Pentimentos

por Jackie de Sampa

Contato: cidajack@hotmail.com

 

 

 

VINTE E NOVE
PARTE UM

disclaimer no capítulo UM

 

Foram longos anos ausentes.  Os movimentos de Luciana monitorados através dos pais. Dependendo do que a médica morena sofria, sua vida tinha períodos oscilantes entre inquietações e calmarias; mas, sempre, euforias.
Felizmente, sua inteligência (e beleza) era privilegiada; com extrema facilidade manipulava médicos, enfermeiros, enfermeiras e suas máquinas inocentes. Conseguia favores.  Quando lhe convinha, permanecia em alguma instituição, mas em regime semiaberto, mesmo quando não era.
Sabia que seus pais se acobertavam sob as ameaças e chantagens brancas do Prof. Thomas para lavarem as mãos e aproveitarem do conforto que o dinheiro da sociedade empresarial  proporcionava. Por esse motivo, não mais os tinham em consideração. Entretanto, as fraquezas deles também eram aliadas convenientes.  A mãe era fraca em sua constante culpa por tudo que sua filha passava; o pai... bem,  ele fazia mais do que deveria, dada a condição que os envolvia. De qualquer forma, ele era mais leal ao professor do que a ela. Com o tempo, Paula sentiu muito ciúmes de Luciana, pois Arthur era nitidamente mais preocupado com a médica morena, que merecia as honras de filha.
Da mãe obtinha as permissões para sair e entrar nas instituições. Bem como dinheiro que, com o tempo, passou a ganhar sozinha. De tudo, o que de útil obtinha deles eram notícias sobre Luciana.
Durante anos ficou tranquila com o fato de saber que ela estava sofrendo tormentos com suas perdas. Chegou mesmo a sentir pena quando soube da morte do filho, mas foi apenas um laboratório com o sentimento, já que não conseguia atribuir qualquer um que fosse em relação à Luciana, que não amor; assim como não concebia para Luciana nenhum tipo de emoção outra que não o amor que elas sempre tiveram. Tinham selado isso. Era um pacto de sangue. A única mancha na perfeição que Luciana representava para ela, Paula, fora o fato de achar que poderia desfazer a união que perpetraram. Ela foi muito tola. Paula até levava em conta a maravilhosa sensação de cumprir uma vingança que Luciana desfrutara na ocasião.
Fosse outra situação e teria parabenizado a médica morena por sua ousadia. Mas, no momento em que ocorreu, surpreendeu-se com sua própria perda de controle.  Não o perdeu diante de Luciana.  Ouviu suas razões, motivos, desculpas; não acreditou na ingenuidade da médica ao propor que fossem amantes; mas não sentiu raiva dela. Não. Ela estava sedenta por uma vingança que, ao menor sinal de se concretizar, reverteu as prioridades na vida de Luciana. Entretanto, ao sair da frente da morena, sentiu algo que jamais achou capaz de sentir: dor. E ela realmente doeu. Doeu no coração, na cabeça, fluiu pelo corpo e foi destruindo célula por célula de tudo que restava de bom em sua alma. Porque a única coisa boa da sua vida era Luciana. E ela a abandonava.
Não gostava de perder e estava perdendo para a dor, algo que deveria saber dominar; deveria saber exterminar, como médica que era; como perfeita dominadora nos jogos de dominação; ela ria da dor ao sentir, ria da dor ao infligir; ria da fraqueza de quem não a suportava. Mas, naquele momento, sucumbiu. Ruiu por dentro. Nunca, jamais, em hipótese alguma, após todos aqueles anos de experiências sensoriais plenamente correspondidas, pensou em perder Luciana. Não a sua mulher; não a sua escrava, de quem agora percebia ser mais escrava do que dominadora. O que dera errado?
Após esfriar a cabeça, percebeu que o erro fora dela que, para manter Luciana ao seu lado, como refém, barganhou com a promessa de ajudá-la a se vingar, pois era dela esse direito. Claro, nunca pensou em ajudá-la realmente, até pela mão de obra em arquitetar tal vingança.
Com essa resposta frouxa em mente, para poder rir novamente da dor que sentia, refreou seus instintos por achar que ela voltaria após saciada. Com o tempo, vendo quão confortável Luciana se sentia com a situação, o fio de controle rompeu ao perceber que realmente perdera as rédeas da vida de Luciana.
E novamente se culpou. Iria suportar sua dor, como sempre fizera; iria dominá-la da mesma forma que em seus jogos; mas, nestes, ela sempre tinha em quem reverter a submissão e causar ainda mais dor, sentindo o prazer de ver a resignação nos olhos de seus dominados. Queria ver Luciana implorando por seu amor novamente, após saber que não sabia dominar sua própria dor se não fosse pelas mãos dela, Paula. Então partiu para o ataque aos verdadeiros culpados, começando pelo mais fácil: Prof. Thomas.
O cenário estava montado. Na última vez em que se encontraram de forma mais cordial, chegou a ter Luciana submissa e, até mesmo, fizeram sexo com muito mais força. Entretanto, Luciana disse que se assustou com a violência do ato. Insistiu em dizer que não reconhecia mais a Paula que amava. Negou que sentira prazer; mas isso era impossível de ser negado, já que era evidente para os sentidos o quanto mexera com aquele corpo.  Mas ela, movida pela ambição, dizia que nada mais as unia; nada poderia ser como antes. Nunca pensou que a teimosia característica da morena fosse ser empecilho para elas.
Era nítido que Luciana era dela e teimava em não ser, apenas para não perder o poder. As exigências do professor eram as garantias de ascensão social para a ambiciosa morena.
Então, com toda a frieza característica, disse-lhe que a deixaria ter suas riquezas materiais, mas nunca mais ela teria alguém. Nenhuma pessoa em quem confiar, apenas tolos para comprar; mesquinhos para pisotear. Mas, enquanto ela, Paula, vivesse; em qualquer lugar, de qualquer forma, impediria que ela soubesse o que era amar e, acima de tudo, ser amada.
Luciana zombou dela, dizendo que se a ameaça envolvia o Prof. Thomas, ela que cumprisse, pois faria um favor removendo o velho de sua vida.
A médica loira apenas arqueou a sobrancelha; Luciana riu, mas Paula viu a dúvida em seu olhar.

- Querida, você é um monstro e seres assim só podem obter refúgio com seus criadores. Eu criei você. Alimentei, dei ambição, dei voracidade; confesso que fiquei cega, pois minha vaidade maravilhou-se com a minha criação. Esqueci sobre o momento em que o aprendiz vira mestre; mas o mestre nunca deixa de aprender. De agora em diante, estarei pairando sobre sua vida; seguindo seus passos; absorvendo suas conquistas; apreendendo o que minha criatura suga dos medíocres. Cada noite, cada sonho, cada gozo frustrado, cada momento em que você fechar os olhos, pode crer que eu estarei lá; serei sua dor eterna; sua angústia; seu exemplo de crueldade.
O olhar que ela lançava sobre Paula, antes gélido, ameaçou se amenizar.
- Ah...não me entenda de forma piegas. – a loira apressou-se a dizer - Não quero que tenha pena de mim. Não. Tudo o que eu disse não se aplica a mim; tudo o que eu disse que será sua culpa, você verá cada vez que tentar ser feliz de outra forma que não seja comigo. A minha felicidade será a sua infelicidade. Sendo assim o meu objetivo na vida é o de qualquer ser humano: ser feliz.  E o momento chegará no qual ambas seremos felizes, porque você vai entender que só comigo seu tormento acabará. Ou com a morte!

Dinheiro e poder são coisas mais trabalhosas para tirar de alguém. Pessoas são mais fáceis.  E mais desafiadoras.
Quando atacou pela primeira vez, foi no dia do casamento. Queria apenas deixar claro para Luciana quem dominava.
Ela estava linda! Deslumbrante no vestido branco, cabelos negros, os olhos azuis lindamente valorizados pela maquiagem. Naquele momento percebeu a dor de entregar sua cria para outros que não a entenderiam; não dariam a ela o que necessitava. Não da forma como a havia acostumado.
Não pretendia escândalos, apenas um transtorno; causar um certo desconforto na cerimônia.
Pediu um último beijo e, ao fazê-lo, deixou o bisturi lamber o tecido.  Em um primeiro momento, a assustou bastante, pois a feriu fisicamente. O sangue manchando o vestido branco era um belo transtorno.
Óbvio que foi um ferimento calculado. Jamais ousaria macular a beleza de seu amor. Mas o olhar incrédulo de Luciana sinalizou que Paula deixara de ser a pessoa previsível. Paula deixou o recado de que seria capaz de tudo.
Infelizmente, as leis se apresentam ao trabalho para quem tem poder.
O Prof. Thomas ficara possesso com Luciana por expor sua fragilidade e falta de controle sobre a loira. Sob ameaças severas, exigira que ela impedisse que a imundice que a cercava chegasse perto de sua matriarca e patrimônio. E o alerta serviu para o Prof. Arthur também, por quem Paula ficara sabendo da comoção que causara. Ficou encantada com o resultado de seu ataque, mesmo que alguns dias depois recebesse o mandato de segurança tentando intimidá-la.  Tolamente, Luciana tentava cercear a liberdade de Paula, valendo-se da justiça.
Os pais a consideraram estressada, prestes a ter um colapso. Claro, desculpa banal para colocá-la em uma casa de recuperação, em regime fechado; mas durou pouco, pois Paula passou pelos exames que atestavam que, psicologicamente, ela era sã. Claro que era. O rótulo da loucura serve para criar o benefício da dúvida; desarmar defesas, criando incertezas. O louco é imprevisível, melhor não contrariar. Era conveniente.
Nos anos seguintes, acompanhou a relação da médica com a subalterna Marcella. Chegou mesmo a frequentar o clube e ver algumas cenas da eleita de Luciana. O velho vício vencera a nova recatada senhora. Entendeu o que se passava ao ver Luciana cada vez mais poderosa por conta da adoração do Prof. Thomas, que não ia além disso; ele sabia que tinha um vulcão sexual que precisava de vazão.  Paula teve a certeza de que Luciana precisava do tipo de amor que elas tinham. O velho médico não era rival para o sexo. Ninguém o seria. Mas Marcella contentara-se com pouco: manter o emprego e ter a cobiçada mulher. E Luciana também. Mais uma vez, havia fachada e não amor.  Paula admirava essa capacidade que Luciana tinha de prescindir dos sentimentos; mas não aceitava que fosse aplicada a elas. Incomodou demais perceber que, aparentemente, o casal estava se dando bem, com Luciana administrando suas necessidades sem qualquer demonstração de sofrimento.
Então aconteceu a gravidez. Não se conteve. Abordou Luciana para tirar satisfação.
O que ouviu dela era pertinente: a criança era parte de um acordo para que pudesse sair da relação com algum benefício financeiro; a demora era devido aos problemas do professor, mas o filho já deveria ter nascido e ela, Luciana, estaria livre do velho.  Livre, inclusive, para retomar suas vidas. Aceitando as entrelinhas, as esperanças se reacenderam em Paula e ela esperou.
Entretanto, a notícia na revista especializada, entrevistando o casal de forma científica sobre o tratamento para infertilidade, publicou que mais um filho estava nos planos do bem sucedido casal de médicos, caso não viessem gêmeos.
Apesar do cerco dos seguranças, Paula abordou Luciana e demandou que ela fizesse logo o exame para definir se eram gêmeos.
Luciana foi resistente e disse que outro filho representaria um pé de meia polpudo.  Alegou que ela, Paula, tinha pai rico e estava amparada. Demonstrou que outro filho dobraria sua comissão no acordo matrimonial. Era muito dinheiro por pouco. De antemão, já assinara documento passando a guarda das crianças para o professor. Não queria filhos, queria grana.

- Faça por não se arrepender, Luciana! Lembre-se do que eu disse: nunca experimentará amor de ninguém.

O Prof. Arthur contava que o Prof. Thomas dava sinais de verdadeira adoração por Luciana, tecendo elogios rasgados às habilidades dela junto aos negócios, bem como na medicina. Paula escutou com desdém, ainda acreditando em mais uma artimanha da morena para enganar o velho.
Passou a seguir a médica. Os encontros com Marcella cessaram. A vida dela ficou mais caseira. O velho professor era a felicidade em pessoa. Toda vez que vistos juntos, espelhavam o pôster da família perfeita, exemplo de sucesso: milionários, bonitos, renomados, saudáveis e felizes!
Paula começou a se enojar.  Aceitava os planos de Luciana, mas não a felicidade do velho. Ainda mais que paciência nunca fora seu forte e Luciana estava abusando.
Entrou no hospital sem ser incomodada. Foi até o andar da diretoria e invadiu a sala do médico.

- E aí, velho, como vai o namorado?

Thomas ficou lívido. Não bastasse a invasão em seu domínio, ainda a indiscrição da obcecada mulher.  Sem levantar da cadeira, em tom baixo, ordenou que ela saísse.

- Você sabe muito bem que está proibida, por lei, de se aproximar de nós. Vou mandar prendê-la!
- Vai ser um belo espetáculo de circo.  – disse, encarando-o com deboche – Mas, por enquanto, quero apenas que acabe com essa palhaçada de família feliz, seu velho porco, hipócrita. – disse, ignorando a arrogância do homem.

A secretária apareceu e foi dispensada com um comando ameaçador.

- Deixe Luciana em paz! Dê a ela uma boa quantia, pegue esse seu fedelho de proveta e esqueça a ideia de outros. Ela só espera isso de você: dinheiro!
- Luciana e eu temos nossa cumplicidade. Ela não quer nada com você, sua louca obcecada. Não ouse me ameaçar. Pode falar o que quiser, pois nunca lhe darão crédito. Eu tenho nome, tenho reputação, tenho uma mulher linda, jovem e que espera um filho meu. E você, o que tem? O que é?
- Thomas, não abuse. Eu posso...
- O que você pode?  A sua imagem é a de uma histérica, psicopata, obcecada por uma mulher que, para a imprensa, nunca a quis, não tem tendências homossexuais; é um exemplo de profissional, casada comigo e futura mãe.  Tudo que você disser vai ser o que realmente é: despeito de perdedora. Saia, enquanto ainda considero seu pai! – dizendo isto, o médico virou a cadeira.

