como certos fetiches rendem bom dinheiro.

A médica cada vez mais ficava apreensiva, pois sabia o que viria.

- Assim como você esperou, marinando em mim sua vingança; eu também esperei. Enquanto eu atendi seus demônios, segurando-os para alimentar a fúria de nossa relação; não percebi que eles eram mais fortes que o amor que tínhamos. Tão logo sua oportunidade surgiu, eu não representei mais nada. Você passou com um rolo compressor por sobre meu amor, dedicação, devoção, tudo que eu pensei representar. Da massa disforme se fez algo bom: um monstro que não se preocupa com sentimentos de outros que não os seus, colega; de preferência um único: sua dor.

Luciana estava enojada consigo mesma. Diante dela toda a sua vergonha se materializou e era torturante encarar o que tinha feito a um ser humano. Enquanto falava, com a língua meio enrolada, Paula se aproximava. A morena estava tendo que segurar a bílis que subia em sua garganta, pelo nojo geral: dela, da outra, da voz enrolada, da situação; da forma como estava encurralada.

- Nem que você crie um mundo só seu, vai se livrar de mim. Terá que levar todos aos quais você ama agora, pois eu vou tirá-los um a um de você. Sei nomeá-los todos, a começar por aquele vegetalzinho no andar pediátrico terminando pelos capiaus naquela fazenda.

Paula estava minando a fortaleza. Andava ao redor de Luciana que sabia que o endurecimento de seu maxilar denunciava seu controle pra não revelar o real estado de nervos.

- Ah, sim, você tem dinheiro e pode levar todos atrás de você para lugares que eu poderia demorar a achar; mas duvido que sua preciosa loirinha queira que todos vivam foragidos por causa de um passado que não é o dela. Viver assustada, desconfiando de todos. Se for uma ilha deserta, nem mesmo abastecer uma lancha será seguro. Eu acho vocês. Tenho dinheiro, como disse. E contatos. E espiões.

De forma irritante, a loira passava as pontas dos dedos pelos ombros, pescoço, segurando o queixo da médica de forma delicada, como não querendo tocar, mas impondo que ela a olhasse nos olhos, sob sua avaliação quase científica.

- Você há de concordar comigo que é um preço alto demais a ser pago, mesmo por um séquito de bajuladores sustentados por sua preciosa loirinha.
- Não tem mais preciosa loirinha!

Os olhos castanhos pareciam mais debochados e insanos. Luciana, para seu mérito, conseguia sustentá-los firmemente.

- Luciana, colega, pode ser que sim e pode ser que não. Ainda não decidi se acredito em você.
- Pode acreditar no sim.

A loira mediu Luciana dos pés à cabeça.

- Se quer começar a barganha, pense na minha oferta: você sozinha. – disse, beijando a boca da morena, deixando o gosto de sangue da língua ferida.

Luciana ficou estática.

- Ah... num precisa ter medo do sangue: conservo-me limpa para que a morte não me tire o prazer de ver  seu sofrimento.

Luciana revia a cena, vivida há apenas dois dias atrás. Tão pouco tempo para mudanças tão bruscas nos desígnios da vida. Era uma verdadeira montanha russa.

Rebecca tinha que ser colocada distante; provar que nada mais que viesse dela interessaria Luciana. O plano era simples: ficar sob a mira de Paula, em um relacionamento cordial, se possível. Claro, não poderia evitar ser usada, mas o quanto pudesse afastar todos, o faria. Recusar o amor e consideração que desenvolvera por todos que a ensinaram a resgatar o valor da lealdade, da incondicionalidade, do reconhecimento, gratidão. Matar o amor. Já o fizera antes, tinha conseguido. Faria de novo...

Olhou novamente a jovem na cama. Deu uma risada fraca. Depois daquele ser em sua vida, não saberia ser indiferente ao amor que se instalara em sua essência.

Paula entendia esse amor como apenas um capricho de alguém que nunca admitiu perder. Como todos disseram, a Luciana de Paula não existia mais; porém isso não era uma vantagem para ela, Luciana, mas exatamente o seu martírio. Paula talvez não tivesse conhecimento que a partir do momento que se dispusesse a aceitar o jogo dela, a mulher Luciana estaria aniquilada. Difícil era saber qual a exigência para estar, de fato, quites com ela.

