Pentimentos

por Jackie de Sampa

Contato: cidajack@hotmail.com

 

 

 

VINTE E OITO
PARTE QUATRO

disclaimer no capítulo UM

 

Entre a serpente e a estrela
Zé Ramalho

Há um brilho de faca
Onde o amor vier
E ninguém tem o mapa
Da alma da mulher...
Ninguém sai com o coração sem sangrar
Ao tentar revelar
Um ser maravilhoso
Entre a serpente e a estrela...
Um grande amor do passado
Se transforma em aversão
E os dois lado a lado
Corroem o coração...
Não existe saudade mais cortante
Que a de um grande amor ausente
Dura feito um diamante
Corta a ilusão da gente...
Toco a vida prá frente
Fingindo não sofrer
Mas o peito dormente
Espera um bem querer...
E sei que não será surpresa
Se o futuro me trouxer
O passado de volta
Num semblante de mulher...
O passado de volta
Num semblante de mulher...

 

- Sinceramente, Luck, não quero mais brigar com você. Se é isso que resolveu, então faça. Porém, não querer brigar COM você é diferente de não querer brigar POR você. E, isso, eu VOU fazer!!!!

Luciana ainda estava agitada pelo sonho. Rebecca a segurava nos braços, com sua cabeça encostada no peito. A noite estava escura, sem luar. Não estavam olhando nos olhos, mas não era preciso. Estavam no breu total e até parecia uma metáfora: naquela escuridão, apenas Becky era o brilho que ainda iluminava sua vida. Não poderia deixar que se apagasse.

As palavras da jovem não tranquilizavam a médica.

- Becky, a última coisa que eu quero imaginar é você enfrentando a Paula.
- Todos temem essa mulher. Todos estão se portando como se ela fosse uma força do apocalipse. Ela não É!  Ela é uma mulher atormentada por um amor obsessivo. – a jovem sentia a tensão no corpo rígido em seus braços – Um ser com tamanha paixão e que faz por amor.
- Totalmente sem controle.
- Mas, ainda assim, alguém que ama, como eu. Ama o que eu amo. Seja o que for que ocorreu entre vocês, a sua culpa é ser você, Luck. Assim como eu, ela ama a Luciana que conheceu. Graças aos céus, era uma bem diferente da minha, mas são o mesmo corpo. E esse eu quero para mim. Pacote completo.

Fosse outra circunstância e Luciana teria explodido de amor nos braços dela ao ouvir suas palavras. Entretanto, o efeito era cada vez mais desesperador. A teimosia de Rebecca levava a melhor sobre o racional dela, sempre. E, esse melhor, não significava algo benéfico. Desfez a posição e a colocou em seu colo. Era bom que estivessem no escuro, pois Luciana não queria ver a expressão de Rebecca após ouvi-la.

- Rebecca, eu deixei Paula projetar uma vida comigo. Melhor: eu projetei para nós uma vida juntas. Dei a ela essa esperança.  Como você já sabe nos conhecemos muito jovens. Além da juventude, tínhamos em comum uma soberba capacidade intelectual. Essa capacidade, em nossas mãos curiosas, nos fez forjar sentimentos; nos fez manipular emoções. As habilidades que Paula tinha sexualmente me enlouqueceram. Ela fazia coisas ousadas, inusitadas, que jamais uma garota do interior suspeitaria ser possível. Depois, nos desenvolvemos juntas, usando e abusando da manipulação sobre os menos talentosos. Eu não tinha muito materialmente, além do físico e intelecto. Paula era minha mestra; mas eu sempre tive meus discípulos. Sexo sempre foi minha forma de dominação, de poder: na minha cidade, eu era da classe trabalhadora, era uma aberração indefinida, uma inferioridade; mas, sexualmente, eu tinha todos, meninas e meninos, aos meus pés. Mas meu sexo era o básico, limitado ao aprendizado intuitivo ou ao meu desejo egoísta. Quando conheci Paula, aprendi novas artimanhas; explosões sensoriais. Voltei para minha pequena cidade querendo exercitar tudo que aprendi. Nesta época, tinha duas pessoas mais ou menos fixas; duas mulheres unidas por um rapaz: uma era a mãe dele e a outra a futura esposa.

Luciana sabia que Rebecca a escutava, mas parecia que falava sozinha, devido ao silêncio sepulcral. Como sempre acontecia quando resolvia contar seu passado, a jovem parecia prender a respiração. A médica, tal qual o Prof. Arthur, escolhia cuidadosamente as palavras, assim como o quanto contaria.

- Essa família era a mais tradicional e, até então, no conhecimento popular, muitíssimo rica. O Prof. Arthur e Thomas eram amigos deles. Eu trabalhava no haras, que hoje é meu.
- Você trabalhava naquele haras?!?!?!
- Sim. Thomas o adquiriu para mim. Claro, reformamos; mas nele eu passei a infância e parte da adolescência, já que entrei cedo na faculdade e me mudei para São Paulo. Entre fazer o vestibular, conhecer Paula e me mudar foi tudo muito rápido.
- Ela sabia do seu envolvimento com as duas mulheres?
- Em sua única visita à minha cidade, Paula me acompanhou ao haras e acabou deduzindo devido a uma conversa dúbia que tive com a mãe do rapaz, minha amante, na frente dela. Ela riu muito mais quando soube que eu também transava com a noiva.
- Ela riu!?!?! Riu de verdade ou por sarcasmo?
- Riu porque sabia que eu brincava com essas mulheres. Riu porque eu ludibriava um homem arrogante. Paula era como eu: adorava manipular, dominar. Também adorava jogar com as pessoas. Aos quinze anos, Paula tinha a frieza de alguém que vivera muito; ao mesmo tempo em que parecia indiferente, era atenta aos mínimos detalhes e reações humanas. Hoje sei que era um estudo, ela é uma cientista genial; suas observações eram um aprimoramento para suas perversões. Aliás, somente agora chamo de ‘perversões’ já que em nossa relação eram atos de altíssima carga erótica para ambas. Rebecca, não posso negar que amei Paula. Amei com deslumbre, devoção, com encantamento, com servidão. Amei aquela garota que havia me desdenhado quando nos conhecemos, fazendo joguinhos comigo.

Luciana não via, mas podia imaginar as expressões da jovem, pelos movimentos do corpo. Mesmo acomodada em Luciana, Becky parecia sem posição. O silêncio repentino deixava a jovem ansiosa.

A médica fez uma pausa, pois lembrava-se de quando conhecera Paula. Não houve reação da parte da jovem da cidade quando o professor as apresentou. Apenas os olhos castanhos avaliaram Luciana da cabeça aos pés, ato contínuo, virou-lhe as costas e foi embora. Nos primeiros dias de estada, a jovem do interior foi testada com toda a sorte de torturas psicológica, desde sustos com pedaços de animais até ter uma aranha peluda e horrenda colocada em seu rosto, enquanto dormia. Neste dia, Paula a acordou para observar sua reação. O que a jovem da cidade não sabia era que o pai de Luciana estudava animais peçonhentos para fazer seus elixires contra picadas; assim, a jovem do interior sabia reconhecer uma aranha realmente perigosa. Com esse trunfo, Luciana começou a brincar com o aracnídeo que, apesar de feio e enorme, não causaria maiores danos se fosse tratado com ‘carinho’. Assim, invertendo o jogo, Luciana começou a ameaçar Paula. Com isso, acabaram por brincarem ‘perversamente’, o que encantou a jovem da cidade. Depois foi só colocar na mesa (melhor, na cama) suas preferências. O amor despertado em Luciana não fora o mesmo tipo de amor despertado em Paula, mas foi avassalador enquanto o pior não havia ocorrido.

- Não media esforços para demonstrar esse amor. – Luciana recomeçou - E ela, tenho que ser honesta, também era devotada. E essa devoção criou uma forma de proteção quando precisei dela. E eu precisei muito. Minha vida entrou numa vertiginosa queda: em horas, perdi minha família, credibilidade, liberdade, motivações; e Paula compartilhou, me suportou, amparou.  Esteve ao meu lado todo o tempo. Protegeu-me de tal forma, que ninguém mais me alcançava, se não através dela.

Novamente o tema da família que todos falavam, mas ninguém explicava. Com certeza, o verdadeiro porquê de tudo. Mas Rebecca não interromperia agora. Não quando Luciana falava algo que tanto esperava saber.

- Dediquei-me aos estudos, após ser liberada. Se antes eu queria ser médica, naquele momento eu queria ser a mais importante médica desse país. Por um longo período, só cumpria as obrigações acadêmicas, vivendo o resto para Paula. Nesse estágio, nosso envolvimento com os ritos de dominação se intensificaram. Viajamos para os Estados Unidos, o que fortificou nossa união, mas abriu-me para novas experiências. Por isso, ao retornar ao Brasil, eu já era outra pessoa. Seja o que for que havia hibernado em mim, acordou. Becky, tal qual Paula, também sou cientista.
- Jamais aceitaria enxergar o mundo sob os olhos de outra pessoa.
- Exato!
- Eu sei como é.
- Sei que sabe. Na verdade, eu queria fazer com você o que Paula fez comigo: prendê-la somente ao meu lado, ser sua única fonte de vida, de energia, de conhecimento, de prazer; isto tudo traduzia para mim o meu modo de amar.
- Você sabe, agora, que isso não é amor.
- Não sei se já aprendi. Eu ainda tenho muito de Paula em mim.

Rebecca apertou a mão de Luciana, num gesto de encorajamento.

- Como dizia, o mundo que Paula construiu achando que era nosso, já não era visto da mesma forma por ambas. Não sei se algum dia foi, mas houve a conveniência para viver nele de forma tão convincente. Ao voltar para o Brasil, não compartilhava mais do delírio dela; segundo meu conceito de amor, ainda a amava, mas não nas mesmas bases. Comecei a me encher de fazer tudo no coletivo e só com ela: sair, estudar, comer, beber... - deu um riso fraco - ...caçar para torturar.

Rebecca estremeceu.