As palavras provocaram uma explosão de raiva. O abridor de cartas na mesa serviu de arma e a loira atacou o professor.  O golpe atingiu o braço, dando tempo dele se afastar, gritando pela segurança. A porta abriu e a secretária é feita de refém e assim Paula escapa do hospital, ferindo também a moça, diante da inabilidade dos seguranças.
Thomas ficou furioso com Arthur e deu ordens para que remetesse a filha para algum lugar fora do país. O médico de olhos azuis pálidos não podia retrucar, pois entendeu que preservaria sua filha, visivelmente abalada. Lamentava chegarem aonde chegaram, principalmente por ter acreditado no amor de Luciana por sua filha.
Entretanto, apesar da ordem do Prof. Thomas, Paula sumiu sem deixar pista.
Na mesma semana, sucedeu em nova invasão, desta feita na mansão.
Em outra discussão exasperada e cheia de ameaças, mais uma vez Paula percebeu o quanto não tinha trunfos sem ser por violência.
No exato instante em que sacou a pistola, Luciana apareceu e, ao ver a arma, automaticamente lançou-se contra a loira insana. Jamais machucaria sua amada, mas era instinto e lutou, chutando a morena, acabando por acertá-la no ventre.
Mesmo com a dor, Luciana ainda avançou em Paula, tempo para que os seguranças surgissem. Um disparo; uma bala perdida acerta Thomas.
Apesar do ferimento do professor, ele ordenou que socorressem Luciana que começara a sangrar, alertando para um possível aborto.
Após passada a comoção, com Luciana atendida e constatado que não abortaria; tudo se virou contra Paula que ficou sob custódia dos seguranças e, em questão de horas, ela e a mãe foram posta em um avião rumo à Austrália, para um retiro definitivo em uma instituição que o Prof. Thomas, em pessoa, ordenou. Deste local, por todos os lobbies, a loira teve mais dificuldade em sair.
Dois anos transcorreram com Paula esperando Luciana finalizar seu casamento. Porém, o casal estava feliz com o filho. Thomas era a imagem do poder e Luciana não tinha a menor vontade de abandonar sua posição de esposa. Nas empresas, seguia os passos do professor e tornara-se tão temida quanto o próprio. Infernizava seu staff, mas obtinha o que de melhor pudesse ter ao seu lado. E, por essa época, começou a reestruturar a ala pediátrica. Thomas queria que o nome do primogênito fosse dado ao novo anexo do principal hospital da rede. Em uma entrevista, Luciana foi a imagem da mãe, esposa, profissional perfeita. Mas, o amor pelo filho, Paula percebeu que era genuíno. Mais uma vez, Luciana sucumbia ao poder e, desta feita, ao fato de ter gerado esse poder.
A loira até entendia a questão do filho, pois sempre foram alucinadas por crianças. Era óbvio que o velho pederasta do marido conseguira se livrar de dar dinheiro para a morena. Ele, ardiloso como sempre, ludibriara a médica morena. O ódio de Paula por Thomas subiu em escala meteórica. Decidiu que acabaria com a festa. Teria um efeito colateral que era o sofrimento de Luciana pela perda do filho, mas ela superaria diante do dinheiro que herdaria.
Mesmo reclusa Paula conseguiu mandar um recado para Luciana que evidenciava que seu filho era um alvo para a médica insana. O menino já estava com quase três anos e já desenvolvia todos os predicados que o professor esperava, tanto intelectualmente como fisicamente.  Habilmente, sem querer alertar para a ameaça de Paula, o que poderia acordar a velha ira do professor contra essa parte de sua vida, Luciana propôs a viagem, convencendo facilmente o marido a partirem para longa estadia fora do Brasil. Eles iriam fazer um curso para especialização de Luciana, de forma a abrirem a nova ala do hospital com ela chefiando equipes médica e técnica.
No exílio, Paula soube da notícia.
O casal fora para os Estados Unidos. Foram esquiar e Thomas acabou quebrando a perna, mas mesmo assim não interromperam a viagem. Em um dos passeios, Luciana conduzia o veículo; Thomas ao seu lado com a muleta e atrás a babá com o menino. Havia nevado; Luciana perde o controle do carro, derrapa e é atingida na lateral e depois quase frontalmente.  O professor decapitado, a criança ficou presa pelo banco, gravemente ferida; a muleta transpassa o abdômen de Luciana. Milagrosamente, a babá foi lançada fora do veículo, o que talvez tenha lhe poupado a vida.
Paula exultou por 10 minutos, depois percebeu que não se sentia recompensada, pois não fora ela a causar o sofrimento de Luciana; mas, de certa forma, agradecia: a tragédia poderia ser bem utilizada.
Ficou agoniada com a demora de Luciana em voltar do coma. Era diariamente atualizado com boletins emitidos pelo Prof. Arthur. Paula, que era a especialista em tortura, viu-se torturada pelo medo de perder Luciana; e foram longos trinta dias.
Ao voltar do coma, Luciana entra em surto psicológico, apresentando estado de apatia e violência alternadamente.
Por meses insistiu que queria exumar o filho; desenvolveu a ideia de ter sido uma sabotagem arquitetada por Paula. Com essa fixação, mandou investigar os passos da médica loira, conseguindo apenas descobrir que ela esteve o tempo todo internada na clínica indicada pelo próprio Thomas.
A empresa que alugou o automóvel comprovou a vistoria do mesmo, isentando-se de possível culpa por falta de manutenção ou coisas assim.
Apesar de infrutíferas, essas investigações motivaram Luciana a voltar à vida ou, ao menos, retomar as atividades profissionais. Entretanto, apenas as tarefas comerciais; nunca mais quis exercer a medicina, fechando a ala do hospital por um tempo; só reabrindo porque havia um problema com a parte da tubulação dos gases que comprometia outras alas. Mesmo inacabada, era uma estrutura moderna e primorosa; após resistir por capricho, o conselho votou que deveria ser utilizada, amortizando os gastos em sua construção.
Neste período ela contrata Clara, torna-se reclusa e desenvolve terrores noturnos. Nada e nem ninguém a movem, apenas a constante indiferença e aversão às pessoas, principalmente crianças, a quem passa a evitar.
Diante desses relatos do Prof. Arthur, Paula recupera suas esperanças. Elabora seu retorno ao Brasil, mesmo sabendo que poderia detonar a fúria de Luciana. Seu real plano era infiltrar-se no dia-a-dia da médica, oferecendo conforto, como já fizera antes. Se não por amor, por sexo ela traria Luciana para junto de si, depois poderia moldá-la novamente.
Quando encontraram-se na Austrália, foram cordiais entre si. Paula ficou alerta: não era esse o tipo de reação que queria. Os olhos azuis estavam neutros, chegando a demonstrarem certa paz, coisa que nunca mais vira neles, desde o ocorrido na juventude.

- Você está muito bem, para quem causou a morte de tanta gente. Mas, o próprio filho...Como é matar um filho ? – Paula provocou Luciana.
- Como disse a você uma vez, a criança era apenas negócio. – a aspereza na voz de Luciana foi cortante, apesar de ter-se abalado com as menções.
- Agora você está livre, milionária, poderosa; posso crer que terei minha recompensa por ter esperado?
- Convença-me que devo acreditar em você. Adeus.

Jogando o dinheiro sobre a mesa, deixou Paula observando-a.
O olhar que Luciana lançou para Cecília, ao ver Paula andando livremente com ela, não deixou dúvidas sobre o desagrado da médica poderosa. Por isso, ao perceber a interação pacífica entre as duas, a mulher mais velha espantou-se de início, mas logo pressentiu que algo pairava sobre a cabeça da médica morena. Ainda mais com a provocação feita por sua filha e aceita por Luciana. Comentou com o marido, mas Arthur exultava pela forma como as duas meninas foram capazes, inclusive, de tomarem um café juntas. Sob esse aspecto, Paula e Cecília eram bem mais astutas; ou o médico realmente só se importava com as reações da médica poderosa, já que dela dependia; ou era extremamente ingênuo.
Mãe e filha estavam corretas: Luciana temeu Paula ao reencontrá-la. Em um primeiro momento, pensou em retalhar o casal e exigir o confinamento da médica loira; porém, em um átimo de segundo, lembrou-se de Rebecca e sentiu vergonha e, depois, medo; assim não queria contenda com Paula, não agora quando tinha alguém especial em sua vida. Era cedo para transformar uma pessoa inocente em alvo, devido ao seu passado conturbado.
Após o baile, quando os professores conheceram Rebecca, o Prof. Arthur recebeu um ‘pedido’ de Luciana para não comentar sobre a jovem loira com a médica. Não foram necessárias explicações para que a solicitação fosse prontamente atendida; o que não impediu Luciana de cobrar a reclusão da filha, diante de todas as formas legais que possuía de exigir tal cumprimento.
Paula ficou com ódio de Arthur pela omissão, quando Cecília contou sobre a moça, após conhecê-la no jantar na mansão, detalhe que nunca fora revelado à Luciana por Rebecca.
A mãe não cria na insanidade de Paula. Clamava que ela fizesse justiça, por isso forneceu todas as impressões que teve com relação à Rebecca, inclusive disse que sentiu o quanto a loirinha estava determinada a ajudar Luciana ofertando seu amor abnegadamente.

- NUNCA!!! Luciana é uma mulher forte, não um joguete nas mãos de uma piralha. O sexo pode ser bom, mas ela vai enjoar, porque precisa de mim; precisa de força, de vigor; sexo baunilha não a satisfaz; não por muito tempo.
Cecília preocupou-se, porque percebeu que Paula jogava tudo no sexo; mas a experiente senhora percebera que o sentimento de Rebecca era genuinamente voltado para curar a alma da morena. Porém, queria que Luciana pagasse, queria que ela parasse de chantagear seu marido, parasse de passar com um rolo compressor por sobre os sentimentos de mãe. O erro de Cecília era relutar em admitir o precário estado emocional da filha. E, assim, mantinha Paula informada, sem poupar ou aumentando os fatos.

