Por acaso a felicidade

Rose Angel

Contato: roseangelys@yahoo.com.br

março/2005

 

 

 

Na noite seguinte, após o expediente na loja, Fernanda passou no hotel, tomou seu banho, trocou de roupa e por volta das oito e meia saiu para a casa de Valquíria, resolvera ir a pé. A noite estava agradável e as primeiras estrelas já brilhavam no céu. Munida de uma sacola com o numerário simbólico Fernanda caminhou devagar passando pela praça, onde se deteve no quiosque e comprou uma garrafa de vinho branco. Carregava ainda nos braços um urso bege de pelúcia que comprara para Nina. Faltando cinco minutos para as nove horas chegou no portão da casa de Valquíria. Novamente foi Pipoca que a recepcionou, a princípio latindo e logo após abanando o rabo. Em seguida Valquíria abriu a porta e dirigiu-se até o portão, sorridente:

- Boa noite!
- Boa noite. Cheguei cedo?
- Não mesmo. Pontual. Vamos entrando. – disse Valquíria cumprimentando Fernanda com um abraço discreto e oferecendo-se para pegar a sacola que carregava. – deixa que eu te ajudo com a sacola.
- E a Nina?
- Terminando de tomar banho. Aquela lá esquece da vida dentro d’água.
- Ela sabe o que é bom! – respondeu Fernanda.

Valquíria conduziu Fernanda para dentro da residência. A casa não era muito grande, construção antiga, uma sala comprida com um corredor que possuía duas portas: a primeira era o banheiro, a segunda o quarto. No final do corredor era a cozinha, com uma porta nos fundos que dava para o pequeno quintal. O pé direito da construção devia medir mais de três metros de altura e o forro era de madeira envernizada. As paredes internas pintadas de branco conferiam um aspecto asseado à casa. Os móveis eram bem modestos e na cozinha havia um fogão antigo, vermelho, com um dos queimadores desativado, e uma pequena geladeira bege. No quintal havia duas laranjeiras, uma goiabeira e um abacateiro, do qual pendia um pneu suspenso por uma corda, que servia de balanço para Nina, invenções do Seu Arno. A casinha de Pipoca ficava nos fundos do quintal, embora a mascote ficasse presa dentro de casa quando Valquíria e Nina não estavam. Haviam muitas folhagens suspensas e em vasos no quintal. No muro de pedras uma trepadeira florida disputava espaço com um pe´de maracujá que ostentava pequenos frutos, ainda em formação.

Fernanda sentou-se na sala, colocando o urso a seu lado.

- Aceita um cafezinho? – perguntou Valquíria.
- Aceito sim.
- Aliás, tu comeu alguma coisa? – quis saber Valquíria - A janta está quentinha, se quiser eu te sirvo.
- Olha, posso ser sincera?
- Claro.
- Eu belisquei alguma coisinha na loja, mas já estou com fome. Vou filar a tua janta sim.
- Então vem cá. – disse Valquíria levando Fernanda até a cozinha. – dá uma espiadinha nas panelas e vê o que tu queres.

Fernanda, sem nenhuma cerimônia, levantou as tampas das panelas e sentiu o cheiro maravilhoso do feijão novinho, do arroz e da carne de panela. Reparou no vaso de violetas azuis no parapeito da janela basculante, bem em frente à mesa.

- Que maravilha. Esse cheirinho me lembra a comidinha da minha vó Ester.

Valquíria sorriu e alcançou um prato para Fernanda. Estendeu uma toalha de tecido xadrez marrom claro impecavelmente limpa na pequena mesa e colocou os talheres sobre ela. Abriu a geladeira e pegou uma vasilha com folhas de rúcula e de alface já lavadas. Colocou sal e azeite de oliva para temperar.

- Nossa, que delícia – exclamou Fernanda – desse jeito eu vou ficar mal acostumada. Faz meses que não como uma comidinha caseira, sabia?
- Pois sinta-se em casa para vir sempre que quiser. Mas eu não sou muito boa na cozinha não. Só sei fazer o básico mesmo.
- Mas está delicioso. Eu é que sou uma negação na cozinha. Até o meu ovo frito sai deformado.

Valquíria riu:
- É só uma questão de treino: fritar ovos é uma ciência! – brincou - Queres um suco de laranja? Ou limão?
- Água, por favor.