- Tínhamos uma masmorra/laboratório na propriedade de Arthur. Levamos seres para dissecarmos. Por conta dos estudos, conseguimos um cadáver e o mantínhamos. Mas, também usávamos o local para realizar cenas.
- Tipo as que acontecem no clube da Marcella?
- Exato. Paula era minha mistress; na ausência dela, eu era a dominadora. Naquela época, entretanto, pouco praticava sem ela. Fizemos uma cena e tudo virou um desastre. Paula quis inovar, fez algo que não funcionou, a pessoa era inexperiente e nos levou a crer que tudo estava ocorrendo bem. Na verdade, eu percebi e quis parar. Paula não me permitiu, alegando que a palavra chave ainda não fora dita. Resumo: a pessoa teve parada cardíaca. Mesmo com todos nossos conhecimentos, não conseguimos reanimar e tivemos que chamar Arthur. Eu fiquei apavorada.
- Que horror! Como Paula reagiu? Vocês... mataram...
- Não. A pessoa não morreu, mas ficou muito tempo sem oxigenação; teve danos cerebrais. Paula não se abalou. Ao contrário, enquanto eu e Arthur cuidávamos da pessoa, ela examinava os aparatos, olhava para a vítima e por fim riu; riu porque não calculou o que poderia fazer, riu porque escolhemos mal nossa escrava. Enfim, desdenhou completamente o fato de que poderíamos ter sido presas; perder nossas carreiras e cometer um assassinato. Esse fato marcou o declínio da nossa relação.
- Ou seja, ela sempre teve um quadro psicótico.
- Na época não a via assim. Eu fazia o que ela fazia e, se não me achava psicótica, como poderia achá-la? Becky, fazíamos coisas ditas normais. – deu uma risada – Íamos ao cinema, dançávamos, fazíamos planos profissionais; nós chegamos a montar uma clínica, que nunca funcionou e também nunca foi desfeita. A ideia era trabalharmos juntas. Paula não era apegada em dinheiro, em bens materiais. Seu sonho... veja que ela até tinha um sonho... era atender crianças carentes, promover estudos sobre doenças que atingiam os menores; legitimamente amava crianças.  Só não queria filhos. Eu muito menos. Tínhamos pouco mais de 20 anos.
- Claro, como dividir você? – a jovem disse, com certo enfado.
- Essa coisa de não querer me dividir ocasionou discussões: eu não podia respirar sempre o mesmo ar que ela.  Apesar da marcação dela, naturalmente o cotidiano nos mostrava caminhos diferentes. Thomas era nosso mestre na residência; ele já me conhecia, sabia de tudo que me ocorrera; de repente, descobri que ele desenvolveu um fascínio por mim, após me fazer passar por duras provas de resistência intelectual, emocional e física. Tanto quanto eu, Paula também era brilhante estudante, até porque estudávamos juntas; mas, dentre os outros residentes, era a mim que o Prof. Dr. Thomas Lowestein escolhera como sua favorita e isto era notório para todos os outros residentes. O deus todo poderoso tinha me escolhido. Paula percebeu a ameaça: eu tinha outro mestre.
- Você e ele se apaixonaram? Você traiu Paula com ele?

Luciana começou a rir.

- Becky, não tente concluir essa história sem mim. Em nenhum momento me interessei por Thomas, além da verdadeira sede de saber. Dele eu queria o conhecimento, a aprovação; o apadrinhamento que Arthur não podia dar, por não ter o mesmo cacife. Por incrível que pareça, mas fazendo jus a sua inacreditável segurança, Paula não teve ciúmes dele. Mas teve da minha nova sede de liberdade.  Ainda que sexualmente tivéssemos continuado ativas e vigorosas, ela não conseguia mais revelar novidades. Era como se após o ocorrido, eu achasse que aprender demais era perigoso; como se tivesse absorvido tudo que ela poderia me ensinar e mais do que isso seria criminoso.
- Viu como você é diferente dela?

Luciana afagou Rebecca, achando ingênuo o comentário, mas não esboçando opinião.

- Depois do acidente, eu nunca mais quis dominar. Não para sexo, ou com quem não entendesse o que era feito. Disse a ela que nem queria mais sexo sob esse rito; então, ela me convenceu que seria sempre minha mistress e toda a responsabilidade seria somente minha se a dor excedesse em danos físicos. Isso soou como um desafio e confesso não ter resistido, pois ela é a melhor.

Rebecca sentiu uma pontada de ciúmes misturada com perda de estima. Sabia que nunca seria tão bem sucedida nessa questão destes ritos que a médica gostava tanto. Nem sequer entendia. Claro, fizera algumas ‘cenas’ e se excitara muito. Mas ainda encarava como uma brincadeira para apimentar o sexo, mesmo sabendo que algumas das suas práticas eram bem ousadas.

Luciana conhecia o silêncio e sabia o que se passava na cabeça da jovem.

- Becky, nem comece a imaginar e se comparar com Paula, Marcella ou qualquer outra. O que já fizemos juntas foi de um significado abismal diante dessas outras, porque tem nosso amor como diferencial.  Realizamos a nossa comunhão em nossas cenas. Eu tenho seu sangue em mim, lembra? – beijou afetuosamente o cabelo da jovem.
- Claro que lembro, Lucky. Não dá para esquecer. Está tatuado em nós... - lembrou do momento com satisfação e acariciou o local da pequena marca – Mas, preocupo-me com isso, com certeza. Também sei que não posso me igualar a elas, mas posso estar aberta ao que quiser me ensinar, reservando-me ao direito de não querer realizar. Aliás, acho que isso é a base desses ritos:  segurança e consenso.
- Segurança e consenso... Marcella é muito mais tradicional do que Paula. Nos últimos tempos juntas, ela deixara de lado qualquer preocupação com as convidadas. Eu nem mais queria participar, o que gerava algumas discussões também. Mas eu segui com ela; porém, mais forte do que a nossa, era a minha relação com meus demônios que não estavam apaziguados. Eu tinha uma dívida comigo mesma; uma vingança cutucando sobre todas as coisas do meu cotidiano. Naqueles dias, eu queria executar a minha justiça, mas não achava como. Não era nada, não tinha nada ainda, além da promessa de um futuro brilhante como a médica que estava lutando para me formar. O Prof. Thomas se encaixava nessa possibilidade de futuro, como padrinho, tutor ou qualquer coisa; mas, com certeza, a longo prazo. Isso me frustrava demais, mas também me impulsionava.
- Vingança?
- Sim.  Então aconteceu uma aliança inusitada. Acabei virando a peça principal em um golpe muito bem armado contra o Prof. Thomas. Eu era próxima dele, tinha sua confiança, mas nunca fora sua confidente. Entretanto, também era próxima do Arthur e, este sim, era confidente de Thomas. Eu e Paula, sem querer, descobrimos algumas coisas. Para ela, foi apenas mais uma forma de diversão com a hipocrisia alheia. Para mim foi ouro; o combustível para acelerar o trem da vingança. O tabuleiro foi armado; a vítima seria Thomas; minha recompensa valia a minha traição a ele.
- Você o traiu antes de casar? Mesmo traído, ele casou com você?

Rebecca não entendia tudo perfeitamente, mas Luciana parecia não se importar. Com certeza, não era para ser totalmente assimilado. Mais uma vez, todas as histórias de Luciana sempre deixavam pistas de outras mais complexas.

Luciana soltou uma risada um tanto maligna.

- Becky, eu trairia a tudo e a todos para conseguir cacife para alimentar o monstro esfomeado que era a minha vingança. Ao término do jogo de xadrez, eu era a rainha e Thomas o rei. As demais peças caíram pelo tabuleiro. O rei recebeu sua rainha num ato magnânimo, pois ele era tão ou mais astuto e ardiloso do que ela nas estratégias. Rapidamente se reconheceram. Tramaram e deram o xeque-mate.
- Xeque-mate?? Pelo que entendi, vocês eram oponentes.  – a jovem estava muito confusa - Afinal, você executou ou não o plano? Com quem planejou? Paula?
- Becky, o que vale você saber é que o resultado de tudo foi meu casamento repentino com o dono de um império, de família tradicionalíssima e com quase o triplo da minha idade.
- Agora chegamos ao momento crucial para a Paula, certo?
- Pois é. Uma vez dada a notícia, foi uma confusão! Eu, cega e eufórica pela proximidade de galgar meu intento, não pensei em Paula como uma pessoa fraca, que não suportaria tal acontecimento. Calculei que ela iria rir mais uma vez da minha astúcia. Inclusive, reservara para ela um papel: minha amante.  E fui conversar com Paula.  Cheia de euforia, disse que a amava, coisa e tal, mas meu momento chegara. Tentei convencê-la sob o ponto de vista dela, de que ela me guardara para isso; preservara em mim a chama; toda a arquitetura da minha revanche fora feita por ela, mas eu não tinha mais como esperar; e toda a sorte de malabarismos verbais. De certa forma, não queria tê-la como inimiga; já que amor não existia entre eu e Thomas.
- Existia ainda por ela?
- Não sabia mais. Meu foco, então, não era amor. Esse tinha sido deposto. Para mim, Paula não precisava se afastar. Achei que sermos amantes seria o bastante. Não era. O erro fora feito. Ela teve a pior das reações: o silêncio.

Luciana estremeceu ao lembrar-se do olhar que se estampou no rosto tão expressivo da jovem Dra. Paula. Esse olhar, que durara um ínfimo tempo, hoje assombrava mais a médica do que o outro lançado em seguida, que evidenciou toda a ira da nova mulher nascida do choque com a realidade. Paula não falou nada, mas seu olhar e gestos denunciaram a tempestade que Luciana deveria se preparar para enfrentar. Aquele olhar foi arrancado de sua alma, mas o outro, de amor e desapontamento, fazia Luciana ter seus eternos pesadelos. Era esse olhar que jamais queria ver em Becky.

- Becky, juro que não pensava que a devastaria tanto! Eu não fiz nada de extraordinár...
- Como não fez Luciana??!?!? Você pensava sim; impossível que não soubesse da potência do amor da Paula. Tanto sabia que tentou barganhar; mais uma vez, quis ter tudo: se dar bem com ela, com o Dr. Thomas e consigo mesma. Egoísmo puro. Insensibilidade atroz. Teria sido mais digno cravar-lhe a adaga no coração.

A médica sentiu medo do tom de voz da jovem. Quando a chamava pelo nome, não pelo apelido, era sinal de que ponderava gravemente sobre o fato. E, se a interrompeu, foi porque sua fala soou absurda. As palavras da jovem foram duras, mas ditas com emoção. Luciana sabia que daquele momento em diante, Becky armaria todas as defesas possíveis para Paula.

- Luciana, por mais insano que fosse o relacionamento de vocês, você quebrou um laço de fé. Você desconstruiu um mundo construído somente sobre o seu amor, sobre você.  Sua justificativa pode ser a cegueira causada por sua sede de vingança; mas não é só isso. E as pessoas anteriores? As que você usou antes de Paula? Isto que a fez acreditar que eram da mesma espécie.
- Nunca foi minha intenção enganar Paula...

