Por acaso a felicidade

Rose Angel

Contato: roseangelys@yahoo.com.br

março/2005

 

 

 

Aí pessoal...

Olha eu aqui de novo... Mais uma vez escrevendo no estilo ALT/UBER.

Vale o velho lembrete de que esta história contém temas adultos expondo relações sexuais explícitas entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, onde você mora é proibido ler esse tipo de material ou for homofóbico, não continue a leitura. A escritora e a pessoa que mantém o website onde esse trabalho aparece não aceita responsabilidade legal pelo não cumprimento desse alerta.

Essa história tem as protagonistas inspiradas nas personagens de Xena e Gabrielle que são marca registrada da MCA/Universal e Renaissance. Elas são usadas aqui sem intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright.

Espero que gostem e desejo a todos uma boa Leitura!

Se quiserem enviar comentários acerca da história, críticas ou sugestões, trocar idéias sobre a série XWP ou simplesmente bater um papo meu e-mail é angelysr@terra.com.br

 

 

Era início do mês de outubro de 1999 e a cidade de Santa Cruz do Sul se preparava para os festejos da Oktoberfest, festividade de origem germânica, trazida pelos imigrantes, e que conferia àquela região um encanto especial, atraindo visitantes das mais variadas localidades que vinham em busca de diversão e, obviamente, de um bom chopp. A cidade toda se preparava para a festa anual e as ruas ganhavam uma decoração que servia de pano de fundo para os desfiles dos carros alegóricos e das inúmeras bandinhas, grupos folclóricos e demais atrações da festa. Toda a cidade parecia sorrir feliz. Santa Cruz do Sul constitui-se em uma cidade de colonização alemã, onde os costumes, tradições e o folclore sempre foram mantidos pelos descendentes dos primeiros imigrantes, que desbravaram esta região do Vale do Rio Pardo, no centro do estado do Rio Grande do Sul.

Naquele ano de 1999 a cidade se apresentava como um mercado promissor para novos empreendimentos, quer pelo seu crescimento demográfico como pela economia em vias de expansão. Assim sendo várias empresas resolveram apostar naquele mercado, inclusive o Magazine Libanês, renomada loja de móveis e utilidades para o lar, cuja matriz em São Paulo procurava ramificar seus investimentos em outras regiões.

Já passava das dezenove horas quando Fernanda finalmente entrou na suíte que ocupava no Hotel Edelweiss, no centro da cidade. Definitivamente não se sentia bem. Sua cabeça pesava e uma sensação de náusea parecia fazer rodar o quarto à sua volta. Estirou-se na cama ampla, na esperança de que o mal estar fosse passageiro. No entanto, a cada minuto que passava sentia-se pior. Naquele momento desejou não estar só. Eram em situações como aquela que Fernanda sentia uma ponta de saudades do tempo em que ainda morava com seus pais. Mas ali estava ela, uma mulher independente, segura de si, sem nenhum compromisso com quem quer que fosse além dela própria. No auge dos seus 34 anos tinha conseguido a independência financeira e podia se dar ao requinte de morar naquela luxuosa suíte do Hotel Edelweiss.

Levantou-se e remexeu em sua bolsa à procura de um remédio para náuseas. Havia somente um pacotinho de sal de frutas, o qual ingeriu na esperança de melhorar aquela sensação horrorosa. Deitou-se novamente e após alguns minutos começou a sentir dores no ventre. Arrastou-se até o banheiro, sentindo o chão instável sob os pés.