Valquíria serviu-lhe um copo de água gelada e sentou-se à mesa com ela, após servir um prato para si também. Ao longe, por detrás da porta do banheiro, escutava-se a conversa de Nina e suas risadas com os brinquedos que levara para o banho. Como em muitas casas antigas, havia uma banheira esmaltada e enorme no canto do recinto, bem debaixo do chuveiro. Nina adorava encher a banheira e ficava um bom tempo brincando na água. Saía dali quando Valquíria chamava ou quando percebia que suas mãozinhas já estavam bem murchas pela imersão. Em dado momento seus ouvidos captaram uma conversa na cozinha e percebeu que Fernanda já havia chegado. Tratou de enxugar-se e vestir-se e foi para junto delas. Abraçou Fernanda efusivamente:

- Oi... eu tava morrendo de saudades, sabia? – disse Nina teatralmente.
- Eu também. – respondeu Fernanda.
- Sente-se mocinha, que eu vou servir o teu prato.

Nina sentou-se ao lado de Fernanda e tratou de devorar sua janta. Estava com fome. Quando terminaram foi Nina quem recolheu os pratos e colocou um banquinho em frente à pia para lavá-los, ante o olhar atento de Fernanda.

- Deixa que eu lavo os pratos – disse Fernanda.
- Não mesmo – respondeu Nina – Tu é visita, e visita não lava a louça. E a louça da janta é atividade minha.
- Então eu seco.
- Não precisa. A gente deixa no escorredor e depois é só guardar amanhã de manhã. Mas se tu queres fazer alguma coisa pega aquela latinha ali, ó... – disse Nina apontando para uma prateleira baixa – e coloca a ração no prato da Pipoca que está do lado de fora da porta.

Fernanda assentiu e fez o que Nina havia lhe pedido. Valquíria terminou de tirar a mesa e foram para a sala. Quando Nina avistou o urso no sofá seus olhinhos brilharam e olhou rapidamente para Fernanda.

- Eu trouxe pra ti. Espero que goste.

Nina pulou e abraçou Fernanda.
- Adorei!!!

Soltou Fernanda e correu abraçando seu urso de pelúcia.

- O nome dele vai ser Fernando. – disse Nina.
- Nina! Por favor... – disse Valquíria.
- Belo nome! – respondeu Fernanda. – Aliás esse urso tem cara de Fernando mesmo.

Valquíria balançou a cabeça, desistindo de argumentar.

- Mas então, vamos ao nosso joguinho? – perguntou Valquíria.
- Vamos lá.

Nina correu na frente levando seu Fernando nos braços. Fernanda pegou sua sacola com as guloseimas e o vinho e seguiu Valquíria. Elas fizeram a volta pela frente do pátio e entraram na casa ao lado, cuja parede fazia divisa com a que ocupavam.

Já passava das nove e meia e o casal já as aguardava.

- Seu Arno, Dona Eda, esta é Fernanda, a amiga da qual eu falei.
- Muito prazer – disse Fernanda.
- O prazer é todo nosso! – exclamaram – Por favor fique à vontade, a casa é sua.
- Obrigada. Eu trouxe um vinho branco, não sei se vocês gostam.
- Eu gosto muito! – respondeu Seu Arno. – Mas não precisava se incomodar.
- Ora, não foi incômodo algum, muito pelo contrário.
- Mas então vamos ao nosso joguinho – disse Dona Eda apontando para a mesa que já estava preparada com uma toalha verde escuro e um baralho novinho no centro.

Numa cadeira ao lado Fernanda avistou pacotes de balas e bolachinhas. Não pode deixar de sorrir. Ligaram a televisão e colocaram uma fita com um desenho animado que haviam locado para distrair Nina. Esta aninhou-se no sofá, abraçou seu urso e começou a ver televisão. Realmente era uma criança que não incomodava em nada. Sabia perfeitamente diferenciar a hora de brincar e a hora de aquietar-se para não perturbar os adultos. "Coisa difícil de se ver hoje em dia", pensou Fernanda. A noite transcorreu muito agradável. Jogaram até quase três horas da manhã. Fernanda e Valquíria fizeram uma boa dupla e no final computaram mais guloseimas do que haviam levado inicialmente. No entanto resolveram deixa-las por lá mesmo, uma parte para Nina e a outra para o jogo da sexta-feira seguinte, para o qual foram intimadas pelo casal. Eles eram extremamente simpáticos. Não tinham filhos, tinham uma única sobrinha que havia ido para a Alemanha estudar, casara por lá e não retornara mais ao Brasil, a não ser para ocasiões de visitas. Portanto o casal ficava muito solitário. Para amenizar a situação ajudavam a cuidar de Nina e participavam das atividades do grupo de terceira idade, no projeto mantido pela prefeitura local. Nina já havia adormecido há muito tempo. Quando Valquíria quis acorda-la para ir para casa Fernanda disse que a levaria no colo. Pegou a menina com facilidade, levando-a até sua casa e colocando-a em sua cama.

