Por acaso a felicidade

Rose Angel

Contato: roseangelys@yahoo.com.br

março/2005

 

 

 

O domingo, dia 24 de outubro, amanheceu ensolarado. Como de costume Fernanda acordou cedo e saiu para caminhar. Andou por mais de duas horas, retornou ao hotel, tomou um banho e logo depois o seu café da manhã. Havia dito a si mesma que naquele dia não pensaria em trabalho. Precisava descansar. Por volta de dez horas da manhã resolveu sair novamente, desta vez para passear. A cidade estava em plena Oktoberfest e Fernanda resolveu borboletear pela praça central.

Logo em frente à Catedral de estilo gótico, com suas duas torres como que perfurando o firmamento e direcionadas ao infinito, descortinava-se a paisagem da praça central, com seu lago e chafariz ao centro e toda arborizada ao redor. No final uma pracinha com brinquedos para a criançada, ao lado dos sanitários. Vários bancos de madeira e de pedra circundavam a praça e encontravam-se posicionados estrategicamente sob a sombra das árvores, a fim de proporcionar aos freqüentadores do local uma opção de descanso enquanto observavam a alegre movimentação do local e da rua principal. A praça estava bastante movimentada, muitos ônibus repletos de turistas aportaram na cidade para desfrutar dos festejos da festa do chopp. Fernanda caminhava vagarosamente ao lado do chafariz quando avistou uma figura conhecida sentada na sombra de uma árvore e lendo um livro distraidamente. Reconheceria aquele perfil onde quer que fosse e sentiu seu coração disparar um pouco. Valquíria estava absorta em sua leitura e nem percebeu a aproximação de Fernanda. Somente quando esta última parou à sua frente e lhe cumprimentou é que levantou os olhos.

- Bom dia meu anjo da guarda.

Valquíria abriu um de seus sorrisos mais cativantes e respondeu:

- Ótimo dia agora! É bom revê-la, e tão bem disposta.
- Posso sentar?
- Claro! – respondeu Valquíria chegando mais para o canto do banco. – Passeando um pouco?
- É. Fiz um propósito de tirar o dia de folga. Folga mesmo! Sem nem sequer lembrar que a loja existe. Aliás, fiquei esperando a sua visita para um cafezinho.
- Pois é... não deu ainda. Também ando numa correria neste fim de ano.
- Família?... – bisbilhotou Fernanda.
- É...

Neste momento uma vozinha gritou ao longe, e fez com que Valquíria se virasse para responder:

- POSSO TIRAR O TÊNIS?...
- NÃO...

Fernanda virou-se também e avistou uma figurinha aparentando 4 ou 5 anos de idade, cabelos castanho claros com alguns reflexos dourados, cacheados, que lhe caíam sobre os ombros quase até a cintura, pele clara e olhar maroto. Insatisfeita com a resposta a menina correu até elas e argumentou:

- Mas eu tô com calor no pé!
- Mas, descalça tu podes machucar os pés. Tem muita pedra em volta, e os cachorros fazem as necessidades no chão. Tu bem sabes...

Nesse momento a menina olhou para Fernanda e sorriu de orelha a orelha:

- Ooooi!!!
- Olá! – respondeu Fernanda observando o quanto era belo o sorriso e o olhar daquela menina. Tinha olhos castanhos, e seus cílios eram escuros, longos e curvos, emoldurando aquelas pequenas janelinhas de ver o mundo. Algumas sardas pontilhavam seu nariz pequeno e arrebitado.

Valquíria tratou de fazer as apresentações:

- Fernanda, esta é a Nina. Nina, Fernanda, uma... amiga minha.
- Muito prazer, Fernanda, como tu é bonita!

Fernanda não pôde deixar de sorrir da espontaneidade de Nina:

- Bondade tua. Você é que é linda. – respondeu colocando o dedo na ponta do nariz suado da criança.
- Já que eu não posso tirar o tênis vou voltar para o balanço. – disse Nina já se preparando para sair correndo.
- Peraí mocinha... vem cá prender esse cabelo.

Nina ficou de costas para Valquíria que puxou o cabelo da menina num rabo-de-cavalo, prendendo-o com um elástico colorido que tinha ao redor do pulso.

- Pronto, pode ir.

Nina disparou igual um raio, subindo no balanço com a rapidez e a agilidade que somente os primeiros anos da infância nos conferem. Fez-se um pequeno silêncio, quebrado por Fernanda:

- É sua filha?
- É... não... quero dizer, é sim.
- Como assim? – quis saber Fernanda.
- Hoje eu sou a mãe dela. Desde que a mãe biológica dela morreu eu fiquei com ela.
- E faz tempo?
- Quase dois anos.
- Deve ter sido uma barra pesada para ela...
- Se foi! Mas ela é uma criança bem resolvida, e feliz.
- E... e o pai dela?... quero dizer... o seu... marido?

Valquíria sorriu divertindo-se com o gaguejar de Fernanda.

- Eu não sou casada.
- Mas deve ter namorado...
- Não tenho não, somos só Nina e eu mesmo. E a Pipoca.
- Pipoca?
- É. Nossa cachorrinha, o xodó da Nina.
- Ai, desculpe pelo interrogatório, não quis ser invasiva, foi só curiosidade, desculpe.
- Tudo bem. Mas e tu?
- Bom, eu estou morando no hotel, como você já sabe, e é o melhor para mim, pelo menos por enquanto. E vivo só. Eu e Deus.
- E como vai a tua saúde? Te recuperaste bem mesmo?
- Sim. Voltei para uma revisão e fui dada como nova em folha pela Drª Maristela!
- Eu fiquei sabendo.
- Como? – questionou Fernanda.