Era domingo e Fernanda havia participado de um almoço de confraternização com os funcionários da loja que gerenciava, em comemoração aos aniversariantes do trimestre. Não havia bebido mais do que duas cervejas, no entanto sentia-se como se houvesse entornado um barril inteiro de wodka. Por certo comera algo que lhe fizera mal, embora não fizesse idéia do que fosse, talvez a esfirra de carne que comera na metade da manhã. Mal conseguiu chegar até o vaso sanitário, onde passou muito mal. Arrastou-se de volta para a cama e pegou o interfone:

- Portaria – disse uma voz cordial.
- Por favor, aqui é do 301, chame um táxi... preciso ir até o hospital... não me sinto bem...
- Pois não, senhorita Fernanda, imediatamente – respondeu o rapaz com a voz preocupada - Já estou subindo para ajuda-la.
- Está tudo bem, Otávio. Só estou com um pouco de mal estar... – respondeu Fernanda tentando amenizar sua situação – não se preocupe...
- Certo, certo, já estou chamando o táxi, senhorita.
- Obrigada.

Em menos de cinco minutos ouviu-se uma suave batida na porta do quarto 301:

- Senhorita Fernanda, o táxi já está aguardando lá embaixo. Posso ajuda-la a descer?

A porta se abriu e Fernanda respondeu:

- Muito obrigada, Otávio.

Fernanda nem havia trocado de roupa, estava com uma aparência péssima. Apoiou-se no jovem que lhe estendia a mão gentilmente e deixou-se conduzir até o veículo estacionado na porta do hotel. No táxi conseguiu contar a Otávio, embora sucintamente, o que sentia e este tentou tranqüiliza-la. Fazia seis meses que Fernanda residia no Hotel, desde que seu avô resolvera expandir os negócios da família e inaugurara uma filial do Magazine Libanês naquela cidade. Por questões de comodidade optou por instalar-se na confortável suíte 301 do Hotel Edelweiss, sendo que acabou por familiarizar-se com os funcionários do local. Fernanda tinha um temperamento extrovertido, porém era uma profissional bastante exigente. Seus subordinados acabavam desenvolvendo uma atitude de comprometimento e respeito por ela, uma vez que Fernanda sabia exatamente como dosar disciplina, dedicação e senso de justiça. Gerenciava o Magazine Libanês e seus funcionários tinham adoração por ela. Na verdade era quase que impossível conhecer aquela figura de porte elegante, pele morena e encantadores olhos azuis sem deixar-se cativar. Apesar disso, quando necessário, Fernanda era capaz de se impor em quaisquer situações e não admitia conviver ou trabalhar com pessoas nas quais não confiasse ou que tentavam tirar proveito de sua generosidade. Era uma mulher que exigia sempre transparência nas relações.

Otávio conduziu Fernanda pelo hall de entrada do Hospital, que se localizava nos fundos da Catedral, fazendo com que se sentasse enquanto se dirigia até a recepção. Ela mal conseguiu se lembrar de como entrou no Hospital, tamanha sua indisposição. Ainda na recepção tinha vaga lembrança de haver sido amparada por pessoas de uniforme branco, no momento em que se sentiu desfalecer.

Fernanda começou a ouvir vozes longínquas, porém permanecia com os olhos fechados. A sensação de dor e náuseas que sentia havia passado e uma agradável sonolência lhe impedia de abrir os olhos. Tentou lembrar-se do que havia acontecido, porém vagas imagens apareciam em sua mente, como flashes num filme antigo. Gradualmente porém, conseguiu recordar-se do que havia ocorrido. Lembrou-se que, ao entrar no Hospital, logo após chegar ao balcão da recepção sentiu o chão rodar e uma sensação de desmaio apagou todos os seus sentidos até aquele momento. Por certo foi Otávio quem forneceu seus dados na recepção. Ouvia um murmúrio de vozes ao fundo:

- Paciente apresentando sintomatologia compatível com quadro de intoxicação alimentar. A febre cedeu um pouco, mas ela permanecerá baixada, em observação. Aqui está a prescrição da medicação. Uma boa noite enfermeira.
- Boa noite, doutora. – respondeu uma voz melodiosa que fez com que Fernanda tentasse adivinhar quais lábios haviam pronunciado aquelas palavras.