- Queres ficar aqui? – perguntou Valquíria – é muito tarde.
- Não dá. Amanhã tenho que estar na loja cedo.
- Mas tu vieste a pé?
- E o que é que tem isso? Volto a pé.
- Mas é perigoso.
- Eu sei me cuidar, não se preocupe.
- Então me liga quando chegares no hotel. – disse Valquíria pegando um bloquinho de rascunho e anotando o número de seu telefone.
- Tudo bem. Deixa eu anotar os meus números pra ti também, do hotel, da loja e celular. – respondeu Fernanda pegando também uma folha do bloco.
- Fernanda...
- O quê?
- Obrigada pela companhia.
- Eu que devo agradecer.
- E obrigada pelo carinho com a Nina.
- Isso é mérito dela. Ela é uma criança muito afetiva e cativante.
- Mas mesmo assim. Obrigada. E me liga quando chegar.
- Ligo sim. E vê se aparece na loja durante a semana.
- Pro cafezinho?...
- É, pro cafezinho.
- Vou fazer o possível, mas se não der nos vemos na próxima sexta. Te esperamos para o jantar.

Fernanda sorriu afetuosamente. Elas se despediram e Fernanda seguiu a pé para o hotel, tendo a noite estrelada como pano de fundo para suas divagações. Tão logo entrou em sua suíte ligou para Valquíria.

- Pode dormir tranqüila, meu anjo da guarda, que eu já cheguei. Sã e salva.
- Ótimo. Durma com Deus – disse Valquíria.
- Igualmente.

"E pretendo sonhar com os anjos", pensou Fernanda após desligar o telefone, "aliás com um belo anjo da guarda".

Os próximos dias transcorreram normalmente, sendo que Valquíria marcou todos os plantões extras noturnos possíveis, em função dos gastos a mais de final de ano, tais como presentes de Natal, rematrícula de Nina, etc. Só evitou trabalhar nas sextas-feiras, pois não queria deixar seus parceiros de jogo na mão. Na verdade, não queria perder a oportunidade de encontrar Fernanda, na qual estava pensando com muita freqüência durante o dia.

Na quinta-feira, véspera do segundo jogo de sua nova parceria, Fernanda estava em seu escritório quando Lourdes bateu à porta e disse:

- Dona Fernanda, com licença...
- Sim?
- Tem visita para a senhora.

Os olhos de Fernanda brilharam, imaginando quem estaria à sua procura, provavelmente para tomar um cafezinho. Antes que pudesse levantar de sua cadeira uma cabeleira encaracolada enfiou-se através da porta e de Lourdes, espiando para dentro do escritório.

- Oizinho... adivinha quem veio te visitar?...

Fernanda abriu os braços, sorridente, convidando Nina para um abraço afetuoso. A menina correu até ela, grudando-se em seu pescoço e sendo levantada do chão. Passou as pernas ao redor da cintura de Fernanda, como um filhote de primata se agarra à mãe. Estava com o uniforme do colégio e tinha sua mochila cor-de-rosa presa às costas. Fernanda ficou olhando para a porta, na expectativa da entrada de Valquíria. Nina percebeu o olhar de Fernanda e disse:

- A Val não veio, eu vim sozinha!
- Sozinha??? Como assim? E ela sabe disso?
- Calma... Sozinha, sozinha não. A dona Eda me trouxe, mas ficou lá na loja olhando os tarécos de cozinha. Aí aquela moça me trouxe aqui. É que eu pedi pra passar aqui porque precisava te trazer uma coisa...
- O que é? – perguntou Fernanda curiosa, colocando Nina no chão.

A garota sentou-se na cadeira em frente, colocou sua mochila no colo e abriu o fecho do bolso externo. Retirou uma folha de papel cuidadosamente dobrada e a estendeu à Fernanda, ostentando um sorriso de orelha a orelha. Fernanda verificou tratar-se de um convite para uma apresentação de flauta doce, no anfiteatro de sua escola, que se realizaria dentro de duas semanas, numa sexta-feira.