Aos poucos, ficou sabendo da estória de Rebecca e Luciana. Soube do progresso nas empresas, da apresentação oficial como noiva, das demonstrações públicas de amor e afeto dados por Luciana; até mesmo da exposição com a estória da busca dos pais da loirinha.
Enquanto Luciana e os demais permaneceram na fazenda, Paula retornou ao Brasil. Não avisou aos pais, não precisava deles ainda.
Investigou sobre Rebecca e pouco encontrou além do já sabido. Ela era realmente uma pessoa sem amarras, sem rabo preso; o que demandaria medidas mais drásticas, caso fosse necessário. Não acreditava que seria. Alguma coisa Luciana tirava da piralha e só poderia ser na cama. De tudo que apurou, nada era tão fascinante ou oferecia algum benefício para alimentar a ambição da médica morena. Era ridículo pensar, mas só se fosse algum sentimento materno, já que a diferença de idade era grande entre elas. Chegou a rir deste pensamento.  Se fosse possível tal sentimento, diria que sentia pena da fedelha nas mãos de Luciana, mas não sentia nada pelas pessoas, além de desprezo. Todo mundo enganava, mentia, usava; buscava por oportunidade de usurpar; não acreditava no amor; veja Luciana o que fizera, fora enganada pelo Prof. Thomas com promessas de satisfazer sua vingança, apenas para virar reprodutora. Só dava a ela uma chance, porque sabia que o amor delas estava lá; era especial e só delas. Luciana poderia até ter uma agenda de vingança, mas porque tinha o amor dela para voltar, quando tudo terminasse. Era só eliminar os desvios e colocá-la no curso novamente.  Assim, até pensou que poderia se divertir junto com Luciana ao ‘brincarem’ com a jovem.
Quando confrontou Luciana naquela manhã, em sua sala no hospital, teve certeza que mexia com ela. O medo não era pela fedelha, mas porque a poderosa mulher sabia que diante dela, Paula, se convertia em uma serva. Viu nos olhos azuis a submissão. Estava a milímetros de beijá-la, de trazê-la de volta ao mundo delas, quando a porta abriu e a fedelha entrou.
Com toda a movimentação que rapidamente se fez para proteger a garota, Paula soube que ali estava sua pior adversária. Viu todos os puxa-sacos em volta dela e soube que ela era preciosa para Luciana. Um capricho sim; luxuoso, uma posse que deveria ser protegida. Mas, ainda assim, um capricho. Não seria o primeiro de que se livraria. Em se tratando de Luciana, que fosse o último!
A sensação que a assomou foi de excitação. De júbilo, pois finalmente poderia brincar como gostava. Não com a fedelha, de quem tinha pena por se interpor na relação delas; mas por ter Luciana nas mãos novamente. Adorou cada segundo do desconforto que causou; amou sentir o quanto causava aflição em Luciana; porém, não gostou de ver que na loirinha angelical nada causara, além de certa curiosidade. Não poderia facilitar assim. Tinha que causar boa impressão.
Depois, quando descobriu que a jovem andava fazendo perguntas; bisbilhotando alegando que queria recuperar o amor em Luciana, enfureceu-se. Entendia que o passado de Luciana também era o seu. Não queria que fosse revirado. Não queria ser alvo da piedade de uma piralha. Sabia que sua parte na estória, para quem não conhecia o interior dela, era a de uma pessoa insana, com direito a comiseração. Não admitia que ninguém a olhasse com dó.
Mas, o que mais enfureceu a médica loira foi a pretensão e, segundo sua mãe, facilidade com que a fedelha estava conduzindo sua missão de recuperar Luciana para o amor. Ninguém jamais saberia amar a médica morena como ela apreciava. Luciana era dela, Paula, dentro do que construíram. Havia cuidado muito para que nada fizesse a médica morena se afastar do que tiveram.
Quis conversar com a loirinha para sentir o quanto ela estava convicta de seus propósitos.
Quando a segurou pelo punho, no primeiro encontro, demonstrando sua destreza com a faca, percebeu que causara medo; mas fora físico, o que era pouco. Fizera isso antes com Luciana e resultara apenas em seu confinamento fora do Brasil. Precisava de mais.
A primeira coisa de que precisava era de aliados. Nem sempre gostava de sujar as mãos, apenas o fato de arquitetar a satisfazia. Mexer os cordões e ver Luciana se contorcer como um fantoche.
Sondou Marcella, sobre quem ouvia seu pai dizer ser muito leal à Luciana, mas que por vezes dera sinais de rancor e, até mesmo, ciúmes em certas ocasiões nas quais a médica a diminuía perante outros. Descobriu o envolvimento com Clara.  Apurou a sociedade no clube e teve a certeza que Luciana não sabia sobre o negócio paralelo. Jamais a doutora admitiria qualquer possível ligação entre as atividades do clube e suas empresas. Além disso, pode perceber que a diretora tinha um expediente financeiro que ainda não estava definido, o que poderia ser um bom trunfo.  Guardou essas cartas nas mangas.
Com os empregados da casa de Luciana pode contar muito pouco, já que a médica nem chegava perto deles e, nos últimos meses, passava mais tempo fora, no apartamento da loirinha.  Não podia falar com Maria Luiza, pois essa era antiga de casa e fiel demais ao Prof. Thomas. E os seguranças realmente eram seguranças! Totalmente leais aos princípios de serem ‘agentes do Serviço Secreto Americano’. Irritantes demais; seria até louvável, não fosse ridículo. Não insistiu com eles para não levantar suspeitas.
Apurou sobre Clara. Figura instigante: sofria nas mãos da médica, mas não a abandonava. Conseguiu descobrir, inclusive, que ao contrário de Marcella, a  secretaria nem precisava de dinheiro. Paula fora tomada de surpresa com as mudanças que Clara sofreu em sua vida sentimental e profissional. Mais surpreendente ainda era como, apesar de tudo, continuava leal à Luciana. Quem sabe, por algum milagre, não fosse Clara algum trunfo de barganha com Luciana. De uma coisa sabia: Marcella fora chifrada por ela e tinha ódio mortal da jagunça.
E, pensando nela, que delícia foi descobrir Régia. Gostou da mulher desde o primeiro momento em que a vira. Sentiu, inclusive, sua sempre controlada libido se manifestar. Não bastasse a semelhança com Luciana, também exalava perigo, astúcia. Uma verdadeira força animal. Apesar de ter sido atacada, a médica loira amenizaria as coisas para a jagunça gostosa, mas não pouparia seus afetos se fosse preciso neutralizá-la, uma vez que nada descobrira sobre a mulher, além do fato de ter alguma coisa a esconder em seu passado, relacionada com violência extrema, testemunhada nas estórias relatadas pelo Prof. Victor.
Ainda ligada à Régia, existia a menina. Já percebera o quanto Anna atraíra a atenção de Luciana. Por mais que se afastasse das crianças, Anna resgatara algo na médica. Paula queria usar isso para suavizar a aproximação entre elas, pois não queria Luciana arisca demais.
Como última sondagem, procurou pelo Prof. Victor, o que deixou o velho assustado. Embora não gostasse de Luciana, a lealdade ao amigo Thomas e às empresas, o faziam ser cauteloso em manifestar qualquer comentário desfavorável. Com certa sutileza, apontou que Rebecca não era muito honesta com Luciana, omitindo fatos e, por vezes, bisbilhotando sobre a vida da médica às escondidas. Também acusou a loirinha de ser responsável pela ligação de Luciana com gentinhas como a jagunça e sua filha sorumbática. Coisas que, no geral, Paula já sabia dos comentários da mãe; porém, da conversa com Victor surgiu alguns fatos reveladores e nomes importantes.
Aqui e ali, dentro do hospital, localizou informantes. Com alguns, usou de sedução; com outros, um bocado de dinheiro. No cômputo geral, infiltrara-se na vida de Luciana, conseguindo rastrear os passos da morena.
Sabia que quando reaparecesse perderia a confortável posição da clandestinidade, uma vez que alertaria a médica para seu ressurgimento; mas também calculara isso; era inevitável, mas não era de todo desfavorável. A posição de Paula como única inimiga dava-lhe um tempo antes que tentassem detê-la, gerando expectativas de como seria seu próximo movimento. Quanto menos fizesse pessoalmente, melhor para desestruturar previsibilidades.
Armara alguns truques de prestidigitadora, para desviar atenção, que acabaram criando vida própria e novos rumos. Agora, diante do cenário que configurara-se quase que à revelia, Paula tinha opções que não havia previsto, mas que vislumbravam melhores resultados.
De tudo, queria apenas Luciana. Desta vez, porém, era a última chance. Sem mais desculpas ou condescendência. A dor ela já dominara.

 

***
***

 

Depois que Régia saiu, Luciana resolveu que na manhã seguinte, ainda que fosse um sábado, iria para o hospital, pois precisava falar com Paula, que deveria estar internada após o arranhão envenenado. A médica riu da astúcia de Régia.
A velha amiga insônia viera prestar-lhe solidariedade e, desta vez, nem teria o quarto do filho para se refugiar, já que Clara o limpara e fizera nova pintura.

- Quantas mudanças!

A cabeça de Luciana fervilhava. Não confiava em Paula quanto a cumprir suas promessas caso cedesse às exigências; não confiava em Rebecca quanto a cumprir sua promessa de não enfrentar Paula; não confiava em si mesma quanto a ceder tempo suficiente para tentar reverter a situação.
A conversa com Régia deixara Luciana furiosa com a forma como Paula estava agindo no hospital. Percebera que todos seus passos eram cobertos de perto. Estava sob vigilância cerrada. Não sabia por quanto tempo sua casa ainda seria um porto seguro.
Régia conversara com os seguranças, apurando que ninguém com a descrição de Paula havia sido visto nas proximidades; entretanto, foram abordados por uma senhora que fizera perguntas sobre os moradores, alegando ter sido vizinha em um passado distante. Ainda que fossem de uma empresa renomada e que, além disso, eram premiados muito bem por Luciana, a confiança nesses homens não deveria ser cega. Régia assumira, sob ordem da médica, a chefia da segurança.
Era impossível que uma pessoa só causasse tanto transtorno.  Tivesse tanto poder.
O recado transmitido por Régia também estabelecia que a hora era chegada. Luciana, diante da resolução que tomara, sabia o que viria a seguir: a retomada da vida em comum com Paula, principalmente a vida íntima.
Hoje, analisando friamente o passado, não demoraria a romper com ela naqueles tempos, independente de vingança. Paula já não admitia sexo sem rituais que cada vez mais se distanciavam da segurança, passando a serem mais cruéis a cada cena.  Luciana não estava mais tão ligada nisso; não com ela.
Agora, diante do que tinha com Rebecca, Luciana não estava mais condicionada a ter sexo sem se importar com a conexão de sentimento. Se não conseguira com uma prostituta, como iria conseguir com alguém a quem desprezava? A verdade mais difícil de enfrentar era que sentia medo. Os mais variados possíveis, até mesmo de sucumbir aos bons momentos que tivera com Paula. E, pensando nisso, como não usá-los como recurso para suportar a sujeição a qual iria se submeter?
Existiam tantas maneiras de envenenar alguém, simulando ataques cardíacos, choques alérgicos. Régia, com certeza, sabia um ou dois truques que levariam um ser à morte de forma ‘natural’. Buscando em seu íntimo, descobriu horrorizada, que se importava. Jurava que mataria Paula sem pensar duas vezes; mas a verdade era que não conseguiria.
Pesavam-lhe as palavras não ditas por Rebecca. A acusação velada infiltrada nas palavras que só a eximiam de culpa porque o amor da jovem era mais forte. Até mesmo para ser egoísta, Rebecca era honesta, uma vez que apenas não queria admitir para si mesma que errara em seu julgamento sobre a mulher que resolveu amar. Diante dessa força de Rebecca é que Luciana buscava a sua própria força para não sucumbir à sua velha forma de resolver as coisas.
Fechou os olhos e viu os verdes mais lindos que eram seus. Pouco antes de deitar, diante do espelho, observara as marcas espalhadas em sua pele, lembrando-se do momento em que foram impressas em sua carne. Eram indisfarçáveis se fossem vistas na luz da intimidade. O sorriso que se estampara no rosto pelas lembranças fora apagado por pensamentos mais práticos, cedendo à preocupação de esconder seu corpo de Paula, pois imediatamente a médica loira saberia da luxúria a qual cedera. Como explicar as marcas nos seios, nas coxas; a chupada no pescoço... como fora tão imprudente.
Régia, com toda sua discrição, com muita sutileza, apontou a marca e salientou que, já que se fizera passar por Luciana, isso poderia implicar na descoberta da farsa, acendendo a ira da mulher insana sobre todas elas.

- Você reprova o que eu fiz, Régia?
- Já corri riscos semelhantes; bem como, paguei caro por algumas imprudências. Temo represálias traiçoeiras. Clara e Anna estão na linha de fogo. A descoberta da nossa brincadeira de troca de persona pode ser um tiro no pé desnecessário. De qualquer forma, eu assumo meu lado e responsabilidade sobre a segurança das minhas mulheres.

Não teve coragem de admitir para a líder que sabia que cometera uma bobagem. Não obteve paz do que fez; não fora lá para ser descoberta por Rebecca ou muito menos para reacender uma relação que, oficialmente, deveria estar terminada. Mas, já que tudo degringolara, decidiu dar condições de defesa para Rebecca sendo honesta até onde era pertinente, até o ponto no qual devia satisfações à pessoa que se tornara alvo por sua culpa.
Estava exausta. Conseguira dormir com Becky em seus braços, mas agora não saberia quando teria essa paz roubada novamente.
Paula não queria dinheiro, não pensava em refazer a vida, não alimentava mais sonhos. Luciana sabia que nada romântico a aguardava. Sabia que era tudo capricho de uma mente perturbada. Era um mergulho em profundezas escuras de onde poderia surgir qualquer tipo de monstro cobrando o resgate de sua beleza perdida dentro de sua colheita maldita.
Teria que olhar nos olhos de cada um desses monstros e pedir para serem benevolentes. E breves em sua execução.




- Fia, onde ocê vai assim, di repenti?
- Conversei com Luciana e achamos melhor eu viajar para longe, por algum tempo, até ela conseguir controlar a louca da Paula.
- ...mas a dotôra disse ontem  que era mio ocê ficar aqui...
- Sabe como Luciana é paranoica com minha segurança. Eu acho exagero; mas, cansei de brigar com ela. Se ela quer assim, que seja assim.
- Quando o jato chega?
- Não vou no jato da empresa. Outra desconfiança dela; Paula pode ter espião que controla as saídas do jato. Vou até a cidade e pego um voo comercial.

D. Ruth não entendia mais nada, porém se Luciana achava melhor assim, ela sabia com quem estava lidando. A tal Dra. Paula parecia deixar a médica de olhos azuis totalmente insegura. Claro que tal insegurança surgia do fato de ser Rebecca o principal alvo.

- Quando ocê vai?
- Clara marcou o voo para hj a noite. Assim que chegar aonde vou, ligo e aviso a senhora. Por enquanto, será meio uma fuga. Detesto isso. Por mim, confrontava logo essa Paula e acabava com isso. A solução de Luciana está longe de ser a melhor. Ela está se deixando manipular. Isto não é ela! Mãe, eu quero matar a Luciana por estar ruindo diante dessa mulher infeliz, mas não posso ser mais uma pedra no sapato dela, como a senhora mesma disse. Tenho que deixá-la agir, mas que fique claro que nunca concordei.
- Oia, eu entendo ocê. E acho que a dotôra parece realmente estar enfraquecendo; mas sei que ela tá fraca por causa d´ocê e, como sua mãe, não posso deixá que as balas cruzadas entre as duas atinjam ocê. Elas são peixes graúdos; são cobras criadas que se alimentaram das mesmas carniças.

Os olhos de Rebecca se arregalaram com a frase e o tom que sua mãe usou. Havia certa raiva nunca antes sentida na jovem senhora.

- Fia, Luciana sempre soube que argum dia isso aconteceria. Ela só num sabia como impedi; também não sabia como deixa de amar ocê. Eu sinto raiva dela por colocar ocê nisso; por fazer ocê se misturá com essa podridão, essas carniças. Mas também sinto dó, porque ela está sofrendo mais do que todos. Ela não quer mais fazê mar pra essa uma porque ela não quer vortar a ser a muié que vai afastá ocê dela. Fico magoada, fico presa sem podê ajudar. O João quer meter uma bala na desinfeliz, mas nós sabe que isso não vai deixá ninguém vivê sossegado.
- Mãe, deixa o João fora disso. Fica calma. Luciana vai dar um jeito. Está tudo muito solto e sem garantias. Não temos provas de garantias de que Paula parará simplesmente porque Luciana se rendeu à ela.
- Bem, a dotôra acha que não teria mais motivo ela fazer mar pra nóis se ocê fosse riscada da vida dela. No momento, a dotôra vai convencer de que ocês são inimigas.
- É, mas isso não é momentâneo; do jeito que vejo, terá que ser para sempre!
- É...
- Mãe, fala para o João se preparar para me levar ao aeroporto.

Rebecca traçara um plano orientada por Norah. A consultora acreditava que Paula deveria ser enfrentada sim. Por pior que pudesse ser, não poderia ser o fim do mundo que Luciana fazia.
Em linhas gerais, a jovem contou à Norah o que ocorrera na cabana. Ainda um pouco sem jeito, não querendo magoar a amiga recém-conquistada, disse que a chama do amor dela e Luciana era forte, ardia e queimava com mais intensidade diante da possibilidade de separarem-se.