Desta vez foi Valquíria quem gaguejou:

- É... é que... que me disseram que havias me procurado.
- Verdade. Passei no teu setor para te dar um oizinho.
- Eu estava de folga.
- E hoje, também está?
- Estou. Mas não se consegue ficar em casa num domingo ensolarado com uma criança pequena... – respondeu sorrindo.
- Olha só... vocês não gostariam de almoçar comigo?
- Não quero incomodar...
- Mas não é incômodo algum, muito pelo contrário, me daria uma grande satisfação.

Valquíria baixou os olhos e sorriu timidamente.

- Tudo bem. Acho que a Nina vai adorar, ela está sempre pronta para um programa diferente na sua rotina. Até aula de flauta ela faz!
- O conserto de flauta doce... – disse Fernanda pensativa, mais para si mesma do que para sua interlocutora.
- Como?...
- Nada, nada não. E onde as senhoritas gostariam de almoçar?
- Qualquer lugar, tu escolhe.
- Dia desses eu almocei naquele restaurante lá no Parque da Gruta dos Índios, conhece?
- Conheço. É bom mesmo.

Nesse momento Nina chega até elas novamente, correndo esbaforida com uma bola de futebol na mão, a qual havia deixado até então ao lado dos balanços.

- Devagar, menina, não precisa levantar poeira.

Nina gargalhou e sentou-se, enfiando-se entre elas, colocando a bola no colo.

- Você gostaria de almoçar comigo hoje? – perguntou Fernanda para a pequena.

Os olhinhos de Nina brilharam, porém antes de responder olhou para Valquíria como que pedindo uma autorização para aceitar o convite. Valquíria assentiu sorrindo e Nina respondeu:

- Adoraria!!!
- Então acho que mereço um beijinho e um abraço, não mereço? – disse Fernanda.
- Fernanda, essa menina está toda suada, olha só a sujeira da roupa...

Antes porém que Valquíria terminasse a frase Nina havia se jogado nos braços de Fernanda, envolvendo-a pelo pescoço e sapecando-lhe um beijo estalado na face. Fernanda colocou a pequena em seu colo e perguntou:

- E essa bola aí? É só enfeite ou você sabe jogar alguma coisa.
- Eu jogo futebol na escola. Sou centroavante! Mas final de semana não tenho com quem treinar... – respondeu fazendo uma careta de deboche e reprovação para Valquíria.
- Nossa, que problemão!!! Mas isso a gente resolve fácil. – respondeu Fernanda colocando Nina no chão e pegando a bola que estava no banco – hoje eu treino contigo, campeã.

As duas saíram correndo atrás da bola chutada por Fernanda, ante o olhar perplexo de Valquíria. Passado o choque inicial Valquíria não conseguiu deixar de se divertir com a cena. Fernanda era uma mulher muito alta e Nina um toquinho de gente. Apesar de já contar cinco anos de idade era magra e miudinha. As duas trocavam passes e quando tentavam driblar e tirar a bola uma da outra Fernanda precisava cuidar para não atropelar Nina, ou pisar nela. Era engraçado ver aquela cena, pensava Valquíria, afinal Fernanda era uma mulher de fino trato, uma gerente de loja. E naquele momento parecia que as duas tinham a mesma idade. Reparou que Fernanda vestia um abrigo em tom azulado com listas laterais coloridas, justo, que deixava transparecer os contornos de suas pernas longas e bem malhadas. Usava uma camiseta branca, também justa e tinha os cabelos presos num coque. Naquela altura, porém, o coque já havia se desfeito e os cabelos pendiam soltos na testa agora molhada de suor. Nina também estava com os cabelos desgrenhados e suados. Valquíria havia fechado o livro que estava lendo e o colocou em sua sacola, uma vez que havia perdido totalmente o interesse pela leitura, pelo menos naquela manhã. Quando Fernanda e Nina resolveram voltar para junto dela sentaram-se lado a lado, encharcadas de suor e ofegantes devido ao esforço físico.

- Preciso beber alguma coisa... – disse Fernanda com a respiração entrecortada.
- Eu também. – disse Nina.

Valquíria sorriu e disse:

- Descansem um pouco madames, eu vou buscar uma água mineral para as duas. – e levantou-se caminhando em direção ao bar do quiosque central.
- Sem gás! – gritou Fernanda.

Em menos de cinco minutos Valquíria retornou com duas garrafas de água e quatro canudinhos.

- Essa perna de pau tem muito o que aprender comigo – provocou Fernanda em tom de brincadeira.
- É, mas eu corro muito mais! – respondeu Nina sorridente – E canso menos!
- Tá bom... mas no drible eu sou melhor.
- Mas eu aprendo rápido.
- É garota, com esse pique teremos uma futura jogadora da seleção feminina de futebol das olimpíadas de 2012. – disse Fernanda.

Nina sorriu contente e assentiu com a cabeça. Elas pegaram a água e sorveram avidamente.