Becky levantou da cama e acendeu a luz. A médica protegeu os olhos, à princípio para evitar a claridade repentina, mas também evitando mostrá-los, mas a jovem viu as lágrimas no rosto lindo de sua mulher. À luz, não parecia que aquela era a mesma protagonista da história que estava escutando. Aliás, desde que conhecera Luciana, tinha grande dificuldade em acreditar que todas as histórias que descobria fossem sobre a mulher que compartilhava sua cama, coração e, inegavelmente, sua vida.

Toda vez que sentiu insegurança em relação àquela mulher, foi porque testemunhava uma ou outra reação mais forte, causando o receio de estar escolhendo apenas com o abstrato contra o concreto. Não era tão ingênua a ponto de querer que ela mudasse tudo, radicalmente. Nem sabia se ela tinha que mudar. Quem era ela para dizer o que outra vida deveria fazer?

O que via era uma mulher chorando de remorso. Fosse outra pessoa e já seria penoso ver; sendo seu amor, era torturante. Entretanto, seriam aquelas lágrimas realmente um mal para a mulher que as vertiam?

- Luck, ouça, minhas palavras foram duras, mas foram direcionadas à mulher do passado. Alguém que também teve razões e fez escolhas. Não cabe a mim julgá-la implacavelmente. Só não posso evitar lamentar os resultados.

Luciana caminhou até Rebecca. Limpava as lágrimas com as mãos e as esfregavam nas pernas nuas, parecendo tão frágil com esse gesto quase infantil. Aquela cena encheu de ternura o coração jovem.

Pelos deuses, se já não fosse, a jovem teria se apaixonado loucamente naquele momento. Era como ter a visão longamente esperada: ela via a real Luciana. Sabia que tinham mais tormentos no passado dela, mas para encontrar esse passado, a verdadeira Luciana teria que aparecer em algum momento. Rebecca abriu os braços e a médica se deixou abraçar. Por outra, acabou abraçando fortemente a loira, não querendo perdê-la nunca.

- Becky....juro que realmente não pensei que causaria tanto dano para Paula. Só soube quando fiz e, mesmo assim, você está certa em dizer que não me importei. Naquele momento, somente a minha dor era importante. Foi conveniente achar que a indiferença e frieza de Paula com todos se estenderiam a mim também, quando na verdade sempre soube que não. Ela lançou-me um olhar quando tudo ocorreu que me assombra até os dias de hoje. Como uma maldição que me conjurava que eu sempre vou receber aquele olhar, caso ame novamente.

Luciana apertava Rebecca contra o peito, ao ponto da jovem ouvir nitidamente as batidas do coração.

- Paula me deixou em paz após a morte de Thomas porque eu perdi tudo. Ela disse que lamentou não ter sido a pessoa que causou tais perdas. – Rebecca se arrepiou com essa frase – Todo o tempo que estive com você, creia-me, ela também esteve. Mas era algo abstrato, aparentemente controlado; mas agora, não é mais. Ela está exigindo. Está ameaçando. Rondando. É exagero? Podemos usar meios legais para afastá-la? Sim, mas ela estará lá. Hoje ela tem dinheiro, tem a sanidade calculada, consegue comprar pessoas como eu sempre fiz. De psicótica se transformou em psicopata.

Desvencilhou-se da jovem, causando um arrepio em ambas, pelo frio da separação dos corpos quentes, agora nus no meio do cômodo rústico. Foi até a cama e pegou umas cobertas. Voltou e envolveu Rebecca em uma delas. Depois foi até o fogão e colocou água para ferver. Um chá ou café serviria para pontuar a cena. Rebecca sentou-se na cadeira de balanço. A fragilidade da doutora, mais uma vez, desaparecera.

Enquanto observava sua movimentação, Rebecca passava seus sentimentos em revista. Buscava limpar todo e qualquer preconceito, princípio, moralidade; tudo que sua forma de entender o bem e o mal pudesse colocar como nuvem sobre o que sua mulher revelava. Acima de tudo, não poderia ser radical ao ponto de não entender o esforço de Luciana naquele momento. Era difícil saber os fatos? Sim, era. Era difícil entender motivos e razões? Poderia ser. Afetaria irreparavelmente seu amor por ela? Com certeza! Tinha que ser honesta e admitir.

- Thomas não era um homem paciente. – retomou a narrativa, enquanto aguardava a água ferver - Era caprichoso. Não casamos por amor; mas por um acordo. Ele ainda tinha a mãe viva quando casamos, por isso ele preservava suas tradições. O fato de ser mais nova do que ele, além de ser sua aluna, causava certo burburinho, mas era um triunfo machista e não incomodava; mesmo um escândalo com Paula seria minimizado pelo fato dele validar minha heterossexualidade contra um possível amor não correspondido de uma lésbica louca. Esse tipo de cena até me valorizava, mas não era o que queríamos. Ele me pressionava demais, chegando a me submeter a humilhações. Com a morte da mãe, a pressão passou a ser pelo filho. Pelo acordo, seriam dois e, digamos, estávamos atrasados. Na verdade, era o preço que eu deveria pagar que começava a ser cobrado. E, novamente, caiu tudo sobre Paula: eu a coloquei num hospício usando do dinheiro e influências de Thomas; eu a mantive afastada da família que, talvez, pudesse ajudá-la; eu promovi a série de barreiras legais contra seus pais para garantir que ela não nos importunasse. Percebo agora que, na verdade, Paula só parou porque quis. Nada a deteria. – Luciana entregou o chá, afastando-se novamente.
- Então, você foi pressionada por ele? – a jovem perguntou, pegando a bebida fumegante.
- Fui e não fui. Eu adorava o poder que Thomas me conferia. Num primeiro momento, até lamentei Paula ter sido estúpida e não usufruir da minha oferta, pois me sentia sozinha e sem o sexo que adorava tanto; depois, a ânsia por proteger minhas conquistas das ameaças dela, acabaram com qualquer sentimento nobre; eu queria ser a Sra. Lowestein de fato e de direito. A minha ideia era ter a minha revanche, dar a ele os filhos e sair fora. Mas, quando percebi o triunfo que tinha alcançado, tudo mudou. Por culpa do tratamento dele para a infertilidade, tive tempo de saborear o poder e adorei o banquete. Por saber manipular a situação com Paula, voltei às graças com Thomas. Depois do nascimento de Douglas, até visualizei uma relação mais afetiva. Não tínhamos o amor romântico; apenas uma cumplicidade e lealdade, o bastante para nós. E também o filho tão esperado. Mesmo tendo cogitado traí-lo, minha admiração por ele era inegável. Como disse, eu atingira o auge.  Com ele vivo, não poderia envergonhá-lo; com ele morto, não poderia abrir brechas para os adversários. Assim, a poderosa Dra. Luciana Lowestein nunca se deu chance de se repensar. Como dizia o poeta, os deuses são deuses porque não se pensam.

Sorveu a bebida, olhando fixamente para a caneca em suas mãos. Lentamente, ergueu a cabeça e errantemente deixou seus olhos vagarem pelo ambiente até encontrarem os de Rebecca. Ela estava com os verdes úmidos. Deixou a médica avaliá-la. A narrativa terminara. Mais uma camada tinha sido removida. Uma grossa camada de uma substância viscosa e aderente chamada culpa.

Olhando aquele azul intenso, Rebecca não sabia dizer o quanto tudo mexera com ela; mas sabia que, fosse em outros tempos,o temor de  Luciana não teria sido injustificado quanto ao  fato de perdê-la. Apesar de saber que estava aumentando a ansiedade da mulher morena, a loira permaneceu apenas a encarando, avaliando o rosto lindo. Perdera-se, momentaneamente, na admiração de tamanha beleza. Os cabelos desmanchados, a manta sobre os ombros, os olhos ainda avermelhados. Era linda. Só mesmo mãos divinas poderiam ter esculpido aquelas formas.

- Então? Está vendo os chifres que antes eu escondia? Já sentiu o cheiro nauseante da minha podridão? Está tentando entender como pode amar algo que não existe em mim? – esboçou um sorriso de escárnio ao encarar a jovem.
- Luck, você está certa: isso tudo é muito podre. - Rebecca via a força que Luciana fazia para demonstrar naturalidade ao ouvir aquelas palavras - Lamento ter encontrado uma mulher com esse passado para amar. Como Paula, eu também enlouqueceria com a possibilidade de perdê-la de forma tão desleal; ainda mais a deslealdade partindo do meu próprio amor.

Luciana sustentava os olhares de forma estóica. Sua cabeça fervilhava. Qualquer que fosse a reação de Rebecca, a médica queria apenas a certeza de ter sido honesta o bastante para a jovem entender o perigo da situação na qual se envolvera.

Depois de tantas cenas grotescas por ciúmes; depois da noite ardente que tiveram; as lindas declarações feitas pela jovem no calor da paixão; era mais do que justo oferecer a jovem a verdade. Agora, mais do que nunca, era sabido que o amor delas nunca fora, e nem seria, ‘mais um’ para qualquer uma delas. Aquele era o amor verdadeiro; não de uma eternidade, mas de todas elas.

- Estou dando a você a chance de defesa. Se quiser correr agora, entenderei seu medo. – disse, soando mais magnânima do que pretendia.

Rebecca baixou a cabeça e a sacudiu, demonstrando que era difícil entender a mulher a sua frente.

A médica reconhecia o gesto natural de impaciência da jovem loira.

Luciana torcia para a jovem fugir; pateticamente, tentava atiçar o medo, a repulsa; mas sabia que não aconteceria. Então, que as revelações servissem ao menos para fornecer proteção. Rebecca tinha o direito de se defender como pudesse, caso ela, Luciana, não conseguisse protegê-la. Ela tinha de saber o porquê do inimigo ser cruel; ser implacável. Tinha que entender as medidas que seriam necessárias dali para frente. Tinha que armar defesas. Como já cobrara antes, jamais poderia ter ficado em desvantagem por desconhecer os fatos da vida de quem mais amava. Era hora dela, Luciana, ensinar Rebecca a lutar contra seus monstros; já que não conseguiu mantê-los presos.

Rebecca estendeu os braços. A médica moveu-se ligeiramente, como temendo que a jovem se arrependesse do ato e ajoelhou-se diante dela. Delicadamente, a jovem repousou a linda cabeça emoldurada pelo negro véu em seus joelhos, deliciando-se com a maciez daqueles pelos.

- A mulher que eu escolhi para amar não me causa medo contando esses fatos. Ela está oferecendo a maior prova de amor que jamais mereci: seu desespero. Ela quer me proteger! Está desesperada por isso. - a jovem delicadamente ergueu a cabeça da mulher mais velha, fazendo-a encará-la - A mulher que eu certamente repudiaria, não existe mais. Resta-me apenas saber como protegê-la após retirar dela sua armadura; após dar aos seus inimigos uma forma de atingi-la. Ela se diz nociva para mim; acredito que é o contrário.  Eu a tornei fraca.