- Rebecca, é difícil admitir, mas Luciana realmente a ama e está sendo completamente irracional tentando proteger você. Nada garante que ceder às possíveis chantagens de Paula evite dela cumprir ameaças. Se ela está psicologicamente abalada; se é a psicopata que está demonstrando ser, como crer nela? Aliás, nem é questão de crer nela, pois ela mesma não tem condições de ser responsável pelo que faz. Luciana como ser racional, médica, cientista, deve impor limites; colocar essa pessoa em confinamento; em sedação, em qualquer situação que, inclusive, dê assistência a esta criatura atormentada.
- Norah, você disse tudo exatamente como penso! – a consultora encantava Rebecca com essa visão ponderada - Vou falar com os pais da Paula para nos unirmos e ajudá-la. Vou falar com ela. Enfrentar, mas não afrontar. De repente, até posso manter certa distância de Luciana, mas não quero fingir que estamos nos odiando.
- Louvo Luciana por se entregar assim, em nome do amor. Não consigo associar essa atitude com a mulher que vi naquela reunião e no bar. Para ela deve ser um enorme sacrifício que faz por você. De repente, se você não estivesse na vida dela, ela nem estaria passando por essa situação. E, se estivesse, saberia usar de métodos mais definitivos para eliminar essa louca. Ela deve ter muita culpa; e medo; sentimentos que são a morte para uma mulher como ela. – Norah era hábil com as palavras, sabendo lidar com o senso de justiça da jovem loira.
- Não posso ser um peso para ela. Mas também não posso perdê-la assim. Isso de aceitar que ela retome uma falsa relação com Paula não existe. O que era a relação delas senão puro sexo? Não ligaria pelo sexo, mas me violenta saber que Luck se sujeitará por mim.
- Nossa, nem tinha pensado nisso. Mais uma vez, Luciana vai para o sacrifício, como um cordeiro, em nome do amor de vocês.
- Eu não entrei na vida dela para atormentá-la ainda mais! A ideia de a tornar tão fraca me deixa arrasada, Norah. Tenho que fazer algo.

O silêncio estabelecido denotava que Rebecca sentira culpa. Isto era perfeito para os planos de Norah.

- Rebecca, não se culpe tanto. Não posso evitar dizer que, certamente, eu seria bem mais fácil de amar. – alfinetou – Mas, vamos providenciar seu retorno. Aja de forma a não levantar suspeitas. Luciana está transtornada no momento, não será problema imediato. Quem deve estar alerta é a Régia, bem como a Clara. Busque evitá-las por enquanto. Despiste até que tenhamos agido. De minha parte, espero você no aeroporto. Não posso fazer muito, pois sou estranha...
- Norah, você está fazendo muito olhando as coisas como eu enxergo, dando-me apoio em uma situação incômoda para seus sentimentos. Parece que todos aqui acham que sou de vidro. Eu sobrevivi às ruas de São Paulo. Se for preciso força física, também sei usar.
- Certo. Então, quando tiver o horário do voo, me avisa para ir buscá-la. Vou reservar um hotel para você.
- Norah...
- O quê?
- Muito obrigada. E perdão!
- Não há agradecimentos e nem perdão. É uma decisão minha simplesmente.

Após combinarem mais algumas coisas, Rebecca desligou o celular sentindo-se fortalecida. Tinha uma aliada.




Clara pensou em não atender o celular que a obrigava a deixar o calor de Régia, mas era Becky.
- Estou querendo ir viajar.
- Assim, de repente! – a ex-secretária disse, voltando para a posição em que estava.
- Não sei se é de repente, mas aqui na fazenda não quero ficar. Luck quer que eu fique fora do caminho, então eu vou sair de cena.
- Ela sabe?
- Não. Não quero mais brigar. Estou enlouquecendo pensando nessa bobagem toda que ela acha ser o certo. Eu penso que posso ajudar ficando longe de tudo. Quanto maior a distância entre nós, menor a minha tentação.
- Não sei... fale com ela...
- Clara, se quiser, fale você. Eu estou partindo hoje.

Clara estava confortavelmente aninhada no peito de Régia. Era final da manhã de sábado. Chovia de forma preguiçosa. Fizera Régia prometer que não falariam sobre o que ocorria. Decidiram que o final de semana seria somente delas. Assim, aquela ligação burlara a promessa, mas não burlaria o propósito dela: Clara queria ter Régia só para ela.

- Rebecca, você já decidiu. Nada resta a fazer. Avise quando estiver acomodada.

Com mais algumas poucas palavras, checou se a jovem estava levando dinheiro, documentos, cartões. Sabia que as economias de Rebecca estavam sendo minadas, mas ainda restava o suficiente. Não fosse Rebecca quem era, desfrutaria da conta conjunta que Luciana não fechara ainda e que nunca fora usada por nenhuma delas.

- Encrenca?  - a voz de Régia estava rouca pelas horas de sono.

Clara deliciou-se no ronronar de sua mulher, que a estreitou nos braços.

- Não. Só existe uma pessoa encrencada: você!

Sem tempo para réplicas, Régia sentiu os lábios de Clara suavemente envolvendo os seus, enquanto emaranhava suas coxas nas coxas fortes, friccionando num ritmo sensual.

- Hoje só quero amar você. Só minha! – a loira disse.

Com a mesma suavidade, fez a boca descer pelos seios, cujos bicos estavam deliciosamente eretos.

- Só sua... - Régia respondia, ainda buscando despertar, sem a menor vontade de sair daquele torpor envolvente do sono e sonho.

Clara estava no controle, mas não tinha essa pretensão.  Era extremamente tentador passar o tempo apenas admirando o corpo amado. Era tentador desejar, e ficar, nua com sua mulher para o resto da vida, prontas para viver toda a luxúria de seus desejos.
Na prática, era mais complicado ter tal comportamento por prazo tão longo; mas, naquele final de semana, seria assim.

- Nada de Luciana e Rebecca. – sugava a barriga de Régia, lambendo ao redor do umbigo, deixando a língua roçar no orifício, arrepiando a mulher morena.

Régia afagava a cabeça de sua mulher, buscando se abrir ao máximo, sem opor qualquer obstáculo.  Clara a surpreendia com a forma como expressava seus desejo: ora poderia ser com a suavidade daquele momento, ou de forma criativa como na madrugada, quando surgiu usando o strap e a enlouqueceu.

 

***
***

 

Luciana ficou algumas horas no hospital.
Foi abordada pela diretora interina que entregou alguns relatórios.

- Bom dia, Dra. Luciana.

Fez um aceno com a cabeça. Régia havia informado que Izabel tinha sido de grande valor com relação às investidas de Paula no hospital, inclusive enfrentando-a fisicamente. Porém, pessoalmente, nunca tiveram contato, pois a demissão de Marcella fora sumária e a recolocação indicada pelo conselho.

- Izabel, segunda falarei com meus advogados e providenciarei uma indenização para você.
- Como disse, não há a necessidade.
- Como disse, há sim. Paula não é trabalho e nem função sua.
- O hospital e os pacientes são, doutora. – respondeu com franqueza, sem qualquer sinal de afronta.

Luciana assentiu, novamente, com a cabeça. Gostou dela. Tomou nota para fazer uma avaliação mais detalhada.

- Doutora, trouxe aqui mais alguns relatórios; desta vez dos estoques de fármacos e retiradas na farmácia dos pacientes.
- Notou alguma anormalidade?
- Aparentemente, não. Tivemos um afluxo de pacientes, o que aumentou o consumo consideravelmente em relação ao mês passado.
- Algum medicamento está fora do padrão.
- Na verdade, somente a menina Anna recebe algumas medicações mais específicas; de resto, o aumento em certos medicamentos acompanha os diagnósticos e receitas dos médicos.

Luciana correu os olhos pelo relatório. Com certa dificuldade, lembrou o mês em que estavam; realmente era um período sazonal, devido alterações climáticas. Principalmente com relação às vias respiratórias e alergias.

- Muito bem. – Luciana hesitou um pouco.
- A doutora quer mais alguma coisa. – Izabel percebeu a hesitação.
- E Paula?
- Na verdade, ela deveria estar internada, depois do mal súbito que teve ontem. Mas nossas câmeras a perderam durante a madrugada.
- Como assim? – a voz denotava irritação
- Nós não a monitoramos o tempo todo, por questão de privacidade; mas tomei a liberdade de checar os vídeos do andar quando cheguei e a vi perambulando pelo corredor e, depois, soube que o leito amanheceu vazio.
- Significa que não sabemos onde ela está.

Izabel engoliu em seco, mas teve que assentir.
Luciana a dispensou com um gesto.
Depois dessa conversa, ficou mais um par de horas. Andou pelo hospital. Foi ao quarto de Anna, deu um pulo na lanchonete; enfim, fez-se visível para que todos soubessem que ela estava lá.
Quando chegou próximo ao meio-dia, decidiu ir embora. Paula não estava no hospital ou, se estivesse, não quis aparecer.
Quando saía com o carro, Paula postou-se na frente dele, obrigando-a a frear um tanto brusco.
Sem aviso, Paula entrou no carro, cuja porta Luciana destravara propositalmente.

- Bom dia, colega. Estava me procurando?
- Sim. – a morena foi fria.
- Hum... muita frieza nessa resposta. Vamos começar tão mal assim? Aliás, recomeçar.

Luciana dirigia sem rumo.

- Quer fazer algo? Almoçar...
- ...vamos almoçar. Aquela comidinha insípida do hospital me deu mais fome. Ah, mesmo que não tenha perguntado, estou bem melhor!
- Algum restaur...
- ..sua casa. Primeiro a comidinha da Maria Luíza; depois...saciar outra fome!

Se Luciana já sentia-se mal em almoçar com Paula, depois dessa frase, quase vomitou o parco café da manhã.

- Ela está de folga... - ia falar, engolindo o enjoo.
- ...chame.
- NÃO! – a resposta foi automática.

Paula refreou. Não queria demover a morena da ideia já aceita.
- OK! Calma...não vou invadir seu reino...não agora. Mas vamos para sua casa.

Ao chegar, Luciana foi para a cozinha, achando que Paula a seguiria; mas surpreendeu-se ao constatar que estava sozinha. De certa forma, respirou aliviada.
Querendo ganhar tempo, Luciana ficou fuçando a geladeira em busca de comida. Maria Luíza sempre deixava alguma torta, salada, carne; enfim, sempre tinha algo para ela e Rebecca...Em seu íntimo, pedia desculpas a jovem loira por tudo que estavam passando.
Enquanto protelava na cozinha, Luciana deu à Paula tempo para avançar na mansão e chegar ao seu quarto. Tempo para bisbilhotar todas as coisas jogadas, inclusive sua briefcase.

- Paula...- o que ia dizer, morreu ao deparar-se com a loira em sua cama.
- Saudade de você, Luciana.
- A comida está na copa. Vamos.
- Não estou mais com fome....não essa fome.
- Paula, espero que você entenda que não há romance aqui. Não estou com clima para um envolvimento físico. Inclusive ainda estou indisposta por minha parotidite.
- Luciana, supondo; e eu digo ‘supondo’, que você realmente tenha se livrado daquela piralha, eu vou querer mais do que sua palavra nisso.
- Eu sei o que você quer, mas não será assim tão repentinamente...
- Para mim, nossa história nunca acabou. – ela disse como se não tivesse escutado a morena - A hora que seu corpo tocar o meu, tudo será como antes.

Luciana ficou perplexa com essas palavras.

- Paula, passei todo esse tempo tendo você como inimiga; como posso negar...- tentou argumentar em vão.
- Você sente falta de nós. E agora temos o mundo ideal. Veja: hoje você tem tudo que não tinha enquanto estava comigo e, não tendo, éramos perfeitas. Agora, não há mais empecilhos e nem desejos de vingança, nem pessoas tentando uma moça pobre, cheia de humilhações, com ouro de tolos; não há aquele velho pervertido e oportunista, nojento; agora, nosso amor pode emergir pleno. Eu a perdoo. Eu alimentei sua fome sem ter a comida certa para saciá-la; por isso tive culpa e, por reconhecer, eu a perdoo. E o que me leva a perdoá-la é saber que sem essas coisas, eu e você somos a conta certa. Nós somos únicas.

Enquanto falava, Paula aproximara e envolvera Luciana em seus braços, encostando a cabeça no peito da morena que permaneceu rígida.

- Luciana, eu esperei todos esses anos. Esperei cuidando de você para que ninguém a cercasse com aquelas falsas promessas de cuidado e amor. Sei que não admite, mas você sempre foi fraca e facilmente conquistada com sexo e poder. Não a culpo, devido sua origem simples e as coisas de que foi privada. Agora, não precisa mais! Eu deixei você conseguir tudo o que era material. E, o que eu não cuidei, o destino se aliou a mim e providenciou. A morte daquele traste foi perfeita para nós.

Paula, ao mesmo tempo que se aproximou com carinho, na sequência,  empurrou Luciana com certa brutalidade.

- Como disse, você sempre foi fraca com relação a sexo. Aquela loirinha mendiga, intrometida, fedelha oportunista viu você, uma mulher mais velha e cheia de dinheiro, acertou na loteria ao entender sua fragilidade. Qual amor ela pode dar a você que eu não posso? Você não é piegas; não é benevolente. Ela deu sexo; deu uma bucetinha gostosa; umas palavrinhas de consolo. Sabe o que me irritou nela?

Luciana quase grunhiu a negativa, mas não abalou Paula.

- Ela começou a fazer perguntas. Bisbilhotar a sua vida que, em outras palavras, é a minha também. Minha mãe me contou; papai deixou escapar algo aqui e ali; o Prof. Victor entregou outro tanto. Aposto que você não sabia.

Luciana não sabia tudo mesmo. A conversa com Victor ainda nem fora tocada entre elas.