- Se pretendemos realmente almoçar juntas quem sabe eu levo essa moleca para casa, ela precisa de um banho... – disse Valquíria.
- Eu não sou a única... – respondeu Nina debochadamente.
- É verdade! – assentiu Fernanda – Vamos fazer o seguinte: eu vou para o hotel, me arrumo e pego vocês em casa ao meio dia, pode ser?
- Pode!!! – respondeu Nina.
- Nina, eu acho que a pergunta foi pra mim... – disse Valquíria em tom de reprovação.
- Desculpa então.
- Tudo bem, senhorita afoita. Pode ser sim, Fernanda.
- Aonde é que vocês moram?
- É aqui pertinho, umas seis quadras. Indo aqui pela rua principal, depois do quiosque, é a quarta rua à esquerda. Aquela da sorveteria na esquina.
- Sei. – respondeu Fernanda.
- É no número 921. Quer anotar?
- Não precisa. Minha memória é muito boa. Bem melhor que a minha capacidade de correr... – disse Fernanda cutucando Nina no braço.

A menina deu uma gargalhada e abraçou Fernanda, enlaçando-a pelo pescoço e pendurando-se nela igual um sagüi.

- Nina... – disse Valquíria – tu tá toda suada... não incomoda a Fernanda.
- Deixa ela – respondeu Fernanda retribuindo o abraço apertado – eu estou mais suada do que ela...

Valquíria sorriu e pegou a menina pela mão. Despediu-se de Fernanda:

- Então, até daqui a pouco.
- Até. – respondeu Fernanda.
- Tchau Fernanda! Eu vou ficar te esperando, tá? – disse Nina efusivamente colocando sua bola em baixo do braço. – Não demora!
- Tá. – sorriu Fernanda – Eu não demoro não, campeã.

Fernanda ainda observou Valquíria e Nina caminhando de mãos dadas rua abaixo. Nina ia saltitante e quase na esquina ela se virou, soltou a mão de Valquíria e acenou para ela, que retribuiu o aceno. Fernanda levantou-se e caminhou até o Hotel Edelweiss. Estava feliz por haver reencontrado Valquíria. Também havia simpatizado muito com Nina. Talvez pelo fato da personalidade da menina lembrar a dela própria naquela idade. Tratou de tomar um banho, colocar uma bermuda e uma camiseta, calçar um par de tênis e pegar o carro na garagem do hotel. Pontualmente as doze horas buzinou em frente ao número 921 e viu uma figura diminuta, branca e quadrúpede disparar em sua direção vinda de dentro da casa. Era pipoca que latia dando sinal de que havia gente chegando em casa.

Fernanda observou que se tratava de uma construção antiga, uma casa germinada cuja parede da frente se localizava exatamente na divisa entre o terreno e a rua, sem nenhum espaço de pátio frontal. Havia somente duas janelas estreitas com venezianas de madeira que davam para a rua. Ao lado um corredor também estreito levava a uma porta de acesso lateral, que vinha a ser a entrada principal da casa. Por esse corredor era possível ver que nos fundos do terreno havia um pequeno pátio com algumas árvores, e muitas folhagens pendiam naquela restrita viela que levava aos fundos da casa.

Com os latidos de Pipoca anunciando sua chegada Fernanda viu o rostinho de Nina espiando na janela da frente e acenando para ela:

- A gente já tá indo!

Fernanda acenou de dentro do carro num sinal de que havia entendido e que aguardaria por elas. Em menos de dois minutos a porta lateral se abriu e Nina assoviou para Pipoca, que já havia acabado de latir e àquela altura do campeonato sacudia o rabo efusivamente na direção do carro como que para dar as boas vindas à Fernanda. A cachorrinha correu na direção de Nina que a colocou para dentro de casa fechando a porta. Após correu na direção do portão. Vestia um macacão curto, estilo jardineira, de jeans alaranjado e um top branco com detalhes em laranja nas mangas por baixo. Calçava um par de tênis brancos, e uma meia soquete cor de laranja. O cabelo fora lavado e estava solto sobre os ombros, ainda molhado. Uma travessa branca com florzinhas amarelas segurava-lhe o cabelo para que não caísse em seus olhos. Estava de fato uma gracinha. Fernanda saiu do carro, um gol com o logotipo da firma que gerenciava discretamente estampado na lateral do veículo, e abriu os braços para Nina que pulou em seu colo beijando-lhe as faces.

- A Val já vem. Ela demora pra se arrumar... nunca vi tão enrolada! Parece uma dondóca.

Fernanda não pode deixar de rir.

- Mas em compensação a senhorita é rapidinha.
- Alguém tem que ser rápida nessa casa, né?
- Tá certo! Mas a "dona rapidinha" está muito bonita, huuummm e perfumada.
- Eu tomei banho!
- Eu também.
- Quando é que a gente vai jogar futebol de novo?
- Pode ser hoje mesmo, vai pegar a bola pra gente levar junto.

Nina deu uma gargalhada de satisfação e saltou do colo de Fernanda. Valquíria já vinha saindo e Nina entrou em casa quase que a atropelando.

- O que é isso, menina?
- Vou pegar a minha bola!
- Deixa essa bola em casa.
- Mas foi a Fernanda que disse pra eu pegar – respondeu já dentro de seu quarto.

Novamente passou por Valquíria como um foguete, com a bola embaixo do braço e enfiou-se para dentro do carro de Fernanda. Valquíria fechou a porta da casa e caminhou até o portão.