O beijo foi simples. Não havia nenhuma razão para superlativos. O encontro físico tinha sido sublimado pela comunhão espiritual. Luciana ergueu Rebecca, colocou-a entre seus braços, dentro de sua coberta, colando os corpos nus. Ficaram abraçadas por um tempo, sentindo as peles quentes, os indícios da aceitação de suas formas. A médica sentou-se na cadeira de balanço com a loirinha em seu colo.

- Becky, vou dizer a você o que disse à Régia: eu a amo, mas a amo viva. É egoísmo meu, mas não vou suportar saber que um fio de cabelo seu foi mexido por minha culpa.
- Você revirou vários fios há pouco tempo nesta noite... - tentou ser engraçada.
- Eu falo sério. – a médica não comprou a brincadeira.
- Se é egoísmo seu me querer viva, é egoísmo meu não querer que você me proteja se entregando para Paula. Não é possível que isso seja a única solução.
- Quer que eu a mate? - a médica estava no limite da paciência ante a teimosia da jovem - Se você me garantir que conseguirá viver comigo após eu matá-la, farei isso sem pestanejar. Quer?

Rebecca estremeceu diante da sinceridade no olhar da médica. Sabia que a velha Luciana, que ainda buscava emergir, seria capaz disso. Mas não sabia se ela, Rebecca, viveria novamente a dualidade de ter a “velha” e a “nova” Luciana surgindo quando fosse conveniente.

- Além dessa outra solução, temos que ter uma saída. – disse, meio titubiante - Algo que não exija que você se destrua. Que nos destruamos, porque eu posso ficar viva, mas nunca mais terei vida!

Ficaram em silêncio por um tempo.

- Ofereça-me a ela como escrava de vocês!
- O QUÊ?!?!?!
- Ela vai adorar poder me humilhar na sua presença; mas, ao mesmo tempo, você poderá me preservar. Poderemos ficar juntas. Eu aceito ser sua quando for permitido e como for.

Luciana não sabia se ria ou chorava.

- Becky, meu amor, depois eu que sou insana em querer viver com Paula!! Você não tem noção do que disse! Ela não permitiria que você encostasse em mim, mas iria com certeza submetê-la aos jogos pesados. Nem nos tempos em que eu acreditava na sanidade dela, deixaria você ser nossa escrava. Acredite, não existe mais nenhum respeito por ritos. Não estaríamos em uma cena, com tempo limitado para ocorrer. Você não teria palavras de segurança para se livrar; não teria vontade ou poder algum. Eu até poderia tentar dominar, mas diante de Paula eu nunca serei a dominante. Ela jamais permitiria, sabendo que se assim o fosse, de alguma forma, eu a protegeria.

Luciana posicionou Rebecca de forma a se olharem nos olhos.

- Tira essa ideia da cabeça. Se algo semelhante ocorrer, jamais poderei olhar para você novamente. Será o fim para mim. O que vou fazer com Paula, como vou me virar com ela, é tudo uma forma de ganhar tempo. Nesse ínterim, por favor, fique afastada. Jamais duvide do meu amor, da mesma forma que jamais duvidarei do seu; meu objetivo é preservar sua integridade, porque eu vou voltar para você. Entendeu?!?!
- Mas, Luck... não posso...
- Quem tem e merece ser humilhada sou eu. Engolirei meu orgulho, esquecerei minhas vontades, farei o que Paula quiser; mas aceito isso, porque mereço. Mas, se essa podridão atingir você... - Luciana encostou o rosto de Rebecca em seu peito, pois o olhar que deixou transparecer, se fosse visualizado, mataria a jovem só de pensar.
- Luck... desse jeito, você me assusta mais do que já estou.
- Então, por favor, nos ajude atendendo o que peço!
- Como posso...
- Pode, deve e vai!!! Você tem que poder. Sei que pode. Confia, pois vou resolver! Apenas, proteja-se.

Como querendo selar de vez o assunto, Luciana beijou a jovem com ardor. Súbito, levantou com Rebecca no colo e foram para a cama. O som da mata anunciava que o dia estava começando. Luciana colou a jovem em seu corpo, em concha, e a fez dormir.

- Confio em você. – foram as palavras de uma Rebecca quase adormecida.

 

****
****

 

- Régia, amor, elas não voltaram. Duvido que partiremos amanhã. Como você está se saindo?
- Hoje consegui despistar Paula. Mas não vai demorar para nos confrontarmos. Se ela chegar perto, vai saber que não sou Luciana. E a coisa vai pegar. Para todos nós. Luciana está negociando com ela, barganhando a própria liberdade. Paula vai cobrar caro. E eu, como dublê, não posso pagar. Dê um jeito de avisar às duas que calculo poder segurar mais um ou dois dias. Depois, qualquer que seja o plano da doutora, poderá falhar se o engano for descoberto.
- Amor, só terei como manter contato amanhã, pois chove torrencialmente por aqui.
- Isto também significa que ficaremos longe mais tempo. Tenho saudades.
- Tanta coisa pendente. – suspirou - Temos de saber se essa empresa vai continuar; se essa Norah é real e, em sendo, se quer ficar conosco ainda. Temos de cuidar da transferência da Anna para a mansão. Vamos ter que dar suporte às duas, seja qual for o plano da doutora. Ai, quero meu lugar na coxia de volta!!!

Régia riu do desabafo de sua mulher. Concordava plenamente com ela. Nunca imaginara que iria preferir os outros tempos de volta.

- Você pode ficar arrepiada, mas matar é muito menos estressante do que manter a paz e o amor!!!!
- Então me mata!
- Só se for de amor.
- Então eu quero ser uma zumbi! Morrer e viver para devorar seu amor e morrer mil vezes e em cada mil, outras mil.

A conversa que se seguiu fez as amantes se esquecerem das tramas que estavam sendo armadas pelo destino. Cheias de armadilhas.

E a primeira delas, pegou Régia.

Na manhã seguinte, a ex-líder decidira se refugiar no quarto da filha. Armou-se de óculos escuros, echarpe e avisou suas novas aliadas e instruiu que deveriam avisar sobre uma consulta urgente com um otorrino, caso percebessem a aproximação da médica insana.

Logo cedo, ao entrar no quarto da filha, a falsa médica deparou-se com Paula.

- Seu refúgio é aqui agora, colega?

Disse e se aproximou da falsa médica, que se afastou, ajeitando a echarpe sobre a região da boca.

- A toda-poderosa fica doente como uma reles mortal? Que decepção!!!!! – disse, gargalhando.
- Parótida. – Régia forçou a voz e mexeu no prontuário da menina.
- Vamos conversar por mímica? – e fez uma careta, fazendo movimentos com a boca.

Paula estava com certa dificuldade em falar, ainda por causa do ferimento na língua. Mas, nada a detinha.

- Gosto dessa menina. Li todos os estudos sobre ela. Quando provoquei a imprensa, me diverti vendo você na TV se explicando com o povo. Saiu-se muito bem; ao ponto de estragar minha diversão. Como sempre, brilhante. Astuta raposa. É por isso que nos pertencemos!

Falava, enquanto rodeava a cama de Anna, ao mesmo tempo que passava suavemente a mão pelo ombro da morena. Parando à cabeceira de Anna, estendeu a mão para tocá-la; num impulso incontido, Régia segurou sua mão firmemente. Agradeceu as luvas que usava.

Paula olhou a mão ao redor de seu pulso com certa indiferença, continuando com o gesto de acariciar o rosto da menina.

- Dia desses ela abriu os olhos. São azuis. Como deveriam ser os do seu filho, certo?

A falsa médica permanecia calada.

- Aquela cucaracha que cuida dela não percebeu que deve suspender toda essa medicação. Nem você percebeu, mas o que quer que estejam combatendo, não existe mais. Ao suspender a medicação, poderão avaliar ao que ela reage; já que não existe mais o que estabilizar.
- Por que devo acreditar em você? A mãe dela quase arrancou sua língua! – a intuição de Régia a fez falar mais do que deveria, ainda que disfarçando a voz.

Paula largou o rosto da menina e, seus olhos que estavam calmos pela primeira vez desde que Régia a conhecera, voltaram ao antigo deboche. Ela riu alto, da forma característica.

- Aquela mulher é deliciosa. – disse, colocando a língua para fora – Até me excitou!!! Poderia me apaixonar por ela. Mas... já tenho você para me ocupar... - afastou-se, sentando na poltrona – Tenho outras formas de atacar aquela uma, mas essa menina não tem culpa. Se aquele discurso todo que você fez na TV for verdade, seus estudos poderão salvar mais crianças. Essa aí é uma cobaia preciosa. – ficou em silêncio, avaliando a morena.

Régia, contando com a ajuda dos óculos, sustentou o olhar e, ao mesmo tempo, pode avaliar a mulher que a olhava. Sentiu perigo, sim; mas, também, sentiu incomodo. Conhecia aquela sensação: ocorria quando tinha que eliminar alguém reconhecidamente perigoso, mas que na verdade, não poderia ser totalmente responsabilizado por seus crimes. Por outro lado, sabia que tinha que anestesiar seu lado humano em situações assim; por duas vezes se deixara levar e errara terrivelmente, causando muitas complicações para si e outros realmente inocentes. A Dra. Paula intrigava a assassina fria e calculista. E, a frase dita em seguida, não ajudava em nada na avaliação de Régia.

- Lembra, doutora, que seríamos as salvadoras dos pequenos? Você me encarcerou, acabou com minha carreira; mas, eu continuei a pesquisar para passar o tempo. Não sabe como fiquei feliz ao saber que você, com toda sua fama e prestígio médico, falhou miseravelmente com seu filho. – fechou os olhos, como quem saboreasse uma lembrança prazerosa.

Ao reabri-los, olhou novamente para Anna.

- Podemos salvar essa aí, colega. Um presente meu; pelo filho que você deixou morrer.

Régia era grata por ser ela a ouvir aquela afirmação. Luciana desmoronaria mais ainda com essa provocação. Por outro lado, não gostou da forma como a médica loira oferecia sua filha. Para ser franca, não sabia o quanto poderia acreditar na loira insana. Mas, sabia que deveria ir embora enquanto ainda a enganava. Como que cronometrando, a secretária entrou no quarto.

- Se não é a miquinha amestrada eficiente. – disse, caminhando em direção à moça, que se encolheu para os lados de Régia/Luciana.
- A... a... doutora tem consulta com otorrino em 45 minutos. – disse.