- E então? – Perguntou Nina com ansiedade – Tu vai poder ir? É na outra sexta-feira, sem ser amanhã.
- Com toda a certeza, eu jamais perderia um espetáculo da minha artista preferida.

Nina começou a pular de felicidade.

- Ôba, ôba, ôba...

Fernanda teve que rir frente à explosão de alegria da menina.

- Escuta, a Valquíria não vai passar aqui hoje?
- Acho que não, ela tem plantão hoje à noite. A Dona Eda me pegou na escola e eu vou dormir na casa dela. Amanhã tu vai jantar lá em casa, né? A Val disse que tu vai. Ela até já passou no supermercado e comprou um monte de coisas pra janta, tem até sorvete de sobremesa.
- Quanta honra. Com toda essa gentileza eu não poderia deixar de ir, não é mesmo?
- É.

Nesse momento a porta do escritório se abriu vagarosamente e uma voz conhecida disse:

- Com licença... estou procurando uma mocinha que não me esperou... – disse Dona Eda em tom de brincadeira.
- Boa tarde, querida. – cumprimentou Fernanda levantando-se para abraçar a velha senhora.
- Mas a senhora ia demorar muito, eu sei que gosta de ficar vendo enfeites, e panelas, e vasos, e tudo. – justificou Nina.
- Tá bom... e então, Fernanda, pronta para amanhã?
- Prontíssima.
- Nosso joguinho vai ser na casa da Valquíria, ela me falou que quer fazer uma jantinha antes.
- Por mim tudo bem.
- Vamos indo então, Nina?
- Ahaaa... a gente recém chegou... – protestou Nina.
- Mas aqui não é lugar de visita, é lugar de trabalho, e a gente está atrapalhando a Fernanda.
- Não estão, não, Dona Eda. Amigos não atrapalham. – respondeu Fernanda cordialmente – eu já estou quase acabando meu expediente mesmo hoje.
- Mas eu tenho que ir para casa atender o Arno, ele gosta de tomar um café com leite nesta hora.
- Escuta, Nina poderia ficar aqui comigo mais um pouco? Depois eu a levo até sua casa, sei que ela vai dormir lá hoje, não é mesmo? – questionou Fernanda.
- Eu não sei, não perguntei para a mãe dela...
- Por favor, Dona Eda... – pediu Nina – eu prometo que me comporto... e a minha mãe ia deixar sim, eu sei.
- Está bem... mas as sete e meia eu a quero em casa, para jantar e dormir cedo. Amanhã é dia de aula.
- Pode deixar que eu serei pontual – disse Fernanda – eu só vou leva-la para tomar um sorvete.

Nina saltitou novamente de felicidade.

- Me dá a tua mochila que eu levo pra casa – pediu Dona Eda.

Nina estendeu sua mochila e deu um beijo na velha senhora:

- Obrigada Dona Eda!

Dona Eda era uma senhora alta, cerca de 1,75m, pele clara e olhos azuis esverdeados. Era bem gorducha e suas faces eram avermelhadas. Já o Seu Arno devia medir 1,60, se muito, e era bem magrinho, quase um "pau de virar tripas". Era engraçado vê-los passear de mãos dadas, devido à desproporção entre os tipos físicos. Mas estavam sempre juntos, e dançavam sem maiores constrangimentos nos bailes da terceira idade dos quais participavam. Seu Arno era um piadista nato e não perdia uma oportunidade de fazer uma anedota envolvendo sua mulher. Nina gargalhava toda vez que Seu Arno dizia: "não posso arriscar de deixar a Eda irritada, senão ela senta em cima de mim e eu viro uma panqueca!". Ao que Nina respondia: "íííí, seu Arno, lá vem a dona Eda... e eu acho que ela tá braba!".

Dona Eda foi para casa, caminhava compassadamente devido ao seu peso. Pensava pelo caminho: "acho que a Valquíria não vai ficar chateada de eu ter deixado a Nina ficar um pouco com a Fernanda, afinal é amiga dela, até já convidou para ir em casa, e quando a Valquíria convida alguém para ir em casa é porque é gente de confiança, eu conheço aquela menina. E a Fernanda parece ser uma boa moça, trabalhadora, de família, uma boa companhia pra Valquíria que anda sempre tão sozinha, não se diverte, é só do trabalho pra casa e da casa pro trabalho...".