- Pontualidade britânica – disse Valquíria.
- Uma das minhas qualidades. – respondeu Fernanda sorrindo.
- Parece que uma certa caroneira já se instalou. – disse Valquíria olhando para Nina que a encarava sorridente.
- Pois é... – respondeu Fernanda. – Mas vamos lá então.

O Parque da Gruta dos Índios não ficava muito longe e elas foram direto para o restaurante. O local estava bem movimentado devido aos turistas, e tiveram alguma dificuldade para estacionar. Por fim conseguiram uma vaguinha à sombra, quando um carro manobrou para sair do parque. Optaram por pedir um filé da casa, cuja porção alimentava com fartura três adultos. De sobremesa Nina quis sorvete de morango. Após o almoço caminharam pelo parque, cuja vegetação fornecia uma sombra acolhedora que abrandava o ardor do sol daquele dia de primavera.

- Você quer andar no teleférico, Nina? – perguntou Fernanda.
- Eu quero!
- Bom, eu espero vocês aqui. – disse Valquíria instalando-se num banco de madeira à sombra densa de uma copa de árvore, bem defronte ao lago onde patos e gansos nadavam languidamente e algumas capivaras aproveitavam para tomar um banho de sol dentro dos limites do lago.
- A gente volta daqui a pouco, então. Tchauzinho... – acenou Nina pegando Fernanda pela mão.

A dupla entrou na fila do teleférico e subiu até quase a entrada das cavernas. Nina quis entrar nas grutas de pedras e mostrava à Fernanda os lugares que já conhecia de outras visitas com a turma da escola. Depois de quase quarenta minutos desceram novamente e encontraram Valquíria que observava a natureza à sua volta.

- E então, desbravadoras! Encontraram algum homem das cavernas? – brincou Valquíria.
- Nãããooo... e nem a macaca Chita... – respondeu Nina debochada.
- Graças a Deus! Senão era mais um bichinho de estimação que faria companhia à Pipoca! – disse Valquíria.
- Demoramos muito? – questionou Fernanda.
- Não, eu me distraí observando o movimento e nem vi o tempo passar.

Perto de onde elas estavam havia uma pracinha com alguns brinquedos bem rústicos, construídos com paus de eucalipto e cordas. Nina pediu para brincar:

- Posso ir nos brinquedos?
- Pode. Mas te cuida. – respondeu Valquíria.

Nina disparou e subiu no escorregador pela escada de cordas. Fernanda sentou ao lado de Valquíria.

- Essa garota é sempre serelepe assim? – perguntou Fernanda.
- Não. Só quando está acordada.

Ambas riram.

- Na verdade ela é um encanto. Apesar de ser muito ativa ela é bastante obediente. Não tenho problemas com ela não.
- Ela não tem mais ninguém?
- Não. A mãe dela foi criada no mesmo orfanato que eu, aqui em Santa Cruz. Nos reencontramos há três anos, quando eu voltei para a cidade e fui trabalhar no Hospital. A mãe dela trabalhava na limpeza e Nina tinha dois anos nessa ocasião. O pai dela, segundo a mãe me contou, foi embora antes dela nascer e nunca mais apareceu. Ela tem uma tia paterna que também trabalha no setor de limpeza do hospital, mas nunca sequer pergunta como ela está, acho que é porque ela e a mãe de Nina não se davam. Nina é registrada só no nome da mãe. E essa tia é como se não existisse. Na verdade Nina nem a conhece.
- Mas com certeza você consegue suprir a falta que Nina deve sentir da mãe. Ela aparenta ser uma criança de bem com a vida.
- E é. Quando a mãe dela morreu eu nem pensava em ter filhos... foi bem complicado...
- Imagino.
- Mas aí eu me coloquei no lugar dela... é muito triste crescer sem uma figura materna de referência, e eu falo por experiência própria.
- Imagino... A mãe dela morreu de repente?
- Sim. Atropelamento. Eu estava de plantão naquele dia. Quando ela deu entrada ainda estava viva e me pediu para cuidar de Nina caso algo lhe acontecesse. E foi a última coisa que disse.
- Eu imagino a tua situação.
- Não imagina, não. Acho que ninguém consegue imaginar. Eu é que fui busca-la na creche e conversei com ela sobre a morte da mãe. Nunca vou esquecer o olhar daquela criança me perguntando se a mãe voltaria para vê-la um dia, e onde ela iria morar. A fragilidade daquele olhar me fez leva-la para casa. E hoje sou eu que não vivo mais sem ela.

Fernanda olhava para Valquíria com afeto e admiração.

- Valquíria, você realmente é uma pessoa especial.
- Que é isso? Qualquer pessoa na minha situação faria o mesmo.
- Não sei...
- E além do mais agora eu tenho uma família.
- Você não conheceu seus pais?
- Lembro vagamente da minha mãe. Meu pai teve um caso extraconjugal com minha mãe e mudou-se para Fortaleza quando eu tinha dois anos. Nunca mais soube dele. Ficamos minha mãe, eu e minha irmã mais velha, com cinco anos na época. Dois anos depois minha mãe morreu e fomos para o orfanato aqui mesmo em Santa Cruz. Minha irmã que era bonita e mais saudável foi adotada. Eu era uma coisica horrorosa, de pernas finas e aparência entisicada. Acabei ficando no orfanato e quando minha aparência melhorou eu já havia passado da idade de adoção.