- Sabia do seu pai; de Victor não. Que cretina filha da puta!!! Aquela carinha de santa, o que poderia querer bisbilhotando...
- Ter mais munição contra você. Ela sempre enrolou você. Sempre fazendo tudo às escondidas: aquele encontro comigo, ela apostou de que teria você nas mãos dela quando quisesse, bastava erguer a saia. Tenho certeza de que negou que tinha me encontrado.

Luciana ainda não esquecera essa intriga, embora hoje soubesse que não era como Paula dizia.

- Você se encantou com ela e teve seus motivos, mas eu não tenho motivo algum para ser boazinha com ela. Aliás, se a poupei até agora é porque quis dar corda para você mesma enxergar; mas, ela sabe ser boa no que faz. Daí, resolvi que precisava abrir seus olhos.

A morena arqueou a sobrancelha, mas permaneceu calada, pois não queria interromper a sequência de pensamentos de Paula.

- Não sei o quanto ela sabe sobre nós....
- Nada. Ao menos eu nada contei sobre meu passado e essas coisas que prefiro ela nunca saiba.
- Querida, até sou compelida a acreditar em você, mas ela andou sondando. Ela sabia quem eu era. Como isso me pareceu ínfimo, deixei passar. Mas, esses dias ela e aquela puxa-saco da Clara foram falar com meu pai. Perguntaram sobre nós. Ele contou o que sabia como observador. Nunca tive paciência para fofoqueiras xeretas.

Luciana não sabia disso. Provavelmente foi no período em que estavam investigando sobre o clube também.

- Devo admitir que essa separação que ocorreu foi bem providencial, pois estava seriamente pensando em ajudar você a retomar sua sanidade, riscando essa tipinha da sua vida.
- Não precisa mais. Cometi um erro, admito. Fui fraca, levada por minhas vontades e caprichos; mas agora acabou!
- Veja o que eu quero dizer: todos se aproximam de você por interesse. Aquela diretora fazendo o pé de meia às suas custas; aquelas duas chupins leão de chácara cercando você por causa da menina no hospital; uma corja de indigentes assentados em uma fazenda que você nem tem ideia para o que quer. Caprichos daquela piralha.
- Não sou fantoche...fiz porque quis! – Luciana encenava certa indignação, queria dar corda para Paula, ver se conseguia alguma informação nas entrelinhas.
- Luce, minha linda, quando pensa com a cabeça, você não é; mas quando pensa com seu sexo, nada tem preço para obter o seu prazer. Eu a fiz assim. – novamente envolvia Luciana, encaminhando-a para a cama, onde a sentou e montou em seu colo.
- Ela, a piralha, só não tirou seu dinheiro porque como você mesma experimentou com aquele pederasta, é melhor ficar junto e usufruir do que dar golpes. Mas, veja quanta coisa ela arranjou para os queridinhos dela. Aliados dela e não seus. Quem gostava de você? Quem você tinha em seu convívio que daria um naco de carne que fosse para matar a sua fome? De repente, lá estavam todos sendo seus melhores amigos de infância.

Luciana a encarava e, em outro cenário, via certa realidade no que ela dizia.

- A única em que pode confiar sou eu.
- Como ousa dizer isso, após todas as tentativas de me destruir. As marcas que tenho de seus ataques.
- Humm... acredita se eu disser que foram erros de cálculos?

Luciana a empurrou, quase jogando-a ao chão.

- Luce, é o seguinte: não confio que você tenha abandonado a piralha. Não que você a ame, mas porque detesta ser comandada e perder seus brinquedos.
- Tenha dó, Paula! Ela me fez de boba, me traiu com aquela uma consultora, tentou abrir uma empresa falida comigo que, ninguém garante, seria para beneficiar a amante; enfiou aquela família repulsiva em minha casa; fez um monte de arranjos  às minhas costas e, o que pode não parecer, mas era uma mesmice na cama; raramente me deixou fazer algum tipo de cena. Bem...ela é gostosa. Ela tem o frescor da juventude, tem seus momentos e, admito, caí feito uma cadela velha no cio...
- ...mas você não larga do osso, enquanto ainda tiver um gostinho; ainda mais para me afrontar.
Luciana deu de ombros.
- Se você quer saber, também não confio em você Paula. Aliás, nem tenho motivo para aceitar suas chantagens. Ela e a corja dela não me importam. Nunca importaram, de fato; apenas não eram empecilhos; um pouco de dinheiro jogado fora não me afetou. A bem da verdade, fosse em outros tempos, e eu mesma me divertiria acabando com aquela dissimulada.
- E...por que estamos aqui, então?
- Quero acertar nossas contas de vez. Se não for Rebecca, serão outras chantagens. Estou cheia disso. Se tiver algo ainda, como você diz, vamos ver o que acontece! Ferir Rebecca ou os que a cercam, apenas para me atingir, vai ser desperdício de tempo. Aliás, com quaisquer outros.

Paula começou a andar em volta de Luciana, avaliando-a.

-  Luce, como você é estraga prazeres! Eu trouxe um presente que eu achei faria você feliz. Agora...- fez uma expressão de desapontamento.
- Presente? – não queria parecer afoita, mas estava curiosa.
- Finalizando a questão pendente – disse, ignorando Luciana novamente - teremos que conviver sob desconfiança mútua, até que nos convençamos.

Tentou beijar Luciana que se desvencilhou.

- A comida esfriou.
- Perdi a fome. – dirigiu-se à porta.
- Aonde você vai?
- Já que minha presença não será requisitada aqui, como gostaria; vou resolver uns assuntos.

Luciana prendeu o suspiro de alívio, mas também preocupou-se.

- Quero falar sobre a Anna. Tenho autorização da mãe para fazer o que quiser. Você disse que...
- ...Luce, você fala como se não fossemos viver sob o mesmo teto!!! Eu volto. Aliás, deixe instruções para os seguranças não barrarem minha entrada.

Ela saiu pelo corredor e Luciana foi atrás. Permanecendo parada no topo da escadaria.

- Ah, uma coisa: eu confundi você com aquela troglodita gostosa. Não quero mais isso. Trate de mudar seu cabelo ou aparência. Faça até amanhã. Não posso dizer se essa marca no pescoço estava aí antes...mas lembro que a echarpe era para proteger a garganta.
- É uma alergia. – Luciana foi seca.
- Espero que não seja a mim; não quero uma mulher empelotada na minha cama! Falando em cama: olhe na cabeceira, meu presente está lá.  – e saiu deixando a gargalhada ecoando em seu rastro. 
Luciana correu para o quarto, até a mesinha, sobre a qual estava o cartão do banco em nome de Andras Staionoff.

 

*******
*******

 

- Estou com fome, com vontade de ir ao banheiro...com vontade de você...
- Somos duas, a única diferença é que tenho fome de você...- a loira riu marotamente.

Estavam na sala, após uma fracassada tentativa de fazerem almoço, às quatro horas da tarde, que terminou em mais uma sessão de sexo, com muita penetração e explorações inusitadas.
Desligaram os celulares, os telefones. Ficaram incomunicáveis. Mesmo sob o risco de perderem alguma chamada sobre Anna; mas quiseram apostar que Murphy não seria implacável com duas amantes sedentas por seus prazeres.
Régia fora atacada de todas as formas, ao mínimo sinal de distração. Bem como, caçou sua loira pela casa toda, encurralando e devorando-a.

- Amor, são quase oito horas da noite e nem almoçamos.
- Mal tomamos o desjejum.
- Meus sucos não contam, né Régia?
- Se eu descobrir que são nutritivos, você que se cuide!
- Bem...primeiro banheiro urgente!!!!
- Depois, fazer um inventário de comida, depois um banho...
- ..separadas...

Clara apontou com o dedo, sinalizando que captara o ponto de vista de Régia. Estavam nuas quando entraram na cozinha.
A geladeira estava meio vazia, apenas alguns vidros, leite, sucos; poucas frutas.

- OK. Telefone já.

Enquanto telefonava para o delivery chinês, Régia  era atacada por Clara, que despejara leite entre os seios. Ela não resistira à tentação. Imediatamente, lembrou-se do filme que por algum tempo fora seu preferido.
Antes que Régia desligasse, Clara tomou o telefone e pediu que demorassem o quanto quisessem, para espanto da atendente e da líder.

- Vem.

Clara colocou Régia sentada na ilha que dividia a cozinha da copa. Usando um pano de prato, vendou-a.
Da geladeira, trouxe o que pode e fez a festa.
Primeiro o leite derramado na boca da líder até que transbordasse e assim fosse bebido e sugado daquele queixo perfeito. Clara matou a vontade de lamber o pescoço enquanto Régia engolia a bebida.
Várias gotas respingaram e escorreram pelo tórax, descendo para a barriga, umbigo, vulva...Clara fez o trajeto junto, arrancando gemidos da morena.

- Permaneça sentada, as mãos no mármore. – a loira arrumava as mãos como queria – Abra a boca, por favor!

Desse pedido em diante, Régia experimentou todos os gostos possíveis, inclusive uma malagueta poderosa, lavada com muita champanhe. Clara devorava cada ponto no qual uma gota se instalasse e elas, as gotas, estavam cooperando para a tortura prazerosa da líder.

- Clara, não quero apressar, mas nossa comida deve chegar...
-...não. Ainda temos uns minutos...quero aproveitar para saborear você ao sabor de ...

O líquido era viscoso, o cheiro forte, nem frio e nem quente, era despejado abundantemente, mas não escorria com desenvoltura. Rapidamente, as mãos de Clara untavam o corpo de Régia com o saboroso mel, esfregando vigorosamente entre as coxas, sentindo a musculatura retesando pela excitação. O sabor de eucalipto foi sentido na língua solicitada a se mostrar para receber o néctar. Clara a empurrou sobre o mármore frio. Em seguida, esfregava seu corpo nela, lambuzando-se com o mel, que as grudavam por seus pelos, dificultando o atrito e esquentando. Régia sabia que essa brincadeira tinha lugar para duas e passou a chupar e lamber as saliências literalmente meladas de Clara. Mesmo vendada, seguia o cheiro do mel. A loira ajudou, ajustando os bicos dos seios na boca da morena, despejando as últimas gotas do xarope durante as sugadas fortes de Régia.
Como já tinha se fartado no clitóris da morena e a levara a um orgasmo, decidiu deixar que Régia a saboreasse agora. Não tirou a venda, mas direcionou a cabeça entre suas pernas, substituindo os dedos melados com todos os néctares, pela boca ávida.
Largou-se na pedra ...o interfone tocou.

- Maldição...Não atende! – praguejou.
- Não...- Régia não estava concordando, mas também não articulava a negativa, devido à pressão das mãos de Clara em sua cabeça, forçando sua boca na vulva faminta.

A campainha do aparelho insistia.

- Não pode ser a comida....não faz meia hora que pedimos...- Clara desconcentrara-se.
- Atende...- Régia descansou o queixo na púbis da amante, sentindo os odores fortes.
- A Srta. Norah Vilhena está aqui.
- Quem?!?!?!
- Srta. Norah Vilhena.

Clara olhou para Régia nua e lambuzada de mel e outras coisas, observou a cozinha, sentiu os pelos melecados da púbis...

- Não estam...
- Clara, por favor, me receba! – ouviu a mulher gritar.
- Peça que espere um momento. Irei recebê-la.

Clara falou para Régia quem era. Como loucas, tentaram colocar ordem em si mesmas, pois na casa seria meio difícil. Não tinha como: ou faziam a mulher aguardar no mínimo 1 hora, ou a recebiam o melhor que podiam.

- Nos filmes tem o fade out. – Clara lastimou.
- Receba na sala. Deixa a cozinha. Eu vou tomar banho. Você está mais ‘decente’.
- Decente?!?!?! Tou grudando!!!! Cheirando o seu e o meu sexo, além de todas essas coisas aí.
- Anda, vamos. - Régia empurrava a loira, apressando-a.

Ao entrarem na sala, o ambiente não estava menos caótico do que a cozinha.
- Jesus!!! Esqueci da  sala.

Rapidamente recolocou as almofadas, jogou o strap dentro do cesto de revistas. O interfone tocou novamente.

- D. Clara, ela alega que tem um compromisso e precisa falar urgente com a senhorita.
- Ok. Deixa ela vir.

Régia correu para o banheiro, levando o dildo encontrado no caminho.
Clara foi ao closet e tentou arrumar uma roupa. Tempo para a campainha tocar.
Norah a encarou normalmente. Não era tola para saber que a demora fora para arrumar o “ninho do amor”. Até porque o cabelo emplastado de Clara denunciava tudo.
Clara percebeu que, apesar da normalidade, Norah olhara um pouco mais demorado para seu cabelo.

- Desculpa a demora, mas estava testando um coquetel para o cabelo....mel...e algumas coisas. Dá brilho. – quanto mais falava, mais sabia que se denunciava.

Norah viu as almofadas fora de ordem, coisa que mais uma vez era anormal para Clara.

- Eu que peço desculpas por chegar assim, de repente. – estendeu a comida chinesa – Aproveitei e poupei o entregador. Posso colocar na cozinha...
- NÃO!! Não precisa...estamos com fome...deixa aqui mesmo na sala de jantar.
- Além de tudo, estraguei a comida ...
- Estragou?!?! Que comida?!? Como...?!?
- Vai esfriar, quero dizer.
- Não, porque você será breve, certo? – Clara recuperou a praticidade, além de demonstrar seu desprazer.

Norah estava se divertindo. Clara estava com a camiseta do lado avesso. A etiqueta chamava a atenção da falsa consultora. Bem como, a mulher estava com um odor peculiar.