Fernanda tratou de terminar rapidamente seu serviço pendente enquanto Nina esperava por ela sentada numa poltrona no canto do escritório. Ficou esperando em silêncio para não atrapalhar Fernanda, sendo que observava atentamente seus movimentos e sua conversa ao telefone com alguns fornecedores. Quando Fernanda finalmente desligou o telefone e olhou para Nina com uma expressão de quem estava pronta para sair, a menina lhe disse:

- Quando eu crescer quero ser gerente de loja, igual a ti.

Fernanda riu e perguntou:

- E posso saber porquê?
- Porque é legal, e porque eu gosto de falar no telefone, e porque a gente usa roupas legais. Eu queria ser médica, mas eu tenho nojo de sangue, e de curativo. Então eu decidi ser gerente de loja! E jogadora de futebol, nas horas vagas.

Fernanda sorriu afetuosamente frente ao projeto de vida de Nina:

- E querer é poder, sabia? – disse Fernanda.
- A Val já me disse isso.
- Mas, vamos ao nosso sorvete?
- Vamos!!! – respondeu Nina levantando-se num pulo.

Fernanda pegou sua bolsa, deu a mão à Nina e ambas saíram em direção à rua. Ainda dentro da loja Fernanda dirigiu-se a um funcionário:

- Eu vou sair mais cedo hoje. Qualquer problema estou no celular. Mas, por favor, só se for urgente, ok? Caso contrário eu resolvo amanhã.
- Pode deixar, dona Fernanda. Um bom descanso.
- Obrigada e igualmente.
- Tchauzinho garotinha bonita. – disse o rapaz para Nina.
- Nina. Meu nome é Nina. E tchauzinho pra ti também. – respondeu acenando.

As duas passaram rapidamente no hotel, onde Fernanda trocou de roupa, colocando uma vestimenta mais confortável. Esse era um de seus maiores prazeres: trocar a roupa de executiva por um agasalho esportivo e um par de tênis. Depois foram caminhando na direção da sorveteria. No caminho passaram por uma banca de revistas, pois Fernanda queria comprar uma revista de palavras cruzadas, um de seus passatempos preferidos. Nina foi direto na seção de livros infantis. Apesar de estar somente semi-alfabetizada adorava livros.

- Escolhe um livro pra você, Nina.
- Mas eu não tenho dinheiro...
- Eu quero te dar de presente.
- Não precisa...
- Mas eu faço questão.
- Então tá! – respondeu Nina alegremente escolhendo um livro de capa dura com a história de um cruzeiro de navio repleto de animais. – Pode ser qualquer um?
- Pode.
- Então eu quero esse aqui. – disse estendendo o livro para Fernanda – não é muito caro?

Fernanda sorriu e respondeu:

- Você podia ser neta do meu avô Salim, sabia?
- Porquê???
- Sempre preocupada em conter os gastos...
- Mas a Val me diz sempre que não dá pra gente comprar tudo o quer, tem que levar só o que o dinheiro dá.

Fernanda se abaixou e abraçou Nina afetuosamente:

- Mas esse livro dá pra levar, sim, ok?
- Ok! – respondeu Nina sapecando um beijo estalado na face de Fernanda.

Fernanda pagou a conta e elas seguiram para a sorveteria, instalando-se numa mesa em frente à porta, de onde podiam observar o movimento da calçada. Nina pediu um sorvete de morango e pistache, com cobertura de chocolate granulado. Fernanda pegou o de sempre, chocolate.

- Eu A-DO-RO sorvete, sabia???!!! – disse Nina.
- Imaginava... – sorriu Fernanda.
- A Val também gosta. Ela gosta de sorvete de uva, acho que é por causa da cor.
- Realmente é uma cor bonita. A do pistache também.
- Pois é. Fernanda... posso te pedir uma coisa?...
- Pode. O quê?
- Tu vai na minha formatura do pré?
- Huuummm... talvez... – respondeu Fernanda – se é que eu vou receber um convite.
- Claro que vai! – respondeu Nina com os olhos brilhando de felicidade – Eu só não sei ainda o dia. Eu já perguntei, mas a minha professora ainda vai marcar. Eu já passei de ano, a professora já falou pra minha mãe. Eu quase já sei ler. Sei fazer o meu nome, o nome da minha mãe e o teu.
- O meu? – surpreendeu-se Fernanda.
- O teu! Quer ver? Tem uma caneta aí contigo?
- Não, mas isso não é problema. – respondeu Fernanda levantando-se e pedindo uma caneta no balcão.