Fernanda ficou calada. Não sabia o que dizer naquela situação. Resolveu que o melhor seria só ouvir.

- Aí eu cresci, estudei, fui para a capital... – Valquíria fez uma pausa como que tendo uma recordação ruim – e voltei para Santa Cruz de novo.
- Porque você voltou?
- Não sei bem... um pouco de cada coisa... necessidade de voltar às minhas raízes, desilusão amorosa, saída do emprego, lance de grana... de tudo um pouco. Aí estava me organizando por aqui quando adotei a Nina. Precisei trancar a faculdade e estamos aqui... batalhando.
- Qual faculdade?
- Odonto. Parei faltando dois semestres.
- E porque você não termina?
- Tem o lance da grana e o do tempo. Tenho feito muito plantão extra no hospital.
- E quem fica com a Nina?
- A dona Eda, minha vizinha e dona da casa que eu alugo. Ela e o Seu Arno são um casal de idosos, sem filhos, e adotaram a Nina como neta. Eles me ajudam bastante. Aliás eu nem sei o que faria se não fossem eles. Mas a Nina tem o seu mérito, ela é uma criança cativante.
- É mesmo! – concordou Fernanda.
- Mas desculpe se eu estou falando tanto de mim...
- Tudo bem... eu que perguntei.
- Mas, e tu Fernanda? Não sente falta da tua família.
- Sim e não. Sim, às vezes sinto bastante... mas sempre fui muito independente. Saí de casa com dezenove anos e desde então eu sou dona do meu nariz. Nunca gostei desse negócio de compromisso. Já vivi com duas pessoas, e acabei voltando para a minha maravilhosa vida de solteira. – sorriu – Minha família toda mora em São Paulo, capital, menos o meu avô que mora numa fazenda em Sete Barras. E hoje o destino me trouxe até aqui! E eu estou adorando.
- A cidade?
- E a companhia. – respondeu Fernanda encarando Valquíria que baixou os olhos e sorriu timidamente.
- Obrigada pela parte que me toca.
- De nada. Mas você fez por merecer, afinal cuidou tão bem de mim.
- Eu já disse que não fiz mais que a minha obrigação.
- E eu já disse que fez. Foi sensível, pacienciosa e amável. Mas não cumpriu uma promessa.
- Que promessa? – quis saber Valquíria, curiosa.
- Você me deve uma partida de canastra. Tá com medo de uma derrota vergonhosa?
- De forma alguma. Aliás, preciso mesmo de uma parceira para os jogos de canastra com a dona Eda e o Seu Arno.
- Aahhh... me quer como aliada e não como adversária?...
- E eu sou boba? Com essa tua lábia é capaz de me fazer perder as calças.

Ambas tiveram que sorrir.

- E quando vai ser esse confronto? E valendo o quê? – quis saber Fernanda.
- Costumamos jogar um carteadinho nas sextas-feiras, quando eu não estou de plantão. Vale desde balas de goma até bolachinhas recheadas. Mas é Nina quem acaba comendo todo o lucro da noite, qualquer que seja o vencedor.

Fernanda riu muito:
- Muito promissor esse joguinho, ein? Sou capaz até de ficar viciada.
- É um risco...
- Mas eu topo ser a tua parceira nessa jogatina só se você passar na loja durante a semana para saldar a tua outra dívida.
- O cafezinho...
- Pois é. E então?
- Tudo bem. Eu passo sim, antes de sexta-feira.
- Combinado então.

Nesse momento Nina veio correndo até elas, o cabelo esvoaçante e a testa suada.

- Tô com sede!
- Vai até aquela barraquinha e compra água mineral pra gente – disse Valquíria estendendo uma nota de dez reais para a menina.
- Quer que eu te ajude? – perguntou Fernanda.
- Não precisa, não. Pode ficar aí que eu trago a água pra gente. – e saiu correndo de novo.
- Devagar! – gritou Valquíria.

Nina se virou e perguntou bem alto:

- Copinho ou canudo?
- Pra mim copo! – Respondeu Valquíria.
- Dois! – emendou Fernanda.

Nina se dirigiu saltitante até a barraquinha de bebidas.

- Eu fico impressionada com a desenvoltura dessa garota. – disse Fernanda.
- Tu não viu nada ainda.
- Ela é muito decidida, parece ter mais maturidade do que a idade cronológica.
- Dizem que a dor ensina a gemer... Nina precisou aprender a se virar sozinha desde pequena, eu passo muito tempo no hospital. A mãe dela também trabalhava muito.
- Mas isso com certeza é da personalidade dela.
- É, pode ser.

Nina voltou até elas com uma sacolinha plástica contendo três garrafas de água mineral, dois copos de plástico e dois canudinhos. Tratou de distribuir as garrafas e os copos. Ficou com os canudos.

- Íííí... eu esqueci de perguntar se vocês queriam a água com gás, e trouxe todas sem.
- Tudo bem, tá ótimo assim. – respondeu Fernanda – você não quis pegar refrigerante?
- A gente tem um combinado... – disse Nina direcionando o olhar para Valquíria - ...que eu só tomo refri nos domingos, ou em festas, que é pra não cariar os dentes, e nem ter celulite.

Fernanda não conseguiu evitar uma gargalhada frente à preocupação de uma criança de cinco anos de idade com celulite.