Neste momento Fernanda sentiu um toque suave, de mãos quentes, em seu braço. Abriu os olhos e contemplou o mais belo par de olhos verdes que os seus já haviam visto.

- E então?... É caso perdido ou não?... – balbuciou sorrindo em voz baixa, ainda sob efeito de sedativos.

Aquela figura angelical retribuiu-lhe o sorriso e respondeu bem humorada:

- Depende... se tinha algum compromisso para hoje é caso perdido, caso contrário ainda resta uma esperança.
- Graças a Deus! – respondeu Fernanda, observando melhor aquela figura que lhe ministrava uma medicação pelo abocat colocado em sua mão.

Observou o quanto era graciosa aquela figura e questionou:

- Esse anjo da guarda tem nome?
- Valquíria.
- Amazona de Odin...

Valquíria levantou os olhos encarando Fernanda:

- A senhora conhece...
- Mitologia nórdica?... Com certeza. Mas "senhora" está no céu, me chame pelo nome.
- E qual é?
- Fernanda, se é que você já não bisbilhotou na minha ficha.

Valquíria sorriu e respondeu:

- Belo nome para uma moribunda...
- Que animador!

Fez-se um silêncio enquanto Valquíria verificava os sinais vitais de Fernanda. Fez algumas anotações num formulário e continuou:

- A senhora, digo, você vai passar a noite aqui conosco.
- Como assim? Eu vou para casa, quero dizer, para o hotel, amanhã é dia de trabalho...

Valquíria aproximou-se do leito e colocou sua mão na testa de Fernanda.

- A doutora que te atendeu não te deu alta, amanhã de manhã ela passa aqui pra conversar contigo. Olha, fica tranqüila, esta noite eu estou de plantão nesta unidade, qualquer coisa é só chamar, certo?

Fernanda sentiu o toque afetuoso daquela mulher em sua testa e nem pensou em contra argumentar. Na verdade tinha consciência de que estaria melhor ali. Além disso, estava gostando da idéia de ser cuidada por aquele anjo da guarda. Valquíria apagou a luz do quarto e saiu. Fernanda olhou em volta e a luz indireta do corredor permitiu que vislumbrasse em meio à penumbra um quarto decorado com um crucifixo sobre a cabeceira da cama e um quadro retratando flores na parede ao lado da porta. Havia apenas a sua cama e um armário embutido, além de um pequeno sofá e uma cadeira estofada num canto. Fernanda sentia-se bem melhor e adormeceu profundamente.

Na madrugada Valquíria adentrou no quarto e acendeu a luz de cabeceira para ministrar a medicação de Fernanda e verificar novamente seus sinais vitais. Percebeu que ela dormia profundamente e antes de toca-la parou ao lado da cama e se pôs a observar melhor aquela mulher que parecia entender bastante de mitologia. Os cabelos negros emolduravam o rosto anguloso. A boca simétrica tinha um contorno sensual e apesar da aparência abatida era a imagem de uma bela mulher, quase uma deusa, uma deusa grega, pensou Valquíria. Tais pensamentos a reportaram há anos atrás, quando ainda morava no orfanato, e olhara para uma colega com a mesma perspectiva com a qual analisava Fernanda naquele momento. Lembrou-se da atração que sentiu e dos contratempos gerados por aquela situação. Tratou de afastar aqueles pensamentos, pois lhe traziam lembranças desagradáveis.

Verificou a temperatura de Fernanda e sua pressão arterial, com muita delicadeza, tentando não despertar a bela adormecida de seu sono reparador. No entanto Fernanda entreabriu os olhos e deparou-se com Valquíria a fitá-la.

- E então, se sente melhor?
- Sim, bem melhor. Aquela sensação de náusea passou. Só tenho sono.
- A sonolência é por causa da medicação.
- Você poderia me alcançar um pouco de água?
- Claro. – respondeu Valquíria servindo um pouco de água num copo.