Em seu papel, a impostora lançou o característico olhar de Luciana quando ignora o ser que julga insignificante; porém, Régia manteve-se atenta à Paula que se aproximava da moça. Tão logo Larissa virou-se para sair, Paula ficou à sua frente, cercando-a; e, quando a moça se esquivou, deu-lhe um sonoro tapa na bunda. Seria cômico, não fosse o evidente pavor despertado na secretária.

- Chega! – a falsa médica impôs presença, ainda que com a voz falhando.

Paula ria muito.

- Se não quer me dar crédito, fale com a cucaracha. – disse, olhando para Anna, encaminhando-se para a porta.

A atenção de Régia quase foi desviada, quando Paula falou novamente.

- Luciana, seu prazo está acabando. Quero o que me prometeu! Podemos começar amanhã!!! – falou com a voz pastosa.

Durante o dia, não retornou mais para o hospital. Embora soubesse da vigília de Paula, na mansão estava menos propensa a encontrá-la, já que lá ela não invadia. Ainda.

 

***
***

 

- Norah, já disse que esse nome é sua cara? – começou a rir
- Umas mil vezes. O que você quer?
 - Você conseguiu falar com a Rebecca?
- Não. O celular dela não responde. O enterro foi ontem. Como o casal leão-de-chácara ainda não retornou, penso que Rebecca virá com elas.
- Liga para a Clara, então!
- Negativo. Ela e a mulher dela são espertas demais. Não posso me arriscar a aparecer muito, agora tão perto da conclusão.
- Que ódio!!! A Paula está no pé da Luciana. Não tem atendido meus telefonemas. Ela não é confiável.
- Só tem que manter a Luciana com algum sentimento por Rebecca: quer seja de amor, remorso, ódio. Qualquer coisa, para que nossos esforços não sejam em vão.
- Claro. Mas, dependendo do sentimento, o valor da mercadoria cai muito.
- Não quero saber. Não ganho em percentual!
- Gracinha. Se eu não tirar o que mereço, você muito menos! E nem ouse replicar ou me ameaçar.

A falsa consultora nem se deu ao trabalho de replicar mesmo.

Ainda mais sabendo que fora a responsável pelo atraso e que não conseguira lograr seu intento.

- Sabe, Norah, ao repassar todo o plano, não ficou bem claro para mim como que você acabou como pivô dessa separação?
- Como assim? – a impostora foi pega de surpresa - Foi você quem mandou que eu encenasse o romance com a loirinha! – retrucou.
- Eu mandei você levantar suspeitas; criar climas; instaurar dúvidas. Não acordar a ira de Luciana.
- Foi o que eu fiz...
- ...bem demais!!!  Algo que beneficiou a Paula, mas ferrou comigo, desvalorizando a mercadoria.
- Então explica isso para a Luciana. Quem sabe, na hora de negociar, ela resolva aumentar um pouco, em consideração aos seus velhos tempos!!!
- Chega de sarcasmo. Vai cuidar da vida! Vou pensar em alguma coisa. E, Norah, espero que você ainda seja fiel a mim. Ou devo pensar que você também se beneficia com isso?
- Já disse que quero dinheiro...
- ...Paula tem.
- Aí você tem razão. Portanto, tem que cuidar dela e não de mim. Ela que está nesse plano sem nenhum objetivo outro a não ser Luciana. E, ao que parece, o interesse dela é manter Rebecca bem longe.
- Não sei se consigo segurar Paula. Não tenho nada para barganhar com ela, a não ser oferecer a própria Rebecca e, por conseguinte, Luciana.
- Problema seu.
- Problema NOSSO! Se eu cair, você cai junto. 
- Então, você cuida de Paula e eu vou atrás da Rebecca.
- Ocorreu-me uma coisa: tenho certeza absoluta de que, caso possam se encontrar, Luciana e Rebecca encerram essa fase. E, no meio de uma reconciliação pós-tempestade, o amor e posse da morena estarão no ápice e...
- ...o valor da mercadoria eleva vertiginosamente!!!
- Correto!

Norah não gostou muito disso. Juntar novamente as duas. Claro, sabia que era esse o intento de Rebecca; mas, se pudesse, iria atrapalhar.

- E então: eu insisto para Rebecca voltar ou deixo ela lá? – disse, com real irritação.
- Faça ela voltar; arrume um encontro com Luciana e vamos dar mais um tempo.
- QUÊ?... agora vou bancar a cupido? – disse, quase gritando!
- Se quiser ganhar mais...

Começava a se arrepender de bancar dois jogos. Não gostava da pressão que sofria por ambas as partes. Paula era perigosa. Não era aliada, porque não respeitava acordos. Estava jogando seu próprio jogo e, pelo que parecia, se saindo muito bem. No fundo, ainda tinha esperanças com a loirinha, caso a loira maluca conseguisse êxito. Embora sempre tivesse duvidado do ódio de Luciana por Becky, não poderia também arriscar em não crer; parecia que a médica transitava facilmente entre os opostos e bem provável que realmente estivesse irada com sua impotência ante as decisões da loirinha. E, se fosse real, a única forma de barganha seria pelo remorso, que talvez a médica sentiria caso algo acontecesse com a loirinha. Ao pensar em acontecer algo à Rebecca, sentiu arrepio.

Só que, nesse caso, a loira maluca teria interesse em manter o combinado original? E o que ela, como agente duplo, ganharia: talvez uma noite com Rebecca, antes de concretizar sua tarefa? Seria prudente ficar entre os fantasmas de Luciana nesse acertos de contas surreal? ‘Maldito orgulho ferido!’, pensou. Respirou fundo.

- Então, você cuida de Paula e eu vou atrás da Rebecca.
- Vou desligar.

A consultora não gostava desse controle frouxo sobre a médica loira. Olhou para o celular. Já era quase meio-dia, mas tinha diferença de fuso horário. Tentou novamente ligar para Rebecca.

 

***

 

Na fazenda, como já era próximo ao meio-dia e nada das duas aparecerem, Clara pegou um cavalo e foi para a cabana.

Primeiro, tentou o celular de Rebecca e não obteve sucesso. Então, não restava nada a fazer a não ser interromper o que quer que fosse que estivesse acontecendo. E, realmente, estava acontecendo.

Deparou-se com a caminhonete no local onde fora deixada. Ao chegar perto da cabana, ouviu sons inegáveis do prazer do casal. Em outra situação, até iria dar uma volta e esperar; mas sabia que poderia demorar e, no momento, tinha urgência. Temia pelos planos de Luciana, mas temia muito mais por Régia metida com a louca.

Nada delicada, eliminando qualquer possível sutileza, literalmente esmurrou a porta da cabana.

Rebecca acordara e deparara-se com Luciana olhando-a fixamente. Não tinham mais palavras. Assim, não precisavam de tempo para mais nada, além de amarem-se. A jovem tinha o desejo insano de tirar da médica todos os prazeres possíveis, como se pudesse estocá-los para os dias que se seguiriam, diante das resoluções compulsórias impostas pela delicada situação.

As insistentes batidas na porta demoraram a serem reconhecidas como tal. Luciana estava no ápice de um orgasmo represado, da forma como adorava fazer, torturada pelos ataques constantes da língua de Rebecca. Sentia as batidas do coração nas têmporas. Ambas ouviram os murros, mas o apelo do prazer era maior. Tão logo o glorioso orgasmo da doutora se libertou, Luciana não conseguia mexer um músculo sequer; em melhores condições, Rebecca atendeu a porta.

- Clara?!?!?!

Diante da ex-secretária, uma Rebecca vermelha, suada e enrolada em um lençol demonstrava surpresa.

Por sua vez, Clara estava acostumada com a desinibição da doutora; mas, ao ver Rebecca em evidente pós-sexo, sentiu algo estranho, quase pudico. Ficou sem jeito.

- Preciso conversar com vocês. Urgente!
- Quer entrar? – Rebecca ajeitava os cabelos

Clara sabia que a cabana era pequena, sem muitas divisões internas; o que não fornecia privacidade. Depois dos sons escutados e da aparência da loirinha, tinha certeza que o interior da cabana estaria muito ‘denso’.

- Rebecca, vou aguardar aqui mesmo até vocês se recomporem. – Clara não queria ser indelicada, mas precisava ser incisiva.
- Ah! Certo. – a loirinha ficou mais vermelha ainda – Uns 15 minutos... não demora... já vou... – dizia, fechando a porta.

Apenas para seu desencargo que Clara fez isso, porque ao entrar, a doutora estava na cama, cobrindo mal e porcamente suas magníficas formas. Rebecca, por sua vez, estava usando uma camiseta mais comportada.

- Bem, a Régia pediu para avisar que não segura Paula por muito tempo. Seja qual for o plano, teremos que voltar. Ao menos eu e a doutora. Ou só a doutora. Ou Régia sai de lá. – Clara não fez rodeios.
- Régia descobriu alguma coisa? – a doutora ignorou todos os outros comentários.
- Sim, doutora. Em resumo: Paula está barbarizando no hospital! Tem outras coisas. Inclusive, hoje, ela abordou Régia e disse que o tratamento da Anna está errado. Disse que ela e a doutora poderão salvar a menina se pararem toda a medicação.

Clara lembrou-se do recado que Régia pediu que entregasse, mas certamente não poderia ser na frente de Rebecca.
A médica ficou olhando para Clara, desconfiada.

- Mais alguma coisa?
- Tem muita coisa, mas é melhor Régia detalhar. Quando a doutora imagina partir?

Rebecca, até então calada, olhou imediatamente para Luciana.

- Se o tempo permitir, amanhã cedo.
- Ótimo. Falei com o piloto e ele disse que a previsão é de melhor estabilidade amanhã. Vocês voltam hoje para a sede?
- Sim. Vamos agora. – dizendo isto, levantou-se da cama, ficando como veio ao mundo - Como você chegou aqui?
- Cavalo. – Clara falou automaticamente, já encaminhando-se para a porta.
- Deixa ele aqui, depois o Daniel vem pegar. Você dirige a caminhonete.

Rebecca permaneceu muda. O que Clara achou um péssimo sinal. Luciana também.

- Tudo bem, Rebecca?
- Clara, o que não tem remédio, remediado está!
- Espero na caminhonete, então. - Clara saiu, para dar privacidade às duas.

O silêncio entre o casal já se tornara um poderoso diálogo entre suas almas. Apenas seus olhares encontravam-se, em um discurso mudo de resignação. Reuniram as poucas coisas e, abraçadas, foram para a caminhonete.

Chegaram à sede para o almoço.

Clara pediu para Ruth distrair Rebecca; queria falar sozinha com a doutora.