- Mas hoje é domingo! – disse Fernanda.
- Pois é... – respondeu Nina - ...só que ontem eu tomei, e era sábado. Tô compensando hoje. Combinado é combinado!
- Gente... essa menina não existe! – riu Fernanda abraçando e dando um beijo na testa de Nina.
- Vamos jogar bola??? – perguntou Nina animadamente.
- Nina... a Fernanda quer descansar. – retrucou Valquíria.
- Descanso de noite. Vamos bater uma bolinha sim, quinze minutos, ok?
- Ok!
- Mãe, joga com a gente?
- Só quinze minutinhos? – questionou Valquíria.
- Só...
- Tá bom então. – respondeu Valquíria que na verdade se derretia toda quando Nina a chamava de mãe.

Era engraçado, às vezes Nina a chamava pelo apelido, Val. Outras vezes de mãe. Valquíria nunca havia dito à Nina como ela deveria lhe chamar, um belo dia, porém foi a própria menina que perguntou se poderia chamá-la de mãe. Foi um processo natural, sem cobranças nem imposições. Certamente era por isso que a relação das duas era tão autêntica.

Os quinze minutos de jogo se estenderam por mais de uma hora. Em determinado momento Valquíria se jogou no gramado e exclamou:

- Falta!
- Não faz cena, ninguém encostou em ti... – respondeu Fernanda ofegante.
- Falta... de condições de continuar de pé!!!

Fernanda também se jogou no chão ao lado de Valquíria, rindo e sentindo suas pernas pesadas de tanto correr, isso que era habituada a fazer exercícios físicos. Nina saltou sobre elas e abraçou o pescoço de Valquíria, gritando:

- Ganhei, ganhei!!!

Fernanda puxou Nina para seu lado e fez cócegas em sua barriga fazendo a garota gargalhar e se retorcer no chão.

- Eu te dou "ganhei"... – disse Fernanda enquanto fazia cócegas em Nina.

Finalmente as três se esticaram lado a lado no chão, no meio do gramado verde bandeira, sentindo os batimentos cardíacos pouco a pouco voltarem ao normal. Recuperadas ainda caminharam pelas trilhas, encheram a barriga com sorvetes, doces e cachorro-quente, andaram de pedalinho no lago, brincaram de esconde-esconde nas grutas e observaram os animaizinhos do parque. A tarde passou sem que elas percebessem o correr das horas. Quando o sol se pôs no horizonte perceberam que já estava ficando tarde. O horário de verão atrasava em uma hora o poente, aumentando o dia e diminuindo a noite, porém a lembrança da segunda-feira fez com que Valquíria sugerisse retornarem para casa. Já anoitecia quando Fernanda estacionou o carro em frente a casa de Valquíria e Nina. Desembarcaram, e a menina deu um abraço apertado e um beijo em Fernanda e disse:

- Obrigada pelo passeio, eu adorei. Agora vou soltar a Pipoca, senão ela faz xixi dentro de casa e sou eu quem tenho que limpar!
- Nada mais justo, a cadela é tua. – respondeu Valquíria.

Nina deu mais um beijinho em Fernanda e entrou correndo em casa. Antes de entrar Valquíria sorriu para Fernanda:

- Obrigada pela companhia, foi uma tarde maravilhosa.
- Eu digo o mesmo. Vou te esperar para um cafezinho na loja, ein? Antes de sexta-feira.
- Tá. Eu passo lá sim. Talvez na quarta ou na quinta-feira.
- Vou esperar. – respondeu Fernanda entrando no carro e girando a chave na ignição.

Valquíria esperou no portão até que o carro dobrasse a esquina. Pelo retrovisor Fernanda pode ver a silhueta pequena a observa-la partir. Sorriu consigo mesma pensando em quanto fora divertido seu domingo. Ao chegar no Hotel Edelweiss foi direto para o banho. Enquanto deixava a água morna escorrer-lhe pelas costas pensava: "Tipo interessante essa Valquíria, aliás, muito interessante. Mas não posso investir numa relação dessas... como poderia me prender com uma pessoa que já tem uma filha?... E que por certo nem cogitaria olhar para mim com esses olhos... Não, isso não é pra mim... não nasci pra viver em família... mas a Nina é um encanto. Encanto mesmo é a mãe dela. Que olhos lindos, verdes e expressivos... Que é isso, Fernanda? Tá ficando doida?... E os teus princípios de liberdade acima de tudo... Bom, mas nada me impede de ter uma grande amiga, não é mesmo? Claro que não... Vai ser bom... é, acho que vai...". Fernanda mal se deitou e ferrou no sono, tamanho era o seu cansaço. Dormiu como um anjo.

Valquíria e Nina também se recolheram logo após o banho. Nina estava tão cansada e havia comido tanto que nem quis jantar antes de se deitar. Enquanto colocava seu pijama disse para Valquíria:

- Mãe, aonde tu conheceu a Fernanda?
- No hospital. Ela esteve baixada por uns dias.
- Ahãã... sabe, eu adorei ela. Eu posso convidar ela para a minha próxima apresentação de flauta?
- Claro que pode. – respondeu Valquíria – Eu só não sei se ela poderá ir... é que ela é muito ocupada, tem muito trabalho...
- Mas as apresentações são de noitezinha, hora em que as pessoas voltam para casa...
- Eu sei, meu amor... faz assim: convida, e deixa que ela vai se puder, certo?
- Certo.