Valquíria levantou um pouco a cabaceira da cama e, suavemente, ajeitou o travesseiro nas costas de Fernanda para que a mesma ficasse numa posição confortável. Levou o copo com água até os lábios de Fernanda e esta ingeriu alguns goles.

- Que bom que as paredes pararam de se mexer... – brincou Fernanda.
- Pois é.
- Você deve estar pensando que eu tomei todas ontem, não é mesmo?
- De forma alguma, não costumo bisbilhotar a vida dos pacientes. – respondeu Valquíria cordialmente.
- Muito ético.

Valquíria sorriu.

- Mas o pior é que eu não bebi, antes tivesse enchido a cara!

As duas sorriram. Valquíria arrumou sua bandeja de materiais, baixou a cama de Fernanda, ajeitou novamente o travesseiro e preparou-se para sair.

- Você já vai?
- Já. Precisa de mais alguma coisa?
- Companhia. Você me acordou e perdi o sono. E quando perco o sono gosto de jogar canastra. – brincou Fernanda.
- Então vamos combinar assim: depois que eu atender a todos os outros pacientes, e caso tu consigas um baralho, eu volto para uma partidinha. – respondeu Valquíria sorrindo e franzindo o nariz encantadoramente.

Fernanda não pôde deixar de notar o quanto aquela mulher de uniforme branco era bela. Tinha por certo o mais belo sorriso que já vira.

- Você acha que na bodega aqui ao lado eles venderiam um baralho para uma mulher com um avental de bundinha de fora e arrastando um suporte de soro? – perguntou Fernanda fingindo seriedade.
- Acho difícil...
- Então vou tentar dormir e adiamos nosso joguinho para outro dia.
- Combinado. Se precisar de alguma coisa é só chamar, certo?
- Certo.

Valquíria apagou a luz de cabeceira e já estava saindo do quarto quando Fernanda chamou:

- Valquíria.
- Sim?
- Obrigada.
- Obrigada por que?
- Por tudo...
- Esse "tudo" é minha obrigação.
- Não... atender quem não está bem com dedicação e paciência é mais do que obrigação, é uma questão de postura.

Valquíria sorriu com meiguice e fechou a porta atrás de si. Fernanda fechou os olhos e não teve dificuldades em adormecer. Sonhou com uma cavalgada por entre as nuvens, onde uma amazona de Odin lhe acenava do alto de um cavalo branco.

Na manhã de segunda-feira, bem cedo, Fernanda despertou com a claridade que prenunciava os primeiros raios de sol, como fazia habitualmente. Por um momento teve o ímpeto de levantar-se, tomar seu banho e sair para a caminhada que fazia todas as manhãs, antes dos 50 minutos na academia. Porém logo se deu conta de onde estava e aquietou-se, aguardando pacienciosamente na esperança de que Valquíria fizesse a ronda em seu quarto. Não demorou muito para a porta do quarto se abrir.

- Que paciente comportada! Dormiu a noite toda. – disse Valquíria.
- Mas estou quase fazendo xixi na cama. Posso levantar e ir até o banheiro?
- Claro que pode. Vem, eu te ajudo.

Valquíria desconectou o equipo do soro, pois o mesmo estava quase terminando e ajudou Fernanda a levantar-se. Esta última ficou um pouco tonta e segurou-se no braço de Valquíria.

- Fica um pouco sentadinha que já passa essa tontura. – disse Valquíria segurando-a pelos ombros, com firmeza.

Logo Fernanda sentiu-se melhor.

- Tudo bem, agora acho que já consigo andar sem me estatelar no chão.
- Então vamos.

Valquíria percebeu que Fernanda já estava bem e deixou que entrasse sozinha no banheiro cuja porta ficava do lado esquerdo da porta de entrada do quarto. Aquela ala era a dos convênios e todos os quartos daquele andar eram pequenas suítes, simples mas bem equipadas.