O clarão iluminou a cabana e o trovão retumbou forte pelo ambiente. Rebecca acordou sobressaltada.

A morena entrou sob a coberta e trouxe o corpo quente junto ao seu. Com beijos suaves e sussurros, fez a jovem se apaziguar.

- Estou com fome... - tentou se mover... - e dolorida. – riu timidamente.
- Um bom banho e um lanche resolverão. - a voz da médica causava arrepios na pele da jovem.
- Vem comigo? – o pedido fora carregado de sensualidade.
- Não podemos desperdiçar água e energia. – respondeu, depositando um beijo no nariz amado, evitando elevar a tensão já iniciada.
- A água usada é a da chuva. A energia eu garanto. – tomou para si a boca adorada.
- Becky, banho e sozinha!!!

Luciana queria apaziguar o desejo para poder pensar como abordar a jovem.

Por sua vez, Rebecca queria atiçar a libido para distrair os pensamentos do assunto que evitava.

A volta para São Paulo decidiria suas vidas. Estava disposta a jogar tudo.

A noite seria longa!

 

***
***

 

Saindo da concentração dedicada a suas leituras, a médica percebeu o burburinho e a porta se abriu para a sempre triunfal entrada da loira de olhos castanhos.

- Sentiu minha falta, colega?

Os olhos azuis sempre permaneciam gélidos ao olhar para aquela criatura.

- Se vamos fazer algum acordo, melhor amenizar esse olhar.

Imediatamente beijou a morena. Os olhos fizeram a transformação. De quentes e até afetuosos; para frios e irados. Sabia de tudo.

Nisto, a porta novamente abriu e a loira compreendeu a situação.

A arma surgiu do nada e o tiro contra a cabeça morena foi certeiro e inevitável.

Horrorizada, Clara correu para junto do corpo inerte, os miolos espalhados; seus movimentos serviram apenas para fazerem-na alvo de outro disparo.

- Quando vocês vão aprender a não me enganar. Cansei, Luciana!!! – os berros eram estridentes, a arma tremia com os gestos descontrolados, apontadas para a médica.

Rebecca precipitou-se a frente de Luciana, mas não precisou se mover, pois o tiro jamais seria para a médica. Os disparos foram certeiros contra o peito da jovem loira. Luciana via acontecer seu pior pesadelo. Paula passou por elas, banhando as mãos no sangue de Rebecca, segurou o rosto da médica completamente sem ação.

- Você gosta de sangue? – dizendo isto, lambuzou o rosto de Luciana e lambeu - Eu também!

A médica não conseguia se mover. Tentou estancar o sangue sobre Rebecca; suas mãos não conseguiam. Viu o estrago no lindo rosto de Régia; Clara ao seu lado. Era o horror! Não conseguiu, não pode, não teve como fazer nada... talvez Becky ainda... tentou gritar... tentou... gritou sua ira e frustração. Tentou calar a louca, mas não conseguiu; ela ria sendo asfixiada pelas mãos ensanguentadas.

O soco antes do grito alertou para a fúria do corpo suado. Se debatendo. Estava sem fôlego devido ao impacto em seu peito. Com toda sua força, segurou o braço que descia para novo golpe. Sacudiu-a com força. Conseguiu estabilizar o movimento.

Mesmo com os olhos azuis abertos, eles não a enxergavam. Os segundos que demorou para entender o que ocorria, a fizeram ver o sangue no rosto amado.

- Becky, eu machuquei você?!? – Luciana estava suada, arfante, aflita.

Com muito esforço, após beijar repetidas vezes o rosto da jovem loira, foi recolocada na cama.

- Luck, o que houve?

Para espanto da jovem, a morena começou a chorar.

- Amor, acalme-se. Não vou deixá-la. Você pedia isso ao se debater. Não tema: não vou deixá-la.
- Paula está me deixando atormentada. Quase toda noite eu tenho esses pesadelos. Vejo todos que amo caírem um por um, em poças de sangue, mortos por ela; por minha culpa. Não quero admitir, mas eu não tenho como lutar. Não tenho mais nervos para essa luta.
- O que você vai fazer?
- Vou embora com ela.

 

 

Continua...

 

 

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