- Régia está?
- Sim. Está lavando a cabeça. O coquetel foi ideia dela.
- Bem, tenho pressa e sei que você reportará para ela. Seguinte: Rebecca me procurou para que a ajudasse a sair da fazenda e vir para cá, ajudar Luciana contra Paula.
- O quê?!?!?
- Claro que recusei. Posso ser tudo, menos otária. Não faz uma semana que fui humilhada em meu amor; certamente não a ajudaria, nem mesmo se ela se ofertasse para mim. Ela insistiu que eu seria a única que não era aliada de Luciana. Tive que lembrá-la o motivo disso.
Clara a olhava fixamente.
- Também quero dizer que, caso ainda haja a empresa, eu gostaria de continuar com o projeto; mas, apenas o lado profissional e, se possível, reportando-me mais a você.
- Não sei como ficaremos agora. Provavelmente daremos um tempo. Mas, Becky é impossível...
- Certo. Bem, meus contatos serão os mesmos. Devo viajar, mas volto breve. Olha...sei lá...Luciana faz mal para Becky. Apesar de magoada, não queria que algo acontecesse com ela.

Nesse momento, Régia chegou à sala. Norah foi pega de surpresa pela onda de desejo ao ver a morena em uma camiseta regata branca (os mamilos eretos) e calça de pijama bem larga, descalça, cabelos molhados e olhos azuis mais penetrante que jamais encarara.

- Tudo bem? – disse, enquanto estendia a mão e a falsa consultora sentia o cheiro bom de banho recém-tomado.
- Desculpa se pareço grosseira, mas já estava de saída. Clara a colocará por dentro da minha visita. Adeus. E, mais uma vez, desculpem a invasão de privacidade, eu até tentei os telefones, juro!
Ao fechar a porta, Clara olhou para Régia que não evitou a risada.
- O que foi?!?!?
- Esse cabelo cheio de mel , essa camiseta colocada ao contrário...fora o cheiro...- se aproximou da amada e, delicadamente, tirou o cabinho da pimenta do cabelo grudento.
- Quer saber? Com a gula que ela olhou para você e a secura que tava por Becky, ela que se morda de inveja do nosso sexo. Ninguém, em sã consciência, acha que eu ficaria aqui jogando paciência com uma mulher estonteante!!!!
Régia não deixou Clara se aproximar.
- Banho e eu requento a comida. Já!!!
Durante o jantar, Clara contou o motivo da visita. Estavam sentadas na varanda. A noite estava relativamente fria, após a garoa. Régia alimentava Clara colocando a comida em sua boca. Era hábil com o hashi.
- Quer saber, Clara: Becky precisa crescer. Deixa correr as coisas.
- Concordo. Muito decente da parte da Norah, não acha? – Clara chupava o hashi sensualmente
Régia assentiu, enquanto lambia o hashi, de forma inocente, mas já despertando coisas em Clara.
- É, foi decente mesmo. Mas ainda acho que tudo nela é bom demais para realmente ser bom.
Clara foi buscar o celular. Depois de Norah, por mais que quisesse, não ficaria tranquila permanecendo incomunicável.
- Nossa! Tem milhares de ligações. Muitas da doutora, algumas da Norah. Rebecca nenhuma.
- Tem mensagem de voz da doutora? – Régia puxara Clara para seu colo, beijando o ombro à mostra.
Clara fazia certo esforço para se concentrar.
- Não tem. Estranho.
Passava das dez horas da noite, não seria tarde para ligar.
- Liga para ela Clara. Pode ser urgente. – continuava brincando com os pelos da nuca da loira.
- Régia, não...quero...- disse reagindo ao contato da morena - ...se estivesse... com pressa, ela teria vindo. Você sabe que ela não faz cerimônia.

Os lábios de Régia tinham gosto de shoyou. Clara lambeu todo o contorno, deliciando-se com a maciez e perfeição. Estava aninhada no colo de Régia. Sentia-se segura, feliz; uma felicidade quase vergonhosa diante do que ocorria com suas amigas. No fundo, estava preocupada com Becky e suas desobediências; porém, de repente, até poderia dar certo ela enfrentar Paula mais diretamente. Luciana não tinha todas as respostas e nem deveria querer tê-las. Era certo que Paula amedrontava; mas se Rebecca não visse com os próprios olhos, não levaria a sério.
Era cansativo mediar tantos conflitos sem ao menos entender parte deles. Queria ter seu tempo com Régia, lutara para isso; portanto, merecia.

 

***
***

 

Luciana sentiu uma onda de náusea atravessar seu corpo.
Aquele pedaço de plástico em suas mãos confirmava seu pior pesadelo.
Imaginava a maneira menos provável, mas mais suportável para entender como aquele cartão viera parar nas mãos de Paula.
Mesmo com a mais amena das hipóteses, ficava claro que a médica insana atingira a fazenda e chegara perto dos familiares de Rebecca. Ou seja, estava de marcação fechada sobre a jovem.
Pessoalmente não era, pois permanecera no hospital todo o tempo no qual ocorrera o assassinato. Então, alguém vigiava na fazenda a seu mando.
João dissera que despachara os assassinos do pai da jovem, mas isso não garantia que Becky e família estivessem em segurança.
Estava alarmada, mas precisava pensar. Telefonou para Clara e Régia, as únicas com quem poderia contar para pensar mais racionalmente; porém, nenhuma delas atendeu, nem mesmo no telefone fixo.
Por outro lado, também, não sabia se era prudente encontrar com elas, já que Paula poderia estar lá fora, pronta para segui-la.
Em sua cabeça martelava a verdade: Paula encomendara a morte de Andras.
Era tarde de sábado. Resolveu sair. Não sabia dizer se Paula voltaria naquela noite; esperava que não o fizesse.
Foi ao cabeleireiro e fez algumas mudanças no visual para atender ao pedido da médica loira.
Não tinha rumo. Ligou para a fazenda. Acreditava que na casa não existiria espião. Quem atendeu foi Lilly. Disse que Becky tinha saído com João e a mãe. Foram para a cidade.

- Está tudo certo por aí? Como você está, agora que passou um pouco?
- Tou bem. Sei lá. É estranho saber que papai morreu. Ele era meio esquisito, mas era meu pai. Tinha seus momentos. Esse negócio do dinheiro realmente mudou a cabeça dele.
- Sinto muito. Não queria que vocês passassem por isso. Se pudesse evitar...
- A doutora não tinha como. Ele mexeu em vespeiro. Mamãe avisou ele.

Luciana trocou mais algumas poucas palavras e desligou extremamente contrariada. Queria ouvir a voz de Rebecca.
Tentou mais algumas vezes o telefone do casal, mas sem sucesso.
Sem rumo, foi para o apartamento que dividiu com Becky.
Ficou algum tempo por ali, relembrando. Estava angustiada e queria falar com Becky. Ligou para a fazenda e Ruth atendeu.

- Dotôra, tudo certo?
- Onde está Becky?

Diante do silêncio da jovem senhora, Luciana engoliu em seco.
- Fala, Ruth.
- Ela viajo.
- O QUÊ?!?!!? COMO?!?!? PARA ONDE?!?!?!
- Ela disse que ocê que deu a ideia....
- Ruth, ELA MENTIU!!! Que merda!
- Ah, dotôra, eu num mi meto nas coisas dos cÊs. Ela disse...
- Sua filha vai me deixar de cabelos brancos. Ela não me ouve, não obedece ordens, não atende pedidos...puta que pari...- lembrou que falava com a mãe – Sem ofensa, Ruth.  Escuta, ela veio para São Paulo?
- Sei direito não, mas falô em Argentina. Disse que quanto mais distância entre ocês, era mió.
- Ruth, escuta, eu não combinei nada com ela. Meu plano era deixá-la aí; até para ficarem todas juntas sob a proteção do João. Escuta, se Becky der notícias, fala com a Régia e pede que ela me dê recado. Certo?
- Tá certo. Cê tá bem? A louca tá no seu calcanhar?
- Hoje ela decidiu morar comigo.
- Vixi. Não deixa, Luciana. Ela não pode ter tanto mando.
- Por hora, pode. Ocorreu algo; vou conversar com Régia e depois ela conta. Mas, por favor, pede para o João ficar atento.
- Tá, mais...
- Ruth, esse não é o momento. Apenas faça o que pedi. Não seja igual à Becky.
- Certo.

Ao desligar, não sabia se estava preocupada ou aliviada. De repente, seja lá qual a ideia de Rebecca, sair de cena poderia ser melhor. Era certo que queria saber o paradeiro dela, mas era até bom que não soubesse, com Paula tão perto. Só não queria imaginar Becky confrontando Paula, o que era o mais provável que a jovem iria fazer.
Constatou que estava com receio de ir para casa, mas ficou com as palavras de Ruth martelando: “ela não pode ter tanto mando”. Ou pode?
Para seu alívio, após revirar todos os aposentos, soube que estava sozinha em casa. Já passava da meia-noite. Resolveu tomar um remédio para dormir.

 

***
***

 

Arrependeu-se amargamente de deixar os telefones conectados.
Estava deliciosamente sendo explorada por Régia, quando Rebecca ligou.

- Becky, já sabemos dos seus planos. – disse rispidamente.
- Como?
- Muita cara de pau pedir ajuda para a Norah, não acha?
- Acho, mas ninguém quer me ajudar do jeito que penso. Norah é uma covarde.
- Você está onde? – Clara estava mais atenta, acabara o clima.
- Nem sei. Pretendia ir para fora do país, mas houve atraso e parei num aeroporto, mas a roda do avião quebrou e eu fui alocada em um hotel, porque perdi a conexão. Um rolo só.
- Norah disse que você estava vindo para São Paulo! Não virá mais? – enquanto a loira falava, Régia a olhava atentamente.
- Mudei de ideia. Sem ajuda, fica difícil. Mas ainda estou sem rumo.
- Becky, por favor, não arruma mais confusão. – Clara falou impacientemente.
- Fica sossegada. Sabe da Luck?
- Não. Eu resolvi me isolar junto com Régia. Desligamos os telefones, por isso não a atendemos em suas tentativas.
- Sei. Bem, deixa ir. Se tudo der certo, vou para Nova Iorque. Até.
Estava tudo confuso, mas Clara deixou Rebecca achar que a enganava. Era óbvio que estava vindo ou já estava em São Paulo.
- Essa menina vai aprontar, pode escrever. – Régia comentou.
- Enquanto ela perambula por aí, vamos tentar relaxar, pois amanhã começa mais uma etapa: transferir Anna para a mansão.
Relutantemente, levantaram. Após um longo banho, foram para a cozinha.
- Nossa! Esqueci desse caos.- disse, desolada -  OK. Eu vou dar um jeito nisso e você, D. Régia, vai providenciar nosso café da manhã.
- Tem certeza que não quer ajuda? Podemos limpar juntas...
- ...não tem necessidade. Só vou deixar a cozinha utilizável....rs....amanhã D. Neuza vem limpar. Quando você voltar, estará tudo pronto.
- Então, vou lá. – começou a beijar a boca da loira, empurrando-a contra a ilha.
- Hummm....- a loira gemeu dentro da boca de sua amante.

Clara estava apenas de camiseta, sem nada por baixo. Régia, sem parar o beijo, a colocou sobre o balcão. Sem esforço, abriu suas pernas e a penetrou, mergulhando dois dedos na deliciosa umidade ao mesmo tempo que massageava vigorosamente o clit escorregadio.
- Lembrei que ontem fomos interrompidas. – dizia, olhando nos olhos verdes.
Clara queria muito manter o foco nos olhos azuis lindos que a prendiam em um encantamento; mas, a força do orgasmo minou sua determinação. Arfante, agarrou-se à Régia.
- Por favor, vá....vá, antes que eu me recupere...- Clara quase implorou.
- Você vai precisar de suas forças quando eu voltar!
Régia simplesmente lambeu os dedos e deixou a cozinha.

 

****

 

Luciana acordou meio desorientada, ao som do celular tocando.
- Doutora...
- Clara??!?...que aconteceu?!?! – perguntou um tanto alarmada.
- Calma. Desculpa se a acordei.
- Que horas?
- Quase dez horas.
- Nossa, dormi mesmo.
- Vi que a doutora tentou falar conosco.
- Preciso. Onde está Régia?
- Foi à padaria, mas já volta.
- OK. Não sei se é seguro, mas preciso vê-las. Deixa eu verificar uma coisa e ligo. Talvez possamos almoçar. Pode ser?
Clara pensou em inventar uma desculpa para se livrar, mas ficou pasma diante do pedido e não da imposição habitual.
- Vou falar com Régia.
- Aguardem minha ligação, então.

Clara desligou ciente que o recreio acabara. Com certeza, vinha bomba.
Quando Régia voltou, foi informada sobre o telefonema. Ficou apreensiva. Luciana precisava delas e tinha que ser naquele momento. Pensou em como sua mulher idealizara o fim de semana sem interrupções e apenas prazer; não queria frustrá-la, mas também não se sentia bem abandonando a médica.

- Se você não quiser ir, eu falo que não podemos. – optou por sua amada.
- Não. Sei que você está preocupada e, confesso, também estou. Ela me pareceu receosa, sabe? Assim...falando em segurança; me pareceu até que estava se escondendo. Foi até cordata.
Régia sentiu alívio com a decisão de Clara.
- Obrigada, amor, por entender. Ela precisa de nós e eu não posso ser indiferente ao apelo dela. Mas...- fez um olhar safado - ...ainda temos algum tempo. Espero que o café da manhã tenha reposto suas energias.