- Não precisa fechar a porta. Se te sentires tonta me chama.
- Eu tô legal.

Ao retornar Fernanda disse:

- Não deviam colocar espelhos em banheiros de hospital. A gente fica com uma aparência péssima!
- Não exagera, tu não estás tão mal assim.
- Ótima enfermeira, mas péssima mentirosa. Eu tô sem um pente aqui, nem escova de dente eu tenho! Preciso voltar para o hotel.
- Daqui a pouco a Drª Maristela vem te ver e aí a senhorita dirá isso a ela... – respondeu Valquíria imaginando que Fernanda não teria alta naquele dia.

Mal havia acabado de dizer aquilo e a médica entrou no quarto, para revisar a paciente.

- Bom dia.
- Bom dia – respondeu Fernanda.
- Como está te sentindo?
- Melhor, bem melhor, pronta para voltar para o trabalho.

A médica sorriu e pegou a planilha da paciente para ver como havia passado a noite.

- É, o quadro está estável. Mas eu quero que permaneça ainda dois ou três dias em observação.
- O quê??? DOIS OU TRÊS dias?
- Sim. A informação que obtivemos é que tu moras no hotel, certo?
- É, moro.
- Não há uma pessoa que poderia ficar te cuidando, uma dieta adequada. Com certeza é um quadro de intoxicação alimentar e exige cuidados nessas primeiras horas.
- Mas eu tenho os meus compromissos profissionais.
- Encare como umas férias forçadas. Fique boa logo e logo retornará ao trabalho.

Fernanda percebeu pelo tom de voz da médica que não haveria possibilidade de negociação. Estava fadada a permanecer ali por mais um tempo. Olhou para Valquíria que as observava dos pés da cama e disse:

- Parece que você vai ter que conseguir um baralho, enfermeira.

Ambas sorriram, somente Drª Maristela não entendeu a piada. Despediu-se de Fernanda e saiu do quarto. Valquíria aproximou-se da cama e disse:

- Bom, eu também estou indo.
- Você volta à noite?
- Não, volto hoje à tarde. Meus plantões são os da tarde, essa noite fiz plantão extra. Parece que tu não vai te livrar de mim tão cedo.
- Bom, pelo prognóstico da doutora parece que ainda nos veremos um tempinho nessa situação.
- É, parece. – sorriu Valquíria – Cuide-se.
- Pode deixar.

Valquíria saiu do quarto deixando Fernanda perdida em seus pensamentos: "Bom, tudo tem um lado bom... ficando aqui mais dois dias vejo essa menina novamente...", e sorriu.

Valquíria foi direto para casa, tomou um banho, deitou-se e dormiu profundamente. Não chegou a buscar Nina na casa da vizinha, pois precisava dormir um pouco antes de voltar para o hospital. Nas ocasiões em que fazia plantão extra era Dona Eda quem levava Nina para a escola.

Fernanda passou a manhã bem e na passagem do plantão da tarde Valquíria foi até seu quarto para ver como estava.

- Eu me comportei direitinho. Não tentei fugir, comi uma gororoba horrorosa que me serviram sem reclamar e até já penteei o cabelo!
- Muito bem, a senhorita está de parabéns! – respondeu Valquíria.
- Eu liguei para o hotel e eles mandaram alguns pertences pessoais, e uma muda de roupas para quando eu tiver alta. E olha que eu estou até me acostumando com esse modelito sensual... – disse Fernanda em tom de brincadeira, referindo-se ao avental que todos os pacientes usavam.

Valquíria não pôde deixar de rir, pois realmente era estranho usar aquele traje com abertura nas costas. Mas mesmo assim Fernanda continuava bela. Valquíria não resistiu e fez o que muito raramente costumava fazer, uma pergunta pessoal para os pacientes que atendia:

- Tu moras no Hotel?
- Moro.
- Há quanto tempo?
- Desde que cheguei na cidade, seis meses.
- É estranho morar em hotel, não é?
- Já me acostumei. Meu ritmo de vida é muito corrido, não teria tempo para os cuidados que uma casa requer.
- Mas... e a tua família?
- São Paulo. São todos de lá.