- Régia pediu que dissesse a frase que Paula proferiu hoje: ‘Luciana, seu prazo está acabando. Quero o que me prometeu! Podemos começar amanhã’.

Luciana fixou o olhar em Clara, novamente.

- Clara, o que a Paula falou sobre Anna pode ser verdade. Quando chegar ao hospital, vou falar com a Dra. Paz e colocar a Paula junto.

A ex-secretária apenas assentiu. Se Régia concordasse, por ela estaria tudo bem.

- Doutora, todos aqui já sabiam que você não era a Régia.

Luciana apenas sorriu.

- Por isso, tomei a liberdade de contar para D. Ruth sobre a ameaça que ronda a relação de vocês. Acredito que, como mãe, ela possa segurar um pouco a Rebecca. Nesta altura, é impossível que eu me mantenha neutra nessa situação, já que até Régia está virando alvo. A empresa passa a ficar cada vez mais em segundo plano, depois dessa confusão armada com a nossa consultora; aliás, outra na mira das investigações da Régia.
- Régia desconfia dela; mas encontrou algo que justifique?
- Ela vai reportar uma conversa bem interessante que teve com o Waldemar. Mas, a meu ver, o mais urgente é resguardar a Rebecca. Desculpe meu atrevimento, mas a doutora já traçou um plano que, certamente, não a agradará. Sendo sincera, não agradará a nenhum de nós.

Luciana admirava Clara: talvez fosse exagero, mas nem mesmo Rebecca a conhecia tão bem quanto a secretaria.

- Clara, tomei uma decisão: não vou mais viajar e sim aceitar o jogo de Paula. Rebecca sabe e me deu trabalho explicar o porquê de tudo. Dei a ela o panorama no qual estamos inseridas. Dei garantias do meu amor, mas também dei a ela a opção de se afastar ou, no mínimo, armar defesas.
- Entendo.
- Preciso de você, Régia, Ruth; enfim, todos que puderem prezar pela segurança dela. Ela não vai ficar parada; não vai querer obedecer.
- Estivemos ponderando e... bem... nem deveria comentar, mas D. Ruth chegou a pensar em mandar João dar uns recados para a Dra. Paula. Régia disse que não ia dar certo e opinou que, caso a doutora quisesse, seria o melhor momento para pegar Rebecca e sumir, aproveitando-se dessa troca de lugares que fizeram. Com certeza, a Dra. Paula descobriria, mas vocês teriam tempo de estar longe.
- Clara, pensa que já não passou tudo isso por minha cabeça? Facilmente eliminaria Paula da minha vida, mesmo que fosse acabando com a vida dela!!!
- Rebecca jamais perdoaria a doutora!
- Exatamente: não consigo me ver ao lado dela sabendo que prejudiquei Paula em meu benefício e escondi.

Clara ficou pensativa. O que teria levado a esse ponto tão sem volta???

- Paula é esperta.  – a médica prosseguiu - Acredito que Arthur ou Cecília a tenham inteirado sobre o valor que vocês têm em minha vida e, assim, ela já me alertou que caçará um por um até chegar a mim, caso eu tente sair do país com Becky. Ameaçou até mesmo o João e D. Ruth.
- Céus, doutora, que coisa mais surreal!!! Ela tem esse poder... Régia e João são... bem, detesto lembrar, mas eles são matadores profissionais!!!
- Não posso arriscar! Você não é matadora; D.Ruth e Lilian também não. João e Régia não merecem voltar ao passado que tentam apagar, muito menos por terem de vingar a perda de quem amam.

Luciana andou até Clara e segurou sua mão, olhando bem em seus olhos. A ex-secretária sentiu um arrepio. Inevitável não lembrar de Régia, do amor que sentem, do que foi capaz de fazer por ela. Entendia a médica em seu desespero.

- Clara, como disse, aceito enfrentar. Nunca fui covarde. Sempre lutei contra meus inimigos. Claro, não tinha pontos fracos como tenho agora, a começar por esse repentino escrúpulo... – disse, com um sorriso fraco - ...mas, sempre lutei. Vejo que é tudo tão simples agora: basta ter um tempo com Paula até saber como neutralizá-la. Mas ela é perigosa e tenho que ter cautela.
- Pode ser algo sem volta; ou demorado demais. Mas, diante do que vi e agora ouço, não acho exagero que a doutora tema a Dra. Paula. – disse, sustentando aqueles azuis tão límpidos agora, mas em tumulto.
- Rebecca não entende isso.
- Entende, mas é difícil aceitar perder quem amamos sem ter a certeza de que tentamos tudo. Eu fui buscar o corpo de Régia e a trouxe de volta.
- Clara, não quero ser rude, mas chega!!  - soltou a mão da loira - Não estamos em uma novela piegas na qual simples frases de efeito trarão a Paula à razão. Não é um final de dramalhão no qual até mesmo os vilões acabam tendo certo ‘sentimento’ após barbaridades que cometeram. Paula não liga para compaixão; não se importa com solidariedade; não busca redenção; não se comove por sentimentos que a façam recuperar perdas. Para Rebecca é sacrifício; para mim, é uma dívida da qual me esquivei por um longo tempo, mas agora tenho que pagar. Como boa negociante, quero pagar o mínimo que puder e com recursos apenas meus. Rebecca terá que ter paciência. De repente, após perceber que não sou a mulher que ela quer, Paula me deixa em paz. Afrontá-la, no momento, é burrice.

Clara sabia que não tinha mais o que falar. Não era santa ao ponto de ignorar que a atitude da médica poderia dar paz para todos.

- Quero falar com todos na hora do almoço. Incluindo o João.

Facilitando para Luciana, todas as pessoas que interessavam se reuniram para a refeição.

 

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Régia fora avisada que a trupe chegaria por volta das 11 horas em sua casa. Assim, teria que ir ao hospital mais uma vez, já que Paula estaria a sua caça, para cobrar as promessas da doutora.

Estava olhando pela janela, quando Paula entrou na sala. Deparou-se com a falsa Luciana ainda usando óculos escuros.

- Noite difícil, colega? – e aproximou-se tentando beijar a falsa médica.

Régia esquivou-se, arranhando Paula quando essa a segurou para que não escapasse.

- Péssima forma de começar a cumprir o que prometeu colega! – a loira disse, lambendo o pouco sangue do arranhão – Cinto afiado.
- Estou afônica. – Régia forçou a voz.

Subitamente, Paula pareceu ter uma tontura e segurou em Régia/Luciana. Na sequência, desmaiou nos braços da falsa médica.

Rapidamente, o staff foi acionado e Arthur acompanhava sua filha para um quarto, onde fora examinada, medicada e constatado certa anemia. Deveria permanecer em repouso, no soro, por algumas horas.

Com isso, Régia estava livre por aquele dia.

Ligou para Clara para informar que ganharam um tempo de folga.

- Você apagou a Paula? Com aquele seu alfinetinho?
- Os truques de Penumbra nunca falham! – dizia à Clara – Mas, como disse, o efeito passa rápido; e no hospital não conseguirão segurá-la além de hoje, se conseguirem!
- Estamos embarcando.  Tivemos um atraso por causa da Rebecca. Acordou com disposição totalmente contrária ao que combinara ontem. Estava vendo a hora que a doutora ia dar uns tapas nela. Ela está uma pilha de nervos e Rebecca não facilita em nada!
- Nem sei de que lado fico, pois é difícil para ambas; porém, identifico-me mais com a Luciana, por também ter tido minha dose de fantasmas. Rebecca tem que ser mais madura. Tem que se resignar a encenar. Paula precisa crer que domina; precisamos até mesmo deixar ela crer que Rebecca levou a pior com Luciana, para que possamos medir melhor os próximos passos.
- Você acha que estamos seguras com relação a possíveis ataques dela?
- Não. Ela disse que tem outras formas de se vingar de mim. E, se não é pela Anna, deve ser com você. Por isso, tal qual Rebecca, você também tem que se cuidar.
- Ai, meu Deus!!!
- Bem, eu vou ficar mais um pouco. Espero uma ligação da Paz. Quero saber a opinião dela sobre o que a Paula disse sobre Anna.
- Luciana concorda em tentar. E quer Paula junto.
- Por mim tudo certo. Bem, diz a Luciana que ela pode ir para a mansão, porque Paula vai dormir até o final da tarde.
- Você vai esperar na mansão?
- Penso que é melhor. Paula sai e entra daqui do hospital quando bem entende. Ainda vou averiguar esse esquema. As câmeras flagram alguma coisa ou outra, que ela queira; mas, fora isso, em entradas e saídas, nada dela aparecer. Por isso, é mais convincente que Luciana se dirija à mansão, do que eu ir para nossa casa.
- Entendo. Mas, eu preciso ir?
- Não. Não podemos esquecer que estamos “frias” com ela. Não levantaria suspeitas em Paula se não formos juntas.
- Espero você em casa. Não demora!

 

****

 

Clara chegou em casa exausta: a viagem fora tumultuadíssima. O tempo não ajudou, tiveram que pousar em um aeroporto às pressas e depois seguir em voo comercial. Resultado: chegaram ao final da tarde, com quase 8 horas de atraso.

Luciana estava uma pilha de nervos desde que saíra da fazenda.

Rebecca concordara permanecer uns tempos com a mãe; mas Clara não sabia o que cargas d’águas ocorrera, que acordou e disse que não ia mais ficar.

Durante o tempo que ficou com Luciana antes da partida, ou faziam amor ou Rebecca chorava, ou os dois; dava na mesma. A jovem sabia que Luciana estava no limiar da paciência com ela, mas a médica também sabia que não poderia exigir nada, nem impedir que ela colocasse seus sentimentos para fora, após todas as revelações. Ambas estavam frustradas.

Todo o tempo que se preparara não foi o suficiente para realmente ter condições de enfrentar a situação. Concordara em ficar, mas na hora da partida, não poderia deixar que Paula levasse a melhor. Era como ver se quebrar toda a fortaleza que Luciana sempre representou para ela, Rebecca. Pior: saber que não faria nada. Está certo que não sabia o que fazer, mas não deixaria Luciana cair sem lutar ou protegê-la.

- Luciana, você vai desmoronar na frente dela? Vai cair assim, diante dos meus olhos, e acha que vou ficar parada?
- Já disse que você precisa. – a médica dizia com o maxilar enrijecido, controlando o temperamento.

Rebecca não atendia sua habitual cautela, por isso não parava nem mesmo ao ver os punhos cerrados ou o constante esfregar das têmporas que denotavam o estado limítrofe da médica.