 

****
****

 

- E aí, novidades?
- Foi mais fácil do que eu esperava. Rebecca achou o máximo que eu, a preterida, colocasse-me a sua disposição para reaproximá-la de Luciana. Ela já está aqui para que possamos iniciar nossa cruzada contra a Dra. Paula.
- Brilhante! Chego a ter pena dessa moça em nossas mãos: quanta ingenuidade!! Será verdadeiro?
- Pelo pouco que conheço dela, em algumas coisas ela acredita de verdade; outras, ela força de acordo com sua necessidade. Mas sempre foi muito suscetível ao perdão e atos de altruísmo.
- Bem, não importa; o que conta é que ela chegando, vamos executar o plano.
- Qual deles?
- Como assim?
- Vamos reaproximar a Becky da Luciana mesmo, não vamos?
- Não. Paula está cercando Luciana muito de perto. Penso que agora é tudo ou nada.
- Mas...
- Norah, nada de ‘mas’. Você vai fazer como combinado.
- Está certo. O local está preparado? Ela não é perigosa. Não precisa de brutalidade.
- Eu sei e nem quero estragar a mercadoria. Mas, se Luciana fizer graça, terei que ser mais enfática, se você me entende.
- Paula sabe do plano?
- Claro.
- Tem uma coisa errada com Paula envolvida nisso. Antes eu achava que era por dinheiro também, além de separar as duas para ficar com Luciana; mas, agora não faz...- Norah sentiu um calafrio percorrer a espinha - Vocês estão escondendo algo de mim?
- Como?
 - A intenção e Paula não é devolver a Rebecca. Vocês vão matá-la!?!?!
- Norah, EU não tenho o menor interesse em ser assassina. O que a Luciana me tirou foi material e é isso que quero de volta. Não tenho nada contra essa moça. Pode estar certa.
- Paula tem. Ela vai forçar que Rebecca morra. – a falsa consultora ficou apreensiva.
- Isso eu percebi desde o começo. Concordei com ela para poder me aproximar de Luciana. Mas, pode deixar comigo, eu não vou permitir que chegue a esse extremo.
 - Ela é perigosa, ardilosa. Você não pode com ela.
- Veremos. Você sabe que de loucos eu entendo.
- Haja o que houver, mantenha essa Dra. Paula longe da Rebecca.
- Você está apaixonada por essa jovem?
- Apenas acho que ela não merece pagar pelos erros da Luciana. Deixa eu ir me arrumar.

 

***
***

 

Becky realmente estava cansada. João e Ruth a levaram para o aeroporto, onde pegou o voo que encontrou para São Paulo. Faria uma escala e depois uma conexão. Na escala houve atraso e, na conexão, o estrago na roda da aeronave.
Consequentemente, a companhia aérea pagou o pernoite na cidade e, logo de manhã, seguiu rumo à São Paulo.
Por conta disto, tentou dispensar Norah de ir buscá-la no aeroporto, mas foi em vão. Ao chegar, a consultora estava a sua espera.

- Bem, nem posso perguntar se fez boa viagem. – disse, jocosamente.
- Nem me fale. Acho que de cavalo teria chegado antes. Obrigada por me esperar.
- Nem tem o que agradecer. Você vai para o flat?
- Sim.
Seguiram conversando amenidades, entretidas com os trâmites de malas e estacionamento.
- Notícias de Luciana? – Norah quis saber.
- Nenhuma. Régia e Clara resolveram se isolar de nós. Não sabem de nada!
- Eu sei. Ontem eu fui lá. Menina, aquelas duas decidiram morrer de sexo...- deu uma risada - ...nunca imaginei Clara como uma predadora sexual. – riu maliciosamente.
- Clara é uma caixinha de surpresas! – Becky deu uma risadinha discreta – Elas estranharam seu discurso?
- Olha, com todas as habilidade da Clara, eu temo é a Régia. Por isso, não falei com as duas juntas, mas apenas com a Clara e ela pareceu engolir.
- Ela me deu bronca hoje quando nos falamos. Eu disse que iria para Nova Iorque. Ela só pediu para não me meter em confusão.
- O mesmo digo eu. – disse, ao parar na frente do flat – Jantamos juntas?
- Podemos. Eu vou ligar para minha mãe. Acabou a bateria do celular e não mantive contato com ela desde ontem.
Despediram-se cordialmente.
Rebecca demorou um pouco para ligar.  D. Ruth já foi logo ralhando com ela.
- A dotôra ficou possessa. Até quase me ofendeu, pois xingou ocê de tudo. Que ideia destrambelhada foi essa?
- Então ela já sabe?
- Eu disse que ocê foi para Argentina.
- E estou indo mesmo. Estou esperando voo.- mentiu.
- Cê acha que nasci ontem, sua piralha? Sei muito bem onde cê tá. Vê se toma cuidado e faz a coisa direito.
- Mãe, que é isso? Que ideia vocês têm de mim. A Clara também me deu a maior bronca.
- Fia, D. Clara sabe quem é essa tar Dra. Paula. Fiquei sabendo que Régia quase arrancou a língua da tar, que tinha dado um tapa na D. Clara; e a muié sai rindo e ainda cortejando a Régia. A dotôra disse que essa uma não teme nada. Cê pode se dar mar com isso. Pior, pode inté criar briga entre as duas. Toma cuidado. Pode fazê Luciana cometê arguma loucura.
Depois de ouvir mais uns minutos, insistiu em mentir que estava saindo do país e desligou.
Se Luciana fosse trocar figurinha com Clara, iriam falar quase a mesma coisa. Exceto pelo destino que estava diferente, a mensagem era que ela teria ido viajar para fora do país.

 

***
***

 

Luciana levantou e foi verificar se estava sozinha em casa.
Falou com os seguranças; deu uma olhada pelos quartos. Desceu para cozinha. Apesar de ser domingo, a ajudante de Maria Luíza estava trabalhando. Além dela mesma, a moça era a única outra pessoa na casa.
Tomou um gole de café e um pedaço de pão. Pegou a moto e seguiu para o hospital. Domingo o staff era outro; algumas chefes de setores estavam de folga. Chegou até sua sala sem cruzar com suas assistentes habituais. Saiu procurando Paula.
Foi ao quarto de Anna, verificou no restaurante. Não a achou.
Luciana estava furiosa com o fato de não saber encontrar Paula. Também pelo fato dela se locomover no hospital sem ser vista.
Entrou em um setor qualquer e ligou para Clara, combinando um horário e local para o almoço. Régia sugeriu o templo, pois era retirado e o acesso permitia monitorar se estavam sendo seguidas. Marcaram para as 13 h.
Quando ia saindo da sala, foi surpreendida por Paula.
- Procurando por mim, amor? – disse debochadamente. – Ficou bom esse cabelo, embora gostava mais do outro jeito; mas, tenho que me garantir. – disse mexendo sensualmente no cabelo da morena.
Luciana tentou como pode não encolher ao toque ou fechar o cenho; mantendo, ao menos, a neutralidade. Apesar de extremamente treinada na arte de dissimular suas reais emoções, com Paula estava difícil encenar.
-  Quero respostas sobre Anna.
- Não tem o que falar. Retire os medicamentos e comece a reaplicá-los isoladamente, até que ela acorde.
- Por que tão simples assim? – Luciana era uma cientista e não admitiria tanta simplicidade em algo, até então, inexplicável.
- Chama a cucaracha e falaremos. Mas, pelo que analisei, é só isso mesmo. Os órgãos estão funcionando corretamente; ela tem reações, movimenta os olhos; você mesma já presenciou alguns destes episódios.
- De fato. Por isso mesmo vamos transferi-la para a mansão, pois quero testar um tipo de terapia diferente. Quero começar a trabalhar os estímulos. Quero que Régia se envolva mais também.
- Uau. Terei aquela selvagem gostosa por perto!
Luciana não gostou do comentário. Em silêncio, enquanto Paula falava sem parar, saiu andando pelo corredor. Repentinamente, Paula a segurou pelo braço.
- Antes que eu esqueça, tenho mais um presente para vc. – e jogou o envelope.
Luciana abriu e viu algumas fotos de Becky com Norah.
- Por que eu quero isso? Não tenho mais nada com essa mulher. – disse, impassível.
- Foram tiradas hoje de manhã. Até onde eu sei, ela não deveria estar na fazenda, de luto pelo fracassado do pai?
- Deveria?
- Luciana... você sabe que tenho olhos e ouvidos espalhados por aí. Bem, tenho outros assuntos para cuidar, mas hoje vou dormir com meu amor.
- Onde você vai?
- Ai, Luce, como você é controladora. Nem bem voltamos e já está me sufocando?!?!?!
Sai gargalhando, deixando Luciana se corroendo. Aquelas fotos não estavam no esquema. Becky e Norah juntas no aeroporto. Será?

 

***
***

 

Clara lembrava dos bons momentos que passara no templo junto com Régia, na época uma mulher enigmática, de quem queria saber sempre mais, para descobrir depois que não era suficientemente preparada para entender as nuances da personalidade complexa. Olhou para ela e, como um pedido de desculpa secreto, a beijou com ternura.
Foram bem recebidas pela Monja Naomi, a quem Régia interou sobre os assuntos dos últimos tempos. A plácida senhora aprovou tudo, mostrando-se contente com os novos rumos da vida de Régia. Após a conversa, o casal foi encontrar Luciana para o almoço.
- Por favor, pegue somente o que for comer, hein! – Régia brincou com Clara, referindo-se à primeira vez que almoçaram no local.
- Por favor, diga-me o que estou escolhendo, antes que eu encha o prato. – Clara fingiu aborrecimento.
Luciana, que não entendera a brincadeira, permanecera calada. Estava assim desde que chegara, após constatarem que Paula era sua sombra em tempo integral.
Régia e Clara chegaram mais cedo e postaram-se estrategicamente na parte alta do templo, com vista ampla da estrada de acesso à edificação. Combinaram com a doutora que ela entraria no templo, daria meia volta e seguiria novamente pela estrada, como que retornando, dando a impressão de estar perdida. E, não foi com espanto, que viram quando a moto da doutora passou os arcos do templo e, em seguida, o pequeno carro conversível, com capota erguida,  suspeitamente passou devagar na frente, observando, sem entrar. Quando a moto voltou a sair, o carro voltou a seguí-la.
Como combinado, Luciana voltou para a estrada do templo e, quando passou pela frente, o velho caminhão da monja Naomi cruzou a estrada, parando a obstruir o caminho. Se havia dúvida a respeito, puderam observar a figura loira descer do carro e trocar algumas palavras com a monja, que deveria alegar problemas no motor do caminhão. Tempo suficiente para Luciana pegar o caminho de terra para a entrada dos fundos do templo.
- Ela pode entrar, não pode?
- Pode, Luciana, mas acredito que não irá. De qualquer forma, sua moto já foi levada e está estacionada na porta de um motel, uns 2 km adiante, próximo ao retorno obrigatório. O porteiro está instruído para dar a sua descrição e de outra loira qualquer.
- Um motel?!?!?! Vocês querem que ela me mate, mesmo!
- É perigoso, mas se ajusta melhor a sua imagem, doutora. – Régia falou com certo deboche.
Sentaram para almoçar. Luciana não tocava na comida.
- Doutora, não vai comer? Já passei um mico aqui por desperdício de comida. – Clara tentou puxar assunto.
- Pode providenciar a doação de alimentos que precisarem, Clara. – a médica foi seca.
- Essa mudança no visual foi exigência da Paula, não foi? – Régia cortou o momento constrangedor.
Luciana havia cortado os cabelos na altura dos ombros, tirando a franja. Nada drástico, mas muito diferente de Régia.
- É, Régia, acabou nossa brincadeira de troca de identidade. Ela disse que não estava convencida de que eu estivera no hospital o tempo todo enquanto estavam na fazenda; mas, para ter certeza, não queria mais que fóssemos tão parecidas.
- Que mulher perigosa.
- Clara, ela está fechando o cerco. – Luciana tirou do bolso o cartão, jogando-o na mesa.
Régia franziu o cenho, Clara quase soltou um grito.
- A doutora acha que foi Paula quem....- Clara não completou a frase, tamanho o choque.
- É possível, Régia, que ela tenha a ver com a morte do Andras?
- Luciana, agora faz sentido alguém aceitar como pagamento de aposta o cartão de crédito.  Se aquele Andras não fosse tão burro e, ao mesmo tempo, tão metido a esperto, teria percebido algo errado; mas, ele provavelmente achou que tinha ganho tempo para fugir.
- Então, você realmente acha possível?
- Luciana, Paula tem acesso ao hospital, conversa com o professor Victor; mesmo o professor Arthur pode deixar escapar informações. Chegar na fazenda não era difícil; menos ainda encomendar tocaia para o Andras que, por sí só, era um encrenqueiro. De uma coisa sabemos: João deu cabo dos caras; mas, o serviço foi feito e a prova estava com Paula.
A médica estava lívida. Clara temia por Régia, já que Paula havia suspeitado de que estava ajudando a médica, sendo sua dublê.
- Mas, pode haver a possibilidade de ela ter acesso ao cartão de outra forma...
- Clara, não vejo outra forma; mas, supondo que existisse, de qualquer forma ela chegou na fazenda e está rondando Becky e seus familiares. – a médica disse, sem paciência.
- Doutora, até então ela não nos deu prova de violência extremada. A morte no clube ainda não podemos acusá-la, pelo fato de ter a outra mulher. Porém, agora, por mais indesejável, Andras é o pai da Rebecca; é uma pessoa; uma vida, que foi tirada por banalidade. Tenho medo dela. Se precisava ser convencida da periculosidade dela, não preciso mais! – Clara estava visivelmente assustada.
Nesse momento, a monja as encontrou. Olhou para Luciana e para o prato. Depois,apenas a olhou com brandura.
- A moça do carro muito nervosa comigo. Xingou muito, depois contornou caminhão e arrancou com tudo. Não entrou aqui não. Podem relaxar.
- Monja, essa é a doutora Luciana.
- Agradeço sua ajuda, monja. Mas, relaxar é algo que não poderei mais, enquanto aquela mulher existir.
A senhora, que já sabia da história, não fez comentário.
- Deixei vigia no motel. Caso moça loira permaneça lá, teremos que fazer algo com moto.
Não haviam pensado no plano para despistar Paula, caso ela esperasse a “saída” de Luciana do motel. Régia apostava que ela não esperaria, por ser impaciente.Também haviam subornado o porteiro para não deixá-la entrar.Em último caso, criariam alguma confusão para distrair a médica loira e infiltrar a médica morena no motel.
- Bem, senhoras, diante disso, estou mais do que nunca nas mãos dela. Meu plano é viver novamente com ela, sob as condições dela. Quando me entregou o cartão, eu havia falado que Becky nada representava para mim; o que a fez retrucar que eu frustrara a surpresa dela. Por último, ela entregou isso.
Jogou na mesa a manilha de fotos de Becky com Norah.
- Não faz sentido! – Clara se manifestou – Norah nos procurou ontem para informar que Becky pedira sua ajuda e ela recusara. Inclusive demonstrou-se preocupada com o possível rumo que Becky levaria, diante da recusa dela em ajudá-la.
Régia se agitou. Começou a andar de um lado para o outro.
- Paula deu a entender que ambas estavam juntas; possivelmente, viajando juntas para fora do país.
- Becky disse que ia para Nova Iorque...
-...para D. Ruth ela disse Argentina, conforme João me informou. E Norah também disse que ia viajar. – Régia completou.
- Está tudo confuso. Só sei que tenho que convencer aquela louca de que Becky não representa mais nada para mim; porém, como sabemos, eu e ela estamos juntas. Isto é, eu pensava que sim, mas essa aparição da Norah não se encaixa.
- Não se encaixa, mas poderia ser um bom álibi no momento. – Régia ponderou – Será que Becky imaginou isso e bolou algum plano; alguma forma de validar que vocês estão separadas?
- Seria até brilhante, mas não é o modo de Becky agir. E, se for, não gosto daquela oportunista perto da Becky em momento de tanta fragilidade. – Luciana confessou.
Neste momento, a monja retornou dizendo que Paula dera meia volta e retornara pelo caminho do templo. Tinha uma pessoa seguindo a médica loira, para garantir a saída de Luciana.
- Luciana, porque não vamos conversar com os pais dela? Pedir ajuda para colocá-la em tratamento. Desta vez, temos melhores argumentos para que eles nos ajudem.
- Sei que vocês já andaram conversando com Arthur, que contou sua versão do que foi meu relacionamento com Paula.
- Doutora, fizemos isto para tentar entender mais sobre o poder de Paula...
- ...vocês a enfureceram ainda mais. Ela disse que ficou puta com a intromissão de Becky no que ela considera, com razão, ser a vida dela também. Percebam que cada vez que mexemos, a merda fede mais.
Clara ficou vermelha. Régia não se intrometeu.
- Becky soube de muitas coisas horríveis sobre mim; quer por suas bisbilhotices, quer por meus relatos. Fora coisas vis, torpes, de mentes perversar e soberbas. De novo, Paula teve vantagem sobre mim ao contar dessas sondagens que Becky nunca me contou. Fiquei realmente indignada e foi até bom, porque não precisei fingir raiva de Becky.
- Luciana, o ponto não é esse. Eu falo de pedirmos ajuda aos pais...
- Arthur é um bundão. Ele gosta muito de mim, Paula sempre achou que gosta até mais do que dela mesma, que era filha. Mas ele não tem pulso. Já Cecília me odeia e, se vocês querem saber, ela sempre facilitou as saídas de Paula das instituições. Ademais, eles nem sabem onde encontrar a filha.
- Mas você sabe: na sua própria mansão!
Luciana fez uma expressão indecifrável ao ouvir constatação tão óbvia.
- Luciana, a gente pode atraí-la, sedar, levar para uma instituição. Ir à polícia com o cartão do Andras e pedir uma investigação...
- ...e descobrir que o João matou todo mundo, fora outras mortes, inclusive as suas execuções também. Paula será submetida à prisão por problemas mentais? Será mantida sobre sedação a vida toda? Um dia ela sai e então começa de novo? Cecília não vai ajudar, ao contrário, testemunhará e muito contra mim.