Valquíria fez uma trança no cabelo de Nina, para evitar nós nas pontas e choradeira para pentear as madeixas no outro dia pela manhã. Havia escovado cuidadosamente o cabelo antes de trança-lo.

- Mãnhe...
- O que?
- Eu queria muito que ela fosse na minha apresentação. É que os meus colegas levam um monte de gente e eu só tenho a Dona Eda, o Seu Arno e tu.
- O que importa não é a quantidade de gente, Nina e sim o quanto as pessoas que vão te ver gostam de ti.
- Tu acha que eu toco mal?

Valquíria sorriu e abraçou Nina:

- Não, minha querida. Tu tocas maravilhosamente bem.

Nina retribuiu o abraço e continuou:

- Depois tem a minha formatura do pré... eu vou convidar a Fernanda também.
- Mas isso é só daqui ha dois meses... depois a gente pensa nisso, tá?
- Mas se eu convidar logo ela não marca nenhuma outra coisa para aquele dia.
- Meu amor... a gente nem sabe o dia certo...
- Pode deixar que eu me informo amanhã!
- Tá bom. Vamos dormir então?
- Vamos.

Valquíria arrumou a bicama do único quarto da casa e ajeitou Nina entre as cobertas na cama de baixo. Deu-lhe um beijo de boa noite e apagou a luz. Somente com a luz da cabeceira acesa tentou ler um pouco, mas sentiu que seria vencida pelo sono. Antes de adormecer pensou em Fernanda, no quanto simpatizava com ela, até demais... tratou de afastar sentimentos perturbadores de seu pensamento. Não queria correr o risco de se magoar novamente. Apagou a luz e adormeceu profundamente, num sono sem sonhos.

Os dois dias que se seguiram Fernanda passou praticamente dentro da loja. A proximidade do final de ano fazia com que tivesse que aumentar os pedidos, pensar em decoração nova, gerenciar os gastos com os encargos sociais dos funcionários, tipo 13º salário e férias, organizar os festejos de final de ano dos funcionários, enfim, uma agitação só. Por vezes pensava na tarde do domingo anterior e sorria consigo mesma, lembrando do quanto tinha se divertido. Na quarta-feira Fernanda percebeu-se várias vezes olhando na direção da porta da loja. Deu-se conta que estava na expectativa da visita de Valquíria. A tarde passou, no entanto, sem nem sinal dos olhos verdes de seu anjo da guarda. Quando já era hora de fechar a loja Fernanda ainda foi até a rua e espiou para ambos os lados na esperança de divisar uma silhueta conhecida. Porém não avistou ninguém e retornou para o hotel.

No dia seguinte, quinta-feira, o movimento na loja foi intenso. Fernanda estava satisfeita com as vendas.

Logo após as 19 horas Valquíria caminhou na direção do Magazine Libanês. Havia saído do plantão e resolvera saldar a sua dívida. No dia anterior estava muito cansada e não teve ânimo de passar na loja. Havia trocado de blusa, vestia uma de crepe amarelo queimado, porém sua calça e sapatos brancos não deixavam dúvidas acerca de sua área de atuação. Parou em frente a loja e observou a ampla vitrine que denotava a elegância e a sofisticação daquela casa comercial. Pensou em quanto deveria ser complicado gerenciar aquele empreendimento. Empurrou a porta envidraçada e foi envolvida pelo frescor do ar condicionado e pelo agradável perfume de madeira dos móveis em exposição. Olhou ao redor encantada com a beleza destes. Instintivamente procurou por Fernanda, mas não conseguiu encontra-la até onde seu campo de visão alcançava. Logo em seguida uma funcionária vestindo um uniforme verde oliva impecável aproximou-se:

- Boa tarde, posso ajuda-la?
- Obrigada. Eu gostaria de falar com a Fernanda, ela trabalha aqui, não é mesmo?

A funcionária esboçou um sorriso discreto, como que não compreendendo bem a pergunta, e respondeu:

- Sim... Dona Fernanda encontra-se no escritório. A quem devo anunciar?
- Valquíria.
- Um momento, por favor. – respondeu a mulher dirigindo-se para os fundos da loja.

Valquíria aproveitou para observar um pouco mais os produtos em exposição. Eram móveis em estilo colonial e utilidades para o lar, tudo o que se podia imaginar, distribuídos em dois salões amplos, interligados por um pórtico arredondado. Em menos de dois minutos Fernanda veio recepciona-la sorridente:

- Ora, ora... se não é a pagadora de promessas!

Valquíria sorriu e respondeu:

- Antes tarde que nunca!
- De fato. Mas vamos até o escritório. – disse Fernanda conduzindo Valquíria pelo ombro.

Entraram num ambiente bastante acolhedor, uma sala grande e clara, com janelas amplas que deixavam entrar a claridade natural, embora o sol já estivesse escondendo-se por trás das copas das árvores. No entanto a claridade da rua ainda se fazia presente, auxiliando a luminosidade branca e artificial das lâmpadas fluorescentes. Fernanda apontou uma cadeira estilo Luís XV, muito confortável e dirigiu-se à mulher que as havia seguido:

- Por favor, Lourdes, dois cafés.
- Sim senhora, dona Fernanda.