- Rebecca, chega!!! – D. Ruth assustou a todas – Luciana já si explicô, já pidiu, já provô que num tem outro jeito. Então chega de chilique! Você é uma Staionoff e vai honrá isso!
- É, sendo perdedora igual meu pai.
- Não, sendo digna do amor de sua mulher, coisa que ele nunca foi! Para de apoquentar as ideia dela. Si qué ajudar, deixa ela cumpri sua sina. Ela precisa de paz. Vai enfrentá uma provação. Vai resorver coisas que ocê num tem direito de se intrometê.
- Não tenho direito?!?!? Qual parte a senhora não entendeu que o meu amor está indo se juntar com seu amor do passado para me defender?
- Arguma diferente da que ocê num intendeu oiando o próprio umbigo. – a expressão de Ruth era séria, autoritária, como nunca haviam visto antes. – Luciana é muié adurta e ocê devia ser também!

Largando a filha assustada a observando, D. Ruth foi até Luciana e segurou seu rosto entre as mãos, olhando os olhos azuis marejados.

- Luciana, saia por aquela porta e faça o que tivé que fazê. Se precisá de nóis, tamu aqui. Confiamo no cê!  - virou para sua outra filha – Lilly, leva sua irmã pro quarto.
- Mas, mãe... - as duas falaram juntas.
- Num tem mais... vai... chispa as duas. Nunca bati no cê, Rebecca; mas, se for preciso, começo agora!!

E, com essa cena digna de pastelão, Clara e Luciana deixaram a fazenda.

Após metade do tempo de voo, foram avisadas da alteração de rota.  Não tinha como prosseguir viagem, senão em avião comercial e, mesmo com esses, estava fechado o teto do aeroporto. Na sequência de perdas de poder, para Luciana era frustrante não conseguir simplesmente chegar em casa.

Em determinados momentos, a médica esquecia que Clara não era mais sua secretária e cobrava sua eficiência. Mesmo sabendo que isso era ato reflexo da médica, a ex-secretária se abalava com a tensão imposta.

Assim, ao chegar em casa, Clara lamentou não ter Régia esperando; mas, por outro lado, pode se preparar para recebê-la.

 

***
***

 

- Rebecca, finalmente você me atendeu!!!
- Norah, desculpe-me, mas as coisas estão tumultuadas. Não estou com cabeça...
- Lamento pela morte do seu pai.
- Não sei se eu lamento, pelo que ele andava aprontando. – disse amargamente.
- Bem, só queria dizer que quero ser sua amiga. Não importa o que houve. Quero ser sua amiga.
- Que bom. É um peso a menos para mim. Minhas emoções, sentimentos, afeições estão confusas; não sei qual a direção. Quando penso que é Luciana... droga....
- É isso que queria dizer também: se puder, quero ajudar vocês a reatarem.
- Co... como... assim?!?!!? – Rebecca ficou intrigada.
- Admito que aproveitei de toda a sucessão de erros para tentar conquistá-la. Acredito que vocês só estão separadas porque não tiveram a chance de ficarem juntas. Isto porque eu quis levar a melhor. Aquela fala final da doutora lá no flat, aquele dia, não era de quem fazia o que queria. Algo, além do meu amor, está ameaçando vocês.

Norah tinha essa capacidade de encantar Rebecca com suas atitudes. Era uma mulher sensata. Claro, como todo ser humano, tinha seus desejos e ambições; lutava por elas, mas sabia o momento para suas decisões. E era muito perspicaz. Era de uma amiga assim que precisava.

- Norah, eu entendi que você aceita que eu volte com Luciana... e quer que eu volte!!!
- ...não é questão de aceitar, mas de saber meu lugar. Aceitando ou não, você ama Luciana, não a mim. E eu a amo e não quero vê-la infeliz, como me parece agora. Você vai ficar na fazenda?
- Sim... Lucia... Régia e Clara estão embarcando agora. Não queria, mas precisei ficar.
- Decisões de partilha? Se precisar, posso ajudar.
- Na verdade, não. Nossa parte já foi repartida.
- Você ia dizer algo sobre Luciana; você falou com ela?
- Nã... nã... não falo... falei... não sei dela!
- Se quer notícias, não tenho. Estive no hospital, mas a secretária disse que ela não me receberia. Mas, acabei vendo aquela loira... aquela uma do dia da discussão.
- Paula. – disse, sentindo um gosto azedo na boca.
- É. Não sei se me reconheceu, mas ficou me olhando zombeteiramente. Não sei quem é, mas você acha que Luciana corre perigo com ela? Ela tem cara de louca!!! Obcecada pela doutora.

Rebecca começou a chorar.

- Norah, você quer me ajudar? – disse, com a voz chorosa.
- No que eu puder!

 

***
***

 

Ela sempre fazia isso: ficava me esperando no escuro, tentando me pegar desprevenida, mas sabendo que não conseguiria. Era uma brincadeira nossa. Dizia que desde a primeira vez que a peguei no escuro, quando veio desligar o notebook, ficou com essa fantasia na cabeça. Lembrou que a joguei ao chão e caí nua sobre ela, sentindo nossas peles roçando nos lugares onde sua roupa se deslocou com a queda. Em suas palavras, nunca mais conseguiria reproduzir aquela sensação; mas, agora, poderia dar sequência ao que interrompemos então.

Assim, ao chegar em casa, entrei e percebi o vulto; com violência moderada, a joguei ao chão, ficando sobre ela; mas dessa vez, confesso que errei um pouco e a deixei de bruços, com o rosto colado no piso.

- Ouchh... - ela soltou o ar, como um saco que estoura.
- Desculpa, não queria machucá-la.
- Tudo bem.

Acendi a luz, preocupada, e ela levantou rapidamente, andando um pouco estranho, mas a visão de seu torso nu, apenas de calcinha vermelha, caminhando com um leve rebolar pelo corredor em direção ao quarto, desviou minha imaginação.

Ela usava salto alto o que a fazia mexer o quadril de forma convidativa. O robe deslocou pela queda, porém ela não o endireitou, apenas foi despindo pelo caminho. Eu estava estática, ainda no meio da sala. Então, ela parou e olhou-me sobre os ombros, mexendo o dedo indicador me chamando. O olhar dela era nada menos do que safado, promissor, mundano.

Corri, arrancando a camiseta, desabotoando a calça, jogando o tênis longe junto com a meia. Meus cabelos estavam longos, para parecer com Luciana; assim, estavam totalmente desalinhados.

Ao chegar ao quarto, vi seu vulto no escuro, banhado pela lua que entrava pela porta que dava para o jardim.

- Acende a luz. – ela comandou.

Acendi. Demorei a assimilar tudo que aconteceu comigo: o perfeito corpo feminino, com seu tórax adornado pelos seios em gotas, o abdômen com músculos bem definidos, a barriga lisinha, tudo ainda bem delicado; agora se transformava. A calcinha vermelha apresentava um volume a mais, inesperado. Jamais imaginei sentir tudo que senti e, admito, senti de tudo e mais um pouco! Senti a agitação característica de quando me sentia a presa, mesmo sabendo que facilmente o caçador seria minha caça. A adrenalina disparou.

Havíamos discutido sobre isso certa vez. Ela queria saber se sentia dor ou incômodo pela cicatriz; se gostava de ser penetrada.

Incômodo de dor nunca senti. Ser penetrada era relativo, pois sempre me entreguei a quem amei; sem restrições. Entretanto, sem ser com dedos nunca fui penetrada, sempre estive no comando. Nunca fui de homem algum até o dia da emboscada. Fazia serviços especiais para os chefes mafiosos que interessavam à minha chefe, mas eu era o ‘homem’ na relação: os caras queriam ser penetrados por mim, cruamente e sem amenidades. Eu usava os falos (alguns, exagerados demais) neles. O único que tentou o contrário... bem... tive que me refugiar no mosteiro, pois espremi e torci suas bolas sem remorso.

Assim, ao acender a luz e ver o corpo perfeito de Clara acrescido do polpudo volume em sua calcinha, assustei-me com a pontada no meu clitóris que jamais imaginei sentir. Literalmente escorri.

- Acha que pode ser minha? – disse, com os braços cruzados por sob os seios, apertando-os na medida para se tornarem apetitosos, contrastando sua feminilidade à masculinidade.

Naquele momento, entendi a fantasia daqueles homens para comigo.

Nunca senti necessidade de pinto, falso ou verdadeiro. Clara disse que gostava de usar, mas temia que eu tivesse algum trauma pela forma violenta como concebi Anna; ela mesma, ainda sentia arrepios com trovões e relâmpagos, pois se lembrava do desfigurado na mata. Mas, eu disse a ela que, do que me ocorreu, apenas me restou a certeza de que matei o desinfeliz e tive minha menina. Fui emboscada, pois em condições normais, jamais teria ocorrido. Sinceramente, não tinha trauma.

Entretanto, simplesmente meu desempenho sexual nunca dependeu de um falo e eu não fazia a menor questão de um. E, depois da cicatriz, nunca mais me deixei possuir.

Enquanto descia a calcinha e revelava o que usava, o olhar dela era desafiador, ainda que eu soubesse que uma simples ruga que surgisse em minha testa, desfaria a atitude tão excitante.

Tenho que admitir: estava nervosa para... cacete (péssima analogia)! Mas muito excitada.

Clara caminhou em minha direção e o balançar do pinto me distraiu. Não era grande, porte médio, porém grosso. O rebolar dela, o salto alto e aquele falo apontado para mim, como uma arma ameaçadora... deuses, eu sou mulher que ama mulher e, ao ver minha mulher usando um pinto, salivo louca por sentir o que ela vai fazer com ele... e em mim... minha libido deu curto!

- Esse tamanho está bom? – disse ao encostar a boca no meu ouvido, sem encostar nada em mim.
- Si.. si... - tive que pigarrear para dizer a palavra tão simples e vi o lampejo de prazer nos olhos verdes.
- Está cheirosa! – disse, com a voz rouca de desejo.
- Tomei banho na mansão. – balbuciei de forma imbecil.

Ainda com a boca encostada no pescoço, com muita propriedade, Clara segurou firme a cabeça entre suas mãos e deu uma lambida em toda a extensão da face esquerda. Régia sentiu como fogo a queimar sua pele. Ia segurá-la, quando as mãos prenderam seus braços, pelos punhos, rente ao corpo.

- Não! Quando eu a tomar, não terei mais tempo. Quero desfrutar agora.

O corpo de Clara tremeu com o tremor da líder ao término da frase. Sentia os mamilos rijos de Régia roçando sua pele. Passou a língua pelo contorno dos lábios.  A boca mais que perfeita, entreabriu.

- Nervosa? – a pergunta entrou pela boca, juntamente com a língua.
- Muito... - era verdade.
- Com medo? – deixou roçar levemente o objeto em minha perna.
- Vários... - arrepiei, recuando um pouco.