Pegou um guardanapo e estendeu para Nina junto com a caneta. Nina empurrou o sorvete para o lado e começou a desenhar o nome de Fernanda. Ao terminar estendeu o guardanapo solenemente para a amiga. Fernanda percebeu que realmente ela sabia escrever seu nome e sem saber porque se emocionou com aquilo. Aquela grafia infantil encantou seus olhos e pôde perceber o carinho e a admiração que Nina tinha por ela. Olhou carinhosamente para a criança e disse:

- Que letra linda... e você sabe mesmo escrever o meu nome.
- Eu não te disse? Eu pedi pra professora me ensinar. Gosto de saber escrever o nome de quem eu gosto. Também sei fazer Eda, Arno e Pipoca.
- Que ótimo! – riu Fernanda – Mas agora toma o resto do sorvete, senão vai derreter.
- Iiiii... é mesmo!

Fernanda dobrou cuidadosamente o guardanapo e o guardou no bolso de seu agasalho. Olhou para Nina e impressionou-se com a capacidade daquele pequeno ser de fazer com que ela se sentisse responsável pelo que havia cativado, assim como o Pequeno Príncipe. Após o sorvete ainda deram uma volta na praça, onde Nina andou de balanço e brincou no escorregador, sob o olhar atento de Fernanda. Um pouco antes das sete e meia Fernanda entregou Nina na casa de dona Eda, conforme o combinado. Encontrou a referida senhora às voltas com o marido que teimava em querer continuar sentado na rua.

- Mas Arno, já está caindo sereno, depois fica resfriado!
- Mas eu quero ver a lua, Eda! Vem aqui também, assim a gente namora um pouquinho...
- Olha as meninas, Arno! Não diz semvergonhices!

Tanto Nina quanto Fernanda tiveram de rir da cena, principalmente do rubor das faces de dona Eda.

- Esse Arno é teimoso como ele só... – reclamou dona Eda.
- Tá bom, tá bom! Para fazer a minha Edinha feliz eu entro em casa... mas só se eu ganhar um beijinho.

Dona Eda deu um tímido beijinho na testa do marido e este se levantou sorridente de onde havia se instalado para observar o nascente da lua em quarto crescente. Fernanda se despediu e voltou para o hotel, deixando Nina que ficou no portão lhe acenando enquanto não dobrava na esquina da rua principal. No caminho se deu conta que estava se afeiçoando àquela garotinha, mais até do que imaginava. Sentia vontade de ficar mais tempo com ela. E com a mãe dela também.

No dia seguinte Fernanda tratou de telefonar para o hospital e perguntar à Valquíria se ela queria uma carona na saída de seu plantão, afinal gostaria de ir cedo para ajuda-la a preparar a janta.

- Mas não precisa se incomodar. Eu preparo tudo sozinha. Aliás, a senhorita disse que não sabe nem fritar ovos... – respondeu Valquíria.
- Mas sei lavar as verduras e coloco a mesa como ninguém.
- Bom, nesse caso te espero na saída do hospital, lá pelas sete e quinze.
- Combinado. – respondeu Fernanda, desligando o telefone.

Ficou recostada em sua cadeira de trabalho, com o olhar fixo no vazio e pensando em Valquíria. Ela era uma pessoa meiga, extremamente dócil, e ao mesmo tempo conseguia ser firme e persuasiva quando as situações assim o exigiam. Era de fato uma mulher especial. E bela, muito bela.
Pontual como sempre Fernanda aguardava Valquíria em frente à porta principal do hospital, um pouco antes da mesma aparecer na portaria. Valquíria embarcou no carro de Fernanda e elas foram para a casa da primeira, onde Nina já as aguardava ansiosamente, de banho tomado, vestida e penteada, como uma pequena lady. Ao ouvir o barulho do carro correu para o portão, para recebe-las, chegando antes mesmo de Pipoca. Dona Eda já estava lá também e assistia à sua novela na TV da sala. Seu Arno viria mais tarde, depois de arrumar o liquidificador da esposa, o qual havia desmontado e agora sobravam peças. Nina ficou na sala com Dona Eda e Fernanda ajudou Valquíria na cozinha, depois dela tomar um banho e mudar o uniforme do hospital. O cardápio era uma massa caseira com molho branco e frango assado no forno, com saladas verdes, alface, rúcula e radite. Enquanto Valquíria preparava os pratos quentes Fernanda se distraía lavando as verduras e arrumando a mesa. Conversavam animadamente:

- Quer dizer que a Nina te fez uma visita ontem? Essa menina está ficando passadinha.
- Deixa ela, fiquei contente. – respondeu Fernanda.
- A primeira coisa que ela me contou foi sobre o sorvete que vocês tomaram ontem.
- Pois então... você não ficou chateada de eu ter ficado um pouco com ela, ficou?
- Não, de forma alguma. A dona Eda veio cheia de explicações, mas não fiquei chateada não, muito pelo contrário. Nina acaba ficando muito sozinha. Eu sei que sou muito exigente com ela, não sou de deixar ficar indo em casa de colegas, enfim, como eu não tenho tempo de acompanhar de perto prefiro que ela fique em casa. Mas contigo é diferente...
- Diferente?...
- É, eu te conheço... e confio em ti.
- Muito obrigada. Apesar da gente se conhecer ha pouco tempo eu já gosto bastante dessa menina. – disse Fernanda.

Valquíria se virou para Fernanda encarando-a e disse:

- Eu sei. E ela gosta de ti também, muito.
- E a mãe dela? – disparou Fernanda à queima roupa, também encarando Valquíria nos olhos.

Valquíria sentiu o coração disparar e percebeu a sutileza nas entrelinhas da pergunta de Fernanda. Em outra situação ficaria desconcertada, mas naquele momento reagiu desconhecendo-se. Manteve o olhar em Fernanda e respondeu com um sorriso enigmático:

- O que é que tu acha?

Desta vez foi Fernanda quem se surpreendeu com Valquíria e antes que pudesse formular uma resposta Nina irrompeu na cozinha:

- Tô com fome!

As duas mulheres recuperaram a linha e Valquíria respondeu:

- Tá quase pronto, meu amor. Pode ir lá chamar o Seu Arno. Diz pra ele que daqui a quinze minutinhos a gente janta.
- Tá bom. – respondeu Nina e saiu correndo da cozinha.

Valquíria voltou a sua atenção para o molho novamente, que quase havia queimado no fundo da panela. Fernanda deu mais uns retoques na mesa e questionou:

- E então? Tá legal a arrumação desse jeito?

Valquíria observou a mesa com um olhar inquiridor e depois de certo tempo disse:

- Ótimo! Está contratada como copeira dessa residência!

Ambas tiveram que rir.

- Você tem um sorriso lindo, sabia? – disparou novamente Fernanda.
- Pára com isso, senão eu fico convencida.
- Mas é verdade. Aliás, você É uma pessoa linda. Nina não poderia ser diferente sendo educada por você.
- Fernanda, pára com isso. Tô ficando sem jeito.
- Mas é verdade Val. Acho que existem poucas pessoas no mundo como você. Eu pelo menos conheci bem poucas, sabia?
- Ah, tá! – respondeu Valquíria. – Mas tu também é diferente.
- Diferente como?
- Diferente. Tu é uma pessoa que tem uma família rica e mesmo assim trabalha, e vem aqui em casa e fica à vontade como se estivesse na tua.
- E não deveria?...
- Claro que deveria, mas é que... eu te vi na loja, eu vi a executiva, a acionista, a mulher de negócios. As pessoas te tratam com cerimônia. E aqui em casa eu vejo uma outra Fernanda... uma Fernanda que passou horas brincando com uma menina que mal conhecia... que não se importa em conviver com uma pessoa que não tem nada e nem ninguém...
- Tem sim, tem uma filha maravilhosa que é um encanto graças a ela.

Valquíria baixou os olhos. Fernanda continuou:

- Tudo nesta vida tem um porquê. E eu com certeza estou muito feliz de ter ficado doente, afinal assim eu conheci vocês duas, e a dona Eda e o Seu Arno, e a Pipoca.

Valquíria sorriu:
- Grande achado!
- Grande mesmo...

Neste momento ouviram conversas na sala. Era o Seu Arno que vinha chegando. Valquíria serviu o jantar que foi elogiadíssimo por todos. Logo após Nina foi ver televisão e as duplas foram para o joguinho de canastra tão esperado. Naquela noite o Seu Arno e a Dona Eda ganharam disparados. Talvez porque as adversárias estivessem bastante distraídas e não raras vezes ficavam trocando olhares como que tentando adivinhar o que a outra pensava. E o que menos tentavam imaginar eram as cartas que cada uma tinha nas mãos...