Régia ficou em silêncio. Clara olhava para as duas mulheres. Será que nada poderia ser feito?
- Sem falar na exposição de todos nós para a mídia. Será que queremos tudo isso?
- Luciana, João não deixou rastros. Chegar em mim, pouco provável. O cartão está com você e foi Paula quem deu...
- ...poderia ter sido Rebecca e eu apenas usar para incriminar Paula.
- Então esquece a polícia. Apenas a colocamos em alguma instituição com a ajuda dos pais dela. Cecília não vai querer ver a filha matando mais inocentes por aí. E, se for preciso, os médicos que a mantenham sedada pelo resto da vida, sim.
- Não quero! Vocês estão proibidas de se meterem mais nisso. Estou extremamente cheia de tudo. De me preocupar com gente demais! Paula falou que eu nunca tive tantos amigos de infância como tenho agora, depois da Rebecca e seus caprichos. A pior parte de tudo é que ela está certa: agora eu tenho um monte de gente com a qual me preocupo. Rebecca omite coisas de mim, achando que omissão é menos grave do que mentir. Com Paula não é. Há bem pouco tempo, eu quase machuquei Rebecca por intrigas construídas sobre as omissões dela.
O casal estava quieto.
- Amanhã, quero vocês cedo no hospital. A Dra. Paz deve chegar em breve. Paula insiste que temos que refazer o tratamento, diminuindo os remédios até Anna acordar.
- Simples assim?
- É Régia, também acho que tem coelho nesse mato. Quero que a Dra. Paz esmiuce todos os procedimentos desde o início e, penso, que você pode ajudar, enxergando com outros olhos possíveis pistas.
- Régia vai confrontar Paula? – Clara ficou apreensiva.
- Se houver uma chance, temos que agarrar. A Dra. Luciana atesta que Paula foi uma excelente médica. Entretanto, sabemos que é mentalmente abalada e tem um agenda para Anna. Alguma coisa há nisso tudo. Não temo enfrentar Paula.
- Ok. Amanhã, na primeira hora, na minha sala no hospital. Como que farei para ir embora?
Com a ajuda da monja, a médica aprendeu um outro caminho, um pouco mais longo, mas bem pouco utilizado e seguro.
Clara e Régia perceberam que o caso era grave, mas ainda achavam que tinha outra maneira de resolver. Esperavam que Becky estivesse arquitetando algo com a ajuda da Norah.
***
***
O casal aguardava Luciana na sala de espera quando Paula apareceu.
- Bom dia, chupins!!! – disse, efusivamente.
Régia e Clara responderam ao cumprimento, indiferentes ao comentário.
Paula encaminhou-se para a mesa de Larissa. Régia percebeu o medo na jovem e sabia o motivo.
- Por que os miquinhos amestrados estão aqui fora? – disse, posicionando-se atrás da secretária, prendendo-a entre seus braços, enquanto olhava tudo o que estava sobre a mesa.
- A doutora ainda não chegou. – a moça respondeu, inconfortável com a proximidade.
- Quero ter uma palavrinha com vocês duas. Venham. – disse, encaminhando-se para a sala de Luciana.
- Dra. Paula, não pode entrar ...
- Projeto de leão de chácara, entenda de uma vez: eu sou filha de um dos donos desse hospital e entro na sala da minha mulher a hora que eu quiser. Entendeu?
Antes que Paula pudesse alcançar Larissa para mais uma de suas agressões, Régia a segurou pelo braço.
- Você quer falar conosco, então vamos entrar logo. – disse, olhando-a de cima para baixo, devido a diferença de altura.
- Uau!!! Eu amo seu toque. – disse, ignorando a presença de Clara – Tem compromisso para hoje?
Régia não moveu um músculo, além de soltar o braço da loira.
- Vamos logo com isso.
Em um movimento engraçado, Paula postou-se ao lado da porta aberta e fez uma espécie de reverência, indicando que as duas deveriam entrar na sala de Luciana.
- Eu soube que você andou leiloando a Anna por causa do rabo de saia aí do lado. 
Clara ficou lívida, Régia permaneceu impassível.
- Por que é do seu interesse? – Régia perguntou, interrompendo possível reação de Clara.
- Eu a quero,oras!
- O QUÊ? – Clara explodiu.
- Bem, na verdade não quero; mas Luce gosta tanto dela, que vou curá-la e dar para ela, no lugar do filho que perdeu! – Paula dizia isso, enquanto andava para pegar um café.
- Por que acha que vamos entregá-la para você? – Régia tentava tirar algum proveito da conversa.
- Com certeza, não vai ser porque estou pedindo! – disse gargalhando para, em seguida, ficar séria – Vocês são chupins que me atrapalham. Acabou a besteira da sociedade; a fedelha já saiu do caminho; só resta vocês ainda rondando como abutres, por causa dessa menina que Luce tenta ressuscitar, como forma de compensar o que não fez pelo filho morto, blá blá blá. – fez menção de vomitar antes de beber o café fumegante - Se você ia embora, sem essa sua pamonha azeda, e ia deixar a garota; agora, você só tem que deixar a menina e ir embora com sua mosca morta. Ah, claro, eu dou uma ajuda de custo. Diga quanto?
- Absurdo! – Clara vociferou – Você pode ser louca, mas tem hora que ultrapassa os limites. Anna não foi leiloada. Régia não o fez por vontade; agora as coisas mudaram muito.
- É, mudaram mesmo! Parece que ela conseguiu comer você, se arranjar em grana com a Luce e ainda ficar com a pentelhinha que ninguém queria de fato. – lambeu a borda da xícara – Já investiguei muito vocês. Clara, você é, como já disse, uma mosca morta. Tudo muito chato na sua vida; só tem um pouco de mistério o fato de você não precisar de dinheiro e ter se submetido aos desmandos da Luce. Bem, olhando para Régia, não é difícil perceber que havia outras intenções além da servidão profissional. Deus teve dó de você quando mandou Régia, né? De qualquer forma, você nada tem que eu possa usar em meu benefício. Totalmente descartável; mas, ainda assim, tenho fé que pode ter alguma utilidade.
- Você é....
-...louca; sim, sou e blá, blá, blá...já me acostumei a ouvir isso. Dá licença, que tenho coisa mais interessante...- virou para Régia – você...hum... alguma coisa está nebulosa. Nas pesquisas que fiz, só encontro sobre seu passado de botânica reclusa na selva. Os últimos 10 anos, ou mais, nada consta. Porém, até onde o Victor falou, você nem podia assinar como responsável pela garota; Luciana usou de todo poder de persuasão naquela entrevista, escondendo você o máximo que pode.
Clara ficou apreensiva e, por prudência, resolveu esperar alguma reação de Régia que, por sua vez, ficou séria e calada.
- Marcella, apesar de atrapalhar sua conquista amorosa, não foi o pivô do desentendimento entre vocês duas. Dizem que a “sua” secretária bradava ter nojo e asco por suas atitudes de jagunça; que não podia compactuar com você. E você lamuriava pelos cantos que não merecia que sua filha a conhecesse, por ser quem era, uma sem eira nem beira; não era digna de conviver com Luciana; enfim, uma dramalhão só. Foi meu pai que disse isso.
Clara sentiu-se corar diante da verdade cruel. Régia não moveu um músculo.
- Aliás, dizem as más línguas que você, Régia, é uma assassina; na fazenda, é uma lenda por ter acabado com uma corja de contrabandistas e pendurar a cabeça de um na porteira da propriedade. Há quem diga que você é a mulher macho mais brava que conhecem. – Paula continuou.
- Qual sua conclusão, Paula? – Régia perguntou, em tom sarcástico.
- A pior possível: nenhuma! – a loira disse, olhando no vazio da xícara – Mas, tem podridão nisso, vou descobrir, e vou atazanar suas vidinhas libidinosas. Sinto, de alguma forma, que tenho você, Régia, nas mãos. Não como eu gostaria, claro. – mandou um beijo para a líder.
- Bem, você pediu Anna e a resposta é não. Podemos acabar com o circo.
Régia levantou e pegou Clara pela mão.
- Ui, quase assustei. Bem, eu não tenho apreço por ela mesmo. Luce já perdeu coisa mais significante; então, apenas não quero ter vocês no meu caminho; andando pela mansão; distraindo Luce; fazendo leva e traz para aquela fedelha. Contrariando minha vontade, fiz essa oferta amigável, tentando salvar alguma coisa boa.
- Não pense em nada contra nós... – Régia falou em seu melhor tom ameaçador - ... caso contrário, vai saber em primeiro plano se sou ou não a assassina fria que dizem. E, pode crer, dando cabo de você, sairei como heroína novamente.
- Ai, ai, ai....adoro esse seu tom de voz. Estou tentada a pagar para ver. Deve ser delicioso ser alvo da sua ira.
Clara apertou a mão de Régia, num pedido desesperado de controle.
Nesse momento, Luciana entrou e, sentindo o clima, fez sua melhor entrada possível.
- Clara e Régia, seja o que for que tenha acontecido, não quero saber. Se tiverem algo realmente importante a dizer, sejam breves. Do contrário, tenham um bom dia, porque o meu não será.
- Doutora, por que nos trata assim? – Clara falou, sem jeito.
- Clara, a doutora já tem o que merece e deve ter se conscientizado disso. Vamos, antes que eu me arrependa de ter gratidão. – Régia falou, num tom cortante, encarando Luciana friamente.
- Nossa...tenho que extravazar o tesão que ver vocês duas se digladiando me provoca. – Paula bateu palmas.
- Paula, cala a boca. Régia, pega sua mulher e some. Quando Paz chegar, você venha para que Paula possa nos explicar a metodologia que quer iniciar com a Anna. Aliás, já ia me esquecendo: não quero mais que Anna se mude para a mansão. Não vou aguentar essa louca e mais vocês três dentro daquela casa.
- Mas, Dra. Luciana, já fizemos reformas...- Clara começou a gaguejar de nervoso - ...oferecemos a casa para Becky...
- Clara, não vai haver mais mudança. Anna fica aqui no hospital ou vocês levam para a sua casa. Não quero chateação desnecessária e nem ficar apartando brigas. Agora saiam, não vou explicar mais nada.
Clara e Régia começaram a andar em direção à porta e Paula correu para abri-la, fingindo como se estivesse varrendo o casal para fora da sala.
- Essas quando grudam, são umas pragas, né amor?
Foi o que o casal ouviu por último.

 

 

 

Continua...

 

 

 

28_4 29_2?