Valquíria se deu conta que estava sendo muito invasiva e desconversou, sentindo-se constrangida. Pegou sua bandeja e dirigiu-se para a porta. Antes que pudesse sair foi Fernanda quem disparou:

- E você? É daqui mesmo?
- Sou.

E antes que Fernanda pudesse formular outra pergunta Valquíria sorriu amavelmente e pediu licença para se retirar:

- Tu já sabes, se precisar é só tocar a campainha.
- Eu sei.

Durante a tarde Valquíria entrou duas vezes no quarto de Fernanda, uma a pedido desta, outra para os procedimentos de praxe. Fernanda percebeu que aquele setor estava bastante movimentado naquela tarde. Soube que faltaram dois funcionários e os que estavam de plantão mal davam conta dos afazeres. Naquele final de tarde Valquíria não chegou a se despedir de Fernanda antes de sair, tamanha a correria. No início da noite Fernanda perguntou por ela e foi informada de que já havia saído. Uma ponta de tristeza invadiu aqueles olhos azuis. "Custava ter dado um tchauzinho?", pensou. Passou bem durante a noite e pela manhã sentia-se muito melhor. Ficou feliz quando Drª Maristela lhe disse que ficaria só mais um dia no hospital e que na manhã seguinte, se o quadro permanecesse como o apresentado até então, iria receber alta. Frente à perspectiva de retomar sua rotina percebeu-se pensando em Valquíria. O fato de provavelmente não voltar a vê-la deixou Fernanda com um sentimento de peso. No entanto, logo em seguida sorriu, pois se deu conta que Santa Cruz do Sul não chega a ser uma metrópole, portanto não seria tão inviável encontra-la casualmente na rua. Ainda mais que sabia dos seus horários de chegada e saída do hospital. "Mas o que é isso, Fernanda, perdeu a noção das coisas?", pensou consigo mesma, "essa garota tem a vida dela, e eu a minha, e ponto final". Ainda perdida nesses devaneios Fernanda escutou uma voz conhecida logo atrás dela:

- Oi, soube que esta paciente esteve tão comportada que provavelmente terá alta amanhã.

Fernanda virou-se e percebeu aquela figura conhecida sorrindo amigavelmente para ela.

- Pois é...
- Fico feliz que esteja bem.
- Acho que vou sentir falta desse paparico, ein?

Valquíria sorriu timidamente, baixando os olhos.

- Vamos verificar essa temperatura e pressão arterial?
- Aposto que estou melhor que você!
- Não duvido. Sua carinha está muito melhor hoje.

Valquíria fez algumas anotações na planilha médica e preparava-se para sair.

- Hoje você passará aqui antes de sair? Gostaria de me despedir, pois amanhã à tarde provavelmente não estarei aqui.

Valquíria fitou Fernanda nos olhos e esta sustentou o olhar. A primeira sorriu afetuosamente e respondeu:

- Passo sim. Ontem não passei porque o dia realmente foi muito estressante, e eu tinha um compromisso importante.
- Está perdoada. – respondeu Fernanda controlando sua vontade de perguntar qual compromisso seria.

Valquíria saiu do quarto e Fernanda perdeu-se novamente em seus pensamentos: "deve ter saído com algum namorado...", "aliança ela não usa...", "mas e eu com isso!". Fernanda ligou para o Hotel e falou com Otávio pedindo-lhe um favor. Não havia passado ainda duas horas e o rapaz chegou até o Hospital portando uma encomenda para Fernanda. Foi até o quarto e esta lhe agradeceu o favor prestado.

- Fico te devendo essa, Otávio.
- Que é isso dona Fernanda, a senhora não me deve nada não. Até amanhã.