Naquele final de semana Valquíria trabalhou no sábado e no domingo, e durante a semana que se seguiu também não teve tempo de passar na loja. Na quarta-feira foi Nina quem conseguiu convencer dona Eda a passar com ela na loja após a escola, para reforçar o convite de sua apresentação de flauta que seria dali ha dois dias.

- Tu não esqueceu do meu concerto, esqueceu? – quis saber Nina.
- De forma alguma. Esse compromisso já está marcado na minha agenda. – respondeu Fernanda solenemente.

Nina sorriu satisfeita.

- Hoje eu não posso demorar. A dona Eda não queria passar aqui, mas eu falei que era só um minutinho, e que era importante. Aí ela deixou, e já ficou lá na loja bisbilhotando as novidades. Além do mais eu prometi pro Seu Arno que eu vou com ele na Floricultura, para escolher os pinheirinhos de Natal.
- De Natal? Mas ainda estamos na primeira quinzena de novembro, falta muito tempo para montar a árvore.
- Mas como a gente usa pinheiro de verdade ele gosta de ir bem cedo e escolher os mais bonitos. Depois do Natal ele planta as mudas por aí. Ele me falou que já plantou mais de duzentos!
- Mas ele não passou por tantos Natais assim... – sorriu Fernanda.
- Não... mas ele planta mesmo quando não é Natal. Ele me contou que na terra dele tinha muitos pinheiros, por isso ele gosta deles.
- Aha... entendi.
- Eu gosto mesmo é de arrumar a árvore. Sou eu quem bota a estrela no topo!

Fernanda sorriu para Nina e a abraçou afetuosamente. Por momentos relembrou sua infância, e os Natais em sua casa, onde a criançada acabava sempre brigando por causa da estrela. E sempre era ela quem conseguia ser erguida no colo e colocava o símbolo máximo no topo da árvore. Sentiu uma ponta de melancolia e se deu conta de que estaria sozinha naquele ano, pois seria impossível deixar o trabalho naquela época. A loja iria funcionar até as 21:00h do dia vinte e quatro de dezembro. Provavelmente seria o dia em que as vendas atingiriam o pico do mês. Não teria como ir para casa de seus familiares. E seria o último Natal daquele milênio. Como que captando os pensamentos de Fernanda, Nina lhe perguntou:

- Tu vai pra casa da tua mãe no Natal?
- Não... não vai dar, vou ficar por aqui mesmo.
- E onde tu vai passar o Natal?
- Trabalhando...
- Não... quero saber depois do trabalho.
- Ainda não sei.
- Então por que é que tu não passa o Natal com a gente? – convidou Nina sorrindo – Lá em casa é bem legal! O Seu Arno se veste de Papai Noel, mas eu sei que é ele. – riu Nina – porque ele é muito magricelo e a barriga postiça fica caindo. Mas eu finjo que não sei que é ele, assim ele fica bem contente. Eu gostaria que tu fosse passar com a gente.
- Não sei...
- Não sabe o quê?
- Eu não gostaria de incomodar.
- Mas tu não incomoda! E a Val vai ficar contente se tu for.
- Mas ela nem imagina que você está me convidando.
- Mas ela gosta de ti.
- Ela falou isso?
- Não falou mas eu sei. Ela gosta.
- Bom, eu vou pensar, ok? Vamos combinar assim: a gente não fala nada pra Val e se ela convidar eu vou.
- Mas na minha apresentação tu vai, né?
- Vou, eu já disse que vou.
- Então tá. – disse Nina levantando-se e pegando sua mochila que estava no chão ao lado da mesa de trabalho de Fernanda – eu já vou indo. A gente se vê na sexta-feira.
- Até lá.

Fernanda se abaixou e abraçou Nina que lhe envolveu o pescoço carinhosamente repousando sua cabeça no peito de Fernanda enquanto passava a mãozinha por uma mecha de cabelo negro. Levantou o rosto e deu um beijo afetuoso na face de Fernanda. Abriu a porta e ainda virou-se para acenar um tchauzinho através do vão da porta. Fernanda permaneceu pensativa. De repente todo seu ímpeto de liberdade e independência sentia-se relegado a segundo plano, cedendo lugar a uma vontade de novamente passar um Natal em família, e o que era mais perturbante, junto a uma família que não era a sua.