Valquíria observou nos trajes e na pose de Fernanda. Nem parecia a mesma pessoa do domingo anterior, que havia passado a tarde rolando na grama e brincando com sua filha.

- E então, - quis saber Fernanda – o que achou da loja?
- Linda, muito linda mesmo.
- Que bom que gostou. Eu dedico quase que todo o meu precioso tempo para deixa-la à altura dos clientes.
- É uma loja para a elite.
- Nem tanto. Temos produtos muito bons com preços não tão salgados assim. E trabalhamos muito a questão dos prazos, o que facilita e pesa bastante na hora de fazer uma compra.

Valquíria não pôde deixar de rir:

- Tu é mesmo uma comerciante em potencial. Conseguiu me convencer!
- Ossos do ofício – respondeu Fernanda sorridente.

Nesta feita ouviu-se uma batidinha discreta na porta, que logo em seguida entreabriu-se para a passagem da funcionária com uma bandeja. A mulher depositou-a na mesa de Fernanda:

- Obrigada, Lourdes, pode deixar que eu mesma sirvo.
- Com licença. – respondeu e retirou-se.
- Açúcar ou adoçante?
- Açúcar, uma colherinha só.

Fernanda serviu os cafés e continuaram a conversa.

- Onde tu trabalhavas antes de vir para esta cidade? – perguntou Valquíria curiosa.
- Sempre trabalhei no comércio. Na verdade sempre nesta mesma empresa.
- Coisa difícil de se ver.
- Não quando se nasce praticamente dentro dela.
- Como assim?
- O Magazine Libanês foi fundado por meu avô materno.
- Mas então... tu não és funcionária daqui, tu és a dona?

Fernanda riu:

- Mais ou menos, digamos que acionista. E gerente geral.

Valquíria começou a reparar naquele escritório, tinha realmente a cara de Fernanda. Ficou analisando a figura imponente à sua frente que sorvia o seu café com a classe de uma dama da nobreza britânica.

- Pensando no quê? – questionou Fernanda frente a expressão meditativa de Valquíria.
- Nada... só que, sei lá. Tava pensando porque é que tu trabalha tanto, afinal poderias pagar alguém para fazer o teu trabalho.
- Ledo engano, senhorita. Primeira lição do vovô Salim: "é o olhar do dono que engorda o gado"! Em investimentos desse porte, envolvendo abertura de filiais, principalmente em outro Estado, não dá para deixar por conta de outros, não. E eu gosto do que faço. Mas com certeza daqui há, mais ou menos, um ano já vai dar para ficar mais relaxada. É só uma questão de estabilizar a nova filial e pronto.

Valquíria estava prestando bastante atenção nas palavras de Fernanda e impressionou-se com a segurança com que sustentava suas posições. Era, de fato, uma mulher de negócios.

- Mas vale a pena ficar sozinha neste quase fim de mundo? Para quem veio de uma grande metrópole?
- Tudo vale a pena. Gosto de novas experiências.
- Mesmo que estejas sozinha?

Fernanda calou-se por um momento. De fato, por vezes sentia falta, não só da família, mas de uma companheira. Sentia falta do toque macio da pele de uma mulher, do cheiro doce e das carícias íntimas, do ficar junto, ir ao cinema, jogar cartas... Olhou para Valquíria e desconversou:

- E a nossa partidinha de canastra? Está de pé para amanhã?
- Está. Já comentei com a Dona Eda e com o Seu Arno e eles estão ansiosos pelo grande confronto!

Fernanda gargalhou.

- E qual vai ser o horário do embate?
- Lá pelas 21 horas, para dar tempo de eu sair do plantão com calma, tomar um banho, dar janta para Nina, supervisionar as tarefas da escola...
- Eu passo lá então nesse horário. Olha só, eu até já comprei as balas e as bolachas recheadas.

Ambas tiveram que rir.

- E a Nina, como vai?
- Ótima. Tem perguntado por ti.
- Porque você não a trouxe junto?
- É que eu vim direto do hospital, se passo em casa acabo me enrolando e não saio mais.
- Sei como é isso.
- Bom, eu não quero mais roubar o teu tempo, já vou indo. Muito obrigada pelo café.
- De nada. Mas você não me rouba tempo nenhum, muito pelo contrário, é um prazer encontra-la. Eu não tenho muitos amigos por aqui...
- Coincidência. Conheço um lote de gente, mas amigos mesmo... acho que só a Dona Eda e o Seu Arno.
- E agora eu.
- É. E agora tu. Mas então, eu já vou indo – disse Valquíria levantando-se.

Fernanda também se levantou, abrindo a porta do escritório para ela e acompanhando-a até a saída da loja. Na porta principal curvou-se dando um abraço em Valquíria e dois beijinhos nas faces:

- Obrigada novamente pela visita. Beijinhos na Nina.
- Vou dar sim, pode deixar. Até amanhã.
-Até.

Fernanda ficou observando enquanto Valquíria seguia a pé para casa. Seu caminhar era compassado e a calça justa deixava ver a silhueta de seu corpo pequeno e com curvas sedutoras. Fernanda sentiu um calor lhe subindo pelo corpo. Conhecia bem aquele sentimento, e sabia o que significava. Ficou preocupada. Foi trazida de volta à realidade pela voz de Lourdes:

- Podemos fechar as portas, dona Fernanda?
- Sim, sim, podem. Eu também já vou indo.