Desceu beijando o pescoço, voltou ao colo e deixou sua respiração aquecer entre os seios da morena, já acostumada com a nova altura, permitindo-se ficar confortavelmente posicionada para explorar aquele vale entre os lindos montes.

Como estava, deixou a língua bailar pelo colo, sentindo os ossos, saboreando a leve mistura de sabonete com a transpiração da excitação. Subiu a língua pela outra face, em direção ao lóbulo direito. Régia gemia.

Ao sentir os lábios, sabia que sua fome só faria aumentar. Enquanto beijava, puxava os cabelos da morena, fazendo com que seu corpo se arqueasse para poder nivelar a altura. Clara estava se dependurando no pescoço de Régia que, num arrobo, ergueu o corpo menor. Rapidamente a loira envolveu a cintura da morena com suas pernas, num aperto desesperado por contato, esfregando-se, deixando a barriga da líder lambuzada por seu desejo.

Apenas ajeitando sua preciosa carga, Régia deixou-se beijar, enquanto amparava a bunda firme em suas mãos e sentia o falo se esfregar em sua barriga. A sensação de medo foi indescritível. Era a boca de Clara que ela chupava, mas aquele objeto o que era? Não era Clara, mas ia conectá-las de alguma forma. Nunca acreditou nessa conexão; acreditava na fantasia, na reação do corpo, no desejo; naquele momento, sentia o falo roçando sua pele e era sua mulher que a beijava; os dois a endoideciam pelas conflituosas emoções, ao ponto de imaginar que eram um único corpo, e o fato de ser Clara superava a ideia de ser um objeto.

Clara agarrava sua cabeça, enfiando a língua ferozmente, provocando atrito entre os dentes, chupando os lábios. As mãos de Clara comprimiam os seios de Régia ao ritmo do beijo, numa sincronia feroz com seu quadril, causando certa dor ao fincar o salto nas costas da líder.

Direcionando a boca de Régia para seus seios, Clara quase sufocou a líder, mas ali não existiam barreiras e o bico rijo foi rapidamente aceito, mamado, sugado com deleite. Régia também tinha fome e grudou com posse o outro seio, enquanto a loira deslizava o corpo estranho pelo outro corpo, descendo para o chão, lambendo seu próprio líquido na pele de cetim por sobre os músculos tensos. A líder só fazia gemer e aceitar tudo como era oferecido por sua amante.
Ajoelhada como uma adoradora diante de sua deusa, a loira continuou a lamber a barriga, desenhando o contorno da calça jeans, já um tanto arriada pela esfregação anterior. O osso da pélvis estava saliente pela posição, já que Régia buscava o contato. Esfregava a bunda da líder por sobre a calça, adentrando por entre a fenda, massageando todo o sexo. Abriu o zíper, descendo a calça. Pode sentir o odor. Lambeu por sobre o tecido, mordiscando os lábios. Régia ofegava. Clara estava sonhando com o gosto de Régia desde o dia que fizeram amor rapidamente e ela não pode retribuir. Agora, queria matar sua sede na fonte. Enfiando a língua, foi afastando a calcinha. Os pelos negros faziam cócegas em seus lábios, aumentando a excitação. Esfregou o rosto com deleite por eles. Lambeu a parte interna da coxa, por onde escorria o suco. Fez o mesmo com a outra coxa e, assim, estava com a cabeça entre as pernas da líder. Olhou e viu a cicatriz que, de certa forma, tornava aquele sexo único e dela.

- Separa para mim. – estava em transe.

Com a ajuda das mãos, Régia se abriu. O clitóris revelou-se em sua total rigidez, brilhante, apontando sua necessidade. A gruta molhada vertia seu sumo. Clara não conteve sua gula. Fazendo questão de olhar para sua mulher, posicionou a boca de forma a bailar a língua livremente entre o grelo durinho e a abertura encharcada.

Régia pulsava na boca de Clara. As pernas estavam amolecendo. Clara segurava as pernas dela, dando sustentação, enquanto movia sua boca, nariz e língua por toda a vulva da líder. A morena estava escorregando encostada na porta.
Clara ergueu-se, levando Régia consigo, empalada em seus dedos. Voltou a sugar os seios, enquanto seus dedos entravam. Sua nova altura permitia que erguesse as mãos de Régia por sobre a cabeça, então as prendeu de forma que a líder empinou o corpo para frente. Clara foi precisa ao roçar a cabeça do falo no grelo rijo, encaminhando para dentro da vagina da líder.

Régia esperava o momento, mas não sua reação. Clara colocou só a cabeça do objeto na abertura, querendo atiçar, mas Régia não comprou a provocação submissa: desvencilhou seus braços das mãos de sua amante e a abraçou com força, de forma a deixar todo o membro entrar. Tremeu ao sentir a temperatura contrastante do material sintético com o corpo de Clara; foi estranho. Agora, ela queria provocar a mulher mais velha, olhando-a fixamente.

Clara se assustou e Régia fez o primeiro movimento, guiando a loira dentro de si.  Se era a loira que deveria dominar, de repente, a morena ditava o ritmo segurando fortemente o quadril e rebolando Clara, ao mesmo tempo que também se mexia, em uma dança.

Clara teve força para dominar seu gozo, porque o movimento de Régia invertera suas prerrogativas e ela agora é quem estava sendo revirada em suas entranhas, num massagear enlouquecedor. Mas a loira tinha uma agenda em mente e ia cumpri-la. Abriu os olhos e viu o azul intenso. Olhos nos olhos, sabia que Régia fazia o que era sua primeira natureza; mas, mesmo dominando,  jamais deixou de fazer o que Clara quis.

Clara a empurrou. A forma brusca como o falo escorregou para fora e roçou suas coxas, molhado pela secreção da líder, fez a duas arrepiarem.

O ar gelado que invadiu momentaneamente entre os corpos separados provocou uma excitação pela expectativa de ser novamente preenchida.

Régia agarrou Clara pelos braços e ela se soltou, correndo para o jardim. A líder se atrapalhou com a calça ainda em uma de suas pernas, mas chegou a tempo de ver o corpo de sua Vênus, lindo, com o strap de couro, entrar na jacuzzi.  Com parte do corpo submerso, Clara era o mistério, a possibilidade. Ao levantar-se, deixando a água pingar pelo corpo, escorrendo pelo falo, a loira deu um novo curto na libido da líder.

A morena arrebatou a loira da hidro, colocando-a no colo e a levando para as espreguiçadeiras. Régia deitou em uma delas, abrindo sensualmente suas pernas.

- ...você será a única que permitirei. – o olhar era de entrega, mas imperativo.

Ainda bem que a ereção era garantida, porque senão Clara teria brochado na hora. Quando pensou na brincadeira, nunca imaginou chamar a responsabilidade para si. Nunca usou aquilo que agora estava entre suas pernas. NUNCA!! Marcella fazia essa parte e a ex-secretária gostava. Com Régia, nunca fez. Imaginou fazer, sim, mas não na posição que assumira ousadamente. Por outro lado, a noção de ser a única a ter Régia naquela posição... a ereção viria gloriosa!!!

Se sabia usar ou não, galgou o corpo de Régia, colou suas bocas e introduziu o falo. Errou um pouco, mas Régia corrigiu com a própria mão.  Libido e imaginação estavam disputando a supremacia naquele embate. Clara sentia a conexão, não no objeto, mas no momento que abriram os olhos, no olhar. Régia fazia questão de manter os olhos abertos. Clara estava nervosa e se distraía metendo loucamente. Os gemidos foram surgindo; de repente, a loira acertou o ponto dentro da líder. Não demorou para a morena assumir de novo, a loira só tinha que enfiar e tirar, mas Régia ditava o quanto profundo. Apesar de ofegante, Clara amava ver o eminente descontrole da mulher sob seu corpo. Em determinado momento, a morena prendeu o movimento de quadril, segurou a loira fortemente contra seu corpo, fazendo questão de sentir o contato de seus seios sensíveis. Comeram-se gulosamente; com bocas, narizes, mãos errantes. Clara colocou a mão entre seus corpos e esfregou o clitóris rijo da morena, deliciando-se com a percepção do falo deslizando para dentro da vagina da sua mulher. Então Régia soltou Clara e essa, sem perda de tempo, buscou o prazer de ambas. Querendo sentir em seu grelo, apenas rebolava, deixando um pouco as estocadas. As longas pernas da morena a prendiam, impedindo que se afastasse demais. Clara concentrou-se no movimento e soltou o gozo. Mesmo sabendo que a líder ainda não chegara ao seu ápice, a loira não pode se conter: com as mãos apoiadas um pouco atrás, empinou o corpo para frente e rebolou,  embalou, meteu rapidamente, brincando com as sensações do seu grelo e da parte interna em sua vagina.  Régia segurou os ombros da loira, forçando o corpo menor para baixo, querendo profundidade. “Tinha que ser mais longo” foi o lapso de pensamento de Clara, enquanto escorria na vulva amada, gritando por seu nome.

Trêmula, a loira sabia que a líder não a alcançara, mas estava perto pelos gemidos quase agonizantes. Régia inverteu a posição e cavalgou impiedosamente o falo, de forma a fazer suas estocadas repercutirem dentro de Clara também, movimentando o quadril como se nela estivesse o strap. Régia estava suada de tal forma que parecia untada. O corpo brilhava à luz da lua. Os seios roçavam o rosto de Clara, no frenético movimento de vai e vem. O corpo colossal ondulou convulsivamente sobre o de Clara quando o orgasmo resolveu se libertar. Ela segurava no encosto da espreguiçadeira e a loira teve a sensação de um terremoto revolvendo seu corpo, tanto que o móvel chacoalhava. Clara abraçou o corpo e gozou novamente, mas nem sabia dizer se era o seu próprio orgasmo ou o de Régia entrando por seu corpo. Descarga de energia. O grito vazou pela noite, sem poupar ouvidos curiosos. Esfregaram os corpos suados ainda mais uma vez, sentindo os seios roçarem, provocativamente. A morena descansou a testa suada na testa da sua amante, beijando cada milímetro do rosto adorado.  Régia escorregou e saiu de sobre o falo que ficou entre seus corpos. Com a cabeça encostada na barriga de Clara, desatou a cinta e retirou o acessório. Para deleite de Clara, chupou a parte que ficou dentro da loira, num verdadeiro show de felação.

- Seja bem-vinda!! – a morena disse, ainda ofegante!
- É bom estar de volta ao meu lugar.

Pela madrugada afora, Clara só queria Régia e esquecer o mundo que não era o delas.

 

 

 

Continua...

 

 

 

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