No final da tarde, conforme o prometido Valquíria passou no quarto 209 para se despedir de Fernanda. Sentia um misto de felicidade pelo restabelecimento dela e uma ponta de angustia por não mais encontrar aqueles olhos azuis expressivos, sempre dispostos, e aquele bom humor habitual difícil de ser encontrado, principalmente num ambiente como aquele.

- Promessa é dívida! Aqui estou para te dar tchau. Fico feliz que esteja bem.
- Aposto que vai sentir saudade... – disse fitando Valquíria diretamente nos olhos, deixando-a um pouco desconcertada e emendando logo em seguida – afinal não é sempre que deve aparecer uma paciente exemplar e comportada como eu.
- É verdade. Vou sentir falta sim.
- Mas a cidade é pequena, a gente se topa por ai qualquer hora dessas. Olha só, eu queria te dar um presentinho, por favor não repare. – disse Fernanda estendendo um vaso com violetas azuis.
- Não precisava... mas são lindas. Muito obrigada.

Valquíria não pôde deixar de reparar que o azul das flores era da mesma tonalidade que o azul dos olhos de Fernanda. Sorriu feliz.

- Se você quiser, qualquer hora dessas, conhecer a loja que eu gerencio, apareça lá. É o Magazine Libanês.
- Já passei pela frente inúmeras vezes, mas nunca entrei. É uma loja muito sofisticada para o meu poder aquisitivo.
- Mas passa lá pra gente tomar um cafezinho... quando não tiveres nenhum compromisso no final de tarde... – disse Fernanda na esperança de descobrir onde Valquíria estivera ontem.
- Quando der eu passo sim. Se não tiver nenhuma apresentação de flauta doce para assistir... – respondeu saindo do quarto e deixando Fernanda curiosa com a resposta.

Fernanda sorriu e pensou: "hummm... amante da música..." .

Valquíria caminhava pelo longo corredor do Hospital com seu vaso de violetas. "Elas ficarão lindas na janela da cozinha", pensava, "Nina vai gostar".

Conforme o esperado na manhã seguinte Fernanda teve alta e retornou para suas atividades normais já na tarde daquela quinta-feira. As duas semanas que se seguiram foram bastante tumultuadas, exigindo a dedicação exclusiva de Fernanda na loja. Valquíria não havia cumprido ainda a sua promessa de passar na loja para tomar um cafezinho. Não foram raras as vezes em que Fernanda pensava nela. Fazia algum tempo que não direcionava suas idéias para mulher nenhuma. Nos últimos quatro anos não havia tido nada mais do que flertes, casinhos passageiros sem nenhum tipo de compromisso nas entrelinhas, isso ainda em São Paulo. Desde que chegou a Santa Cruz do Sul nem isso. A inauguração e o gerenciamento daquela nova filial estavam consumindo todo seu tempo disponível. No entanto, desde que conheceu Valquíria, esse seu lado passional começou a aflorar novamente. As vezes sentia vontade de revê-la. No dia em que precisou comparecer ao Hospital para consultar com a Drª Maristela, para uma revisão, marcou propositalmente para o turno da tarde. Para sua decepção porém, ao passar no setor de Valquíria, informaram que ela estava de folga.

Quando Valquíria assumiu seu plantão na tarde daquela quinta-feira e entrou no quarto 209 não era o belo par de olhos azuis, com os quais já havia se acostumado, embora há tão pouco tempo, que lhe sorriu. A nova paciente era uma senhora de mais de oitenta anos a qual Valquíria recepcionou com a simpatia e a meiguice que lhe eram habituais. Nos dias que se seguiram também se surpreendeu em vários momentos com o pensamento direcionado para aquela figura morena e imponente com a qual havia convivido profissionalmente por tão pouco tempo, mas que lhe despertava desejos que não ousava admitir para si mesma. Nessas ocasiões lhe afloravam recordações amargas de tempos passados...